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9 de fevereiro de 1972
A conquista
da eficiência

 

 

"A Petrobrás às vezes é exigente demais. Chega à minúcia de determinar o tipo de lâmpada para iluminar as cartas da mesa de navegação." Este comentário de um engenheiro-chefe dos estaleiros Verolme não é uma reclamação, nem mesmo velada: as encomendas da Petrobrás chegam hoje a 75% dos pedidos recebidos por sua empresa. Além do mais, o desabafo correria o risco de ser tomado por uma gafe. O atual presidente da Verolme, Paulo Domingos Ribas Ferreira, talvez deva seu cargo à Petrobrás. Não que lhe faltem atributos para a nova função. Uma sua decisão, especialmente hábil, permitiu que a Verolme vencesse a concorrência para a construção de quatro petroleiros de 26.000 toneladas - como o comprimento do navio determina o seu preço, foram projetados navios mais curtos (e mais baratos), dentro das exigências da Petrobrás.

A Petrobrás é tão vigilante que exige, com o cronograma a ser apresentado na assinatura do contrato, as indicações de como, quando e, se possível, onde serão adquiridos os materiais para a construção dos petroleiros. Prudente, a Verolme mandou construir alojamentos para os fiscais de seu cliente - durante os próximos quatro anos, serão os implacáveis supervisores das obras do estaleiro da enseada de Angra dos Reis, no Estado do Rio, de onde sairão os navios. Entre os fiscais da Petrobrás e os engenheiros surgem discussões inevitáveis. A mais comum é provocada pela questão da pintura dos navios. Todos são construídos em blocos separados, depois encaminhados à linha de montagem final. A Petrobrás exige que cada um desses blocos seja pintado logo depois de construído, para evitar a corrosão. Tecnicamente, a exigência é inquestionável. Mas, para o construtor, resulta num acréscimo de gastos com material e mão-de-obra, pois a soldagem final queima a tinta já aplicada e torna obrigatória, portanto, uma nova pintura. Porém, tudo acaba sendo feito segundo as prescrições do cliente e qualquer tentativa de simplificar o trabalho em prejuízo das especificações contratadas morre no instante em que os meticulosos fiscais tomam conhecimento dos planos do construtor.

"O padrão das construções melhora quanto mais exigente for o freguês. E a Verolme está assimilando com rapidez os quesitos de eficiência da Petrobrás", admite o engenheiro-chefe.

Uma empresa estatal responsável por uma parcela razoável do vigor econômico de uma companhia privada é um fato significativo, mas não chega a ser extraordinário. O que parece original nas relações entre a Petrobrás e a Verolme é o rigor e a vigilância incansável com que a empresa estatal supervisiona a construção de encomendas feitas a uma companhia particular. Fato mais surpreendente ainda é que urna prestigiada empresa particular admita estar aplicando com êxito princípios de eficiência ministrados por uma companhia estatal.

NOVO RITMO NAS CONSTRUÇÕES - Em alguns setores, o governo já tem revelado qualidades de excelente empresário. Empurrado pela Eletrobrás, o Brasil passou de 5,2 milhões de quilowatts de energia instalada em 1961 para 11,2 milhões em 1970. Sustentado em três usinas estatais - Volta Redonda, Usiminas e Cosipa -, o país passou de 2,4 milhões de toneladas de aço em 1961 para 5,4 milhões em 1970. E a Vale do Rio Doce, respeitável gigante estatal, exportou 5 milhões de toneladas de ferro em 1961 e 21,4 milhões em 1970.

Durante muito tempo, porém, a Petróleo Brasileiro S.A. não conseguia produzir números tão convincentes. O que talvez possa ser explicado pela infinidade de atribuições confiadas a uma empresa monopolístíca: terminais marítimos, oleodutos, navios, refinarias, fábricas de asfaltos e fertilizantes, indústrias petroquímicas e a busca infatigável de óleo bruto em bacias sedimentares extensas e às vezes decepcionantes. Em 1970, no entanto, surgiram os resultados insuspeitos da sua eficiência. O lucro líquido apurado naquele ano foi 75% mais alto que o de 1969. A empresa, hoje, cria 70% dos recursos necessários à sua expansão - trata-se, portanto, de uma empresa praticamente autônoma -, o que permite afirmar que a sua capacidade de processar óleo cru passará de 781.000 barris por dia, em 1972, para 1,1 milhão de barris diários em 1975. A sua frota de petroleiros atingirá então um total de 2 milhões de toneladas - agora é de 800.000 - e exibirá majestosamente um petroleiro de 265.300 toneladas, com a tarefa de transportar minério de ferro para o exterior e trazer óleo bruto para o país. (Nos estaleiros da Ishikawajima japonesa, onde está sendo construído, esse navio ficou conhecido por "Ernesto Geisel", o atual presidente da empresa brasileira - enquanto fabricados, os navios precisam sempre de um nome que os identifique, mesmo que não seja o definitivo, de batismo.)

Num outro teste de eficiência de uma empresa - o tempo em que executa seus projetos -, a Petrobrás vem se comportando de forma irrepreensível. De 24 a 30 meses é o tempo de que alemães, americanos e japoneses precisam para construir projetos semelhantes às refinarias Pasqualini (Porto Alegre) e Gabriel Passos (Belo Horizonte) - que levaram quase oito anos para funcionar. E cinco anos levaram as fábricas de asfalto de Salvador e Fortaleza, inauguradas em 1966. A refinaria Duque de Caxias (RJ) só foi concluída em 1964, embora, desde 1961, viesse funcionando com parte de sua capacidade. De repente, a Petrobrás acertou no teste do tempo. Em outubro de 1969 começou a construção da maior refinaria de petróleo do país - a de Planalto Paulista, Replan, situada em Paulínia, nas proximidades de Campinas. (Sua capacidade inicial é de 150.000 barris diários, com expansão prevista para 300.000; a capacidade inicial das refinarias de Porto Alegre e Belo Horizonte era de 45.000, mas foram ampliadas para 63.000 b/d.)

MAS NÃO FOI SÓ NA REPLAN - Na semana passada, 28 meses depois, como na Alemanha, nos Estados Unidos ou no Japão, a Replan entrou em fase de pré-operação e brevemente será inaugurada. Seria possível supor que a Replan monopolizou o esforço recordista da Petrobrás. Mas não é o caso. O petróleo necessário aos testes da Replan foi transportado pelo oleoduto São Sebastião-Campinas, de 225 quilômetros, concluído quase na mesma época do Campinas-Barueri, de 105 quilômetros, a ser inaugurado proximamente. No mesmo período, foram executados os projetos de expansão das refinarias Presidente Bernardes (SP) e Duque de Caxias. Em conseqüência desse "rush", a empresa conseguiu um excedente na capacidade de refinação, o que lhe permite exportar derivados de petróleo.

O TESTE MAIS SEVERO - O lucro líquido dividido pelo número de empregados é o critério de análise mais severo a que se pode submeter a administração de uma empresa. Com dados retirados da revista americana "Fortune", na sua última lista das duzentas maiores empresas industriais fora dos Estados Unidos, a Petrobrás está em terceiro lugar entre as quinze empresas petrolíferas relacionadas, segundo o critério do lucro dividido pelo número de empregados - 4.700 dólares, o que é bem superior ao lucro do monopólio estatal italiano (ENI), do monopólio argentino (YPF), do monopólio mexicano (Pemex) - até aos 3.100 dólares da poderosa British Petroleum, uma das mais eficientes empresas privadas do mundo.

No entanto, para atingir esse resultado, a Petrobrás teve de abjurar um dogma até então essencial à doutrina das empresas estatais - o da vocação paternal e da generosa política de contratação de empregados. Em outubro de 1961, sua robusta folha de pagamentos abrigava 25.870 empregados. Em março de 1964, já eram 38.000 pessoas - com um aumento, portanto, de 50% em 29 meses. No mesmo período, sua capacidade de refinar petróleo cresceu em apenas 8%. Hoje, a Petrobrás tem 32.000 empregados e refina 781.000 barris/dia, contra 253.000 em 1964. Há onze anos, a refinaria de Manguinhos produziu 10.000 b/d e empregava quatrocentas pessoas. A Replan tem setecentos homens e refina 150.000 b/d.

O que houve foi uma mudança de estratégia. Dispensando uma mão-de-obra inútil, a Petrobrás se tornou mais eficiente, pôde expandir-se e, assim, criar empregos. A Replan, por exemplo, gastou 85 milhões de dólares na sua implantação - dos 110 do investimento total - em compras dentro do país, ou seja, materiais de construção e complexos equipamentos encomendados à indústria. Se esses 85 milhões tivessem sido digeridos pela folha de pagamentos, a Replan não teria existido e a Petrobrás perderia uma nova e fabulosa fonte de lucros. Da mesma forma, essa estratégia permitiu a ampliação da frota e, portanto, a compra de petroleiros fabricados em estaleiros nacionais.

O espírito filantrópico que contaminava o departamento do pessoal da Petrobrás não foi obviamente o único responsável pelas antigas penúrias da empresa. A Petrobrás também não investia na sua expansão porque as arcas do Tesouro brasileiro escondiam parcas reservas cambiais, dólares - faltava ao país uma agressiva política de exportações e os preços das matérias-primas exportadas caíam progressivamente - e não era possível comprar equipamentos no exterior; a inflação galopava morro acima, desvalorizando o cruzeiro e desmoralizando qualquer plano de investimentos; e, enfim, porque os preços dos derivados de petróleo - fonte de recursos da empresa - estavam ancorados numa taxa de câmbio há muito tempo inalterada.

Até 1964, um outro dogma perseguia as tímidas aspirações expansionistas da Petrobrás. Afirmava-se que, como empresa estatal, tinha o dever de cultivar as movediças aspirações da opinião pública, vendendo seus produtos a preços baixos. A tremenda influência que os combustíveis líquidos exercem sobre os preços dos produtos agrícolas exigia, então, por decisão política, que as empresas de transportes do Estado - como a Rede Ferroviária Federal, que por muito tempo foi amaldiçoada por um déficit assustador - e a Petrobrás evitassem contribuir para a elevação dos preços dos alimentos. Por isso, ocorria um pequeno fato capaz de provocar a mais patética perplexidade em quem, àquela altura, pudesse analisar a política da Petrobrás com isenção salomônica: em São Paulo, um litro de gasolina custava 126,30 cruzeiros antigos, enquanto uma Coca-Cola "família" saía por 133,33 cruzeiros.

IMPOPULAR, MAS NECESSÁRIO - Vendendo seus produtos a preços artificialmente baixos, a Petrobrás jamais cresceria se não desfizesse com rapidez o nó que amarrava a sua expansão: era preciso alterar a taxa cambial que, desde janeiro de 1963, tinha sido fixada em Cr$ 0,60.

Em 1956, Roberto de Oliveira Campos, então presidente do Grupo de Trabalho do Conselho de Desenvolvimento, deu o primeiro passo. Comprometeu a sua popularidade, acabou responsável por uma elevação dos preços agrícolas - e até industriais -, mas modificou a legislação sobre combustíveis líquidos antes cobrados na base de taxa fixa.

COMO AUMENTAR A RECEITA - Campos sugeriu e conseguiu a cobrança ad valorem, sobre o valor de venda da mercadoria. Em conseqüência, aumentou a receita da empresa e a Petrobrás pôde se lançar à construção da refinaria Duque de Caxias, projetou o oleoduto Rio-Belo Horizonte e ampliou a refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão.

Mas, ainda assim, o imposto ad valorem não seria capaz de gerar todos os recursos necessários, enquanto os preços ficassem deprimidos por taxas cambiais desatuafizadas. De 1956 a 1964, Campos pregou o realismo cambial. No governo de Castello Branco, como ministro do Planejamento, passou a taxa cambial de produtos petrolíferos de Cr$ 0,60 para Cr$ 1,85, no final de 1964. Mais valia aceitar a impopularidade - como realmente aconteceu - a permitir que déficits consecutivos instalassem o caos financeiro na Petrobrás. Em novembro de 1964, quando em sua maior parte os derivados já eram refinados no país, modificou-se outra vez a Lei do Imposto Único para tornar mais flexível o ajuste de preços.

Com essas providências, o faturamento da Petrobrás, em 1964, cresceu 121%, em relação ao ano anterior e os investimentos realizados chegaram a 120 milhões de dólares. Em 1965 as aplicações aumentaram para 160 e em 1966 para 190 milhões de dólares. A bola de neve dos 513 milhões de dólares - média anual dos investimentos programados para o período entre 1972/74 - tem origem nessas audaciosas decisões de 1964.

O crescimento do consumo nacional de produtos petrolíferos é um desafio tão gigantesco que exige a aplicação de massa espantosa de recursos financeiros. Em 1963, o Brasil consumia 115 milhões de barris de petróleo bruto por ano. Nos sete anos seguintes, o consumo aumentou em 62%, elevando o total a 186 milhões de barris. Em 1975, espera-se que o consumo atinja 282 milhões de barris por ano, um aumento, portanto, de 64% em apenas cinco anos, porcentagem superior à dos sete anos anteriores. Para evitar catastróficos estrangulamentos, a Petrobrás vai investir 1.540 milhões de dólares no, triênio 1972/74. Esse aumento no capital fixo da empresa brasileira corresponde a uma cifra quase igual ao valor conjunto do capital de dois outros poderosos monopólios estatais latino-americanos: a YPF argentina e a Pemex mexicana. Com exceção de duas empresas petrolíferas da lista do "Fortune", nenhuma possui capital que se aproxime dos recursos que a Petrobrás se dispõe a aplicar ao longo de três anos.

ONDE ENTRA A UNIÃO - O programa dará novo impulso à exploração e à produção de óleo bruto; aumentará a capacidade das refinarias, permitirá a implantação de uma outra unidade refinadora no Paraná (com capacidade efetiva de 150.000 b/d); ampliará consideravelmente a frota de petroleiros e abrangerá a construção de novos terminais marítimos e oleodutos. Essas aplicações serão, na verdade, a partida de uma marcha acelerada que se intensificará de 1976 a 1981, quando o consumo nacional, por ano, de derivados do petróleo será aproximadamente de 500 milhões de barris. Para esse programa, o imposto único de combustíveis líquidos - onde a União contribui generosamente para a expansão da Petrobrás - entra com 11,5% dos recursos previstos.

A história recente da Petrobrás teria sido muito menos animadora se o seu balanço e as contas da diretoria responsável por seu destino até março de 1964 não tivessem sido aprovadas. Em 24 de abril daquele ano, na sede da empresa, na praça Pio X, no Rio de Janeiro, o procurador-geral da Fazenda José Cavalcanti Neves propôs um adiamento da assembléia geral, alegando que precisava estudar mais detidamente o balanço e as contas. Naquela altura, quando era ensurdecedor o coro das denúncias de manobras ilegais da antiga diretoria, alguns mais prudentes e insensíveis à gritaria ponderavam que a não-aprovação do balanço significaria o descrédito da empresa - para acionistas, fornecedores, credores - e, quem sabe?, a sua liquidação inapelável.

APROVAÇÃO SEM RESERVAS - Foi marcada uma segunda assembléia para 27 de julho, também na praça Pio X. Ninguém arriscava fazer um prognóstico. "Era essa bomba de pavio curto que eu tinha nas mãos", diz Pedrylvio Guimarães Ferreira, procurador da Fazenda e, na época, vice-presidente da Comissão de Defesa dos Capitais. "Existe uma distinção", explica Ferreira, "entre o balanço - peça que reflete o estado econômico-financeiro, patrimonial da sociedade, num momento dado - e os atos da diretoria, suas contas. O balanço tem um sentido estático, enquanto a gestão tem um sentido dinâmico, envolvendo todos os atos da diretoria, dos quais resulta a situação patrimonial da empresa. E, desde que o balanço retrata essa situação patrimonial, desde que corresponde ao estado econômico-financeiro da sociedade, sua aprovação é inteiramente cabível."

A assembléia deveria escolher uma das seguintes soluções: não aprovar o balanço nem as contas, imobilizando a empresa; aprovar o balanço com reservas e não aprovar as contas da diretoria, o que também significaria uma paralisação da empresa, pois a suspeita de uma assembléia geral sobre o balanço de uma empresa do porte da Petrobrás acabaria produzindo um efeito igualmente devastador; ou aprovar o balanço sem reservas e aprovar as contas com reservas. O ministro da Fazenda, Octavio Gouvêa de Bulhões, deu instruções a Ferreira para aprovar o balanço com reservas, se assim fosse necessário. "Encontrou-se uma solução brasileira. Foram cumpridas as ordens do ministro, a Petrobrás foi salva e apuraram-se as responsabilidades da antiga diretoria", diz Ferreira. De fato, houve reservas, mas sobre as contas da diretoria, pois o balanço foi aprovado por vantagem esmagadora - a União detém a maioria dos votos da empresa. Foi criada uma comissão para estudar as contas da diretoria anterior e, num prazo de 180 dias, apresentar suas conclusões. Seu parecer foi límpido: nada foi encontrado que desabonasse a antiga administração.

O episódio da aprovação do balanço da Petrobrás inoculou algumas suspeitas sobre as verdadeiras intenções do regime instalado em 1964: afinal, seria respeitado o monopólio da Petrobrás? Da mesma forma, argumentos friamente técnicos muitas vezes questionam a propriedade do monopólio. A extração de petróleo no país corresponde a apenas um terço do consumo. O Brasil gastou, em 1970, 350 milhões de dólares com sua importação, e, em 1971, esse custo elevou-se a 417 milhões de dólares. Apesar do esforço incansável para descobrir novas fontes produtoras - há quinze dias, a Petrobrás divulgou a descoberta de um poço próximo de São Mateus, no Espírito Santo -, os acréscimos anuais de produção não chegam a encorajar a esperança de auto-suficiência a curto prazo. Apesar disso, no triênio 1972/74, os gastos para descobrir petróleo somam 643 milhões de dólares (a preços de 1971). Esse total é suficiente para a construção de seis refinarias da envergadura da Replan.

Os adversários do monopólio estatal se perguntam: é justo que uma empresa monopolista seja obrigada a concentrar tantos recursos - e tantos esforços na descoberta de petróleo? A resposta pode não ser imediata. Principalmente porque companhias estrangeiras - riquíssimas e eficientes - comprometem-se a investir na procura do petróleo escondido no território brasileiro, cedendo à Petrobrás metade do que for extraído. Governos de forte tendência nacionalista fizeram sociedade com companhias petrolíferas estrangeiras. É o caso da empresa estatal do Egito, que se associou à American International Oil Company, Amoco, subsidiária da Standard Oil of Indiana. O governo do Peru adotou uma agressiva política na área do petróleo, oferecendo concessões a companhias americanas, que investem seus recursos e se comprometem a entregar à Petroperu metade do óleo produzido.

São tão numerosos os exemplos e tão bons os resultados da divisão de riscos com o capital privado - segundo esses inimigos -, que alguns governos preocupados em explorar rapidamente seu petróleo resolveram separá-lo das complexas cogitações políticas. Sem o perigo de intervenção estrangeira em seus assuntos internos, o governo peruano nacionalizou a International Petroleum Company, subsidiária da Esso. Mas isso não impediu que outras companhias americanas aceitassem as novas condições fixadas pelos peruanos. Além disso, é incontestável a vantagem econômica da participação do capital privado na exploração de petróleo, num país em desenvolvimento. O que a Petrobrás gasta em pesquisa e exploração poderia ser desviado para outros setores da economia - a educação, a agricultura, os transportes. Há também um outro argumento: a soberania da Petrobrás jamais seria contestada por qualquer associado estrangeiro. Quando mais não fosse, por suas gigantescas proporções, mesmo se comparadas com o capital de 26 empresas estrangeiras que operam no Brasil.

UMA QUESTÃO RELIGIOSA - O petróleo deixou de ser questão de política externa - argumentam, então, os defensores do monopólio -, pois desapareceu o receio de intervenção estrangeira. E não é mais um problema econômico-financeiro, já que existem recursos suficientes para a sua exploração. Mas, no Brasil, sobrevive como questão religiosa, impenetrável por análises políticas ou econômicas. Quando técnicos estão tratando de problemas urbanísticos, uma análise racional conduziria à demolição de dezenas de igrejas, argumentam os favoráveis ao monopólio. O desafogo do tráfego, a construção de edifícios de trinta andares, a criação de áreas verdes poderiam aconselhar a derrubada de alguns templos. No entanto, isso jamais aconteceu. Sem a avaliação exata dos riscos, não se pode aplicar aos assuntos religiosos a terapêutica política ou econômica.

Hoje talvez fosse uma imprudência reabrir o debate em torno do monopólio estatal do petróleo - acreditam os defensores do monopólio. Em primeiro lugar, porque a entrada de companhias estrangeiras na exploração não asseguraria um aumento da produção. Depois, mesmo que essas empresas localizassem campos produtores, os efeitos econômicos só seriam conhecidos após quatro ou oito anos - enquanto que, logo após a sua entrada, poderiam ser fartamente conhecidos o caos político e a insegurança econômica que poderiam provocar. (Entre 1958 e 1971, a Argentina teve cinco presidentes - Frondizi, Illía, Onganía, Levingstone e Lanusse - que alternaram a permissão para a entrada de companhias petrolíferas com a proibição. Até Levingstone, que reduziu substancialmente seu campo de operação, o que foi mantido por Lanusse.)

NADA MAIS QUE UM EXERCÍCIO - Discutir essa questão pode não passar, inclusive, de um mero exercício intelectual: "Terei nessa casa como diretriz fundamental e permanente fazer com que a Petrobrás atenda e cumpra a finalidade básica para que foi constituída, ou seja, ser instrumento - legal e de fato - de exercer o monopólio pela Lei 2004", disse o general Ernesto Geisel, quando assumiu a presidência da Petrobrás em novembro de 1969.

Portanto, sem que se possa levantar qualquer suspeita sobre as intenções das recentes administrações da empresa, a Petrobrás tem condições de anunciar que a pesquisa, a exploração e a produção de petróleo não trazem nenhum ônus financeiro ao país. Em 1968 foram extraídos 59,7 milhões de barris de óleo bruto nos Estados da Bahia (86% do total), Sergipe e Alagoas. Segundo o preço médio que o barril de óleo bruto importado teve naquele ano (US$ 2,20), o valor da produção elevou-se a 131,3 milhões de dólares, ou seja, 450 milhões de cruzeiros, de acordo com a taxa média de câmbio naquele ano. Como os gastos em pesquisas, exploração e produção totalizaram 315 milhões de cruzeiros, o setor deixou um resultado líquido de 135 milhões de cruzeiros. Em 1969, feita a mesma subtração do valor da produção, menos os gastos em exploração e produção, o saldo líquido foi de 102 milhões de cruzeiros. Em 1970, o saldo baixou para 19 milhões, em conseqüência dos crescentes investimentos na exploração e na produção, mas as reservas recuperáveis cresceram para 857 milhões de barris.

Neste balanço incompleto não está incluído o valor de aproximadamente 9,8 milhões de barris de gás natural, nem os resultados da perfuração de 83 poços, em campos já produtores. (Desse total de poços, 62 deles já são considerados produtivos.)

A Petrobrás exerce todo o poder que lhe foi conferido pela Lei 2004. Utiliza o monopólio da importação de petróleo bruto, jogando com as diferentes fontes de fornecimentos para obter vantagens adicionais quanto a preços, prazos de entrega e duração dos contratos. As compras maciças no estrangeiro ainda permitem a troca de petróleo nacional (de melhor cotação no mercado externo porque não tem muito enxofre, e, portanto, não é poluidor) por maiores quantidades de petróleos estrangeiros, mais adaptáveis aos esquemas brasileiros de refino.

Com a mesma autoridade conferida pela lei, mostra-se bastante ágil nas exportações de eventuais excedentes de querosene para iluminação, parafina, óleo diesel (ano passado, exportou óleo diesel para a Argentina) e óleo combustível.

A Petrobrás, portanto, não parece interessada em utilizar o monopólio para adormecer na placidez de um mercado sem concorrentes. Usa-o para obter lucros.

É o que faz quando reexporta derivados para se apresentar em mercados novos e criar vínculos aproveitáveis no futuro, ou quando subloca navios de sua Frota Nacional de Petroleiros (Fronape) e, para compensar, aluga navios de terceiros, quando assim recomendam as ondas lucrativas do mercado.

SER EFICIENTE E TER LUCROS - Talvez por isso tantos bancos estrangeiros ofereçam empréstimos de prazos longos e juros baixos à Petrobrás. Ou talvez porque recentemente ela pagou a vista dois petroleiros encomendados a empresas japonesas.

De qualquer forma, quando são concedidos créditos à Petrobrás, banqueiros internacionais, dispensam o aval do Tesouro brasileiro e do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico - BNDE -, o que não acontece com qualquer outra empresa pública ou privada do país.

No ano passado, a Goodyear demonstrou ter igual confiança. Associou-se à Petroquisa, para criar a Nitriflex S.A., que vai produzir borrachas especiais. A empresa estrangeira entra com o capital e know how, mas terá apenas um representante na diretoria da nova indústria. A subsidiária da Petrobrás foi considerada competente para administrá-la sozinha. Segundo uma frase atribuída a Ernesto Geisel, "na Petrobrás ninguém tente ser chamado de corrupto; aqui, estamos preocupados em ser eficientes e obter lucros".


 
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