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9 de agosto de 1978
Começa a explosão

Altos funcionários do governo
do Chile são acusados de homicídio
em Washington. O caso Letelier
dispara em múltiplas direções

Na tarde da última terça-feira, Eugene Propper, de 31 anos, um dos 161 procuradores da Justiça dos Estados Unidos em Washington, deu por terminada a primeira etapa da mais importante missão que já recebeu em seus seis anos de carreira. Carregando uma pasta de couro e vestindo, como sempre, terno e colete, Propper saiu de sua sala, no 5º andar do vetusto edifício da Corte Distrital da capital americana, e dirigiu-se para um sóbrio gabinete de paredes revestidas com lambris de madeira e mármore avermelhado, situado dois andares abaixo.

Ali, na presença de 23 membros do Grande Júri, de três agentes do Federal Bureau of Investigations (FBI) e de uma compacta platéia de jornalistas, o jovem promotor entregou ao juiz federal William Brant um documento de 23 páginas contendo as conclusões de 22 meses de investigações por ele conduzidas sobre o assassínio do exilado chileno Orlando Letelier, ex-chanceler do governo de Salvador Allende, e da americana Ronni Moffitt, sua companheira de trabalho - ocorrido na manhã do dia 21 de setembro de 1976, quando uma bomba explodiu sob o Chevelle Malibu dirigido por Letelier, em pleno centro de Washington. Restava a Propper cumprir apenas mais uma formalidade: pedir ao juiz Brant a prisão preventiva das quatro pessoas que ainda estavam soltas, entre as sete indiciadas no documento por crime de homicídio premeditado.

RAPIDEZ - Foi o que Propper fez. No final. um dos agentes do FBI que atuou na investigação. Carter Cornile, disse a Roberto Garcia, correspondente de VEJA em Washington: "Solucionar esse mistério era muito importante para a segurança nacional dos Estados Unidos. Não podemos permitir que se pense que é possível vir a Washington e estourar os miolos de um ex-chanceler impunemente". Entre os indiciados, como já se esperava, figuravam os nomes de três oficiais do Exército do Chile: o general da reserva Juan Manuel Contreras Sepúlveda, chefe, na época do crime, da polícia política chilena, a hoje extinta Dina - Dirección de Inteligencia Nacional; o coronel Pedro Espinoza Bravo, ex-chefe de operações da mesma Dina; e o capitão Armando Fernández Larios, ex-agente da organização. Além destes, Propper solicitou também ao juiz a detenção do exilado cubano anticastrista José Dionisio Suárez Esquivel.

A partir daí as coisas tramitaram com incrível rapidez. Apenas poucas horas mais tarde, o ministro-conselheiro da embaixada dos Estados Unidos em Santiago, Charles Grover, entregava ao governo chileno uma nota em que, invocando um tratado de extradição firmado entre os dois países em 1902, pedia a imediata prisão dos três oficiais chilenos. E, ainda na noite da terça-feira - relata o enviado de VEJA a Santiago, Ricardo A. Setti -, o Serviço de Relações Públicas do Exército chileno divulgava um comunicado dando conta de que o pedido da Justiça americana fora atendido.

NA MANSÃO - Tratava-se, sem dúvida, de um acontecimento extraordinário. Ninguém menos que o antigo chefe da polícia secreta do regime militar chileno, um homem que durante quase quatro anos exerceu enorme influência e poder no próprio cerne do governo, que se reportava e recebia ordens diretamente da Junta Militar, era envolvido num escândalo de proporções watergateanas - ou maiores ainda. Como no caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1975, um inquérito, por sinal também iniciado num tribunal distrital de Washington, conduzia à descoberta de atos criminosos praticados por pessoas instaladas no mais alto nível de governo um país. Com uma agravante: aqui, lugar de simples violações dos arquivos de um partido político rival, havia dois cadáveres.

Obviamente, mesmo após a prisão ex-chefe da Dina - colocado sob custódia militar em sua mansão cercada por altas grades de ferro, na Calle Príncipe de Galles 7045, bairro de La Reina, em Santiago -, uma pergunta da fica no ar: o caso Letelier vai parar no general Contreras? Pode ser que não. Para começar, o próprio documento da Justiça americana que indiciou os responsáveis pela morte de Letelier levanta a hipótese de Contreras ter tomado a decisão de eliminar o ex-chanceler chileno "juntamente com outras pessoas". Por outro lado, sendo a Dina "uma organização militar diretamente dependente do governo da Junta Militar", conforme o texto da lei que a criou em 1974, parece pouco provável que uma operação desse porte fosse desencadeada por Contreras sem o conhecimento ou a anuência de seus superiores. Além disso, sabe-se que Contreras era, pelo menos até a época do crime, um amigo íntimo e homem de absoluta confiança de Pinochet.

"HALDEMAN" - Que fará Pinochet? Na manhã da quarta-feira passada, o presidente chileno, em entrevistas com jornalistas, mostrava-se inabalável. "O problema, agora, está nas mãos da Justiça", afirmou ele, olimpicamente. "Os Estados Unidos nos pediram para prender três oficiais do Exército e nós os prendemos. Se no prazo de dois meses eles não nos apresentarem provas convincentes, os homens serão libertados." No dia seguinte, porém, Pinochet já parecia na defensiva - preocupado em marcar suas distâncias com relação a Contreras. "Não tenho nenhum vínculo familiar com o general Contreras, como estão afirmando", protestou ele diante dos jornalistas. "Tampouco alguém pode sustentar que Contreras era meu conselheiro, pois não tenho conselheiros, mas colaboradores."

As declarações do presidente chileno deixam entrever sua estratégia: procurar circunscrever a responsabilidade pelo crime a seu antigo colaborador. E, também aqui, são inevitáveis as comparações com Watergate. Outra coisa não estava fazendo Nixon, por exemplo, ao tomar a decisão de demitir seu até ali todo-poderoso chefe da Casa Civil, Bob Haldeman, e outros três altos funcionários, num momento em que as investigações sobre seu governo tomavam um curso definitivamente envenenado. Contreras, por sinal, na semana passada estava sendo chamado em Washington - uma cidade tão familiarizada com esse gênero de desgraça política - de "o Haldeman de Pinochet".

FALSAS PISTAS - Como pôde o caso Letelier despencar para o rumo de horrores em que enveredou? A situação atual parece espantosa. Ainda mais se comparada aos primeiros tempos da investigação, logo após o assassínio, quando tudo parecia caminhar da melhor maneira possível para o regime chileno. De fato, em Santiago, nessa época, ninguém teria o que temer. Pinochet chegou a repetir, mais de uma vez, que seu governo nada tinha a ver com o crime. Em sua opinião, tratava-se de "um simples caso de polícia, talvez até de um acerto de contas entre grupos rivais de exilados".

Não havia razões, nesse alvorecer do Caso Letelier, para temer nada de mau partindo de Washington. Os chilenos sabiam que a CIA e o próprio FBI, com os quais a Dina sempre teve as melhores relações, não tinham motivos para dedicar às investigações nenhum empenho especial. Inclusive, alguns dos cubanos envolvidos no crime exibiam em suas folhas de serviços alguns favores antigos prestados à CIA. Assim, foi natural que, no começo, a Justiça americana caminhasse às cegas, atravancada em seu avanço por certas pistas que não eram aprofundadas, ou, ao contrário, por outras que ameaçavam enveredar pelo reino puro da fantasia. Foi assim que certos jornais chegaram a receber a informação de que Letelier seria um espião a serviço de Cuba. Por outro lado, num lance ainda mais ousado, houve quem sugerisse a hipótese de crime passional - com bomba e tudo, um carro voando pelos ares e mesmo considerando que a vítima era um ilustre ex-chanceler, de notória militância política.

PASSAPORTES - Outro foi o rumo tomado pelas investigações, porém, a partir do segundo semestre do ano passado - e certamente, para essa mudança, terá contribuído o novo clima criado em Washington pela política de direitos humanos do presidente Jimmy Carter. Os investigadores passaram a apontar para a direção certa, as descobertas começaram a se suceder. Até que, em março passado, deu-se um acontecimento decisivo: a partir de certos passaportes falsos que se encontravam esquecidos no consulado americano em Assunção, no Paraguai, o promotor Propper conseguiu estabelecer a identidade de dois agentes da Dina que haviam viajado para os Estados Unidos pouco antes do assassínio de Letelier: Michael Vernon Townley, um americano vivendo há muitos anos no Chile, e Armando Fernández Larios, capitão do Exército chileno. Com passaportes emitidos no Paraguai, os dois haviam tentado primeiro obter um visto de entrada nos EUA por meio do consulado americano em Assunção. O intento não deu certo: a dupla foi considerada suspeita e teve seu visto negado, só conseguindo embarcar para os Estados Unidos numa segunda tentativa, agora realizada no próprio consulado americano de Santiago. De qualquer forma, os passaportes falsos ficaram lá - valiosa prova a partir da qual começaria a ser desfeito o novelo.

IMUNIDADES - É inevitável insistir em Watergate. Como seu antecedente americano, o caso chileno é extremamente complexo, cheio de rumos obscuros e de reações humanas difíceis de entender. Se Nixon estava determinado a resistir, por que não destruiu logo as fitas que acabariam por incriminá-lo?, pergunta-se até hoje. Da mesma forma, há um tremendo mistério envolvendo, no caso atual, o chefe da Junta chilena. Quando a Justiça americana, em março passado, uma vez estabelecida a identidade dos dois agentes da Dina, pediu a extradição de um deles - o americano Townley -, como explicar que tenha sido prontamente atendida por Pinochet?

Talvez a pressão americana tenha sido demasiada. Talvez, entregando Townley, Pinochet abrigasse a vã suposição de que a Justiça dos EUA se desse por satisfeita - e fizesse o caso estancar por aí. Mas o fato é que foi a partir justamente da chegada de Townley aos EUA que as investigações tomaram um rumo frenético. O antigo homem da Dina passou a contar tudo. Foi tão grande sua colaboração nas investigações que, de acordo com o que permite a Justiça americana, conseguiu imunidades especialíssimas. Townley não figurará no julgamento, a ser iniciado dentro de dois meses, como réu - mas como testemunha. E foi-lhe assegurado que nunca poderá pegar uma pena maior que a de doze anos de prisão. As preciosas informações de Townley é que incriminaram Contreras.

Ele contou que recebeu ordens pessoais do chefe da Dina e de seu chefe de Operações, Pedro Espinoza, para matar Letelier. Em todo caso, os investigadores não se deram por satisfeitos unicamente com o depoimento de Townley. Não quiseram encerrar as investigações sem ter um outro tipo de evidência contra Contreras - e foi assim que no início de julho se deu outro lance espetacular no rumo do esclarecimento dos fatos, outra vez através da conexão paraguaia. Nessa época, um agente do FBI deslocou-se até Assunção e conseguiu obter do próprio chefe dos serviços secretos paraguaios, coronel Benito Guanes, uma confissão de que recebera um telefonema de Contreras encomendando os passaportes falsos para os dois agentes da Dina. Mais ainda, o agente do FBI obteve uma mensagem em código de Contreras para Guanes, em que era reiterado o mesmo pedido.

Contreras agora se encontra preso em Santiago, brevemente se iniciará um julgamento nos Estados Unidos. Muito se avançou no processo. Mas, na verdade, também há muitas zonas obscuras, apenas levemente identificadas no caminho percorrido até agora. Há o caso do diplomata Guillermo Osorio por exemplo, ex-chefe dos serviços consulares do Ministério das Relações Exteriores chileno. Foi a esse diplomata que a Dina recorreu, depois que deu errado a tentativa de obter vistos de saída pelo consulado de Assunção. Foi pedido a Osorio que enviasse uma carta ao consulado americano em Santiago, pedindo que não se colocassem obstáculos à viagem. Osorio fez como lhe foi solicitado. No entanto, alguns dias depois apareceu morto com um tiro na testa - "suicídio", segundo a versão oficial. Curioso é que, no próprio dia de sua morte, Osorio esteve em companhia de Contreras - com quem inclusive apareceu em casa.

Outro mistério: por onde andará Suárez, o único cubano que continua foragido - justamente o homem que na operação Letelier, praticou o ato final de fazer detonar a bomba? Segundo uma versão que circula em Santiago ele teria sido retirado dos Estados Unidos pela Dina, numa operação realizada em colaboração com o serviço secreto de outro país sul-americano. E enigmas assim vão se multiplicando. Isso sem falar em conexões mais afastadas a que pode levar o caso Letelier - como, por exemplo, alguma revelação sobre o assassínio, ocorrido em setembro de 1974, dois anos antes portanto do de Letelier, de outro ilustre exilado chileno, o general Carlos Prats. Este foi morto em Buenos Aires, em circunstâncias extremamente semelhantes às de Letelier. Agora, fala-se que este mesmo Townley do caso Letelier pode ter alguma participação nesse assassínio anterior.

No plano mais imediato, resta saber o que será de Contreras. Tudo indica que Pinochet não quererá extraditá-lo" para os EUA. Caso o tribunal de Washington consiga porém produzir suficientes provas contra ele, será ele condenado também no Chile? E, no caso de passar a se considerar um bode-expiatório, Contreras não cederia à tentação de denunciar outros companheiros no regime chileno, talvez em posto mais altos do que ele? A verdade é que o caso Letelier pode estar apenas começando a produzir seus efeitos. Destampou-se um baú de onde ainda muitos fantasmas poderão surgir.


Assim morreu Letelier

Do primeiro telefonema até a explosão em Washington, uma reconstituição exata e detalhada do plano para matar o ex-chanceler chileno

I O grande mistério do caso Letelier continua sendo seu momento primeiro. Teria a decisão de matar o ex-chanceler sido tomada no próprio gabinete do general Augusto Pinochet? Ou, talvez, em a reunião da Junta chilena? À parte esse ponto vital, porém, já há certeza de que a operação passa pela mesa do à época coronel Manuel Contreras Sepúlveda, então chefe do todo-poderoso serviço de inteligência e braço repressor governo chileno, a Dina. E, das decisões de Contreras em diante, já é possível saber, com riqueza de detalhes, como se deu o assassínio. Abaixo, com dados fundamentalmente das investigações realizadas pela Justiça americana, mas com pormenores também aparecidos na imprensa mundial, ou apurados pelos correspondentes e enviados especiais de VEJA, uma reconstituição da operação:

De Santiago do Chile o telefone soou, naquele dia 17 de julho de 1976, em Assunção, Paraguai. No lado chileno da linha, encontrava-se ninguém menos que o implacável, mal-afamado coronel Juan Manuel Contreras Sepúlveda - um homem corpulento, de poucas palavras, que dirigia com cega truculência a Dina, ou Dirección de Inteligencia Nacional. Contreras chamava seu correspondente na estrutura de governo do Paraguai, o coronel Benito Guanes, chefe do Serviço de Inteligência das Forças Armadas do regime de Assunção. E queria dele um pequeno favor: será que Guanes poderia providenciar-lhe dois falsos passaportes paraguaios para dois chilenos que precisavam viajar aos Estados Unidos? Tratava-se de executar uma missão especial, explicou Contreras. Por enquanto, ele não podia especificar que missão - mas contava com a compreensão e a colaboração de Guanes.

Claro, claro, Guanes compreendia. Afinal, estando no mesmo ramo que Contreras, ele tinha plena consciência da importância do segredo, nesse negócio mais que em qualquer outro. E claro, claro, ele colaboraria com Contreras. Um pedido desses não era mais que rotina. Entre os serviços secretos sul-americanos, à essa época, já se tornara comum a troca de facilidades, pequenas ou grandes. O pedido era ilegal, naturalmente: tratava-se de falsificar documentos. Mas, ora, ninguém estava nesse ramo de atividades para delicadezas. Ao desligar o telefone, Contreras estava satisfeito. Fora dado o primeiro passo concreto para a execução da missão que tinha em mente: assassinar, em Washington, o exilado chileno Orlando Letelier, um ex-embaixador nos Estados Unidos, ex-chanceler e ex-ministro da Defesa no governo de Salvador Allende.

II Por que matar Letelier? Contreras sabia perfeitamente por quê. Letelier era um tipo perigoso para o regime militar chileno - ainda mais perigoso, embora possa parecer paradoxal, por ser um homem reconhecidamente moderado, que fazia suas coisas sem paixão nem estridência e, talvez por isso mesmo, com mais eficácia. Quando o golpe foi desfechado no Chile, em setembro de 1973, Letelier ocupava o posto de ministro da Defesa - onde, aliás, dava ordens àquele que viria a ser o chefe da Junta militar chilena, general Augusto Pinochet. Imediatamente após o golpe, fora trancafiado e torturado na inóspita, gelada Ilha Dawson, situada na Terra do Fogo, no extremo sul do Chile. Mas a prisão não durara muito. Um ano depois, em setembro de 1974, Letelier fora libertado e mandado para o exílio, basicamente pela pressão que exerciam sobre o regime chileno os muitos amigos influentes que tinha no exterior.

É isso: Letelier era um homem de influência. Como economista e ex-funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), possuía várias conexões nos meios financeiros - conhecia como poucos chilenos o mundo do dinheiro internacional. Além disso, como ex-chanceler e ex-embaixador, tinha relações de amizade com gente como os senadores americanos Edward Kennedy ou George McGovern, conhecia os diplomatas do Departamento de Estado e circulava com crescente intimidade entre os burocratas americanos. Por causa desses amigos, o governo chileno não tivera outra opção senão libertá-la. Agora, novamente por causa desses amigos, Letelier tornara-se talvez o mais incômodo dos adversários. Ele sempre tinha ouvidos influentes a quem denunciar as violações dos direitos humanos no Chile, ou a pedir sanções - contra o regime de Santiago. Ainda recentemente, em princípios de 1976, Letelier obtivera dois notáveis êxitos, durante uma viagem à Holanda. Por um lado, conseguira convencer os trabalhadores portuários daquele país a boicotarem as mercadorias provenientes ou com destino ao Chile. Por outro, obtivera do governo holandês o cancelamento de um empréstimo de 60 milhões de dólares que estava para ser liberado para o Chile. Ações como essa eram imperdoáveis. Na cabeça de Contreras, não restava nenhuma dúvida: Letelier precisava ser morto.

III O passo seguinte, para Contreras, foi entender-se com o diretor de Operações da Dina, tenente-coronel Pedro Espinoza Bravo. Tratava-se de um homem de sua extrema confiança. E, obviamente, pela natureza de suas funções, tratava-se também do homem que deveria supervisionar, na prática, a execução da operação. A Pedro Espinoza, por sua vez, caberia dar ordens aos dois agentes a quem recairia a missão de viajar aos Estados Unidos, começando por uma passagem pelo Paraguai, onde receberiam os passaportes falsos. Que homens seriam esses? Espinoza, em consulta com Contreras, definiu a escolha: a Dina destacaria, para sua missão-Letelier, os agentes Michael Vernon Townley e Armando Fernández Larios.

Michael Townley era um americano de nascimento, que vivia no Chile desde criança, filho de um imigrante que se instalara em Santiago e ali montara um loja de comércio de automóveis. Fernández Larios, por seu lado, era um capitão do Exército chileno. Mas, à parte as origens diferentes, os dois homens tinham várias características comuns. Ambos eram, para começar, militantes da organização Patria y Libertad, uma entidade direitista que se revelara extremamente ativa, em propaganda como em terrorismo, na época da desestabilização do governo de Allende. Também se constituíam ambos em homens audazes e eficazes. Townley, por exemplo conseguira dirigir com êxito uma emissora clandestina de rádio, nos tempos de Allende. Por fim, ambos tinham uma mesma qualificação técnica: eram especialistas em eletrônica, portanto homens perfeitamente adequados quando a missão que tinham pela frente envolvia coisas como a montagem ou a explosão de uma bomba.

Entre os dias 17 e 20 de julho, sucederam-se as reuniões em Santiago entre Espinoza, Fernández e Townley. Primeiro, os dois agentes foram informados de que teriam de fazer uma viagem ao Paraguai. Mais tarde, Espinoza informou-os de que viajariam também aos Estados Unidos. Só então, nessa última reunião antes da viagem a Assunção, os dois tomaram conhecimento de que o objetivo era matar Letelier. No dia 20, os dois receberam de Espinoza carteiras de identidade com nomes falsificados. Michael Townley tinha um documento com o nome "Juan Wiliams Rose". Por sua vez, Fernández era "Alejandro Romeral Jara". Eles já estavam prontos para viajar. Naquela tarde, embarcaram para Assunção.

IV Na capital paraguaia, a princípio tudo correu às mil maravilhas. Townley e Fernández mereceram as atenções dos mais altos círculos do governo - tanto que receberam seus "passaportes" do próprio chefe do Cerimonial da Presidência da República, Conrado Pappalardo. Só faltava uma etapa da missão em Assunção: obter o visto de entrada nos Estados Unidos, no consulado americano. Coisa simples, evidentemente. Despreocupados, Townley e Fernández rumaram para o consulado dos EUA, situado na esquina das avenidas Mariscal López e Juscelino Kubitschek.

Houve um pequeno problema, porém: a atenta funcionária paraguaia que recebeu Townley e Fernández, no balcão do consulado, desconfiou que algo estava errado com aquela dupla. Os dois se diziam paraguaios e estavam lá os passaportes para provar que o eram - mas como explicar então que falassem com um sotaque tão evidentemente chileno? Sim, algo poderia estar errado. A funcionária marcou um dia para os dois voltarem, quando teriam uma resposta, mas avisou o cônsul americano de que algo excuso poderia estar ocorrendo. O cônsul, por sua vez, consultou o Departamento de Estado, em Washington, e foi instruído a não dar o visto os passaportes. Quando a dupla voltou ao consulado, recebeu a resposta de que tinha havido "algum problema" - não foi esclarecido qual. Por isso o visto não seria concedido. Um primeiro obstáculo baixara no caminho de Townley e Fernández. Mau sinal. A missão estaria prejudicada?

V Evidentemente que não - decidiu, em Santiago, Pedro Espinoza, quando Townley e Fernández lhe relataram os resultados de sua excursão paraguaia. Os passaportes paraguaios não deram certo? Então, o jeito era providenciar passaportes chilenos. Foi o que foi feito. Townley e Fernández foram aquinhoados com documentos do Ministério das Relações Exteriores chileno, desta vez com nomes novos - Townley passava a ser "Hans Petersen Silva" e Fernández "Armando Faundez Lyon".

Para afastar o risco de que as autoridades americanas de novo se interpusessem no caminho da dupla, tomou-se uma providência adicional. A Dina conseguiu que um alto diplomata chileno, Guillermo Osorio, chefe do Departamento de Assuntos Consulares do Ministério do Exterior, escrevesse uma carta ao cônsul americano em Santiago afirmando que os portadores daqueles dois passaportes viajavam em missão oficial aos Estados Unidos, e pedindo que lhes fossem concedidas facilidades na obtenção do visto. Desta vez, o estratagema deu certo.

Pronto. A parte dos passaportes estava ganha. Agora, Townley e Fernández estavam prontos para viajar - e foi Fernández quem recebeu ordens de partir primeiro. No dia 26 de agosto, Fernández desembarcava no Aeroporto Kennedy, em Nova York. Com ele, para assessorá-lo, viajou uma mulher, Liliana Walker Martínez - ela também agente da Dina. A missão era rastrear Letelier por alguns dias, em Washington, e descobrir seus hábitos.

Para sua grande satisfação, Fernández descobriu que Letelier era a vítima ideal. Ele saía de casa sempre à mesma hora, para seu trabalho no Instituto de Estudos Políticos - um organismo acadêmico da capital americana. Também voltava à mesma hora, e fazia o mesmo caminho, todo dia, de casa para o trabalho. Não que o ex-chanceler já não tivesse sido advertido pelos amigos. "Um dia, eles podem querer matá-lo", diziam alguns, querendo dizer por "eles", naturalmente, a Junta chilena ou seu braço repressor, a Dina. Havia razões para temores. Afinal, a História já registrara dois atentados contra exilados chilenos ilustres - um que vitimou fatalmente o general Carlos Prats, em Buenos Aires, em setembro de 1974, e outro que deixou ferido o dirigente democrata-cristão Bernardo Leighton, em Roma, em outubro de 1975.

Quando viajava para fora de Washington, aí sim, Letelier tomava suas precauções: nunca saía sozinho, procurava não repetir os mesmos itinerários. Mas, na capital americana, ele se achava seguro. A Dina, supunha, não ousaria agir na capital da maior das superpotências. Letelier não revelou preocupação maior nem mesmo quando, numa certa época, passou a receber telefonemas noturnos com ameaças. Quando sua mulher, Isabel, atendia o telefone uma voz diria: "É a mulher de Letelier?" "Sim", responderia Isabel. "Não", retrucaria a voz. "Quem fala aí é a viúva de Letelier."

VI Com uma presa assim, tão desarmada, foi fácil para Fernández executar seu trabalho. Durante duas semanas, sempre assessorado pela agente Liliana, ele rondou a casa de Letelier em Bethesda, um verdejante subúrbio residencial de Washington e o local de trabalho do antigo chanceler. No dia 9 de setembro, a missão de Fernández estava encerrada. Era hora de passar o bastão para Townley, que no mesmo dia deveria chegar de Santiago. Townley chegou de manhã a Nova York e ali mesmo, no Aeroporto Kennedy, teve um encontro com Fernández. Este passou-lhe tudo o que havia apurado sobre os hábitos de Letelier e embarcou de volta para o Chile, junto com Liliana.

Chegara a vez de Townley entrar em ação. Cumprido o serviço prévio de Fernández, cabia a ele, agora, executar a operação propriamente dita. Evidente que Townley não poderia assassinar Letelier sozinho: ele precisava de braços auxiliares para desfechar a ação. Mas isso não era problema; ele sabia, exatamente, quem procurar nos Estados Unidos para este tipo de serviço. Já há algum tempo, na realidade praticamente desde o golpe de 1973 no Chile, a Dina mantinha contatos com exilados cubanos anticastristas nos EUA, a quem destinava fundos ou prestava serviços em troca de sua colaboração eventual em determinados favores. Eram esses os homens que Townley iria procurar: certos exilados cubanos experientes e determinados na prática do crime político.

Depois de despedir-se de Fernández no aeroporto, Townley rumou para uma agência da Avis-Rent-a-Car, onde alugou um carro. E de lá seguiu para um encontro, em Nova York mesmo, com o primeiro cubano de sua lista: Virgilio Paz Romero, dirigente de um certo Movimento Nacionalista Cubano uma das inúmeras organizações anticastristas com sede nos EUA. Na entrevista com Paz, Townley pediu um contato com outro cubano do Movimento Nacionalista, Guillermo Novo Sampo Townley sabia da utilidade de Novo para ações violentas. Na década de 60, esse cubano, junto com seu irmão Ignacio, chegara a cumprir pena por ter dado um tiro de bazuca na sede da ONU, em Nova York, na hora em que Ernesto "Che" Guevara fazia um discurso dentro do edifício.

Foi arranjado para o dia seguinte um encontro entre Townley e Novo. Este morava no Estado de Nova Jersey, nas vizinhanças de Nova York - e foi guiado por Paz, no carro deste, que Townley para lá se dirigiu.

Uma vez na casa de Novo, Townley foi apresentado a um terceiro cubano - José Suárez Esquivel. Townley expôs a Paz, Novo e Suárez sua missão, e os quatro discutiram preliminares da operação. Ficou marcado um novo encontro do grupo para dali a três dias. Ficou acertado também que, nesse novo encontro, se juntaria mais um - o último - cubano ao grupo: Alvin Ross Díaz.

VII Agora o time estava completo. No dia 13 de setembro, Townley e os cubanos Paz, Novo, Suárez e Ross se encontraram no Château Renaissance Hotel, em Nova Jersey. Discutiu-se novamente a operação e foi feita uma primeira divisão de serviços. Novo e Suárez ficaram de arranjar explosivos do tipo C-4 e um detonador para Townley. Esse material lhe seria entregue dali a dois dias - e assim Townley já estaria pronto para viajar para Washington e desencadear a ação.

Assim foi feito. No dia 16 de setembro, com os explosivos e o detonador na bagagem, Paz e Townley seguiram para Washington, no carro do primeiro, e hospedaram-se no Holyday Inn Motel. Nesse mesmo dia, Paz e Townley tomaram ainda mais uma providência: passaram numa loja Sears, Roebuck compraram certos itens que faltavam para a bomba - soldas, pilhas, fios. Dois dias depois, no dia 18, era Suárez quem chegava a Washington. Suárez instalou-se no Best Western Envoy Motel e chamou os outros dois companheiros. Ali, na tarde desse dia 18, a trinca dedicou-se a juntar todo o material que havia trazido e montar a bomba.

Para o dia seguinte estava reservada a parte mais arriscada da missão. A gangue de Townley havia decidido que Letelier morreria em seu carro, quando estivesse viajando pelas ruas de Washington. Era uma maneira mais cirúrgica, mais precisa de fazê-lo morrer. Mas, para isso, era necessário alojar a bomba no carro de Letelier. Essa foi a tarefa do dia. Na manhã desse 19 de setembro, Townley, Paz e Suárez foram a Bethesda. Em frente à casa de Letelier, Paz e Suárez ficaram com a missão de espiar se não aparecia nenhum estranho enquanto Townley se arrastava para baixo do Chevrolet Chevelle Malibu de Letelier e ali alojava a bomba, bem sob o assento do motorista.

A operação foi executada com êxito e o grupo dispersou-se. Paz voltou a Nova York. Townley foi a Nova Jersey, onde deu conta dos passos dados até ali a Novo e Ross, e fez um telefonema para o Chile. Nesse telefonema, Townley avisou a mulher, Mariana Callejas - ela também uma agente da Dina - que uma bomba havia sido colocada no carro de Letelier. Caberia a Mariana dar conta da operação em Washington aos superiores da Dina. Enquanto isso só Suárez ficou em Washington. A ele cabia a tarefa de, com um detonador de controle remoto, situado num dos pontos do itinerário seguido toda manhã por Letelier, fazer a bomba explodir. A sorte do ex-chanceler já estava selada.

VIII Já havia uma bomba esperando Letelier - mas, claro, para o ex-chanceler, naquela noite do dia 19, a vida transcorria na rotina de sempre. É certo que Letelier sofrera algumas atribulações nos últimos dias - mas se tratava de estocadas perfeitamente suportáveis. Mais especificamente, Letelier fora alvo de uma explosão de ira da Junta Militar chilena, pouco antes, no dia 10 de setembro, quando, por um decreto baixado em Santiago, tivera cassada sua cidadania chilena. Mas o ex-chanceler reagira à altura.

Poucos dias depois, durante uma manifestação contra o regime chileno realizada no Madison Square Garden, em Nova York, ele bradara: "Nasci chileno, sou chileno e morrerei chileno. Eles, os fascistas, nasceram traidores, vivem como traidores e serão lembrados para sempre como traidores fascistas". Letelier continuava tão chileno, na verdade, que no dia 18 de setembro, data nacional do Chile, dera uma festa em sua casa - e, com outros exilados dançara a cueca, a música folclórica dê seu país.

Dois dias depois, naquele fatídico 20 em que a bomba já se escondia sob o assento, Letelier convidou dois colegas de trabalho no Instituto de Estudo Políticos - o casal americano Michael e Ronni Moffitt - para um jantar de trabalho em sua casa. À tarde, Letelier telefonou para sua mulher, Isabel, dando conta de que os Moffitt apareceriam à noite. Poucas horas depois, Letelier chamava de novo Isabel: como o carro dos Moffitt não queria pegar, explicou ele, iria esperá-los para transportá-los para casa em seu próprio carro. Chegaria um pouco mais tarde, portanto.

Por volta das 8 horas, Letelier chegou em casa, com os Moffitt - e o casal permaneceu na residência do ex-chanceler até meia-noite. Como Moffitt continuavam sem condução, Letelier ofereceu-lhes seu carro para irem embora. Ficou acertado que, na manhã seguinte, o casal passaria pela casa do ex-chanceler para acompanhá-lo até o trabalho - e assim foi. Às 8h45 da manhã do dia 21, uma terça-feira, Ronni e Michael Moffitt chegaram à casa de Letelier. O casal desce um pouco enquanto o chileno acabava de se aprontar. Em seguida, os três se alojaram no carro, Letelier na direção, Ronni Moffitt a seu lado e Michael no banco de trás. Letelier iniciou então se caminho habitual.

No centro de Washington, pegou a River Road até a rua 46, depois dobrou a Massachusetts Avenue. Como fazia todas as manhãs, Letelier passou pelo Embassy Row, o lugar onde se alinha a maioria das embaixadas em Washington.

Quando circundava o Sheridon Circle, às 9h30, num ponto situado justamente a poucos metros da embaixada do Chile, ouviu-se, no carro, um barulho como que de "água despejada sobre um fio quente", como diria depois Michael Moffitt e em seguida espocou como que um "flash branco". O carro explodiu. As pernas de Letelier saltaram para um lado, o tronco para o outro. Ronni Moffitt teve rompida um artéria vital. Só Michael Moffitt, expelido para fora do carro, escapou com vida. Terminava a aventura da Dina. Mas, naquele mesmo momento, começava o novelo de mistério, crime e política que iria desembocar nos acontecimentos da semana passada.

 
   
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