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8 de janeiro de 1969
Israel: os
riscos de ganhar
uma guerra

Vencedor de três grandes batalhas
contra os árabes - em 1948, 1956 e 1967
-, Israel se encontra hoje como há vinte
anos: em busca de uma paz impossível

É um escândalo; Um delírio perverso; Uma ação vã e criminosa: de Washington ao Kremlin, passando pelo Vaticano, multiplicam-se as condenações a Israel pelo ataque ao aeroporto de Beirute a 29 de dezembro. Por que, de repente, esta indignação unânime, quando este ato de represália contra o terrorismo palestino se inscreve na série, já rotineira, de ataques e contra-ataques no Oriente Médio? Ao que tudo indica, não é só pela natureza bastante contestável do ato em si: destruição parcial da frota aérea civil do Líbano - o mais pacífico dos países árabes - em represália ao recente ataque de dois guerrilheiros palestinos contra um avião israelense, no aeroporto de Atenas. A crítica que agora se eleva nos quatro cantos do mundo resulta da própria vitória-relâmpago das forças israelenses em junho de 1967, vitória que se transformou num verdadeiro bumerangue contra o Estado de Israel: de um ameaçado Davi, Israel passou a ser visto como um ameaçador Golias, a ponto de o Primeiro-Ministro Levi Eshkoi declarar irritado: "Poderíamos perguntar se não teria sido preferível para Israel perder a Guerra dos Seis Dias - é muito provável que em tal caso desfrutássemos das simpatias mundiais..."

DEZESSEIS MINUTOS - Militarmente, Israel nunca se encontrou numa posição tão segura quanto hoje: pela primeira vez, em quase 21 anos de existência, 90 por cento de seu território está fora do alcance da artilharia árabe - situação apreciável quando se considera que antes de junho os sírios podiam calmamente lançar granadas sobre os férteis campos da Galiléia, enquanto os jordanianos apontavam seus imensos canhões de longo alcance diretamente contra Tel Aviv. Além do mais, as novas fronteiras de Israel são agora bem menores e mais facilmente defensáveis do que antes da guerra - a fronteira com a Jordânia diminuiu 92km, e com o Egito ela passou de 256 km de deserto a 170 km de canal. Quanto à sua defesa aérea, a posição de Israel também é bem mais confortável: antes da guerra, os Mig egípcios só precisavam de sete minutos para sobrevoar Tel Aviv; atualmente, os mesmos aviões levariam no mínimo dezesseis minutos, o suficiente para os jatos israelenses interceptarem os atacantes. Essa invulnerabilidade militar é tão importante para Israel que sua posição conciliatória, quanto aos territórios ocupados, endureceu sensivelmente nos últimos dezoito meses: imediatamente após a guerra, os líderes israelenses afirmaram que "tudo é negociável"; já agora, a julgar pelas declarações de seus principais homens políticos, parece que os planaltos de Golan, na Síria, a faixa de Gaza, no Sinai, o setor jordaniano de Jerusalém e uma parte da margem ocidental do Jordão não são mais "negociáveis".

GUERRAS PERIÓDICAS - A segurança física conquistada em junho de 1967 não trouxe a correspondente tranqüilidade psicológica para os judeus: a grande massa israelense ainda se acredita ameaçada pela hostilidade árabe, cujas declarações radicais - tais como "varrer Israel do mapa" - alimentam os temores de que uma nova "solução final" paira sobre o destino dos judeus no Oriente Médio. Isolados e cercados por milhões de árabes hostis, muitos israelenses ainda hoje aceitam a doutrina preconizada pelo velho líder sionista David Ben Gurion, segundo a qual a segurança de Israel está nas guerras periódicas, que gradativamente hão de reduzir os estados árabes à impotência. Hoje como ontem, os "sabras" (judeus nascidos em Israel) e os imigrantes da jovem nação se sentem totalmente isolados no Oriente Médio, o que não é surpreendente. O Estado judeu, realizando os sonhos do ideólogo sionista Theodor Herz, tornou-se a única sociedade moderna, próspera e altamente eficiente da região. Desde 1948, sua população judaica quadruplicou, a produção agrícola aumentou seis vezes e a produção industrial é sete vezes maior. A renda per capita do israelense passou de 75 dólares em 1950 para mais de 1.000 dólares em 1967, tornando o nível de vida em Israel comparável ao dos países europeus. Economicamente, portanto, a diferença com os vizinhos árabes é gritante. Mais importante, porém, é a diferença de "identidade nacional": para os fundadores de Israel, o Estado judeu deveria ser um bastião europeu no Oriente, e em 1969 poucos israelenses abastados pensam em modificar esse conceito. "Estou perfeitamente satisfeito em ser um estrangeiro no Oriente Médio", declara um alto funcionário de Tel Aviv. "Eu vi como vivem os árabes, e não vejo porque deveríamos levar o mesmo tipo de existência."

PRESSÃO CULTURAL - Esta é uma das questões-chave da difícil coexistência entre israelenses e árabes. Ninguém espera que os judeus vivam como seus vizinhos. Mas para muitos críticos estrangeiros, a total "europeização" do Estado judeu contribuiu grandemente para o incontestável desprezo da cultura árabe por parte dos israelenses, e para seu perigoso sentimento de superioridade em relação a seus vizinhos. Esta "europeização" também afetou Israel internamente. Ela exacerbou a divisão existente entre os Ashkenazim (judeus de origem européia ocidental) e os Sephardim (judeus originários dos Balcãs, do Leste europeu e do Oriente Próximo): os primeiros controlam toda a administração do país, onde exercem forte pressão cultural, e os segundos se sentem socialmente prejudicados e vítimas de uma evidente discriminação. Com a Guerra dos Seis Dias, a brecha entre esses dois grupos diminuiu consideravelmente, quando os Ashkenazim dos elegantes bairros residenciais de Haifa lutaram lado a lado com os Sephardim dos cinzentos blocos de concreto situados na periferia de Jerusalém. Mas se a guerra de junho contribuiu para a solução (temporária) de alguns problemas de ordem interna, ela deixou abertos os problemas fundamentais que opõem árabes a judeus, e ainda criou alguns problemas complementares. Como será possível para Israel conservar seu caráter de nação essencialmente judaica quando 45 por cento da população de seu território atual é árabe? E como manter sua herança anticolonial, se aceitar a proposição de alguns líderes mais influentes, como David Ben Gurion (que embora não seja do governo mantém influência sobre parte dele e da opinião pública), no sentido de estabelecer um "protetorado árabe com relativa autonomia" nos territórios ocupados?

EUFORIA DA VITÓRIA - Para os dirigentes israelenses não é nada fácil resolver estas delicadas questões sem entrar em conflito com os 2 milhões e 300.000 judeus de Israel pouco dispostos a fazer concessões que lhes pareçam ameaçar sua própria existência. Para a grande maioria, a segurança de Israel passa por certas aquisições territoriais, por negociações diretas com os árabes - que, por seu lado, não aceitam qualquer negociação sem a devolução prévia das terras perdidas - e pela conclusão de um verdadeiro tratado de paz, o menor afastamento desta linha apareceria como uma traição incompreensível. A tática dos "moderados" consiste justamente em fazer brechas neste muro de intransigência, sem parecer violar os princípios da linha de conduta traçada pelos "duros" na euforia da vitória de junho de 1967.

O difícil é saber quem são os "moderados" e quem são os "duros" num país onde um dos dois partidos comunistas existentes, o de Moshé Sneh, endossou a Guerra dos Seis Dias e é inteiramente oposto à retirada das forças israelenses dos territórios conquistados; onde o poderoso sindicato nacional Histadrut compreende empregados e patrões; onde as frentes comuns e as cisões se sucedem num processo permanente: em janeiro de 1968 formou-se o Partido do Trabalho, composto pelo partido trabalhista "Mapai" de Eshkol, do "Rafi" de Moshé Dayan e do "Adhut Haavoda" de Yigal Allon; esse Partido do Trabalho, por sua vez, adotou em outubro último uma frente comum com o partido socialista "Mapam", o que permitiu que, pela primeira vez na história de Israel, uma formação política tenha maioria absoluta no Parlamento (67 cadeiras entre 120).

HERÓI CONFIRMADO - Na constelação política israelense, os "moderados" poderiam ser representados pelo "Mapam", liderado por Meier Yaari e Yitzhak Patish, que advoga a nacionalização dos recursos naturais e das indústrias de base, a unidade da classe operária israelense e árabe, e a neutralidade em política exterior. O "Rafi", por outro lado, formado em julho de 1965 por David Ben Gurion e atualmente liderado por Moshé Dayan, preconiza a permanência de Israel em Charm el-Sheik a fim de garantir a livre passagem de seus navios pelo estreito de Tiran; uma parte não especificada do Sinai deveria servir de base para unidades motorizadas israelenses, e de toda maneira Israel deveria repudiar a resolução da ONU de 22 de novembro - que exige a retirada das tropas de Israel dos territórios ocupados, o reconhecimento da integridade territorial e a independência política de todas as nações da região. Moshé Dayan é incontestavelmente um "duro". Herói confirmado da Guerra dos Seis Dias e defensor do ataque contra o aeroporto de Beirute, Dayan já se prepara para as eleições gerais deste ano, quando tentará suceder ao já velho Levi Eshkol (73 anos), chefe do governo desde 1963 e fervente aliado dos países ocidentais. Eshkol, por sua vez, preferiria ceder seu posto a um outro herói da guerra (mas de 1948): o Ministro do Trabalho Yigal Allon, líder do partido "Adhut Haavoda". A fim de reforçar a posição de Allon junto ao eleitorado israelense, Eshkol tomou a controvertida decisão de nomeá-lo Vice-Primeiro-Ministro.

PERDEDOR DA PAZ - "Falcões" ou "pombos", é incontestável que a população inteira tem-se desgastado seriamente com o constante estado de beligerância no Oriente Médio, e com a vaga ininterrupta de ataques terroristas lançados pelos comandos palestinos. De brilhante vencedor de três guerras, Israel tornou-se o grande perdedor da paz, e para sair desse impasse, seus dirigentes tentam tudo, até ações estrategicamente falhas. O discutido ataque contra o Líbano, único vizinho árabe até então não-hostil a Israel, parece ter diminuído seriamente a simpatia de que o Estado judeu gozava no estrangeiro: a França, a Inglaterra, o Vaticano e a União Soviética logo se declararam solidárias ao Líbano, essa Suíça do Oriente Médio (com 97 bancos de dezesseis nacionalidades, Beirute é o maior centro financeiro internacional da região) que acolhe capitais e capitalistas do mundo inteiro. O Conselho de Segurança da ONU - do qual faz parte o Brasil - condenou unanimemente Israel, pela segunda vez em vinte anos (a primeira foi em 25 de novembro de 1966, por causa de um ataque à cidade jordaniana de Samoa). Os Estados Unidos, por seu lado, profundamente irritados com o ataque israelense, condenaram-no energicamente. O desagrado da Casa Branca surge precisamente quando se acabava de anunciar que os Estados Unidos haviam firmado um acordo para entregar a Israel cinqüenta aviões de combate Phantom F4, contrato este que não conta com o apoio da nova administração de Richard Nixon. Aliás, a política israelense do Presidente eleito deverá ser bem mais favorável aos árabes do que a de seu predecessor. As revistas "Time" e "Life", de orientação republicana, já deram os primeiros indícios disso: na sua edição de 22 de novembro último, "Life" modificou abruptamente sua linha pró-Israel e declarou que "havia caminhos mais esperançosos em direção da paz do que um apoio simplista e automático a Israel". Quanto ao influente "Time", sua matéria de capa do dia 13 de dezembro foi sobre os "comandos árabes, a nova força do Oriente Médio", cujo líder Yasser Arafat era descrito com certa simpatia.

Enquanto isso, caças israelenses voltam a atacar posições árabes e guerrilheiros palestinos fazem novas incursões em território israelense. As fronteiras de Israel com o Líbano e Jordânia estão novamente em pé de guerra. É a escalada da "represália" contra a "represália". Resta saber, agora, o que falta para que essas ações militares sejam consideradas como "atos de guerra" e degenerem, pela quarta vez em vinte anos, num conflito generalizado.


El Fatah, a verdadeira força árabe

Em junho de 1967, quando vencedores israelenses e vencidos árabes aceitaram o cessar-fogo exigido pelas Nações Unidas, o mundo inteiro recebeu com alívio o fim de uma guerra que ameaçava o já precário equilíbrio político mundial. Mas, a partir desse dia, as "incursões", os "choques" e os "incidentes" quase diários entre árabes e judeus acabaram mostrando que o acordo de cessar-fogo não passava de uma folha de papel sem valor. Na realidade, desde logo ficou evidente que a guerra entre israelenses e árabes não acabou no sexto dia - ela dura até hoje, só que os combatentes não são mais exatamente os mesmos.

De um lado, ainda estão os israelenses, ocupando não só as terras que pertenciam aos palestinos até 1948, como também 70.000 quilômetros quadrados de terras egípcias, jordanianas e sírias, conquistadas na guerra de 1967. Do outro lado estão os palestinos, ou, mais precisamente, as organizações de guerrilheiros palestinos, para quem a Guerra dos Seis Dias foi o mais belo dos presentes: ela demonstrou claramente a importância dos exércitos árabes diante da força israelense - e convenceu os palestinos a tomar conta, definitivamente, de seu próprio destino. O El Fatah, número 1 desses comandos, já no amanhecer da derrota árabe lançava-se por conta própria em busca da reconquista de suas terras. E, desde então, ele tem sido o principal motor da tensão no Oriente Médio, como demonstrou ao provocar o ataque israelense contra o aeroporto de Beirute.

PARAÍSO DE ALÁ - Desde o acordo de cessar-fogo, durante quase todas as noites - depois de uma prece muito simples ao seu protetor Alá -, um pequeno grupo de árabes lança silenciosamente suas balsas num ponto qualquer do rio Jordão. Em alguns minutos eles terão atravessado a fronteira de Israel, carregando seus modernos rifles automáticos Kalashnikov, de fabricação russa - bem protegidos dentro de tubos de plástico impermeável. Na escuridão eles procuram uma boa rota até o seu objetivo, em pleno interior de Israel, plantam minas explosivas nos kibutz, atacam de surpresa uma patrulha israelense ou metralham um posto de abastecimento - e então voltam, como puderem, para o seu refúgio na Jordânia. A sorte nem sempre parece estar ao lado deles - muitos são presos ou mortos pelas eficientes tropas israelenses de segurança. Mas as compensações pelo sacrifício são muitas - mesmo quando vêm depois da morte. Os guerrilheiros são mártires para todos os árabes. Crônicas das suas façanhas e suas fotografias são distribuídas pelo povo desde o Cairo até Beirute. E, segundo as regras do "jihad" - a Guerra Sagrada contra Israel, proclamada por líderes muçulmanos de 34 países, em outubro de 1968 -, todos aqueles que tombarem no campo de batalha serão sempre lembrados com reverência de profetas e terão livre entrada no paraíso celestial de Alá.

BRAÇADEIRAS VERMELHAS - O El Fatah é apenas uma de várias organizações clandestinas semelhantes. Embora ninguém saiba ao certo o número de seus membros - de 5.000 a 7.000 -, ela já se firmou entre os árabes como a mais poderosa e organizada. O mundo conhece seus guerrilheiros como os "fedayeen" - os "redentores" -, um grupo de combatentes clandestinos na melhor tradição das guerrilhas, hábeis e eficientes na arte da sabotagem e do terrorismo. Na Jordânia, pelo menos, o El Fatah é onipresente: no campo e nas plantações, mas também na própria capital Amã, onde os guerrilheiros têm sua polícia militar particular, de braçadeiras vermelhas. Nessa cidade, a organização mantém escritórios próprios para controlar os donativos e receber novos recrutas. De suas potentes antenas do Cairo partem as ondas sonoras da Voz do El Fatah, que atinge todos os países árabes e até mesmo Israel. O "mudjahid" - o combatente - recebe um salário superior ao de um professor jordaniano. E a mulher do "chahid" - o que morreu no combate - recebe uma pensão perrnanente. Os "fedayeen" possuem gráficas, selos, equipamento e centros de treinamento próprios. E fora de Amã, onde o Rei Hussein ainda parece exercer um frágil poder, os guerrilheiros são os próprios legisladores - e os executores das leis.

NOS BRAÇOS DE PEQUIM - A sustentação econômica do movimento provém do Kuweit, de Bahrein, de Catar, da Arábia Saudita - os "Estados do petróleo" -, mas também do Brasil ou do Canadá, onde os milionários sírios ou libaneses contribuem com importantes donativos. A mulher do Rei Faiçal, da Arábia Saudita, enviou 4.500 dólares. Um beduíno encontrou no deserto um helicóptero sírio abandonado e juntou um grupo de companheiros para restaurá-lo e entregá-lo ao El Fatah. Estudantes abandonam suas escolas no Cairo e em Damasco e vão juntar-se aos "fedayeen", enquanto médicos e cientistas largam suas pesquisas e seus consultórios para auxiliarem os guerrilheiros feridos. Não há evidências de ajuda militar oficial aos "fedayeen", mas parece certo que eles recebem armas russas ironicamente fornecidas pela RAU e pela China Popular. O El Fatah também não está buscando sustentação, ou inspiração, nos braços de Pequim: "Nós já lemos Mao", disse um jovem guerrilheiro, "mas não achamos que ele seja realmente importante". Para os "fedayeen", o verdadeiro modelo e exemplo está na revolução argelina de Ahmed Ben Bella.

MASSA DE DESESPERADOS - As origens desses grupos de guerrilheiros estão nos refugiados palestinos - hoje calculados em 1,5 milhão - que, por vinte anos, não passaram de um povo dividido e sem perspectivas, desprovido das suas terras e do direito de palavra sobre sua própria existência. Com a fundação do Estado de Israel em 1948, eles se dispersaram pelas estradas da Galiléia e acabaram marginalizados em acampamentos miseráveis na Jordânia e na faixa de Gaza. Os governos árabes pouco ou nada fizeram para remediar a situação daquela massa de desesperados. Por vinte anos eles foram alimentados menos por comida do que pelas promessas de que poderiam voltar à Palestina. Muitas vezes, as cabanas de pau-a-pique construídas em substituição às suas tendas de lona eram destruídas pelos próprios refugiados - que consideravam "suspeito" tudo o que era sólido, tão grande era a sua ansiedade de regressar à terra natal. Em 1965 havia 1.250.000 refugiados regularmente "matriculados". A cada ano morriam 8.000, mas nasciam outros 42.000. Este espetáculo, no entanto, era muito desagradável para os espíritos finos. E todos - governos árabes, grandes potências, Israel - desviavam seus olhos, na esperança de que um dia tudo acabasse no esquecimento: as novas gerações de refugiados talvez não se lembrassem dos rancores dos seus antepassados.

POLÍCIA IMPLACÁVEL - Nada disso, porém, aconteceu. Foi preciso, então, canalizar o ódio dos refugiados, dando-lhes uma válvula de escape: a Organização de Libertação da Palestina, liderada por Ahmed Choukeiri, um exército inútil e fantoche, controlado pelos egípcios. Ao mesmo tempo, a polícia nasserista, implacável, vigiava severamente os 350.000 infelizes amontoados em Gaza, ocupando uma área de 320 quilômetros quadrados, ou seja, uma densidade de 1.158 habitantes por quilômetro quadrado - três vezes mais que a Holanda. Ao mesmo tempo, também o Exército jordaniano encurralava e impedia a ação dos primeiros comandos que tentavam penetrar em Israel. Foi sob este pano de fundo repleto de raiva e de rancor que nasceram os "fedayeen", resolvendo tomar o destino de todos os palestinos nas suas mãos. Se o espírito dos "fedayeen" se formou da ansiedade dos refugiados, a organização política do El Fatah - e do seu braço militar, El Assifa - se criou na Liga dos Estudantes Palestinos do Cairo: 15.000 membros, presididos, na época, pelo atual líder e porta-voz dos guerrilheiros palestinos, Mohammed "Yassir" Arafat.

Abou Amar - é o seu pseudônimo revolucionário - tornou-se uma espécie de herói lendário, talvez por ser o único chefe de guerrilha palestino cuja identidade foi revelada.

UMA NOVA NAÇÃO - Nascido há quarenta anos no setor árabe de Jerusalém, Arafat possui o olhar cansado de um homem que ainda tem muitas lutas pela frente. Ídolo de milhões de palestinos esperançosos, Arafat já conheceu as prisões egípcias de Nasser e as sinistras celas de Damasco. Os eficientes serviços secretos de Israel têm tentado capturá-lo, mas em vão: ele já penetrou três vezes na Palestina, e suas aparições se estão tornando lendárias. Para Arafat, toda e qualquer solução política para o problema palestino deve ser rejeitada. "Estamos convencidos de que só há um meio de retornarmos às nossas casas e à nossa terra - a luta armada. Para nós, a solução política é uma capitulação". Os comissários políticos do El Fatah dedicam a maior parte da sua propaganda a denunciar qualquer acordo negociado - e consideram que, uma vez libertada toda a Palestina, os judeus orientais poderiam formar com eles nova nação, "enquanto os judeus ocidentais deveriam voltar aos seus países de origem". Sem dever lealdade alguma a nenhum governo, os "fedayeen" são responsáveis apenas por si mesmos. Hoje em dia, eles detêm o poder único de provocar Israel para seguidas represálias contra os árabes - como o recente ataque israelense sobre Beirute - e de exercer assim pressões cada vez fortes sobre os regimes árabes, levando-os a uma nova guerra. E já é possível imaginar que os guerrilheiros palestinos, com sua luta radical de libertação, acabem se transformando no adversário comum de seus aliados de ontem - os governos dos países árabes - e do inimigo de sempre - Israel - tornando-se numa espécie de vietcongs do Oriente Médio.


 
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