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7 de julho de 1993
Chegou a hora
de PC Farias

Depois de fugir da polícia
e se transformar em bode expiatório,
PC negocia a sua rendição

Chegou a hora do empresário alagoano Paulo César Farias. Na tarde de quarta-feira passada, o juiz Pedro Paulo Castelo Branco, de Brasília, expediu um mandado de prisão contra o comparsa de Fernando Collor por sonegação de impostos. Enviada a sua casa em Maceió, uma equipe de agentes da Polícia Federal constatou que ele fugira na véspera. No dia seguinte, os advogados de PC bateram às portas do Supremo Tribunal Federal, STF. Empregando um recurso jurídico conhecido como reclamação, eles pretendiam que o Supremo considerasse que o mandado de prisão não tinha fundamento, já que PC Farias responde a um outro processo - aquele, corrupto-político de seu amigo Collor - que tramita no órgão. Na tarde de sexta-feira, o ministro Ilmar Galvão divulgou seu despacho. Num texto de 36 linhas, com data da véspera, Galvão considerou que o pedido dos advogados de PC Farias não tinha cabimento. No mesmo dia, o deputado Augusto Farias, irmão de PC, anunciou que o tesoureiro da Dinda iria se entregar à polícia. "Ele vai se apresentar", disse Augusto Farias. "Mas não queremos que seja humilhado como um bandido."

Segundo o irmão-deputado, o último detalhe que faltava ser acertado eram as condições com que PC deixaria a clandestinidade para se apresentar à Justiça. A proposta, negociada nos bastidores de Brasília e Maceió pelos advogados de PC e autoridades policiais, era conseguir que ele se apresentasse ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, e não ao diretor da Polícia Federal, Amaury Galdino. "Não confio na Polícia Federal, que está fazendo um circo. E muito menos no senhor Galdino, aquele torturador", diz Augusto Farias. à noite, as negociações avançaram um pouco mais. Augusto Farias telefonou para José Guedes Bernardi, superintendente da Polícia Federal em Maceió. Pediu que o irmão não fosse algemado e também que as câmaras de televisão fossem impedidas de registrar a cena da prisão de PC. às 7 da noite, o delegado Amaury Galdino telefonou ao ministro da Justiça comunicando o contato do deputado com seu subordinado em Alagoas. "Olha Galdino, o Augusto é deputado e ele que me procure, se quiser. Ele me procura, direto, sem intermediários, e a gente vê o que negocia", respondeu Corrêa, ordenando que Galdino transmitisse o conselho a Guedes.

NOME E SOBRENOME - As preocupações e o pedido da família Farias têm razão de ser. Agora, quando PC está derrubado, há muita gente querendo posar de justiceiro sobre a sua carcaça. É uma desumanidade submeter o empresário a humilhações. O que importa é a prisão de PC, e não que seus dois filhos, Ingrid, de 13 anos, e Paulo, de 11, vejam o pai numa situação constrangedora. Paulo César Farias transgrediu a lei, transformou-se num símbolo da corrupção e por isso deve ser preso. A nação sente-se aliviada com a sua punição. A catarse terá se realizado, mas não convém entronizá-lo na condição de judas ou bode expiatório. Relembre-se do papel de Paulo César Farias na máquina da corrupção. Ele foi o receptáculo dos milhões de dólares que empreiteiros, industriais, fabricantes de cimento, de inúmeras figuras bem-postas na vida nacional, lhe entregaram para conseguir favores do governo de Fernando Collor. Foi um receptáculo de propinas entusiasmado e eficiente, ameaçador e insistente. Mas foi um tubarão entre outros tubarões que singravam no mar de lama.

Tubarões que, nos autos dos processos contra o ex-presidente e seu caixa de campanha, e nas declarações de PC Farias, têm nome e sobrenome, pessoas físicas e jurídicas: a Norberto Odebrecht, Antonio Ermírio de Moraes, da Votorantim, a construtora OAS, Luiz Scheuer, da Mercedes-Benz do Brasil, Sharp, a White Martins, o Credicard. PC contou também com a ajuda de outros integrantes do governo, como Zélia Cardoso de Mello, Antonio Rogério Magri, Cláudio Vieira e Marcos Coimbra. Na noite de sexta-feira, quando o mundo desabava sobre a careca de PC, algumas dessas digníssimas figuras jantavam tranqüilamente em restaurantes caros do Rio de Janeiro e de São Paulo, ou acompanhavam a caçada pela televisão. No sossego do lar também estava Fernando Collor de Mello. Seu irmão Pedro não deixou por menos. "Falta colocar Fernando na cadeia", disse, em Miami.

Homens honestos, manifestações populares e o peso das instituições do Estado democrático derrotaram Fernando Collor, PC e a quadrilha de desonestos privados. Uma das instituições, a polícia, que reuniu montanhas de provas contra PC, teve um comportamento patético na hora de detê-lo. O delegado Paulo Lacerda, responsável pelas investigações do caso, mandou três ofícios ao delegado Amaury Galdino, recomendando que fosse feito um acompanhamento dos passos de PC Farias. Um há sessenta dias, outro há quinze dias e o último um dia antes da decretação de prisão preventiva. "Fiz isso todas as vezes em que se falava na iminência da decretação da prisão preventiva", diz Lacerda. O último pedido foi entregue a Galdino na manhã de quarta-feira, quando Lacerda soube da decretação da prisão preventiva pelo juiz Pedro Paulo. A lei proíbe que a polícia vigie os passos de uma pessoa sem autorização da Justiça. Ela pode se considerar tolhida em sua liberdade individual e queixar-se de constrangimento ilegal. Mas é óbvio que, mesmo sem ferir os preceitos legais, quando existe vontade a polícia não deixa que criminosos e suspeitos escapem do seu alcance. Tanto que os passos de PC estavam sendo monitorados desde o início do escândalo Collor, quando já se trabalhava com a possibilidade de uma fuga. Seus aviões não se movimentavam sem que a Polícia Federal fosse avisada. Sua casa também estava sob constante observação.

"COCHILO" - Depois do último fim de semana, quando os principais órgãos de comunicação noticiavam os preparativos de Aristides Junqueira para colocar PC na cadeia, sabia-se que a ordem seria dada a qualquer momento. A Polícia Federal de Maceió também sabia, e chegou a encarregar alguns agentes de manter uma discreta vigilância nas vizinhanças da casa de PC. Eles trabalharam duro no domingo e na segunda-feira. Na terça-feira, ah... Era feriado. Dia de Floriano Peixoto, patrono da cidade. Para não perder a folga, um grupo de agentes foi até a casa de PC. Deu uma espiada de longe e se retirou. Ainda na manhã de quarta-feira, ao ser indagado sobre o paradeiro de PC Farias, o delegado Bernardi garantiu que "o alvo estava sob controle". O "alvo" é o nome-código dado pelos policiais a PC Farias. Ilusão de delegado desinformado. PC já escapulira na véspera. Por volta das 10 da noite de terça-feira, deixou sua residência e sumiu de vista.

Na quarta-feira, com o mandado de prisão nas mãos, a Polícia Federal compareceu ao lugar. Os agentes tocaram a campainha perguntando pelo dono da casa. Receberam a informação de que não se encontrava. Quiseram entrar para conferir mas estavam impedidos. Tinham um mandado de prisão, mas não haviam se dado ao trabalho de arrumar um mandado de busca, que lhes permitiria revistar o local. Por gentileza de Elma Farias, a mulher de PC, foram convidados a entrar. Percorreram todos os aposentos e nada encontraram. Antes de saírem, repararam que Elma e os filhos estavam com malas prontas, como se pudessem partir em viagem a qualquer momento. "Não tínhamos recursos para fazer uma vigilância 24 horas por dia", desculpa-se o delegado Bernardi. "Também não imaginávamos que a preventiva fosse decretada tão rapidamente. Isso não é comum."

Incomum foram as cenas protagonizadas pela polícia. Em São Paulo, agentes da Polícia Federal foram bater à porta de uma mansão da qual PC se mudara há seis meses. Em Maceió, uma equipe ficou sem gasolina no meio dos trabalhos e teve de pegar carona. Brigava-se por recursos e orientação na base na PF. E brigava-se por ciúme e prestígio na cúpula. Temeroso de sair manchado pelo fracasso da operação, o delegado João Batista Campelo, secretário da Polícia Federal, chegou a dar uma entrevista, na quinta-feira, reclamando de não ter sido avisado oficialmente do pedido de prisão preventiva, tendo se informado pelos jornais. Também exigiu, em público, que Amaury Galdino, diretor da PF e seu subordinado, se explicasse pelo que classificou de "cochilo" no esforço para prender PC. Galdino jogou um novo balde na guerra de xerifes desastrados dizendo que "Campelo está desinformado porque não tem feito polícia há muito tempo, passa o dia no ministério".

TUBARÃO VERDADEIRO - A balbúrdia só não foi uma inutilidade completa porque, mesmo correndo atrás de uma pista falsa, a Polícia Federal acabou apanhando um tubarão verdadeiro. Na quarta-feira, um jornalista telefonou para o delegado Paulo Lacerda, em Brasília, para checar uma informação. A de que o empresário argentino Jorge La Salvia, um dos testas-de-ferro de PC Farias, estava desembarcando em São Paulo com 1 milhão de dólares em papel-moeda para entregar ao tesoureiro da Dinda. Quando o avião de La Salvia - um jatinho da Mundial, empresa de PC - aterrissou em Cumbica, a polícia esperava por ele no solo. Não se descobriu uma nota de 100 dólares que pudesse despertar suspeita. Mas se puseram as mãos em documentos que podem render muita dor de cabeça para as baleias da corruptomania nacional.

A bagagem do jatinho é importante, em si, pela folha corrida de La Salvia. Ele se apresenta como empresário, mas os que o conhecem preferem apontá-lo como doleiro. No esquema PC, seu lugar chama a atenção. Em janeiro do ano passado divulgou-se que Paulo César Farias havia adquirido um apartamento de 990 metros quadrados de área e 3 milhões de dólares de valor no Edifício Fábio Prado, em São Paulo. O negócio foi feito, mas no cartório quem aparece como proprietário do imóvel não é PC Farias, mas La Salvia. Sua intimidade com o esquema aparece em forma legível numa agenda apreendida referente ao ano de 1992. Estão marcados o dia e às vezes até a hora de diversos encontros com o próprio PC. Ao folheá-la, a PF constatou que a conta do ex-porta-voz Claudio Humberto Rosa e Silva no exterior estava ao alcance do doleiro. Num papel solto estão escritos um nome, Claudio Humberto R., um número, 11-06323500200036, o nome de um banco, Crédit Lyonnais, e de uma cidade, Lisboa. No mesmo papel, logo abaixo, outro nome, o do cunhado Marcos Coimbra, outro número, 226032-A, outro banco, Banco do Brasil, e as iniciais de Nova York, NY. Entre os dois nomes, há uma cifra: 20.000.

Fica claro, ali, o interesse de La Salvia por temas políticos brasileiros e até municipais. "Perguntar se é bom bancar Luciano Bivar para prefeitura do Recife", agendou ele em 17 de junho, referindo-se a um candidato do Partido Liberal derrotado nas urnas por Jarbas Vasconcelos. Na agenda do doleiro também aparecem dois nomes que, até agora, estavam ligados pela suspeita. O do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia e o da empresa IBF, que fez raspadinhas para o esquema quercista e para o bando da Dinda antes de arrematar a TV Manchete. No dia 16 de junho, ele marcou um encontro às 13 horas com "IBF/Quércia". Um mês e meio antes, outro compromisso com a dupla, ou melhor, com um trio, pois, além de Quércia e IBF, La Salvia anotou na agenda a palavra Sintify Game, multinacional de jogos de azar que fabrica a raspadinha vendida no Brasil. O prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, também aparece na agenda, ao lado de uma empreiteira, Constran, do empresário Olacyr de Moraes. "A agenda não serve como prova para nada", explica um delegado que pôde examiná-la. "Mas vai ajudar bastante a se chegar a provas de verdade."

ABANDONOU ATÉ O UíSQUE - O PC que passou os últimos dias como um foragido é um cidadão bem diferente daquele tipo de comportamento arrogante que os brasileiros se acostumaram a ver prestando depoimentos. Recentemente, ele fez uma consulta médica e recebeu um diagnóstico preocupante. Está sofrendo de diabete. Em dieta forçada, cortou gorduras, frituras e doces. Alimenta-se de verduras e carnes magras, dando preferência à de cordeiro. Já perdeu 10 quilos, mas ainda está gordo. Com 1,68 metro de altura, seu peso estacionou em 77 quilos e precisa diminuir. O esforço para perder peso é tão grande que, segundo os amigos, abandonou até o uísque. Nos últimos quatro meses, sua única bebida são cervejas importadas, uma ou duas, nos fins de semana. Raramente sai de casa nos dias de lazer. Não vai a cinema, a teatro ou a restaurantes. Fica recolhido com a família, vendo TV e videocassete. "Na prática, ele se encontra em regime de prisão domiciliar há quase um ano", observa um integrante da legião de funcionários que tocam a mordomia de sua mansão no bairro de Mangabeiras, em Maceió.

Ao tomar a decisão inicial de fugir de um mandado de prisão, PC Farias envolveu-se numa complicação. Até então, mostrava ter estômago para declarar sua inocência e fazer profissões de fé na ação da Justiça. Comportava-se como um réu que, por piores que fossem as acusações contra sua pessoa, estava disposto a aceitar decisões que não o agradassem. Isso mudou. "Ao desaparecer logo após o pedido de prisão, ele evidenciou que mentia quando assegurava que estava disposto a colaborar com a Justiça", observa um membro do STF. "Na primeira oportunidade que teve para demonstrar o que dizia, fez justamente o contrário." A cadeia é o lugar correto para Paulo César Farias.


Setor Policial Sul, térreo, cela 1

Um novo endereço para PC em Brasília

Localizada no andar térreo da superintendência de Brasília, a carceragem da Polícia Federal ficou pronta na semana passada para receber seu visitante mais ilustre. De sete celas, duas são reservadas para hospedar apenas presos com curso superior. Estão vazias. Das outras cinco, três estão ocupadas por um estelionatário brasileiro e dois mafiosos, um alemão e um americano. A cela destinada a PC tem 25 metros quadrados. A mobília é um beliche, uma mesa de jantar e uma cadeira, tudo em concreto. Ele pode levar TV e geladeira, mas não o telefone celular. Separado por uma mureta, há um banheiro, com chuveiro elétrico, uma pia e uma peça que faz inveja aos presos comuns, um vaso sanitário de louça branca. Nas outras celas, o vaso é um buraco no nível do chão.

O provável novo endereço residencial de PC é tórrido durante o dia e gélido à noite. Não há janelas. Os catres são cobertos por uma fina camada de espuma azul que faz as vezes de colchão. Sobre a mesa há uma garrafa para café e outra de água. Das 9 às 11 horas, os hóspedes podem tomar banho de sol, num quadrado de paredes de cimento de 3 metros de altura gradeadas no teto, como uma gaiola. A carceragem foi reformada há dois anos. Teve as paredes reforçadas e as cercas de arame cresceram 1 metro. Dois presos já escaparam dali. O mafioso Humberto Amaturo desapareceu da cela depois de subornar um agente e um traficante conseguiu fugir retirando o vaso sanitário e cavando um túnel a partir do encanamento.

XEROX - Como preso especial, PC não vai precisar usar uniforme, pode receber visitas diariamente, tomar água Perrier e encomendar o rancho nos melhores restaurantes da cidade. Para isso, terá de se comportar bem. A lei que regulamenta a prisão especial estabelece que, em caso de indisciplina, o preso é punido com a suspensão do banho de sol e das mordomias. Pode até ir parar no isolamento. Em Maceió também existia uma cela pronta. É bem menos confortável, e boa parte da área disponível era ocupada na semana passada por uma máquina de xerox. Sem a máquina, o local oferece 9 metros quadrados de área útil. A sala é branca, com a pintura manchada, e oferece o conforto de um ar-condicionado sem tampa mas em perfeito funcionamento. O banheiro, em compensação, é sujo, coletivo e tem pia sem torneira nem água. Na hora do sono, só existem duas opções. Ou o preso dorme no chão ou manda buscar uma cama em casa.


Há juízes em Brasília

O juiz Pedro Paulo alega que PC
solto é uma ameaça e um mau exemplo e mostra
que, quando quer, a Justiça funciona bem

Bastou o juiz Pedro Paulo Castelo Branco Coelho, da 10ª Vara Federal de Brasília, cumprir sua função de forma exemplar para mostrar que a Justiça, quando quer, funciona. Na quarta-feira passada, ele se tornou o primeiro magistrado a tomar aquela decisão que o país todo aguardava desde que Fernando Collor de Mello foi forçado a sair do Palácio do Planalto: mandar para o xilindró o sócio preferencial do ex-presidente. No final da manhã, o juiz recebeu da Procuradoria Geral o pedido de prisão preventiva de Paulo César Farias, seu sócio aéreo Jorge Bandeira e seus funcionários Ricardo Campos e Rosinete Melanias, a secretária que assinava em nome dos fantasmas. Quatro horas mais tarde, o juiz aprontara um despacho de cinco páginas. Em estilo direto, a certa altura escreveu: "Encontra-se a ordem pública gravemente atingida pelo fato de os acusados estarem prestes a responder processo penal soltos. Suas condutas incitam à prática de delitos, por parte da maioria da população, que ainda crê na honestidade como valor a ser seguido por todos". Em resumo: o monturo de impunidade que incomoda o país só se combate com punição, com a prisão.

O juiz Pedro Paulo agiu como o magistrado que deseja fazer justiça num sentido amplo e usou os fundamentos que a lei lhe dá para decretar a prisão. Convenceu-se de que a sonegação de 1,7 milhão de dólares cometida por PC e sua turma é um mau exemplo e está comprovada. "Os contribuintes são instigados a adotar postura idêntica de omissão e fraude tributária, certos de que a impunidade de um criminoso maior leva também à de um menor", escreveu. Mais: o juiz pôs em seu despacho o que boa parte da população pensa há treze meses, desde que a sociedade Collor-PC veio a público. Primeiro, PC deve ser preso para não afetar a tranqüilidade social, criando um clima geral de impunidade. Segundo, como proprietário de uma empresa aérea, PC tem todas as facilidades de fugir a qualquer hora. Cumprindo a sua parte, era natural que Pedro Paulo esperasse que a polícia cumprisse a dela. Até marcou data para tomar o depoimento dos acusados: nesta terça-feira, às 9 da manhã, em Brasília.

Foi a terceira vez que o país assistiu a um pedido de prisão preventiva da quadrilha, mas só agora o resultado pôde ser festejado. No primeiro pedido, apresentado pelo procurador-geral Aristides Junqueira, em 30 de dezembro do ano passado, um dia depois do impeachment de Fernando Collor, o ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, entendeu que os acusados não vinham perturbando o andamento do processo. No segundo, no dia 1º de abril, o ministro Ilmar Galvão, relator do processo no STF, também achou melhor deixar PC e sua turma em liberdade. Galvão considerou que não havia nenhum clamor popular exigindo que fossem para trás das grades. Agora, o resultado e a interpretação do juiz foram diferentes. Convicto de que PC tinha que ir para a cadeia, o juiz Pedro Paulo agiu conforme a lei, já que desta vez havia uma acusação de crime comprovada, e conforme pensa a população brasileira. De acordo com as últimas pesquisas de opinião, 80% não têm confiança na Justiça nem na honestidade dos juízes. Por quê? Porque os figurões identificados como desonestos estão livres. Entre eles, as pesquisas apontam: PC Farias, o ex-governador Orestes Quércia e o ex-ministro Antonio Rogério Magri.

TRIO EMPENHADO - Desde o início do ano o juiz Pedro Paulo está convencido de que o lugar de PC é na cadeia. Na época, o juiz teve acesso aos autos do processo pelas mãos do delegado Paulo Lacerda, da Polícia Federal. "É um absurdo ele ainda estar solto", comentou com um amigo na ocasião. A partir daí, sua certeza de que as punições precisavam ser aplicadas foi-se robustecendo aos poucos. O juiz passou a acompanhar de perto o trabalho dos procuradores ítalo Fioravanti e Odim Ferreira - e, juntos, formaram um trio empenhado em cortar a ciranda de impunidade em que se embalava a quadrilha Collor-PC. Em abril passado, os dois procuradores perceberam que a chance de prender PC estava mais próxima. A Receita Federal encerrara uma investigação comprovando sonegação fiscal pela Brasil Jet, empresa de PC. O juiz, informado das novidades, estimulou o pedido de prisão com base nas suas convicções. Os procuradores consultaram seu chefe Aristides Junqueira. "Estamos pensando em apresentar uma denúncia contra o PC", disse Ferreira a Junqueira, há três semanas. "Vocês sabem que eu já apresentei dois pedidos de prisão ao Supremo", disse Junqueira, ao dar o sinal verde para seus assessores.

TRÊS ACUSAÇÕES - Há um mês, o juiz Pedro Paulo confidenciou que bastaria a Procuradoria lhe mandar uma acusação tecnicamente boa que a prisão seria decretada. "Mande uma denúncia bem fundamentada que eu mando prender", disse o juiz. Em outra ocasião, foi mais explícito sobre sua convicção. "Cada dia que PC fica solto, a impunidade fica mais cristalizada", disse. "Temos de ver logo esses inquéritos." Com um magistrado disposto a fazer Justiça e uma investigação da Receita Federal, os procuradores começaram a estudar os caminhos jurídicos. "Se tivermos mais dois documentos, PC vai para a cadeia", comentou Fioravanti, com seu colega Odim Ferreira, a certa altura dos trabalhos. Os documentos vieram e deram fundamento a três acusações:

• Em 10 de dezembro de 1991, a secretária Rosinete Melanias assinou um recibo da Brasil Jet, recebendo 60.000 dólares da empresa. Com a devassa nas contas dos fantasmas, a Receita comprovou que no mesmo dia os 60.000 dólares foram depositados por ela na conta do fantasma Manoel Dantas de Araújo, no Banco Rural. Comprovou-se a sonegação, já que a Brasil Jet, com esse ardil, aumentava artificialmente seus custos e reduzia seu imposto.

• A Receita descobriu uma nota fiscal da Gonair Táxi Aéreo em favor da Brasil Jet de 200.000 dólares. Procurada pela Receita, a Gonair informou que jamais emitiu a nota. Ou seja: a Brasil Jet tentou aplicar o mesmo golpe de aumentar a coluna das despesas para sonegar imposto.

• Em dezembro de 1990, a Brasil Jet emitiu uma série de cinco notas fiscais duplas no valor total de 390.000 dólares. As verdadeiras foram emitidas em favor da Líder Táxi Aéreo e do instituto de pesquisa de opinião Vox Populi, de Marcos Antonio Coimbra, filho do secretário-geral de Collor, o embaixador Marcos Coimbra, cunhado do ex-presidente. As cinco notas falsas foram para a empreiteira OAS. Ficou comprovado que a OAS pagou 390.000 dólares à Brasil Jet, e PC emitiu as notas falsas. A Receita provou que Jorge Bandeira e Ricardo Barros endossaram o cheque da OAS e depositaram o valor na conta do fantasma José Carlos Bonfim.

QUILOS DE OURO - Os golpes tributários promovidos pela Brasil Jet, num total de 1,7 milhão de dólares, formam uma acusação menor diante do caldeirão de crimes de que é acusada a quadrilha Collor-PC. Para o juiz Pedro Paulo foi o bastante. E era mesmo. A sonegação pode ser também o caminho adequado para levar Collor à cadeia. Basta o ministro Ilmar Galvão, como relator do processo, interessar-se em saber se por acaso a gastança promovida por Collor com seus jardins babilônicos consta de sua declaração de renda. Será que alguém prestou contas junto ao Leão dos 8 milhões de dólares que PC confessou no Supremo terem sido destinados às despesas pessoais de Collor? São indagações que podem ter vindo à mente do juiz Pedro Paulo. No início de junho, ele descobriu que Najun Turner, o doleiro da farsa uruguaia, só declarou que devia 283 quilos de ouro ao ex-secretário Cláudio Vieira em outubro do ano passado. Ocorreu-lhe a idéia de ver a declaração de Vieira. E descobriu que não havia ali nem um grama de ouro. O juiz enviou um ofício à Receita pedindo um processo de sonegação contra Vieira - o que poderá colocá-lo em breve na mesma situação de PC Farias.

O juiz Pedro Paulo Castelo Branco Coelho tem 46 anos, é casado, pai de três filhos e vive em Brasília desde outubro do ano passado, quando chegou à capital federal para ocupar o cargo de juiz titular da 10ª Vara Federal, com menos de cinco anos de carreira. Nascido em Rio Branco, no Acre, começou a trabalhar como bancário e atuou como advogado por doze anos. Chegou a ser secretário de Justiça do Estado, em 1982. Em agosto de 1988, concluiu mestrado em Direito Privado na Universidade Federal de Pernambuco e saiu-se bem no concurso para juiz federal. "Sempre quis ser juiz federal e, portanto, sinto-me realizado", diz. "Tudo o que vier a mais em minha carreira, a partir de agora, é lucro." Ele é adepto do direito alternativo, tese dos juízes que prolatam suas sentenças de olho no espírito de justiça, ainda que para tanto façam uma interpretação menos ortodoxa da lei. "Eu aplico a lógica do razoável, a lógica do bom senso", costuma dizer Pedro Paulo. É um prenúncio de que boas novidades estão por vir. Na sua Vara, corre o processo da licitação do Canal da Maternidade, no Acre, em que a empreiteira Odebrecht é acusada de subornar o ex-ministro Magri com 30.000 dólares. Também está ali a denúncia de que Rosane Collor garfou o Erário para bancar a festa de aniversário de Eunícia Guimarães no Palácio da Alvorada.

REVÓLVER NA CINTURA - Com hábitos simples, Pedro Paulo é o típico brasileiro de classe média. Os mais íntimos o tratam pelo apelido de "Pepê". Seu esporte predileto é o futebol. Joga de atacante. Não fuma nem bebe, adora feijão com arroz, pato ao tucupi e galinha ao molho pardo. Não gosta de freqüentar restaurantes badalados, vai ao cinema para assistir aos grandes sucessos e nunca viajou ao exterior. "Tenho muita coisa para conhecer no meu país", diz. Nas eleições de 1989, votou em Paulo Maluf, no primeiro turno, e em Collor, no segundo. Sem o traquejo da notoriedade provocada pelo despacho contra PC, na semana passada o juiz quis mandar um recado para os que lhe vêm fazendo ameaças de morte e cometeu um erro. Apareceu diante de fotógrafos com um revólver 38 na cintura. Arrependeu-se. "Eu acabei passando uma imagem de truculento", afirmou, dias depois. A notoriedade lhe agrada. Na quinta-feira passada, depois de informar que não gosta de dar entrevistas, falou satisfeito para a Rádio Guaíba, de Porto Alegre. A entrevista durou dez minutos.

Quem não gosta de notoriedade são os procuradores que viabilizaram o pedido de prisão de PC. Odim Ferreira tem 27 anos, carioca, solteiro, ganha 160 milhões de cruzeiros por mês e é tão discreto que ainda vive com os pais. Detesta boates, música alta e banho de sol. Não pratica esportes e seu programa predileto é ir ao cinema e a restaurantes. Odim Ferreira teve uma carreira meteórica. Aos 21 anos era assessor direto do então procurador-geral Sepúlveda Pertence, hoje no STF. Mais recatado ainda é o seu chefe, ítalo Fioravanti. Aos 31 anos, dois filhos, Fioravanti não se diverte em festas e o que gosta mesmo é de passear com os filhos. O tempo todo dedica-se à Procuradoria, onde ganha 200 milhões por mês e chefia uma equipe de dezessete procuradores. Não tem hora vaga para mais nada. Há meses está encalhado na leitura do livro Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado. "Só consigo ler algumas páginas antes de dormir", explica. Com tamanha dedicação ao trabalho, na semana passada os dois ganharam um elogio do procurador-geral pelo esforço de fazer um pedido bem fundamentado de prisão de PC e sua turma à Justiça. "Uma prisão aqui, outra ali, não muda muito", disse Aristides Junqueira. "Mas é uma satisfação que se dá à sociedade e um fator que contribui para modificar a sensação de impunidade no país."


Ilmar sofre e pede socorro

STF deu-lhe uma nota de solidariedade

No início da tarde de terça-feira da semana passada, o ministro Ilmar Galvão, relator da Ação Penal nº 307-3, como foi batizada no Supremo Tribunal Federal a ação contra Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias e companhia, procurou o presidente da casa, ministro Octávio Gallotti, para um pedido. "Tenho um grave problema a expor e gostaria de convocar uma reunião do conselho", disse. Reuniões "do conselho" são reuniões secretas entre os onze ministros, para tratar de questões internas. Naquele mesmo dia ela foi realizada, e Ilmar tomou a palavra. "Estou sendo massacrado, e indiretamente o Supremo está sendo atingido", disse. "Preciso de uma nota em que o tribunal reafirme a confiança no trabalho que realizo."

Nomeado pelo próprio Collor para o STF, o que o coloca na situação, que ele próprio costuma chamar de ingrata, de julgar quem considera seu benfeitor, Ilmar Galvão referia-se às críticas que vem recebendo na imprensa pelo modo com que vem conduzindo o processo, de maneira morosa e às vezes até leniente para com os réus, como nos momentos em que deixou de fazer-lhes perguntas cruciais. O Supremo atendeu ao seu pedido e, redigida pelo ministro Paulo Brossard, divulgou uma nota em que "lamenta" as críticas e enaltece Ilmar Galvão como "magistrado de larga experiência e tirocínio". Salve, salve! Pelo menos, o tribunal, que como corpo até agora vinha reagindo ao processo de maneira tão letárgica como o relator, reuniu-se para discutir um aspecto do caso, o que equivale a reconhecer sua importância. Já é outra história o próprio conteúdo da nota, vazio e inócuo.

É discutível se os acontecimentos da semana passada melhoram a imagem do Supremo, exposto ao julgamento do público como talvez nunca em sua história. Foi preciso entrar em ação um juiz de primeira instância para imprimir ao caso o nervosismo reclamado e passar à população a sensação de que realmente se pretende fazer justiça. Ponto contra o STF. Quando consultado, porém, o STF sustentou a sentença do juiz. Ponto a seu favor. O tribunal não tem nas mãos apenas um dos casos mais rumorosos, senão o mais rumoroso de sua existência. Muito mais importante, tem a chance histórica de, como poder da República, colocar-se a favor do vento, no anseio nacional de mudança que inclui, como pedra angular, a inauguração do hábito de punir os réus ricos e famosos. Dias antes de pedir a reunião do conselho, Ilmar tinha confidenciado a colegas: "Se continuar sofrendo esse desgaste, vou renunciar e alegar questões de foro íntimo". Ao sabor do estado de espírito do relator balança a sorte do STF nesse episódio. Ou o tribunal sai dele deixando a memória de seu mais nobre momento, em que desempenhou papel decisivo para fazer o país acreditar na Justiça e nas instituições democráticas, ou ganha o maior problema de sua existência.


O PC do pré-golpe de 64

Aos 72 anos, ele vive em Londres

Passa bem o tesoureiro eleitoral mais famoso antes de PC Farias. Aos 72 anos, o economista Ivan Hasslocher, o homem que fundou o tenebroso Instituto Brasileiro de Ação Democrática, Ibad, em 1959, e inundou com alguns milhões de dólares as campanhas de candidatos conservadores nas eleições de 1962, leva vida de aposentado bem-sucedido em Londres. No inverno, Hasslocher muda-se para sua casa no Estado americano do Texas, em busca de temperatura amena. Em 1965, dois anos depois de vir a público o escândalo em que se descobriu que arrecadara quantias impressionantes, Hasslocher sumiu do mapa. Emigrou para Genebra, na Suíça. Na sexta-feira passada, de Londres, disse a VEJA que está satisfeito. "Parti feliz com a deposição de Jango, desconfiado da ditadura e impossibilitado de trabalhar devido à notoriedade em torno de meu nome", disse. "Mas ganhei muito dinheiro."

No Ibad, Hasslocher recebia doações de 98 contribuintes para combater Jango e formar células golpistas de militares, trabalhadores e estudantes. Na Ação Democrática Popular, a Adep, subsidiária do Ibad, centralizava contribuições para oito candidatos a governador, 250 para a Câmara e 600 postulantes a deputado estadual. Multinacionais americanas ajudaram com até 5 milhões de dólares, segundo calculou em 1977 o ex-embaixador no Brasil Lincoln Gordon - uma fortuna para a época. Como PC, Hasslocher usava uma empresa, a Incrementadora de Vendas Promotion, para coordenar as ações financeiras e também fazer seu pé-de-meia. Também como PC, o caso deu uma CPI. Aliás, duas. A primeira fracassou, com a descoberta de que presidente e relator haviam sido financiados pelo dinheiro de Hasslocher. Em 1963, foi encurralado por uma segunda CPI, presidida pelo então deputado pessedista Ulysses Guimarães. à primeira notícia da investigação, Hasslocher mandou-se para o exterior. Voltou cinco meses depois e exigiu depor como indiciado para poder mentir à vontade.

"PRESIDENTES LADRÕES" - Em Genebra, trabalhou para organizações vinculadas à ONU. Transferiu-se para Londres em 1976. Viajou muito a serviço. Na Indonésia, sofreu um rompimento de úlcera e quase morreu ao receber sangue incompatível com o seu. Veio ao Brasil em várias ocasiões, mas acha que não mais retornará. "Pessoas da minha idade precisam de um lugar mais tranqüilo", diz. Hasslocher não gosta de ser comparado a PC. "Eu não roubei e prestava contas aos colaboradores de tudo o que recebia", diz. Ele nem se interessa pelo PC de hoje. "Tenho pouca informação sobre o que acontece no Brasil", informa. Mas espera que Collor seja julgado pelo STF. "Seria um exemplo para um país que teve muitos presidentes ladrões." O próprio Hasslocher é um exemplo. A CPI que o investigou não deu em nada, e, seis meses depois, o PC continuava solto e o Congresso era fechado no golpe de 1964.


 
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