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Reportagens 7 de setembro de 1983Sem qualquer defesa 269 pessoas a bordo de um Jumbo
- Vou lançar um míssil. O alvo é um avião da Korean Air Lines. Jamais se conhecerá, provavelmente, a identidade do piloto soviético que, a 10.000 metros de altitude, travou este terrível diálogo com um superior hierárquico estacionado numa base militar da Ilha Sacalina, uma das áreas mais secretas da União Soviética, às 3h26 da madrugada desta quinta-feira. Os nomes e patente por trás das duas vozes que falavam em russo talvez pudessem iluminar um dos muitos pontos obscuros que envolvem o massacre, em pleno céu, dos 269 passageiros e tripulantes do Boeing-747 da companhia civil Korean Air Lines que, vindos de Nova York, planejavam desembarcar em Seul, capital da Coréia, 2 horas e meia mais tarde - e acabaram pulverizados sem deixar traço, numa das mais chocantes tragédias da história recente da aviação. Das vítimas, em contrapartida, sabe-se até demais - inutilmente. Quando o imenso Jumbo da KAL começou a rolar na pista do aeroporto Kennedy, em Nova York, pouco depois da meia-noite da última quarta-feira, os 244 passageiros do vôo 007 nada mais esperavam além de um longo vôo transpolar - a rota mais rápida, no topo do mundo, entre as duas cidades. Nove horas depois, quando o avião pousou em Anchorage, no Alaska, para se reabastecer de combustível, trocar seus 29 tripulantes e embarcar mais passageiros, eles estavam apenas no meio de sua viagem. Mas, nos pequenos projetos de cada um, valia a pena. Jong Jin Lim, um motorista de táxi em Washington, ia encontrar-se com sua noiva em Seul, casar, passar a lua-de-mel na Coréia, e voltar em seguida para os Estados Unidos. O americano Neil GrenfelI, sua mulher Carol e as filhas Noelle e Stacey voltavam para a capital coreana, onde ele era diretor de uma subsidiária da empresa Kodak, depois de passar férias de verão em sua cidade natal de Rochester. A sexagenária Soja Son regressava ao lar, depois de despedir-se dos netos americanos nesta sua primeira viagem aos EUA proporcionada pelo filho, um médico coreano radicado em Cleveland. O Jumbo tinha gente de meio mundo. Além de coreanos e americanos havia a bordo japoneses, filipinos, chineses, peruanos. No vôo estava também o membro mais conservador e anticomunista do Congresso americano, o deputado Lawrence McDonald, 48 anos, presidente da racista John Birch Society, que pretendia participar das comemorações do armistício que pôs fim à Guerra da Coréia, trinta anos atrás. Silêncio de 23 horas - A 6.000 quilômetros de Anchorage, algumas centenas de pessoas haviam acordado cedo para aguardar a chegada do vôo 007 no Aeroporto Internacional Kimp’o, em Seul, às 6 horas da manhã. Mas o Boeing jamais chegou. Para os familiares aflitos começou a se desenrolar então, em câmara lenta, uma apavorante novela que termina com vestígios dos restos do avião nas profundezas do Mar do Japão. Para o resto do mundo, o estupor diante de tão intrigante violência internacional não foi menor. De Brasília a Paris, de Tóquio a Ottawa, instalou-se uma corrente de indignação e protesto contra o crime cometido nos céus, contra um avião comercial incapaz de se defender, pela União Soviética. Até mesmo nas alturas cósmicas atualmente percorridas pela nave espacial Challenger, os cinco cosmonautas americanos foram informados por telex da tragédia. E amigos do ativo senador americano Henry Jackson atribuíram sua morte, aos 71 anos, ao virulento e emocionado discurso por ele pronunciado 2 horas antes de ser levado às pressas ao hospital, no qual denunciou o "ato ignóbil e bárbaro da URSS contra a humanidade". Até o final da semana, e apesar da disposição dos Estados Unidos e do Japão em vazar pouco a pouco alguns dos dados mais comprometedores para forçar o governo russo a falar sobre o selvagem fim do vôo 007 da KAL, o governo soviético se esquivava escandalosamente de fazer esclarecimentos coerentes. No primeiro comunicado divulgado pela agência soviética TASS - após 23 horas de impassível silêncio em relação ao incidente -, Moscou admitiu que despachara caças a jato para interceptar um "avião intruso" que violara seu espaço aéreo, sem reconhecer que havia atacado ou derrubado o avião coreano. Pelo contrário, limitou-se a dizer que o avião, não identificado, "não respondeu aos sinais de advertência dos caças soviéticos e continuou seu vôo na direção do mar do Japão". Era uma versão no mínimo incompleta, e foram necessárias mais 24 horas para que a TASS se pronunciasse novamente - agora dizendo que o piloto do caça tentara estabelecer contato com o 747 usando sinais internacionais, seguidos de tiros de advertência com balas luminosas. O avião intruso, dizem os russos, teria então saído do espaço aéreo soviético, seguindo seu caminho rumo ao sul - e desaparecido a partir daí. Só no último parágrafo da nota, após uma série de ataques contra os "interesses propagandistas" dos EUA e insinuações de espionagem, o comunicado menciona que os círculos da liderança soviética "lamentam a perda de vidas humanas". "Nenhuma tentativa de encobrimento muda a realidade", reagiu com expressão indignada o secretário de Estado americano George Shultz, valendo-se das informações que lhe tinham sido passadas pelo NSA em conjunto com os serviços de informação do Japão. "A União Soviética precisa aceitar a responsabilidade de ter derrubado um avião desarmado, tirando a vida de 269 seres humanos. O mundo está esperando que a URSS diga a verdade", completou. Nua e crua, a verdade não contém muitas nuanças. Seu ponto central está no fato de que o Jumbo da KAL foi abatido por mísseis soviéticos, conforme prova a gravação da conversa captada entre o caça que efetuou os disparos e a sua base em terra - desmentindo, assim, a versão da TASS de que o avião coreano desaparecera após deixar o espaço aéreo soviético. Romeo 20 - À 1 hora da manhã da última quinta-feira, hora coreana, o Jumbo comercial começou a ser rastreado por radares soviéticos, depois de ter entrado no espaço aéreo da Península de Kamchatka, na URSS. Às 2h10, o piloto coreano Chung Byung-In comunicou à torre do Aeroporto de Tóquio, ponto de contato obrigatório depois de Anchorage: "Passamos bem ao sul de Kamchatka. Rota descrita como normal". Às 3h12, o piloto do caça soviético avisou sua base de que havia feito contato com o avião e mencionou que via as luzes de navegação do aparelho intruso. Três minutos mais tarde, o vôo 007 pediu permissão à torre de Tóquio para subir para 35 pés. Às 3h20 veio a resposta: "Confirmado, suba para 35.000 pés". Às 3h21, falando com sua base, um dos pilotos soviéticos que acompanhavam o Boeing coreano notificou sua altitude. Às 3h23, a torre de Tóquio ouviu a última palavra do piloto coreano, em que ele parecia começar a se identificar: "007", ecoou a voz, seguido se sons de estática. Três minutos depois, o piloto russo notificou sua base que havia lançado um foguete e destruído o alvo. A partir daí, sucederam-se rapidamente os registros de que o avião da KAL não existia mais. Às 3h27, o Aeroporto de Tóquio ouviu estática incompreensível do Jumbo e, em seguida, silêncio. As 3h30 o radar de Tóquio registrou uma queda de 5.000 metros na altitude do Jumbo e, por fim, às 3h38 o avião desapareceu dos vídeos do radar japonês. Às 4h30 da madrugada, quase 1 hora após o disparo, a base soviética notificou que estava enviando vários aviões e navios para uma "missão de busca e salvamento" na região. Por trás dessa cronologia fatal, surge uma floresta de indagações e dúvidas. Os mapas fornecidos pelo governo americano para linhas aéreas trazem uma advertência impressa em letra de fôrma num quadro que aponta para as Ilhas Sacalina: "Advertência - aviões que infringem o território fechado para navegação podem ser atacados sem aviso prévio". Como o Jumbo coreano conseguiu desviar-se de sua rota normal, inadvertidamente, em até 500 quilômetros? Não há explicação fácil. Anchorage, escala do Jumbo no Alaska, está ligada a Tóquio e Seul pela rota aérea chamada North Pac, ou Romeo 20 no jargão dos pilotos, de 80 quilômetros de largura e dividida em cinco corredores com alturas variáveis. No vôo fatídico, o Jumbo coreano estava utilizando o corredor mais próximo do espaço aéreo soviético, a apenas 24 quilômetros de distância das fronteiras da URSS naquela região. Tempo suficiente - Quando um avião sai de Anchorage, os radares da Administração Federal da Aviação Civil dos EUA e a Força Aérea americana seguem seu curso na direção sul pelos primeiros 300 quilômetros de vôo. Sempre que estes radares detectam desvios do avião na direção da fronteira russa, eles o avisam, por rádio. Além dos 300 quilômetros iniciais após a escala do Alasca, os aviões passam a depender de seus próprios instrumentos de navegação, fazendo contatos Segundo o último contato de rádio com os controladores de Anchorage, o vôo 007 corria normal. A Agência de Defesa do Japão, entretanto, afirma que seu radar já mostrou o Boeing coreano sobrevoando a secretíssima base soviética de PetropavIovsk, na península de Kamchatka, e atravessando a Ilha Sacalina, a centenas de quilômetros oeste da faixa R20, antes de ser derrubado. Até o final da semana, não havia qualquer sinal de que Anchorage ou Tóquio tivessem tentado contactar o piloto para avisá-lo de seu desvio de rota, nem indicações de que o piloto tivesse pedido ajuda ou soasse algum alarma. Não era a primeira vez. Em abril de 1978, fazendo o mesmo vôo 007, um Boeing 707 da mesma linha coreana com 110 passageiros a bordo desviou-se tanto que penetrou 100 quilômetros de território soviético, chegando perto de Murmansk. Só então foi interceptado por caças soviéticos que, segundo testemunho dos passageiros, fizeram uma longa série de sinais de advertência antes de atirar contra a fuselagem e obrigá-lo a descer, provocando a morte de dois passageiros. O brigadeiro George Joseph Keegan, reformado, ex-chefe de Informações da Força Aérea americana, toma suas cautelas: "Nunca deixei de me surpreender pela falta de cuidado com que os pilotos coreanos se comportam quanto voam perto do espaço aéreo soviético", disse ele a VEJA na semana passada. Na tragédia da semana passada, ao contrário, não há nenhum indício de que os russos tiveram a intenção de advertir o Jumbo coreano ou solicitar, mediante os sinais convencionais, que pousasse ou mudasse de rota. ''Alvo não consciente de que está sendo seguido, continuamos seguindo", diz um trecho do diálogo do piloto russo com sua base, divulgado na madrugada de sábado. Havia nuvens no céu, e era noite escura no momento do disparo do míssil, mas os russos estavam seguindo o Jumbo há mais de 2 horas com oito interceptadores - tempo suficiente para um verdadeiro show de acrobacia aérea de advertência. Ordem de comando - A União Soviética, junto com outros 150 países é signatária do Acordo Internacional de Aviação Civil, que prescreve procedimentos muito claros em caso de violação de espaço aéreo. Por eles, o interceptador deve alcançar o avião intruso por trás, em seguida passa à sua direita e tenta comunicar-se por rádio. Se não houver resposta ou for impossível um entendimento, ele deve passar à esquerda, balançar as asas, inclinar-se, baixar seu trem de aterrissagem e, se estiver escuro, piscar todas as luzes de navegação e de pouso de seu aparelho. Este conjunto de sinais significa que o avião intruso deve acompanhar o interceptador e aterrissar na pista que lhe for indicada. Se ainda assim o intruso não atender às instruções, o caça poderá dar tiros de advertência ou fazer-lhe manobras à frente, obrigando-o a descer. Segundo o professor de Direito Internacional da Universidade de Columbia, Oliver Lissitzyn, o país invadido pode derrubar o invasor se nada disso funcionar e se houver "condições extraordinárias" - como suspeita de espionagem. A preocupação dos soviéticos com penetração de seu espaço aéreo na rota transpolar não é nova. Partes importantes de seu sistema de defesa estão concentradas naquela área do Extremo Oriente. O dispositivo militar na região oriental envolve hoje um terço da força de defesa russa. Como a frota soviética do Pacífico - com seus 765 navios, metade dos quais nucleares, ela é a mais importante do país - tem um único ponto de saída, a defesa antiaérea na região, para evitar que este estreito seja minado, é colossal. O número de aviões em operação na área passou de 300, em 1966, para 1 700 hoje, e uma divisão do Exército com 20 000 homens está aquartelada na ilha Sacalina. Até o final da semana, ainda havia divergências sobre as características do caça soviético que disparou o tiro mortal contra o Jumbo comercial - se foi um Mig 23, como afirmam os japoneses, ou um Sukhoi 15, como divulgaram os americanos em seus primeiros comunicados. Para o essencial da tragédia humana, isto não importa. Qualquer que seja o avião interceptador, ele segue as ordens de seu comando de terra, cuja autoridade é um órgão do Alto Comando. É este órgão, ao qual deve estar alocado um oficial-general, que analisa o "grau de ameaça" e decide o que deve ser feito. No Brasil ou na Itália, o comando aéreo ao qual caberia dar a ordem tem comunicação direta com o mais alto escalão militar do país. Nos Estados Unidos, o comando de desta aérea tem acesso telefônico direto com o presidente da República. No caso do Jumbo coreano, o seu prolongado rastreamento de mais de 2 horas teria permitido que fossem feitas consultas em vários níveis militares e políticos do poder soviético. Tremendo de raiva - "Um caça é um extraordinário instrumento de guerra e nenhum comandante soviético permitiria que seu piloto tivesse liberdade de ação nessas circunstâncias", disse a VEJA o secretário de Defesa e ex-comandante Otan, Alexander Haig. "O Ministério das Relações Exteriores jamais daria uma ordem dessas, isso é coisa do Ministério da Defesa", opinava o desertor russo Arkady Chevchenko. Evocando sua experiência como assessor do chanceler Andrei Gromyko, Chevchenko era de opinião "a estas alturas Gromyko está roendo as unhas de raiva, totalmente constrangido, vendo seus esforços para restabelecer as relações com os Estados Unidos irem água abaixo". Na verdade, não há muito o que o presidente Ronald Reagan possa - ou queira - fazer. Retornando antecipadamente de suas férias na Califórnia, ele mergulhou direto numa reunião de 2 horas na Casa Branca, na sexta-feira, antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, para levantar alternativas de resposta à ação soviética que foram consideradas, por muitos de seus próprios eleitores, uma aberrante capitulação diante de um tenebroso crime comum. Para os 220 milhões de americanos, e para boa parte do resto do mundo, a derrubada de um familiar Jumbo 747, carregado de passageiros inocentes, toca muito mais de perto o dia-a-dia de cada um do que a invasão soviética no longínquo Afeganistão ou mesmo a dura repressão na Polônia, que pode ser vista como uma política de blocos. Numa frase cunhada pelo colunista Leslie Gelb, a derrubada de um avião comercial por um míssil é uma espécie e "Frankenstein em nosso quarto". A imagem não é imprópria diante da enormidade do que está em jogo. Pode haver terror maior do que viajar despreocupadamente de avião com a família, e estar à mercê de um míssil assassino que, por via de estatutos ou praxes incompreensíveis para o cidadão comum, tem o respaldo da jurisdição internacional? A percepção de que a segurança da pessoa humana foi pulverizada nos céus por considerações de defesa do território, como a brutal eliminação de 269 vidas deixou claro na semana passada, bem pode ser uma das visões mais aterradoras de nosso tempo. |
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