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Reportagens 8 de dezembro de 1993Dólares para Itamar PC volta ao Brasil e
Paulo César Farias é sinônimo de barulho. Descoberto em Bangcoc, a capital da Tailândia, cinco meses depois de ter fugido de Maceió, PC voltou ao Brasil fazendo barulho. Sentado na poltrona 11L da classe executiva do Boeing da Varig que o trouxe para o Brasil, o caixa da campanha de Collor estava falante. "Não tenho nada contra o Itamar", disse PC Farias a Flavia Sekles, de VEJA, durante o vôo de vinte e duas horas. "Mas o pessoal precisa entender que não se faz campanha com vento. Eu era o tesoureiro e de fato movimentava dinheiro para a campanha de Itamar em Minas. Não há nada de ilegal nisso." Perguntado se haveria um cheque de 700.000 dólares para Itamar Franco ou um assessor direto do então candidato a vice-presidente, o empresário alagoano respondeu: "Não me lembro, não sei ao certo". As declarações de Paulo César Farias no avião, ainda que vagas e inconclusivas, levaram o Palácio do Planalto a respondê-las. Afinal, era a segunda vez na semana que o tema chegava ao gabinete de Itamar. Na primeira, na quarta-feira, o senador José Paulo Bisol perguntou diretamente ao presidente se havia recebido cheques de PC durante a campanha de 1989. A nota oficial da Presidência tem sete linhas. Ela foi escrita durante uma reunião da qual participaram o jornalista Francisco Baker, porta-voz do Planalto, e o líder do governo no Senado, Pedro Simon, que se encontrava no palácio naquele momento. "Não fui tesoureiro da campanha, nem a nível nacional nem regional", diz a nota de Itamar. "Portanto, não posso confirmar quanto teria sido enviado para a campanha presidencial em Minas Gerais ou qualquer outro Estado da federação." Como o texto presidencial é quase tão vago e inconclusivo quanto as declarações de PC no Boeing, ele deu margem a diversas interpretações, em geral negativas para o presidente. "Esta nota diz muita coisa. Diz que o presidente admite ter recebido dinheiro de campanha mas não sabe quanto", afirma o deputado do PFL baiano Benito Gama, que presidiu a CPI do PC e agora integra a do Orçamento. "A resposta de Itamar não me surpreende", analisa o deputado Roberto Jefferson, uma das estrelas da tropa de choque collorida durante o impeachment. "O presidente reagiu como a criança apanhada fazendo alguma arte. A primeira reação é negar. Ele pode até não saber o volume do dinheiro enviado para a campanha, mas é claro que sabe de onde ele veio." Nos meios políticos, há meses se especula sobre a existência de uma ponte financeira ligando Itamar a PC Farias. O dinheiro - conforme o interlocutor, em um ou três cheques de fantasmas da pecelândia, somando 700.000 dólares - teria sido dado a um auxiliar de Itamar em Minas, Geraldo Farias, hoje diretor de recursos humanos do Banco do Brasil. A fonte desses rumores era o próprio Paulo César Farias. Antes de fugir do país, disse a vários interlocutores que Itamar vivia reclamando da falta de recursos para a campanha em Minas Gerais. Segundo PC afirmava na época, o candidato a vice era muito exigente em matéria de transporte: fazia questão de viajar de jatinhos Learjet 55, o mesmo usado pelo titular Collor, e não se conformava com modelos menores. Por fim, falava que havia despachado cheques de algumas centenas de milhares de dólares para despesas de Itamar. Um arrecadador da campanha, subordinado a PC, garante que despachou cheques no valor de 200.000 dólares em favor de Geraldo Farias. Eles teriam sido feitos em nome do fantasma Alberto Alves Miranda, titular de uma conta do BMC, na conta de Geraldo Farias no Banco do Brasil. Os cheques, no entanto, não apareceram. Com a explosão do escândalo do Orçamento e a paralisia do governo, a história dos cheques de PC tornou-se cada vez mais presente nas conversas brasilienses. Havia o receio de que alguém, de posse desses cheques hipotéticos, pudesse promover uma chantagem sobre Itamar, forçando a sua renúncia em troca da preservação de sua biografia. Com a renúncia, o presidente da Câmara, Inocêncio Oliveira, seria convocado a ocupar o Planalto pelo prazo de trinta dias, quando seria escolhido, por via indireta, o presidente encarregado de levar até o final o mandato que Itamar herdou de Collor. Ou seja: o Congresso, com uma larga fatia alvejada pelas suspeitas de corrupção, teria de escolher um presidente num quadro explosivo de deterioração política. Seria confusão institucional para ninguém botar defeito. Na quarta-feira, durante o seu acesso de preocupação a respeito dos documentos apreendidos pela Polícia Federal na casa de um diretor da Odebrecht, o senador José Bisol levou o tema ao próprio Itamar. Numa visita ao palácio, em companhia do líder do governo no Senado, Pedro Simon, Bisol tentou esclarecer a questão. Segundo um dos presentes, o diálogo foi assim: - Fala-se que pode existir um cheque de PC para o senhor e isso assusta os militares - disse Bisol a Itamar. - Jamais - respondeu o presidente. - Não há esse cheque. - Para o senhor ou para um assessor do senhor - insistiu Bisol. - Não, não tem cheque - disse Itamar. "Não há cheques para Itamar", garantiu o senador Pedro Simon a VEJA. E para o Geraldo Farias? "Bom, o Geraldo Farias era um dos principais homens da campanha em Minas Gerais. Não sei." O porta-voz Francisco Baker também assegura que "não há cheques de PC nem de fantasmas para o presidente da República. O comitê de campanha em Minas Gerais tinha uma estrutura própria que independia do candidato Itamar Franco". Por esse raciocínio, não haveria um contato direto entre o dinheiro que PC enviou à campanha em Minas e o candidato a vice-presidente. Não é o que lembra o ex-presidente Fernando Collor. Procurado por VEJA na madrugada de sábado passado, Collor ofereceu a seguinte versão: O deputado Hélio Costa teve um papel decisivo na indicação do senhor Itamar Franco para compor a minha chapa. Como foi impossível chegar a um acordo com Márcia Kubitschek ou Hélio Garcia, que eram os nomes de Minas Gerais que eu preferia, Hélio Costa sugeriu que eu conversasse com o senhor Itamar. O encontro aconteceu na representação de Alagoas em Brasília, e não chegamos a nenhuma conclusão. Tivemos uma segunda conversa e o convidei para ser candidato a vice. Mas ficou claro que Hélio Costa seria o coordenador da campanha em Minas. Tempos depois, o vice me procurou, dizendo que mais políticos deveriam entrar na campanha em Minas e sugeriu que fosse atribuída a responsabilidade de coordenadora à vice-governadora Junia Marise. Achei estranho, já que Hélio Costa, um homem muito correto, estava desempenhando bem a função. Sugeri que ele discutisse o assunto com o próprio Costa. Ele então me telefonou de volta, dizendo que havia acertado tudo com Hélio Costa. Passa mais um tempo e o senhor Itamar me liga de novo, falando que Junia não estava trabalhando a contento e deveria ser afastada da coordenação. Argumentei que era muita confusão, já que o coordenador havia sido mudado duas vezes. Mas o vice insistiu em ser o coordenador. O coordenador da campanha cuidava não só dos aspectos políticos, mas do financeiro. Era o coordenador que costurava acordos políticos e batalhava apoios. Era também quem recebia o dinheiro da campanha e o distribuía. Collor toma fôlego e chega ao coração do seu relato: O vice-presidente disse que, se eu o autorizasse, ele entraria em contato com Paulo César Farias para resolver a questão. Eu lhe disse que ele era tão responsável pela campanha quanto eu, e que fizesse o que considerava melhor. Pouco depois, ele me telefonou e contou que tinha acertado tudo com PC. O vice, portanto, passou a ser o coordenador da campanha em Minas. E sei que, depois disso, as despesas no Estado foram multiplicadas por dois. Minas foi o Estado em que a campanha custou mais caro. Não sei das cifras, pois eu não cuidava disso, mas o comentário geral, além da exigência do vice em só usar jatinhos caros, era que a campanha mineira era caríssima - e dela cuidavam o vice e seus amigos mais próximos: Geraldo Farias, Eliseu Resende, que depois virou ministro, Marcello Siqueira, um ex-sócio do vice numa construtora e hoje presidente de Furnas, e uma secretária, casada com um militar reformado. Eu tinha o vice como um homem desprendido, modesto. Não sabia do seu interesse por essas coisas. Há aí duas versões antagônicas, irreconciliáveis. De um lado, Itamar garante que não sabia de dinheiro de campanha. De outro, Collor conta como Itamar batalhou para ter acesso a esse dinheiro. O ex-presidente faz uma proposta para dirimir a questão. "Ele foi eleito vice-presidente pela mesma estrutura que me levou ao Planalto. É um subproduto dessa estrutura. Ele tem de se mostrar, tem de tomar a iniciativa de esclarecer a sua situação. Acho horroroso que, a cada semana, como decorrência da CPI do Orçamento, dez nomes de políticos sejam enxovalhados, sem que se saiba ao certo quem são os inocentes ou culpados. A única solução é investigar a fundo, quebrar o sigilo bancário dos políticos que estão sob suspeita e dos seus amigos." Quebrar o sigilo bancário de Itamar e seus auxiliares e amigos é um caminho. Há outro, mais fácil: o de investigar o patrimônio e os sinais exteriores de riqueza do presidente. Fácil perceber que não há cascatas como as da Dinda nas propriedades de Itamar Franco. O presidente também não tem um amigo rico como Paulo César Farias, capaz de ficar cinco meses no exterior gastando nababescamente. O que há é a questão do dinheiro de campanha. Como a legislação referente ao tema foi alterada, e não há mais crime em fazer doações, cada vez mais os tesoureiros estão admitindo que arrecadaram milhões de dólares. Foi o que fez PC. Foi o que fez o pianista João Carlos Martins, arrecadador das campanhas de Paulo Maluf, e o que pretendia fazer a empreiteira Norberto Odebrecht nas eleições de 1994 (veja reportagens nas páginas seguintes). Imaginando que PC tentaria marcar seu retorno ao Brasil num assunto bombástico, o deputado Miro Teixeira encomendou na segunda-feira passada uma revisão nos documentos da subcomissão bancária da CPI do PC para verificar se há ou não há cheques do tesoureiro e de seus fantasmas para Itamar Franco e Geraldo Farias. As caixas de documentos, no entanto, só foram localizadas na sexta-feira à tarde, sem tempo hábil para exame da equipe de seu gabinete. "Quis me antecipar a uma possível chantagem de PC localizando esses documentos se eles existirem. Mas me impressiona que uma notícia divulgada por Paulo César Farias gere uma nota oficial do presidente da República. PC não merece essa credibilidade nem essa deferência", diz Miro. O deputado Augusto Farias, irmão de PC, acredita que essa credibilidade existe. "Os documentos do Paulo ainda vão derrubar o governo Itamar", diz Augusto Farias, integrante da ala da família que defende que PC conte tudo que sabe. Se PC contar tudo, e tiver evidências para embasar o seu relato, difícil determinar quem será mais prejudicado - Collor ou Itamar. Com PC preso, sua mulher, Elma, ficou transtornada. O casal tinha planos de passar o Natal em Bangcoc, na companhia dos filhos Paulo, de 13 anos, e Ingrid, de 11, que estão estudando num colégio interno em Genebra, na Suíça. Elma deu entrevistas queixando-se dos "empreiteiros e políticos" que freqüentavam sua casa e, com o marido em desgraça, debandaram. Também reclamou da prisão de PC. "Onde estão os outros? O que Paulo Cesar fez foi a mando do chefe maior, do presidente", acusou. No início desta semana, Collor estará no STF, tentando recuperar seus direitos políticos para se candidatar no ano que vem. O que PC irá falar ou não depende não só da sua estratégia jurídica de defesa como, principalmente, de sua reação psicológica à prisão. Os dois mandados de prisão preventiva lhe garantem pelo menos 81 dias de detenção. E prisão é difícil, mesmo em sala especial, principalmente para quem, como PC, está acostumado a viver com o que há de bom e de melhor. Tanto é assim que a própria situação de clandestinidade o levou a mudar seu comportamento: ele dava sinais de não suportar mais a aspereza da vida de terrorista. Em Londres, onde andava de chapéus e bonés, chegou a ir a bons restaurantes finos, bem a seu gosto, arriscando-se em público. "Uma vez, jantei ao lado do ator Al Pacino, no restaurante San Lorenzo", diz. Decretada sua prisão na Inglaterra, resultado do tratado assinado entre Londres e Brasília, no dia 29 de outubro, PC resolveu partir, mas não se cercou de cuidados essenciais na vida dos foragidos. Ele próprio pegou o telefone e fez sua reserva num vôo para Bangcoc. Ao embarcar, passou por quatro controles de passaportes e apenas por sorte não foi notado. Resolveu ir para a Tailândia, país com o qual a Varig tem uma linha direta de passageiros brasileiros, embora seu advogado, Nabor Bulhões, o tivesse aconselhado a se esconder na áustria ou na Hungria, países com os quais o Brasil também não tem tratado de extradição e onde os direitos legais, mesmo de cidadãos estrangeiros, são mais respeitados do que naquela ditadura-monarquia asiática. "Se eu quisesse permanecer incógnito, não teria ficado no Sheraton", admite PC. "Mas isso não justificaria a existência que estava levando." Na noite de domingo 28, o embaixador brasileiro na Tailândia, Paulo Lima, foi informado pela também diplomata Barbara Mussi que PC podia estar em Bangcoc. Lima pediu que a Interpol confirmasse a informação no hotel onde PC estaria - o Royal Orchid Sheraton, um cinco estrelas de Bangcoc. PC estava lá, com a mulher, Elma, e a vidente Vera Lúcia Alves. Todos estavam com documentos em ordem. Lima insistiu. Disparou telefonemas para o Itamaraty, foi orientado pelo chanceler Celso Amorim a cancelar o passaporte de PC e, em menos de 24 horas, a prisão estava feita. O embaixador foi pessoalmente acompanhar a missão na noite de segunda-feira no hotel de PC. Equipes da polícia tailandesa foram ao hotel, carregando fotos de PC sem bigode. Uma equipe instalada no 16º andar do hotel viu PC entrar no restaurante e pediu que fosse ao térreo. PC encontrou-se ali com o embaixador, mas se recusou a entregar seu passaporte. "Isso que o senhor está tentando fazer é a maior aberração desde a ditadura", protestou PC. "Estou cumprindo meu dever", devolveu o embaixador. Todos os anos o Itamaraty cancela o passaporte de cerca de 1.000 brasileiros menos ricos e famosos do que PC. Muitos deles são travestis vivendo clandestinamente no Exterior. Faz isso porque um passaporte não pertence ao cidadão, mas ao governo do país. PC chegou sozinho à capital da Tailândia. Elma e a vidente Vera Lúcia só chegaram no dia 23 de novembro. Antes de recebê-las, PC ficou três dias na paradisíaca Ilha de Phuket e viajou para Cingapura, para regularizar seu visto de permanência na Tailândia. Antes de voltar para Bangcoc, passou por Bali. No domingo, seu destino começou a mudar. Num jantar festivo no hotel, PC discutiu com um senhor sobre quem tinha reservado uma mesa. Era o empresário brasileiro Nelson Scola, diretor em São Paulo da subsidiária brasileira da Schrader, empresa americana que fabrica válvulas para pneus. PC e Scola discutiram em inglês, mas no fim da briga o empresário falou em português. "Prazer em revê-los", disse. PC tentou salvar-se. "O senhor é brasileiro? Sente-se conosco, por favor", convidou. Apesar de ter encontrado um brasileiro, e até discutido com ele, PC achou que não corria risco. Naquela mesma noite, num telefonema, a embaixada recebeu a informação de que PC estava em Bangcoc. "Vi PC, mas não fui eu quem o denunciou", afirma Scola. Até a semana passada, Paulo César Farias dizia que, no momento oportuno, irá fornecer à Receita Federal a lista daqueles que fizeram doações para a campanha de Collor e Itamar, perfazendo um total que chega a 170 milhões de dólares. Os doadores podem ficar tranqüilos, pelo menos no aspecto jurídico. Com a nova lei eleitoral, lentamente se vai formando o consenso de que não há punição possível para os que deram dinheiro para campanhas. O consenso vai se formando principalmente porque todos os eleitos, de uma maneira ou outra, lidaram com dinheiro doado por empresas ou sindicatos. Mas para o país será bom: ele saberá como se elegeram os políticos que hoje governam o Brasil. |
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