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8 de janeiro de 1992
A Espanha
festeja
seu futuro

O país que descobriu a América
recupera sua grandeza
com os maiores eventos de 1992

Num dos fenômenos mais interessantes da Europa moderna, a Espanha, grande descobridora de nações há 500 anos, está finalmente se redescobrindo. O país sempre foi riquíssimo na sua fabulosa herança de raças e culturas. A Espanha foi imperial e ousada com os reis católicos Fernando e Isabel, os padrinhos da aventura de Colombo, e foi obscurantista e retrógrada com o generalíssimo Francisco Franco, um ditador de fala fininha e pezinhos de moça que amordaçou os espanhóis por 36 anos neste século. Depois de muitos anos de desorientação, ódio político, terrorismo, movimentos separatistas, tudo embalado ao som de dança flamenca num cenário que nem parecia europeu, pela pobreza e mediocridade reinantes, a Espanha conseguiu costurar sua colcha de retalhos e se endireitou. É, hoje, um país que deu certo.

A celebração da conquista será feita numa grande festa em 1992. Barcelona - segunda maior cidade espanhola e capital da região da Catalunha - receberá os Jogos Olímpicos entre julho e agosto. Sevilha sediará, de abril a outubro, a Exposição Universal, uma gigantesca feira na qual os países do mundo inteiro exibem o melhor de sua ciência, arte e tecnologia. Madri, nos próximos doze meses, ostentará o título de "capital cultural" da Europa e ganhará dois novos museus de arte. E o país inteiro viverá o quinto centenário da descoberta da América, por Cristóvão Colombo.

"NAÇÃO NORMAL" - A Espanha passou a última década se preparando para este momento raro em que os eventos planetários pousam em uma mesma nação. O "ano da Espanha" - como 1992 está sendo chamado na Comunidade Européia - é o coroamento de um formidável processo de redemocratização e retomada do crescimento. Quando, em fevereiro de 1981, um militar tresloucado, o tenente-coronel Antonio Tejero, subiu ao púlpito do Parlamento de revólver em punho para ensaiar um golpe de Estado e o rei Juan Carlos forçou-o à rendição, a democracia estava garantida. Juan Carlos, tido até então como um fantoche, virou monarca de verdade. Hoje, o rei e o primeiro-ministro, Felipe González, um socialista de tonalidade cor-de-rosa, quase branca, andam de mãos dadas em um exemplo de convivência entre a monarquia e o parlamentarismo.

"Situações dramáticas estão acontecendo nos outros países, não na Espanha", diz Felipe González. "Durante muitos anos desejei que ela pudesse ser considerada uma nação normal, com dificuldades normais." A mais extraordinária vitória da Espanha nessa busca da pacificação foi apagar a imagem de um país manchado de sangue durante os setenta primeiros anos deste século. A "nação normal" a que se refere González é quase diametralmente oposta àquela que foi entregue por Franco, com sua morte em 1975. A Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939, produziu 1 milhão de mortos, 500 000 exilados e 300 000 presos políticos. Nunca, em sua História, o Brasil viveu qualquer coisa parecida, apesar da dificuldade espantosa que demonstra para fazer um entendimento nacional que imite o da Espanha.

Até dezesseis anos atrás, opositores do franquismo ainda eram executados pelo garrote vil, uma tortura medieval em que a vítima tem sua nuca esmagada lentamente por um parafuso de ferro. O anarquismo ("Hay gobirno, soy contra"), fortemente enraizado no país até a Guerra Civil, permanecia uma marca registrada do caráter espanhol. "Falava-se em Espanha e a primeira idéia que vinha à mente era a de um país belicoso, com uma sociedade sempre à beira de um abismo", diz o professor Joan Trullen, diretor do Departamento de Economia da Universidade Autônoma de Barcelona. "Isso nós conseguimos enterrar." A chave do sucesso dessa transição quase inacreditável foi o Pacto de Moncloa, um entendimento nacional verdadeiro, assinado em 1977 por todas as correntes políticas, da esquerda à direita, cujo único objetivo era juntar os cacos de um país dilacerado. Elaborou-se uma nova Constituição, aprovada num plebiscito por 88% da população. Começava a nascer a nova Espanha.

"SOL E SOMBRA" - Um líder político do curto período democrático do início dos anos 30 costumava dizer que a História da Espanha era feita de "sol e sombra", numa referência aos lugares destinados à platéia nas praças de touros. Os ingressos são vendidos ao sol ou à sombra. Pode-se afirmar que a Espanha de hoje está sob o Sol - às vezes abrasador, outras vezes apenas mormaço, mas sempre sol. As sombras do passado ainda aparecem aqui e ali, mas são poucas. É possível vê-las nos atentados terroristas do ETA, o grupo nacionalista do País Basco, que se aproveita dos grandes eventos de 1992 para chamar a atenção para sua minoritária causa separatista. Na madrugada de 28 de dezembro do ano passado, a polícia de Sevilha desativou uma bomba de 2 quilos que havia sido colocada pelo ETA junto ao edifício do Banco da Europa, cujo presidente, Carlos Ferrer Salat, é também o responsável pelo Comitê Olímpico Espanhol. Era o terceiro artefato explosivo colocado na capital andaluza em apenas 72 horas.

O que fez a Espanha mover moinhos? Os espanhóis, ao que tudo indica, se cansaram de ser inadequados dentro da Europa, num momento em que já se anunciava o casamento dos europeus numa única Comunidade, a CEE. Sanearam o país com rigor e coragem incomuns. Fecharam empresas estatais perdulárias, esmagaram o déficit público e abriram as portas aos investimentos estrangeiros. Entre 1986 e 1991, houve um crescimento médio anual do PIB de 4,2%, o maior entre os doze países da Comunidade Econômica Européia. As reservas em moeda estão em 63 bilhões de dólares - quantia suficiente para pagar toda a dívida externa e ainda guardar 30 bilhões no caixa.

Milhares de pessoas fizeram fortuna da noite para o dia, a classe média começou a passar férias no exterior e a venda de automóveis duplicou, em apenas cinco anos, de 500 000 veículos anuais para 1 milhão. As marcas da riqueza estão por toda parte, da majestosa Torre Picasso, em Madri, à marina do balneário de Marbella, o maior ancoradouro de iates do Mediterrâneo. A euforia dos anos de ouro (1987 e 1988) já passou. O crescimento do PIB no ano passado foi de apenas 2,5% e não passará dos 3% anuais até 1993 - mas, ainda assim, estima-se que, a seguir na toada de hoje, já no ano 2010 os espanhóis alcançarão o patamar de bem-estar e produção de nações como a França e a Bélgica. Quem te viu, quem te vê.

PERIGO NO LESTE - A Espanha teve a seu favor, nesses anos de reconquista, uma coincidência histórica que não soprou para o Brasil: começou a crescer no momento exato em que nascia a idéia da Comunidade Econômica Européia como um grande mercado aberto, sem fronteiras. Pegou carona neste trem de alta velocidade e não se desgarrou mais dele. Os espanhóis, segundo uma pesquisa recentemente publicada, são os cidadãos do Velho Continente que mais apostam no sucesso da Europa unificada. "Nossa entrada na CEE, em 1986, coincidiu com o enriquecimento do país", diz Alberto Navarro, diretor de um órgão do governo espanhol denominado Secretaria de Estado para as Comunidades Européias. "Não é à toa que nosso povo acredita na unificação. Os ingleses, ao contrário, só tiveram problemas nos últimos anos - e por isso têm sido tão reticentes."

As cifras do namoro da Espanha com a Europa são claras: em apenas cinco anos o governo de Madri recebeu 8 bilhões de dólares dos cofres da CEE, a fundo perdido, para aperfeiçoar a infra-estrutura de comunicações e transportes. O país, que antes dependia das divisas do turismo e das remessas de dólares dos imigrantes, tornou-se um dos maiores pólos de investimentos do planeta. Só a Volkswagen alemã injetou 2 bilhões de dólares, com a compra da montadora de automóveis Seat. Hoje é a Espanha que recebe imigrantes - em sua maioria africanos que sobrevivem como camelôs.

O touro miúra que pulou etapas e se mostrou ao mundo como um fenômeno de reconstrução começa a pagar o preço de seu próprio vigor. A Espanha entra no mítico ano do quinto centenário do descobrimento da América com sinais de que o milagre acabou. A inflação espanhola foi de 5,8% em 1991 - superior à média européia de 5%. No Brasil, 5% de inflação é a taxa de uma semana, mas, no Primeiro Mundo, já é suficiente para desencorajar investidores.

O desemprego cruzou o ano a uma taxa de 15,8%, inferior apenas à da Irlanda entre os parceiros da CEE. No vizinho Portugal, o desemprego foi de apenas 4%, A alta dos preços e os trabalhadores sem emprego são os dois fantasmas que tiram o sono do governo. O grande temor é de que o dinheiro que entrava na Espanha passe a desaguar nos países do Leste Europeu, como a Polônia e a Hungria. Teme-se, também, o retorno de agitados demônios do passado. Há vinte dias, espa- lhou-se pela região industrial das Astúrias, no norte do país, uma onda de protestos violentos contra os milhares de postos de trabalho que o governo ameaça cortar. Resultado: uma dezena de feridos e estradas interrompidas por barricadas.

GRÉCIA E PORTUGAL - Para lembrar a seus pares europeus que a Espanha modernizou-se, mas isso não é eterno e a riqueza é um bem que se perde, o primeiro-ministro, Felipe González, entrou na última reunião da CEE, em Maastricht, na Holanda, disposto a falar grosso. No fim, conseguiu incluir no cronograma da unificação um capítulo que defende os interesses dos países mais pobres entre os europeus. A Espanha, cuja renda per capita ainda é 22% inferior à média da Comunidade Européia, quer ter o direito de pagar menos aos cofres comuns e, é claro, receber mais. "O problema é que não somos tão pobres como a Grécia e Portugal, que podem oferecer menos à CEE, e tampouco somos suficientemente ricos, como a Alemanha e a Dinamarca, para quem o dinheiro sobra", disse a VEJA um dos assessores do ministro da Economia, Carlos Solchaga.

Outro pesadelo é a avalanche de casos de corrupção no governo socialista. No mais traumático desses escândalos, a imprensa descobriu que o irmão do vice-primeiro-ministro, Alfonso Guerra, amigo de infância de Felipe González, ocupava um escritório de despachos como assistente de seu irmão e havia se aproveitado dessa situação para encher o bolso de dinheiro. González, de início, fingiu ignorar a roubalheira e só demitiu o vice-primeiro-ministro, a contragosto, depois que o rei Juan Carlos, em pessoa, veio a público denunciar o "miasma de corrupção" no coração do governo. Os poderes do monarca são limitados pela Constituição espanhola, mas sua autoridade moral é enorme - quando o rei fala, o povo escuta.

O salto da Espanha em direção à modernidade esconde um traço paranóide. Jamais se falou tanto na vantagem de se ter um país "normal", sem quarteladas nem insurreições, mas é provável que os espanhóis nunca tenham temido tanto o que a normalidade possa produzir em seu caráter. Possivelmente em nenhum outro país da Europa, nem mesmo na Itália ou Portugal, os velhos e bons costumes soem tão fortes como na Espanha. A começar pelos horários do cotidiano - um enigma para qualquer estrangeiro.

"OITO E MEIA DA TARDE" - O dia espanhol tem quatro partes. A manhã vai das 7 às 15 horas. A tarde cai às 22 horas. A noite se encerra às 2 da manhã. Aí então desponta a madrugada, o quarto e último pedaço da jornada. A madrugada quase sempre temina no dia seguinte. Faça um teste e tente ver a Espanha caminhando rumo ao futuro na hora do almoço (que invariavelmente se estica até as 16h30): impossível. O horário nobre das novelas de televisão é à tarde. Barriga de Aluguel (Ventre de Alquiler), da Globo, é o atual sucesso e Cássia Kiss a vedete do momento. Depois do almoço não há ninguém nas ruas. As lojas estão fechadas. A siesta depois da comida é sagrada. Os executivos que não fazem negócios durante o dia podem fazê-lo às 8h30 da tarde, horário que em qualquer outra parte do mundo já é noite.

Felipe González sabe que esse relógio um pouco excêntrico pode trapalhar os negócios da Espanha com o mundo. A Bolsa de Valores de Londres, por exemplo, funciona sem parar. "A Espanha é o único país da Europa com as horas fora do lugar Já pensamos muito sobre isso", disse González à revista americana Newsweek. "Podemos introduzir mudanças bruscamente, o que seria muito impopular, ou então pouco a pouco, o que é mais sensato."

A "MOVIDA" - O país inteiro quer ser normal aos olhos do mundo, mas não abre mão de suas peculiaridades, e talvez aí resida o grande charme espanhol. O canto de tonalidades árabes do flamenco da Andaluzia, os galanteios masculinos nas calçadas ("guapa!", isto é, "bonita"), as tapas, tiragostos espetaculares servidos em balcões populares - nada disso a Espanha perdeu. Os filmes do endiabrado Pedro Almodóvar, considerados a expressão máxima da modernidade, estão repletos de freiras, toureiros, damas pias e muito, muito folclore. Almodóvar é o príncipe da "movida",' o fenômeno de agitação cultural que nasceu com a democracia e se tomou marca registrada de Madri.

Almodóvar insiste em dizer que "a energia dos últimos dez anos morreu". Bobagem. A Espanha continua a dançar com a movida. Para o designer Javier Mariscal, autor do mascote dos Jogos Olímpicos de Barcelona, o polêmico Cobi (um cachorro dos Pirineus), a Espanha vive um peculiar momento antropofágico, em que tudo é digerido, tudo vira matéria-prima para os artistas. "A dança flamenca, Carmen, Don Juan, Picasso, os maços de cigarro Camel, a Coca-Cola, as caixas automáticas para tirar dinheiro, tudo me inspira", afirma Mariscal.

As touradas, símbolo máximo do que se convencionou chamar de "alma espanhola" e para muitos a verdadeira religião do país, viveram anos difíceis durante a década de 70. Hoje, mesmo sob o fogo cerrado dos ecologistas, elas estão mais fortes que nunca. Em 1990, foram ralizadas 498 novilhadas (espetáculos com animais e matadores jovens). Desde 1964 não se toureava tanto.

Um grupo de deputados verdes do Parlamento Europeu, liderados por alemães e suecos, quis proibir as touradas, tratando-as como uma agressão aos animais. A Espanha fez pé firme e disse não. "Eu mesmo não gosto de touradas e nunca vou às praças de touros", diz Alberto Navarro, diretor da Secretaria de Estado para as Comunidades Européias. "Mas é uma tradição de nosso povo, intocável." Houve também uma gritaria infernal quando os tecnocratas da CEE, em maio passado, anunciaram que a letra ñ sairia dos teclados dos computadores por uma questão de economia. Os espanhóis mais uma vez disseram não. A Espanha é España.

TENDAS DE BEDUÍNOS - A España é diferente de tudo até por sua geografia. Ela está pendurada na Europa por um istmo de apenas 700 quilômetros e sua extrernidade sul, em Gibraltar, fica a apenas 15 quilômetros da África. A Espanha é muito quente, sua terra é ressecada, os rios ficam com sede e diminuem na época da seca. "A Espanha é o país mais adiantado da África", comentava-se ironicamente nos tempos de vacas magras. Na época em que os filmes de bangue-bangue italiano estavam na moda, o local preferido pelos produtores para as filmagens eram as terras áridas do sul da Espanha, dada sua semelhança com o Velho Oeste americano. Imagine uma daquelas dançarinas envoltas em véus negros, de castanholas na mão e lábios encarnados. Agora, pense num tirolês, de jardineira verde e o chapéu com uma pena em cima, dançando com as pernas gordinhas. É, a Espanha tem uma tradição a manter.

Em Sevilha, durante os meses de verão, a temperatura atinge 40 graus. As fontes e jardins de Sevilha são uma das mais belas heranças que os árabes deixaram na Andaluzia em sete séculos de ocupação, entre o ano 700 e o século XV. Usavam o que os espanhóis chamam de "intuição feminina" para domar o sol e o calor com superficies de água e verde. Um grupo de quinze professores da Universidade de Sevilha bebeu na fonte dos mouros para desenvolver um tratamento bioclimático no recinto da Expo 92. Em algumas porções da Expo, com o uso de tendas de pano iguais às dos beduínos e de micronizadores de água (pequenos dispositivos com orifícios que jorram água no ar), será possível reduzir em até 6 graus a temperatura do ambiente. Domou-se a natureza com a ajuda da ciência.

O que não se conseguiu domar foi a réplica da nau Victoria, a embarcação utilizada por Juan Sebastián Elcano para completar sua volta ao mundo no século XVI. Em novembro do ano passado, para celebrar a Exposição Universal, decidiu-se zarpá-la do Rio Guadalquivir, em Sevilha. Apenas vinte minutos depois de sua partida, a réplica naufragou. O navio, que há cinco séculos percorreu o mundo, não andou mais do que 200 metros às portas do século XXI. A Espanha. de 1992 é isto também: põe para funcionar o trem de alta velocidade, o TGV francês, que ligará Madri a Sevilha a partir de abril, mas afunda barcos. As chapuzas, como os espanhóis se referem às coisas malfeitas, ainda assolam o país.

Os tão aguardados e simbólicos doze meses de 1992 são para a Espanha uma vitrine de tudo que se passou com ela na última década. Sua modernização, sua riqueza, sua inflação, seu desemprego. As manchas da corrupção e a renitente ameaça do terrorismo. Como pano de fundo a costurar tudo isso, o emblemático marco dos 500 anos de descobrimento da América e a polêmica que ele carrega. Seria Colombo, o herói de 1492, o vilão de 1992? O prefeito da cidade de Puerto Real, na Andaluzia, decidiu erguer um monumento contra o que ele considera "um genocídio de povos autóctones". Gabriel García Márquez, o escritor colombiano prêmio Nobel da Paz, foi amargo ao referir-se às diferenças entre a Espanha rica e a América Latina pobre e abandonada. "Essa idéia da Espanha tomar-se européia me fascina. É como se a mãe de alguém fosse dormir na casa de outro." Atento à dinamite transportada pelas comemorações do quinto centenário da descoberta da América, o governo espanhol decidiu tratá-las como "o encontro entre dois mundos" e não como a conquista de um reino poderoso e seu navegante atrevido. O encontro entre os dois mundos, hoje, é o da Espanha com a Europa.

 


 
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