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  7 de dezembro de 1994
Santuários
do Brasil
ecológico

Quais são, onde ficam,
como chegar e o que fazer
nas onze jóias mais valiosas
do ecoturismo nacional

1
Laurentino Gomes

A cena lembra um ritual de magia dos filmes de Indiana Jones. Todo ano, por volta das 5 horas da tarde do dia 23 de junho, um feixe de luz solar fere a penumbra no interior da gruta do Poço do Encantado, no sertão da Bahia. O facho luminoso desce até o fundo de um lago de águas azuis-turquesa e se reflete nas paredes da rocha calcária, como se um canhão de raio laser iluminasse o ambiente. Produto de um fenômeno natural, o espetáculo do Poço do Encantado faz parte de um Brasil extraordinário, de beleza de tirar o fôlego, pouco conhecido dos 110 milhões de brasileiros que vivem em cidades. É também parte de um roteiro de santuários naturais que, cada vez mais, atrai milhares de turistas do Brasil e do exterior. Nenhum outro país tem ecossistemas de climas tão variados. Os paraísos ecológicos brasileiros somam 3,7 milhões de quilômetros quadrados, 43% do território nacional, dos quais 3,3 milhões apenas na Amazônia. Se fosse emancipada do Brasil, a nação verde constituída por essas áreas seria o sétimo maior país do mundo, superando, em tamanho, a índia e a Argentina.

VEJA foi buscar onze dessas pérolas ecológicas. Elas foram escolhidas por dois critérios principais - o estado de preservação em que se encontram e a existência de infra-estrutura de hospedagem e meios de transporte adequados para chegar até o local. Todos os onze santuários estão relativamente bem-cuidados, têm hotéis ou pousadas com algum conforto, restaurantes e facilidade de acesso. Por essas duas razões, outros lugares igualmente bonitos não entraram na lista. Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, e Mangue Seco, na Bahia, foram excluídos porque estão bastante destruídos pelo turismo desordenado. Abrolhos, no litoral da Bahia, e Juréia, no litoral paulista, também ficaram de fora porque são locais em que os órgãos do governo dificultam a entrada de visitantes.

Oficialmente, o Brasil tem 134 parques e reservas nacionais, que ocupam 4% do território nacional. Eles estão protegidos nos documentos - e só. Na prática, boa parte desse tesouro ecológico está abandonada à própria sorte. Uma boa novidade é que o conceito de proteção ambiental está mudando. Até alguns anos atrás, havia duas formas distintas de tratar da preservação da natureza no Brasil - ambas desastrosas. A mais comum era deixar que as belezas naturais fossem destruídas pela especulação imobiliária e pelo turismo predatório. Os piores exemplos disso podem ser observados em toda a costa brasileira, bastante agredida pela ocupação desordenada. Faixas inteiras do litoral foram destruídas pelo zoneamento caótico, pela invasão do comércio vagabundo, pela incompetência dos poderes públicos. Uma segunda maneira de tratar a ecologia era desapropriar uma área, expulsar seus moradores, impedir o acesso dos turistas e colocar fiscais para protegê-la. Isso nunca deu certo. Em vez dos turistas, entravam os caçadores profissionais, os madeireiros, os grileiros de terra e toda sorte de predadores.

O ecoturismo, uma nova maneira de viajar e passar férias, é um tipo de lazer no qual se combinam o gosto pela aventura e a contemplação da natureza em lugares de paisagens bonitas. No Brasil, um dos países com maior vocação nessa área, o ecoturismo já representa 5% de todas as viagens de lazer, segundo cálculos da Embratur. Cerca de meio milhão de estrangeiros esteve no país no ano passado para visitar lugares como a Amazônia e o Pantanal Mato-Grossense. "Está chegando agora ao Brasil uma idéia que já funciona há quase dez anos no restante do mundo", observa Sérgio Mourão, da Agência Expeditur, do Rio de Janeiro.

Proteger a natureza, para o ecoturismo, vale a pena porque dá dinheiro. Um estudo patrocinado pelo Banco Mundial nos parques nacionais do Quênia, na áfrica, descobriu que uma manada de elefantes gera cerca de 600.000 dólares por ano em turismo e que um elefante sozinho pode gerar uma receita de 1 milhão de dólares durante uma vida de 60 anos. Usar o território habitado pelos elefantes para agricultura, em contrapartida, renderia apenas 2% do dinheiro com turismo proporcionado por eles. Nos Estados Unidos existem cerca de 900 parques ecológicos, visitados por 300 milhões de pessoas por ano. O ingresso em cada um deles custa, em média, 3 dólares e, no ano passado, gerou uma receita de quase 1 bilhão de dólares. Exemplos semelhantes de preservação ambiental são praticados nos parques nacionais da Austrália, da áfrica do Sul e de todos os países europeus.

Mordomia na selva

Nos lodges da Amazônia, hotéis plantados
no coração da floresta, os safáris ecológicos
incluem hospedagem com conforto e boa comida

Ernesto Bernardes

O naturalista alemão Alexander von Humboldt passou seis anos pesquisando bibliotecas e mapotecas e arregimentando colaboradores para uma grande expedição científica. Em 1799, aventurou-se pela selva amazônica, desbravando o território da atual Venezuela em busca das nascentes do Rio Amazonas. Registrou em livro, com texto e gravura, todos os acidentes geográficos, plantas e animais que encontrou pelo caminho. Pobre Humboldt. Quando entrava no Brasil, então colônia portuguesa, foi preso e deportado pelo governador do Grão-Pará, acusado de espionagem. O barão seguiu viagem pelas Américas, torrou quase todo o dinheiro da família com a expedição e a publicação de seus relatos de viagem, mas só conheceu o Amazonas brasileiro de passagem, durante a retirada. O turista do século XX tem mais sorte. Por 1.170 reais, pode-se percorrer em oito dias o trajeto da expedição Humboldt pelo Brasil, conhecer as cachoeiras, os índios curipaco, fazer canoagem, pescar e até traçar churrascos à beira do rio, sem o risco de ser incomodado pelas autoridades locais. O programa é organizado pela King's Island Lodge, uma empresa de suíços radicados no Brasil, que reproduz a rota original de Humboldt.

Na época de Humboldt, safári ecológico era sinônimo de picada de mosquito, desconforto e doenças tropicais. Hoje, os safáris na Amazônia prevêem hospedagem em hotéis confortáveis, plantados na própria mata, com boa comida e serviço de primeira qualidade. Há catorze desses hotéis no Amazonas. São os lodges - expressão inglesa que significa alojamento ou residência temporária. São tão seguros e confortáveis que as agências de turismo oferecem até programas para pessoas da terceira idade. Há atrações de todo tipo. Pode-se, por exemplo, sobrevoar a selva em passeios de ultraleve, ou ficar hospedado junto à copa das árvores, onde a fauna é mais exuberante. O melhor período para visitar a Amazônia vai de abril a outubro, quando chove pouco e o clima é mais ameno. Na estação das chuvas, de novembro a março, alguns rios ficam difíceis de navegar, aumenta o número de mosquitos e trechos dos pacotes turísticos costumam ser cancelados - especialmente os passeios na mata.

TORRE NA SELVA - No Ariaú Jungle Tower, uma das melhores hospedagens do Norte brasileiro, um pacote de dois dias para casal custa 170 reais. Sua lista de hóspedes famosos inclui o chanceler alemão, Helmut Kohl, o jogador Romário, a cantora Olivia Newton-John e o diretor de cinema Roman Polanski. O hotel é um conjunto de cinco torres de madeira construídas em clareiras na selva sem que nem 1 metro quadrado precisasse ser desmatado. Todo o caminho entre os quartos e o restaurante, o ancoradouro, as salas de jogos e piscinas é feito por passarelas suspensas, que chegam a 15 metros de altura. São os melhores lugares para observar aves, macacos e preguiças. A grande atração do hotel, que tem heliporto e ultraleve de aluguel, é a Casa do Tarzã, uma suíte construída no topo de uma árvore de 38 metros de altura. Não há Jane que resista.

Quem prefere algo ainda mais confortável deve optar pela Pousada dos Guanavenas, na Ilha de Silves (a 240 quilômetros de Manaus), um hotel com todo o luxo de um cinco estrelas. Por conta da bela localização (no alto de um morro), ar condicionado, quadras de esportes e um cipoal de mordomias amazônicas, é o hotel preferido de paulistas e cariocas que vão à selva. Os estrangeiros costumam optar por hotéis mais rústicos, onde podem acordar com morcegos dependurados na soleira e macacos pulando no telhado. Os favoritos são o Amazon Lodge, flutuante, e o Amazon Village. Os dois não têm luz elétrica nem nenhuma espécie de conforto urbano, mas são limpos e o atendimento é de primeira. Quem odeia mosquitos deve escolher hotéis próximos ao Rio Negro, onde a acidez das águas inibe a proliferação de insetos. Uma opção mais econômica é o Jaraqui, um hotel flutuante que oferece um pacote de duas diárias por 90 reais. O quarto, sem banheiro, tem dois beliches.

De janeiro a outubro deste ano, 26.300 pessoas hospedaram-se nos hotéis de selva da Amazônia. Cerca de 95% dos turistas eram estrangeiros. Uma das razões dessa diferença estatística é o custo da viagem de avião, devido à distância. A outra é que os brasileiros das grandes cidades imaginam a Amazônia como uma versão ampliada do Jardim Botânico ou do Simba Safári. É um erro. Na selva amazônica, é raro observar os animais de perto. Lá, a principal atração é a própria floresta e suas dimensões colossais. Poucos lugares no mundo permitem ao viajante experimentar com tanta intensidade o gigantismo das forças da natureza. Pode-se ter uma idéia da vastidão da selva pela distância entre uma margem e outra do Rio Amazonas em alguns pontos: 22 quilômetros, mais do que o percurso entre um extremo e outro da Marginal do Rio Tietê, em São Paulo. A profundidade do rio atinge 135 metros, o equivalente a um prédio de 48 andares. Com alguma sorte, pode-se ver nos passeios sucuris de 5 metros, jacarés maiores que as canoas e peixes enormes, como os pirarucus, que chegam a pesar 200 quilos.

CARTÃO-POSTAL - Entre os roteiros considerados "radicais", a Nature Safaris, de Manaus, vende pacotes como o Bike & Hike (Bicicleta e Alpinismo), que inclui pedaladas em trilhas abertas na selva e uma escalada íngreme de 600 metros até o topo da Pedra do Cucuí. Pode-se também escalar o Pico da Neblina em dez dias. Ou fazer um curso de sobrevivência na selva, no qual os guias são oficiais de infantaria do Exército. Esses programas duram pouco mais de uma semana, partem de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), mas pesam no bolso - entre 1.070 e 2.320 reais por pessoa, além da passagem de avião Manaus-São Gabriel.

Os viajantes comodistas não precisam, contudo, sentir-se órfãos. O hotel Lago Salvador fica a meia hora de barco a partir de Manaus, com direito a uma paisagem de cartão-postal, tem luz elétrica, ventiladores e frigobar. De quebra, um ótimo restaurante. São quatro chalés instalados em pontos estratégicos ao redor de um belo lago. No centro, há um bar flutuante, onde os hóspedes podem tomar suas cervejinhas tranqüilamente até a madrugada, para compensar a falta de televisão. De lá, pode-se ir ao local do encontro das águas do Rio Negro com as do Solimões em poucos minutos, numa lancha alugada.

GUIAS PICARETAS - Qualquer que seja o passeio escolhido, o manual de sobrevivência na selva é simples. Ele recomenda que, apesar do calor, com temperatura média de 26 graus, com picos de até 35 durante o dia, o turista leve na bagagem calças jeans e camisas de manga comprida, porque as trilhas são cheias de espinhos. Como é improvável trombar com uma onça no meio do caminho, as espécies mais perigosas da selva passam a ser os guias picaretas, que espreitam no desembarque do Aeroporto de Manaus. Sem registro na Empresa Amazonense de Turismo, Emantur, nem contato com os bons hotéis, abrigam suas presas em passeios de barco precaríssimos e fornecem-lhes apenas uma média com pão e manteiga no café da manhã. Para escapar deles, deve-se acertar a viagem com um guia recomendado ou uma agência de turismo antes de chegar a Manaus. Em qualquer situação, viajar por conta própria é arriscado.

É preciso também tomar cuidado com as espertezas dos gerentes de alguns hotéis. Eles vendem pacotes econômicos, mas cobram uma taxa extorsiva para cada passeio fora do programa. A última recomendação é quanto ao tempo de viagem. Para o turista que não tenha nenhum interesse especial em zoologia, botânica ou geografia, nem esteja disposto a fazer uma viagem de estudos pela floresta, um aviso: nada de pacotes longos ou de chatíssimos pinga-pingas nos hotéis da selva. Os passeios geralmente são muito parecidos, incluindo caminhadas pela selva, passeios pelos igarapés, pesca de piranhas e observação noturna de jacarés. Reservar lugar num dos lodges, e ali permanecer hospedado, já é suficiente para ter uma idéia do que existe na região. E não é pouca coisa. Ao final do passeio amazônico, o turista terá a noção exata do que levou Alexander von Humboldt a definir a floresta pluvial tropical como "o máximo de plenitude de vida".

Labirinto de pedra

Grutas e lagoas coloridas, paredões rochosos
e um emaranhado de rios e cachoeiras fazem da
Chapada Diamantina um cenário majestoso

Angela Klinke

A História e a natureza formam uma estranha parceria na Chapada Diamantina, no sertão da Bahia. A história está viva no casario em estilo colonial da cidade de Lençóis, capital da região, a 425 quilômetros de Salvador. Há até um pequeno sobrado que servia de consulado francês no final do século passado, no auge do rico período da exploração de diamantes. Já a natureza esculpiu na chapada uma espantosa cadeia de montanhas. São cânions e morros entre os quais se formaram rios e cachoeiras. É um pedaço do Brasil em que a porção urbana lembra os tempos do imperador e a rural impõe a majestosa melancolia das terras sem fim. Pode-se caminhar quinze dias pelas trilhas da Chapada Diamantina e sempre haverá algo diferente para ver. A paisagem merece um olhar de 360 graus. "Aqui se redescobre que a terra é redonda", diz o paulistano Luís Krug, um jornalista que fugiu para a Bahia durante a ditadura militar e resolveu ser guia turístico na chapada há quinze anos.

BANHOS DE RIO - Há 2 bilhões de anos, quando o planeta ainda era jovem e os continentes formavam uma mesma placa de terra firme, a chapada ficava no fundo de um oceano. O que se pode observar na paisagem hoje é o efeito desse passado geológico produzido pela erosão e pelas acomodações das rochas. São camadas e camadas finíssimas de areia que se sedimentaram. A água dos rios e lagoas da região é absolutamente cristalina, porque o calcário funciona como um filtro natural das impurezas. Presente nas rochas, ele serve como um catalisador para os materiais orgânicos em suspensão na água. Um fenômeno parecido ocorre na região de Bonito, em Mato Grosso do Sul (veja reportagem à pág. 96).

Andar, e muito, é a chave de todas as descobertas na Chapada. Um guia mirim cobra 15 reais e pode ensinar o caminho das pedras ao turista aprendiz. A agência Brasil Adentro organiza as caminhadas mais longas, nas quais parte do percurso é feita em lombo de mula. É um programa estafante: são 85 quilômetros em cinco dias. Dorme-se em acampamentos ao ar livre e há paradas para banhos de rio. O passeio completo custa 380 reais. Existem roteiros mais curtos e baratos. Um deles, de apenas 2,5 quilômetros, sai por 15 reais e passa por rios e grutas de areias coloridas, a partir da cidade de Lençóis. Não existe nenhum hotel quatro ou cinco estrelas na chapada, mas a região oferece alternativas confortáveis de hospedagem. A Pousada de Lençóis e a Canto das águas são muito simpáticas, têm piscinas e boa comida caseira.

TOBOGÃ NATURAL - O Poço do Encantado, a uma hora de carro, é arrebatador. É um lago azul-turquesa, escondido em uma gruta dentro de uma fazenda. Para chegar a ele, é preciso descer uma ribanceira de 300 metros (sem corrimão) e outros 200 metros com uma corda servindo de apoio. Nos meses de junho e julho, uma abertura na rocha permite a entrada de um raio de luz que penetra na água como um feixe azulado de raio laser.

Para quem gosta de folias aquáticas, uma rota obrigatória leva a Ribeirão do Meio, a 4 quilômetros de Lençóis. Seu atrativo é um tobogã natural. O fundo do rio, e do poço que se transformou em piscina, é uma formação rochosa cor-de-rosa. Uma outra atração, a Cachoeira do Sossego, exige um dia inteiro de caminhada. Lá, a água reflete tonalidades que vão do azul ao amarelo e é potável. As vinte espécies de orquídea e as bromélias na mata que margeia a picada atraem botânicos do mundo inteiro. Botânicos ou turistas, há uma regra básica a ser respeitada: as caminhadas na chapada impõem uma bagagem reduzida. O ideal é uma mochila com roupas leves de algodão. Evite as roupas de brim, que, quando molham, ficam muito pesadas. Convém levar um par de tênis com um número maior que o pé e já bem usado. Os passeios pela chapada são cansativos, mas têm suas recompensas: nada como deitar-se numa rede, no final de tarde, já de volta ao hotel, para abrir um livro e apreciar o horizonte dessa vereda no sertão.

Paraíso das águas

No Pantanal e na região do Bonito, o ciclo
das cheias dita o ritmo da vida em rios e lagoas
habitados por milhares de espécies

Silvânia Dal Bosco

Nesta época do ano, os curimbatás, dourados e piraputangas estão deixando o Pantanal e seguindo em cardumes para as águas cristalinas dos rios que cortam a vizinha região do Bonito, encravada ao pé da Serra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul, a 250 quilômetros de Campo Grande. É a piracema, fenômeno que se repete entre novembro e janeiro. Milhões de peixes sobem até as nascentes dos rios e desovam às margens dos afluentes menores, de águas mais limpas. Retornam em fevereiro e março, ao final da estação das cheias, em cardumes gigantescos, que chegam a escurecer quilômetros da superfície dos rios. O Pantanal e a região do Bonito formam uma estupenda bacia de água doce no coração da América do Sul. São dois ecossistemas ligados pela mesma bacia hidrográfica, mas de características diversas. Espraiado entre os Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o Pantanal é a maior planície alagada do mundo, com 140.000 quilômetros quadrados, o equivalente a três Estados do Espírito Santo. É também uma das mecas planetárias dos ecologistas. Bonito, ali ao lado, apenas agora começa a ser descoberto. É um monumental aquário ao ar livre e um dos melhores lugares para mergulho no país.

O Pantanal é uma vastidão de terra cortada de ponta a ponta pelo Rio Paraguai e abriga mais de 1.000 espécies de animais silvestres - além de 8 milhões de cabeças de gado. Conhecida como a savana brasileira, a vegetação do Pantanal alterna matas fechadas, com altura média de 3 metros, e grandes descampados, que se assemelham a campos de futebol. Em meio a essa paisagem, vivem 650 espécies de aves, como tuiuiús, gaviões, colhereiros, emas e araras. E mais de oitenta espécies de mamíferos, como capivaras, cervos, lobos, macacos e onças, além de outros cinqüenta tipos de répteis, entre os quais o jacaré - personagem-símbolo da fauna da região. O safári ecológico pantaneiro deve obedecer a algumas regras. É preciso ter paciência e manter-se em silêncio para admirar os animais. Embora sejam muito mais abundantes que na Amazônia, eles fogem ao menor ruído. Nem todo o silêncio do mundo, no entanto, fará a anhuma, um pássaro do tamanho de uma galinha, calar os gritos. Não perca tempo parando perto dela - o grito da anhuma é uma advertência ao resto da bicharada de que há estranhos no território. Como dificilmente se consegue chegar perto dos animais, uma boa solução é usar um binóculo ou uma câmara fotográfica com lentes de longo alcance.

MELHORES HOTÉIS - Antes de definir o roteiro a ser feito no Pantanal é importante saber que existem dois pantanais: o do Norte e o do Sul. Ambos fazem parte da mesma planície, mas o Pantanal Sul tem melhores hotéis e um maior número de animais. As diárias dos hotéis-fazenda e das pousadas variam de 25 a 250 reais. A novidade para esta temporada é o Pantanal Park Hotel, um quatro estrelas localizado em Porto Murtinho, a 60 quilômetros de Corumbá. Outra boa alternativa é o pioneiro Refúgio Ecológico Caiman, com guias de turismo formados em botânica e diárias de 400 reais para o casal. Todos os hotéis da região oferecem programas parecidos. Eles incluem acordar cedo, por volta das 6 horas da manhã, para ouvir a sinfonia dos pássaros. Depois, desfrutar as belezas da região em passeios de barco. Há também caminhadas por trilhas selvagens, cavalgadas e pescarias. O passeio mais emocionante acontece à noite. A bordo de um jipe com dois holofotes instalados no capô, parte-se para observar jacarés nas áreas alagadas. É impressionante ver centenas de olhinhos cor-de-rosa refletindo a luz e movimentando-se de um lado para outro na água.

O Pantanal tem duas estações bem definidas. De novembro a março, época das grandes enchentes, os barcos são o único meio de transporte na região. É o período em que as 230 espécies de peixes se reproduzem. De abril a outubro, vem a seca, melhor época para o turismo. Com o programa e a data de viagem definidos, a maneira mais fácil e barata de visitar o Pantanal é comprar pacotes oferecidos pelas agências de turismo. Os preços variam de 630 a 1.720 reais em média por pessoa para uma temporada de cinco dias. Esses pacotes incluem passagem aérea, hospedagem, refeições e passeios. Outra boa alternativa é passar uma semana a bordo de um barco com cabines refrigeradas, com diárias entre 80 e 250 reais. água mineral, lanche, um minipronto-socorro, repelente de mosquitos, óculos de sol, chapéu e roupas leves são gêneros de primeiríssima necessidade. Quem quiser arriscar-se em uma aventura por conta própria poderá alugar um carro em Corumbá, de preferência com tração nas quatro rodas, e sair em direção à Estrada Parque. Terá pela frente 150 quilômetros de estrada de terra. As distâncias entre uma fazenda e outra são grandes e não há sinalização. Por essa razão, aconselha-se levar um guia experiente na viagem.

"MARAVILHOSO" - A cidade de Bonito fica próxima da extremidade sul do Pantanal, a 250 quilômetros de Campo Grande. É a cidade no lugar certo com nome errado. Em vez de "Bonito", o lugar deveria chamar-se "Maravilhoso", um adjetivo mais adequado. Seus rios e lagos são cristalinos e repletos de peixes multicoloridos. Espalhadas por um raio de 30 quilômetros, há cachoeiras e grutas que parecem ter sido esculpidas a mão. Os passeios oferecidos pelas agências de turismo são variados, em distâncias entre 7 e 54 quilômetros, a partir do centro da cidade. Um dos mais emocionantes é a descida das corredeiras do Rio Formoso em botes de borracha. O percurso é uma montanha-russa líquida com cachoeiras de até 3 metros de altura. O barco fica quase na vertical e cai de ponta na água.

AQUÁRIO NATURAL - Um outro passeio, feito a pé, leva até a cachoeira do Rio Aquidaban. Passa-se por dez cascatas até chegar ao topo de uma queda de 120 metros de altura, cujas águas caem nas terras de uma reserva indígena. Apoiando-se em cipós e troncos de árvores, chega-se ao pé da cachoeira, de onde a visão é monumental. É um roteiro que exige disposição, um calçado confortável e roupa de banho. Um dos pontos turísticos mais impressionantes da região é o Aquário Natural, uma lagoa cristalina situada na nascente de um dos afluentes do Rio Bonito. Ali, há uma incrível superpopulação de peixes coloridos que se movimentam em meio a uma vegetação verde e roxa. É um bom local de mergulho para os amadores. As agências fornecem máscara e snorkel para os visitantes e a temperatura da água é muito baixa, cerca de 18 graus no verão. Para os mergulhadores experientes, as melhores opções são a Baía Bonita e o lago da gruta do Formoso.

Quem gosta de espeleologia, a prospecção de cavernas, deve visitar a Gruta Azul. Depois de descer 256 degraus, chega-se a um salão repleto de estalactites e estalagmites, que sem nenhum esforço de imaginação assumem a forma de um totem indígena, da cabeça de uma coruja ou da carranca de um navio. No fundo do salão, existe um lago de cor azul-anil, com 57 metros de profundidade. Dentro dele, já foram encontrados fósseis de animais pré-históricos, como um tigre-dentes-de-sabre e uma preguiça gigante.

Existe mais um bom motivo para visitar Bonito. É um dos pontos turísticos mais bem preservados do Brasil. Suas grutas, cachoeiras e rios continuam intactos, como se o homem nunca tivesse pisado ali. Aos fazendeiros interessa conservar as atrações existentes em suas propriedades, porque cobram ingressos dos visitantes e para eles o turismo já se tornou um negócio melhor que plantar soja. A prefeitura também aumentou a arrecadação e as agências de viagem atendem a um número cada vez maior de turistas. O resultado disso tudo é que a preservação da natureza em Bonito se tornou um bom negócio para todo mundo - e ótimo exemplo para os outros santuários ecológicos no Brasil.

Mar no cerrado

Meca dos pescadores, o Rio Araguaia percorre
2.600 quilômetros de praias e florestas num
dos roteiros mais selvagens do país

David Friedlander

Nunca se sabe exatamente onde elas irão aparecer. Todos os anos, entre abril e o início de novembro, quando as águas do Araguaia baixam, surge no cerrado brasileiro uma nova coleção de praias exóticas, banhadas pela maré de água doce. O rio vira mar. A rotina do turista típico da região, em sua maior parte moradores de Goiânia, é nadar na correnteza, passear de jet-ski, pescar de barco e tomar banho de sol. Foram as praias que tornaram o Araguaia conhecido fora do Centro-Oeste. As mais freqüentadas são as de Aruanã, a 320 quilômetros de Goiânia (por estrada asfaltada), e de Luiz Alves, a 545 quilômetros da capital (com 42 quilômetros de terra). Elas ficam apinhadas de gente em julho e agosto, meses em que a temperatura chega facilmente aos 35 graus.

Fora dessas praias, o Araguaia é um dos roteiros turísticos mais selvagens do Brasil. São 2.600 quilômetros de rio, que começam na divisa entre os Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul e terminam no Tocantins, já na divisa entre Maranhão e Pará. A bordo das voadeiras, barcos a motor com capacidade para cinco ou seis pessoas, alugadas por 20 reais a hora, é possível avistar bandos de jaburus, colhereiros e mergulhões. As tracajás, pequenas tartarugas de água doce, oferecem um espetáculo peculiar. Em grupos, elas amontoam-se nos galhos das árvores e vão-se atirando no rio, uma atrás da outra, à medida que a embarcação passa. Entre dezembro e março, o rio fica cheio e as praias desaparecem. É um bom período para pescarias, mas ruim para visitas turísticas.

MARTIM-PESCADOR - Uma boa opção para as férias no Araguaia é a cidade de São Félix, situada na margem esquerda do Araguaia, em frente da Ilha do Bananal, já no Estado de Mato Grosso. Chega-se até lá de avião, em vôos fretados a partir de Goiânia ou pela companhia aérea Brasil Central, que tem partidas diárias de Brasília e Goiânia. Nos passeios de barco pelo Rio das Mortes, um afluente do Araguaia, ou pelos lagos que se formam na beira do rio, pode-se encontrar grandes quantidades de jacarés e aves, como o martim-pescador, o jacu-cigano, gaivotas ou marrecos selvagens. O problema é a hospedagem, ainda precária. Os hotéis Xavante e Araguaia são apenas razoáveis. A exceção fica por conta da Kuryala, uma pousada rústica, construída sobre palafitas. Fica a 20 quilômetros de São Felix do Araguaia e não tem telefone. As comunicações com o resto do mundo são feitas por rádio. A diária, de 70 reais por pessoa, inclui três refeições e passeios.

Aventura na areia

Passeios de buggy, surfe nas dunas e praias
ensolaradas esperam o turista em Jericoacoara, em
Lençóis Maranhenses e no Delta do Parnaíba

Arnaldo Cesar

Em Roma, Tóquio, Munique, Berna ou Nova York, ela tem fama de paraíso. O Washington Post a elegeu um dos dez mais belos lugares do planeta. No Brasil, Jericoacoara ainda é pouco conhecida. Ou seja, os brasileiros não sabem o que estão perdendo. São 20 quilômetros de praias, centenas de dunas, mangues, rochas e lagoas, a 317 quilômetros de Fortaleza. Jericoacoara ainda conserva o charme da natureza imaculada e a tranqüilidade necessária aos que buscam um refúgio num lugar incomum. "Jeri", como é chamada por seus moradores, é um distrito do município de Jijoca que por sorte escapou da razia turística que varre o Ceará. A energia elétrica ali é uma preciosidade. Luz, só de gerador, das 6 da tarde às 10 da noite. A movimentação constante das dunas, varridas pelo vento, impede a instalação dos postes, que de uma hora para outra podem ser encobertos pela areia.

Jericoacoara é o início de um roteiro que reúne uma infinidade de dunas e praias inexploradas entre o litoral norte do Ceará e a costa leste do Maranhão. Nesse percurso, de 250 quilômetros, está a foz do Rio Parnaíba, no litoral do Piauí, um impressionante aglomerado de ilhas em meio ao maior delta do continente. No extremo oposto a Jericoacoara fica a região de Lençóis Maranhenses, 2.700 quilômetros quadrados de dunas que lembram a paisagem do Deserto do Saara. É um roteiro para aventureiros. A travessia das dunas é complicada e só pode ser feita de buggy ou veículos com tração nas quatro rodas. É também o tipo de viagem que exige um certo planejamento e orientação de guias experientes.

LUZ DE FAROL - Para chegar a Jeri é preciso atravessar 25 quilômetros de areais. Apesar dos solavancos e das paradas para empurrar o carro atolado, vale a pena. Quem ousar uma viagem de carro precisará deixá-lo em Jijoca, onde há um estacionamento. Até esse ponto, contudo, é preciso enfrentar um trecho de 40 quilômetros de estradas muito precárias.

As maiores pousadas de Jeri, a Hippopotamus e a Matusa (diárias em torno de 20 reais por pessoa), têm linhas de ônibus que transportam seus hóspedes a partir de Fortaleza. Além delas, há quarenta pousadas menores, todas muito simples, a maioria com banheiros coletivos. Telefone, nem pensar. Quem quiser comunicar-se com o mundo externo deverá ir ao posto telefônico, aberto das 9 da manhã às 10 da noite. Receber chamadas, só pelo sistema batizado de "molecular" - contração bem-humorada da frase: "Moleque-vai-acolá-chamar-fulano".

SURFE NA AREIA - Os passeios podem ser feitos a pé, de buggy ou a cavalo - dependendo apenas do ânimo do turista. A primeira grande aventura é sentar-se na Duna do Pôr-do-Sol para assistir ao fenômeno do mesmo nome. Escalar a duna e deslizá-la mar adentro é uma atração à parte. Por algumas moedinhas toma-se emprestadas, no topo da duna, pequenas pranchas de madeira para a prática de uma modalidade de surfe na areia. Do alto das dunas contemplam-se um cabo que avança 6 quilômetros no mar, formando a baía em frente ao vilarejo, e um mangue de mais de 2 quilômetros de extensão. Há um aglomerado de dunas de 40 a 60 metros de altura entre as quais, de março a setembro, se formam lagoas de água doce. De outubro a fevereiro é a vez dos "maceiós", lagoas de água salgada irrigadas pelas marés altas. O mar, de águas mornas com várias tonalidades de verde, também recorta uma pequena serra, o "Serrote", onde fica o farol que orienta navios e automóveis.

Reserve as manhãs para ir à Pedra Furada, na Praia da Malhada, no lado leste da vila. É uma agradável caminhada de 2 quilômetros à beira-mar, entre arrecifes e rochedos. Com sorte, pode-se apreciar os golfinhos ou deparar com tartarugas marinhas cavando seus ninhos. É bom ficar de olho na maré. Quando ela sobe, só se pode voltar a nado ou atravessando o Serrote. Nesse trecho encontram-se cavadas nos rochedos uma caverna e uma piscina natural. O turista não deve partir sem fazer um passeio de buggy pelas dunas até as lagoas da Jijoca, Azul e Paraíso, passando pela Praia do Preá, outro local primitivo a 18 quilômetros de Jeri. O passeio custa 10 reais por pessoa. Os vinte restaurantes de Jericoacoara servem pratos à base de peixes e frutos do mar. à noite, a grande atração de Jeri é o Forró da Rachada, uma discoteca a céu aberto, no alto da rua apelidada de "Broadway". A entrada é franca e, durante a alta estação, o forró chega a reunir mais de 2.000 pessoas por noite.

A outra ponta desse roteiro pelas dunas, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, é uma impressionante faixa de 90 quilômetros de extensão por 30 de largura, que se estende da barra do Rio Preguiças à localidade de Primeira Cruz, a 370 quilômetros de São Luís. É um mar de areia que se movimenta ao sabor dos ventos. Ideal para aqueles que não só gostam de novidades, mas também de roteiros selvagens - e às vezes agressivos. A porta de entrada é Barreirinhas, um município que vive ameaçado pelo deslocamento de uma enorme duna em direção ao centro da cidade. Para chegar ali, é preciso encarar 145 quilômetros de estradas em que se intercalam buracos e areais que mesmo percorridos de ônibus são cansativos.

Desde 1981, Lençóis Maranhenses é um parque nacional. Mas somente agora Barreirinhas se prepara para o turismo. Há um hotel, quatro pousadas limpas e hospitaleiras e restaurantes bastante simples. A melhor maneira de conhecer o parque é subir de lancha o Rio Preguiças, onde há praias ribeirinhas, dunas e piscinas de água doce. A excursão de seis horas custa 100 reais, que podem ser rateados por até cinco passageiros. Os poucos aventureiros que ousaram cruzar o deserto a pé, indo de Atins até a Primeira Cruz, concluíram suas bravatas com um punhado de histórias de sofrimento e desidratação. Existe água entre as dunas. O problema é o sol, que em algumas horas do dia faz a temperatura chegar a 50 graus centígrados.

ZOOLÓGICO - A poucos quilômetros de distância de Lençóis Maranhenses há outro espetáculo patrocinado pelas dunas. É o Delta do Paranaíba, uma reserva de tranqüilidade esparramada pelos litorais do Piauí e do Maranhão. São 73 ilhas, uma centena de praias desertas, manguezais e dunas, habitados por uma infinidade de pássaros. A viagem pela região deve começar pela cidade de Paranaíba, a 366 quilômetros de Teresina. Seis embarcações trabalham exclusivamente com excursões turísticas. A viagem dura oito horas e vai até a Ilha do Caju, a maior da região. A paisagem é especialmente bela de abril a agosto, quando as aves se concentram para o acasalamento.

A 50 quilômetros de Paranaíba, a Ilha do Caju é um zoológico ao ar livre. São 10.000 hectares de matas, manguezais, praias selvagens, lagoas de águas doce e salgada e pântanos. As pousadas são rústicas - seu maior luxo são os mosquiteiros colocados sobre as camas. Há lanchas para percorrer os igarapés próximos, caminhadas por belas trilhas e dezenas de lagoas de água límpida plantadas entre as dunas. Para desfrutar todas as atrações são necessários, no mínimo, quatro dias. Um último conselho: não leve apenas calções, bermudas e chinelos, mas também botas que resistam a caminhadas mais duras. É a lei entre as areias escaldantes.

Ilha do sossego

Na Ilha de Marajó, uma espécie de
Amazônia em miniatura, os passeios de búfalo
e a fabulosa cozinha regional

Ernesto Bernardes

Há gente que sempre sonhou conhecer a imensidão da Floresta Amazônica, mas nunca criou coragem por imaginar que é necessário um tempo igualmente imenso de férias e dinheiro. A melhor solução para esse tipo de turista é a Ilha de Marajó, uma espécie de Amazônia em miniatura. Plantada na foz dos rios Amazonas e Tocantins, banhada a leste e norte pelo Oceano Atlântico, ela é o portal de entrada da maior selva tropical do planeta. A solidão da ilha é uma bênção para quem procura distância de engarrafamentos, telefones celulares tocando dentro do cinema e outras chateações urbanas. Lá, os meios de transporte ainda são canoas e búfalos e os telefones são raríssimos.

Tamanha tranqüilidade não significa que Marajó seja inacessível. Partindo de Belém chega-se à ilha em quinze minutos, em aviões fretados que levam grupos de cinco pessoas por 200 reais. De barco, chega-se em três horas a Soure ou Salvaterra, as maiores vilas da ilha, também partindo da capital paraense. Viajar de carro, colocando o veículo numa balsa, é arriscado e inútil. O mais prático é entrar num pacote turístico e deixar o transporte por conta das agências. Entre janeiro e junho, as chuvas torrenciais alagam vastas porções da ilha e as opções de passeio por terra são reduzidas. Evite Marajó nessa época.

BELAS PRAIAS - No restante do ano, quando o sol brilha e a temperatura atinge os 40 graus, há belas praias de água doce que se misturam ao oceano salgado nas horas de maré cheia. A melhor é a de Araruna. No caminho até ela é preciso atravessar uma precaríssima ponte de madeira, construída sobre um igarapé, depois caminhar por dentro de uma floresta repleta de raízes aéreas. Chega-se então à areia e seu cenário idílico: barraquinhas, ondas de dar inveja às das praias marítimas e ninhais com centenas de garças e guarás. Outra atração é a Praia Grande, onde fica o melhor hotel da região, a Pousada dos Guarás (diárias de 35 reais por pessoa) que nos últimos meses passou também a funcionar como spa.

Emagrecer, observe-se, não deve ser a principal preocupação de quem visita o Pará. A comida típica da região merece ser apreciada em porções fartas. Em Soure estão alguns dos melhores restaurantes da Região Norte, o Minha Deusa, que ganhou uma estrela no Guia Quatro Rodas, e o Delícias da Nalva, que só funciona mediante encomendas de visitantes. Vá ao restaurante com uma hora de antecedência, peça os pratos e saia para passear. Na volta, a fartura estará à mesa. Nalva, uma rechonchuda dona de casa, serve banquetes de sete pratos para grupos de turistas a 15 reais por pessoa. Entre as delícias que dão nome à casa estão o célebre pato ao tucupi, o pirarucu com molho de castanha e o tacacá, um caldo feito com tucupi, goma de tapioca, camarão seco, pimenta e jambu. É um festim diabólico. Não perca também os cremes e sorvetes feitos com frutas regionais - açaí, cupuaçu, bacaba, taperebá, pupunha, bacuri.

NAUFRÁGIO - Os búfalos são um capítulo à parte na história de Marajó. Ninguém sabe ao certo quem os trouxe para o Brasil. A teoria mais aceita é que teriam sobrevivido ao naufrágio de um navio que seguia para a Guiana Francesa, ainda no século XVIII. Na ilha, que fica semi-alagada metade do ano, sentiram-se em casa. Os bichos, apesar de desajeitados, funcionam como o meio de transporte mais eficaz da ilha. Atravessam pântanos sem titubear, não gastam combustível e não tentam roubar os turistas, como fazem alguns motoristas de táxi.

Em suas jornadas mato adentro, os peões de Marajó andam nos lombos dos búfalos usando selas enormes, parecidas com as que se colocam sobre elefantes. Os bichos são muito mais altos e mais largos que os bois domésticos. Ao trotar (coisa que só fazem depois de muita persuasão), corcoveiam como camelos. Um dos passeios favoritos dos turistas é o que reproduz o cotidiano dos peões marajoaras. Os hotéis-fazenda vendem pacotes de dois ou três dias por 105 reais, durante os quais o hóspede faz passeios no lombo dos animais, visita ninhais de aves, observa jacarés à noite e come a dieta do boiadeiro, toda à base de carne de búfalo. As melhores instalações estão nas fazendas Jilva, num edifício do início do século, e Bom Jardim.

Uma visita a Marajó ainda preserva aquele sabor de desbravamento que acompanhava uma viagem a Porto Seguro vinte anos atrás. Mas aos poucos grandes empreendimentos turísticos vão se instalando. Dentro de alguns anos, visitar a ilha amazônica será tão fácil e confortável como ir a Fortaleza. O risco é de a chegada do turismo endinheirado atropelar a genuína vocação de tranqüilidade de Marajó.

Pérola do oceano

No Arquipélago de Fernando de Noronha
estão as águas mais cristalinas do
Brasil e um celeiro de espécies exóticas

Angela Klinke

Há uma anedota recorrente entre os ilhéus de Fernando de Noronha: dois males, de altíssimo poder de contaminação, assolam esse pedaço de terra cercado por mar, a uma hora e meia de vôo do Recife. São a neuronha e a euforonha. A primeira atinge aqueles que, ao chegar à ilha, logo perguntam onde é o shopping. A questão não poderia ser mais fora de contexto. Tudo o que se pode comprar nos 26 quilômetros quadrados de terras vulcânicas são camisetas, água-de-coco e quadros de pintores locais. O segundo mal é o oposto. Seu primeiro sintoma é um calafrio que percorre o corpo assim que se sobrevoa o arquipélago. Seguem-se palpitações e um estado de euforia. A primeira reação de quem chega, antes mesmo de desembarcar, é querer ficar ali para sempre.

Brindada com o ufanístico título de "Esmeralda do Atlântico", a ilha faz parte daqueles roteiros turísticos eternizados no inconsciente coletivo de quem adora viajar. É o lugar que todo mundo quer conhecer um dia. Não há drinques com frutas servidos à beira da piscina, como no Caribe - aliás, piscinas só as naturais, esculpidas pelo vento e pelo mar. Para que a mordomia caribenha diante de tanta beleza? A paisagem é deslumbrante e dispensa acessórios. As acomodações são simples. O único hotel na ilha, batizado com a alcunha do lugar, Esmeralda do Atlântico, é improvisado nos hangares que o Exército americano construiu durante a II Guerra Mundial. Quando não há vagas ali, a opção é ficar em uma das 48 casas com quartos para alugar, com preços que variam de 50 a 80 reais diários por pessoa, na alta temporada, durante o verão. É a melhor época para visita. Quase não chove e a temperatura da água do mar chega a ficar morna. Para quem tem especial interesse em tartarugas marinhas, o período de desova e nascimento dos filhotes vai de fevereiro a junho. Os golfinhos são mais abundantes nos meses de junho a novembro.

Fernando de Noronha já foi uma ilha de acesso quase impossível. Isso é coisa do passado. Há três vôos diários saindo do Recife ou Natal em aviões Bandeirante ou Brasília. Existe muito para se ver na ilha e, por isso, é preciso algum tempo para explorar cada ponto turístico. O ideal é permanecer uma semana. Algumas agências vendem pacotes de três ou quatro dias, mas o tempo é curto para ver e curtir as dezesseis praias do lugar. A Praia do Leão é mais bonita na maré alta, quando a água bate nas pedras e forma esguichos de até 6 metros de altura. A Praia do Atalaia deve ser visitada na maré baixa, quando ali se forma a maior piscina natural da ilha. No pôr-do-sol, as árvores da Praia do Sancho recebem milhares de aves. E ao raiar do dia pode-se ver, do alto da Baía dos Golfinhos, grupos de 300 rotatores (golfinhos que pulam e giram ao redor do próprio corpo) fazendo malabarismos no mar. De novembro a março praias como a Cacimba do Padre são um sonho para os surfistas. Cercada por morros cobertos de vegetação nativa, ela exibe ondas de até 5 metros de altura. Ao seu lado fica a Baía dos Porcos, o paraíso dos mergulhadores.

Em Fernando de Noronha, a água é transparente até 40 metros de profundidade. Dentro desse espelho, pode-se encontrar 230 tipos de peixe, quinze variedades de coral, cinco espécies de tubarão (não há registro de ataques a seres humanos) e animais como tartarugas marinhas e arraias. Na ilha funciona uma das melhores escolas de mergulho do país, a águas Claras. Até crianças (com idade mínima de 7 anos) podem participar da aventura submarina. O curso custa 120 reais, incluídos os equipamentos, com uma noite de aula teórica e dois dias de mergulho.

CHUVEIRO FRIO - As agências de viagem costumam trabalhar com várias pousadas em seus pacotes, mas não esclarecem ao turista em qual delas ele irá hospedar-se até que desembarque na ilha. Isso é um problema. É bom exigir o nome da hospedaria e ligar antes para confirmar os detalhes. Nas pousadas o chuveiro é sempre frio, os banheiros coletivos e os quartos não têm ar condicionado. Também não existe restaurante, o que obriga os proprietários a oferecer pensão completa. As refeições caseiras são abundantes e honestas.

Para conhecer melhor a ilha, convém alugar um buggy, por 70 reais diários, ou então fazer passeios de barco, que custam de 25 a 40 reais, duram em média quatro horas e incluem visitas a ilhas próximas. A Baía dos Golfinhos é fundamental. A partir de julho, o mar passa a ficar coalhado de golfinhos, e pode-se vê-los até durante a irreverente caça coletiva aos peixes da região. Para os humanos a pesca só é permitida com a linha na mão e apenas liberada a captura de peixes imigrantes, como a barracuda, o xaréu e a guarajuba. O Ibama organiza caminhadas duas vezes por semana, com grupos de até oito pessoas. São passeios indicados para conhecer em detalhes a rica flora e fauna da ilha, incluindo algumas espécies exóticas de aves e répteis que só habitam esse pedaço do Brasil.

PIRATARIA - Um último item a ser explorado no arquipélago é sua história. O rico mercador Fernan de Loronha recebeu a ilha de presente do rei dom Miguel I em 1504, mas seu descaso fez com que a coroa portuguesa a tomasse de volta. Durante dois séculos ela permaneceu esquecida, transformando-se em trampolim para os invasores do litoral brasileiro. Foi ocupada por holandeses e franceses, até que, em 1737, Portugal tratou de lutar para recuperá-la, percebendo que uma base assentada ali acabaria com a pirataria estrangeira em terras da coroa. Foram construídas dez fortificações, formando o maior conjunto defensivo do período colonial, mas hoje restam apenas duas ruínas, o Forte dos Remédios (construído pelos holandeses) e o Forte de São Pedro do Boldró.

Ao longo dos séculos, a ilha foi escala da viagem do naturalista inglês Charles Darwin no veleiro Beagle, na qual ele fez questão de conhecer as espécies de animais da região. Depois foi escala para aviões americanos durante a II Guerra Mundial. Serviu de colônia penal desde o século XVII até a década de 70. O último prisioneiro famoso foi o governador Miguel Arraes, em 1964. O Palácio São Miguel, sede do governo, a igreja construída em 1776 e as ruínas do presídio são imperdíveis. Há até monumentos vivos, como Salviano José de Souza, pescador que vive ali desde 1956. Foi Salviano que, em 1955, lançou-se ao mar decidido a cruzar a costa brasileira de jangada, do Recife ao Rio de Janeiro, para assistir à posse de Juscelino Kubitschek. Hoje, 28 filhos depois, Salviano é uma lenda em Fernando de Noronha.

Vale da Lua

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros,
em Goiás, tem corredeiras de água cristalina
e formações que lembram a superfície lunas

Silvânia Dal Bosco

Cachoeiras com 100 metros de altura, paredões de cristais de quartzo e formações que lembram a superfície da Lua fazem da Chapada dos Veadeiros um dos cenários mais exóticos do Brasil. Localizada no município de Alto Paraíso, em Goiás, a 250 quilômetros de Brasília, a chapada é o roteiro indicado para quem gosta da exuberância de dois dos elementos básicos da natureza: rochas e água. Os passeios são realizados nos arredores de Alto Paraíso, em distâncias que variam de 15 a 70 quilômetros. A maioria das atrações, no entanto, está dentro do Parque da Chapada, a 42 quilômetros de Alto Paraíso, por estrada de terra. O período mais agradável de visitação é o da seca, entre os meses de abril e setembro. Nos outros meses, época das chuvas, o volume dos rios aumenta e as trilhas tornam-se perigosas. A vegetação baixa e retorcida da região ganha um charme especial no final da seca, quando florescem os ipês-roxos e amarelos.

Na Chapada dos Veadeiros, a natureza parece brincar de esconde-esconde com o turista. Para atingir seus oásis é preciso levantar cedo, munido de disposição para caminhar, chapéu, protetor solar e cantil. Conhecer a Cachoeira do Rio Preto, por exemplo, exige avançar numa trilha salpicada de cristais num trajeto de 6 quilômetros. No final do percurso, a picada torna-se íngreme e escorregadia, obrigando o turista a descer segurando-se em cordas amarradas nas árvores. A recompensa pelo esforço é um paredão rochoso de cor cinzenta de 100 metros de altura, de onde cai uma cachoeira que forma um lago de águas límpidas, mas escurecidas pelas partículas de óxido de ferro.

VALE DA LUA - Ainda dentro do parque, depois de uma hora de caminhada, o visitante estará no fundo de um cânion, por onde corre o Rio Preto. Seguindo pelas margens do rio, verá cachoeiras de até 10 metros de altura, corredeiras, prainhas de areia grossa e piscinas naturais. Todas essas atrações têm como pano de fundo um paredão de rocha de 20 metros de altura que corre nas duas margens. Cortando algumas fazendas de gado, a 6 quilômetros do Parque da Chapada, por uma estradinha de terra, chega-se ao Vale da Lua. O nome diz tudo: a impressão que se tem é de estar pisando na lua. É uma estranha formação rochosa de cor esbranquiçada e pontilhada de buracos que variam de 30 centímetros a 2 metros de profundidade. Sob a rocha corre um riacho com quedas d'água de até 3 metros de altura que formam piscinas naturais.

Na Chapada dos Veadeiros não existem restaurantes com funcionamento regular. Por isso, antes de iniciar os passeios convém deixar almoço encomendado nas pousadas. A comida é caseira, feita em fogão a lenha, e o turista pode fartar-se de galinha caipira, empadão e outras iguarias típicas de Goiás, como a guariroba (um palmito amargo) e o arroz com pequi, uma fruta amarela de sabor exótico. Em Alto Paraíso, uma boa dica de hospedagem é o Grande Hotel Paraíso, que oferece quarto e chuveiro quente com diárias a 20 reais por pessoa.

Natureza liberada

Trecho intacto de Mata Atlântica no
Sudeste do país, a Ilha Grande é o cenário de
praias idílicas e trilhas para caminhadas

Fábio Altman

A Ilha Grande é um pedaço de Mata Atlântica ainda virgem no Sudeste brasileiro. É também a porção de natureza intocada mais próxima do Rio de Janeiro e de São Paulo. A paisagem hoje é a mesma observada por Martim Afonso de Souza em 1531, quando intermediava uma guerra entre índios tamoios e guaianases. É também a mesma avistada pelo escritor Graciliano Ramos quando chegou à ilha, preso, em 1935, acusado de participação na chamada Intentona Comunista. No antigo presídio do Lazareto, hoje uma ruína, Graciliano escreveu seu clássico, Memórias do Cárcere. São 105 praias distribuídas em 147 quilômetros de orla marítima. A vegetação é um cipoal de manguezais, bromélias, orquídeas, goiabeiras e pitangueiras. Debaixo d'água, há cardumes de paratis e robalos. Tudo isso a uma hora de barco a partir de Mangaratiba ou Angra dos Reis.

A ilha pode ser visitada o ano inteiro, mas é no verão que suas praias e montanhas ganham em beleza. Chegar até lá é fácil. Diariamente, às 8h30, sai uma barca de Mangaratiba, por apenas 3,19 reais. O carro pode ficar num dos estacionamentos da cidade, com pernoite entre 5 e 10 reais. Quando o mar está agitado, a travessia pode ser um estorvo. Mas há uma alternativa, cara mas incomparável: o aluguel de uma lancha de 28 pés, com capacidade para oito pessoas, custa 350 reais e dá direito a um dia inteiro de navegação. A lancha tem a vantagem de permitir o acesso às praias que dão para o mar aberto.

SACO DO CÉU - A mais bonita das praias é a de Lopes Mendes, com seus 8 quilômetros de ondas que fazem a festa dos surfistas. Os melhores lugares para mergulho são a Enseada de Palmas e a Gruta do Acaiá. Na Enseada do Saco do Céu, de águas calmas, é possível lançar âncora e permanecer com a embarcação parada. Os donos de iate costumam pernoitar nessa região. Jantam no restaurante Reis & Magos (o prato de paella sai por 25 reais por pessoa). Um dos melhores programas na ilha são as caminhadas. Saindo à direita da Praia do Abraão, o ponto de chegada do turista e onde estão as pousadas, há uma rota de uma hora e meia até a Praia de Palmas, passando pelo topo das montanhas. Dali, uma pequena trilha leva à Praia de Lopes Mendes. Outro caminho é a pequena estrada que, saindo do Abraão, conduz a uma cachoeira em vinte minutos.

Em março, quando o presídio foi demolido, temia-se que a Ilha Grande fosse invadida pelo turismo predatório. Até agora, isso não aconteceu. Houve até uma melhora na infra-estrutura de hospedagem. A pousada Solar da Praia cobra 55 reais por casal e oferece ar condicionado, geladeira no quarto e televisão. A água Viva cobra 45 reais pelos mesmos serviços - embora seus quartos não tenham o mesmo charme. Isso não é problema nesse canto virgem do litoral em que tudo lembra o cenário original da costa brasileira, tão bonito quanto deveria ser na época da chegada dos descobridores.

Abismo grandioso

Os cânions do Parque Nacional de Aparados
da Serra, no Rio Grande do Sul, são um desafio para os
alpinistas e para quem gosta de montain bike

João Fábio Caminoto

É de tirar o fôlego. O paredão tem quase 6 quilômetros de extensão, mais de 700 metros de altura e a largura varia entre 600 metros e 2 quilômetros. É chamado de "degrau ecológico", pois teve origem em sucessivos derramamentos basálticos, como se a rocha tivesse atravessado os séculos chorando. É o Cânion do Itaimbezinho, a grande atração do Parque Nacional de Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul. A melhor forma de visitá-lo e poupar o automóvel das estradas esburacadas é escolher um pacote de fim de semana vendido em Porto Alegre por cerca de 90 reais. É programa de poucos dias - e o impacto produzido pela paisagem continua vivo na memória por muito tempo.

O que as agências oferecem é uma mistura de caminhada com turismo tradicional, em grupos de quinze pessoas, acompanhadas por biólogo que descreve a flora e a fauna da região. Além do Itaimbezinho, as excursões alcançam cânions de acesso mais complicado, como o Fortaleza. É um dos maiores desfiladeiros do país: do topo ao fundo da garganta de pedra caberiam catorze edifícios de vinte andares, empilhados um sobre o outro. Um outro grande cânion, o Malacara, exige uma caminhada de 9 quilômetros a pé. Deve-se evitar desbravar por conta própria as alturas de Aparados da Serra. A região é traiçoeira e a neblina desce rápida. Evite fazer o passeio no inverno, quando a temperatura cai abaixo de zero e as chuvas encharcam as estradas. Viajar em janeiro e fevereiro também é complicado, por causa do calor muito forte e da paisagem ressequida. No restante do ano, Aparados da Serra é uma festa para quem pratica mountain bike e alpinismo.

 

 

 

 
     
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