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8 de março de 1978
A realidade em cena

Cem cinemas mostram
'Lúcio Flávio' e o
'esquadrão da morte',
onde o certo e o
torto se confundem

Setenta e dois, setenta e três, setenta e quatro. Ao atingir este número, na última quarta-feira, a contagem dos corpos achados na baixada Fluminense roçou mais um dos seus periódicos picos de violência - na madrugada daquele dia, segundo apurou a triste rotina da polícia, seis mortos amanheceram nos municípios de Duque de Caxias e Nova Iguaçu. No balanço dos dois primeiros meses de 1978 no Grande Rio, eles eram apenas flagrantes frescos que ilustravam um horror velho.

Foram também flagrantes deste tipo, projetados nas telas de 100 cinemas de São Paulo e de quatro outros Estados, no mais maciço lançamento de um filme de que se tem notícia no país, que arrancaram das platéias manifestações de espanto, revolta e aplausos. Em dois dias, "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia", um filme cuja exibição era considerada impossível alguns meses atrás, quando ficou pronto, arrecadou 2 milhões de cruzeiros. Seus produtores, com os boletins de contabilidade nas mãos, confiavam que em sete dias a renda chegaria a 8 milhões de cruzeiros - o dobro do que custou a produção - e à condição de campeão absoluto de bilheteria, nacional ou estrangeiro. No balanço de começo de ano do cinema brasileiro, esses números ilustram um frêmito novo.

NUM MESMO BARCO - Certamente não são apenas as cenas bárbaras oferecidas ao público que identificam a novidade de "Lúcio Flávio". Ao narrar a trajetória de Lúcio Flávio Vilar Lírio, bandido que morreu aos 31 anos, em 1975, assassinado num presídio do Rio de Janeiro, o diretor Hector Babenco armou uma vigorosa trama de filme policial para tocar em temas bem maiores - tão maiores, segundo os primeiros e pessimistas espectadores que viram o filme em sessões privadas, que sua exibição pública seria uma quimera. Em suma, a história de "Lúcio Flávio" é a da violência policial brasileira. Sua morte coincide com o nascimento e ascensão do "esquadrão da morte". Nele, "polícia e bandido estão no mesmo barco", conforme explica a Lúcio Flávio (Reginaldo Farias) o investigador "Moretti" (Paulo César Pereio). "Eu não estava interessado em realizar um grande espetáculo", conta o diretor Babenco. "Queria contar de modo simples e direto urna série de fatos que considero da maior gravidade."

É o relato desses fatos, feito com uma crueza capaz de causar perplexidade às populações distantes da baixada Fluminense, mas que são parte do dia-a-dia da periferia das grandes cidades brasileiras, que confere ao filme uma posição ímpar no atual cinema brasileiro. Além de faturar triunfalmente, ele parece ter descoberto o dom de falar às platéias sobre elas mesmas. Mais que isso, "Lúcio Flávio" abre um debate sobre um dos temas-tabu que só a imprensa escrita, até agora, vem enfrentando, isto é, a discussão sobre o arbítrio, a violência intocável, a tortura, onde o certo e o torto, a lei e o seu contrário, freqüentemente se confundem.

POESIA E ASSASSÍNIO - O centro de tudo isso, por certo, não poderia ser uma personalidade comum - e Lúcio Flávio, o bandido, foi bem mais que um marginal de sucesso. Filho de uma família da classe média (o pai Oswaldo, funcionário público, trabalhou como cabo eleitoral de Juscelino Kubitschek), teve opções na vida. "Ele podia pintar quadros e lia Fernando Pessoa na prisão", conta o escritor José Louzeiro, autor do livro no qual o filme se baseia, "O Passageiro da Agonia", lançado em 1975 e atualmente em terceira edição. Segundo Louzeiro, não foi apenas por uma questão de carisma que Lúcio Flávio chegou a liderar uma quadrilha de cinqüenta elementos, dos quais 49 foram mortos. "Ele era um assassino frio e extremamente violento", acrescenta, com o conhecimento de quem entrevistou Lúcio Flávio várias vezes nos presídios do Rio.

Louzeiro, de 45 anos e quase trinta de jornalismo, com passagens por quase todas as redações do Rio e de São Paulo, viu em Lúcio Flávio a oportunidade para um acerto de contas. Antes, ele escrevera livros de elaboração "excessivamente intelectual", como diz, e estava disposto a romper com a literatura caso não conseguisse produzir um romance de cunho essencialmente popular. "Sentia-me mal situado na realidade", ele explica, "pois o mínimo que um escritor pode fazer é participar social e politicamente de seu tempo."

'COMO NA IDADE MÉDIA' - Feita e consagrada pelo público, não foi surpresa para Louzeiro o interesse que os cineastas mostraram pela sua obra. Luiz Carlos Barreto, de "Dona Flor e Seus Dois Maridos", e Roberto Farias, o presidente da Embrafilme, já lhe haviam apresentado propostas quando Babenco entrou com a sua - na verdade, seu trunfo era apenas uma maior disposição para o trabalho. A elaboração do roteiro levou quatro meses, mais que a redação do livro, escrito em noventa dias num minúsculo apartamento de Copacabana. Pronto o filme, surgiu o medo de que ele fosse vetado pela Censura.

Na verdade, Babenco tomara algumas precauções: enviara um extenso telegrama à Censura Federal, em Brasília, perguntando se haveria algum entrave em tratar de tais assuntos. Responderam-lhe que não, desde que nas cenas envolvendo o "esquadrão da morte" não aparecessem policiais fardados nem a bordo de viaturas oficiais. "Existe uma proposta social no filme", diz Louzeiro, "a de retratar um processo decadente, selvagem, que nos reporta à Idade Média."

Sem nenhuma autocensura, ele e Babenco só recusaram adaptar cenas do livro por motivos técnicos ou estéticos. Uma delas, por exemplo, mostraria um presidiário sendo asfixiado num depósito de dejetos. Em outra, Lúcio Flávio mataria um desafeto - na realidade Manuel Gordo, seu companheiro de cela na prisão estadual do Recife - incendiando-lhe a cabeça com fluido de isqueiro.

REVOLTA EM FAMÍLIA - Mesmo assim, o retrato pareceu pesado demais a muitos desses primeiros espectadores de Babenco e Louzeiro. Figuras como Moretti (visualmente calcado no antigo detetive e protetor de Lúcio Flávio, o hoje prisioneiro Mariel Mariscott de Mattos), "dr. Bechara" (Ivan Cândido) ou "132" (Milton Gonçalves), policiais sem farda, inspiram tanta abjeção que podem facilmente passar por bandidos, com a agravante de usarem métodos de venda de proteção e de assassínio ainda mais truculentos. Além disso, a Censura ordenou um tratamento de proteção aos policiais: seus nomes, no filme, são fictícios, mas os de Lúcio e de sua mulher, "Janice" (Ana Maria Magalhães), são verdadeiros. Finalmente, além de impor cortes ("irrelevantes", segundo o diretor), fez com que aparecesse um letreiro onde se informa que todos os policiais ligados ao caso Lúcio Flávio haviam sido expulsos e punidos.

As primeiras exibições para a família do biografado trouxeram novas apreensões. Durante uma projeção na cabina do laboratório Líder, no Rio, no ano passado, com a presença de cerca de vinte parentes de Lúcio Flávio (incluindo o pai, a mãe, dona Zulma, e cinco irmãos), a platéia chorou, exaltou-se e blasfemou. Reunidos num bar em frente, após a sessão, tornaram-se ainda mais agressivos. Louzeiro foi ameaçado por um dos irmãos, que prometeu fazê-lo "engolir o livro". Outro jurou matar Babenco. A mãe, que jamais admitiu a participação do filho em qualquer assalto, sentiu-se mal e teve que ser levada a um pronto-socorro.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS - Babenco, mesmo correndo perigo, ainda ficou de passar na casa da família para "tomar uma cerveja", o que deixou de fazer "por puro medo". Um mês depois, numa outra exibição especial, encontrou-se de novo com o ameaçador irmão de Lúcio Flávio, que lhe cobrou a visita não cumprida. Marcaram então um encontro para o dia seguinte, em campo neutro, um escritório. Em ambiente bem mais aliviado, a mãe de Lúcio disse a Babenco: "Quero lhe agradecer pelo filme que o senhor fez. Pelo silêncio que havia na sala lotada, senti que aquela gente tinha ficado revoltada com o que fizeram a meu filho". Finalmente, um mês atrás, um telefonema no meio da madrugada carioca fez chegar aos ouvidos do diretor as palavras de trégua, pronunciadas pelo irmão mais velho de Lúcio Flávio: "Quero lhe pedir desculpas pelo que lhe disse. Agora entendemos o que você quis dizer com o filme". Por via das dúvidas, um selo comercial foi aplicado a esta demonstração de boa vontade. A família de Lúcio Flávio receberá, por contrato, 2% da renda de bilheteria.

A hora certa de lançar o filme parecia, assim, iminente, pois o diretor e o autor do livro acompanhavam atentamente pelos jornais as notícias sobre investigações de delitos cometidos por pessoas influentes, corno nos casos Aracelli e Cláudia Rodrigues. A imagem positiva com que a Polícia Federal é apresentada no filme, agindo de maneira polida e firme contra os policiais corruptos, pesou muito na decisão de deixar a história de Lúcio Flávio chegar à tela.

UMA NOVA ESTRATÉGIA - E o que deveria ser, no princípio, um filme simples, sem nada de espetacularmennte grandioso, acabou se transformando num lançamento único. "Minha longa experiência cinematográfica me deu a visão certa: além de marrom glacê, temos que mostrar o arroz, o feijão, tutu e couve", conforme a receita do distribuidor e exibidor Lívio Bruni, há trinta anos no ramo. Tornando-se um dos quatro sócios na produção de "Lúcio Flávio" e aumentando extraordinariamente o investimento em cópias e publicidade, num gesto audacioso dentro do crescente mercado cinematográfico brasileiro, Bruni partiu para o que seria uma estratégia de supermercado: atender todo tipo de consumidor ao mesmo tempo. Segundo seus cálculos, a nova estratégia, se der certo, trará muitos lucros - pelo motivo bem simples de que ela procura amealhar o máximo no mínimo de tempo. Com a divulgação publicitária simultânea pelos jornais e pela televisão, esta técnica impede que o interesse despertado pelo impacto do lançamento esfríe. O enorme e diversificado número de espectadores pagaria rapidamente o custo anormal com publicidade e cópias.

Mesmo assim, foi com alguma surpresa que Babenco soube pelo telefone, na tarde da última segunda-feira, que a sessão de 2 da tarde no cine Art Palácio, no centro de São Paulo, havia rendido 19.000 cruzeiros - no mesmo cinema em que "Dona Flor e Seus Dois Maridos", pouco mais de um ano atrás, fizera grande sucesso arrecadando cerca de 20.000 cruzeiros somadas as cinco sessões do dia da estréa. "O público brasileiro estava precisando de um filme que lhe falasse de sua realidade", diria ele mais tarde. Aparentemente, não só o público. No dia seguinte ao da estréia triunfal, houve tumulto em frente aos escritórios da distribuidora do filme, na "Boca do Lixo", ponto tradicional da gente de cinema de São Paulo. Eram os colegas de profissão que foram levar a Babenco seus protestos de estima, palpites e perguntas.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS - Babenco, de resto, não teria muito o que ensinar, pois as respostas procuradas no escritório da distribuidora já estavam sendo dadas - às vezes aos gritos - nos cinemas no centro da cidade. Numa cena em que 132 força o pacato "Dondinho" (Grande Otelo) a beber cachaça, na esperança de que ele, embriagado, revele onde Lúcio Flávio está escondido, um espectador gritou: "Crioulo pau-d'água!" De outro lado da platéia veio a resposta rápida e irada: "Cala a boca! Não vê que é um crioulo sacaneando outro crioulo?" Em rápidas pesquisas de opinião à saída dos cinemas, algumas delas com a presença do próprio Babenco, foi possível achar pessoas que viram na tela "a vida de um homem que sofreu muito e não conseguiu nada", que consideraram "certo" mostrar que "a polícia é toda comprada" ou que se impressionaram com o fato de que "os policiais orientam apenas para o mal".

Em esferas mais elevadas, as opiniões são também contundentes. O ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, embora ressaltando desconhecer o relacionamento entre policiais e marginais abordado no filme, enxergou algo capaz de satisfazer a seu gosto de cinemaníaco: "O Filme tem ritmo", diz ele. "Antes, a gente Ficava contando os minutos que faltavam para acabar um filme brasileiro." O procurador Hélio Bicudo, de São Paulo, autor de um livro sobre o "esquadrão da morte", acha que o filme denuncia "as mazelas da sociedade", tem grandes qualidades, mas erra ao dar um papel positivo à Polícia Federal. Porém compreende: "É só por isso que o filme está liberado". Babenco argumenta: "É claro que as cenas mostrando a Polícia Federal não foram colocadas à toa - mas aqueles episódios realmente ocorreram. Além disso, fica claro que Lúcio Flávio foi assassinado quando estava sob custódia federal".

Detalhes menores? É certo que não, pois "Lúcio Flávio", em sua simplicidade construída, parece pedir à platéia que medite sobre o sentido de cada tiro e de cada assassínio que vê na tela. Seu próximo capítulo de emoções deverá ocorrer em abril, quando estrear no Rio - a cidade onde se passam os episódios de morte e vingança que nas últimas semanas continuavam ensangüentando os subúrbios. "Eu não conheço os policiais do Rio acusados de pertencer ao 'esquadrão da morte'", diz Babenco. "Não sei como vão reagir ao filme."


 
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