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9 de agosto de 1978 Começa
a explosão
Altos funcionários
do governo do Chile são acusados de homicídio em Washington.
O caso Letelier dispara em múltiplas direções Na
tarde da última terça-feira, Eugene Propper, de 31 anos, um dos
161 procuradores da Justiça dos Estados Unidos em Washington, deu por terminada
a primeira etapa da mais importante missão que já recebeu em seus
seis anos de carreira. Carregando uma pasta de couro e vestindo, como sempre,
terno e colete, Propper saiu de sua sala, no 5º andar do vetusto edifício
da Corte Distrital da capital americana, e dirigiu-se para um sóbrio gabinete
de paredes revestidas com lambris de madeira e mármore avermelhado, situado
dois andares abaixo. Ali, na presença
de 23 membros do Grande Júri, de três agentes do Federal Bureau of
Investigations (FBI) e de uma compacta platéia de jornalistas, o jovem
promotor entregou ao juiz federal William Brant um documento de 23 páginas
contendo as conclusões de 22 meses de investigações por ele
conduzidas sobre o assassínio do exilado chileno Orlando Letelier, ex-chanceler
do governo de Salvador Allende, e da americana Ronni Moffitt, sua companheira
de trabalho - ocorrido na manhã do dia 21 de setembro de 1976, quando uma
bomba explodiu sob o Chevelle Malibu dirigido por Letelier, em pleno centro de
Washington. Restava a Propper cumprir apenas mais uma formalidade: pedir ao juiz
Brant a prisão preventiva das quatro pessoas que ainda estavam soltas,
entre as sete indiciadas no documento por crime de homicídio premeditado.
RAPIDEZ - Foi o que Propper fez. No final.
um dos agentes do FBI que atuou na investigação. Carter Cornile,
disse a Roberto Garcia, correspondente de VEJA em Washington: "Solucionar
esse mistério era muito importante para a segurança nacional dos
Estados Unidos. Não podemos permitir que se pense que é possível
vir a Washington e estourar os miolos de um ex-chanceler impunemente". Entre
os indiciados, como já se esperava, figuravam os nomes de três oficiais
do Exército do Chile: o general da reserva Juan Manuel Contreras Sepúlveda,
chefe, na época do crime, da polícia política chilena, a
hoje extinta Dina - Dirección de Inteligencia Nacional; o coronel Pedro
Espinoza Bravo, ex-chefe de operações da mesma Dina; e o capitão
Armando Fernández Larios, ex-agente da organização. Além
destes, Propper solicitou também ao juiz a detenção do exilado
cubano anticastrista José Dionisio Suárez Esquivel. A
partir daí as coisas tramitaram com incrível rapidez. Apenas poucas
horas mais tarde, o ministro-conselheiro da embaixada dos Estados Unidos em Santiago,
Charles Grover, entregava ao governo chileno uma nota em que, invocando um tratado
de extradição firmado entre os dois países em 1902, pedia
a imediata prisão dos três oficiais chilenos. E, ainda na noite da
terça-feira - relata o enviado de VEJA a Santiago, Ricardo A. Setti -,
o Serviço de Relações Públicas do Exército
chileno divulgava um comunicado dando conta de que o pedido da Justiça
americana fora atendido. NA MANSÃO
- Tratava-se, sem dúvida, de um acontecimento extraordinário. Ninguém
menos que o antigo chefe da polícia secreta do regime militar chileno,
um homem que durante quase quatro anos exerceu enorme influência e poder
no próprio cerne do governo, que se reportava e recebia ordens diretamente
da Junta Militar, era envolvido num escândalo de proporções
watergateanas - ou maiores ainda. Como no caso Watergate, que levou à renúncia
do presidente Richard Nixon em 1975, um inquérito, por sinal também
iniciado num tribunal distrital de Washington, conduzia à descoberta de
atos criminosos praticados por pessoas instaladas no mais alto nível de
governo um país. Com uma agravante: aqui, lugar de simples violações
dos arquivos de um partido político rival, havia dois cadáveres.
Obviamente, mesmo após a prisão
ex-chefe da Dina - colocado sob custódia militar em sua mansão cercada
por altas grades de ferro, na Calle Príncipe de Galles 7045, bairro de
La Reina, em Santiago -, uma pergunta da fica no ar: o caso Letelier vai parar
no general Contreras? Pode ser que não. Para começar, o próprio
documento da Justiça americana que indiciou os responsáveis pela
morte de Letelier levanta a hipótese de Contreras ter tomado a decisão
de eliminar o ex-chanceler chileno "juntamente com outras pessoas".
Por outro lado, sendo a Dina "uma organização militar diretamente
dependente do governo da Junta Militar", conforme o texto da lei que a criou
em 1974, parece pouco provável que uma operação desse porte
fosse desencadeada por Contreras sem o conhecimento ou a anuência de seus
superiores. Além disso, sabe-se que Contreras era, pelo menos até
a época do crime, um amigo íntimo e homem de absoluta confiança
de Pinochet. "HALDEMAN" - Que
fará Pinochet? Na manhã da quarta-feira passada, o presidente chileno,
em entrevistas com jornalistas, mostrava-se inabalável. "O problema,
agora, está nas mãos da Justiça", afirmou ele, olimpicamente.
"Os Estados Unidos nos pediram para prender três oficiais do Exército
e nós os prendemos. Se no prazo de dois meses eles não nos apresentarem
provas convincentes, os homens serão libertados." No dia seguinte,
porém, Pinochet já parecia na defensiva - preocupado em marcar suas
distâncias com relação a Contreras. "Não tenho
nenhum vínculo familiar com o general Contreras, como estão afirmando",
protestou ele diante dos jornalistas. "Tampouco alguém pode sustentar
que Contreras era meu conselheiro, pois não tenho conselheiros, mas colaboradores."
As declarações do presidente
chileno deixam entrever sua estratégia: procurar circunscrever a responsabilidade
pelo crime a seu antigo colaborador. E, também aqui, são inevitáveis
as comparações com Watergate. Outra coisa não estava fazendo
Nixon, por exemplo, ao tomar a decisão de demitir seu até ali todo-poderoso
chefe da Casa Civil, Bob Haldeman, e outros três altos funcionários,
num momento em que as investigações sobre seu governo tomavam um
curso definitivamente envenenado. Contreras, por sinal, na semana passada estava
sendo chamado em Washington - uma cidade tão familiarizada com esse gênero
de desgraça política - de "o Haldeman de Pinochet". FALSAS
PISTAS - Como pôde o caso Letelier despencar para o rumo de horrores em
que enveredou? A situação atual parece espantosa. Ainda mais se
comparada aos primeiros tempos da investigação, logo após
o assassínio, quando tudo parecia caminhar da melhor maneira possível
para o regime chileno. De fato, em Santiago, nessa época, ninguém
teria o que temer. Pinochet chegou a repetir, mais de uma vez, que seu governo
nada tinha a ver com o crime. Em sua opinião, tratava-se de "um simples
caso de polícia, talvez até de um acerto de contas entre grupos
rivais de exilados". Não havia
razões, nesse alvorecer do Caso Letelier, para temer nada de mau partindo
de Washington. Os chilenos sabiam que a CIA e o próprio FBI, com os quais
a Dina sempre teve as melhores relações, não tinham motivos
para dedicar às investigações nenhum empenho especial. Inclusive,
alguns dos cubanos envolvidos no crime exibiam em suas folhas de serviços
alguns favores antigos prestados à CIA. Assim, foi natural que, no começo,
a Justiça americana caminhasse às cegas, atravancada em seu avanço
por certas pistas que não eram aprofundadas, ou, ao contrário, por
outras que ameaçavam enveredar pelo reino puro da fantasia. Foi assim que
certos jornais chegaram a receber a informação de que Letelier seria
um espião a serviço de Cuba. Por outro lado, num lance ainda mais
ousado, houve quem sugerisse a hipótese de crime passional - com bomba
e tudo, um carro voando pelos ares e mesmo considerando que a vítima era
um ilustre ex-chanceler, de notória militância política. PASSAPORTES
- Outro foi o rumo tomado pelas investigações, porém, a partir
do segundo semestre do ano passado - e certamente, para essa mudança, terá
contribuído o novo clima criado em Washington pela política de direitos
humanos do presidente Jimmy Carter. Os investigadores passaram a apontar para
a direção certa, as descobertas começaram a se suceder. Até
que, em março passado, deu-se um acontecimento decisivo: a partir de certos
passaportes falsos que se encontravam esquecidos no consulado americano em Assunção,
no Paraguai, o promotor Propper conseguiu estabelecer a identidade de dois agentes
da Dina que haviam viajado para os Estados Unidos pouco antes do assassínio
de Letelier: Michael Vernon Townley, um americano vivendo há muitos anos
no Chile, e Armando Fernández Larios, capitão do Exército
chileno. Com passaportes emitidos no Paraguai, os dois haviam tentado primeiro
obter um visto de entrada nos EUA por meio do consulado americano em Assunção.
O intento não deu certo: a dupla foi considerada suspeita e teve seu visto
negado, só conseguindo embarcar para os Estados Unidos numa segunda tentativa,
agora realizada no próprio consulado americano de Santiago. De qualquer
forma, os passaportes falsos ficaram lá - valiosa prova a partir da qual
começaria a ser desfeito o novelo. IMUNIDADES
- É inevitável insistir em Watergate. Como seu antecedente americano,
o caso chileno é extremamente complexo, cheio de rumos obscuros e de reações
humanas difíceis de entender. Se Nixon estava determinado a resistir, por
que não destruiu logo as fitas que acabariam por incriminá-lo?,
pergunta-se até hoje. Da mesma forma, há um tremendo mistério
envolvendo, no caso atual, o chefe da Junta chilena. Quando a Justiça americana,
em março passado, uma vez estabelecida a identidade dos dois agentes da
Dina, pediu a extradição de um deles - o americano Townley -, como
explicar que tenha sido prontamente atendida por Pinochet? Talvez
a pressão americana tenha sido demasiada. Talvez, entregando Townley, Pinochet
abrigasse a vã suposição de que a Justiça dos EUA
se desse por satisfeita - e fizesse o caso estancar por aí. Mas o fato
é que foi a partir justamente da chegada de Townley aos EUA que as investigações
tomaram um rumo frenético. O antigo homem da Dina passou a contar tudo.
Foi tão grande sua colaboração nas investigações
que, de acordo com o que permite a Justiça americana, conseguiu imunidades
especialíssimas. Townley não figurará no julgamento, a ser
iniciado dentro de dois meses, como réu - mas como testemunha. E foi-lhe
assegurado que nunca poderá pegar uma pena maior que a de doze anos de
prisão. As preciosas informações de Townley é que
incriminaram Contreras. Ele contou que recebeu
ordens pessoais do chefe da Dina e de seu chefe de Operações, Pedro
Espinoza, para matar Letelier. Em todo caso, os investigadores não se deram
por satisfeitos unicamente com o depoimento de Townley. Não quiseram encerrar
as investigações sem ter um outro tipo de evidência contra
Contreras - e foi assim que no início de julho se deu outro lance espetacular
no rumo do esclarecimento dos fatos, outra vez através da conexão
paraguaia. Nessa época, um agente do FBI deslocou-se até Assunção
e conseguiu obter do próprio chefe dos serviços secretos paraguaios,
coronel Benito Guanes, uma confissão de que recebera um telefonema de Contreras
encomendando os passaportes falsos para os dois agentes da Dina. Mais ainda, o
agente do FBI obteve uma mensagem em código de Contreras para Guanes, em
que era reiterado o mesmo pedido. Contreras
agora se encontra preso em Santiago, brevemente se iniciará um julgamento
nos Estados Unidos. Muito se avançou no processo. Mas, na verdade, também
há muitas zonas obscuras, apenas levemente identificadas no caminho percorrido
até agora. Há o caso do diplomata Guillermo Osorio por exemplo,
ex-chefe dos serviços consulares do Ministério das Relações
Exteriores chileno. Foi a esse diplomata que a Dina recorreu, depois que deu errado
a tentativa de obter vistos de saída pelo consulado de Assunção.
Foi pedido a Osorio que enviasse uma carta ao consulado americano em Santiago,
pedindo que não se colocassem obstáculos à viagem. Osorio
fez como lhe foi solicitado. No entanto, alguns dias depois apareceu morto com
um tiro na testa - "suicídio", segundo a versão oficial.
Curioso é que, no próprio dia de sua morte, Osorio esteve em companhia
de Contreras - com quem inclusive apareceu em casa. Outro
mistério: por onde andará Suárez, o único cubano que
continua foragido - justamente o homem que na operação Letelier,
praticou o ato final de fazer detonar a bomba? Segundo uma versão que circula
em Santiago ele teria sido retirado dos Estados Unidos pela Dina, numa operação
realizada em colaboração com o serviço secreto de outro país
sul-americano. E enigmas assim vão se multiplicando. Isso sem falar em
conexões mais afastadas a que pode levar o caso Letelier - como, por exemplo,
alguma revelação sobre o assassínio, ocorrido em setembro
de 1974, dois anos antes portanto do de Letelier, de outro ilustre exilado chileno,
o general Carlos Prats. Este foi morto em Buenos Aires, em circunstâncias
extremamente semelhantes às de Letelier. Agora, fala-se que este mesmo
Townley do caso Letelier pode ter alguma participação nesse assassínio
anterior. No plano mais imediato, resta
saber o que será de Contreras. Tudo indica que Pinochet não quererá
extraditá-lo" para os EUA. Caso o tribunal de Washington consiga porém
produzir suficientes provas contra ele, será ele condenado também
no Chile? E, no caso de passar a se considerar um bode-expiatório, Contreras
não cederia à tentação de denunciar outros companheiros
no regime chileno, talvez em posto mais altos do que ele? A verdade é que
o caso Letelier pode estar apenas começando a produzir seus efeitos. Destampou-se
um baú de onde ainda muitos fantasmas poderão surgir. Assim
morreu Letelier
Do primeiro telefonema até
a explosão em Washington, uma reconstituição exata e detalhada
do plano para matar o ex-chanceler chileno I
O grande mistério do caso Letelier continua sendo seu momento primeiro.
Teria a decisão de matar o ex-chanceler sido tomada no próprio gabinete
do general Augusto Pinochet? Ou, talvez, em a reunião da Junta chilena?
À parte esse ponto vital, porém, já há certeza de
que a operação passa pela mesa do à época coronel
Manuel Contreras Sepúlveda, então chefe do todo-poderoso serviço
de inteligência e braço repressor governo chileno, a Dina. E, das
decisões de Contreras em diante, já é possível saber,
com riqueza de detalhes, como se deu o assassínio. Abaixo, com dados fundamentalmente
das investigações realizadas pela Justiça americana, mas
com pormenores também aparecidos na imprensa mundial, ou apurados pelos
correspondentes e enviados especiais de VEJA, uma reconstituição
da operação: De Santiago do
Chile o telefone soou, naquele dia 17 de julho de 1976, em Assunção,
Paraguai. No lado chileno da linha, encontrava-se ninguém menos que o implacável,
mal-afamado coronel Juan Manuel Contreras Sepúlveda - um homem corpulento,
de poucas palavras, que dirigia com cega truculência a Dina, ou Dirección
de Inteligencia Nacional. Contreras chamava seu correspondente na estrutura de
governo do Paraguai, o coronel Benito Guanes, chefe do Serviço de Inteligência
das Forças Armadas do regime de Assunção. E queria dele um
pequeno favor: será que Guanes poderia providenciar-lhe dois falsos passaportes
paraguaios para dois chilenos que precisavam viajar aos Estados Unidos? Tratava-se
de executar uma missão especial, explicou Contreras. Por enquanto, ele
não podia especificar que missão - mas contava com a compreensão
e a colaboração de Guanes. Claro,
claro, Guanes compreendia. Afinal, estando no mesmo ramo que Contreras, ele tinha
plena consciência da importância do segredo, nesse negócio
mais que em qualquer outro. E claro, claro, ele colaboraria com Contreras. Um
pedido desses não era mais que rotina. Entre os serviços secretos
sul-americanos, à essa época, já se tornara comum a troca
de facilidades, pequenas ou grandes. O pedido era ilegal, naturalmente: tratava-se
de falsificar documentos. Mas, ora, ninguém estava nesse ramo de atividades
para delicadezas. Ao desligar o telefone, Contreras estava satisfeito. Fora dado
o primeiro passo concreto para a execução da missão que tinha
em mente: assassinar, em Washington, o exilado chileno Orlando Letelier, um ex-embaixador
nos Estados Unidos, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa no governo de Salvador
Allende. II Por que matar Letelier? Contreras
sabia perfeitamente por quê. Letelier era um tipo perigoso para o regime
militar chileno - ainda mais perigoso, embora possa parecer paradoxal, por ser
um homem reconhecidamente moderado, que fazia suas coisas sem paixão nem
estridência e, talvez por isso mesmo, com mais eficácia. Quando o
golpe foi desfechado no Chile, em setembro de 1973, Letelier ocupava o posto de
ministro da Defesa - onde, aliás, dava ordens àquele que viria a
ser o chefe da Junta militar chilena, general Augusto Pinochet. Imediatamente
após o golpe, fora trancafiado e torturado na inóspita, gelada Ilha
Dawson, situada na Terra do Fogo, no extremo sul do Chile. Mas a prisão
não durara muito. Um ano depois, em setembro de 1974, Letelier fora libertado
e mandado para o exílio, basicamente pela pressão que exerciam sobre
o regime chileno os muitos amigos influentes que tinha no exterior. É
isso: Letelier era um homem de influência. Como economista e ex-funcionário
do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), possuía várias
conexões nos meios financeiros - conhecia como poucos chilenos o mundo
do dinheiro internacional. Além disso, como ex-chanceler e ex-embaixador,
tinha relações de amizade com gente como os senadores americanos
Edward Kennedy ou George McGovern, conhecia os diplomatas do Departamento de Estado
e circulava com crescente intimidade entre os burocratas americanos. Por causa
desses amigos, o governo chileno não tivera outra opção senão
libertá-la. Agora, novamente por causa desses amigos, Letelier tornara-se
talvez o mais incômodo dos adversários. Ele sempre tinha ouvidos
influentes a quem denunciar as violações dos direitos humanos no
Chile, ou a pedir sanções - contra o regime de Santiago. Ainda recentemente,
em princípios de 1976, Letelier obtivera dois notáveis êxitos,
durante uma viagem à Holanda. Por um lado, conseguira convencer os trabalhadores
portuários daquele país a boicotarem as mercadorias provenientes
ou com destino ao Chile. Por outro, obtivera do governo holandês o cancelamento
de um empréstimo de 60 milhões de dólares que estava para
ser liberado para o Chile. Ações como essa eram imperdoáveis.
Na cabeça de Contreras, não restava nenhuma dúvida: Letelier
precisava ser morto. III O passo seguinte,
para Contreras, foi entender-se com o diretor de Operações da Dina,
tenente-coronel Pedro Espinoza Bravo. Tratava-se de um homem de sua extrema confiança.
E, obviamente, pela natureza de suas funções, tratava-se também
do homem que deveria supervisionar, na prática, a execução
da operação. A Pedro Espinoza, por sua vez, caberia dar ordens aos
dois agentes a quem recairia a missão de viajar aos Estados Unidos, começando
por uma passagem pelo Paraguai, onde receberiam os passaportes falsos. Que homens
seriam esses? Espinoza, em consulta com Contreras, definiu a escolha: a Dina destacaria,
para sua missão-Letelier, os agentes Michael Vernon Townley e Armando Fernández
Larios. Michael Townley era um americano
de nascimento, que vivia no Chile desde criança, filho de um imigrante
que se instalara em Santiago e ali montara um loja de comércio de automóveis.
Fernández Larios, por seu lado, era um capitão do Exército
chileno. Mas, à parte as origens diferentes, os dois homens tinham várias
características comuns. Ambos eram, para começar, militantes da
organização Patria y Libertad, uma entidade direitista que se revelara
extremamente ativa, em propaganda como em terrorismo, na época da desestabilização
do governo de Allende. Também se constituíam ambos em homens audazes
e eficazes. Townley, por exemplo conseguira dirigir com êxito uma emissora
clandestina de rádio, nos tempos de Allende. Por fim, ambos tinham uma
mesma qualificação técnica: eram especialistas em eletrônica,
portanto homens perfeitamente adequados quando a missão que tinham pela
frente envolvia coisas como a montagem ou a explosão de uma bomba. Entre
os dias 17 e 20 de julho, sucederam-se as reuniões em Santiago entre Espinoza,
Fernández e Townley. Primeiro, os dois agentes foram informados de que
teriam de fazer uma viagem ao Paraguai. Mais tarde, Espinoza informou-os de que
viajariam também aos Estados Unidos. Só então, nessa última
reunião antes da viagem a Assunção, os dois tomaram conhecimento
de que o objetivo era matar Letelier. No dia 20, os dois receberam de Espinoza
carteiras de identidade com nomes falsificados. Michael Townley tinha um documento
com o nome "Juan Wiliams Rose". Por sua vez, Fernández era "Alejandro
Romeral Jara". Eles já estavam prontos para viajar. Naquela tarde,
embarcaram para Assunção. IV
Na capital paraguaia, a princípio tudo correu às mil maravilhas.
Townley e Fernández mereceram as atenções dos mais altos
círculos do governo - tanto que receberam seus "passaportes"
do próprio chefe do Cerimonial da Presidência da República,
Conrado Pappalardo. Só faltava uma etapa da missão em Assunção:
obter o visto de entrada nos Estados Unidos, no consulado americano. Coisa simples,
evidentemente. Despreocupados, Townley e Fernández rumaram para o consulado
dos EUA, situado na esquina das avenidas Mariscal López e Juscelino Kubitschek.
Houve um pequeno problema, porém:
a atenta funcionária paraguaia que recebeu Townley e Fernández,
no balcão do consulado, desconfiou que algo estava errado com aquela dupla.
Os dois se diziam paraguaios e estavam lá os passaportes para provar que
o eram - mas como explicar então que falassem com um sotaque tão
evidentemente chileno? Sim, algo poderia estar errado. A funcionária marcou
um dia para os dois voltarem, quando teriam uma resposta, mas avisou o cônsul
americano de que algo excuso poderia estar ocorrendo. O cônsul, por sua
vez, consultou o Departamento de Estado, em Washington, e foi instruído
a não dar o visto os passaportes. Quando a dupla voltou ao consulado, recebeu
a resposta de que tinha havido "algum problema" - não foi esclarecido
qual. Por isso o visto não seria concedido. Um primeiro obstáculo
baixara no caminho de Townley e Fernández. Mau sinal. A missão estaria
prejudicada? V Evidentemente que não
- decidiu, em Santiago, Pedro Espinoza, quando Townley e Fernández lhe
relataram os resultados de sua excursão paraguaia. Os passaportes paraguaios
não deram certo? Então, o jeito era providenciar passaportes chilenos.
Foi o que foi feito. Townley e Fernández foram aquinhoados com documentos
do Ministério das Relações Exteriores chileno, desta vez
com nomes novos - Townley passava a ser "Hans Petersen Silva" e Fernández
"Armando Faundez Lyon". Para afastar
o risco de que as autoridades americanas de novo se interpusessem no caminho da
dupla, tomou-se uma providência adicional. A Dina conseguiu que um alto
diplomata chileno, Guillermo Osorio, chefe do Departamento de Assuntos Consulares
do Ministério do Exterior, escrevesse uma carta ao cônsul americano
em Santiago afirmando que os portadores daqueles dois passaportes viajavam em
missão oficial aos Estados Unidos, e pedindo que lhes fossem concedidas
facilidades na obtenção do visto. Desta vez, o estratagema deu certo.
Pronto. A parte dos passaportes estava ganha.
Agora, Townley e Fernández estavam prontos para viajar - e foi Fernández
quem recebeu ordens de partir primeiro. No dia 26 de agosto, Fernández
desembarcava no Aeroporto Kennedy, em Nova York. Com ele, para assessorá-lo,
viajou uma mulher, Liliana Walker Martínez - ela também agente da
Dina. A missão era rastrear Letelier por alguns dias, em Washington, e
descobrir seus hábitos. Para sua
grande satisfação, Fernández descobriu que Letelier era a
vítima ideal. Ele saía de casa sempre à mesma hora, para
seu trabalho no Instituto de Estudos Políticos - um organismo acadêmico
da capital americana. Também voltava à mesma hora, e fazia o mesmo
caminho, todo dia, de casa para o trabalho. Não que o ex-chanceler já
não tivesse sido advertido pelos amigos. "Um dia, eles podem querer
matá-lo", diziam alguns, querendo dizer por "eles", naturalmente,
a Junta chilena ou seu braço repressor, a Dina. Havia razões para
temores. Afinal, a História já registrara dois atentados contra
exilados chilenos ilustres - um que vitimou fatalmente o general Carlos Prats,
em Buenos Aires, em setembro de 1974, e outro que deixou ferido o dirigente democrata-cristão
Bernardo Leighton, em Roma, em outubro de 1975. Quando
viajava para fora de Washington, aí sim, Letelier tomava suas precauções:
nunca saía sozinho, procurava não repetir os mesmos itinerários.
Mas, na capital americana, ele se achava seguro. A Dina, supunha, não ousaria
agir na capital da maior das superpotências. Letelier não revelou
preocupação maior nem mesmo quando, numa certa época, passou
a receber telefonemas noturnos com ameaças. Quando sua mulher, Isabel,
atendia o telefone uma voz diria: "É a mulher de Letelier?" "Sim",
responderia Isabel. "Não", retrucaria a voz. "Quem fala
aí é a viúva de Letelier." VI
Com uma presa assim, tão desarmada, foi fácil para Fernández
executar seu trabalho. Durante duas semanas, sempre assessorado pela agente Liliana,
ele rondou a casa de Letelier em Bethesda, um verdejante subúrbio residencial
de Washington e o local de trabalho do antigo chanceler. No dia 9 de setembro,
a missão de Fernández estava encerrada. Era hora de passar o bastão
para Townley, que no mesmo dia deveria chegar de Santiago. Townley chegou de manhã
a Nova York e ali mesmo, no Aeroporto Kennedy, teve um encontro com Fernández.
Este passou-lhe tudo o que havia apurado sobre os hábitos de Letelier e
embarcou de volta para o Chile, junto com Liliana. Chegara
a vez de Townley entrar em ação. Cumprido o serviço prévio
de Fernández, cabia a ele, agora, executar a operação propriamente
dita. Evidente que Townley não poderia assassinar Letelier sozinho: ele
precisava de braços auxiliares para desfechar a ação. Mas
isso não era problema; ele sabia, exatamente, quem procurar nos Estados
Unidos para este tipo de serviço. Já há algum tempo, na realidade
praticamente desde o golpe de 1973 no Chile, a Dina mantinha contatos com exilados
cubanos anticastristas nos EUA, a quem destinava fundos ou prestava serviços
em troca de sua colaboração eventual em determinados favores. Eram
esses os homens que Townley iria procurar: certos exilados cubanos experientes
e determinados na prática do crime político. Depois
de despedir-se de Fernández no aeroporto, Townley rumou para uma agência
da Avis-Rent-a-Car, onde alugou um carro. E de lá seguiu para um encontro,
em Nova York mesmo, com o primeiro cubano de sua lista: Virgilio Paz Romero, dirigente
de um certo Movimento Nacionalista Cubano uma das inúmeras organizações
anticastristas com sede nos EUA. Na entrevista com Paz, Townley pediu um contato
com outro cubano do Movimento Nacionalista, Guillermo Novo Sampo Townley sabia
da utilidade de Novo para ações violentas. Na década de 60,
esse cubano, junto com seu irmão Ignacio, chegara a cumprir pena por ter
dado um tiro de bazuca na sede da ONU, em Nova York, na hora em que Ernesto "Che"
Guevara fazia um discurso dentro do edifício. Foi
arranjado para o dia seguinte um encontro entre Townley e Novo. Este morava no
Estado de Nova Jersey, nas vizinhanças de Nova York - e foi guiado por
Paz, no carro deste, que Townley para lá se dirigiu. Uma
vez na casa de Novo, Townley foi apresentado a um terceiro cubano - José
Suárez Esquivel. Townley expôs a Paz, Novo e Suárez sua missão,
e os quatro discutiram preliminares da operação. Ficou marcado um
novo encontro do grupo para dali a três dias. Ficou acertado também
que, nesse novo encontro, se juntaria mais um - o último - cubano ao grupo:
Alvin Ross Díaz. VII Agora o time
estava completo. No dia 13 de setembro, Townley e os cubanos Paz, Novo, Suárez
e Ross se encontraram no Château Renaissance Hotel, em Nova Jersey. Discutiu-se
novamente a operação e foi feita uma primeira divisão de
serviços. Novo e Suárez ficaram de arranjar explosivos do tipo C-4
e um detonador para Townley. Esse material lhe seria entregue dali a dois dias
- e assim Townley já estaria pronto para viajar para Washington e desencadear
a ação. Assim foi feito. No
dia 16 de setembro, com os explosivos e o detonador na bagagem, Paz e Townley
seguiram para Washington, no carro do primeiro, e hospedaram-se no Holyday Inn
Motel. Nesse mesmo dia, Paz e Townley tomaram ainda mais uma providência:
passaram numa loja Sears, Roebuck compraram certos itens que faltavam para a bomba
- soldas, pilhas, fios. Dois dias depois, no dia 18, era Suárez quem chegava
a Washington. Suárez instalou-se no Best Western Envoy Motel e chamou os
outros dois companheiros. Ali, na tarde desse dia 18, a trinca dedicou-se a juntar
todo o material que havia trazido e montar a bomba. Para
o dia seguinte estava reservada a parte mais arriscada da missão. A gangue
de Townley havia decidido que Letelier morreria em seu carro, quando estivesse
viajando pelas ruas de Washington. Era uma maneira mais cirúrgica, mais
precisa de fazê-lo morrer. Mas, para isso, era necessário alojar
a bomba no carro de Letelier. Essa foi a tarefa do dia. Na manhã desse
19 de setembro, Townley, Paz e Suárez foram a Bethesda. Em frente à
casa de Letelier, Paz e Suárez ficaram com a missão de espiar se
não aparecia nenhum estranho enquanto Townley se arrastava para baixo do
Chevrolet Chevelle Malibu de Letelier e ali alojava a bomba, bem sob o assento
do motorista. A operação foi
executada com êxito e o grupo dispersou-se. Paz voltou a Nova York. Townley
foi a Nova Jersey, onde deu conta dos passos dados até ali a Novo e Ross,
e fez um telefonema para o Chile. Nesse telefonema, Townley avisou a mulher, Mariana
Callejas - ela também uma agente da Dina - que uma bomba havia sido colocada
no carro de Letelier. Caberia a Mariana dar conta da operação em
Washington aos superiores da Dina. Enquanto isso só Suárez ficou
em Washington. A ele cabia a tarefa de, com um detonador de controle remoto, situado
num dos pontos do itinerário seguido toda manhã por Letelier, fazer
a bomba explodir. A sorte do ex-chanceler já estava selada. VIII
Já havia uma bomba esperando Letelier - mas, claro, para o ex-chanceler,
naquela noite do dia 19, a vida transcorria na rotina de sempre. É certo
que Letelier sofrera algumas atribulações nos últimos dias
- mas se tratava de estocadas perfeitamente suportáveis. Mais especificamente,
Letelier fora alvo de uma explosão de ira da Junta Militar chilena, pouco
antes, no dia 10 de setembro, quando, por um decreto baixado em Santiago, tivera
cassada sua cidadania chilena. Mas o ex-chanceler reagira à altura. Poucos
dias depois, durante uma manifestação contra o regime chileno realizada
no Madison Square Garden, em Nova York, ele bradara: "Nasci chileno, sou
chileno e morrerei chileno. Eles, os fascistas, nasceram traidores, vivem como
traidores e serão lembrados para sempre como traidores fascistas".
Letelier continuava tão chileno, na verdade, que no dia 18 de setembro,
data nacional do Chile, dera uma festa em sua casa - e, com outros exilados dançara
a cueca, a música folclórica dê seu país. Dois
dias depois, naquele fatídico 20 em que a bomba já se escondia sob
o assento, Letelier convidou dois colegas de trabalho no Instituto de Estudo Políticos
- o casal americano Michael e Ronni Moffitt - para um jantar de trabalho em sua
casa. À tarde, Letelier telefonou para sua mulher, Isabel, dando conta
de que os Moffitt apareceriam à noite. Poucas horas depois, Letelier chamava
de novo Isabel: como o carro dos Moffitt não queria pegar, explicou ele,
iria esperá-los para transportá-los para casa em seu próprio
carro. Chegaria um pouco mais tarde, portanto. Por
volta das 8 horas, Letelier chegou em casa, com os Moffitt - e o casal permaneceu
na residência do ex-chanceler até meia-noite. Como Moffitt continuavam
sem condução, Letelier ofereceu-lhes seu carro para irem embora.
Ficou acertado que, na manhã seguinte, o casal passaria pela casa do ex-chanceler
para acompanhá-lo até o trabalho - e assim foi. Às 8h45 da
manhã do dia 21, uma terça-feira, Ronni e Michael Moffitt chegaram
à casa de Letelier. O casal desce um pouco enquanto o chileno acabava de
se aprontar. Em seguida, os três se alojaram no carro, Letelier na direção,
Ronni Moffitt a seu lado e Michael no banco de trás. Letelier iniciou então
se caminho habitual. No centro de Washington,
pegou a River Road até a rua 46, depois dobrou a Massachusetts Avenue.
Como fazia todas as manhãs, Letelier passou pelo Embassy Row, o lugar onde
se alinha a maioria das embaixadas em Washington. Quando
circundava o Sheridon Circle, às 9h30, num ponto situado justamente a poucos
metros da embaixada do Chile, ouviu-se, no carro, um barulho como que de "água
despejada sobre um fio quente", como diria depois Michael Moffitt e em seguida
espocou como que um "flash branco". O carro explodiu. As pernas de Letelier
saltaram para um lado, o tronco para o outro. Ronni Moffitt teve rompida um artéria
vital. Só Michael Moffitt, expelido para fora do carro, escapou com vida.
Terminava a aventura da Dina. Mas, naquele mesmo momento, começava o novelo
de mistério, crime e política que iria desembocar nos acontecimentos
da semana passada. | |