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Reportagens 9 de julho de 1980João Paulo II une o Brasil
Quem não viu o papa, na semana passada, se perdeu do Brasil. Foi impossível, virtualmente, não estar ligado de alguma forma na maior multidão que, em toda a História do pais, já se atrelou por tão longo tempo a um mesmo acontecimento e a um só homem. Foi impossível, também, não ser atingido pelo rádio e pela televisão desde que, ao meio-dia da última segunda-feira, João Paulo II beijou o chão de Brasília e passou a ser acompanhado por uma audiência diária de 50 milhões de pessoas. Quem esteve no Brasil e não se importou com o papa virou excêntrico - à luz de um novo padrão nacional de comportamento que, diante de João Paulo II, foi capaz de unir gente tão diversa quanto o presidente João Figueiredo e o "teólogo da libertação" Leonardo Boff, expoente da esquerda eclesiástica. Figueiredo, ao acolitar João Paulo II no parlatório do Palácio do Planalto, não se conteve - e puxou um coro popular na praça dos Três Poderes: "Viva o papa!". Boff, contra quem se arrasta no Vaticano um processo de heresia, pela Congregação da Doutrina da Fé, saiu terça-feira da missa campal no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, irreconhecível - vestia o hábito de franciscano, que raramente enverga, e parecia um jovem beato à antiga recém-saído do seminário. "Ele apertou minha mão", gritava. E repetia: "Ouviu meu nome e apertou minha mão". Vencida a distância entre a fé de Boff e a de Figueiredo, todo brasileiro tornou-se parecido na presença do papa. Geraldo, o garçom da nunciatura que, em Brasilia, serviu a Sua Santidade o frugal almoço de canja, queijos e frutas, tomou-lhe o copo de suco de laranja antes que o papa acabasse a bebida para guardar como relíquia. "Dá sorte", esclareceu. Não é gafe, levando-se em conta que o próprio governador de Brasília, coronel Aimé Lamaison, proibiu até os convidados de entrar na penitenciária da Papuda durante a visita de João Paulo II aos presos, mas abriu exceção para a neta - que, como dezenas de outras crianças, teve direito ao colo do papa. Houve trégua, também, nas azedas brigas internas da Igreja. Em Belo Horizonte, postos lado a lado no altar, dom Geraldo Sigaud, arcebispo de Diamantina e padroeiro da TFP, conversava em boa paz com o esquerdista dom Mário Gurgel, bispo de Itabira. E em São Paulo, reunida no Ibirapuera, uma inédita multidão de 10.000 freiras, muitas vindas da clausura de ordens monásticas de São Paulo e Minas Gerais, repetiu cenas que, antes dessa viagem, se diriam prerrogativas de platéias jovens e laicas. Interromperam 66 vezes, com aplausos, a homilia de 50 minutos de João Paulo II. Cantaram o refrão do encontro com operários paulistas no estádio do Morumbi: "João, João, João, o papa é nosso irmão". Escalaram cercas do ginásio para cumprimentar o chefe da Igreja e agradeceram sua bênção final com gritos de "Ele merece, ele merece" - expressão cujo significado o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, teve de explicar ao ouvido do pontífice. O que ele explicou não se sabe. O fato é que João Paulo II reagiu com um convite à platéia - "Vamos cantar?" -, absolvendo o slogan profano dos auditórios de Abelardo "Chacrinha" Barbosa, animador que, por coincidência, não participou da festa papal. Estava preso, na semana passada, por desrespeito à Censura. Ambientes ainda mais austeros que um encontro de freiras foram contagiadas pela "febre de João Paulo". No Rio, jantando quarta-feira no Sumaré, a residência episcopal, com os bispos latino-americanos do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), João Paulo II começou a cantarolar, sentado entre Nesse clima, bastou a primeira semana de João Paulo II no Brasil para arrasar velhas lendas brasileiras sobre a diferença entre o estilo apaixonado das grandes massas populares e os modos mais sóbrios da corte. Depois da missa no Campo de Marte, velho aeroporto para aviões particulares de São Paulo, foram precisamente os convidados especiais que tomaram iniciativa de invadir o altar para depená-lo de todos os adereços - das flores aos pedaços do plástico que encapavam a estrutura. Em Belo Horizonte, foram as famílias dos militares encarregados do Aeroporto de Pampulha que romperam os cordões de isolamento para apertar a mão do papa e beijá-lo. Em contraste, não houve sequer sinal dos incontroláveis pandemônios entre a multidão que muitos chegaram a temer, lembrando a recente visita de João Paulo II à África. Para a missa no Aterro do Flamengo, só das paróquias da zona norte saí ram 225 voluntários, para zelar - no meio da multidão que cobriu o gramado em frente ao altar montado no Monumento dos Pracinhas - pelas árvores do esplêndido parque de Burle Marx. No dia seguinte, os garis da Comlurb, ao recolherem toneladas de papel picado e copos descartáveis, tiveram uma surpresa: não encontraram uma lata de cerveja nem um arbusto depredado. As multidões que cercaram o papa não tinham de especial apenas o tamanho nunca visto. Eram inéditas, também, pela índole extraordinariamente educada - que as faziam capazes, por exemplo, de ouvir em completo silêncio, quarta-feira, no Maracanã ocupado por 150.000 pessoas, um sermão de 50 minutos ininterruptos, algo jamais visto no estádio mais ruidoso do mundo. No Maracanã, durante a ordenação de 74 sacerdotes - de acordo com o "anjo da guarda" de Wojtyla, monsenhor Paul Marcinkus, "a maior cerimônia do gênero que ele já celebrou" - desfiou-se um rosário de fenômenos. Nas arquibancadas cheias, ninguém brigou durante as três horas por que se estendeu a solenidade. Coisa nunca imaginada, quando acontecia algo fora do comum, era o público que chamava em coro pela polícia. A imensa maioria sabia de cor os hinos litúrgicos - a ponto de passar quase inapercebida a pane do sistema de som minutos antes da missa. E não houve empurrões nas rampas do Maracanã, como é infalível em qualquer jogo de média bilheteria. Ali, como em tantos outros momentos de culto do programa de João Paulo II, não estava diante do papa a platéia monumental de um superespetáculo mundano - mas uma incalculável multidão crente ou, pelo menos, respeitosa. A massa levou decorado, para as cerimônias, o hino "A Bênção, João de Deus", divulgado pela CNBB às vésperas da chegada do papa. Muitos recordaram o hino do 36º Congresso Eucarístico, realizado no Rio 25 anos atrás - o hino foi cantado mais de uma vez por milhares de vozes. E todos sabiam dizer o "Pai-Nosso" em uníssono. Há outros sintomas de que o país começou a atravessar dias de trégua. Depois da passagem do papa por Minas Gerais, o coordenador do Centro de Operações da Policia Militar de Belo Horizonte, coronel Faria, anunciou que o número de delitos registrados na cidade - numa terça-feira em que a maior parte da população se concentrou nas ruas - caiu, paradoxalmente, à metade. "Desde que estou aqui no centro, há um ano, foi a primeira vez que passei uma noite tranqüila", ele comentou. "Houve apenas sessenta casos de agressões leves, quando a média é de 120, mais duas a quatro mortes e cinco a dez roubos." Durante as 24 horas em que João Paulo II esteve no Rio não houve registros de ocorrências na delegacia da Cidade de Deus - que normalmente contribui para as estatísticas policiais com três homicídios por dia. Tanta cordura surpreendeu a imprensa estrangeira - o Le Monde admirou-se com a ausência de empurra-empurra na missa do Aterro - e até mesmo os organizadores da festa. Dom Eugênio Sales, no Rio, deixara acertado com dois paroquianos, no Aterro, um alarma em código contra quaisquer incidentes - de defeitos técnicos na aparelhagem de som a distúrbios com o público aglomerado junto ao altar: ele ergueria os óculos duas vezes seguidas. Não precisou usar o recurso. Igualmente, o Palácio do Planalto amanheceu, na segunda-feira, preparado para uma invasão. Por iniciativa do Gabinete Militar da Presidência, o Palácio fora cercado por 350 vergalhões, sucata da Rede Ferroviária Federal, fincados nos jardins à profundidade de mais de 1 metro. Entre eles, estenderam-se 2 quilômetros de cabos de aço, de um quarto de polegada, tornando o palácio inexpugnável. Alguém se lembrou, a essa altura, que, se a multidão fosse comprimida de encontro à barreira, poderia haver gente degolada pelos fios de aço - e então se acolchoou a fortaleza com 420 pneus velhos, pintando o conjunto de amarelo e branco em homenagem às cores do Vaticano. Era para prevenir a tomada do Palácio por 500.000 pessoas, público calculado pelo governo para a recepção de João Paulo II pelo presidente João Figueiredo. E, principalmente, para que não se repetisse uma desagradável experiência ocorrida em 1970: quando o presidente Emílio Medici recebeu a seleção tricampeã do mundo, milhares de pessoas forçaram a rampa do Palácio e foram escoradas com golpes de lança pelos Dragões da Independência. Toda a armadura de aço e pneus, na semana passanda, revelou-se inútil: para desapontamento geral, foram cerca de 500 pessoas - em lugar das 500.000 - assistir ao evento na praça dos Três Poderes. Em parte porque o bispo João Carlos de Oliveira, que ajudara a grande missa no Eixo Monumental, tomou o cuidado de desviar seu rebanho de 250.000 pessoas do caminho da sede do governo no fim da liturgia. Ao ver os primeiros curiosos avançarem para o altar improvisado na Esplanada dos Ministérios, passagem obrigatória para o Palácio do Planalto, o bispo perdeu o sangue-frio e passou a exortar pelo microfone: "Voltem para suas casas! Vão para a rodoviária!" A esse apelo, os soldados da Polícia do Exército formaram uma barreira - com o resultado de que, no fim da tarde, o governo cogitava se houvera realmente acaso - ou intenção - nas iniciativas que lhe esvaziaram a pompa do encontro do papa com Figueiredo. Não faltavam antecedentes de disputa, em Brasília, entre a Igreja e o Estado pelo controle da festa. Dias antes da chegada do papa, por exemplo, não havia bancos para a missa campal na Esplanada dos Ministérios porque nenhuma das paróquias de Brasília cedia os seus. Cadeiras não resolveriam, pois afundariam na grama. Foi preciso que o Departamento de Turismo do Distrito Federal se queixasse ao bispo: o núncio apostólico dom Carmine Rocco, o embaixador do Vaticano em Brasília, despachou então uma ordem para dom José Newton, arcebispo da capital, e os bancos apareceram. Menos os dos salesianos - estes simplesmente desobedeceram à recomendação da arquidiocese. O fato é que, em face da rala audiência na praça dos Três Poderes, o governo pensou em esconder a recepção ao papa nos salões do Palácio. Salvou-se a espontaneidade de João Paulo II. O chefe do Cerimonial, Jorge Ribeiro, cochichou a monsenhor Marcinkus, o inseparável assessor pessoal de João Paulo II, que seria prudente o papa não aparecer no parlatório. Marcinkus retrucou que o papa saudaria o povo de qualquer maneira. Ribeiro foi então aos ouvidos de Figueiredo. Outra surpresa: "Se o papa quer", respondeu o presidente, "nós vamos". Foram - e acabaram trocando vivas na sacada. João Paulo II também dissipou assombrações em suas poucas horas em Brasília. Em primeiro lugar, as do próprio Figueiredo - que deixou escoar apenas um adjetivo, mas superlativo, sobre o encontro de 45 minutos que teve a sós com o papa: "Foi agradabilíssimo", segundo inconfidência do líder do PDS, Nelson Marchezan, que esteve com o presidente na tarde de terça-feira. Fez um discurso que o Palácio do Planalto qualificou de "muito bom", o da chegada - quando agradeceu a acolhida do governo - e outro que o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo, desafeto do governo, interpretou como "acima das expectativas" - quando, no Palácio do Planalto, condenou a política de limitação da natalidade e pregou, com palavras sóbrias e moderadas, uma melhor distribuição da renda. As expectativas de dom Paulo deveriam ser extremamente pessimistas, pois é bem difícil supor que o papa pudesse pregar uma pior distribuição da renda. Mas mesmo essas prudentes, discretas advertências de João Paulo II conseguiram incendiar imaginações radicais. Como a da deputada pernambucana Cristina Tavares. Embora convidada, como todo o Congresso, ela relutava em comparecer à recepção da Presidência por dois motivos: é da esquerda do PMDB, logo não considera de bom tom pisar os tapetes do Palácio; e estava de partida para Cuba, portanto devotada a outra viagem que não a do papa. Mas sua mãe, dona Maria das Mercês, chegou a Brasília, vinda do Recife, e cassou-lhe o direito de não ir: "Você quer ver Fidel, eu quero ver o papa". Cristina Tavares foi, gostou e teve até uma miragem - acredita que o papa desferiu um "verdadeiro bombardeio sobre o poder". A verdade é que cada um viu o papa que quis e isso foi uma garantia da festa de conciliação que rapidamente apagou, a partir de Brasília, o que se acredita ser a mais intransponível das divisões na sociedade brasileira: a que separa as multidões interessadas em se aproximar das solenidades públicas e os agentes de segurança empenhados em manter essas mesmas multidões à distância. Havia um excesso visível de aparato militar em Brasília, onde carros de combate estacionaram até diante da catedral e quatro soldados - do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e da PM - decoraram o altar da missa ao ar livre. Isso não impediu que se cumprisse a profecia de Marcinkus, que avisara as autoridades brasileiras a respeito de um fenômeno universal: a conversão de policiais e soldados que guardam o papa em devotos prontos para aplaudi-lo, rezar ou furar seus próprios cordões de isolamento como qualquer popular entusiasmado. As tropas, formadas ao longo do Eixo Monumental, estavam secretamente equipadas com câmaras miniatura - tipo Xereta. Quando o papa passava, centenas de soldados tiravam dos bolsos as máquinas de amadores e faziam suas próprias fotografias de lembrança. Houve, entre as forças de segurança, cenas mais dramáticas. Na saída do Maracanã, atirou-se diante do carro de João Paulo II o tenente Martinelli, coordenador da segurança no portão 13. Queria beijar a mão do Santo Padre e foi recompensado em seu arrojo: João Paulo II deu-lhe um terço. Durante a missa no Aterro, os soldados da Polícia do Exército acompanharam o "Pai-Nosso" e o cântico do Ofertório, partilharam a água dos cantis com a multidão, por cima de cercas, e saíram de forma para ver, dentro do Monumento dos Pracinhas, João Paulo II sendo vestido com os paramentos litúrgicos. Em Belo Horizonte, no momento em que a comitiva deixava o palácio episcopal, Marcinkus teve de empurrar para fora do carro um policial que pretendia beijar o anel do papa. E, quando o padre italiano Sebastião Tirino, de Sabará, agarrou-se às mãos de João Paulo II para impedir que viajasse ao Rio de Janeiro, não houve quem os apartasse. O soldado mais próximo fotografava a cena em vez de evitá-la. Sem violência para reprimir e sem segurança para atrapalhar, os brasileiros deram aos prelados da Cúria Romana embarcados na comitiva um "banho de multidão". O cardeal Agostinho Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, espantava-se: "Nunca vi coisa igual". Falava de Belo Horizonte, onde havia gente praticamente em cada metro de terreno com boa vista para o cortejo, ao longo dos 15 quilômetros que ficam entre o Aeroporto da Pampulha e o altar montado ao pé da serra do Curral. "O papa está muito contente", acrescentaria monsenhor Eduardo Martins Somalo, assessor de Casaroli, depois que o povo mineiro foi para baixo das janelas do Palácio Cristo-Rei, onde João Paulo II almoçava, pedir-lhe para ficar em Belo Horizonte. E o cardeal Sebastiano Baggio, ex-núncio no Brasil, hoje presidente da Congregação dos Bispos, chegou escondido ao Rio de Janeiro, terça-feira, com uma forte impressão de Minas Gerais: "Impressionante". Em Belo Horizonte, terça-feira de manhã, a visita de João Paulo II ganhou sua medida espetacular e seu estribilho: "Rei, rei, rei, o papa é nosso rei" - uma adaptação do coro da torcida do Clube Atlético Mineiro que, horas depois de soar pela primeira vez na praça Israel Pinheiro, já era repetido no Rio e em São Paulo, levado pela TV. Foi ao ler a homilia, na missa para 100.000 jovens e quase outros 750.000 mineiros de todos os municípios do Estado. Interrompido 29 vezes por aplausos, o sermão - longo como todos os sermões de Wojtyla - durou mais de uma hora. João Paulo II abençoou o entusiasmo: "Pode-se olhar as montanhas e Belo Horizonte, mas sobretudo quando se olha para vocês, é que se deve dizer: que belo horizonte!", ele improvisou. Nesse instante, começou o coro de "Rei, rei, rei", que ele confundiu com um refrão ouvido na Cidade do México. "Devo dizer que no México diz 'Ra, ra, ra'", informou o papa à multidão. Repetia "Ra, ra, ra", em seguida mudou para "Ro, ro, ro" - e assim começou, no meio da missa, um mágico diálogo de monossílabos do papa com sua audiência de Minas Gerais, coroado por um "Hu, hu, hu" polonês que o mundo tinha ouvido pela primeira vez como expressão de alegria do papa em Nova York, no ano passado. "O papa leva daqui uma grande saudade de vocês", ele acenou do altar. "O papa não esquecerá vocês nunca mais." Belo Horizonte deu-lhe o primeiro calor da multidão, mas o Rio de Janeiro deu ao programa do papa o ritual inesquecível. Desde que o avião de João Paulo II chegou à cidade, terça-feira à tarde, o tempo esteve impecável - desmentindo todas as previsões da meteorologia e confirmando uma tradição romana de quase dois anos: desde que as audiências de quarta-feira passaram ao ar livre, neste pontificado, só choveu duas vezes em dias de público na praça São Pedro. No Corcovado, de onde quarta-feira passada ele abençoou o Rio do alto de 400 metros, sua boa sorte beirou o prodígio. A estátua do Cristo Redentor, que amanhecera afogada em nuvens e neblina, tornou-se visível justamente na hora de sua chegada. Na missa no Aterro do Fiamengo, um autêntico festival litúrgico em que a Prefeitura gastou mais de 17 milhões de cruzeiros, dom Eugênio Sales, o cardeal do Rio de Janeiro, baniu para sempre de sua arquidiocese uma grande lenda da esquerda católica: a de que a Igreja do Rio, dirigida com conservadorismo e tradição, não tem real contato com o povo, e que dom Eugênio, o anti-revolucionário por excelência, não tem pendor para as grandes manifestações populares. O cardeal, simplesmente, geriu um monumental espetáculo de massa - e fez da cerimônia no Aterro o ponto culminante da visita de João Paulo II. Em Belo Horizonte, por exemplo, os celebrantes fizeram questão de anunciar, do altar, que o coral - "ao contrário de outros lugares" - era improvisado. No Rio, dom Eugênio cuidou para que fosse ensaiado - inclusive pelo cenógrafo Abel Gomes, o mesmo dos shows de Frank Sinatra em janeiro. Gomes teve seus maus pedaços. Como ao convencer os 2.000 integrantes do coral das paróquias, amadores, a usarem as túnicas brancas e amarelas que os transformavam numa parte da decoração. Houve ameaça de deserções e o cenógrafo precisou catequisar quase um por um para a noção de que a missa era um espetáculo. "Um espetáculo de fé, mas um espetáculo" - que começou com um pôr-do-sol cheio de cores, foi ajudado por uma noite de lua e acabou com um show de fogos de artifício cercando o altar na baía de Guanabara. A previdência de dom Eugênio armou, para todas as grandes aparições de João Paulo II no Rio de Janeiro, mais que o cenário, a passarela imprescindível a seu contato ordenado com as multidões - e o produto desse cuidado foi um ritual que poderia ser imitado em todo o resto do país. No Aterro do Flamengo, no Maracariã, até na catedral metropolitana - onde o papa se encontrou com a assembléia do Conselho Episcopal Latino-Americano, na manhã de quarta-feira -, todas as solenidades começavam e acabavam por um desfile de João Paulo II pelo meio da assistência, fazendo do Rio a cidade brasileira onde o papa esteve mais próximo, fisicamente, das pessoas. No Maracanã, por exemplo, o papamóvel, antes de parar diante do altar, deu uma volta e meia lentamente, pela geral do estádio. No Aterro, passeando devagar pela plataforma apenas ligeiramente superior ao mar de cabeças, para que todos pudessem enxergá-lo, e baixo o bastante para estar ao alcance de mães que lhe estendiam crianças e braços que se espichavam para tocá-lo, o papa levou o carioca a um surto desconhecido de delírio: 500.000 pessoas cantando o "Queremos Deus". Foi um espetáculo extraordinário - e insuperável como emoção. Ali, no Flamengo, ficou claro que a visita do papa ao Brasil estava tornando-se a mais brilhante e intensa de todas as treze viagens que ele fez em seu pontificado - algo capaz de arrancar longas descrições da imprensa internacional e obter prime time na televisão americana. São Paulo, onde se esperava o ponto crítico da visita, com alta combustão política, foi um pouco o contraponto do Rio - quase um anticlímax, na verdade. Na capital paulista, onde o altar da missa no Campo de Marte escondia o papa, 20.000 soldados mobilizados pelo governador Paulo Maluf isolavam-no e o protocolo estabelecido pelo cardeal Arns fê-lo desaparecer, logo após a bênção, por trás de um tabique, o cântico era outro, na manhã de quinta-feira: "Queremos ver o papa, queremos ver o papa. Desce, desce". Lá, de resto, celebraram-se as exéquias de outro antigo mito brasileiro, na razão inversa do mito que falecera no Rio: o de que um arcebispo militante é um trunfo indispensável à Igreja para encher as praças e que as grandes massas populares só não desertarão da fé se forem conduzidas por um clero integrado na Teologia da Libertação. Desde o desembarque de João Paulo II, não há mais dúvidas de que, amparada num papa como Wojtyla, a Igreja é de longe a instituição que movimenta o mais formidável contingente da sociedade brasileira. Mas isso já fazia parte das crenças nacionais desde que os políticos começaram, duas eleições atrás, a deitar olhos lânguidos sobre as comunidades eclesiais de base. A novidade, que se descobriu com a vinda do papa, é outra - quase contraditória. Aprendeu-se que esse poder não é monopólio da Igreja esquerdista: era um atributo latente do catolicismo que João Paulo II acordou. No Rio, a arquidiocese conservadora conseguiu mostrar que está em condições de treinar nas paróquias centenas de milhares de fiéis a cantarem, com certa afinação, o hino "O Senhor É Meu Pastor". Em São Paulo, a arquidiocese progressista revelou que suas comunidades de base ainda não ensaiaram direito suas palavras de ordem. Com a contribuição do governador Maluf, que errou a dose da segurança e depois furou a fila da comunhão no Campo de Marte, do tempo, que trouxe as primeiras chuvas da viagem de Wojtyla, e da aparente provocação de terroristas de direita que, na véspera da chegada do papa ao Estado, seqüestraram e seviciaram o professor Dalmo de Abreu Dallari, da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, a quinta-feira foi dia mais confuso que esfuziante. Na missa campal, o comandante do II Exército, general Milton Tavares, engoliu sem maior disfarce o trecho da "Oração dos Fiéis" em que se pedia a Deus pelo arcebispo - quer dizer, por dom Paulo Evaristo Arns, com quem Tavares perdeu de vez a cortesia desde a última greve do ABC, em abril. Em troca, dom Paulo aproveitou-se da oportunidade para rechear sua saudação ao papa com denúncias de injustiças sociais que atazanaram o banco das autoridades. E o padre Celso Pedro, da paróquia Cristo Rei, que ajudou a missa - por sinal, missa tecnicamente neutra, pois dedicada à beatificação de Anchieta, o padroeiro de São Paulo - incluiu na liturgia suas pitadas de sal da terra, acondicionadas na embalagem política da diocese. No Ofertório, quando dois seminaristas levaram ao altar o pão e o vinho, ele comentou pelos alto falantes que faltava dividir com a mesma unção a renda nacional. Em seguida, subiram crianças com flores. Ele sustentou, então, que eram "o símbolo das flores vencendo os canhões", alusão à canção de Geraldo Vandré que virou hino dos metalúrgicos em greve este ano. Tudo na frente de um papa que um dia antes, na missa de ordenação do Maracanã, condenara a politização do sacerdócio. A quinta-feira ainda teve o encontro de João Paulo II com os operários, no estádio do Morumbi - programa que, com um mês de antecedência, vinha despertando temores políticos e fermentando escaramuças ligeiras entre o governo estadual e a Cúria Metropolitana. No começo, padre Olívio Rolim, responsável pela organização, recebeu do secretário de Turismo de Maluf, Francisco Rossi, a intrigante oferta de ajuda por parte do governo - que se encarregaria das obras de construção do altar e do sistema de som. Há uma semana, Rossi telefonou a Rolim e desfez o trato alegando falta de verbas. E o remédio foi a Cúria fazer uma adaptação de última hora por mais de 1 milhão de cruzeiros. Houve prisões no estádio: um operário e dois estudantes. E, enquanto se esperava o papa, que chegou com uma hora e meia de atraso, a assembléia se preparou para a missa com o cântico "Fica Mal com Deus", também de Geraldo Vandré. Às 6 e meia da tarde, quando João Paulo II entrou no Morumbi, estava tudo pronto para um grandioso evento sindical. Mas, para alívio de uns e desapontamento de outros, a cerimônia no estádio simplesmente não deixou no ar a aura incendiária que se chegou a imaginar nas últimas semanas. O fato é que quem esperou por isso não contava com pelo menos duas particularidades do homenageado. Primeiro, Wojtyla tem toda a prática de lidar com assembléias operárias - até porque ele mesmo foi operário na Polônia em sua juventude, quando aliás costumava deixar perplexos os colegas ao se ajoelhar para rezar na hora do Angelus, em pleno expediente de trabalho. Depois, o papa, sempre que fala, fala ex-cathedra - ou seja, é a voz do sucessor de São Pedro que, do trono da Igreja, apresenta sua doutrina. Tanto assim que todos seus discursos, os menores que sejam, são recolhidos aos anais canônicos. Assim, a golpes de charme pessoal, de um lado, e à força da homilia-padrão de 50 minutos, de outro, João Paulo II domou uma sessão feita para ser conduzida pelo auditório - e as tentativas de politização de sua passagem por São Paulo acabaram não dando em nada de substancial. Ali, mais uma vez, João Paulo II deixou evidente que tem o dom de obscurecer, quase por completo, tudo que não esteja imediatamente ligado a sua figura. Assim como cruzou impávido os salões do governo, João Paulo II passou sem perder o pé pelos encontros com os interlocutores sindicais em São Paulo. No fim do dia e fora do programa - por intervenção de dom Paulo Evaristo - ainda recebeu, na capela do colégio Santo Américo, o ex-dirigente sindical Luiz Inácio da Silva, a viúva do operário Santo Dias, morto na greve dos metalúrgicos do ano passado, e outros dez sindicalistas. Foi reunião para 10 minutos, o suficiente para que ninguém saísse perdendo nem ganhando. "Foi importante por ter a Igreja conseguido vencer a barreira que nos foi imposta de fora", trovejou Lula, ao se retirar. E, sobre a parte concreta das negociações, reconheceu: "Havia muitas coisas para dizer e para ouvir, mas não foi possível devido ao cansaço do papa". Na verdade, o gesto que empurrara o encontro de João Paulo II com os operários paulistas para o segundo escalão do programa de sua visita ao Brasil não havia sido um bocejo, mas um movimento de pura beleza tática. Pois, antes de cumprir seus deveres com o clero sindicalista de São Paulo, o papa foi, na quarta-feira, à favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, em pleno e seguro território de dom Eugênio - e ali já havia deixado seu supremo aceno de deferência à Igreja dos Pobres. No Vidigal, ele retirou do dedo nada menos que seu anel pontifício, com 21 gramas de ouro, e o doou ao padre Ítalo Coelho com uma breve dedicatória: "Para o pároco do Vidigal". Em vista de tanto ouro em ambiente tão pobre, concluiu-se com excessiva pressa que se tratava simplesmente de uma esmola aos favelados. Afinal, em 1965, Paulo VI também mandou vender sua tiara de ouro e pedras preciosas para fazer transfusão de recursos a obras de caridade. Mas a doação não foi uma esmola - em primeiro lugar, porque o anel não vai ser vendido. No final da semana, ele estava alojado na Igreja de Santa Mônica, no Leblon, à espera de que o cardeal Eugênio Sales decida seu destino. Em forma de cruz, com a imagem de São Pedro e os símbolos dos evangelistas no aro, essa jóia foi avaliada por um especialista em 42.000 cruzeiros - ou 300.000, num leilão de colecionadores. De qualquer forma, uma ninharia para resolver os problemas financeiros do Vidigal e sua paróquia. O valor desta jóia - e desta doação do papa - é bem outro. Wojtyla recebera esse anel das mãos de Paulo VI ao ser sagrado cardeal em 1967. A inscrição que ele ostenta - "In Nomine Domine", ou "Em Nome do Senhor" - resume o vínculo do bispo com sua Igreja. Por isso não faltaram vaticanistas, no comboio do papa, para concluir que ele acabara de conferir à modestíssima capela ele São Francisco do Vidigal, erguida pelos próprios favelados especialmente para a visita, o status pontificio - ou seja, a capela se tornaria uma das paróquias do papa, em sua condição de bispo de Roma. João Paulo II, assim, prestou a maior homenagem possível ao trabalho pastoral junto à pobreza antes de partir para São Paulo - e na arquidiocese de dom Eugênio Sales, estrito disciplinador de comunidades de base e severo fiscal de teologias revolucionárias, não na de dom Paulo Evaristo Arns. Depois da parábola do anel do Vidigal, não haveria santo capaz de mudar, em São Paulo, o saldo desta opção pelos desvalidos - pelo menos enquanto o anel ficar no Leblon. Por isso é que o papa tem mais que o domínio da própria oratória - ele tem o domínio da própria agenda. Graças a essa pauta, montada como uma pequena obra prima de equilíbrio, suas viagens, desde que o jato papal zarpa de Roma - trazendo aliás na bagagem todos os discursos prontos, e todas as decisões tomadas - estão menos sujeitas à ação dos elementos do que se supõe. Seguem um curso no qual tudo foi desenhado de antemão para conduzir aos resultados estipulados pelo papa. Antes do Morumbi, a favela do Vidigal - e logo depois da avançada, inquieta São Paulo, mergulha-se sem tardar na antiga, beata Aparecida do Norte, com muita devoção, muito santo e muita reza. Não é milagre, por exemplo, que ele pareça infatigável entre comitivas esfalfadas e tranqüilo em seus atrasos no meio de séquitos esbaforidos. Monsenhores e até fotógrafos que o acompanharam ao Brasil foram vistos com freqüência cochilando durante a missa em Brasília, e no dia seguinte em Belo Horizonte. Boa parte da imprensa estrangeira saltou etapas ou ancorou no Rio. No avião que os trouxe de Roma os prelados ressonavam ao passo que o papa circulava entre os jornalistas respondendo a entrevistas de um por um dos membros do comitê de imprensa. A resistência física de João Paulo II é, sem dúvida, excepcional. Mas também não se discute que uma fonte dessas reservas é de outra natureza - num programa complexo como o dessa passagem de doze dias pelo Brasil, o papa é o único a ter a visão e o controle prévio dos resultados. Ele pode estar cansado diante de Lula, sereno diante de governantes nervosos, confiante diante de multidões em êxtase. E isso, se não substitui as horas de sono que ele perde numa viagem dessas, certamente faz do papa um interlocutor que está sempre em vantagem. Eis mais um sentido em que João Paulo II, nestes dias, está unindo o Brasil: com ele, do governo à oposição, do Palácio do Planalto à assembléia sindical do Morumbi, ninguém pode fazer outra coisa senão escutá-lo. Há uma semana o país não tem lugar para outra preocupação. Em cada cidade onde chega, João Paulo II traz um feriado. Estima-se que só a interrupção do trabalho em São Paulo na quinta-feira custou o equivalente a 30 milhões de horas/homem em salários pagos com a produção suspensa - ou algo próximo aos 40 milhões de dólares. Em cada capital por onde passou, parou tudo. Mais ainda, na semana passada, o Brasil ganhou, com a oficialização do Dia de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro, mais um feriado nacional - e mal se deu conta disso. Muito menos parecia ter percebido que, neste ano, o dia 12 de outubro cairá, justamente, num domingo. Horas antes de tomar coma desse país hipnotizado por sua presença, a bordo do jato que o trazia do Vaticano, João Paulo II falou ao correspondente de VEJA em Roma, Marco Antonio de Rezende, explicando sua fórmula para uma saída do capitalismo que não leve ao comunismo e do comunismo que não leve ao capitalismo. "É preciso uma corajosa revisão de dois séculos de nossa civilização, uma revisão muito objetiva, muito honesta, sem pressupostos." Por esse caminho, segundo o papa, se chega à "civilização do amor". Nos últimos dias, João Paulo II foi dividido por uma elite ávida de definições políticas e seguido por colossais multidões que ficam satisfeitas apenas em vê-lo, ainda que isso lhes custe ouvir homilias imensas e às vezes inacessíveis. Para quem espera as definições, é provável que a viagem deixe uma esteira de debates e reinterpretações. Para os outros, sua presença já trouxe uma experiência do "amor que move o Sol e as outras estrelas" - a fórmula de Dante para o Paraíso. |
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