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Reportagens 7 de janeiro de 1981O Rio ferido a bala A Baixada Fluminense fechou 1980 com
Há pelo menos uma coisa em comum entre o jornalista João Saldanha, antigo militante do Partido Comunista Brasileiro, e o general Antônio Carlos Muricy, estrela da linha dura militar até vestir o pijama. É a mesma que liga outras duplas de cariocas, por nascimento ou adoção, igualmente díspares - como o escritor Fernando Sabino e a novelista Janet Clair, ou o banqueiro Frank Sá e o ator Hugo Carvana. Todos são exemplos acabados de que um recente flagelo do Rio de Janeiro - os assaltos à mão armada - fez vítimas famosas em número suficiente para formar uma singular categoria de colunáveis do crime. O grupo foi reforçado na semana passada pela inclusão do empresário Drault Ernanny Filho, diretor da empresa petroquímica Prosint e da Companhia de Urbanização Litorânea. Ernanny foi assaltado à porta do prédio onde mora, no Leblon, reagiu, conseguiu esquivar-se de um tiro e conservou os 500 cruzeiros que levava nos bolsos e um relógio no pulso. "Com 38 anos de idade, eu ainda não tinha entrado para as estatísticas da criminalidade", conta o empresário. "Foi meu batismo de fogo." A julgar pelos resultados de uma pesquisa divulgada pelo Instituto Gallup em dezembro, o batismo talvez tenha até demorado. A pesquisa provou que um em cada dois integrantes da "classe A" do Rio de Janeiro, a que Ernanny certamente pertence, já foi assaltado nos últimos dois anos. Assim, ele apenas passou de uma para outra metade do círculo da violência que se fecha sobre o Rio, transformando-o em cenário de verdadeira guerra civil. CARTEIRA FALSA - Segundo o levantamento do Gallup, 36% dos entrevistados cariocas sofreram pelo menos um assalto em 1980, e 1 milhão de moradores do Rio, nos últimos dois anos, viram seu património parcialmente mutilado por homens armados. Dessa multidão de vítimas, 400.000 foram assaltadas mais de uma vez em 1980. E 700.000 cariocas preferiram não apresentar queixa à polícia. Alguns, porque o produto do roubo não justificava várias horas perdidas com a burocracia policial. A maioria, por estar convencida de que a polícia do Rio de Janeiro é irremediavelmente ineficaz, também por padecer há muitos anos da doença da corrupção. "Os assaltantes descobriram que é muito mais fácil e lucrativo agir na zona sul do que roubar alguns cruzeiros na Baixada Fluminense", afirma Salomão Saad, presidente do Clube Monte Líbano e morador de um prédio na milionária avenida Vieira Souto que, em dezembro, foi saqueado por quatro assaltantes. Saad está certo de que "o governo perdeu o controle da situação". Durante o assalto, ele próprio ofereceu uma prova de que sua tese tem fundamento, ao exibir uma carteira imprópria de policial. Não é, certamente, o único documento desse gênero em circulação no Rio, delito que impede ao cidadão comum saber quem é e quem não é policial. Nesse quadro onde a polícia brinda amigos com carteiras como a de Saad, é sempre mais difícil saber quem é e quem não é marginal, sobretudo porque, no Rio de Janeiro, as fronteiras entre os domínios dos que violam a lei e dos que deveriam defendê-la freqüentemente se confundem. Saad não é o único a suspeitar de que boa parte das tropas marginais que se movem no Rio é recrutada no cinturão do miséria formado pela Baixada Fluminense. Mas estatísticas ainda mais sangrentas demonstram que, se divisões de assaltantes deixam a Baixada em busca de vítimas economicamentemais atraentes, brigadas de reserva se encarregam de substituí-las de imediato. No último dia de 1980, exatos 2.006 cadáveres haviam sido espalhados, desde janeiro, nas ruelas miseráveis que cortam a Baixada, um número folgadamente superior aos menos de 500 mortos da Revolução de 1930. Em apenas um ano, a violência da Baixada matou mais gente que a violência política do país em meio século. Na zona sul carioca, o fenômeno da violência tem proporções mais reduzidas. Mas percorre uma trajetória que acusa saltos decididamente alarmantes. PAPEL TROCADO - Os assaltantes de carros que há poucos anos atormentavam esses bairros do Rio ganharam, primeiro, a companhia de marginais que arrastavam consigo o motorista e, agora, cederam a vez a latrocidas que, depois de atacarem casais, violentam a mulher e matam o homem. Dos assaltos rápidos e, se possível, silenciosos, os ladrões cariocas passaram a uma descansada ocupação de casas por horas inteiras. O banqueiro Frank Sá, do Banco Econômico, viu-se transformado com seus familiares em refém de um grupo de tranqüilos invasores. O mundo do crime viveu, depois, a moda dos assaltos que começavam na garagem de um edifício, com a abordagem de algum morador desavisado, e acabavam no apartamento da vítima. Enfim, o verão de 1981 pode assistir ao "boom" da ocupação de edifícios inteiros, método que provocou o desabafo oposicionista do milionário Salomão Saad. A perda da noção de segurança pessoal - sentimento indispensável para a vida tranquila nos centros urbanos - mudou os cariocas. Prosperam as empresas que vendem portas de aço com fechaduras adicionais - a Blind House viu crescer em 50% seu faturamento nos últimos três meses. Brotam ruas com acessos fortificados, como a Iposeira, em São Conrado, que convida os forasteiros a estacarem na guarita, ou a Osório Duque Estrada, na Gávea, que na sua parte superior dá passagem a uma colina de mansões entre as quais está a do banqueiro Marcos Magalhães Pinto. E, naturalmente, multiplicam-se as polícias particulares. Todas as grandes empresas da cidade estão guarnecidas por polícias privadas que, em certos casos, garantem até a segurança de seus dirigentes. O banqueiro José Luiz de Magalhães Lins é freqüentemente escoltado por guarda-costas. Já o embaixador Roberto Campos, quando presidente de um banco carioca, viu-se num papel trocado: dispensou a segurança e foi ameaçado de morte pelos eventuais desempregados. "Todos os dias, alguém me telefona querendo contratar guarda-costas pessoais", diz Francisco Gama, dono da Agents, uma das maiores agências privadas de vigilância do Rio. "Mas a Secretaria de Segurança impede que se preste esse tipo de serviço." Alguns driblam a proibição travestindo os guarda-costas de motoristas. Outros simplesmente incorporam amadores ao exército de 25.000 guardas particulares atualmente acantonado no Rio. Contratações precipitadas podem trazer mais dissabores aos cariocas alarmados com o clima de insegurança. "Entre os candidatos a um emprego na minha agência, a maioria é formada por marginais interessados em conseguir armas sofisticadas, especialmente essas submetralhadoras que têm sido vistas em assaltos a bancos", conta Francisco Gama. O teatrólogo Dias Gomes e a novelista Janet Clair contrataram um guarda depois que, em julho, sua casa na lagoa Rodrigo de Freitas foi invadida por três ladrões, sob o constrangedor silêncio de dois cães até então encarregados da proteção do casal. LOJA RECORDISTA - O ator Hugo Carvana e à jornalista Marta Alencar, visitados três vezes por ladrões em poucos meses, providenciaram um cão pastor alemão. A atriz Marília Pera, que não confia na polícia, desconfia também de equipamentos sobressalentes de segurança. "O mundo está muito inseguro", constata. O comerciante José Itajahy, dono da butique Bibba, de Ipanema, assaltada cinqüenta vezes em oito anos, sugere uma festa de confraternização entre comerciantes, policiais e assaltantes do bairro. Itajahy, que perdeu 2 milhões de cruzeiros nessa sucessão de assaltos, não ganhou da polícia uma única pista que levasse aos responsáveis. A polícia carioca, que só consegue esclarecer um em cada dez crimes de morte, costuma oferecer às vítimas que a procuram, em vez de investigações, policiais que se prontifiquem a protegê-las por módicos salários. Algumas vítimas seguem confiantes numa boa conversa: o escritor Fernando Sabino pediu a um assaltante que deixasse seu carro na zona sul, "porque não conheço os subúrbios", e foi atendido. Outros arranjam uma arma - existem 1 milhão de armas clandestinas - e vão à luta, como o pintor Iberé Camargo, que usou a Magnum que reservava a batalhas contra assaltantes para fuzilar um desconhecido que o empurrara. "Mas todos temos medo", constata o teatrólogo Dias Gomes. Os terrores dos cariocas não levaram o comando da Polícia Militar do Rio a efetivamente espalhar pelas ruas os 30.000 policiais encarregados de proteger a população, como ordenou inutilmente o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel. Mas popularizaram nos corredores das polícias civil e militar o argumento de que não há tantas razões para o medo - afinal, lembram os delegados, o trânsito, que fez mais de 1.500 cadáveres em 1980, matou mais que os assaltantes. O argumento é néscio. Ao agarrar um volante, um homem faz da máquina o prolongamento de seu corpo e corre um risco calculado: se não controlar a máquina, poderá ser vítima dela ou de outras. Esse mesmo homem não sai de casa e caminha pelas ruas pilotando dois revólveres. Na realidade, a guerra civil carioca, sem similar no país e com estatísticas que deixam para trás a mitológica violência de Nova York, é a conseqüência lógica da superposição de males antigos e novos. Há trinta anos a zona sul vive na crença de que o cinturão de miséria da cidade está em outro planeta. Cultivou-se a idéia segundo a qual removendo-se favelas resolvia-se a questão e, hoje, a criminalidade do Leblon é maior do que a verificada no tempo em que ele hospedava a favela da praia do Pinto. Acreditou-se, também, que a formação de esquadrões da morte para matar bandidos seria uma solução, quando ele apenas justifica e amplia a corrupção e incompetência policiais. À falta de progresso industrial no Grande Rio juntou-se há um ano a virtual paralisação das obras de construção civil, sobretudo a do metrô, que empregava centenas de milhares de braços. Nesse panorama cruel, a mais bela e agradável cidade do país é levada a uma dura descoberta: se a Baixada Fluminense, com seus crimes, era considerada um fundo de quintal da cidade civilizada da orla marítima, esta, hoje, torna-se o quintal de repasto da criminalidade gerada na Baixada.
Com os massacres do Natal, A quatro dias do Ano Novo, a Baixada Fluminense finalmente ultrapassa a marca dos 2.000 cadáveres em deze meses - uma sinistra barreira que há tempos parecia desafiar a multidão de assassinos diluída em seus 2,3 milhões de habitantes. A proeza foi emoldurada por requintes no melhor estilo da região, que mereceu da OrganizaÇão das Nações Unidas o título de "a mais violenta do mundo". Na madrugada do dia 27, duas casas da rua Araré, no distrito de Engenheiro Pedreira, município de Nova Iguaçu, foram invadidas por quinze homensa armados de metralhadora, escopetas, pistolas automáticas e revólveres. Com os rostos parcialmente ocultos por gorros de lã e óculos escuros, os invasores se apresentaram como policiais, espancaram os moradores e arrastaram cinco deles - quatro homens e uma mulher - para automóveis com placas cobertas de lama. Menos de meia hora depois, os cinco seqüestrados foram estripados e fuzilados com 46 tiros. Abandonados num matagal das cercanias, os corpos exibiam numerosos sinais de tortura. Os olhos da mulher assassinada - Heloísa Helena Rodrigues, de 25 anos - foram arrancados por seus matadores. Quatro cartazes encontrados no local do crime continham os nomes de futuras vítimas do bando de exterminadores. No dia seguinte, também ela seguindo à risca as tradições da Baixada Fluminense, a 55 delegacia do distrito de Queimados informou a jornalistas que todos os mortos eram "assaltantes e traficantes", embora nenhum deles tivesse antecedentes criminais conhecidos. Um dos políciais divertiu-se com a tragédia. "Eles agora estão matando de cinco em cinco", comentou, e arriscou um palpite: seria uma homenagem ao número - 55ª - da delegacia em que trabalha. GRUPOS DE EXTERMÍNIO - O deboche do policial talvez seja uma boa pista: é possível que a 55ª Delegacia tenha sido homenageada em código por outros policiais da região. Na véspera do Natal, cinco homens foram massacrados numa ruela também localizada na área da delegacia de Queimados, e junto aos corpos encontrou-se uma plaqueta de identificação de um soldado da Polícia Militar que serve no 15º Batalhão, o temido "Treme-Terra" de Duque de Caxias, um dos quatro municípios da Baixada Fluminense. A polícia negou-se a revelar o nome do donoda plaqueta. Entre os dias 24 e 28 de dezembro, trinta moradores da Baixada Fluminense foram executados. Raríssimas testemunhas dos crimes que se animam a violar a "Lei do Silêncio" em vigor na região atribuem as matanças ao "Killing", nome de um dos dez grupos de extermínio que agem na Baixada. O grupo é formado por policiais da ativa, ex-policiais e soldados da Polícia Militar expulsos da corporação e já colecionou, em quase dez anos de atividade, mais de 500 "presuntos". Até agora, nenhum de seus integrantes foi enquadrado em processos judiciais. Os grupos de extermínio, também chamados de "polícia mineira", alugam seus serviços a quadrilhas em luta contra bandos rivais ou a comerciantes em busca de proteção contra assaltos - convencidos de que as guaritas e as grades que protegem suas lojas não lhes dão suficiente segurança. Aliados a policiais que preferem matar marginais ou inocentes, em vez de prendê-los, e a centenas de criminosos paisanos espalhados pela região, os grupos de extermínio deram uma contribuição bastante decisiva para que a marca dos 2.000 cadáveres fosse superada. CAVEIRAS E TÍBIAS - Essa superprodução de homicídios permite que se chegue pelo olfato ao Instituto Médico Legal de Nova Iguaçu, o maior e mais violento município da Baixada. Inaugurado no ano passado, o IML tem uma geladeira com espaço para quarenta corpos. Na semana passada, mais de 150 cadáveres estavam amontoados nos corredores e nos fundos do prédio. Os cadáveres permanecem no IML de quinze a trinta dias e, na falta de quem se interesse pelos corpos, acabam geralmente enterrados como indigentes no cemitério de Marapicú, ponto final da trajetória das vítimas dos esquadrões da morte locais. "Todos os enterros realizados aqui", garante Manoel Moreira, administrador do cemitério de Marapicu, "são perfeitamente legais, com certificado passado pelo IML, sem nenhuma malandragem". Sempre aos sussurros, moradores da Baixada Fluminense asseguram que em Marapicu, em cuja entrada figuram duas caveiras com tíbias cruzadas em alto relevo - uma réplica do símbolo adotado por vários esquadrões da morte -, jazem centenas de corpos com nomes trocados, fórmula destinada à encobrir crimes violentos. Em outros cemitérios, assassinos anônimos preferem encurtar o caminho que passa pelo IML - em meados deste ano, onze cadáveres foram arremessados sobre os muros do cemitério de Iguaçu Velho, na desolada estrada do Tinguá. Essa rotina de horrores já não assusta milhares de brasileiros aglomerados nos miseráveis distritos da Baixada, um infeccionado e irremovível apêndice do Rio de Janeiro. Em Nova Iguaçu, das 290.000 casas em que vivem 1,5 milhão de pessoas - centenas delas com 9 metros quadrados -, apenas 8% estão ligados à rede de esgotos, um dos menores índices do país, e menos de 30% recebem água encanada. Não existem hospitais públicos na região, cada um dos 265 médicos atendem a 5.600 habitantes - contra a média de um para 500 registrada no Rio de Janeiro - e, todos os dias, 500 toneladas de lixo permanecem nas ruas por falta de caminhões coletores. Nesse quadro de misérias, a violência talvez represente apenas um curto trecho do calvário a percorrer. CONCENTRAÇÃO DE MIGRANTES - "Para resolver o problema da Baixada, precisaríamos de 10 bilhões de cruzeiros", diz um técnico da Fundação da Região Metropolitana do Grande Rio, teoricamente encarregada de tornar a área habitável. Ele se protege com o anonimato para revelar que, neste ano, a Baixada será contemplada com escassos 700 milhões de cruzeiros. Na Fundrem, multiplicam-se agourentos palpites sobre o destino dessa turbulenta concentração de migrantes - 70% de seus habitantes são nordestinos - e desempregados, que hoje somam 20% da população total. Os braços que conseguem espaço no rarefeito mercado local são poucos. Mais de 600.000 trabalhadores garantem no Rio de Janeiro uma sobrevivência que, além de precária - 72% dos moradores da Baixada ganham menos de dois salários mínimos -, exige dribles diários numa longa sucessão de perigos e carências. Para as multidões que lotam os ônibus e trens de subúrbio a caminho do Rio, o dia começa por volta de três horas da madrugada. Alguns minutos a mais de sono podem custar a perda da vaga no ônibus - segundo cálculos do governo do Rio de Janeiro, cada um desses veículos transportou no ano passado 120 passageiros por viagem, trinta a mais que a lotação máxima admitida por normas federais. No interior dos vagões de subúrbio, onde se amontoam três passageiros por metro quadrado, nem o mais perfeito jogo de cintura permite esquivar-se às pedras que estilhaçam janelas com penosa regularidade - um violento esporte praticado por adolescentes que moram ao longo da estrada de ferro. Em 1980, 26 composições que servem a Baixada foram alvo de depredações comandadas pelos próprios passageiros. A sacolejante epopéia vivida nos meios de transporte ganha cores ainda mais cinzentas na viagem de volta: os trabalhadores sabem que terão de sobreviver a mais uma noite de sustos e mortes na Baixada. ARMAZÉM FORTALEZA - O comércio dos bairros populares, que concentram 85% da população, nunca abre suas portas antes das 8 da manhã e jamais as fecha depois da hora do crepúsculo, também porque apenas 10% das ruas da Baixada têm luz elétrica. Para os comerciantes do lugar, todo freguês é um assaltante até prova em contrário, regra que justifica a proliferação de grades de ferro nas portas de bares, açougues, padarias e armazéns. Escaldado por seis assaltos consecutivos, o português Adelino Ferreira Martins, 76 anos, passou a vender mercadorias através das grades acopladas à porta do seu armazém-fortaleza: "Eu estava cansado", resume. "Além de roubar o dinheiro, os bandidos me agrediam. Maltrataram até minha mulher, uma velha de 70 anos." O homem comum da Baixada não tem tempo nem meios para a montagem de esquemas que lhe reforcem a segurança em seu corpo-a-corpo com a vida. Os marginais mirins da região - segundo dados da Funabem, 70% dos internos de seus postos no Rio são recrutados na Baixada - fazem o vestibular do crime montando "pedágios". Juntam-se aos bandos sobre uma ponte, ou à entrada de uma viela com razoável movimento de pedestres, e cobram uma taxa, que pode variar de 5 a 10 cruzeiros, para permitir a passagem dos que regressam do trabalho. Se enfrentassem também em grupo seus franzinos opressores, as vítimas do "pedágio" provavelmente se livrariam dessa violência. Mas reações coletivas são ainda raras na Baixada, embora policiais com alguns anos de serviço no lugar apontem os intermitentes linchamentos ocorridos a partir de 1977 como um sinal de que os trabalhadores da região pretendem aceitar a guerra civil decretada unilateralmente pelos marginais - e resistir. A verdade é que, na Baixada, somam-se dois ingredientes perfeitos para uma fortemente apimentada receita de violência - o desemprego e a desagregação familiar. O cinturão de migrantes que envolve São Paulo seria sensivelmente mais convidativo a explosões de violência se ali não se estendesse um ainda mais grosso cinturão industrial - a indústria automobilística e seus milhares de empregos decerto ajudam a explicar por que a Baixada Fluminense e o ABC paulista são tão diferentes. Em sua geralmente trágica marcha para as cercanias do Rio, milhares de retirantes vêem esgarçar-se pelo caminho valores, conceitos morais, laços familiares - e se surpreendem ao cabo da jornada num terreno ideal para que nele floresçam réplicas do "cobrador", personagem de um conto famoso do escritor Rubem Fonseca. No conto, de armas na mão, um homem cobra de credores arbitrariamente eleitos nas ruas do Rio os prazeres que lhe foram negados. O preço é um tiro no peito ou no rosto. PRÁTICA GENERALIZADA - Em Nova Iguaçu existem 150.000 crianças sem vagas em escolas, e pelo menos alguns milhares de pais analfabetos não têm chance alguma de preencher o requisito invocado pelo professor Adalberto Freitas, diretor da Escola Milton Campos, para a concessão desse privilégio. Um dos motores do Partido Popular de Nova Iguaçu, Freitas condicionou a inscrição dos alunos ao preenchimento, pelos pais, de uma ficha de adesão a seu partido, além da apresentação do título de eleitor. Graças ao esperto correligionário, o PP cresceu bastante em Nova Iguaçu. Cresceu, também, a impressão de que, na Baixada, a prática de crimes é um costume que não se circunscreve à imensa maioria de miseráveis. "O povo da Baixada sofre por causa da corrupção dos políticos", acredita o comerciante Otacílio Pereira, dono de uma birosca na periferia de Nova lguaçu e presidente de uma associação de amigos de bairro. Mais que causa de sofrimentos, a corrupção dos políticos - e também de seus grandes eleitores - é sobretudo uma evidência de que a Baixada é uma terra sem leis. Com o mesmo dinheiro extraído do controle que exercem sobre as bancas de jogo do bicho em Nilópolis, os irmãos Simão e Jorge Davi sustentam a Escola de Samba Beija-Flor, mantêm a policia a uma dócil distância e, a cada quatro anos, renovam o mandato do deputado Simão Sessim. Em Caxias, o império consolidado a bala pelo lendário Tenório Cavalcanti hoje é administrado pelo seu genro e herdeiro, o deputado Hydeckel Freitas. Hydeckel Freitas é recebido em audiências pelo presidente João Figueiredo graças a um passaporte outorgado pelo casamento com a filha de um homem que, contestado, matava tanto marginais anônimos quanto conhecidos policiais. Simão Sessim é visto em Brasília como legítimo representante do povo, embora, no seu caso, o caminho das urnas tenha sido asfaltado por bancas de jogo do bicho cujo controle foi também conquistado a tiros. Orientadas pela biografia de seus expoentes, as crianças da Baixada crescem aprendendo que o moderno e sangrento faroeste onde vivem não tem heróis, nem xerifes. E quem quiser escapar ao generalizado desrespeito à lei não deve contar com a simpatia da polícia. CULPA DA ABERTURA - "Aqui é cada um para si e Deus contra todos", ensina o policial Nelson Francisco, da delegacia de Belfort Roxo. "A criminalidade na Baixada chegou a níveis absurdos porque a polícia já não controla a situação." Na delegacia de Nova Iguaçu, o inspetor Paulo Guimarães endossa a opinião do colega. "Não é possível fazer nada além do que fazemos", diz ele. "Só em Nova Iguaçu temos 900 investigações criminais em andamento. Se a gente dividir esse número pelos vinte detetives que trabalham aqui na delegacia, teremos cada um cuidando de 45 casos diferentes ao mesmo tempo. O inspetor Guimarães vislumbra estreitos vínculos entre a situação política do país e a desenvoltura dos marginais da região. "Os bandidos não respeitam mais a polícia porque quem der um peteleco num vagabundo desses responderá a processo", acredita. "É a tal abertura." O frágil argumento do inspetor naufraga na constatação de que a tortura de presos, uma instituição nacional, também na Baixada faz vítimas regularmente. Além disso, a era da ditadura e da impunidade policial não foi suficiente para baixar a criminalidade na região. Ali, "petelecos" continuam a substituir investigações científicas e nenhum policial da região responde, no momento, a processo pela prática de torturas. Enfim, a pena de morte é informalmente aplicada na Baixada tanto por policiais de rosto descoberto quanto por encapuçadas sucursais batizadas de "grupos de extermínio". Prova disso é que não há um único cartaz de "procura-se" em qualquer das dez delegacias da região. "Aqui os bandidos morrem antes de chegar à fama", diz um morador. A proliferação dos esquadrões assassinos não reduziu as taxas de criminalidade; ao contrário, ajudou a inchar as estatísticas criminosas, além de engordar os ganhos mensais de policiais corruptos. "A ocorrência de homicídios já não impressiona", diz o inspetor Guimarães. Dos mais de 2.000 mortos de 1980, 87% foram executados por armas de fogo e 6% por espancamento, vindo muito depois os casos de estrangulamento, uso de faca ou peixeira e envenenamento. Há um pequeno mas terrivelmente variado repertório com a rubrica de "casos diversos" - num deles, um homem foi assassinado a dentadas. Na semana passada, pouco impressionados com o tenebroso saldo dos massacres do Natal, os policiais de Nova Iguaçu pareciam trair algum desconforto com a escalada dos crimes sexuais. Em 1980, ali foram catalogados 864 casos de estupro e outros abusos sexuais, numa média de três ocorrências por dia. Segundo especialistas da polícia, nove entre dez vítimas de estupradores não apresentam queixa, silenciadas pelo constrangimento. Assim, oficiosamente, é provável que a Baixada tenha alcançado, em 1980, mais um recorde mundial. Na Baixada, por sinal, não é apenas nos casos de estupro que a população escolhe a mudez: a "Lei do Silêncio" manda que também se calem testemunhas de crimes e, especialmente, parentes das vítimas. Quem desobedece à lei se arrisca a aparecer, horas depois, num dos "pontos de desova de presuntos" espalhados pela região. À PROVA DE ASSALTOS - Nesse mundo crispado, a que foi recentemente incorporado por matadores o hábito de cortar os dedos dos cadáveres e assim impedir sua identificação digital, a lei é teoricamente defendida por 500 policiais civis e 2.000 soldados da Polícia Militar, dos quais menos de 700 se encarregam do policiamento ostensivo. Mas nem todos os moradores se sentem inseguros. "A violência na Baixada é igual à de outros lugares", diz Helena Aiko Alvim Haiashida, 17 anos, que pertence a uma das 200 famílias da região consideradas ricas. Helena, que consome seu tempo entre o fechado Country Club de Nova Iguaçu, onde mora, e as pistas de patinação da zona sul carioca, onde tem dois apartamentos, jamais sofreu violências. Mas desconfia que não mora num lugar como outro qualquer sempre que circula com um dos seus três carros pelas ruas do Rio: "As pessoas olham com ironia as placas do carro", conta. Helena talvez se arrisque muito mais em suas incursões cariocas do que nas andanças pelos pequenos e protegidos enclaves onde vivem os ricos da Baixada - a julgar pelas estatísticas policiais, trata-se de lugares à prova de assaltos. As raras ocorrências ali registradas são imediatamente esclarecidas, uma eficácia que não se observa no resto da Baixada. Dos homicídios de 1980, menos de 9% foram desvendados, quase sempre porque o assassino foi preso em flagrante. Em Nova Iorque, metrópole de 8 milhões de habitantes, o número de crimes de morte ocorridos em 1980 foi só ligeiramente superior ao da Baixada. Mas, pelo menos, um em cada dois homicídios foi esclarecido pelos 22.000 policiais encarregados da proteção à população nova-iorquina. Há trinta anos, quando começou a ganhar ares de concentração urbana, a Baixada Fluminense abastecia o Rio de laranjas e de mão-de-obra barata. Depois de dilacerar-se a partir dos anos 60 numa guerra civil que parece longe de terminar, a Baixada passou a remeter para a metrópole vizinha sucessivas legiões de marginais diplomados em suas numerosas escolas de violência. Se não utilizarem a outra pista dessa via dupla para remeterem à Baixada mais policiais, antídotos para a corrupção nas delegacias e nos quartéis da PM e, especialmente, fontes de empregos, os cariocas logo verão em suas fronteiras um tumor que, entre tiroteios e desesperança, cresce à velocidade de 4% ao ano. |
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