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7 de novembro de 1984
O preço da
vingança

O assassinato de Indira leva a
Índia às portas da guerra civil

Khoon ka badla, khoon se lega. Em hindi, o idioma majoritário entre os mais de 1 000 que se falam na índia, a frase quer dizer "sangue por sangue", e, como um rastilho de pólvora, começou a se espalhar de casa em casa, de grupo em grupo, de ouvido em ouvido, a partir do cair da tarde de quarta-feira passada. O que se pregava, com a frase ameaçadora, era a grande vingança. Os hindus, grupo religioso que constitui 78% dos 700 milhões de habitantes do país, preparavam seu acerto de contas em virtude de outra frase, ouvida apenas por uns poucos, na tranqüilidade dos jardins da primeira-ministra Indira Gandhi, naquela manhã: Tumne kya kiya, ou "o que vocês fizeram?"

O que acabara de ser feito, e que um dos guardas da casa de Indira não sabia exprimir senão com a pergunta desesperada, foi algo que chocou a India, abalou de alto a baixo a frágil aliança entre os diversos grupos que a constituem e levou à loucura consideráveis parcelas de sua população: o assassinato da primeira-ministra de 67 anos.

Nunca, desde um episódio semelhante ocorrido em 1948 - o atentado que tirou a vida do Mahatma Gandhi, o venerado líder das lutas de independência contra o colonialismo britânico -, o país se vira mergulhado em comoção igual. Indira Gandhi, a maa, ou "a mãe", como diziam os indianos, figura dominante na política do país nas duas últimas décadas, foi morta dentro de sua própria casa, quando percorria o jardim do prédio onde mantinha sua residência, a caminho do seu escritório de despachos, uma centena de metros adiante.

SOBE RAJIV - Seus assassinos, um portando um revólver e outro, uma submetralhadora, eram membros de sua própria guarda pessoal - dois agentes pertencentes à seita sikh, grupo que, com suas barbas e cabelos sempre compridos, seu turbante e seu inseparável punhal, o kater, constitui uma minoria religiosa de 15 milhões de pessoas, ou 2% da população. Portadora de um inegável carisma pessoal, além de ser filha de um dos fundadores da pátria - o ex-primeiro-ministro Jawarlahal Neliru -, já bastava que Indira fosse morta, não importa por quem, para que seu desaparecimento causasse profunda comoção no país. Mais motivos havia, porém, para o abalo e o desejo de vingança, ao se saber que os assassinos eram sikhs - grupo que, por seu desejo de autonomia no Estado onde é majoritário, o Punjab, vinha sendo severamente reprimido pela primeira-ministra. Na Índia eternamente abalada por diferenças religiosas e étnicas, esse era o sinal que faltava para uma das mais sangrentas rodadas de massacres e confrontação nas ruas já vistas no país.

O problema institucional criado pela ausencia da primeira-ministra foi contornado, com inesperada rapidez, pelos dirigentes do país, ao darem posse, na chefia do governo, ao mais velho e único filho sobrevivente de Indira - Rajiv Gandhi, um engenheiro de 40 anos que por mais de dez se dedicou exclusivamente à profissão de piloto de avião até ser convocado pela mãe, quatro anos atrás, para converter-se à política e preparar-se para sucedê-Ia.

Nem a inexperiência de Rajiv nem as acusações de que sua ascensão significava a continuidade de uma dinastia no poder foram capazes de produzir grandes abalos, pelo menos nestes primeiros dias. Restava o problema das ruas - este sim um monumental caldeirão onde velhos fantasmas e velhas divisões produziam novas e assustadoras explosões. O apelo de "sangue por sangue" foi seguido à risca por hordas inteiras de hindus, geralmente os mais pobres e deserdados, nas grandes cidades indianas.

Começou uma grande caça aos sikhs, facilmente reconhecíveis. Sikhs foram mortos nas praças e em suas casas, em seus automóveis e nos trens. Chegava-se a requintes de crueldade como queimar-lhes as barbas e furar-lhes os olhos. Na quarta e na quinta-feira, a Índia foi dominada pela barbárie. "Ontem estávamos aflitos e tristes por Indira Gandhi", escreveu o respeitado jornal Times of India. "Hoje, é a Índia inteira que nos preocupa e dá medo."

Apenas em Nova Délhi, a capital do país, na noite de quinta-feira, ardiam mais de trezentos edifícios, lojas, casebres e barracas, em sua quase totalidade pertencentes a sikhs. Incidentes semelhantes ocorriam em Calcutá, Bombaim, Madras, Ahmedabade e outras grandes cidades. Em Nova Délhi, uma capa de fumaça preta pairava no ar, e o toque de recolher imposto pelas autoridades conferia à capital, geralmente movimentada e barulhenta, o aspecto de uma cidade-fantasma. As autoridades reconheciam a existência, em toda a Índia, na sexta-feira, de cerca de 150 mortos. Em apenas cinco dos oitenta hospitais da capital indiana, porém, VEJA contou 42 corpos. Isso levava a crer que estariam mais certas as estimativas extra-oficiais que colocavam o número de mortos ao redor de 1.500. A Índia reagia com toda a fúria de que é capaz aos tiros que haviam quebrado, naquela manhã fatídica de quarta-feira, o silêncio bucólico dos jardins de Indira Gandhi.

O ÚLTIMO PERCURSO - Para melhor compreender o atentado, verifique-se o local onde tudo ocorreu. Situada no número 1 da Rua Safdarjang, no coração da zona mais elegante e exclusiva de Nova Délhi, a propriedade onde vivia Indira Gandhi ocupa uma vasta área, de mais de 150.000 metros quadrados. No mesmo terreno há duas construções principais, situadas a cerca de 180 metros uma da outra - uma que servia de residência à primeira-ministra e outra que funcionava como seu escritório de despachos. Todos os dias, pela manhã, Indira deixava a residência e, tomando o estreito caminho de terra que une as duas construções, entre as árvores e jardins que se espalham por toda a propriedade, se dirigia ao escritório. Não foi diferente na manhã de quarta-feira. Poucos minutos depois das 9 horas, Indira apareceu à porta da residência. Antes de deixá-la, ela ainda acenou para dentro, despedindo-se da nora, Sonia - uma italiana casada com Rajiv Gandhi. Depois, acompanhada de dois assessores, tomou o caminho habitual.

Toda essa cena foi observada, até ali, com a displicência com que rotineiramente lançava o olhar para o que se passava por trás dos muros da casa da primeira-ministra, por Avtar Gupta, 39 anos, um humilde varredor que, todas as manhãs, cumpre o dever de limpar as calçadas do Clube Gymkhana, uma boate elegante, freqüentada por políticos, turistas abastados e homens de negócio, situada do outro lado da rua. "Eu gostava dela", disse Gupta a VEJA. "Até dei o nome de Indirá a uma de minhas filhas."

Convertido numa das raras testemunhas visuais do atentado, que observou a uma distância de 30 metros, Gupta conta que, até ali, tudo o que vira fazia parte da normalidade da residência da primeira-ministra. Primeiro, ele percebera três agentes de segurança entrarem na propriedade e se postarem na porta do escritório de despachos de Indira. Depois, ele vira entrar outros dois agentes, estes pelo portão que dá acesso à parte residencial. Só depois do ocorrido, revirando em sua memória, Gupta registraria um detalhe que fugia à rotina: estes dois últimos agentes entraram com suas armas na mão, e não penduradas na cintura, como era habitual. Um deles trazia um revólver, e outro, uma submetralhadora.

À QUEIMA-ROUPA - Gupta viu ainda entrarem na casa, nos minutos que antecederam o atentado, outras duas pessoas, um homem e uma mulher. Tratava-se, embora o varredor não soubesse disso, de dois técnicos de televisão, uma produtora e um maquilador, encarregados de preparar Indira para o seu primeiro compromisso daquele dia: a gravação para um documentário sobre a Índia e seus governantes que vinha sendo conduzido pelo ator inglês Peter Ustinov. O próprio Ustinov já estava na casa, embora só Gupta não o tenha visto entrar. Ele combinara com Indira a filmagem de cenas que mostrariam a primeira-ministra em sua residência e em seu local de trabalho, além de uma pequena entrevista.

Por sugestão da própria Indira, a entrevista teria lugar em tomo de uma mesa de chá, preparada nos jardins ao lado do escritório de despachos. Àquela hora - pouco depois das nove -, tudo já estava preparado para a gravação. A mesa estava posta, o chá servido e as câmaras e luzes colocadas em seu devido lugar. Indira, por sua vez, já fora submetida, no interior da residência, à maquilagem no rosto e nos braços requerida para a gravação. Tudo já estava pronto. A primeira-ministra foi chamada, então, e se pôs a caminho do local onde Ustinov a esperava.

"Foi tudo muito rápido", prossegue Gupta em sua narração. "De repente, os dois guardas, aqueles que eu vira entrar com suas armas na mão, abriram fogo." O0 encontro fatídico de Indira com seus assassinos ocorreu mais ou menos no meio do caminho entre a residência e o escritório de despachos, junto a uma pequena cerca que separa as duas partes da propriedade. "Eles atiraram quando estavam a meio metro dela", conta Gupta. "Em seguida, só lembro de ter visto a senhora caída no chão, numa poça de sangue." Foi ainda Gupta que ouviu então um outro agente de segurança - um dos três que se postavam junto ao escritório de despachos - aproximar-se rapidamente da cena e perguntar: "O que vocês fizeram? O que vocês fizeram?" Um dos assassinos respondeu: "Fizernos nosso trabalho", e foi tudo que pôde pronunciar, antes de ser, ele também, metralhado.

Logo, os corpos estendidos no chão eram três. Um dos assassinos de Indira - Beant Singli - foi morto na hora. O outro, Satwant Singli, gravemente ferido, foi recolhido a um hospital em estado desesperador, mas no fim de semana dava sinais de recuperação. Peter Ustinov, à espera da primeira-ministra no jardim atrás do escritório de despachos, não pôde ver nada - mas ouviu. Primeiro, ouviu três tiros - e até aí não teve motivos para se assustar. "Devem ser fogos de artifício", comentou um dos indianos que contratara para auxiliá-lo nas gravações. "Aqui isso é muito comum." Logo depois, porém, Ustinov ouviu uma rajada de metralhadora. E logo outra, e outra.

Com base em seu depoimento, é possível recompor a ordem em que se deram os fatos. Primeiro, o assassino que tinha o revólver - Beant Singh - disparou três vezes contra a primeira-ministra. Em seguida, seu companheiro da metralhadora descarregou sua arma. As demais rajadas de metralhadora que Ustinov ouviu partiram dos agentes de segurança que, de seu posto em frente ao escritório de despachos, acorreram rapidamente ao local do crime e dispararam contra os assassinos. "Tudo parecia muito irreal", deporia, depois, Peter Ustinov. Acostumado a interpretar, no cinema, papéis que vão do imperador Nero ao inspetor Hercule Poirot, desta vez foi difícil, para o ator inglês, imaginar que estivesse vivendo uma cena real. "Os pássaros continuavam a cantar, no jardim, e todas as coisas pareciam em seus lugares", conta ele.

Indira morreu com a maquiagem com que fora preparada para a televisão. Atingida por pelo menos dezesseis tiros, no peito e na altura da cintura, seu corpo foi praticamente cortado em dois. A primeira-ministra estava morta ao dar entrada no hospital para onde foi recolhida imediatamente. Mesmo assim, foi submetida a uma operação em que as balas foram removidas de seu corpo e tentou-se reanimá-la. A notícia da morte da primeira-ministra só começou a correr por Nova Délhi às 2 horas da tarde, 5 horas depois do atentado. Só às 16 horas receberia confirmação oficial, quando o presidente do Parlamento indiano, Bal Ram Jakhar, com a voz entrecortada pelo choro, respondeu com uma só palavra a um repórter que perguntou se Indira Gandlii estava morta: "Sim".

JURADA DE MORTE - Não há dúvida de que o atentado contra Indira só se tomou possível em virtude de uma cadeia de erros nos serviços de segurança da primeira-ministra. "O que houve foi uma colossal falta de cuidado", disse a VEJA o coronel Brahma Molial Abrol, um dos oficiais encarregados de fazer cumprir o toque de recolher em Nova Délhi. Em maio passado, lembra o coronel, quatro agentes encarregados da segurança de Indira, durante uma viagem ao interior, acabaram se embriagando no avião. Nada de mais aconteceu com eles: foram apenas repreendidos, e continuaram em seus postos. Mais tarde, depois do atentado que, no mês passado, quase destruiu, na Inglaterra, o hotel onde se encontrava hospedada a primeira-ministra Margaret Thatcher, o governo indiano lembrou-se de que algo semelhante também podia acontecer no país, e uma reunião de alto nível, da qual participou a própria Indira, foi então convocada para acertar medidas que pudessem reforçar sua segurança.

Ao exemplo da Inglaterra somava-se outro motivo de preocupação: as ameaças dos sikhs. Responsáveis por uma escalada de terrorismo que, entre atentados a ônibus, carros e casas, fez 300 mortos, nos cinco primeiros meses deste ano, os sikhs - ou, pelo menos, suas organizações mais extremistas - de dois anos passados para cá se mostravam em pé de guerra contra o governo. Os ânimos se acirraram, particularmente, em junho último, com a expulsão de extremistas sikhs que, sob a liderança de um religioso -Jarnail Singh Bhindranwale -, se entrincheiravam, com suas armas, no local mais venerado de sua crença, o Templo de Ouro, construído há quatro séculos na cidade sagrada de Amritsar. Indira Gandhi foi impiedosa. Implacável, considerou que naquele momento mais valia manter sua autoridade do que mostrar cuidados para com as convicções e lugares sagrados dos sikhs. Simplesmente, mandou o Exército invadir o templo. Seguiu-se um massacre que, nas contas do governo, matou 600 rebeldes, mas que, segundo cálculos independentes, vitimou o dobro. O próprio Bhindranwale foi morto no episódio - e desde então Indira Gandhi foi jurada de morte pelos sikhs mais radicais.

FALTA DE ATENÇÃO - Mesmo assim, durante aquela reunião de alto nível, Indira Gandhi se opôs a modificações mais profundas em seus serviços de segurança. Ela não concordou, por exemplo, com a sugestão de um oficial de que agentes da crença sikh fossem afastados temporariamente das funções de cuidar da casa e da pessoa da primeira-ministra, e deslocados para outras tarefas. "É incrível como ninguém teve a coragem de desaconselhar a primeira-ministra", diz o coronel Brahma Mohal Abrol. "É como se o papa pedisse agentes búlgaros ou turcos para cuidar de sua segurança, depois do atentado que sofreu, e ninguém levantasse a voz para dizer-lhe não." Indira não queria demonstrar nenhuma espécie de discriminação contra os sikhs. De maneira alguma, insistia ela junto a seus auxiliares, desejaria passar a impressão de que era contra os sikhs, em geral. Ela era contra, isto sim, os terroristas sikhs que matavam nas ruas e que tornaram o templo de Amritsar.

A cadeia de erros e imprudências que levou ao atentado atinge foros de clamoroso escândalo ao se considerar os antecedentes dos dois agentes que mataram Indira - homens que talvez não apenas devessem ser afastados de sua guarda pessoal, mas também expulsos da polícia. O primeiro deles, Beant Singh, de 40 anos, e há pelo menos quatro nos serviços de segurança da primeira-ministra, é irmão de um funcionário diplomático que, em junho último, deixou estrepitosamente seu posto na embaixada indiana em Oslo, na Noruega, e denunciou "o genocídio promovido por Indira Gandhi contra os sikhs no Punjab". O outro, Satwant Singh, de 21 anos, havia sido admitido na polícia no ano passado e estava em sua segunda semana de trabalho junto à primeira-ministra. Se os órgãos do governo se dispusessem a investigar, saberiam que o pai e dois irmãos de Satwant, moradores do vilarejo de Agwan Khurd, eram abertos simpatizantes dos terroristas sikhs.

Há ainda mais. Dois dias antes do atentado, Satwant tirou uma licença para visitar a família. Conversou então com os irmãos e, dando-lhes a entender que estava para protagonizar algo importante, aconselhou-os a deixar a cidade. "Podem surgir complicações", avisou. Uma nota da polícia de Agwan Khurd, dando conta da visita de Satwant e do teor de sua conversa com os irmãos, foi encontrada na mesa de um dos funcionários da polícia da capital apenas na quinta-feira. A essa altura, Indira Gandhi já estava morta e a cidade se encontrava em chamas. Naturalmente, ninguém se preocupou em ler o comunicado. Ou, se alguém o leu, ninguém cuidou de tomar qualquer providência. Os antecedentes dos dois matadores de Indira, assim como suas providências às vésperas do atentado - enquanto um visitava sua aldeia natal o outro tratava de mudar os turnos para os quais estava escalado, de forma a estar em serviço na manhã de quarta-feira -, levam a crer que o assassinato da primeira-ministra não obedeceu a uma ação isolada. Antes, parece inserir-se numa conspiração de extremistas sikhs. Em todo caso, até o final da semana passada, o governo indiano guardava ciosamente as informações que apurava sobre o episódio. Não se desejava lançar mais lenha na fogueira da revolta contra os sikhs - algo que se espalhava incontrolavelmente pelo país, ao mesmo tempo em que dezenas de milhares de pessoas, em filas, compareciam à chamada Teen Murti House, um antigo palácio dos primeiros-ministros da Índia, hoje transformado em museu, onde o corpo de Indira era velado.

A carnificina que tomou conta das principais cidades da Índia, até quinta-feira, não conheceu limites. Para se ter uma idéia, até mesmo o mais freqüentado lugar de Nova Délhi, a central Connaught Place, famosa por seus bazares e por onde todo turista passa para comprar tapetes ou observar o movimento, foi dominado pelas hordas incontroláveis. Ali ou se saqueavam as lojas ou se caçavam sikhs. Na tarde de quinta-feira, uma multidão arrastava o cadáver de um sikh pelo asfalto de Connaught Place. Uma estria de sangue ia se formando na rua enquanto o corpo passava por cima das muitas sandálias abandonadas por pessoas nas freqüentes correrias que ocorriam no local. A pouca distância dali, ao mesmo tempo, o templo sikh de Rakabganj era ameaçado de invasão por um grupo hindu. Um hindu foi degolado a espada por um sikh. Por sua vez, os hindus capturaram um sikh e o queimaram com querosene.

COMO CARNAVAL - Outro palco freqüente da barbárie que tomou conta da Índia eram os trens - o meio de transporte mais usado pelas incontáveis multidões indianas. "Eu vi um sikh ser jogado para fora do trem, depois chutado, apedrejado e finalmente queimado pela multidão", depõe Elizabeth Joyce, uma médica inglesa que, em viagem de férias com o marido, se deslocava da cidade de Udaipur, no oeste do país, para Nova Délhi. Todo o trajeto foi um desfile de horrores. "O trem parou várias vezes", conta a doutora Elizabeth, "e toda vez que parava uma gangue armada de pedaços de pau se aproximava para bater nas janelas e procurar por sikhs." A médica inglesa acabava por abrir sua janela para evitar que ela fosse destruída. "Eles então olhavam e, ao ver que éramos europeus, diziam que não tivéssemos medo. Não havia ódio em suas faces. Eles sorriam. Para eles, era como se fosse Carnaval." Num outro trem, que ia de Nova Délhi para o Estado de Madhya Pradesh, doze passageiros sikhs foram arrancados dos vagões e enforcados por uma multidão que improvisou forcas na estação. Nos trens que chegavam a Nova Délhi, era comum a polícia encontrar, depois que desciam todos os passageiros, corpos de sikhs esfaqueados no trajeto.

Na sexta-feira, não era mais a polícia, notoriamente incompetente para conter as multidões revoltadas, que se encarregava da segurança nas cidades. Agora era o Exército que tomava conta das ruas, com ordens de atirar à menor suspeita, e a situação começou a se acalmar. As autoridades podiam se dedicar, com mais vagar, à preparação do funeral de Indira Gandhi, marcado para se realizar no sábado, com a presença de numerosos estadistas estrangeiros. O corpo da primeira-ministra seria cremado às margens do Rio Jamuna, não longe dos locais onde foram cremados os corpos de Nehru e de Gandhi.

RECURSO AO FILME - Planejava-se que o cortejo fúnebre percorreria exatamente o mesmo trajeto dos funerais do Mahatma Gandhi, 36 anos atrás, e para isso, como não foram encontrados os mapas da época, consultaram-se os documentos de um outro funeral de Gandhi, realizado mais recentemente: aquele que reproduziu as cerimônias fúnebres do Mahatma para o filme Gandhi, a premiada obra do inglês Richard Attenborough. Para a construção da plataforma na qual repousaria a pira de Indira, às margens do rio, trabalhavam febrilmente mais de 700 operários e 115 técnicos.

A morte de Indira Gandhi jogou a Índia de volta a alguns de seus mais antigos fantasmas. País onde há catorze línguas reconhecidas pela Constituição, todas elas estampadas em cada nota em circulação, a questão da difícil unidade aflorou de novo em toda a sua magnitude. Se o problema do considerável contingente muçulmano acabou resultando, quando da independência do país, na formação do Paquistão, agora é o problema sikh que se coloca - e um sinal de sua gravidade é que o Estado do Punjab, onde se concentra a maioria sikh, na semana passada se encontrava completamente isolado do país, sem comunicações por telefone, telex ou linhas de trem. Por imposição do governo central, ninguém sabia o que acontecia por lá.

Agora, a sorte da índia está nas mãos do jovem Rajiv Gandhi, sexto primeiro-ministro do país e terceiro membro da dinastia fundada por Nehru a ocupar o posto. Formado na Inglaterra, e até há pouco desinteressado da política, até mesmo para falar corretamente o hindi Rajiv teve de ser treinado, quando a mãe o convocou para a política. Indira precisava dele, uma vez que seu outro filho, Sanjay, dois anos mais novo - este sim encaminhado desde cedo para a política -, acabara de falecer num acidente aéreo. De forma apressada e muitas vezes improvisada, Rajiv teve apenas quatro anos para aprender. Uma consolação, para ele, é que também ninguém dava nada por Indira, quando ela assumiu o governo. No começo, ela era apenas a filha de Nehru.


 
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