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9 de junho de 1976

O momento da opção eleitoral

Como ocorre a cada ano eleitoral, o vespertino romano Paese Sera está mais uma vez tocando a todo vapor sua promoção Toto Partiti-1976 - uma versão adaptada do Totocalcio, a loteria esportiva. Com um rigoroso regulamento de dez artigos, o concurso promete "riquíssimos prêmios" em dinheiro aos vencedores. Tudo o que eles têm a fazer é adivinhar o que a Itália inteira gostaria de saber: os percentuais que cada partido político obterá nas eleições gerais dos próximos dias 20 e 21 - consideradas as mais decisivas desde 1948, quando uma esmagadora vitória democrata-cristã excluiu os comunistas do governo.

Desde então, sozinha ou em diversas coligações, a Democracia Cristã tem governado a Itália, os comunistas têm permanecido na oposição e nunca se pensou, seriamente, que esse quadro pudesse ser mudado. Mas agora, quando o país vive sua maior crise desde aquela época, um Partido Comunista participando do governo italiano tornou-se uma possibilidade mais concreta que em qualquer outra ocasião. A cada eleição, o PCI tem conseguido um persistente avanço. Diversas pesquisas de opinião já apontaram ninguém menos que seu secretário-geral, Enrico Berlinguer, 54 anos, como o político que inspira "maior confiança" aos italianos. E a visão de comunistas sentados no gabinete da Itália passou a ser, para muitos, um temor real dentro e fora do país.

É verdade que, a duas semanas das eleições, não existe nenhuma certeza técnica de que o PCI consiga a maioria dos votos. Mas a situação de seus adversários tem sido tão abalada, que Berlinguer e seu partido - com mais de 1,7 milhão de membros, o maior do mundo ocidental - acabaram capturando as atenções gerais. Sobretudo porque a sua participação no governo, mesmo minoritária, certamente teria conseqüências bem além das fronteiras da Itália.

"Sem retorno" - Inicialmente, haveria um inevitável rebuliço junto às forças esquerdistas e comunistas que tentam o mesmo em países como a França e a Espanha. O êxito do PCI, que se proclama independente de Moscou há décadas e que intensificou esse afastamento nos últimos tempos, provocaria uma imprevisível ressonância também na Europa oriental - e, quem sabe, na própria União Soviética. E os principais vínculos da Itália - com o Mercado Comum Europeu, com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental, e com os Estados Unidos poderiam ser drasticamente afetados.

Os comunistas, assim, tornaram-se o grande tema em debate, dentro da campanha eleitoral - e, desde o início, seus adversários não têm hesitado em lançar dúvidas sobre a postura ordeira e democrática que o PCI decidiu levar a público. "Conduzir o PCI ao poder seria um caminho sem retorno", advertiu Benigno Zaccagnini, secretário-geral da OC. "O comunismo italiano seria ortodoxo", falou num comício o presidente do partido, o veterano Amintore Fanfani. E Giorgio Almirante, líder máximo do Movimento Social Italiano - Direita Nacional, o partido neofascista, tem proclamado sempre: "Só nós podemos enfrentar os comunistas".

Tipicamente, a violência e os conflitos estão presentes na campanha. Houve atentados a várias sedes locais dos partidos, greves em hotéis, bares e restaurantes. E, no episódio mais dramático, o deputado neofascista Sandro Saccucci matou a tiros, perto de Roma, um militante comunista - pelo que foi detido na semana passada, quando tentava cruzar a fronteira suíça. Mas, considerando-se as tensões em jogo, no cômputo geral a campanha eleitoral tem sido calma, sóbria e feita com orçamentos modestos pelos partidos - todos previamente de acordo em gastar pouco.

Dias perdidos - Para disputar os 40,8 milhões de italianos, porém, não se economizou em criatividade. Os neofascistas usam filmes e fitas cassete para demonstrar que sua votação é que impediu os comunistas de chegarem ao poder em 1972. Diversas rádios libere - que transmitem, fora do monopólio estatal no setor, em freqüência modulada e se multiplicam como cogumelos - trocaram programas de rock por debates políticos. E, nos diversos partidos, houve uma corrida a candidatos "diferentes" - gente como o general Nino Pasti, por exemplo, ex-comandante da aviação da OTAN, que para surpresa geral concorre pelo PC.

Acima das originalidades, em todo caso, os italianos refletem sobre a corrosiva decomposição da vida nacional - fator, justamente, que levou o PCI a fortalecer-se tanto. Muitas dessas preocupações concentram-se nos soturnos gráficos da economia. O número de desempregados, por exemplo, se aproxima de 1,4 milhão, equivalente a 9% da força de trabalho. O custo de vida, que subiu 11 % no ano passado, deverá atingir um índice duas vezes maior neste ano. A lira perdeu, desde janeiro, mais de um terço de seu valor, e houve uma queda de 24% nos investimentos industriais em 1975 - o que contribuiu para que a renda nacional caísse 3,7%.

Os 23 milhões de dias de trabalho perdidos na indústria no ano passado devido a greves e faltas - um índice oito vezes superior ao da França - sangraram o fundo da produtividade, e deverão aumentar este ano. Também se prevê um crescimento nas despesas do Estado - que subiram 35% em 1975. A dívida externa já supera os 16,5 bilhões de dólares, e o país gasta a estonteante parcela de um quarto de seu Produto Nacional Bruto em importações. Finalmente. a Itália, que já foi um dos "celeiros da Europa", compra no exterior cerca de 4 bilhões de dólares em alimentos - inclusive tomates, a matéria-prima para os mais populares molhos de sua venerável cozinha.

Contratempos - Para muitos italianos, porém, perturba ainda mais a triste deterioração da qualidade da vida nos últimos anos. O terrorismo político faz agora parte do cotidiano, e só este ano ocorreram mais de 350 atentados. Guarda-costas particulares se multiplicam no mesmo ritmo do aumento dos seqüestros e da criminalidade. Mais: o fantástico, inigualável patrimônio artístico do país vem sendo livremente dilapidado - pelos ladrões e pelo tempo, e muitas vezes de forma irreparável. Os grandes museus, de forma chocante, definham à falta de verbas e o próprio Scala de Milão corre o risco de fechar. O italiano médio, enfim, já se acostumou a uma série de contratempos: falta de artigos essenciais, como certos remédios ou papel higiênico, um correio caótico, trens que atrasam ou não chegam devido a greves.

Mas, para a maioria, o pior aspecto da sociedade italiana parece ser o caótico funcionamento da sua imensa, inepta e freqüentemente corrupta burocracia. De cada 26 cidadãos, um é funcionário público. O aparelho do Estado se estende em proporções kafkianas por 56.000 diferentes agências governamentais, atulhadas de funcionários. Nada menos que 2.000 delas são conhecidas simplesmente como enti inutili: suas funções são inexistentes, desconhecidas ou se perdem no tempo.

Há departamentos ainda hoje destinados a assistir os órfãos da última Guerra Mundial, que terminou há 31 anos, ou os veteranos das campanhas de Garibaldi, encerradas há mais de um século. Com isso, muitos funcionários usam suas mesas como ponto comercial - recebem telefonemas, fecham negócios imobiliários, marcam encontros. Tudo é extraordinariamente lento: uma escola distrital que pretenda construir uma sala de aula a mais, por exemplo, tem que passar a papelada por oitenta diferentes repartições, e há processos que, ao ritmo atual, só serão concluídos em meados do século XXI.

Mesmos líderes - Inevitavelmente, os ônus pelo drama italiano acabaram desabando sobre os detentores atuais do poder, os democratas-cristãos. Hoje, há uma tendência a culpá-Ias de tudo - desde os escândalos das contribuições irregulares feitas pela Lockheed, pela CIA e pelas multinacionais de petróleo a vários de seus membros, até o mau desempenho do selecionado nacional de futebol. E, se bem que a corrupção e o "desgoverno" estejam longe de constituir uma acusação falsa, também é inegável que trinta anos de DC transformaram a Itália. O PNB, por exemplo, aumentou dezesseis vezes desde 1948, e o país, durante vinte anos a partir do começo da década de 50, cresceu num ritmo só superado no Ocidente pelo Japão. Um invejável complexo de auto-estradas foi construído, o analfabetismo foi eliminado - e a Itália se manteve como uma das sociedades mais livres do mundo.

Seja como for, os italianos estão cansados dos mesmos líderes. Há casos de ministros, como Emilio Colombo, do Tesouro, que já integraram o gabinete 22 vezes. Praticamente todos os políticos "ministráveis" da DC são os mesmos há vinte anos. E, como se não bastasse, o partido se encontra dividido por alas rivais e entredevorantes, que mal conseguem reconciliar-se às vésperas da eleição. O beneficiário de tudo isso? Cada vez mais, o PCI - e, ironicamente, pela sua rígida estabilidade interna. "Na Itália só há duas forças organizadas", diz o escritor esquerdista Leonardo Sciascia. "O PCI e a polícia."

Talvez não se esteja muito longe disso - mas, de qualquer forma, o PCI recusa-se a falar na "vitória eleitoral". Na campanha, além de condenar qualquer triunfalismo prematuro, Berlinguer abandonou até mesmo a proposta do "compromisso histórico" - uma futura aliança entre comunistas e democratas-cristãos, concebida por Berlinguer em 1973. Como tem dito, "ao menos pelos próximos anos, a Itália deveria ser governada por uma ampla coalizão de todos os partidos democráticos e populares, inclusive o Comunista" - o que excluiria, apenas, os neofascistas. Trata-se, assinalou, de uma emergência, de "salvar a Itália" do caos.

Em Roma? - Na verdade, os comunistas gostariam de esperar mais um pouco, o suficiente para consolidar os ganhos das eleições regionais de junho do ano passado - quando obtiveram 33,4% do total de votos, pouco atrás dos 35,3% da DC. De qualquer forma, o PCI dispõe de uma sólida base para a próxima disputa: tem 11.500 células em atividade, governa todas as principais cidades do norte de Roma - como Milão, Bolonha, Turim, Florença e Veneza, seis das vinte regiões e quarenta das noventa províncias (espécies de com arcas) do país, onde vive 50% da população da Itália. E as pesquisas mostram que poderá governar a própria Roma: nos dias 20 e 21, além das eleições gerais, serão também escolhidas as administrações municipais da capital, Gênova, Foggia e Bari, além do governo regional da Sicília.

O PCI também tem, a seu favor, uma folha de serviços administrativos a apresentar. Bolonha, por exemplo, governada desde 1945 pelos comunistas, é uma das cidades mais prósperas e ordeiras da Itália. Em Reggio Emilia, também há anos sob gestão do PCI, funcionam creches públicas, as passagens de ônibus são grátis na hora do rush, os serviços públicos em geral são eficientes. Na caótica Milão, onde o PCI chegou ao poder há um ano, houve uma drástica redução na burocracia. E em Turim a administração comunista não impediu que a ITT decidisse expandir suas atividades na área.

Os comunistas parecem conseguir notável sucesso, também, em fazer com que se fale menos de seus próprios pecados como governantes - e esses pecados estão à vista. Em várias cidades, por exempIo, as administrações comunistas têm a inquietante praxe de só empregar membros do PCI. Há queixas sobre o excessivo endividamento de várias prefeituras, ao mesmo tempo que problemas crônicos permanecem sem solução. E na desastrosa Nápoles - onde o PCI vinha governando até a queda do prefeito, no mês passado - houve uma passeata de desempregados que pediam aos comunistas locais "menos entrevistas' à imprensa e mais ação".

Policentrismo - A todas as críticas que lhe são dirigidas, o PCI em geral reage mostrando seu caráter "diferente" - algo que tem suas razões históricas. O PCI seguiu curso próprio desde que surgiu em 1921, como uma dissidência do então poderoso Partido Socialista. E seu fundador Antonio Gramsci, o principal filósofo marxista italiano, nunca esteve muito próximo do modelo soviético. Em suas obras, sustentou que as mudanças revolucionárias não deveriam necessariamente ocorrer pela força ou por meio da "ditadura do proletariado" conceito que ele substituiu por uma fórmula mais polida, a "hegemonia da classe trabalhadora". Segundo Gramsci, os problemas da Itália poderiam ser resolvidos por um processo gradual e não-violento, pelo qual a "classe trabalhadora" se apoderaria pacificamente das "instituições democráticas burguesas".

Ao longo dos anos, o PCI nunca romperia com essa linha. Após a queda do fascismo, em 1943, PaImiro Togliatti - que liderou o partido até sua morte, em 1964 - regressou de um exílio de doze anos na URSS defendendo uma "via democrática" para o socialismo e deu seu apoio à aprovação de uma Constituição liberal para a Itália. E, embora tivesse apoiado a repressão soviética à rebelião húngara de 1956, Togliatti acabou consolidando a teoria do "policentrismo" que falava na viabilidade de caminhos "nacionais" diferentes para o socialismo". Pouco antes de morrer em Yalta, ele ainda irritaria o Kremlin com um célebre memorando defendendo a autonomia dos diversos PCs.

De lá para cá, o PCI tem cada vez mais se afastado de Moscou. Denunciou a invasão da Checoslováquia em 1968, por exemplo, e parou de atacar o Mercado Comum Europeu. "Deixá-lo seria; um desastre para todo mundo", admite Giorgio Amendola, 69 anos, membro da Direzione, o birô político do PCI. O lema "Itália fora da OTAN, OTAN, fora da Itália" foi abandonado. "Achamos que manter um equilíbrio militar na Europa é essencial", diz Giorgio Napolitano, considerado o "número 2" do partido. Ao contrário de seus camaradas de outros países ocidentais, os comunistas italianos não costumam passar suas férias de verão em balneários da Rússia ou da Bulgária. E há livrarias do partido, em Roma, onde se vendem livros de Alexander Soljenítsin.

Malabarismos - Nada disso, porém, muda o fato essencial de que o PCI, acima de tudo, é um partido comunista. Seria uma imperdoável ingenuidade, por exemplo, achar que num confronto Leste-Oeste ele se alinharia contra a URSS. No aspecto interno, sobram razões para desconfianças: por sua organização, seus segredos, sua disciplina, o PCI não difere muito do sombrio universo dos demais partidos comunistas. O princípio do "centralismo democrático", por exemplo, é aplicado de forma até mais rígida que em outros partidos irmãos. Apesar das negativas dos seus dirigentes, fontes diplomáticas comentam que o partido ainda ganha grandes somas de dinheiro nas transações da Itália com os países socialistas, por meio de obscuros malabarismos. E não há, na realidade, uma única garantia de que os comunistas aceitariam, estando no poder, um jogo democrático que sempre os favoreceu na oposição.

Não falta, é claro, quem chame a atenção do eleitorado italiano sobre esses e outros pontos. A começar pelo adversário natural dos comunistas - a Igreja. Com efeito, desde 1948, quando Pio XII decretou a excomunhão de quem auxiliasse os comunistas naquelas eleições, o Vaticano não tomava uma posição tão clara a respeito da política itaIiana. E a insólita presença de várias personalidades católicas na chapa de candidatos do PCI - como Raniero La Valle, ex-diretor do jornal oficioso católico L'Avvenire, o escritor Marco Gozzini, o jornalista Piero Pratesi - apenas tornou a Igreja ainda mais atenta em suas advertências.

O cardeal Antonio Poma, presidente da Conferência Episcopal Italiana, lembrou inicialmente os católicos sobre a "hora determinante" e conclamou-os a "não dispersar suas energias" nas eleições - clara indicação de que devem votar na DC. O próprio papa, a seguir, Iamentaria indiretamente a "traição" desses católicos. Poma voltou à carga, falando mesmo em excomunhão para os católicos que apoiarem o PCI, e a Conferência Episcopal, apoiada depois expressamente pelo papa, alertou para "ideologias inconciliáveis com a visão cristã do homem". Enfim, L'Osservatore Della Domenica, órgão do Vaticano, classificou como "pecado mortal" o voto no PCI.

Concordata - É verdade que o Vaticano dotado de seus próprios meios de pesquisa de opinião - a capilar rede de paróquias e dioceses por todo o país -, aparentemente não espera uma derrota da DC. Tudo indica, porém, que está preparado para aplicar suas alternativas, se ocorrer uma vitória comunista. Em tal hipótese, reconheceu a VEJA na semana passada um prelado da Cúria Romana, não se espera que os comunistas interfiram nos assuntos religiosos, e nem mesmo queiram reformar a Concordata entre a Santa Sé e o Estado italiano - desejada pelo próprio Vaticano. Em contrapartida, a Igreja não procuraria sabotar o governo, e tentaria uma convivência correta com as autoridades.

Um outro setor hostil ao PCI, o empresariado, mantém-se em atitude prudente, mas está obviamente apreensivo - um claro sinal são os 8 milhões de dólares que saem ilegalmente por dia do país. Em todo caso, algumas vozes poderosas têm evitado condenações mais claras. O coruscante Giovanni Agnelli, todo-poderoso presidente do gigantesco conglomerado Fiat e ex-presidente da Confederação das Indústrias, por exemplo, pediu a seus colegas empresários que não entrem em pânico diante das "soluções originais" que a situação política torne necessárias "no futuro próximo".

Seu irmão mais jovem, Umberto, "vice-rei" da Fiat e candidato a senador numa lista independente da DC, é igualmente vago, considerando apenas "estranha" a suposta adesão do PCI a uma estratégia de respeito à livre empresa. O magnata Roberto Olivetti também acha que é o momento de entrar para a política, e se candidatou a senador pelo Partido Republicano. Outros, como Guido Borghi, dos eletrodomésticos Emerson, consideram "impensável" a possibilidade de um governo comunista - embora acreditando que poderiam continuar seus negócios. E o industrial têxtil Giordano Zucchi, da Lombardia, já é de opinião que "também o PCI tem direito de participar da administração - desde que não obtenha poderes demais. Nesse caso, corremos riscos irreversíveis".

Quatro pontos - O PCI, naturalmente, apressa-se em dizer que nada de ruim vai acontecer para as empresas. A iniciativa privada não será esmagada, garantem seus dirigentes. E seu plano econômico é, pelo menos oficialmente, moderado. Basicamente, consiste em quatro pontos:

• simplificar o auxílio estatal à indústria, hoje espalhado por quarenta diferentes agências de financiamento e dependendo de intermináveis trâmites burocráticos;

• concentrar recursos em quatro setores primários - agricultura, construção de habitações e escolas públicas, transportes e energia;

• canalizar os gastos públicos através dos governos locais;

• controlar vigorosamente os gastos do Estado - "a causa da inflação e da corrupção'.

Além disso, anuncia Luciano Barca, o PCI implementaria um serviço de saúde pública semelhante ao britânico, tornaria a taxação mais "eficiente" e procuraria convencer os industriais dos EUA a, mais uma vez, investir na Itália. É possível que tudo isso realmente ocorra com o PCI no governo? Segundo muitos observadores, tal hipótese não é inviável - pelo menos nos primeiros tempos. Uma coisa, porém, é certa: de uma eventual convivência das forças tradicionais da Itália com o PCI dependerá o grau de aceitação que um governo integrado pelos comunistas teria no âmbito ocidental.

Por enquanto, a hostilidade da maior potência do Ocidente à idéia é praticamente frontal. Segundo o secretário de estado americano, Henry Kissinger, a questão de saber se esse ou aquele PC europeu é mais ou menos moderado, ou mais ou menos próximo a Moscou, é secundária. Todos são inadmissíveis - e por várias razões. Uma delas, diz Kissinger, é que não concordariam nunca em abandonar o poder, mesmo em caso de derrota eleitoral. Outra, é que seriam obrigados a cortar as verbas militares, que chegaram a 4 bilhões de dólares no ano passado. "Isso seria como arrancar os dentes da OTAN", disse a VEJA, em Washington, um funcionário da organização.

Flanco sul - Nem todos os especialistas americanos em diplomacia, é verdade, mostram a mesma preocupação de Kissinger. Três ex-membros do governo Lyndon Johnson, por exemplo - George Ball, Zbgniew Brzezinski e Paul Warnke, todos candidatos ao cargo de secretário de estado americano após as eleições de novembro próximo -, acreditam que a presença do PC no governo italiano não seria fatal para a OTAN. E Brzezinski, que poderá substituir Kissinger se Jimmy Carter for eleito presidente, chegou a recomendar entendimentos imediatos com os comunistas. Seja como for, fontes do Departamento de Estado reconhecem que, se os comunistas vencerem as eleições ou integrarem o governo italiano, "a realidade terá que ser encarada".

Na verdade, se a Itália viesse a se afastar inteiramente da OTAN (uma das "hipóteses de trabalho", no caso de vitória comunista, seria sua exclusão apenas do Grupo de Planificação Nuclear e da Comissão dos Planos de Defesa, órgãos mais vitais), a organização sofreria um rude desgaste. O esquema ocidental perderia, de imediato, 1.300 tanques, 500 aviões de combate, uma Marinha razoável e sessenta regimentos de forças de terra. Além disso, ver-se-ia desfalcado de um território estratégico indispensável, sobretudo após o quase desmantelamento do "flanco sul" da OTAN - com a saída da Grécia da organização, os desentendimentos da Turquia com os EUA, os violentos atritos greco-turcos e a instabilidade em Portugal.

A península italiana, com efeito, é preciosa para o Ocidente. Os submarinos atômicos se abrigam na Sardenha, a VI Frota tem suas principais bases na Sicília e o quartel-general do flanco sul da OTAN é em Nápoles. Além disso, nada menos que 1.300 bombas atômicas e uma grande quantidade de equipamentos sofisticados americanos estão armazenados atualmente na Itália. Finalmente, se após a morte de Tito a Iugoslávia se reaproximar de Moscou, a Itália estará na posição-chave de país de fronteira com o bloco soviético.

Atoleiro político - Por todas essas razões, não se acredita que os americanos venham a forçar a saída da Itália da OTAN - embora os resultados eleitorais possam levar à alteração de sua estrutura. O que pretenderia então Kissinger ao considerar "intolerável" a participação dos comunistas no poder? Para alguns, trata-se simplesmente de uma advertência retórica, especialmente necessária num ano de eleições presidenciais nos EUA. Para outros, é indicação de que os EUA preparariam uma ofensiva econômica contra uma Itália socialista - diretamente ou através de seus parceiros no Mercado Comum Europeu, aos quais Roma já deve 15 bilhões de dólares. Seus aliados, em tal caso, seriam a Alemanha e a França.

Esse imenso elenco de preocupações de vários setores, entretanto, pode perfeitamente estar sendo em vão. Pois as últimas pesquisas de opinião, realizadas pelo Instituto Demoskopea para o jornal esquerdista romano La Repubblica, mostram que os comunistas têm atualmente um percentual semelhante ao obtido no ano passado - 32,4% -, sendo superados em 1,1 % pelos democratas-cristãos. Os socialistas perdem 0,3 %, caindo para 11 ,3 %. Todos os demais partidos, com exceção do Republicano e da coligação de extrema esquerda Democracia Proletária, perdem votos. Outras pesquisas, em linha geral, coincidem. Se elas se concretizarem, nenhum partido terá clara maioria - e o impasse poderá ser total.

De fato, o líder do Partido Socialista, Francesco Martino, já declarou que um eventual apoio socialista à DC ocorrerá se os comunistas também repartirem "os ônus do poder". A DC, por sua vez, deixou claro que não aceita qualquer apoio comunista que implique o ingresso do partido no gabinete - se perder as eleições, irá para a oposição. E os comunistas, finalmente, insistem em integrar o governo, numa coalizão que inclua a DC. Mantido esse quadro, a Itália não deve esperar nada de bom. O país, simplesmente, não pode continuar paralisado - e é justamente isso que vai ocorrer se, após as eleições, não sair de seu atual atoleiro político.

 
   
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