Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2009 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 8 de outubro de 1975Agora, o cerco de Madri Depois dos fuzilamentos, a
Foram, sem dúvida, alguns dos piores dias vividos pela Espanha em tempos recentes. Um avião da Iberia que decolasse de Madri, na semana passada, correria o risco de vagar perenemente pelos céus da Europa sem aeroporto que o acolhesse. Em Roma, por exemplo, os funcionários do aeroporto se recusariam a atender a companhia aérea espanhola. O mesmo aconteceria na Suécia ou na Bélgica. E o passageiro que, por terra, quisesse atingir o território espanhol poderia esbarrar com dificuldades, como a seca negativa de um funcionário, no guichê de uma companhia de ônibus ou de uma linha de trem, em vender passagens. Mais uma vez, com impressionante vigor, a Europa se fechava contra um contumaz, familiar inimigo, já velho de quase quatro décadas: o regime franquista. Na Itália, os protestos chegaram a ponto de entre 11 e 12 horas de quinta-feira, momento culminante de uma sortida programação sindical contra o governo de Madri, as telefonistas se recusarem a completar ligações com o território espanhol. Mais que a variedade das formas de boicote, no entanto, chamou a atenção a unanimidade do furor antifranquista. Diariamente, ao longo de toda a semana, os embaixadores dos mais diversos governos desertavam de seus postos em Madri sob o mesmo pretexto - realizar "consultas" com seus respectivos governos. No final da semana, o número de países sem representante na capital espanhola chegava perto de duas dezenas. Governos tão diferentes, como os da Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, convergiram para a mesma posição de congelamento de suas relações com Madri. Internamente, nos diversos países, o sentimento antifranquista conseguiu milagres como unificar nos protestos vozes tão distanciadas como a do presidente francês Valéry Giscard d'Estaing e seus dois arqui-rivais, dos partidos de esquerda, o socialista François Mitterrand e o comunista Georges Marchais. Igualmente, na Inglaterra, o coro foi engrossado tanto por vozes trabalhistas como conservadoras. E, na Alemanha, setores democrata-cristãos se juntaram ao clamor geral dos social-democratas. FERRO E FOGO - A causa imediata dessa geral condenação européia era a execução, na Espanha, na manhã do sábado, dia 27, de cinco terroristas - dois do movimento separatista basco ETA, iniciais para Euzkadi Ta Askatasuna, Pátria Basca e Liberdade, e três da Frente Revolucionária Antifascista Patriótica (FRAP), um movimento de inspiração maoísta, especializado em ações de guerrilha urbana. Mas, sob a superfície dos protestos contra os sumários fuzilamentos, detectavam-se também outras razões, mais profundas, para a irritação européia. Em primeiro lugar, pesava a indignação pela sobrevivência, em plena Europa Ocidental, de um regime que investe contra seus adversários com processos sumaríssimos, despreza elementares direitos de defesa aos acusados e lhes nega qualquer recurso de apelação. Além disso, não deixavam de influir, para a mobilização do Velho Continente, algumas antigas e marcantes lembranças, como as origens do sistema franquista, imposto a ferro e fogo ao fim de uma trágica guerra civil. Ou então o fato de o governo de Madri, até hoje, permanecer como solitário exemplar de uma época, amarga para a memória européia, de fastígio do autofitarismo e afirmações nacionalistas, de intolerância e medo. POR QUEM DOBRAM? - Em suma, os ecos da história, na semana passada, não estavam ausentes das reações européias. Mais vigorosa ainda, no entanto, foi a presença da história dentro da própria Espanha, onde o governo como que se refugiou em seu passado, recaindo em seu sentimento de "cruzada" não só anticomunista mas também antiliberal. Para isso foram ressuscitados símbolos como o "espírito de 18 de julho" - uma alusão ao dia em que o generalíssimo Francisco Franco se levantou contra o governo republicano, nos idos de 1936. De fato, para justificar a repressão interna e reagir contra seus adversários no exterior, o governo espanhol e as forças que o apóiam não hesitaram em recorrer a alguns de seus mais velhos instrumentos de defesa. Houve manifestações como o comentário da revista Fuerza Nueva, uma publicação de extrema direita: "As execuções desses terroristas são simplesmente um novo episódio de uma guerra civil que ainda não terminou". Por sua vez, El Alcázar, jornal da Associação Nacional dos Ex-Combatentes, tachou a reação européia de "uma campanha miserável, urdida pelo comunismo". E, enquanto o comandante militar da Galícia, general Carlos Franco Gonzáles, classificava a Europa de "desgastada e estúpida", um comentarista anônimo, na televisão, recorria ao título de uma célebre obra de Ernest Hemingway, ambientada justamente na Guerra Civil Espanhola, para perguntar: "Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti, Europa". "CARA AO SOL" - Mais impressionante que todas, no entanto, foi a própria reação oficial, traduzida na convocação de uma maciça manifestação de apoio ao regime realizada em frente ao Palacio del Oriente, antiga residência dos reis da Espanha em Madri e cercada do aparato característico dos primeiros anos do franquismo. Segundo alguns cálculos, a multidão comprimida na praça em frente ao palácio, ocupando o gramado e as veredas entre as estátuas dos mais notáveis monarcas espanhóis, chegava a 200 000 pessoas. Já, segundo o governo, havia ali nada menos de 1 milhão de manifestantes. De qualquer forma, não faltaram as clássicas saudações com o braço e a palma da mão estendidos, como é próprio dos momentos mais delirantes da Falange espanhola. E igualmente a multidão não deixou de entoar, com todo o fervor, o "Cara al Sol", o hino falangista, brandido como raivosa vingança nacional num momento de crise externa e peculiar inquietação interna. No momento culminante da solenidade, o próprio generalíssimo Francisco Franco, com uniforme completo e car regado de medalhas, surgiu na sacada central do palácio, ladeado por sua mulher, Cármen, e pela figura igualmente solene de seu sucessor designado, o príncipe Juan Carlos. E, ora acenando para a multidão, ora apoiando as mãos na. tapeçaria bordada de augustos símbolos heráldicos que pendia do balcão da sacada, o velho caudilho de 82 anos, hoje com a voz pouco firme e a aparência frágil, mas com palavras tão vigorosas como outrora, começou por chamar de "corrompidos" os países onde se registraram manifestações contra a Espanha. Franco mergulharia ainda mais fundo no passado - para agarrar-se às múmias políticas da antimaçonaria e do anti-semitismo. "Tudo obedece a uma conspiração maçônico-judaico-esquerdista, em conluio com a subversão Comunista terrorista", disse ele. A época era outubro de 1975, mas bem poderia ser, por exemplo, fevereiro de 1939, quando Franco estava às vésperas da vitória contra os republicanos e declarava em Burgos, sede de seu governo provisório: "Nossa vitória nesta guerra não foi contra nossos irmãos, mas sim sobre o mundo, sobre as forças internacionais, sobre a maçonaria". Mas houve ainda outros momentos notáveis na manifestação da última quarta-feira - assistida, segundo os críticos do regime, principalmente por pessoas vindas do interior, com viagem e alimentação pagas pelo governo, ou por policiais à paisana. Ao encerrar seu discurso, orgulhosamente, o caudilho proclamou: "Ser espanhol voltou hoje a ser algo no mundo. Arriba España". Mais tarde, os brados de "Franco, Franco" mudaram - e houve saudações corno "Viva a polícia", "Viva Chile", "Viva Pinochet". Finalmente, não faltaram heréticos grupos a proclamar Montini al paredón - isto é, fuzilamento para ninguém menos que o papa Paulo VI, referido por seu nome civil, Giovanni Montini. REFORMULAÇÃO - Não é de admirar, no entanto, que gritos como esse tenham sido ouvidos na semana passada na ultracatólica Espanha - pois, entre os fiéis do regime, estavam francamente incendiados os ânimos antipapa. O motivo era a atuação de Paulo VI em todo o episódio das condenações à morte e execuções - marcada por urgentes apelos em favor dos sentenciados e duras reprovações aos métodos do franquismo. Antes de consumadas as execuções, por três vezes, o papa pediu o perdão aos condenados. E chegou inclusive a telefonar pessoalmente a Madri, na véspera dos fuzilamentos, para negociar a comutação - mergulhando em obscuras transações que acabariam se revelando inúteis. Quando ficou claro que nada mais havia a fazer, Paulo VI explodiu com inédita energia - e, durante uma audiência a peregrinos, referiu-se à "repressão homicida" do governo espanhol, "tão dura que ignorou os apelos provenientes de muitas partes". Mas, se a irritação de Paulo VI era evidente, não foi menor a do governo espanhol. Os jornais de Madri e Barcelona, no início da semana, receberam instruções de não publicar de forma alguma as declarações do papa contra os fuzilamentos sob pena de incorrerem nas punições previstas no devastador decreto-lei de 27 de agosto passado que prevê rigorosas penas não só para o terrorismo como também para a imprensa e a dissensão política em geral. As represálias ao Vaticano não ficaram apenas na censura às palavras papais. Além disso, o governo de Madri, ainda antes da medida semelhante adotada pela Santa Sé, chamou de volta seu embaixador junto ao papa. No domingo, dia 28, dia seguinte aos fuzilamentos, era notória a ausência de uma delegação oficial de Madri durante a cerimônia de canonização em Roma de um novo santo espanhol, Juan Macias. Finalmente, o governo espanhol comunicou à Santa Sé a suspensão temporária do programa "A Voz do Papa" transmitido semanalmente pela Rádio Nacional, em cadeia com a Rádio Vaticano, sob a alegação de que se projetava uma "reformulação geral da programação". CÂMBIO PROIBIDO - Na verdade, além do papa, haveria incontáveis alvos para o ressentimento espanhol. O primeiro-ministro sueco Olof Palme, por exemplo, chamou os dirigentes espanhóis de "assassinos sangrentos" e fez votos para seu "rápido colapso, em profunda desgraça e degradação". Um jornal suíço pediu que o governo aplicasse a Franco e família as mesmas medidas tomadas em relação ao grotesco ditador François Duvalier, do Haiti, proibindo-os de junta-rse à fortuna que guardariam toda nos bancos do país - regularmente abastecida, segundo rumores, por caixotes de dinheiro vindos da Espanha. O México, enfim, numa torrente de hostilidade, proibiu o câmbio da peseta em território mexicano, expulsou os funcionários da Iberia, fechou a agência noticiosa EFE e terminou por solicitar a expulsão do governo de Madri da ONU. Ao mesmo tempo, surgiram outras importantes questões de ordem prática. No caso das relações da Espanha com o Mercado Comum Europeu, por exemplo, os acontecimentos da semana passada precipitaram a sumária suspensão das negociações que se realizavam em Bruxelas, já há dois anos, para a conclusão de um tratado de cooperação entre as duas partes, incluindo facilidades alfandegárias, maior comércio e intercâmbio tecnológico. Para o próximo mês, estava prevista uma etapa decisiva das conversações. Mas, em conseqüência dos fuzilamentos, os nove países do MCE retiraram seus embaixadores de Madri e decretaram o congelamento, por tempo indefinido, das negociações. Talvez tenha sido esta, entre todas as medidas de represália à Espanha ao redor do inundo, a que mais graves e concretos efeitos poderá trazer ao governo de Madri. Para se ter uma idéia da importância das relações da Espanha com os "nove" da Europa, basta lembrar que 50% dos investimentos estrangeiros em território espanhol provêm do MCE, sobrando 45% para capitais americanos e o restante para outras procedências. E isso sem falar em outras formas de dependências - como, por exemplo, os milhões de turistas europeus que visitam a Espanha, contribuindo com a imensa maioria dos 3 bilhões de dólares despejados nos cofres de Madri anualmente. GRAVE ESFRIAMENTO - Menos importantes no aspecto econômico, mas igualmente significativas, são as relações da Espanha com o vizinho Portugal onde a embaixada espanhola foi virtualmente devastada por hordas furiosas de manifestantes, assim como os consulados em Lisboa e no Porto, precipitando a saída dos 45 funcionários diplomáticos espanhóis que trabalhavam no país. É verdade que, neste caso, a Espanha conta com poderosos instrumentos de pressão - pelo território espanhol, única via de acesso terrestre de Portugal ao restante da Europa, são conduzidos 40% dos gêneros alimentícios importados pelos portugueses. Além disso, é ainda pela Espanha que passam todos os sistemas de comunicação entre Portugal e a Europa, assim como os fios condutores de 22% da energia elétrica consumida em território português, na maior parte produzida na França e na Alemanha. Mesmo assim, contudo, a Espanha ainda tem algo a perder do grave estado de esfriamento em que caíram, na semana passada, suas relações com Portugal. No ano passado, por exemplo, Madri teve um saldo de 140 milhões de dólares em seu comércio com Lisboa. E, além disso, absolutamente não interessa à Espanha, no plano político, manter um relacionamento hostil com um vizinho com o qual compartilha 1000 quilômetros de fronteira. SEM GARROTE - Claramente, no entanto, o governo espanhol, na semana passada, colocava suas relações exteriores num plano inferior ao de seus interesses internos. Interessava, sobretudo, aplicar exemplares punições aos culpados por atividades subversivas. E, a esse objetivo, o regime franquista dedicou o melhor de seus esforços - pouco importando a reação fora de suas fronteiras. Mais que tudo, funcionários espanhóis argumentavam que os cinco executados eram acusados de crime de morte - o assassínio de policiais. Em nove meses, desde janeiro, doze policiais foram assassinados por terroristas - enquanto em quinze anos, desde 1960, a Espanha só executou oito condenados. O argumento ganharia ainda mais força, em favor do governo de Madri, se se lembrasse que na França, por exemplo, dez pessoas foram condenadas à morte, por crimes comuns, nos últimos dez anos - sem um único protesto por parte da opinião pública internacional. Qualquer tentativa de suavizar a indignação contra o governo espanhol, no entanto, é basicamente comprometida pelas circunstâncias dos processos que levaram às condenações à morte - mais próximas de um assassínio legal que de uma equilibrada decisão da Justiça. Condenados no "rito sumaríssimo" estabelecido na legislação antiterrorista, que concede aos advogados quatro horas para conhecer os processos e preparar suas defesas, os cinco acusados foram fuzilados - embora, normalmente, para as execuções na Espanha se utilize o estrangulamento pelo medieval garrote vil. O basco Angel Otaegui, de 33 anos, acusado de ter dado abrigo a um dirigente da organização separatista ETA, morreu na prisão de Burgos. O outro basco, Juan Paredes Manot foi executado num pequeno cemitério, ao norte de Barcelona. José Umberto Baena Alonso, de 23 anos, acusado da morte de um policial militar, José Luis Sánches Bravo, de 21, e Ramón García Sanz, de 27, acusados do assassínio de guardas civis, enfrentaram os pelotões de fuzilamento no polígono de tiro de Matalagrada, nas colinas de Hoyo de Manzanares, 30 quilômetros a noroeste de Madri. A PIOR REPRESSÃO - De resto, a severidade do governo espanhol para com seus adversários, nos últimos tempos, tem se intensificado de maneira notável. "O Ano Santo da Igreja Católica tornou-se, na Espanha, o ano de pior repressão, desde a guerra civil", diz Juan José Rodríguez Ugarte, presidente da seção espanhola da Comissão Justiça e Paz e, na verdade, talvez ele não esteja longe da verdade. Hoje, calcula-se em 1 500 o número de prisioneiros políticos no país. E apenas de um mês para cá, desde que entrou em vigor o novo decreto-lei, foram detidas 200 pessoas. Na semana passada, as mais variadas denúncias eram formuladas, na Europa, sobre as condições em que se encontram os presos. De qualquer forma, o regime se convenceria ainda mais da correção de seus métodos na semana passada - quando terroristas assassinaram mais três policiais, todos eles mortos pelas costas, em diferentes setores de Madri. Supõe-se que, também nestes episódios - os guardas vigiavam agências bancárias -, a responsabilidade foi da cada vez mais ativa FRAP. E, enquanto a contabilidade geral da ação terrorista avançava, a Espanha se via envolvida em mais um de seus crônicos períodos de instabilidade e incerteza, não tanto pelo terrorismo em si mas pelo clima de insegurança detectável em certos setores. REVOLTA POLICIAL - Nos meios policiais, por exemplo, em vez de uma possível satisfação pela execução dos cinco condenados, eram mais perceptíveis a indignação e a revolta pelos três novos colegas mortos. Ao velório dos policiais assassinados, registrado pelas câmaras da televisão estatal, compareceram mais de 4 000 membros da Guarda Civil e da Polícia Militar. Houve gritos de "Muerte a los comunistas" e "Basta de clemencia". E a parte mais amarga dos protestos acabou reservada ao primeiro-ministro Carlos Arias Navarro, considerado um liberal dentro dos padrões do regime franquista - e que, ao sair do velório, teve seu carro golpeado por um policial. Em contrapartida, em outros setores da população espanhola, registrava-se a revolta, não por alguma suposta suavidade do governo mas justamente por sua dureza e impiedade. Nas províncias bascas, na terça e quarta-feiras, o comércio e a indústria foram virtualmente paralisados em sinal de protesto pela execução dos dois militantes da ETA. E, se a polícia conseguiu impedir certas manifestações mais ostensivas de protesto - como a realização de uma missa em San Sebastian por intenção dos fuzilados -, nada pôde fazer com relação a outras formas, mais discretas, de insatisfação. Em San Sebastian e Bilbao, as duas maiores cidades bascas, podiam-se notar, por exemplo, as janelas das casas fechadas e com as cortinas cerradas, em sinal de luto. Eram numerosas as pessoas ostentando gravatas negras pelas ruas. E em Azpeitia, onde residia um dos executados, Angel Otaegui, a onipresença das viaturas de polícia foi impotente para dissuadir a singela demonstração de descontentamento dos habitantes, que apenas caminhavam, sem dizer palavra ou exibir um único cartaz apenas marchavam em silêncio, de um lado para outro da rua principal. "SOLUÇÃO BIOLÓGICA" - Houve manifestações de pesar até mesmo nos campos de futebol. No domingo, dois jogadores bascos da equipe do Santander entraram em campo com tarjas negras em suas mangas de camisa. E, ao serem interrogados pela polícia, depois do jogo, alegaram vagamente que se encontravam de luto "pela morte de um amigo". Dois dias após, na terça-feira, os jogadores do Atlético de Bilbao - um,dos grandes times do futebol espanhol - simplesmente se recusaram a comparecer ao clube para treinar, em obediência à greve geral naquela altura em curso nos Países Bascos. Os indomáveis bascos, no entanto, são apenas a parte mais visível das atuais inquietações na sociedade espanhola. Definitivamente, a esta altura, parecem arquivadas as efêmeras promessas de liberalização contidas no celebrado programa de governo anunciado por Arias Navarro em fevereiro do ano passado. Como disse um jornalista madrilenho, "o sistema político espanhol revelou-se, por essência, imodificável". E só parece restar, para os adversários de Franco, o que os espanhóis chamam de "solução biológica" - isto é, a morte do caudilho. Ao que tudo indica, no entanto, Franco não tem intenção alguma de desaparecer tão cedo. Segundo revelou recentemente a própria irmã do generalíssimo, a loquaz Pilar, Franco começou a elaborar suas memórias - um trabalho que pretende realizar meditadamente, sem pressa, ao longo dos próximos anos. Além disso, o caudilho - descendente de uma família de longevos, cujo pai morreu centenário - dedicou-se recentemente a uma intensa programação esportiva no retiro de La Corogna, em sua Galícia natal, alternando as partidas de golfe com longas incursões pelo iatismo. DUAS VÍTIMAS - O generalíssimo, é verdade, limita hoje seu dia de trabalho a um máximo de três horas de audiência, assinatura de decretos ou recepção a embaixadores estrangeiros. Mas ninguém duvida de que, na hora das decisões cruciais, como indultar ou confirmar uma pena de morte, será sempre dele a palavra final. Além disso, mesmo octogenário, Franco não abriu mão de sua velha técnica de jogar uns contra os outros diversos grupos gravitando a sua volta, fiel à regra de dividir o mais possível para imperar da forma mais inconteste. Duas de suas grandes vítimas, no momento, são justamente as duas pessoas teoricamente mais poderosas na hierarquia espanhola, depois do próprio caudilho - Arias Navarro e o príncipe Juan Carlos. O primeiro, definitivamente, foi atropelado e ultrapassado em suas intenções liberalizantes. Quanto ao segundo, cumpridos já seis anos desde sua nomeação como sucessor, ainda é forçado a se contentar com funções meramente protocolares, sendo eternamente colocado em alerta por rumores de que Franco estaria às vésperas de lhe passar o poder - apenas para ser humilhado em seguida por secos desmentidos. CRISTO-REI - Esse apego de Franco ao poder parece ter redobrado desde abril do ano passado, quando foi derrubado o regime salazarista em Portugal - e o medo do contágio passou a assaltar os mais compenetrados zeladores do regime franquista. Ao mesmo tempo, nos últimos meses, a oposição espanhola afiou suas garras. E de seu exílio em Paris, o ativo secretário geral do Partido Comunista Espanhol, Santiago Carrillo, passou a demonstrar crescente loquacidade, ora preconizando o fim próximo do franquismo, ora convocando as demais forças oposicionistas para uma "ampla frente de resistência". Há, igualmente, as greves que se sucedem no país, promovidas geralmente pelas clandestinas Comisiones Obreras, infiltradas em praticamente todas as fábricas espanholas. E, enfim, registraram-se sintomas de deterioração nos próprios meios militares, onde cerca de uma dúzia de oficiais foram presos, nos últimos meses, acusados de participar de movimento semelhante ao MFA português. A tudo isso, caracteristicamente, Franco reagiu deslizando ainda mais para a direita. E hoje suas mais ostensivas forças de apoio voltaram a ser os contingentes policiais espanhóis - tradicionalmente intransigentes na defesa do caudilho -, as velhas formações falangistas ou grupos extremistas como os Guerrilheiros de Cristo-Rei, uma organização parapolicial especializada em exibir estandartes medievais pelas ruas e em espancar os adversários do regime. A essa tendência do generalíssimo os espanhóis já deram um nome - a "teoria do bunker". Como Hitler em seus últimos dias, refugiado com um derradeiro grupo de fiéis num subterrâneo da chancelaria alemã, Franco estaria mobilizando o que sobra de suas forças, entrincheirado em suas mais dogmáticas posições - restando apenas esperar, segundo essa tese, que para a Espanha não sejam tão dolorosas quanto para a Alemanha as conseqüências do dia em que o bunker explodir. |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|