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Reportagens 7 de junho de 1995Mulher, Crime e Castigo Como são os dias e as
Eu estava deitada na cela quando Ouvi o portão do TB beter êê Só o portão do TB sabe Dizer o meu sofrer êê Se eu deito não posso dormir Se eu durmo não posso sonhar Levanto o olho pra grade e começo a rezar... Maria Cristina Domingos, a "Nanaca" da favela carioca Nova Holanda, puxa o pagode no corredor da galeria "D", a mais explosiva da unidade. Aos 25 anos, ela ainda é jovem, irrequieta e emotiva, três atributos que perderá em pouco tempo. E tempo Nanaca tem: foi condenada a quatro anos de prisão no Talavera Bruce, o TB, por tráfico de drogas. "Quando cheguei ao distrito policial, as colegas começaram a cantar esse hino para mim. Foi de arrepiar. É uma canção para disfarçar o medo de quem vai preso, e para quem ainda tem esperança de não pegar Bangu. Para mim, não adiantou, peguei. Mas a música é linda", consola-se. O complexo penitenciário de Bangu, do qual faz parte o único presídio feminino de regime fechado do Rio de Janeiro, é visto como um fim de linha - fim da carreira de bandida ou da chance de se reerguer. "Aqui é o último ponto de encontro. Lá fora, na rua, a gente se separa, se cruza numa ou noutra delegacia, às vezes foge ou é solta - eu mesma fugi da Polinter -, mas é aqui o reencontro pra valer, o acerto de contas. Me sinto longe do mundo", comenta a veterana Rosa Maria Vieira, que já cumpriu doze de seus dezoito anos de pena, também por tráfico. Doze anos trancada no Talavera, em Bangu... melhor não pensar. O centro do Rio fica a mais de 40 quilômetros de distância, a praia torna-se miragem. "De que cor é o mar?", testa Cléa Regina, 24 anos de vida e dezoito de condenação por assalto a banco, para comprovar sua tese de que o certo é fugir dali pois a gente esquece a cor do mundo. "É vermelho", arriscou a menina de 4 anos, filha de seqüestradora, que cresce na creche da penitenciária observando guaritas, guardas, grades. Quem está fora não quer entrar. Quem está dentro há muito tempo acaba ficando com medo ao sair. "Não sei mais usar garfo, vou ter medo de me espetar", admite uma detenta, que há treze anos só come com colher. No imaginário de quase todo carioca, o Talavera Bruce é prisão de filme americano, onde mulheres engaioladas, perigosíssimas, ficam à espreita de carne fresca. Não é. O que choca, na rotina ensuarada daquele buraco, o mais quente do Rio, é a banalidade das vidas ali encarceradas. "Paixão", "amor", "Deus", "meus filhos", "mãe" compõem o cardápio-base das conversas de confessionário. Em contrapartida, palavras que designam de forma concreta a realidade, como "crime", "prisão", "cela", simplesmente somem. A loirinha Luciene Stuart, 33 anos, grávida de oito meses (duas fugas, pena de 34 anos por um coquetel de crimes, seis irmãos também encrencados com a Justiça), tapa literalmente o sol com a peneira. Estendeu um lençol em sua cela decorada com bichos de pelúcia, coraçõezinhos bordados e frases de amor, dando-lhe um ar de tenda árabe, aconchegante, uterina. Fez sumir a janela. "Assim não vejo as grades", explica. Pronto. Para algumas internas, o mundo do faz-de-conta funciona. Para outras, é ele o verdadeiro inimigo. "Eu tinha tudo na minha cela: liquidificador, TV, gravador, as paredes todas em papel rosa", relembra Angela Lessa, 29 anos, a única presa ouvida por VEJA a usar a palavra cela. "Nem notava que tinha uma rotina fantasiada de mundo livre: Jornal Nacional, novela das 8, depois o programa seguinte, tudo igual ao mundão. Li que quando o detento coloca o seu mundo dentro da cela ele perde o referencial de onde está. Concordo. Dos sete anos que já tirei aqui - fui condenada a 35, por furto, atropelamento, estelionato -, ficava deprimida um ou dois dias, mas o resto do tempo eu me dizia que estava bem. Agora mudei. Quero cair na real. Isto aqui não é minha casa. É uma cela, e muito feia. Mandei tudo o que tinha embora." Não foi bem assim, ou não foi só assim. Sua cela foi vandalizada de alto a baixo por uma guarda. Angela, a presa, havia contrabandeado para dentro da carceragem uma máquina fotográfica, o que é proibidíssimo, emprestada por Rita, uma agente de segurança, o que é ainda mais proibido. Ambas foram descobertas e punidas pela chefia. Suspeitando a presa de delação, o troco corporativo veio truculento na forma de uma revista de justiceiro: as roupas de Angela foram jogadas no vaso sanitário, seu pó de café misturado com sabão em pó, seus escritos bisbilhotados, seu castelo ridicularizado. É infinito o poder de humilhação de guardas que gostam de humilhar. No Talavera vigora uma lei não escrita da química penitenciária: crises brotam na calmaria. Numa recente manhã de terça-feira, uma notícia veio bagunçar o dia da diretora Maria de Fátima Carneiro da Cunha, 37 anos, psicóloga de formação, salário de 350 reais. É, 350 reais para dirigir uma unidade penitenciária do Rio de Janeiro com 317 detentas e quatro equipes de dezessete guardas. Durante dois dias e meio faltaria água em todo o Rio. Trezentas internas num presídio "três-em-um" (onde coabitam condenadas a penas curtas, médias e longas, reincidentes, veteranas e primárias) já não é fácil. As mesmas trezentas sem água é alerta vermelho. E trezentas sem água nem para comida, com 22 novas sendo esperadas, é confusão certa. Uma hora da tarde, sol a pino. As 22 calouras despejadas no pátio frontal do Talavera tentam camuflar a ansiedade. Sabem que os códigos aprendidos nos distritos policiais de onde foram transferidas valem zero em Bangu. Vestiram suas melhores roupas para o translado, socando o resto dos pertences em sacos de plástico e mochilas estufadas. "Eu tirei quatro temporadas aqui, em 80, e o diretor me conhecia", arrosta a que quer impressionar, por veterana. Exibe uma semelhança desconcertante com o ator Jack Palance. A de condenação curta, mais afoita, quer saber tudo, já, como se estivesse atrasada para alguma coisa. "Como é que se avisa a família para vir visitar a gente aqui?", indaga. Aprenderá que o tempo penitenciário é outro. No seu gabinete do 1º andar, a doutora Fátima mapeia a confusão. "Operação pente-fino, revista geral, todo mundo na capela por enquanto", ordena. Com o seu vice-diretor Hércules Muniz da Costa manuseia as 22 fichas que lhe foram entregues junto com as ingressas. "Aqui tem papel irregular - a pena desta já expirou." Bota de lado. Entre as novatas, uma evadida. "Tranca nela, depois a gente vê. Há várias com livramento condicional já requerido. Tem pelo menos uma de regime aberto que não pode ficar aqui. Segura as viaturas, pois vamos devolver algumas." Decide ir pessoalmente até a capela sentir o grupo de recém-chegadas, antes de colocá-las em contato com a população local, a essa altura já tomada de boatos sobre a identidade das colegas novas. Seqüestradoras, assaltantes, ladras, estelionatárias, traficantes estão sentadas em silêncio nas cinco primeiras fileiras da nave cor-de-rosa da capela, entre santos e padroeiras, à espera das primeiras instruções. Ninguém parece notar dois cartazes em caligrafia caprichada, afixados na lateral, que alinhavam as "Obras da Carne" (Fornicação, Impureza, Libertinagem, Ciúme, Discórdia, Inveja, Orgias) em contraponto à lista dos "Frutos do Espírito" (Caridade, Parceria, Fidelidade, Honestidade, Castidade). Com esse vocabulário, não surpreende que a Igreja Católica esteja sendo escorraçada dos presídios por uma militância evangélica mais utilitária. Ao contrário da fornada anterior, desta vez veio apenas um "machão" - designação genérica para a presa que se traveste de homem, fala como homem e bate como homem. Costumam ostentar pêlo no corpo, cavanhaque ou bigode quando a natureza ajuda, cabelo de recruta e roupa masculina que inclui cuecas Zorba. Formam o contingente mais jovem, de mais baixo grau de escolaridade, em geral ex-meninas de rua. Aprenderam a usar o escudo masculino para ninguém chegar perto. Funciona para simular ascendência e domesticar quem for escolhida como sua "menina". A maioria das presas condena a "semvergonhice das lébsicas" (versão única da palavra "lésbica", no presídio). Já bandidaças consagradas como Djanira Metralha, condenada até o ano 2019, há muito deixaram de se impressionar. "Se tivesse algum homem aqui dentro, ele seria meu", esclarece. "Digo pros sapatões arriarem as calças e me mostrarem se eles têm alguma coisa a mais do que eu. Não têm, não é? Então que se manquem." O grupo de calouras ouve as regras que passarão a reger suas vidas. Cartas recebidas não serão lidas pela chefia mas abertas na frente de uma coordenadora, e o conteúdo, sacudido. Visitas, após obter credenciamento, são permitidas aos sábados, domingos e feriados. Telefonemas semanais para fora, com número discado por uma guarda, têm horário limitado e a lista de inscrição é demorada. Dinheiro pode ser recebido via vale-postal, mas presa só pode sacar 10 reais (10% do salário mínimo) a cada três dias. Até aí as explicações da doutora Fátima seguiam mansas. De repente, ela finca o olhar em uma ou outra novata que veste algo vermelho - o que, na etiqueta prisional carioca, nunca é por acaso - e avisa: "Frente, aqui no Talavera, é a direção. Os funcionários não são surdos e vocês têm boca e voz. Aqui não precisa de representante, cada um fala por si, está claro?" Está: se você é do Comando Vermelho, Terceiro Comando, Jacaré ou outra frente de bandidagem, melhor não tentar fazer proselitismo. A chefia do presídio não nega as lideranças - até porque precisaria ser cega para não ver o impecável apê rubro reluzente da galeria D ou as inscrições mais do que sugestivas em várias paredes -, apenas não as aceita. A informação mais indigesta é dada por último: desde o início de 1995, é permitida a entrada de apenas dois aparelhos elétricos por interna. Como não há vida humana em Bangu sem um ventilador - não apenas pelo calor, mas para dar combate à carnificina noturna dos pernilongos -, resta a opção de pedir à família que traga rádio, relógio, toca-fitas ou TV. A portaria não tem efeito retroativo, e por isso ainda se vêem celas que parecem bibocas de coreano. Mas a idéia é ir acabando com a possibilidade de ostentar um poder aquisitivo alto. "A briga, hoje, não é mais pela entrada de um secador, mas de um microsystem, um mixer, uma cama própria, para emular a impunidade dos grandes banqueiros do jogo do bicho", explica Tania Tibicherany, coordenadora da Custódia, onde se empilham as bugigangas retidas. Esclarecimentos finais às recém-chegadas: cada galeria tem uma furadeira e um ferro elétrico para uso comum. O fato de o ferro ser usado na calada da noite para fritar ovo, em dias de muito desejo, elas descobrirão mais tarde. Pronto. Teoricamente as coisas são como foi dito, e cada ingressa recebe um kit que não inclui uniforme, nem sequer camiseta, por falta de verbas. Durante os anos dourados, a administração fornecia colchonete, cama, lençol e cobertor; prato, caneca de alumínio e colher; sabonete, pasta e escova de dentes, papel higiênico, absorventes femininos. Hoje, recebe colchonete, sabonete e pasta de dente. A ração mensal de absorventes femininos é a Assembléia de Deus que traz. "Tudo o que me trouxerem eu aceito de bom grado", diz a diretora. Ela sabe que a indigência não tem limites. Até o ano passado, na penitenciária feminina de São Paulo, havia internas usando miolo de pão à falta de absorventes. Resta acionar a rede de cagüetagem para saber se alguma recém-chegada corre perigo. Dos dois lados constroem-se mitos - uma das novatas, de codinome Barreto, estaria jurada de morte por ter tido regalias no 12º Distrito - abria cadeados para as visitas, levava e trazia comida. A galera ia querer saber que outros serviços prestara aos policiais. "Quem é Barreto?", pergunta a direção, tateando. Uma mulher bem-vestida, de cabelo negro corte Chanel e argolas de ouro, acha por bem se apresentar: "Sou da Ladeira do Barreto, Morro da Providência", diz, intuindo que há perigo. "Então fique de lado." Outras duas se aboletam a seu lado. "Se ela tem problemas, nós também vamos ter", anunciam, sem que nada mais precise ser falado. Está feita a triagem. Fica-se de olho no trio até que as vinganças anunciadas arrefeçam. Elas não são brandas. Da última vez, duas internas condenadas por participação em grupos de extermínio tiveram de "pedir um Seguro Bradesco", ou "assinar um ItaúVida". Isto é, remoção para uma galeria em que não estivessem ameaçadas de morte. Achou-se prudente colocar a alimentação de ambas em mãos da chefia, para evitar risco de envenenamento. "Aparecer detenta morta derruba qualquer direção", como diz o ditado. "Sumir detenta por fuga derruba a guarda de plantão."
Marta Pistola, a musa do amor bandido Cabelão moreno, pacotes de tórridas cartas de amor enfurnadas na cela, propostas de namoro recebidas de vários presídios masculinos de alta segurança, em geral de bandidos mais jovens. Esse é o universo de Martha Maria Duarte, aliás Maria de Fátima Alencar, ou "Marta Pistola", "Cigana", "Cabelão". Diz estar com 45 anos, enquanto sua ficha na Justiça acusa 47. Mas tem mais faro para a realidade do que as colunáveis soltas que também tapeiam a idade. "Sei que sou cortejada porque tenho dinheiro. E porque sabem que sei dar amor bandido", diz. Cigana já foi primeira-dama do crime carioca como mulher de Fernando C.O. e de Liéce de Paula, além de amiga de Lúcio Flávio. "Tenho saudade daquela época. A cadeia era outra coisa, sentia-se uma diferença na educação das pessoas. As colegas não cagüetavam e a gente andava de uniforme e tênis. Não sou de morro, não vivo em morro e não me acostumo com certas coisas. Os homens também não são mais os mesmos. Hoje eles entram em banco com AR-15, arrebentando tudo. O Liéce não, ele chegava com um buquê de rosas, dava beijo nas caixas que assaltava, e saía sem falar alto. Era finíssimo." Cigana é figura de respeito no Talavera Bruce. Primeiro, pela antiguidade. "O RG dela é de 1968, já pensou?", assombra-se uma colega de pavilhão, numa referência à data de sua primeira condenação. Esta é sua quarta temporada de cadeia e restam-lhe 27 anos para se acostumar à freqüência de Bangu que, como diz, caiu muito. "Quando mataram o Liéce, entrei no 121 (homicídio). Depois, em 1992, entrei no 171 (estelionato). Agora estou trabalhando com cartão, cheque, essas coisas. Alguns policiais são uns boçais, não entendem de etiqueta. Lembro que quando fui presa uma vez tinha muito ouro comigo, uns 3 quilos. Sabe o que o delegado Elson Campello (posteriormente afastado por envolvimento com o crime organizado) me disse? Que ia botar tudo num liquidificador! Na Polinter pediram 100 000 cruzeiros para me transferir para o Talavera. Lá se paga por tudo: por um telefone, aluguel de cubículo individual, banho de sol, comida. Eu até tinha os 100 000 mas não pago para travessia, ponto. Tenho três filhos. Os dois menores pensam que estou em Pernambuco visitando a família. Quando estou solta, eles estranham: "Mãe, você gasta muito..". Minha filha maior, de 27 anos, é modelo no exterior, casada com alemão. Ele não gosta de vir ao Brasil, tem medo de seqüestro. Eu mesma não aprovo. Também não sei roubar, tenho medo. Em supermercado, se eu tiver uma agulha a mais do que peguei, vou querer pagar. Morreria de vergonha de ser flagrada roubando." Marta enfia uma blusa escarlate e volta às suas reminiscências amorosas. "Gosto dessa vida bandida. Não vou mais sair dela. Só quero homem do crime, a gente acostuma. É diferente de amor pacato, desses outros. O atual está no (presídio) Hélio Gomes, ainda o amo. Acho que é neurótico - ele me batia muito quando fazíamos amor no parlatório, e depois chorava. É amor bandido. Pena que dou pouca sorte com homens - todos acabam morrendo." Cigana passou os últimos oito meses escrevendo furiosamente em sua cela, até concluir o manuscrito de Talavera Bruce, Anos 90, Meus Grandes Amores, já em mãos de uma editora carioca. Promete.
O repouso de Djanira Metralha Djanira Suzano Ramos circula pouco no Talavera Bruce. Quem quiser ouvi-la que marque audiência em sua cela número 4, no Pavilhão I, onde se toma o melhor café do pedaço. Somadas todas as suas prisões e excluídas as seis fugas que lhe deram interregnos de liberdade, ela tem 22 anos de cadeia nas costas. Acumula condenações até o ano 2019 por homicídios, assaltos, falsidade ideológica, tráfico. "A vida é um jogo: quando você perde nas cartas, aceite que perdeu e vá em frente. Matei muito bandido. Estuprador não perdôo. Roubar operário é que não pode e PM também não mato porque, no fundo, é trabalhador. Fui condenada a mais de 200 anos mas acabaram reduzidos a 36 anos e seis meses. Entrei pela primeira vez aos 19 anos, em 1975, como assaltante a banco. Eu era loura, bonita, usava lente de contato, era alegre." Hoje tem 49, diabete aguda, uma bala alojada na cabeça e uma muleta encostada atrás da porta para poder amparar seu físico atarracado. Já teve a sua vida de bandida interpretada por Betty Faria no filme Lili Carabina a Estrela do Crime, de 1989, e inspirou o roteiro de Amor Bandido, mas acha a ficção pobre, comparada à realidade. "Da primeira vez, tirei (cumpri) dois anos e fugi. Da segunda, rodei numa blitz e peguei quatro anos. Na terceira estava de moto, dei de cara com um camburão e acabei levando dois tiros na cabeça. Peguei seis anos e fugi de novo. Na quarta, peguei mais oito anos, fugi, fiquei na rua uns três. Quando fujo não levo ninguém porque se levar não saio. É simples: mulher fala demais, não dá para confiar. Sempre saí pelo portão da frente, em dias de visita, sem aquela confusão de tentar pular muro", sustenta satisfeita. Quanto pagou, se pagou, e quem a ajudou, não vem ao caso. A cotação de uma fuga no Talavera, no mês de abril, estava em 6 000 reais, contra 50 000 reais em presídios masculinos. Djanira fala de tudo com a segurança de quem é dona de sua cabeça e vida, mesmo presa. "Sim, tem pauzeiro no presídio. Nossos maridos perdem a cabeça com a gente, imagine se um guarda não vai perder e bater... A diretora é boa, o difícil é chegar até ela. Mulher também é respeitada no mundo do crime, com certeza. É só começar a matar que respeitam. Sou roceira de Minas, meu pai escolheu meu primeiro marido e acabei casando sem amor. Larguei o marido, me apaixonei por um bandido e mataram ele. Aí tive de tomar uma posição no crime, não é? Matei eles. Formei quadrilha. E esse coração vermelho na cortina da porta da cela? É do Comando Vermelho, criado para acabar com os assaltos e estupros dentro da cadeia. Uma vez um grupo de presas me convidou para me juntar a elas para roubar os parentes e amigos das internas, nos dias de visita. Se eu aceitasse estaria com a corda no pescoço porque quem visita é operário, trabalhador, e o Comando não ia perdoar. Resolvi encarar. Peguei uma arma e ameacei o grupo. Depois entreguei a arma para uma guarda que merecia respeito. E de onde veio a arma? Digamos que apareceu no jardim. No jardim no Talavera crescem coisas surpreendentes", diz, marota. Acrescenta que os advogados são os maiores ladrões porque pegam o nosso dinheiro e não vão presos. "Quando rodei em 1975 dei o dinheiro de três assaltos a banco ao doutor Adalberto para ele me tirar em 22 dias. Da vez seguinte, paguei com 500 000 cruzados, oitenta calculadoras, muitas jóias e um Fafá de Belém (táxi novo). Ele sumiu. O que aconteceu com ele? Morreu. Advogado a gente mata um por dia." Djanira tem algum plano para o futuro? "Não quero mais fugir. Quando sair daqui estou encaminhada - tenho um prédio, duas casas alugadas, um sítio. Compro um carrinho. Me arrumar para sair em foto? Não, só vou me vestir em grande estilo quando for para sair da cadeia."
Solidão, Drogas e Fantasias ...Sete meiota, quatro cinco, três oitão ô ô São as turbinas que eu uso no mundão Para proteger meu coração apaixonado... ...Parar de cheirar não posso Parar de traficar também Nem que seja no pinote Eu vou pra lá no mundão... No pagode puxado por Cristina, ainda há espaço para aventuras como empunhar um revólver calibre 7.65, 45 ou o popular "três oitão" e sair por aí, mundo afora, atrás de uma paixão bandida. Dentro dos muros de 5 metros de altura do Talavera Bruce, contudo, a vida real escoa feia, áspera, surda. São cinco galerias de celas individuais no 1º andar - com média de 34 por corredor -, mais dois alojamentos coletivos com beliches no térreo, para condenadas a menos de seis anos. Fora da edificação principal, há o Anexo, para recém-chegadas, a creche e o invejado Pavilhão I para estrangeiras, grávidas e internas de bom comportamento, com direito a visita íntima de companheiros. O todo resulta numa massa de dentes ruins, amargura nos cantos da boca e dos olhos. O cheiro é de desconfiança. Num belíssimo estudo sobre o universo prisional intitulado O Frio Penitenciário, a psicóloga francesa Simone Buffard sustenta que a marca de toda prisão é o odor. No Talavera, é o barulho. Ou sua ausência, igualmente atordoante. De dia, a construção antiga de pé-direito alto torna cada corredor, cada cela uma fábrica de ecos. Tudo soa metálico e alto e se mistura: a fala das internas, as ordens das guardas, os xingamentos, a sintonia da rádio evangélica de uma cela brigando com a música francesa FM de outra, o som de uma novela aqui, o trincar de grades, vários vazamentos permanentes de água nos pátios. Grita-se de uma galeria para outra, de um presídio para outro, de uma cela para outra. Gritar é estar vivo. Ninguém parece notar o atordoamento que a cacofonia contínua provoca. A partir das 11 horas da noite esse mesmo universo parece exaurir-se: um silêncio acachapante emana das celas, invade corredores, espalha-se pelas galerias e cobre os 8 000 metros quadrados de área edificada do Talavera Bruce. Ele precede o medo do inimigo maior, aquele que atravessa grades, muros, paredes e chega à alma de cada uma: a solidão penitenciária. Num dos alojamentos coletivos uma assaltante adormece de chupeta. Mais adiante outra figura chupa dois dedos. Bichos de pelúcia são agarrados, cartas relidas. Onze da noite é a hora dos ferrolhos enferrujados e dos cadeados. "O coração do preso é como um ovo - não é a batida de frente que machuca, que quebra, é a de lado", sustenta Djanira, a da condenação até o ano 2019. "Quando fecham o ferrolho, fecham para machucar. Não precisavam bater tão forte." Por ser diabética, usar muleta e ter uma bala alojada na cabeça, Djanira goza do privilégio único de poder dormir com a porta encostada. Não tem mais pique para fugir. Mas ela ecoa a humilhação das colegas. "Dependendo do plantão, tomo remédio e procuro adormecer antes da guarda passar o cadeado", concorda Maria de Fátima Geronimo, condenada a quinze anos por cumplicidade em seqüestro, uma das várias presas que tomam medicamentos pesados para diminuir a exaustão, suadouros, ansiedade e choros. A rotina do Talavera não é marcial. Por volta das 6 da manhã são destrancadas de suas celas as internas que trabalham na faxina e na cozinha. Uma hora depois abrem-se as outras portas de madeira e começa a romaria aos banheiros coletivos de cada setor. O "confere" - contagem de cabeças para verificação se alguém fugiu ou está em outra galeria, o que é proibidíssimo - é feito em seguida para a interna começar a cuidar de matar o tempo como puder. Umas sessenta estudam. "Entrei no dedo (era analfabeta) e vou sair com a 3ª série", espanta-se a ex-menina de rua Vandiaria da Silva, 25 anos de idade e outros 25 de prisão por formação de quadrilha e desencaminhamento de menor. Menos de quarenta felizardas foram aceitas nas cinco oficinas privadas instaladas na penitenciária e passam o dia fabricando chapéus, jalecos, rendas, pregos e componentes eletrônicos. Para as empresas que operam em presídios, o negócio é bom: não pagam encargos sociais, nenhum tipo de imposto, luz ou água, e à exceção da Alcatel, esquecem que existe 13º salário, adicional de férias, essas coisas de lei. Para as detentas, pode ser a redenção mental, pois lhes permite escapar ao ócio dos corredores e pátios, aos chamados da depressão. Ganham o equivalente a dois terços do salário mínimo, sendo o terço restante alocado a uma poupança compulsória da presa e a um fundo de melhoria teórica das penitenciárias fluminenses. Trabalhar, no TB, é pertencer a uma classe de pessoas normais. Trabalhar na oficina da Alcatel, então, é chegar ao topo da escala social intramuros. "Trabalho numa multinacional francesa e me sinto parte do grupo Alcatel. Sobretudo me sinto gente", explica a monitora de 26 anos, presa desde os 20. Ela comanda as sete fases de produção de bobinas e transformadores da unidade e fica agastada quando esquece uma palavra. "Aqui dentro a gente esquece o vocabulário da sociedade livre", lamenta. Todas as oficinas são impecáveis, e há menos baratas no Talavera Bruce do que em vários hotéis da Zona Sul carioca. Em algumas celas o assoalho, orgulho maior, reluz mais do que Sinteko. No TB, é mais fácil levar mordida de morcego que de rato. Bagunçar, deixar sujos ou esquecer absorventes usados nos banheiros é considerado falta de educação pesadíssima pelas presas. Se tivessem a liberdade de ir até o banheiro reservado às guardas, ficariam horrorizadas com a falta de asseio de algumas de suas ocupantes. No fundo, os dois mundos têm mais em comum do que querem admitir bandidas e mocinhas. Cada campo designa os membros de sua espécie pelo mesmo termo impessoal - "a colega". Jamais "amiga". Presas e guardas estão condenadas a viver juntas e são submetidas a privações semelhantes. Corre um rio de simpatias e antipatias fatais, instintivas entre os dois campos e as forças se medem a cada dia. "Aqui há dois andares", explica a inspetora Ana Lúcia Ribeiro, oito anos de profissão e apelido de Ana Maresia por farejar maconha de longe e não dar moleza. A própria identidade profissional da guarda é movediça. É vista como polícia, sem sê-lo, e esconde sua atuação como se fosse a bandida - "Escondo minha carteirinha no ônibus porque, se tiver assalto, me pegam", "Prefiro não dizer onde moro", "Na minha rua pensam que eu trabalho em hospital". Socialmente consideradas mais próximas das detentas do que dos magistrados, mesmo quando formadas em Pedagogia, Direito ou Psicologia, elas sentem na nuca o olhar de rancor das adultas que a sociedade lhes deu para vigiar. Alimentam-se dos mesmos boatos e desconfianças que a população carcerária. "Não vou comer este bombom. Foi uma interna quem me deu. Ela até é legal, mas pode ter caco de vidro", comenta uma agente jovem, bonita, com menos de seis meses de Talavera. Imagine-se a mesma agente dentro de dez anos, tentando perscrutar o íntimo mais íntimo de cada condenada. Até cinco anos atrás, o concurso para agente de segurança penitenciária, da Secretaria de Justiça, exigia não mais do que o 1º grau completo. Hoje, além do diploma do 2º grau, somam-se dois meses de treinamento específico. Ao final ganha-se uma camiseta azul com brasão do Departamento do Sistema Penitenciário, Desipe, uma pochetinha contendo apito, par de algemas, lanterna, porte de arma quando fora da carceragem e um salário de 414 reais, além de estabilidade no emprego. "Antes de começar recebemos um glossário dos termos usados intra-muros, aulas de tiro e de defesa pessoal. Mas ninguém nos ensina como agir quando uma interna ameaça levantar a cadeia, quando resiste a uma ordem e depois é vista conversando à vontade numa sala de chefia", constata Débora Albernaz, a guarda avessa à cultura do "deixa pra lá" (veja quadro à pág. 102). O instinto de perpetuar o estigma da detenta, sempre vista como sanguessuga social, acaba respingando sobre todo profissional que trabalhe com condenados pela Justiça. Que o diga a diretora da Escola Estadual Roberto Burle Marx, de ensino supletivo, instalada no Talavera. "Somos desconsiderados socialmente até pela classe de professores", constata Maria de Nazaré. "O raciocínio é que o Estado nos paga para dedicarmos nosso trabalho justamente a quem lesou a sociedade. É complicado." Para o mulherio do Talavera, a questão é direta. "Sabe o que dói mais aqui dentro? É que a gente continua a ser vista como presa, como se continuasse a roubar aqui dentro. Ora, a gente já está presa, pode ser tratada como humano, não pode?", perguntam. Para as veteranas que já testaram várias fases da política prisional carioca, a vida melhorou, e o divisor de águas foi a chamada "linha Lemgruber", referência à política de não abuso e ressocialização do preso implantada pela socióloga Julita Lemgruber, que ocupou o cargo de diretora do sistema penitenciário de 1991 a 1994 e fez escola. A doutora Fátima tenta ser sua seguidora e pisa em calos com o receituário de ir-se desvencilhando dos bolsões da linha prendo-e-arrebento. Para o agente Damião, vinte anos de serviço, arma na cintura e soberbo em seu uniforme negro do SOE (Serviço de Operações Externas, encarregado do transporte de presos), a linguagem carcerária deveria ser uma só, e dura. "Em homem a gente dá tapa, ele entende disciplina. Aqui não pode nada! Se desse um tapa na beiça de uma delas, já iam me atrasar. O pauzeiro (guarda que espanca) de lá vira papai, aqui. Mas tudo bem. Faço o que me mandam. Hoje transporto presos", lamenta Damião, sem dizer o que veio fazer, àquela hora da madrugada, na penitenciária feminina. "Os Zorros, fantasiados, se acham o máximo", suspira uma guarda, habituada àquela encenação. "Mulher é menos disciplinada na cadeia", concorda Maria de Lurdes Silva Pinto, que há quase oito anos dirige o Lemos de Brito, presídio masculino de segurança máxima no Rio de Janeiro, com 540 detentos. Homem fala com guarda a uma distância de um metro e meio, com mãos cruzadas atrás da cintura. Não quer maiores aproximações. Mulher já vai falando com mão na cintura, não se importa em se mostrar à vontade, de sutiã e rolos no cabelo, como se estivesse em casa. "Elas tentam invadir, romper a barreira, escrevem bilhetinho e usam todos os artifícios possíveis para falar, falar, falar", observa a diretora da escola. A solidariedade no Talavera é escassa, admitem as próprias internas. "Só fiz duas amigas, que sei que não vão me trair nunca. Que podem sentar na minha sala, com minhas crianças. Que sei que não vão armar de seqüestrar meus filhos", diz Lourilete Cruz, ela própria condenada a treze anos por seqüestro. Apelidos, talvez por indicarem intimidade, são raros e em geral reservados às bandidas de respeito. De resto, é o mundo das Jonyr, Laudicéia, Lucimeire, Edinalva, Mari Jane, Vangela, Laudina. Sentem falta do que não têm. "Mil vezes melhor ter diretor homem. Eles têm pulso mais firme, e a gente respeita mais. Sabem nos colocar em nosso lugar", aspira Edarlene da Silva, de 50 anos, cabelo branco, "caída", o que no jargão das internas designa a abandonada das abandonadas, aquela que não tem dinheiro, não recebe visita nem carta. Virou crente. Reza de manhã, à tarde e de madrugada. "Meu patrão espanhol me mandou viajar com 2 quilos de cocaína na mala, para Salvador, de ônibus. Me pegaram e o homem sumiu. Se tenho advogado? Deus é nosso advogado." Edarlene, cuja vida já seria melhor se houvesse mais do que um banheiro para as 37 presas de seu alojamento, toca num ponto nevrálgico. O preso, por mais longa que seja a sua pena, conta o tempo em dias. "Peguei 34 anos, dois meses e vinte dias", diz Luciene, a loirinha do clã de quatro irmãs e três irmãos assaltantes. Ninguém arredonda para cima nem para baixo, jamais. Cada uma tenta se diferenciar à sua maneira da massa aprisionada, para não naufragar junto. Há a magrela coberta de tatuagens que ostenta ter derrotado a dor. Há a que veste tailleur branco e usa sapatos, jamais chinelos. "Sei que me acham metida a negona besta, mas é assim que me sinto bem", esclarece. Há a mitômana que acredita intimidar a direção. No fundo, cada uma acha que deveria haver um Talavera em separado, para casos como o seu. "Deveriam dar uma chance para ré primária", sustenta Elizabeth, senhora grisalha, de fino trato, condenada a 56 anos por seis homicídios. "Eram todos vagabundos", acrescenta com frieza. Para a moreninha Tereza Cavaglieri, neta de italianos e mãe do menino Julian ("em homenagem ao filho de John Lennon"), o maior tesouro são as dezenas de cremes de beleza e cosméticos que tem estocados na cela - perfumes são duplamente proibidos por conterem álcool e serem de vidro. Foi condenada a 29 anos de prisão como integrante de uma quadrilha especializada em roubo de quadros. Só da viúva do embaixador Rui Ribeiro Couto, assaltada sete anos atrás, levaram três Portinari, um Di Cavalcanti e um Gustave Courbet avaliados em 172 milhões de cruzados da época - 4 milhões de reais hoje. Tereza freqüentava a casa da embaixatriz, era casada com um marido "limpo", diretor financeiro de uma empresa e membro da Ordem Rosa Cruz, e não revela por que decidiu mudar de lado. A família, de classe média, não a abandonou. Está construindo uma casa "com piso em ardósia, dignamente". Tem por vizinha de corredor a funkeira Alexandra Oliveira, garota de Copacabana, mãe do menino Magnum ("É da pistola mesmo, em homenagem ao pai, que era três cinco sete", isto é, teve três condenações por assalto). Para o dia da visita de Páscoa, ela deu um ovo de chocolate e um urso de ráfia para o menino que não a chama de mãe, mas de Lua. "Foi horrível, meu coração ficou pequeno. Vou suar, vou trabalhar, ensiná-lo a estudar", convence-se. Ao contrário do golpe audacioso da quadrilha de Tereza, os assaltos de Alexandra eram de rua, corriqueiros. "Eu só roubava gringo e gastava tudo em tóxico. Como eu sabia que era gringo? Perguntando as horas. Quando ele não respondia ou só apontava no mostrador do relógio, batata, era gringo." Mais ao fundo do corredor mora Sonia. "Não repara a bagunça", desculpa-se, como qualquer dona de casa que gostaria de poder receber melhor a visita. Sua filha aniversariou semanas atrás, em algum canto livre do Rio de Janeiro. "Fez 15 anos! Estou toda prosa. Deus é pai." Ita, do cubículo 16, está em dias de reclusão. Não desce para o pátio nas horas permitidas, alimenta-se em sua cela. Alta, atlética e vistosa, foi derrubada pela saudade de Cristalina, sua filha de 6 anos. Já Luísa, a mais "zona sul" dentre as internas do Talavera, parece, efetivamente, pertencer a outra paisagem carioca - sua cela tem um exemplar do romance Agosto, de Rubem Fonseca, um pôster de John Kennedy Jr. ("Jamais pensei que algum dia fosse colocar foto de homem que não conheço em quarto meu"), dois pesos de 2 e 4 quilos para se manter em forma aos 29 anos, uma pilha de revistas Marie Claire, Elle, Veja. Outras fotos revelam amizades com artistas e celebridades cariocas, viagens à Europa. Os mauricinhos do seu antigo circuito de drogas jamais a visitaram. Em compensação, duas grandes amigas caretas dos tempos de colégio vêm e escrevem sempre. Luísa é comedida em tudo o que fala, sobretudo da descida ao inferno que foi sua chegada ao Talavera Bruce, por tráfico de drogas. Teve mais medo de seus preconceitos do que da realidade, admite hoje. A família a espera, no Leblon. Mas é a rejeição de sua própria tribo, a quarentena social, que mais a assusta atualmente. O espaço em cada cela é equivalente a uma cama de casal, mais um "anexo" de 90 centímetros separado por uma mureta baixa, onde às vezes existe um vaso sanitário sem instalação hidráulica. O teto aflige, de tão alto. A janela com grades costuma ser mantida fechada para conter os mosquitos. Não existem tomadas elétricas nem interruptores. Um cipoal de fios desencapados pende do teto e a ele se amarra tudo o que se quer fazer funcionar eletricamente - um ventilador, uma tevê, uma lâmpada. É dentro desse espaço que a presa tenta resguardar tesouros e segredos. Entre internas, o respeito à privacidade é feroz. Considera-se crime grave entrar na cela de outra sem ser chamada. Mesmo quando a porta está aberta, pede-se permissão. E mesmo com permissão não se entra sem, antes, deixar os chinelos do lado de fora. Essa delimitação de território visa compensar a dependência quase infantil da vida em cárcere, que não comporta o direito de uso da porta, símbolo do ir e vir - sempre aberta e fechada por mãos estranhas. Para escapar de olhos alheios em sua intimidade, a presa pode apenas encostar sua porta, jamais fechá-la pessoalmente, dado que trincos internos são proibidos. Quando está trancafiada pela guarda, comunica-se com o corredor através de estreita fenda. Ou cava uma abertura de um palmo e meio de diâmetro na madeira da porta. É por essa abertura que se esgueira, à noite, um ou outro vulto em busca de aventura, na hora em que teoricamente todas as presas estão trancafiadas em suas celas. Presas vazam, como vaza água no Talavera. A prudência carcerária também recomenda que quem não tem televisão própria não deve convidar-se para filar uma novela ou um noticiário na da vizinha. Se o fizer, acabará devendo um favor. E favores, em todos os presídios do mundo, se cobram e se pagam. "Na Copa do Mundo a dona Leda me vendeu um conjuntinho verde-e-amarelo por 16 cruzeiros reais. Como só pude pagar um mês depois, ela cobrou 20 real. Até aí tudo bem, mas agora ela manda dizer que ainda devo mais 10 real por causa da mudança de moeda. Será que essa conta tá certa?", cisma a mirrada Verinha, que este mês, aos 29 anos, termina de pagar nove anos e seis meses de cadeia por roubo, assalto e venda de tóxico. Leda Maria, a vendedora que cobra 87,5% de juros na venda do conjuntinho, sempre esteve solta. É uma das guardas do Talavera cujas atividades se cruzam e se confundem com as das presas. As colegas confirmam que Verinha é a interna mais visada da penitenciária por ter denunciado formalmente todos os guardas que já a espancaram. Em confiança, ela vai desenterrar o que considera seu maior troféu - uma camiseta ensangüentada, embrulhada em plástico. "Olha o que me fizeram", diz. "Quem não recebe visita, quem não tem advogado, quem foi rebelde como eu fui está ferrada. Não repara que eu fico gaga quando falo essas coisas. A dona Leda me deu maconha para vender, mas eu acabei dando para colegas e entrei no pau. Se eu vendesse bem, ela me dava Brizola (cocaína), cachaça, essas coisas..." Há meses a agente Leda Maria não tem sido vista nos plantões do Talavera. Pediu licença. Foi substituída no cargo por uma inspetora de turma mais respeitada. "Não posso enfrentar tudo à luz do dia, mas nos últimos quatro anos afastei mais de dez funcionários", revela a diretora. Seus adversários jogam bruto. "Já recebi três ameaças de morte em função dessa política, e não vieram de internas. Não é fácil." Os negócios que se fazem numa prisão são infinitos. Uma abreviadíssima lista de preços e serviços no Talavera começaria assim: • Manicure + pedicure: 5 reais • Faxina de cela: 7 a 10 reais por semana • Corte de cabelo: 1 real • Uma cama: 10 a 15 reais • Lavar e passar: 10 reais por semana • Uma fuga : 6 000 reais • Uma carteirinha de policial, falsa: 16 reais • Um alvará para regime semi-aberto: negociável Costura-se, borda-se, tricota-se, empresaria-se o que dá, por trás das grades. Luísa M* é estelionatária de mão-cheia e currículo farto. As colegas a admiram pelo "QI alto" e porque "ela consegue enganar gerente de banco", o que é considerado façanha-mor por uma massa carcerária que o sistema bancário repele até como correntista. Óculos de aros grenás, cabelos louros em coque, 52 anos, aspecto de executiva, Luísa é uma das muitas presas que não se deixam fotografar. Está em Bangu há sete anos sem ter perdido o dom dos negócios. "No último Natal preparei a decoração de uma festa para uma guarda: foram 100 bonequinhos de papel e cobrei 1 real cada. Contratei mão-de-obra interna - pago 15 reais por semana, dependendo da demanda -, e como não tem impostos nem encargos rendeu bem. Embora aqui dentro o comércio seja limitado, a clientela é constante e fiel. Há guardas querendo abrir um negócio comigo lá fora." Quando operava em São Paulo, essa filha de alemães - "Meu pai era lavrador de Essen, mas não lavrador no sentido simplório da palavra; ele entendia de agricultura como ciência", esclarece - temia um único adversário: os caixas de banco nisseis. "Os caixas japoneses são os únicos que não caem numa operação cochilo, de transferência de fundos falsos para uma conta verdadeira. Eles verificam cada detalhe vinte vezes", relembra. Luísa também providencia cigarros, cremes, biscoitos e "o que for preciso", como o personagem Red, do filme Um Sonho de Liberdade. Os caminhos para a entrada rotineira de tóxicos são mais oblíquos. Pelo portão principal, não submetido à revista pessoal pente-fino reservada a internas e suas visitas, entram essencialmente agentes de segurança, policiais, advogados e religiosos. Por cima dos muros de 5 metros guardados por PMs entra tudo o que se quer jogar. Somem-se os dois e tem-se, além de presas vazando através de portas e água vazando em dias de racionamento, também maconha e muita cocaína pingando em algum lugar do Talavera Bruce. Crack ninguém quer; por isso não tem. "É coisa de paulista", dizem com desinteresse. "As presas que traficam sabem quem tem e quem não tem recursos", explica uma inspetora. "Tivemos uma mãe desesperada com o volume da dívida contraída pela filha presa aqui dentro: numa semana ela pagou 230 reais. Na outra, 1 200 reais. Pedimos a essa mãe que cessasse de bancar a dependência da filha. É classe média. Chorou muito, mas provavelmente continua a bancar. Teme represálias se a filha viciada não saldar as dívidas." Primeiro se paga com dinheiro. Depois com tudo o que se tem na cela - inclusive a cama. Por fim, se exigido, com o corpo. O lado mais sombrio da dependência é um só, esteja o viciado preso ou solto. Também como "lá fora", "na rua", "na sociedade livre", são os casamentos, batizados, Dia das Mães ou cantoria evangélica que fazem a festa das mulheres do Talavera. Numa recente manhã de sábado, o diácono Marcelo Freitas, o único homem das redondezas, chegara cedo para ser padrinho de batismo da menina Paula, de 2 anos. "É como ser fiador", explica. Estão todas prontas e engalanadas na capela: a menina, a mãe, a organista da cerimônia - uma argentina interceptada no Aeroporto do Galeão com 2 quilos de cocaína, de colar de pérolas, vestido e sapatos sociais - e as vinte convidadas escolhidas a dedo, todas presas. Falta a madrinha. Quando chega, está de touca de plástico na cabeça. - Não pode, padre! Tem que tirar! Como é que vai ser madrinha desse jeito? - revoltam-se as convidadas. Começa a gritaria na capela. A madrinha bate pé. - Passei henê na cabeça e paguei 1,50 real pelo serviço da colega. Se tirar agora, perco meu dinheiro. Nem pensar. O diácono improvisa uma solução sugerindo que a madrinha coloque uma touca de lã branca por cima da de plástico. Ficaria bonito, argumenta. Nada feito. - Vai parecer menino de rua. Tem que ter respeito. Tem que tirar - exigem as convidadas. A madrinha capitula, do henê e do seu 1,50 real. Manhã de sábado cara essa, mas o batizado foi bonito. Para a Igreja Católica, uma pequena conquista, miúda quando comparada ao arrastão da Igreja Universal e da Assembléia de Deus. "Eles fazem jogo meio sujo, vão logo distribuindo sabonetes", alfineta o diácono Marcelo. Na verdade fazem mais: ajudam a localizar filhos de detentas, trazem um casal de fiéis só para ouvir individualmente as presas - e falar é a premência mais entalada -, dão papel higiênico em vez de rosários. "A Igreja Católica discrimina muito - se uma colega está de boné virado, já é vista como sapatão", comenta uma dublê de assaltante e estelionatária, condenada a doze anos. "Antes de vir para cá eu era católica. Mas são os crentes que nos apóiam mais aqui", constata. Antes de vir para cá... Essas cinco palavras juntas não fazem parte do vocabulário de Marilda Araújo, o furacão platinado conhecido como "Mila". Para a louraça ebuliente de 36 anos envolvida em quatro seqüestros da pesada, inclusive o da empresária carioca Rosângela Simões, a vida é uma só, seja no Leme, no Morro do Jacaré ou no Talavera Bruce. Mila se adora. A cúpula do crime carioca também. "Os gostosões do Bangu I vivem me cantando", garante, enquanto muda de roupa pela quarta vez no mesmo dia. Mila trabalha na Alcatel, é claro. Também sua o couro na aula semanal de ginástica do professor Alexandrino Cerqueira, o "Dino", um armário de músculos formado na academia militar de Realengo, ex-competidor dos concursos de Mister Hollywood e há catorze anos no batente na Divisão de Educação e Cultura do Desipe, além de um dos criadores dos Jogos Penitenciários no Rio. Mila, a camaleoa, parece estar por todo o Talavera simultaneamente. Sobretudo onde há atrações. Roubou a cena durante uma visita de Betinho, o da Fome, dois anos atrás, da mesma forma que roubara as atenções da polícia na prisão de outro Betinho, sua grande paixão do Morro do Jacaré - o seqüestrador Marcos Alexandre Lessa. "Os filhos do Collor são considerados filhos de presidente e minhas filhas, de presidiária. Parece piada", compara. "Pulei o muro uma vez - foi a melhor sensação que tive na vida depois dos dois partos. Mas agora quero poder ir a um shopping center com minhas filhas sem me esconder." Família, filhos, amor. Por mais calejada que seja a detenta, tudo volta a girar em torno desse tripé. A condenação de uma mãe tem efeitos abismais. "Minha mãe já falou que, se ela morrer enquanto eu estiver aqui, não quer que eu vá a seu enterro, pois ela teria vergonha. Vai ser covardice da vida se eu a perder aqui dentro, antes que eu possa mostrar que mudei", angustia-se a moreninha Lourilete, condenada a treze anos por seqüestro decidido pelo marido. "As pessoas não nascem só com cinco sentidos. Algumas têm um sexto - a ambição", culpa-se. Numa noite de sábado, véspera da visita que lhe fariam a mãe e os dois filhos, está um trapo. "Outro dia meu filho me pediu um ovo da cantina. Fiquei arrasada, pois não sabia se ele gosta de ovo duro ou mole. Ainda ontem o pezinho dele era deste tamanho. Hoje usa tênis maior do que o meu. Ele também tem vergonha de mim." Dia de visita em Bangu. O contingente que começa a se formar do lado de fora do portão principal é calado. O grau de humilhação das famílias de sacolas na mão é absoluto. Noventa por cento das presas do Talavera Bruce têm filhos, mas os adolescentes vêm pouco. Os menores são trazidos por avós, madrinhas, tias ou amigos. Todos - adultos ou crianças - passam pela revista corporal obrigatória e saem do cubículo cabisbaixos, ainda se abotoando e de sapatos na mão. Quem já conhece a rotina de tirar a roupa e fazer três flexões, para expelir um eventual contrabando escondido na vagina ou no ânus, antecipa o constrangimento. Quem vem pela primeira vez e não foi alertado entra em choque. "Meu Deus, eu não sabia que era assim!", balbucia uma senhora de idade que viera ver a filha e o neto na creche do presídio. Está aterrada, mas retrai-se mais adiante. "Me trataram muito bem. Todos os guardas são ótimos", garante, na frente da filha. Em dias de visita, os familiares se esforçam para não pesar ainda mais no dia-a-dia da presa, e vice-versa. "Imagino o horror que essa revista corporal deve ser para minha mãe", martiriza-se a ladra de apartamentos. "Tratam nosso pessoal como se também fosse criminoso." A norma geral é abrir garrafões de refrigerante por amostragem, para verificar se foram injetados com álcool. Açúcar e sabão em pó são testados. Lata nenhuma entra no presídio. Desodorantes e cola são proibidos. Naquela manhã de domingo, uma agente de segurança começa a esfaquear gentilmente um bolo trazido por um senhor esguio, sereno, sotaque europeu, tomando o cuidado de não arruinar os dizeres "Happy Birthday". Não encontrou nada camuflado na massa. O bolo é para comemorar o aniversário de uma jovem de Gana, presa por tráfico de drogas. O portador é o pastor John Paul Sapieha, da aristocrática linhagem de católicos da Polônia - seu tio, cardeal Sapieha, foi o poderoso tutor do atual papa João Paulo II. John é dessas figuras singulares que se materializam em presídios. Ele pertence à Missão de Confraternização para Prisioneiros Estrangeiros, fundada por um inglês que amargou dez anos de cadeia no Peru. Percorre penitenciárias Brasil afora visitando exclusivamente presos estrangeiros. "As prisões inglesas e americanas não oferecem essa possibilidade de circular tão livremente como aqui", diz, encantado com os pátios arborizados do Talavera. "Sobretudo, não têm parlatório." Em torno do parlatório, ou visita íntima, não existe meio-termo. Como na questão do aborto ou da pena de morte, quem é contra não quer nem ouvir falar - "Somos agentes de segurança penitenciária, não guardas de motel!" - e quem é a favor, no caso as presas, não admite que se pense em acabar com a regalia. No Talavera Bruce existem sete cubículos do Pavilhão I cujas ocupantes podem receber o marido em dias de visita. Existem precondições: comprovar uma relação duradoura com o companheiro, anterior à prisão, e ter comportamento imaculado enquanto detenta. Mas, dado que boa parte das detentas tem relacionamentos com homens também presos, criou-se uma mecânica de viabilização desses encontros interprisionais. Quando o marido não é de alta periculosidade - portanto menos propenso a arrumar uma fuga a caminho do Talavera -, é ele quem virá, escoltado. Será colocado na cela da companheira, a cela será trancada e o guarda de sua escolta permanecerá do lado de fora durante todo o tempo do encontro. Fica entendido que o visitante escoltado tem dona, e olhares mais ardentes de uma ou outra presa freqüentemente resultam em briga. Mas há um número maior de internas fazendo o caminho inverso, por serem mães, irmãs ou mulheres de presidiários que não podem ser deslocados. Nesses casos elas são recolhidas no pátio do Talavera por uma ou mais caminhonetes Besta do SOE, o serviço dos homens-Zorro, e distribuídas pelos vários presídios masculinos do Rio. Predomina o traje passeio: a estelionatária classuda está de pretinho, a assaltante espoleta, de bermuda cor ocre, a crente grisalha que na véspera procurara converter a repórter de VEJA, de vestido florido. Dadas as distâncias, a operação ida e volta costuma levar o dia todo. Sem queixas. Como diz a inscrição na camiseta de uma interna, "Sexo é bom quando é ruim, e quando é bom é ótimo". Não são raros os casos de presidiárias que constroem tórridos romances por correspondência através de classificados pessoais inseridos em O Globo, O Dia ou na revista Contigo, por intermédio das famílias. A forma de romance mais sustentado, contudo, ainda é através de duas fileiras de grades separadas por 250 metros de pátios e muros. Diariamente entre 10h30 e 11 horas começa a sessão matinal de namoro entre mulheres do Talavera Bruce com homens do vizinho presídio Moniz Sodré. Empoleirada num cabo de madeira periclitante afixado à grade de sua janela, a interna gesticula, grita palavras-chave, comunica-se na linguagem dos sinais. Acabam se entendendo. "Onde é que você vai, bonita desse jeito?", consegue perguntar um galante amante-presidiário. "A gente abraça as grades quando um não entende o outro, e aí fica tudo bem", esclarece Mari Jane Pereira do Nascimento. Mari Jane, 33 anos, traços de polonesa, há doze anos no Talavera, é prova viva de que a persistência compensa: de tanto namorar pelas grades obteve direito de parlatório, e a coisa ainda deve acabar em casamento.
Mulher gosta de chá. Cela não tem fogão. Solução: a "perereca" • Como fabricar uma perereca: abre-se duas pilhas, desmonta-se dois pregadores de roupa, pega-se um pedaço de fio elétrico, um barbante ou cadarço, sal, uma bacia de plástico com água e um vasilhame menor. • Modo de preparar: Usar as folhas de chumbo externas para encapar os pólos do fio elétrico. Usar as hastes dos pregadores para manter separados os dois pólos. Amarrar o todo com barbante, ligar os fios à fiação da cela. Imergir a perereca na bacia. Adicionar sal, para acelerar a fervura. Colocar a cumbuca menor colocar água limpa na bacia, em banho-maria. Quando ferver, colocar o saquinho de chá. Leva 25 minutos.
O difícil pêndulo de ser agente Assim como estelionatária não gosta de ladra, ré primária se acha melhor do que reincidente, e matadora despreza menina de rua, do outro lado do balcão as divisões também são fundas. Guarda veterana torce o nariz para novata, universitária desconsidera a de formação primária, e pauzeiros desconfiam de tudo e de todos. A miúda Débora Albernaz, de 30 anos, é osso duro. Poucos meses após chegar ao Talavera, fez saber a dois grandalhões do SOE (os Zorro do Serviço de Operações Externas) que os processaria caso não retirassem por escrito uma historieta aparentemente banal inventada a seu respeito - a de que fora vista sentada no colo de um PM por ocasião do transporte de uma presa. "A cultura do deixa pra lá não é a minha, ponto." Não é propriamente o melhor caminho para se tornar popular dentro do Comando Azul - nome genérico dado aos guardas, em contraponto ao Comando Vermelho, dos presos. "Não tenho medo de preso, pois dele já sei o que esperar. No fundo, ele não quer regalia. Ele quer coerência e justiça. Tenho muita precaução, sim, com meus colegas e com parte da administração, pois não gosto de injustiças e vejo muitas. Tem guarda que faz coisas que nem internas fazem." Débora é exceção por se deixar fotografar e permitir que suas críticas lhe sejam atribuídas. Tem orgulho da profissão. Não está sozinha. "Chego a me emocionar quando encontro colegas que apesar das pressões não esqueceram do que aprendemos na Escola de Formação Penitenciária: respeitar o interno para ser respeitado e não se envolver com ele. O grande problema é que não temos plano de carreira. O formado, com boa conduta ética, não tem muita saída. Tenho duas pósgraduações, 31 cursos de extensão, sei que tenho postura ética, gosto de trabalhar com presos, mas sempre me dizem que eu não deveria estar aqui." Formada em direito pela Faculdade Gama Filho, morando em Jacarepaguá, ganhando quatro salários mínimos e estagiando na OAB nos dias de folga, Débora defende a linha mestra em vigor no Talavera: "Com essa diretora a gente não pode dar pau. Sua orientação é clara: que se trate da presa com urbanidade, sem massacrar". Mas e as denúncias de maus-tratos de algumas presas? O agente Sérgio não bate? "Bate", atestam três colegas, que pedem anonimato. "Há inspetoras que gostam de tê-lo em sua equipe, pois ele resolve qualquer crise, na marra." Também confirmam pequenas maracutaias da categoria. "Sim, tem agente que vende carteira falsa de polícia por 16 reais. Para presas? Não, para guardas mesmo. Na carteira adulterada, a palavra Justiça, que identifica agentes de segurança penitenciária, é substituída por polícia. No imaginário nacional, quem tem carteirinha de policial provavelmente está armado e pode mais coisas do que se fosse do Judiciário. Como, por exemplo, cavar desconto em lojas, entrar sem pagar em cinemas, boates e shows, não fazer fila em pizzaria. Mundo de transgressões baratas para uma categoria em busca de identidade. Notícia boa para quem está preso e para quem não está: no Talavera Bruce, o time das Débora prevalece sobre o time adversário. Por enquanto.
O batalhão das gringas Duas loirinhas vieram da Holanda. A de traços indígenas, cujo marido francês cumpre pena nos Estados Unidos, nasceu na Colômbia. A bonitona, de olhos de amêndoa, chegou da Bolívia. Também tem o grupelho das africanas e o contingente maior, de argentinas. Americana, só uma. Com dupla nacionalidade, também - é a jovem grávida de seis meses, portadora do vírus da Aids. São as chamadas gringas do Talavera Bruce. Todas, ou 99% delas, condenadas por tráfico de drogas. Foram atraídas pela oferta de ganhar de 1 500 a 15000 dólares em cada viagem internacional. Algumas, como Mamma, a colossal matriarca nascida num vilarejo de Gana e interceptada no Aeroporto do Galeão com 2 quilos na mala, jamais viram a cor do Brasil livre. Nem dos advogados da turma que lhe prometem fundos e mundos. "Eles são empresários, eu sou mula, então cada um no seu lugar." Não fala uma palavra em português, mas fez uma amizade eterna no pátio da galeria E, reservada para idosas e doentes: uma mangueira igualmente colossal, ao pé da qual arma diariamente seu caixote e permanece sentada de manhã à noite. Fundiu-se à arvore. Como boa muçulmana, desloca seus mais de 100 quilos quatro vezes ao dia para orar, voltada para a cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita. "Mamma, hoje tem bucho", anuncia a presa brasileirinha que zela pelas detentas mais idosas. "Boooch!", resigna-se Mamma, condenada a quatro anos de comida prisional. Vez por outra, disputa uma manga caída no pátio com Dona Ivete (120 quilos), mais chegada a um candomblé. E troca cumprimentos com as três senhoras argentinas (60, 64 e 71 anos de idade) sentadas em roda, que fazem crochê, conversam e brincam com gatos no mesmo pátio. São todas traficantes. E*, a mais idosa e franzina, cabeça totalmente branca, usa saia de petit-pois, sapato ortopédico e óculos. É a mais arguta e mordaz. Seu marido está vivo? "Tão vivo que me abandonou vinte anos atrás." Detesta a nora, a quem atribui sua prisão e condenação a treze anos. As estrangeiras mais jovens moram no Pavilhão I. Têm em comum a assiduidade nos estudos, a disciplina e um grau médio de instrução mais elevado do que o das brasileiras. "Fico um pouco tonta com tanta história de paixão e amor, mas imagino que se uma brasileira pousasse numa prisão argentina também teria estranhezas culturais", observa a grávida Maria Laura Cordoves, que trabalha na biblioteca do Talavera Bruce. Ao ser presa, era dependente pesada de heroína. Hoje, apesar de portadora do vírus HIV, parece mais saudável do que em fotos antigas. Está limpa. Seu marido, de 29 anos, também preso, está um trapo. Ele já perdeu todos os dentes, não está normal, tem a cabeça cheia de hematomas. "Meu sogro paga em média 500 reais com suas dívidas de tóxico na prisão. Pede seguro quando não paga, mas depois apanha porque pediu seguro." É um ciclo infernal. Maria Laura está convencida de que a prisão não ressocializa ninguém. É uma perda de dinheiro e de tempo para o governo. A solução? Haver trabalho para todas, qualquer trabalho.
Na periferia da ação O pintor de paredes Roberto da Cunha é um marido raro. Cabelos desgrenhados e calça atada por um cordão, passou quatro meses morando na Praça da República, em São Paulo, por falta de teto. Mas jamais abandonou sua companheira presa há um ano no 12º Distrito da capital. "Abandonar ela eu não posso. A gente se gosta. Ela foi condenada a dois anos e três meses por furto. Foi no Mappin, da Praça Ramos de Azevedo. Roubou peça íntima, cinco sutiãs. Sempre que posso, levo uma fruta, um cigarro, sabonete." Roberto é o único marido que comparece regularmente à Rua Tabatinguera, sede da Assessoria Jurídica Judicial de São Paulo, onde uma equipe de quase vinte advogados (além de outros vinte estagiários) acompanha os cerca de 6 000 presos sem advogado particular espalhados nos 103 distritos policiais paulistanos. É um serviço público que faria inveja às internas do Talavera Bruce, e está sob o comando de uma procuradora de apenas 24 anos, Monica Mayumi Eguchi. Além de Monica, VEJA ouviu várias autoridades sobre diferenças entre o universo prisional feminino e masculino. Um resumo: • Mulher recebe três vezes menos visita de parentes do que o homem. Seu companheiro também é o primeiro a sumir, após poucos meses. Fidelidade como a do pintor de paredes Roberto se conta nos dedos, Brasil afora. • Em cadeia de homem, o alcagüete morre. Simplesmente aparece morto de manhã. Em cadeia de mulher, não. Em geral a direção fica sabendo de qualquer plano dois dias antes. "Mulher fala muito." • O homem consegue abstrair a questão judicial das circunstâncias. A mulher não. Ela centraliza todos os seus problemas no interlocutor, seja ele advogado ou assistente social, e passa a culpá-lo pela sua situação. • Quando suspeita traição, a mulher tenta matar a amante, ou o que pensa ser a amante do marido, enquanto o homem tenta matar sua própria mulher. • Mais homens têm advogado particular do que mulheres, exceto quando a criminosa é da elite do crime (assaltante de banco, quadrilha, estelionato). • Mulher é mais revoltada com sua condição de presa, não assume a culpa, atribui seus pecados a um envolvimento emocional com o parceiro. • Mulher é mais reclamona, se queixa de tudo, sobretudo da saúde. • Os círculos familiares e sociais do homem o aceitam melhor quando ele sai da prisão. A mulher permanece mais estigmatizada. • O homem cita razões familiares para fugir - quer ver os de casa. Mulher cita razões familiares para não tentar a fuga - não quer submeter os filhos a mais confusão. • Nos últimos vinte anos, o crime que mais mudou o perfil da mulher presa no Talavera foi o seqüestro. Aumentou em quase 1 300%. Ao mesmo tempo, é o crime em que a mulher tem papelmais subalterno: cozinhar, vigiar, cuidar da vítima.
A Saída: Fugir ou Mofar ...Ó Cristina, sua imagem É linda, imagino você se abraçando com seus filhos No meio da rua... lá,lá,lá,lá... O pagode de Maria Cristina, a Nanaca da favela Nova Holanda, vai morrendo pelo corredor da galeria D, junto com a imagem do se abraçar com os filhos no meio da rua. Amanhã ela acordará na mesma cela. Nos próximos três anos também. E, como há um único juiz de execuções penais para todo o Rio de Janeiro, com somente dois juízes auxiliares, os 1 5000 presos do Estado - que por desinformação sempre se acham com direito a alguma remissão de pena - sentem-se eternamente abandonados. "Não entendo como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que vive falando de direitos humanos, não nos manda uma dúzia de estagiários para acompanhar nossos casos junto ao Judiciário", indigna-se a assaltante Angela Lessa, que computa suas vítimas em quase 1 000 e está condenada a 35 anos. A própria diretora concorda. "Incentivamos a vinda de estagiários de faculdades de Direito, mas as coisas morrem cedo." Em ano de soltura, o estômago da presa vira pedra de ansiedade. E, se ninguém vier buscá-la no portão azul de Bangu, vai saber tomar ônibus? Ao longo dos anos de aprisionamento, constroem-se temores do cotidiano. "Meu medo são os caminhões de lixo", confessa uma interna. "Um deles apareceu no portão um dia desses e achei que fosse me engolir." E emprego, como é que vai arrumar? "Se eu fosse traficante, teria menos problemas, pois lá fora todo mundo cheira e fuma. Mas para seqüestrador e assaltante é duro arrumar emprego. Quem é que vai confiar?", pergunta M*, condenada a 34 anos por formação de quadrilha, tentativa de homicídio, dezenas de assaltos e estelionato. "Vai ver que nem eu confiaria", admite. Ensina a moreninha Lourilete que "não se chora uma amiga quando ela vai sair, só depois que ela partiu". Algumas saem de mansinho, sem se despedir, às vezes retornam condenadas por novo crime. Outras juram nunca mais botar os pés em Bangu, nem para visitar. Sandra Lúcia da Silva, a "Tia Lúcia" do Pavilhão I, saiu enrolada em alegria na tarde do último sábado de abril. Voltou para o Morro do Cantagalo, que diz ser Ipanema. Seu físico socado, gargalhada alta e histórias de transgressão miúda animavam qualquer cela. "Eu, assaltante? Jamais tive essa bola toda. Eu roubo só loja, pobre não vou roubar nunca. Armarinho, por exemplo, eu deixo em paz. Eu até tinha uma pensão, mas as coisas andavam meio devagar, então entrei nas Lojas Americanas e roubei dez furadeiras. Não aconteceu nada. No dia seguinte, fui dar um pulo no supermercado Disco para comprar umas asas de galinha em promoção. Nem estava pensando em roubar, mas vi uma furadeira da mesma marca. Não resisti. Não é que me pegaram no caixa?", espanta-se. Como todo mundo que está preso, adora dar uma estocada na Justiça. "Tudo bem, até aceito, mas o juiz que me condenou a um ano de prisão absolveu, no mesmo dia, a turma do Bateau Mouche." A galera adora, e a conversa acaba em Fernando Collor, sempre o mais citado entre as justiceiras Robin Hood. Dizem as estatísticas que a maioria das fugas são tentadas nos primeiros doze meses da pena, ou por reincidentes em qualquer época. Cléa Maria, condenada a dezesseis anos por assalto a banco, deu o pinote no seu 11º mês de prisão. Num domingo de agosto passado embrulhou Diego, seu filho de então 3 meses de idade, juntou-se a duas outras presidiárias com filho pequeno e escapuliu noite adentro pela creche. Não é todo dia que fogem três mães agarradas a seus bebês - a fuga consta dos anais do Talavera como "Operação Bebê a Bordo", e não será Cléa Maria, ares de Julia Roberts selvagem e única recapturada, a revelar os detalhes. "Quis fugir porque esse mundo não tem alma, é um mundo frio", diz, sugerindo que a primeira tentativa poderá não ser a última. Nos últimos quatro anos ocorreram dez fugas no presídio, o que é pouco comparado com as práticas masculinas. "Minha irmã Jane, que está na tranca de novo, já tentou três vezes, mas sempre com amigas, por isso não deu certo. Eu não tenho amigas, sempre saio sozinha", explica Luciene, veterana de quatro fugas bem-sucedidas. Como comete novos crimes, acaba presa novamente. "Curiosa, essa vida. Até ser presa, eu sempre comprei tudo: diploma de 2º grau, de faculdade, todo tipo de carteira. Aqui dentro acabei fazendo supletivo de verdade e aprendi a tocar órgão com a Enciclopédia Delta Larousse de Música", discorre Angela, que este ano tentou o vestibular na Uerj. "Pique para pular muro eu até tenho, mas olho para a Djanira, de muleta e bala na cabeça, e sei que não é isso que eu quero. Tenho medo de levar um tiro do outro lado do muro." A fogosa Mila, que já fugiu uma vez, discute a questão com as próprias filhas, nos dias de visita. "Quando estou pra baixo, aviso que vou me mandar. A mais velha chora e pede: 'Pelo amor de Deus, mãe, não vai acabar como a Heloísa dos Anos Rebeldes, aquela do seriado da Globo'. Ela acaba me ganhando, pois fico com medo de que ela me veja estirada no chão." Já a caçula, diz Mila com uma ponta de orgulho, puxou a mãe. "Ela fica me cutucando: 'Tá gostando da cadeia, mãe? Muro baixinho, esse...' " Mila dá uma corrida em sua cela e vai buscar fotos das duas moças. Esther se junta, contando que sonhara com a liberdade - "No sonho uma colega vinha ao meu encontro, de bicicleta e chapeuzinho, e a gente se abraçamos". Elizabeth, a seqüestradora, comenta a situação do Rio. "A criminalidade na cidade está impossível. Esse cerco do Exército é inútil." A notícia do incêndio no 11º andar do Fórum do Rio - "Meu Deus, se queimar meu processo vou morrer aqui dentro!" - impressionou muito mais as internas do que a explosão em Oklahoma. Por todos os cantos se ouvem queixas quanto à saúde pública ("Como é possível uma cadeia de 300 mulheres não ter um só ginecologista?"), à falta de trabalho ("Aqui só 10% tem ocupação. Por que não deixam as que são primárias e de penas leves prestarem serviços não remunerados à sociedade?"), ao alto custo de vida ("O dono da cantina é um aproveitador. Cobra 60% a mais que em supermercado só porque ele sabe que tem clientela cativa") Assim vai escoando a vida no Talavera Bruce. Pelo último censo penitenciário brasileiro, 95% dos encarcerados são pobres, 85% não conseguem pagar advogado e 3,7% são mulheres. E no Rio de Janeiro, segundo levantamento do IBGE de sete anos atrás, 40,3% dessas presas jamais tiveram carteira de identidade ou título de eleitor (42,1%), uma em cada cinco não sabia escrever e quase a totalidade tinha filhos. O reencontro dessas mulheres com a sociedade, quando ocorre, vem carregado de estigma duplo: o de ter cometido um crime e o de ter violado a conduta esperada de uma mulher. Segundo relatório apresentado na última conferência anual da Associação de Juízas dos Estados Unidos, da qual faz parte a grande dama da Corte Suprema americana Sandra Day O'Connor, a Justiça Criminal tem preconceitos contra mulheres envolvidas em crimes - elas acabam mofando mais tempo que o necessário nas prisões. Cristina, que nunca viu uma Corte, nem Suprema nem americana, cantarola as estrofes finais de seu pagode:
Lucimeire, a pária condenada por todas "Prefiro não saber o que cada uma fez. Afeta o tratamento. Você começa a discriminar", diagnostica a agente Fátima Luiz, psicóloga formada. As presas, pelo contrário, querem saber tudo e os julgamentos são radicais. Na hierarquia do crime, o mais admirado é o estelionato. Talvez por ser praticado essencialmente por mulheres brancas, de boa aparência e bom nível de instrução. São as mais articuladas do Talavera Bruce. Assalto a banco também impressiona por ser considerado coisa de macho. No outro extremo da escala, condenada, está a estupradora. Para ela não há clemência, seja comprovadamente culpada ou não. Vira leprosa. A miúda Lucimeire Ferreira, natural de João Pessoa, não sabe a idade que tem - "é 29 ou 30". Era caseira em Teresópolis quando o ex-companheiro estuprou sua filha de 4 anos. Pegou dez anos por cumplicidade, cumpriu três no "hospital de maluco" (sanatório). "No distrito, três mulheres arrancaram meus dentes. Aqui me chutam na vagina. Me batem toda semana. Outra queimou minha roupa de cama porque não quero fazer pederastia. É muito imundo, aqui. Meu pai é paralítico e usa fralda. Meus três filhos estão em orfanato. Tenho advogado - é da Assembléia de Deus." |
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