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Reportagens 08 de maio de 1974A vertigem da liberdade
São tempos novos de expectativa e festa. O passado já acabou, o futuro ainda não veio. Suspenso no tempo político, Portugal vive a alvoroçada antevéspera da tão sonhada aventura democrática. São tempos de grandiloqüência. sentimentos arrebatados, euforia inquieta. A apreensão dos primeiros dias diante das longas filas nas portas dos bancos fechados veio misturar-se às manchetes da imprensa com as notícias da anistia, à emoção dos que voltaram do exílio, às primeiras composições políticas e, sobretudo, na manifestação de 1º de maio, a uma profunda impressão de reencontro e fraternídade. No mesmo instante, tudo se precipita. O brusco apagar de luzes de quase meio século de regime salazarista levou para o esquecimento, em questão de dias, instituições e personalidades. Do gigantesco dispositivo policial - símbolo do poder antigo - montado no QG de quatro andares da rua Antônio Maria Cardoso, abandonado agora à curiosidade dos jornalistas, ficaram apenas alguns corredores vazios, fichários com milha[es de fotografias, instrumentos de tortura. livros de doutrinas políticas, retratos a óleo de Salazar e um amontoado de revistas pornográficas. O ex-presidente Américo Thomaz e o ex-primeiro-ministro Marcello Caetano tornaram-se apenas sombras sem importância, fotografadas de longe no seu exílio na ilha da Madeira. E os 96 monumentos, praças e ruas do país com o nome de Antônio de Oliveira Salazar já foram rebatizados. Cartas embaralhadas - Com a mesma rapidez, no entanto, surgiram os primeiros políticos dispostos a tomar os lugares vagos. De Paris, onde há menos de duas semanas ainda andava de metrô na segunda classe. preocupado com a sorte financeira da pequena Livraria Socialista, o advogado Mário Soares, de 49 anos, desembarcou na estação ferroviária de Santa Apolônia, em Lisboa, no domingo, dia 28, em meio a uma apoteose popular.Dois dias mais tarde. o comunista Álvaro Cunha, de 59 anos de idade e onze de prisão, exilado há catorze anos após uma fuga da cadeia, tornava um avião em Praga, descia no aeroporto de Portela, nos arredores da capital portuguesa, era erguido sobre um carro blindado por um grupo de jovens oficiais e imediatamente levado em cortejo oficial para abraçar o chefe da Junta, general Antônio de Spinola. Ainda assim. apesar da entrada imediata e apoteótica desses personagens na cena política portuguesa, percebe-se que tudo isso significa pouco: as cartas continuam embaralhadas, e o processo de libertação total do ranço da ditadura e do colonialismo poderá ser longo. Durante toda a semana passada, o general Spinola, único homem que detém o poder real em Portugal, recebeu gentilmente todos os representantes políticos, concedeu espontaneamente todas as liberdades democráticas, ofereceu gratuitamente facilidades materiais aos opositores do regime antigo. Mas, sobre a composição concreta do novo governo provisório, não se comprometeu com ninguém e não disse nada. Aplausos garantidos - No final da semana, surgiram os primeiros indícios envoltos em uma espessa nuvem de rumores, de que os líderes de esquerda estariam fazendo, de uma retirada imediata das colônias africanas, o preço de sua participação no governo. Diante do que Spinola estaria disposto a romper o impasse político. Sintomaticamente, na sexta-feira, dois altos emissários de Lisboa chegavam em Angola e, menos de 24 horas depois, o próprio general Francisco da Costa Gomes, amigo pessoal e aliado político de Spinola, desembarcava no aeroporto de Luanda.Acreditava-se, também, em Lisboa. que o desejo original do chefe da Junta portuguesa era formar um governo de centro, com a inclusão das esquerdas segundo as principais correntes da opinião pública nacional. Mas até mesmo nessa fórmula de composição política reside uma dificuldade básica. Num país onde, há 46 anos, não se realizam eleições livres, nem sequer vagas sondagens, sabe-se que a população está disposta a aplaudir quem quer que suba num palanque para condenar o regime anterior - militar, comunista, socialista, homem de centro e até mesmo os velhos monarquistas - mas ignora-se completamente o que fará no momento de votar com liberdade. Foi com essa profunda ignorância de seus próprios sentimentos que os portugueses aguardaram o teste político de 1º de maio. Na véspera, ainda havia realmente o temor em Lisboa de que a manifestação degenerasse em incidentes sangrentos e motins incontroláveis. O golpe propriamente dito havia transcorrido em perfeita calma, com apenas cinco mortos e meia centena de feridos. Contudo permanecia no ar um rancor surdo, um desejo de vingança contra os elementos do antigo regime. Inocência proclamada - Segunda-feira, relata Pedro Cavalcanti, enviado especial de VEJA a Portugal, os jornais traziam curiosos anúncios de pessoas atemorizadas. "João Martins Simões", dizia um deles, "conhecido ‘João Padeiro’, proprietário de dois célebres restaurantes de Cascais, vem por meio desta desmentir a notícia posta a circular segundo a qual teria sido preso por ser um conhecido informante da PIDE."José Francisco Tirano, também conhecido dono de um restaurante de Alcabideche, vinha igualmente a público informar que nunca foi político e jamais prestou quaisquer serviços informativos. E, como eles, dezenas de outros, denunciados às vezes por brigas de vizinhos ou vinganças pessoais, vinham aos jornais proclamar sua inocência. Quanto aos verdadeiros agentes, um ou outro mais sensível preferiu suicidar-se, enquanto a maioria correu a procurar a proteção do Exército. Paralelamente, entretanto, corriam os mais desencontrados boatos. Um grupo de duzentos agentes do QG da rua Antônio Maria Cardoso teria escapado por um subterrâneo e estava planejando misturar-se ao povo com bombas. Já haveria mesmo fundos secretos de terrorismo de direita. O ex-governador de Moçambique e ex-ministro de Obras Públicas, Arantes de Oliveira, conhecido como "o homem da ponte sobre o Tejo" - em alusão às origens de sua fortuna - teria sido visto à porta de um banco com uma pasta contendo 6 milhões, 70 milhões ou 200 milhões de escudos, segundo as diferentes versões. Liberdade de entrar - Além disso havia o perigo da extrema esquerda, cuja força e orientação ninguém previa exatamente. A gama não era pequena: desde o LUAR, de Fernando Oneto, que chegara a Lisboa, e Palma Inácio, libertado da prisão e teoricamente controlado pelos socialistas, até cisões do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) e da FPLN (Frente Popular de Libertação Nacional) de Piteira Santos, sem falar no inflexível MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), que cobrira todos os monumentos de Lisboa com inscrições vermelhas pedindo "fogo na canalha revisionista".Muitos portugueses, por outro lado, temiam que no meio dos exilados viessem também elementos de extrema direita da Espanha. Sobretudo porque na fronteira revistavam-se cuidadosamente as malas, bolsos e carteiras dos que deixavam o país, mas na entrada já não se controlava nada. Três dias antes da anistia aos refratários, por exemplo, um rapaz se apresentou com um passaporte britânico anulado, gritando que era português e comunista, e foi imediatamente abraçado pelos guardas. Um sul-americano, cuja fotografia no passaporte parecia duvidosa, foi indagado sobre sua verdadeira identidade. "Simples curiosidade", esclareceu o guarda, "pois agora entra quem quiser, o país é de liberdade." Problemas práticos - O maior risco de eventuais desordens no comício do dia 1º de maio, no entanto. vinha da mais absoluta ausência de qualquer esquema de segurança dos partidos políticos de esquerda. Na véspera da quarta-feira, ao cair da tarde, reunidos na Cooperativa de Estudos e Documentação - um modesto conjunto de salas num prédio de escadarias de madeira e corredores azulejados -, que servia de cobertura legal para o Partido Socialista antes do golpe, os militantes se viam ocupados com urgentes problemas técnicos.Recém-saídos da clandestinidade, ninguém sabia direito qual a técnica para se confeccionar faixas e cartazes. Durante mais de uma hora, o enviado especial de VEJA acompanhou o ex-candidato a deputado, escritor e jornalista Alberto Arons de Carvalho, numa desesperada peregrinação às lojas das redondezas em busca de um spray de tinta dourada. Resolvido o problema das inscrições, faltava saber como amarrar as faixas aos mastros. Uma senhora de espírito prático apareceu com duas dúzias de alfinete de fraldas, mas a sugestão não chegou a ser considerada. Enquanto isso, na imensa sede da Mocidade Feminina Portuguesa - organização salazarista -, que acabavam de receber do general Spinola, os comunistas se reencontravam com intermináveis abraços após anos de prisão e exílio e procuravam, em longas reuniões pela madrugada, estruturar os primeiros esquemas de funcionamento na legalidade. Cravos para todos - Quanto aos simpatizantes isolados pelos bairros, seu principal problema era decidir se, nos cartazes preparados para a passeata, a cabeça do martelo deveria ser virada para dentro ou para fora. Na noite de 30 de abril, políticos, jornalistas e escritores ainda se revezaram na televisão num esforço didático tentando explicar ao povo que a expressão "1º de maio vermelho" era uma simples figura de retórica e que o dia se comemorava pacífica e anualmente em todos os países civilizados.Mas em vão. O 1º de maio português, finalmente, não se pareceu com festa nenhuma em país algum do mundo. Uma primeira pergunta sem resposta. O que fazem os portugueses em tempos normais com uma tal quantidade de cravos? Desde a madrugada de um dia que começou enevoado e frio, os cravos se tornaram uma espécie de complemento indispensável da vida portuguesa, presos na lapela de graves senhores de corrente de ouro atravessada no colete, nos cabelos das meninas e das moças, amarrado em todos os lugares possíveis - desde radiadores das Ferrari esporte ao chale de lã preta das camponesas, atravessado nos quepes dos marinheiros, saindo dos canos das metralhadoras, atirados quantidades industriais do alto do prédios. Como era previsível, mas na ocasião perfeitamente perdoável, os primeiros a se reunirem junto à estátua do ex-presidente Antônio José de Almeida foram os intelectuais, agrupados no sindicato dos escritores e no dos artistas de cinema, teatro e circo. "Morte à PIDE" - Mas não tardou para que o grupo de intelectuais ficasse perdido no meio da massa crescente dos outros sindicatos. Alguns, pequenos, como o dos alfaiates e barbeiros; outros, com centenas, às vezes milhares de pessoas, como o dos metalúrgicos e o dos bancários. No final, pessoas surgiam de todos os lados. sozinhas ou em grupos formados ao acaso de vizinhos, times de futebol, colegas de faculdade.O slogan de maior sucesso era indiscutivelmente "o povo unido jamais será vencido", gritado durante vários minutos ininterruptos e invariavelmente seguido por uma saIva de palmas e um coro de buzinas. Um ou outro manifestante tentava obstinadamente lançar a Internacional, mas logo tornou-se óbvio que a música não era conhecida em Lisboa. Falharam igualmente todas as tentativas de palavras de ordem mais elaboradas. Um grupo de moças de uma escola técnica havia preparado um hino à liberdade em duas vozes, mas na hora preferiram cantar "Morte à PIDE" ou "Caetano ou Thomaz, a merda tanto faz". E foi assim, contornando as colinas de Lisboa pelas ruas em curvas da parte nova da cidade, que a população chegou ao primeiro ponto de concentração na alameda Dom Afonso Henriques, uma avenida dupla que se estende dos dois lados de um parque de 500 metros. Nesse local, por volta das 16 horas, o grosso da massa encontrou-se frente a frente com o dispositivo militar. Catrapuz, catrapaz - Ou melhor, não exatamente. A maioria dos militares, orgulhosa de seu uniforme, já havia se tornado parte integrante da manifestação. Quanto ao dispositivo militar de segurança propriamente dito, constava de apenas meia dúzia de caminhões e três tanques, sobre os quais os soldados entoavam o slogan de que o povo unido nunca será vencido.E assim o dia continuou numa paz inalterável até o final da tarde, quando a multidão se concentrou no Estádio de Esportes de Lisboa, rapidamente rebatizado Estádio 1º de Maio, para ouvir quatro ou cinco oradores, entre os quais Álvaro Cunhal e Mário Soares. Um êxito nítido e indiscutível. Com o cair da noite, o movimento passou a se concentrar na zona do Rossio, onde a passeata adquiriu um aspecto carnavalesco acentuado. Esgotado o estoque disponível de cravos, toda a flora portuguesa foi aproveitada. E era praticamente dia quando, pela avenida da Liberdade deserta e juncada de flores pisadas, um trio de marinheiros descia em lentos ziguezagues entoando com absoluta convicção: "Catrapuz, catrapaz, pinchamos o Thomaz". Violento expurgo - Enquanto o povo festejava nas ruas, o general Spinola, instalado no Palácio da Cova da Moura - um antigo casarão colonial transformado em sede do governo -, tomava as primeiras medidas para consolidar o poder recém-conquistado. Ao longo da semana, em nome da Junta, ele produziu um número relativamente reduzido de decretos, mas de enorme alcance. Além dos inevitáveis, como a troca dos governadores das colônias e dos reitores de universidades, ou daqueles que já fazem parte da rotina dos golpes de Estado - como o controle das divisas monetárias para impedir sua saída do país -, Spinola assinou um decreto afastando da ativa 24 oficiais-generais e outro concedendo anistia a todos os desertores e refratários. Foram duas medidas de grande impacto - e é bem possível que tenham sido adotadas uma em função direta da outra. Na verdade, o problema dos jovens que fugiram do serviço militar - calcula-se que há 100 000 deles, vivendo no exterior em situação irregular - transformou-se num dos mais delicados a ser enfrentado pela Junta. E sabe-se que nem todos os oficiais estavam de acordo quanto à solução a ser adotada.De qualquer forma, o violento expurgo realizado nas fileiras das Forças Armadas indica que a cúpula militar portuguesa estava longe da unidade anunciada nos primeiros dias. E é de se presumir que, entre os militares, mesmo depois do expurgo, alguma oposição sempre restará ao poder da Junta. Na Marinha, por exemplo - onde nenhum dos oito altos chefes aderiu ao movimento de 25 de abril - a Junta talvez venha a enfrentar problemas. E não é difícil imaginar o que pensam de Spinola os oficiais signatários de um livro intitulado "Nós Nunca Seremos a Geração da Traição", compilação de violentas diatribes contra os que admitem, insinuam ou defendem a perda do Ultramar", à venda nas livrarias de Lisboa até a véspera do golpe. Triagem dos nomes - O ressentimento daqueles que temem a perda das "províncias ultramarinas" é um dos óbvios focos de oposição no novo regime. Outro é a perplexidade dos velhos salazaristas que, do dia para a noite, viram os jornais - mesmo os mais subservientes ao antigo regime - começarem a insultar a memória do velho líder e assistiram nas ruas ao desfile de faixas com a foice e o martelo. Mas, nestes primeiros dias, os integrantes da Junta mal tiveram tempo de pensar neles. Estiveram por demais ocupados, com es fatos se sucedendo em vertiginosa velocidade. E, entre a avalancha de tarefas urgentes com a qual foram contemplados, não a menor, nem a mais fácil, era a delicada triagem dos nomes para a formação do novo governo.Em Lisboa, correm várias listas de ministérios e ministeriáveis. E, para a chefia do gabinete, até o início da semana passada, falava-se insistentemente no professor Veiga Simão, ex-ministro da Educação e, ao que se diz, nome preferido por Spinola. No entanto, ele não contaria com a aprovação das esquerdas. E, no final da semana, as especulações já se haviam deslocado para Francisco de Sá Carneiro, um advogado do Porto de idéias liberais que conseguiu se eleger deputado no início do governo Marcello Caetano mas renunciou a seu mandato em 1973, denunciando o antigo regime. Hoje, Sá Carneiro é tido como uma espécie de símbolo da resistência ao governo passado. Os mais cotados - Também a esquerda, ao que tudo indica. terá suas fatias no bolo do futuro governo. O líder socialista Mário Soares, depois de sua triunfal chegada a Lisboa, partiu para Londres - onde foi recebido pelo primeiro-ministro Harold Wilson, na quinta-feira -, em seguida para a Bélgica - onde se entrevistou com o chanceler Renat van Elslande - e no final da semana esticava viagem até Paris para um provável encontro com François Miterrand, líder do Partido Socialista Francês. Com sua intensiva preparação para homem de Estado - após longos anos de isolamento no gueto oposicionista -, Soares ganhou ainda mais alguns pontos junto àqueles que vêem nele o chanceler de que o novo governo precisa. E, menos previsivelmente, até mesmo para Álvaro Cunha, o líder comunista, dizia-se, no final da semana, estar reservada uma pasta - possivelmente a da Saúde e Bem-Estar Social.Finalmente, entre os mais cotados - neste caso para um dos ministérios da área econômica - estaria também o ex-deputado liberal Francisco Pinto Balsemão, diretor do semanário Expresso e um dos mais preeminentes membros do grupo chamado "tecnocrata", defensor, já há algum tempo, da modernização da economia portuguesa. Luvas brancas - Mas, além de nomes, a questão teve perigosos envolvimentos na área das altas finanças e, possivelmente, haverá de definir a nova política na África. Desde o começo, ao aceitar o jogo democrático com todas as suas conseqüências, Spinola atirou-se a uma tarefa de consideráveis riscos. E, na semana passada, via-se em pleno turbilhão de compromissos e interesses contraditórios, no qual deverá pôr à prova até a última de suas habilidades.Em primeiro lugar, há o seu relacionamento com a esquerda. Como nos seus tempos de ousado combatente Ia Guiné - quando costumava seguir os soldados até a linha de batalha e inclusive, nutria demonstração de bravura, acenar para o inimigo com suas luvas brancas -, um de seus primeiros gestos foi atrair para si os contingentes longamente esquecidos dos comunistas e socialistas portugueses. Mas, se essa política alargou suas bases de apoio popular, por outro lado trouxe-lhe alguns encargos pesados. E, sobretudo, colocou em xeque sua política africana. Para Spinola, a solução do problema das colônias deve ser gradual. E ele não esconde seu desejo de que, antes da independência, as colônias ganhem a "autodeterminaação", isto é, uma certa liberdade, mas sob o controle de Lisboa. Para as esquerdas, no entanto, a independência deve ser completa. E, em vez de gradual, deve ser concedida já. Certamente, este foi um dos mais candentes ternas nos contatos de Spinola com os líderes esquerdistas. A cruz de Spinola - Mas isso ainda não é tudo. A súbita emergência das esquerdas e a possibilidade de independência das colônias, como era de se esperar, assusta o mundo dos altos negócios. E Spinola, transformado em de Gaulle português - herdeiro de uma cruz tão pesada como a que o ex-presidente francês suportou à época da descolonização da Argélia -, certamente guarda entre seus últimos pensamentos a possibilidade de desagradar os "big-shots" da economia de seu país.Mesmo a Companhia União Fabril (CUF) - poderosa holding de 250 empresas que controla grande parte da economia de Angola e Moçambique e cujo apoio ao governo Caetano nunca foi segredo para ninguém - mereceu um tratamento diferenciado. E uma prova disso é que suas empresas foram as únicas a desrespeitar o feriado decretado no dia 1º de maio, sem receber por isso nenhuma advertência do governo. Além disso, Antônio Champalimaud - outro grande nome do empresariado português, dono de uma holding comparável à CUF - foi um dos primeiros a serem recebido por Spinola. Na tarde de sábado passado, Champalimaud, que se encontra no Brasil em "curta visita de negócios" recebeu o repórter de VEJA Carlos Eduardo Ulup na sede da Soeicom (Sociedade de Empreendimentos Industriais Comerciais de Mineração), no Rio. "Hoje em dia, os destinos da comunidade de expressão lusíada se encontram em grande medida no Brasil", declarou ele. "Por isso vim investir grandes capitais. Dizem que tenho acesso muito fácil à Junta mas não é tão verdadeiro assim. Na verdade, não entrei numa conspiração com quem quer que fosse para derrubar o governo Marcello Caetano. Pertenci simplesmente ao número daqueles que ativamente reclamavam uma mudança drástica das atitudes e das opções feitas pelo governo deposto. Eu apenas pretendia um programa liberal à sombra do qual a economia prosperasse com maior dinamismo. Entendo que só assim podemos evitar o advento de situações extremas." É possível que, dos contatos de Spinola com os industriais, saiam luzes para o difícil problema da economia portuguesa, fortemente dependente das colônias, onde operam todos os grandes grupos do país, da União Fabril e Champalimaud até o grupo Espírito Santo, o Português do Atlântico, o Borges e Irmãos e o Banco Nacional Ultramarino. Em Portugal a indústria é embrionária, as exportações são praticamente as mesmas da Idade Média - vinho, cortiça, sardinhas. E, nesse quadro, a dependência das colônias assumiu exageradas proporções, a ponto de a independência da pequena Goa - um enclave na Índia perdido por Lisboa em 1961 - ter sido sentida como um golpe talvez tão duro quanto a perda da Índia pela Inglaterra. No entanto, há quem veja como perfeitamente viável uma solução de compromisso para o problema do futuro relacionamento com as colônias. E certos setores - como os tecnocratas englobados no grupo Sedes - prevêem boas possibilidades para uma solução negociada da independência das colônias, com Portugal conservando Angola, Guiné e Moçambique como mercados para seus produtos manufaturados e ao mesmo tempo recebendo generosos suprimentos de produtos agrícolas e petroquímicos. Caía do cavalo - Todo esse emaranhado de problemas econômicos, coloniais e políticos - no fundo misturados e inseparáveis entre si - está agora nas mãos de Spinola, um oficial de cavalaria cujo pai foi um dos principais assessores financeiros do todo-poderoso Salazar. Quando participava de concursos hípicos Spinola freqüentemente caía do cavalo e lutava desesperadamente para recuperar ao mesmo tempo a montaria e seu monóculo - mas este é um dos poucos casos de inabilidade pessoal registrado em seu currículo.Durante a guerra na África, mesmo no depoimento de um inimigo - Joaquim Baro, dirigente da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde - Spinola sabia mostrar-se "simpático e merecedor de confiança", não só aos olhos dos próprios homens como inclusive dos africanos. E poderia haver momentos, segundo Baro, em que Spinola penetrava na zona do inimigo, entrava numa cabana, aceitava uma bebida oferecida por um nativo e lhe dizia, persuasivamente: "Estou aqui porque sou seu amigo. O PAIGC não está aqui, está em Paris ou Moscou. Mas eu estou". À sua maneira, esse general de lábios finos e maneiras educadas deu uma sacudida histórica em seu país e liberou a imaginação de seus concidadãos. E sua estratégia, ao que tudo indica, será formar um grande partido de centro, onde poderá apoiar suas teses conciliatórias com relação à África e contrabalançar a força organizada dos partidos de esquerda. Por enquanto, sem uma força própria suficientemente larga, ele é forçado a conviver com representantes de diversas ideologias. Mas seu partido centrista já estaria sendo planejado nos detalhes práticos - e, em sua conversa com o magnata Champalimaud, com quem já trabalhou em uma de suas fábricas, teria sido abordado também a questão do financiamento do novo partido. Sem sossego - O poder de decisão de Antônio de Spinola, nesses momentos ainda precoces da democracia portuguesa, poderia desconcertar qualquer chefe de Estado. Raras vezes um dirigente da Europa do pós-guerra pôde decidir, virtualmente sozinho, se a nação por ele governada deve ou não romper com amarras solidificadas em quinhentos anos de história colonial.Em pouco menos de duas semanas no Palácio da Cova da Moura, Spinola já entreabriu diversas portas e escancarou outras. Mas, passada a confraternização nacional do 1º de maio, ele achou prudente soprar algumas brisas de lei e ordem à nação. "A Junta de Salvação Nacional não permitirá qualquer oposição - mesmo bem intencionada - à sua autoridade", dizia uma nota oficial transmitida pelas estações de rádio na noite de sexta-feira. Na manhã seguinte, um grupo de militantes maoísta tentava "seqüestrar" doze soldados portugueses que embarcavam no aeroporto de Lisboa, provavelmente rumo às colônias africanas. Para estes, e todos os demais que se abandonarem à vertigem da súbita liberdade, Antônio de Spinola e a Junta de Salvação Nacional não darão sossego. Decididamente, a engrenagem da democracia portuguesa ainda merece cuidados especiais. Treme o último império Eles correram pelas ruas de Lourenço Marques, capital de Moçambique, numa patética, estranha e comovente demonstração. José Boelke, um dos quinhentos presos políticos libertados na semana passada, mostrou os ossos do corpo para contar o que foram seus nove anos de prisioneiro em Machava, a 16 quilômetros da capital: era o único sobrevivente de um grupo de 24, 23 dos quais morreram de inanição. Elias Roman Howda disse que foi preso, açoitado e esmurrado um ano atrás ao ser surpreendido ouvindo uma rádio que os policiais julgavam ser dos guerrilheiros. O coro de lembranças do cárcere ecoou por cada rua e cada casa da cidade. Em prantos, o novo diretor da Direção Geral de Segurança (DGS), coronel Antônio Maria Rebelo, que foi a Lourenço Marques supervisionar a soltura, assistiu à cena ao som de músicas de protesto entoadas pela primeira vez nos últimos 46 anos, e anunciou: "As autoridades de hoje trabalham para uma sociedade integrada e livre". A súbita exibição de liberdade traçou, com linhas ainda indecisas, as graves e radicais transformações por que passará o último império colonial do mundo. E, ao mesmo tempo que a libertação dessas colônias parecia cada vez mais tangível, cresciam também os rumores de que agentes da Rodésia e da África do Sul - os dois únicos e tristes parceiros de Portugal na sua aventura africana - intensificavam sua pressão sobre os colonos portugueses de Moçambique e Angola, tentando convencê-los a proclamar sua independência unilateral para evitar o aparecimento de novas nações negras soberanas. Indígenas e assimilados - Para africanos e portugueses da metrópole, de qualquer forma, os últimos dias serviram para um balanço mais claro de uma situação que é o pesadelo de ambos. Na guerra de treze anos contra organizações guerrilheiras cada vez mais fortes e audaciosas, Portugal só teve a perder: gastos equivalentes a 21 bilhões de cruzeiros, cerca de 5 000 (a oposição em Lisboa fala de 8 000) soldados mortos e a condenação da maior parte da humanidade, traduzida por um número recorde de votos de censura na Assembléia Geral e no Conselho de Segurança nas Nações Unidas.Por outro lado, os quase 15 milhões de africanos dos territórios ganham até quinze vezes menos que os trabalhadores de origem européia, compõem uma das mais altas taxas de analfabetismo do mundo (só 4% terminam o curso primário) e viveram, até 1960, sob a camisa de força de um humilhante "Estatuto do Indígena", que os obrigava a falar português corretamente, ter bons costumes, 18 anos de idade e uma profissão, caso quisessem ter o status de "assimilado". Em 1950, nem 1% da população tinha este título, o que, no final das contas, pouco importava: o estatuto regia também o direito de trabalho dos assinalados e incluía a atividade escrava na forma de horas extras para o Estado ou empresas particulares. Escravos e senhores - Entre estes dois perdedores, o africano é, naturalmente, o perdedor nato. Dos 28 milhões de pessoas que vivem ainda em regime de dependência do mundo, metade está na África portuguesa, que nasceu timidamente no século XVI e que, ao contrário da maioria das colonizações, só se consolidou entre 1890 e 1920, quando as outras já estavam acabando.Chegando com atraso ao que restava do banquete devorado pelas grandes nações, Portugal, também ao contrário dessas, defendeu seu pedaço com uma intransigência desconhecida antes. Sempre se recusou a fazer concessões e só mudou de posição quando elas lhe foram tomadas à força a partir de 1961, em Angola, 1963, em Guiné-Bissau, e 1964, em Moçambique. Desde esta última explosão de movimentos guerrilheiros as autoridades portuguesas deploram "dez mortos por semana, sendo cinco em combate" e em Lisboa a imprensa se limitava a registrar, aereamente, a morte de soldados "por acidentes rodoviários". Embora os leitores de documentos oficiais soubessem que em 1969 Portugal consumiu 42% do seu orçamento no item "Defesa e Segurança" e que, em 1971 e 1972, este número saltou para os 58%. Lamentava um dos representantes da oposição portuguesa, em 1969, quando lhes foi permitido fazer campanha eleitoral: "Levando em conta a população, Portugal já perdeu na África tantos homens quanto os Estados Unidos no Vietnam". Não deve existir em Portugal uma única família que não esteja, direta ou indiretamente, ligada a esta guerra sem glória, onde os combatentes são premiados com mortes anônimas e os sobreviventes, com a condenação mundial. O serviço militar dura quatro anos, dois obrigatoriamente na África e, depois de nove meses de preparação, as unidades partem, mediante sorteio, para os territórios. Ir para a Guiné-Bissau, nos últimos anos, era considerado uma fatalidade: lá os combates são mais duros e é para lá que vinham sendo mandados, sem sorteio, os estudantes vagamente contestadores de Lisboa e Coimbra. "É fácil imaginar em que tipo de soldado eles se transformam", lamenta um oficial português diante da falta de brio de muitas de suas tropas e pelo número incalculável de desertores que se espalham pela Europa. Os guerrilheiros. por outro lado, jamais deixaram de demonstrar sua disposição para a guerra. Exércitos mal alimentados e descalços, porém muito bem treinados em base no Zaire, Congo, Zâmbia e Tanzânia, dividem-se pelas três grandes organizações empunhando suas armas soviéticas e chinesas: a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e o Partido Africano para a Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Sua ação: ● Até seis meses atrás, os guerrilheiros da Frelimo ainda estavam confinados às remotas regiões do norte. Agora, o movimento fundado em 1964 por Eduardo Mondlane (assassinado em 1969) invadiu as ricas terras centrais de Moçambique (785 000 quilômetros quadrados, cerca de 8 milhões de habitantes), onde os fazendeiros portugueses duplicaram o número de homens armados. Nos últimos três meses, a Frelimo sabotou ferrovias pelo menos doze vezes, destruiu ônibus e aviões e atacou desesperadamente um quartel português em Inhaminga. Por isso, 10 000 soldados de Angola foram levados para Moçambique. Trens e ônibus só viajam sob escolta militar e, para livrar os nativos do contato corrosivo com os guerrilheiros, as autoridades portuguesas estão tentando confinar milhões de pessoas em "aldeamentos" (uma reminiscência da tática americana no Vietnam). Os 10 000 militantes da Frelimo usam armas cedidas pela URSS e seu líder, Samora Mashel, um médico, afirma: "O fato de usarmos armas soviéticas não nos transforma em comunistas". ● O MPLA, que lançou seu primeiro manifesto em 1956, diz controlar hoje um terço do território de Angola (1,250 milhão de quilômetros quadrados, cerca de 6 milhões de habitantes). Suas armas chegam em navios soviéticos (mais raramente chineses) ao porto de Dar-es-Salaam, na Tanzânia. Caminhões transportam estas armas por 3 000 quilômetros; depois elas seguem nos ombros de carregadores até as zonas de guerrilha. É preciso o trabalho conjunto de oitocentos homens para esvaziar o carregamento de um único caminhão, embora às vezes os guerrilheiros recebam a ajuda possível dos vizinhos que encontram na rota. O Sudão, por exemplo, costuma fornecer burros de carga (capacidade de 50 quilos, contra 35 dos carregadores mais fortes), cujas cordas vocais, por motivo de segurança, foram cortadas. Seu líder, Agostinho Neto, proclama: "Estamos tentando libertar e modernizar nossos povos por meio de uma dupla revolução - contra as estruturas tradicionais que já não nos servem e contra o colonialismo". ● A Guiné-Bissau (36 000 quilômetros quadrados, cerca de 600 000 habitantes) é a menos importante das três colônias e portanto seria a primeira a receber a independência do atual regime português - se já não o tivesse feito unilateralmente, em setembro do ano passado, e recebido até agora o reconhecimento de 82 nações. O PAIGC, fundado em 1956 por Amílcar Cabral (assassinado em fevereiro de 1973) e dirigido hoje por Aristides Pereira e Luís Cabral, irmão do fundador, afirma controlar dois terços do país. Esta proeza, no entanto, não impediu que o general Antônio de Spinola, que governou e comandou a colônia por cinco anos, voltasse para Portugal coberto de glórias, no ano passado, para escrever seu livro e depois derrubar o governo. Comenta-se que Spinola, em 1972, reuniu-se secretamente com Amílcar Cabral para discutir a autonomia da região e que depois tentou, sem sucesso, a aprovação de seu plano em Lisboa. Mas comenta-se também que Spinola mandou matar Cabral. Talvez por ter ido mais longe que os outros movimentos de libertação, o PAIGC é o que menos necessita da boa vontade da ex-metrópole. Grandes barreiras - Juntos ou separados, estes três movimentos não parecem ter condições, no momento, de aproveitar o golpe de Lisboa para a conquista de posições. A única possibilidade de sucesso seria a quebra da disciplina nas tropas portuguesas ou a deserção maciça de soldados africanos (15% dos efetivos portugueses em Angola) para o lado guerrilheiro. Um grande levante é tido como improvável, devido à rivalidade entre tribos, que os movimentos de libertação jamais conseguiram eliminar.Do lado português, as esperanças militares concentram-se, cada vez mais, na conclusão das obras da gigantesca barragem de Cabora-Bassa, em Moçambique, prevista para 1975. Ela formará um lago de 3 000 quilômetros quadrados, cortando a ligação dos guerrilheiros infiltrados no centro das suas bases no norte, e em seguida se transformará num tônico para a economia da região, com seus 18 bilhões de kW/h vendidos para a África do Sul e Rodésia. A Frelimo tem sabotado freneticamente esta obra e um de seus líderes afirma: "Ou destruímos Cabora-Bassa ou ela nos destruirá". Temores e propostas - Em meio a estas incertezas e expectativas, autoridades portuguesas nas colônias temem uma escalada incontrolável da violência desde que, na semana passada, um folheto distribuído nas ruas de Lourenço Marques exumava um infeliz discurso do general Carrasco, antigo governador militar em Moçambique, feito em 1967 numa recepção oficial: "É preciso matar a todos. Os homens, porque são terroristas; as mulheres, porque são mães de terroristas; os meninos, porque serão terroristas; as meninas, porque serão mães de terroristas". Os colonos brancos estão cada vez mais descontentes com os impostos cobrados por Lisboa e um jornal de Zâmbia, Independent Times, afirma que eles buscarão ajuda na África do Sul, caso Portugal suspenda ou diminua a ação militar contra os guerrilheiros. Entre estes extremos, nasceram na semana passada em Lourenço Marques, com uma falta de programa que só a imobilidade forçada explica, duas novas organizações políticas, autorizadas a formar seus estatutos no mesmo dia em que eram soltos os presos de Machava. Uma, os Democratas Sociais de Moçambique, formada por estudantes e intelectuais, tem como plataforma única a oposição à política sul-africana. O outro, Grupo Único de Moçambique, uma ex-sociedade cultural de negros, quer justamente o contrário, propondo o estabelecimento de relações normais com os sul-africanos.Para os Iíderes depostos um refúgío no mar Com seus paredões desbotados e velhos canhões, a fortaleza de Funchal, construída em 1552 e de onde se descortina todo o porto da ilha da Madeira, é hoje, mais do que nunca, uma guarnição histrica. Nela, estão alojados o ex-presidente Américo Thomaz e o ex-primeiro-ministro Marcello Caetano, à espera do destino que a Junta decida dar-lhes. Segundo a terminologia empregada pelo comandante militar da ilha, brigadeiro Vasco Antônio Lopes da Eira, eles não estão presos - são convidados do novo regime. Para o comandante da ilha, trata-se de uma norma preventiva. "À medida que, em Lisboa, são revelados os métodos de tortura e repressão usados enquanto eram governantes, suas vidas correriam perigo se saíssem", disse na semana passada aos correspondentes estrangeiros. E, para não dar margem a dúvidas quanto à eficácia da proteção, acrescentou, em tom um tanto ambíguo: "Nesta fortaleza, só os velhos canhões são decorativos. Os soldados são de verdade". De qualquer forma, da janela de seus aposentos, Caetano e Thomaz podem apreciar uma deslumbrante paisagem, formada pela baía e as ruas repletas de turistas e automóveis modernos. E não lhes falta conforto - nem telefones, que podem utilizar livremente. A fortaleza, também chamada Palácio São Lourenço, é a residência oficial do governador da ilha e suas acomodações, se não são luxuosas, pelo menos são decoradas com bom gosto e com todos os requisitos necessários para receber condignamente hóspedes ilustres. MURAIS - Com Thomaz e Caetano, no mesmo palácio outrora colocado à disposição do ditador cubano Fulgencio Batista, estão dois dos mais odiados ministros do governo deposto - o professor Silva Cunha, que ocupava a pasta da Defesa, e Moreira Batista, ex-ministro do Interior. A estes, o governador militar permitiu que saíssem para comprar remédios, pois se queixaram de depressão e fortes dores de cabeça. Discretamente seguidos por uma patrulha militar, Silva Cunha e Moreira Batista, no caminho da farmácia, confundiram-se por alguns momentos com os turistas, viram de perto os caminhos adornados com as hortências - e não deixaram de notar em algumas paredes slogans exigindo o fim da "guerra fascista na África" e o expurgo dos "capitalistas de Lisboa".Nenhum dos personagens do antigo governo fez qualquer declaração à imprensa. Os correspondentes estrangeiros foram autorizados a falar com Thomaz e Caetano, mas os dois se recusaram a recebê-los. O assessor militar de Thomaz, que o acompanha no exílio, falou em seu nome. "O almirante", disse, "está muito abatido, como não poderia deixar de ser." Mas acrescentou que isso não o impedia de acompanhar de perto os acontecimentos políticos, lendo jornais, livros e ouvindo rádio. O mesmo ocorria com Caetano. Ambos tinham também ótimo apetite - e em sua mesa nunca faltava o vinho da Madeira. |
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