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8 de outubro de 1980
A guerra se desloca

O que começou como um conflito
aberto entre dois países do golfo
Pérsico extravasou na semana passada
para uma crise de muitas frentes

Quinze dias atrás, bastou a palavra de ordem do presidente do Iraque, Saddam Hussein, às Forças Armadas de seu país para que a guerra com o Irã se colocasse em marcha. O duro, agora, é interromper seu curso. É como se a guerra tivesse adquirido vida própria, transbordando as fronteiras de tempo e espaço que lhes haviam sido alocadas. Até o final da semana passada, as tropas, os tanques e a artilharia do presidente Hussein continuavam fincados em território iraniano, cercando - com algum esforço - as cidades de Abadã, Ahwaz, Dezful e Khorramshar, e espetando o orgulho nacional do regime islâmico do aiatolá Khomeini. O Iraque, com seus objetivos táticos atingidos - instalar-se em território do Irã, sem ocupar grandes centros ou aprofundar-se muito interior adentro -, gostaria de dar a incursão por encerrada e colher rapidamente os louros políticos da investida, por uma trégua de quatro dias (até a quarta-feira desta semana), e um posterior acordo de cessar-fogo. Só que o Irã de Khomeini conseguiu enterrar temporariamente seus cismas revolucionários, erguer-se como nação persa e resistir com armas americanas e fé islâmica ao invasor árabe.

A todas as gestões de paz ou de mediação, o Irã bateu com a porta na cara. Ao pessimista secretário geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim - que privadamente admitiu a hipótese de a guerra em grande escala se transformar em guerra de desgaste e durar "até dois anos", o presidente Abolhassan Bani-Sadr enviou polida carta na semana passada rejeitando a sugestão do cessar-fogo timidamente redigida pelo Conselho de Segurança da ONU. O líder cubano Fidel Castro, por sua vez, que procurou mediar a paz em nome próprio recebeu uma descompostura em regra. "O senhor não entende nada de nossa revolução", fez-lhe saber um impaciente Khomeini. "Não nos confunda com outros países subjugados pelo imperialismo."

MAIS TEMPO - Quanto à proposta de cessar-fogo entre os dias 5 e 8 de outubro, formulada unilateralmente pelo Iraque, o Estado-Maior do Irã respondeu com uma saraivada de medidas belicosas. Em primeiro lugar, apelou à mobilização geral na província do Cuzistão, no sudoeste do país. Em seguida convocou pára-quedistas para apoiar uma ofensiva aérea de resgate da cidade portuária de Khorramshar, cercada pelo Iraque e sob bombardeio desde a abertura do conflito. Por fim, ameaçou introduzir no cenário da guerra seu armamento pesado atualmente imobilizado nas fronteiras com a URSS e o Afeganistão. Segundo analistas militares, esse deslocamento de material e homens da fronteira norte até a zona de combate demorará de seis a doze dias mas, se ocorrer, poderá significar uma guerra de exaustão com o Iraque.

É verdade que os anúncios militares do Irã freqüentemente não significam coisa alguma na prática - apesar da resistência oferecida ao Iraque nessas duas primeiras semanas de guerra, e de uma sensível melhora em seu desempenho bélico, suas Forças Armadas continuam carecendo de um comando mais coerente, de uma estratégia, de organização tática e de competência para operar seus equipamentos militares mais sofisticados.

De qualquer forma, o conflito entre duas das cinco maiores potências petrolíferas da região já está durando mais tempo que recomenda a prudência. As bordas começam a extravasar e, repentinamente, volta à memória de muitos a inquietante declaração feita pelo chanceler alemão Helmut Schmidt, quinze meses atrás, à revista americana Time: "Acredito que a escassez de petróleo e o crescente preço do combustível podem levar a uma guerra".

Schmidt, o estadista mais forte e respeitado do ocidente, desde que a liderança americana entrou em processo de erosão, no início dos anos 70, jamais falara a palavra "guerra" até então. Por mais que uma declaração dessas possa parecer uma opinião pessoal e subjetiva, a silhueta de uma III Guerra Mundial passou a desenhar-se em muitas cabeças. Depois de Schmidt, vários outros líderes ocidentais se desinibiram e exteriorizaram suas apreensões: o mundo, simplesmente, não apresentava nenhum indicador de paz. Com a economia minada de problemas agudos, as alianças políticas tradicionais pulverizadas por interesses nacionais e as zonas de influência das grandes potências tumultuadas por forças emergentes, restou pouco espaço para grandes otimismos.

Mas foi a queda do ex-xá Reza Pahlevi, em janeiro de 1979, e a conseqüente perda do Irã pelos Estados Unidos, que tumultuou definitivamente a geopolítica da região considerada por ficcionistas e analistas estratégicos como a mais incendiária do mundo de hoje: o Oriente Médio e, mais especificamente, o golfo Pérsico, com sua vital produção de petróleo para o mundo. Foi a perda de equilíbrio dos Estados Unidos na região que induziu a União Soviética a invadir e a ocupar com 100 000 soldados o Afeganistão, em dezembro último. Foi a ausência da força do Irã imperial que instigou o Iraque a desencadear a guerra quinze dias atrás. À margem desses círculos concêntricos que apontam com insistência para uma mesma região está ainda a Polônia: as notícias da semana passada revelam a quase inexorabilidade com que se aproxima, ali, um confronto de proporções alarmantes.

INTRIGA INTERNACIONAL - O que já ficou claro, nessa segunda semana de guerra no golfo Pérsico, é que a postura oficial de eqüidistância dos beligerantes inicialmente adotada pela maioria dos países, ruiu por completo. Em lugar, apareceu uma intrincada rede de alianças camufladas, assistência militar indireta e um rumoroso e espetacular caso de intriga internacional: o do bombardeio do Centro de Pesquisas Nucleares do Iraque, ao meio-dia de terça-feira, por aviões Phantom F-4 de fabricação americana e cores iranianas.

A central nuclear iraquiana está situada na localidade de Al-Twita, a apenas 30 quilômetros a leste de Bagdá. Curiosamente, porém, o governo de Saddam Hussein de início não só negou que a estação atômica tivesse sido atacada como também se apressou em expulsar três jornalistas europeus que enviaram os primeiros despachos sobre o ataque, que causou onze mortes e feriu 85 pessoas. Mais intrigante ainda foi o silêncio do Irã, que levou 36 horas para emitir seu primeiro comunicado a respeito. Mesmo assim, em vez de jogar flores sobre mais esse suposto feito de sua Força Aérea, a Rádio Teerã desmentiu secamente qualquer envolvimento de seus aviões no bombardeio à central nuclear.

Foi em Paris, e mais precisame junto à Comissão de Energia Atômica francesa, que brotaram as primeiras versões ousadas sobre a verdadeira autoria do ataque a Al-Twita: a mão competente e infalível de Israel estaria por trás do golpe. A tese se explica, embora não se confirme. A central nuclear iraquiana está na mira de Israel desde que começou a ser negociada com a França, em 1974. Para os israelenses, única virtual potência nuclear da região até o momento, a perspectiva de ver o Iraque capacitar-se para fabricar suas próprias ogivas nucleares a partir de 1985 representa potencialmente a maior ameaça militar com que já se defrontaram em sua história.

SEQÜÊNCIA - Pequenos golpes contra o projeto já vinham sendo desfechados sistematicamente, sempre com autoria desconhecida. Primeiro houve um ataque contra a embaixada do Iraque em Paris, com a morte de um policial francês em julho de 1978. Em abril do ano seguinte, sabotadores destruíram peças vitais dos dois reatores iraquianos Tamuz 1 e Tamuz 2, prontos para o embarque para Bagdá, no porto francês de Marseille. Dois meses depois, um cientista egípcio, Yahia Meshad, homem-chave do projeto nuclear iraquiano, foi misteriosamente assassinado num quarto do Hotel Méridien em Paris. Uma jovem de 27 anos que estava em sua companhia foi morta por atropelamento no dia seguinte. Por fim, sempre em Paris, houve um atentado frustrado contra o cientista francês Jean-Jacques Graf, também envolvido com o projeto iraquiano, e no mês passado, em Roma, explodiram bombas nos escritórios da SNIA Techint Company, que fornece equipamento nuclear para o governo de Bagdá.

Assim, quando as primeiras notícias do ataque ao centro de Al-Twita chegaram a Paris, provocando a ordem de retirada imediata de 350 dos 400 engenheiros e técnicos franceses envolvidos no projeto, sobraram suspeitas para Israel. Uma primeira vertente, endossada no final da semana por algumas autoridades iraquianas, assegurava que os caças-bombardeiros responsáveis pelo ataque eram na verdade aviões israelenses (Israel e Irã têm os mesmos Phantom F4 americanos), pilotados por israelenses e camuflados com as cores da Força Aérea iraniana. Essa versão logo eletrizou meio mundo devido à impressionante folha de serviços israelenses em matéria de lances ousados - o resgate de Entebbe, a desmontagem de toda uma estação de radar egípcia, o roubo de três lanchas torpedeiras no porto de Cherbourg, França, entre outros.

Segundo uma outra vertente de boatos bem informados, agentes israelenses teriam feito chegar a mãos iranianas, naturalmente sem rastros nem impressões difíceis, todos os dados e plantas necessários para uma operação de bombardeio da central do Iraque, deixando o ataque propriamente dito a cargo da aviação iraniana. Considerando-se que o reator principal não foi atingido - as informações disponíveis falam de conjuntos residenciais dos técnicos e de instalações científicas anexas -, essa segunda versão parecia a mais plausível uma vez que Israel não costuma errar seus alvos. A menos que a meta fosse apenas intimidar e não destruir.

De mais a mais, o próprio chefe do serviço de inteligência israelense, general Yehoshua Saguy, há tempos vinha chamando a atenção do Irã para o "objetivo estratégico de primeira prioridade" que representava a central nuclear iraquiana. Seja como for, tanto o primeiro-ministro israelense Menahem Begin quanto o vice-ministro da Defesa, Mordechai Zippori, qualificaram de "calúnias" e "pura imaginação" as informações sobre o envolvimento de Israel. Os franceses, por sua vez, não revelaram sequer se os 15 quilos de urânio enriquecido necessários para o reator principal já haviam sido entregues ao Iraque. Já o Irã não voltou a se pronunciar a respeito do atentado por temer uma condenação em uníssono de todas as nações árabes: elas certamente o acusariam de ter-se postado contra os árabes na guerra santa com Israel.

AJUDA AO IRAQUE - Mesmo sem o "caso nuclear", as relações Irã-países árabes já estariam bastante azedas. Engajado numa guerra de vida ou morte (pelo menos política) contra o Iraque, o governo do presidente Bani-Sadr viu caírem, um a um, os dominós regionais da neutralidade no conflito. Em graus variados de engajamento, Bahrein, Omã, Iêmen do Norte, Kuwait, Emirados Arábes Unidos, Jordânia, Egito e Arábia Saudíta passaram a semana toda fornecendo ajuda militar, econômica ou logística ao Iraque. Uns emprestaram helicópteros para o transporte de feridos, outros abrigaram esquadrilhas inteiras de aviões iraquianos, outros, ainda, abriram seus portos para receber material bélico em trânsito terrestre para o Iraque. A União Soviética, por exemplo, segundo informações do jornal londrino Financial Times, desembarca seu material bélico com destino ao Iraque nos portos de Kuwait e Ácaba na Jordânia.

Até mesmo o Brasil arriscou abandonar sua calculada ambigüidade. "Se os iraquianos estiverem precisando de peças sobressalentes ou mais blindados nossos, então vão tê-los", admitiu calmamente um conhecedor das negociações. "Não vou dizer por qual navio nem qual porto, mas, se dependesse de mim, o armamento iria até sem guia da Cacex." Significativamente, na manhã de sábado chegava a Bagdá, após longa (36 horas) e desconfortável travessia por terra, vindo de Amã, na Jordânia, o empresário José Luís Whitaker, presidente da Engesa - a empresa paulista que fabrica blindados e os vende no mercado internacional. Até então, o desempenho das centenas de carros de combate "Cascavel" e carros de transporte "Urutu", vendidos pela Engesa ao Iraque, era tratado como segredo de Estado.

O enviado especial de VEJA ao Iraque viu apenas dois ou três Cascavel em portas de quartéis de Bagdá e outros três ou quatro no caminho de Qasr-E-Shirin, num acampamento a 10 minutos da fronteira do lado iraquiano. Estavam simplesmente parados. Quem esteve diretamente nas batalhas da frente sul - só cinegrafistas - não viu nenhum veículo sobre rodas em ação. Mas um filme transmitido quinta-feira pela televisão iraquiana, mostrando o avanço de tropas iraquianas sobre a cidade de Ahwaz, deixava ver uma coluna de uns dez blindados Cascavel em meio a muitos blindados russos. Já na seqüência seguinte, mostrando diretamente cenas de batalha, os carros brasileiros haviam desaparecido.

TODOS PRONTOS - Do lado iraniano, as adesões foram mais esparsas e, sobretudo, mais camufladas. Além de uma eventual colaboração de Israel, sabe-se vagamente que a Coréia do Sul e Japão estariam enviando suprimentos bélicos para o governo de Teerã. Essa versão tem a vantagem de explicar, em parte, de onde os iranianos podem estar conseguindo recursos para continuar resistindo, quando pelos cálculos dos peritos já deveriam estar sofrendo do esgotamento e desgaste de seu armamento americano. O embargo econômico e militar ao Irã, decretado pelo presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter em represália à tomada de 52 reféns americanos, onze meses atrás, por militantes islâmicos de Teerã, impede uma ajuda militar mais efetiva e rápida por parte do ocidente.

Ressabiado por tantos passos em falso em sua política externa nos últimos anos, os Estados Unidos atravessaram essa segunda semana de guerra fazendo apenas o necessário para proteger seus interesses mais imediatos: a Arábia Saudita e o petróleo. No caso saudita, seu último aliado de peso na região, o governo de Washington decidiu enviar quatro aviões Boeing 707 equipados com um moderno sistema de controle e alerta, conhecido como AWACS (Airbone Warning and Control System), capazes de rastrear uma movimentação aérea num raio de 500 quilômetros de distância. No caso do petróleo, ou melhor, de uma eventual escassez de petróleo caso a guerra venha a bloquear o estreito de Hormuz (por onde passam 60% das importações de combustível do ocidente), os EUA já arregimentaram uma força multinacional de navios de guerra (EUA, Austrália, Inglaterra e França) para entrar em ação. Todos parecem prontos para o pior.


 
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