Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2008 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 6 de junho de 1984Com o dedo no gatilho Os brasileiros se armam
Caso fosse travado em campo aberto um combate entre os moradores do valorizado Edifício Syagrus, na Praia do Flamengo, Rio de Janeiro, e os assaltantes que na terça-feira passada dominaram o prédio durante 2 horas e meia, certamente terminaria numa carnificina. Os ladrões - oito ou doze, a polícia ainda não conseguiu medir o tamanho da quadrilha - portavam revólveres calibre 45, arma privativa do Exército. E só no apartamento do empresário Antonio Mayrink Veiga havia duas pistolas Magnum 357, outra de 9 milímetros, automática, e uma submetralhadora Pazan, de uso exclusivamente militar. De parte a parte, os dois arsenais sugerem que tanto assaltantes quanto assaltados conhecem a cidade que habitam - hoje, no Rio de Janeiro e em outras metrópoles brasileiras, a sobrevivência freqüentemente depende de calibre grosso. Mas os moradores do Edifício Syagrus aparentemente se esqueceram de uma lição já assimilada por milhões de brasileiros: nas grandes cidades, a segurança começa na porta do lugar onde se mora. "Qualquer prédio de apartamentos quarto-e-sala em Madureira tem mais segurança", espantou-se o delegado da 9ª Delegacia Policial, Nemésio Garcia, ao contemplar o obsoleto sistema de alarme do Syagrus - um anacronismo se confrontado com as fortalezas urbanas que se multiplicam pelas metrópoles, com guaritas, guardas armados e requintadas armadilhas antiassalto. Roubos desse tipo não são exclusividade do Rio de Janeiro. A 22 de janeiro deste ano, três ladrões dominaram o porteiro do Edifício Laguna, na Alameda Franca, 1433, no elegante bairro paulistano de Cerqueira César, e durante 2 horas foram prendendo as pessoas que chegavam ao prédio, confinando-as na lixeira. Ao final da ação, os assaltantes fugiram levando mais de 30 milhões de cruzeiros em jóias e dinheiro. No dia seguinte ao assalto do Edifício Syagrus, igualmente esquecido de certas regras do manual de sobrevivência ditado pela escalada da violência urbana, o embaixador aposentado Lucilio Haddock Lobo, 68 anos, resolveu caminhar à noite em companhia de sua mulher, Vera, pelo calçadão da Avenida Vieira Souto, na Praia de lpanema, também no Rio de Janeiro. O casal resolvera vencer a pé a distância de 500 metros que separa o Hotel Caesar Park do seu apartamento na Rua Garcia D'Ávila. A 100 metros do destino, apareceram dois ladrões que capturaram as jóias de Vera e uma bolsa capanga em que o embaixador levava 500.000 cruzeiros. Haddock Lobo esboçou uma reação e tombou com um tiro no peito. DESCONFIANÇA - O assalto ao Edifício Syagrus e o assassinato do embaixador Haddock Lobo são dois casos exemplares da violência que assola boa parte do país - e certamente convenceram mais um punhado de brasileiros de que é preciso cuidar da própria sobrevivência. De fato, passo a passo com os chocantes relatos de uma criminalidade crescente, vai-se instalando no país um perturbador subproduto: a tendência à autodefesa, com os cidadãos comprando cada vez mais armas, multiplicando a instalação de equipamentos de segurança e financiando o que já se tomou um verdadeiro exército de guardas particulares. "Os assaltos são a nossa melhor propaganda", diz Luís Cunha, 47 anos, dono das Lojas Palomar, no Rio de Janeiro. Há alguns meses, essas lojas, especializadas em artigos esportivos, resolveram substituir nas prateleiras bolas de futebol e pares de tênis por armas de diferentes calibres. Foi uma tática acertada. No ano passado, as duas lojas venderam em média 200 armas por mês. Neste ano, o índíce já está em 300 unidades mensais. Entre os compradores figuram dezenas de cidadãos desconfiados de que poderiam morar num edifício invadido por assaltantes, como o Syagrus, ou estar no lugar do embaixador Haddock Lobo. No assalto ao prédio, os invasores imobilizaram um empregado que chegava com um carro, entraram na garagem, depois prenderam o porteiro e assumiram o comando do edifício. Um dos atacantes postou-se na entrada social e, posto em sossego num sofá, encaminhava as pessoas que chegavam para o apartamento do porteiro, onde as trancafiava. Três apartamentos foram especialmente visados, entre eles o do empresário Antonio Mayrink Veiga. Dali, além das armas, os ladrões levaram dois cofres com objetos valiosos, aí incluídas jóias da colunável Carmen Mayrink Veiga, que na semana passada estava em Paris com o marido Tony. Os moradores do Syagrus não pretendem sequer formalizar queixas na Justiça - eles preferem resolver seus problemas de segurança por conta própria. O precário sistema de alarme, que não funcionou na hora do assalto, será substituído por guaritas e outros instrumentos de vigilância a serem custeados pelo condomínio. Muito mais vigorosa é a reação dos parentes do embaixador assassinado. "Quero que os assassinos sejam severamente punidos", diz Vera, que se casara com Haddock Lobo há 25 anos. O advogado Maurício Haddock Lobo, 66 anos, irmão do morto, entende que a ação da Justiça é insuficiente. "Para a eliminação sumária dos bandidos", sugere, "precisamos criar milícias armadas, financiadas por particulares e colocadas nos bairros sob o comando de xerifes." EXÉRCITO PARALELO - A exemplo de Maurício, a população das grandes cidades parece desconfiada de que a existência da polícia não basta para preservar-lhe o patrimônio e a própria pele e trata de criar mecanismos complementares de segurança. Essa tendência ajuda a explicar o florescimento dos serviços de vigilância particulares. Números oficiais indicam que esse exército paralelo tem hoje 114.693 homens, mais que o dobro dos 56.972 agentes da Polícia Civil distribuídos pelo país. Diante da evidência de que muitas empresas de vigilância não registram todos os seus contratados, é possível supor que o total de agentes particulares não esteja tão distante do contingente da Polícia Militar em todo o Brasil, hoje com 216.216 soldados. O crescimento incontrolável do contingente de vigilantes particulares fez com que, no ano passado, a fiscalização sobre as empresas privadas de segurança saísse das secretarias estaduais de Segurança Pública para a esfera do Ministério da Justiça, por meio da Polícia Federal. No momento, está sendo estruturado o esquema de cadastramento e fiscalização dessas empresas. O Ministério da Justiça informa, porém, que o sistema só deverá funcionar plenamente dentro de dois anos. O ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, sustenta que a insegurança seria menor "se tarefas de cantina, limpeza, restaurante e escritório fossem delegadas a servidores comuns nos quartéis, liberando-se o contingente de policiais nelas empregado para as tarefas próprias ao policiamento da rua". Os brasileiros provavelmente teriam menos sobressaltos se houvesse mais guardas à vista, mas as promessas oficiais de fortalecer o policiamento ostensivo costumam ser formuladas de tempos em tempos, sem que nada aconteça de real. Assim, é cada vez maior o número de cidadãos que, despidos de antigos escrúpulos, adquirem uma arma e saem às ruas prontos para enfrentar a violência e assegurar a sobrevivência por seus próprios meios. RISCO DE ACIDENTES - O clima de medo é permanentemente alimentado por estatísticas colhidas nos grandes centros urbanos. Em São Paulo, foram catalogados no último mês de abril 130 assaltos e catorze homicídios por dia. Os crimes de morte, por sinal, têm acusado uma escalada inquietante. No ano passado, registrou-se na capital paulista uma média de 248 assassinatos por mês - latrocínios, em sua maioria -, e esse índice subiu para 382 nos quatro primeiros meses de 1984. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Michel Temer, acha que essa explosão da criminalidade poderia ser ao menos abrandada com o aumento do efetivo da Polícia Militar no Estado. Hoje, a PM paulista tem 60.000 homens. Não é muito: somadas, as quase sessenta agências especializadas em fornecer vigilantes a empresas e residências de São Paulo mantêm mais de 45.000 funcionários, e as evidências apontam para o crescimento desse batalhão de profissionais surgido para preencher os claros deixados pela polícia no campo da segurança. Não se trata de um fenômeno exclusivamente paulista. Em todo o Estado de Minas Gerais, por exemplo, a Polícia Militar tem pouco mais de 6.500 homens e a Polícia Civil, cerca de 5.000. Nenhuma dessas forças supera, portanto, os 7.691 vigilantes cadastrados em Minas, a maioria dos quais em Belo Horizonte. Michel Temer não parece preocupado com a proliferação desses esquemas privados de segurança. "Todo sistema que a população adota para prevenir assaltos é uma ajuda ao Estado e deve ser incentivado", acredita o secretário. Mas Temer vê com desconforto o aumento do número de cidadãos armados. "É falsa a sensação de que se fica mais seguro portando um revólver", afirma. Depois de alertar para o risco de acidentes, Temer faz uma advertência: "Se a arma for usada em caso de assalto, há sempre a possibilidade de prejuízos irreparáveis". OLHOS E UVAS - Apesar desses riscos, e advertências, homens e mulheres assustados com a desenvoltura dos assaltantes procuram preparar-se para enfrentá-los a bala. É o caso de Regina Mara Mendes Pastore, 25 anos, casada, mãe de dois filhos, que há quatro freqüenta a Academia de Tiro Gracie, do professor Gastão Gracie, no bairro de Cidade Jardim, em São Paulo. Regina fora assaltada duas vezes e resolveu não só comprar uma arma como, também, aprender a manuseá-la com habilidade. Treina todos os dias e, para não chamar a atenção, chega à academia levando dois revólveres - um calibre 22 e outro calibre 38 - dentro da lancheira escolar da filha. "Hoje, acerto um homem a 70 metros de distância", garante. "Se errar o olho direito, acerto no esquerdo." A decoradora Vera Regina Ribeiro da Silva, 24 anos, julgou necessário conjugar seu adestramento na academia de tiro com aulas de jiu-jitsu. "Não largo meu revólver durante o dia inteiro", conta Vera. "Se estou andando na rua, eu o levo na bolsa. Se estou dirigindo, ele fica no colo." Vera já aparou o ataque de um ladrão a golpes de jiu-jitsu, sem precisar utilizar o revólver. Mas garante que o faria se fosse necessário: "Devemos estar preparados para tudo", diz. "Antes tirar a vida de um marginal desses do que ele tirar a nossa." Muita gente já pensa como Vera. "Estou há cinco anos neste ramo", diz o professor Gastão Gracie, "e nunca houve procura tão intensa quanto agora." Ele tem oitenta alunos matriculados e outro tanto na fila, embora cobre 207.000 cruzeiros por oito aulas práticas e uma teórica. Há outras despesas. Quem utiliza um revólver calibre 38, por exemplo, gastará mais 49.500 cruzeiros por aula com munição, correspondente a uma caixa de cinquenta balas. Para completar o aprendizado, o aluno terá de disparar um mínimo de 400 tiros - ou seja, uma caixa de cinqüenta balas a cada uma das oito aulas. Segundo Gracie, vale a pena. "Ao final do curso", assegura o instrutor, "o aluno estará apto a acertar um olho ou uma uva a uma distância de 11 metros." 'GUERRILHA SEM IDEOLOGIA' - Para o pernambucano Dilson Galvão, 37 anos, capitão da PM e proprietário da única academia do Recife que oferece aulas de tiro e segurança pessoal, a violência urbana atingiu uma fase decididamente aguda. "Vivemos em clima de guerrilha sem ideologia, e o cidadão, para ter segurança, tem que ser um guerrilheiro", afirma. Com voz pausada, entre baforadas do seu cigarro de palha, o capitão Galvão - que dá aulas à noite, depois de encerrado o expediente na Polícia Militar - transmite a seus alunos ensinamentos que aprendeu em outros tempos e com outra finalidade. Seu mestre foi o americano George Miller, chefe do departamento de Segurança Pública da USAID, que esteve no Brasil em 1967 para adestrar policiais, no combate à guerrilha urbana. Um desses modernos guerrilheiros de que fala o capitão Galvão é encarnado por Joemy de Moraes Machado, 49 anos, casado, pai de dois filhos, gerente do Banco Real na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. "Sou o meu próprio exército", resume Machado, decididamente um recordista: já foi assaltado 21 vezes. "De todas as maneiras possíveis", conta. "No Brasil e no exterior, na rua e em casa, parado ou no automóvel, descansando ou trabalhando." Depois do último assalto, decidido a "comprar um arserial", ele registrouse como colecionador de armas na Polícia Judiciária. "Toda essa aventura me deixou traumatizado", admite Machado, que se viu compelido a modificar velhos hábitos. "Troquei, por exemplo, o suspense de ficção pelo real", diz o bancário, que substituiu a leitura de histórias de Agatha Christie por livros sobre segurança pessoal. Em vez de cursos de aperfeiçoamento profissional, coleciona cursos de segurança pessoal. "Eles sempre ajudam a aguçar o sexto sentido", diz. Hoje, ele carrega a bordo do seu automóvel três armas importadas - um Magnum 357, uma Walther PPK e um Smith Wesson 38 - e um plano: "Duas são para entregar aos assaltantes", revela. "A terceira é para fuzilá-los se eles se distraírem." NÚMEROS SIGILOSOS - Vítima de tantos episódios dramáticos, é certo que o bancário Joemy Machado não chega a configurar um estereótipo do brasileiro urbano. Ainda assim, são cada vez mais numerosos os exemplos de cidadãos que hoje vêem numa arma um complemento perfeito para o braço. Assim raciocina a bailarina Cynthia Rammelt, 39 anos, dona de uma academia de dança no bairro de Botafogo, que também não se separa do revólver Colt 45 importado que comprou há um ano, depois que foi assaltada por três homens na porta do prédio em que mora, em Copacabana. Durante 1 hora Cynthia teve um revólver encostado na cabeça, outro no estômago e um terceiro nas costas. Os assaltantes levaram-lhe o carro e a bagagem. No dia seguinte, ela começou a freqüentar um curso de tiro que se prolongou por três meses. "Hoje sou uma exímia atiradora", garante a bailarina. Além de aprender a atirar, passou a freqüentar aulas de ioga. "Aprendi a ter calma, a controlar minha violência", diz. "Já que a polícia não cumpre sua principal tarefa, que é proteger os cidadãos, eu mesma estou me protegendo." O volume de venda de armas no Brasil é considerado assunto sigiloso pelo Ministério do Exército, e por isso as estatísticas são deliberadamente imprecisas. Especialistas no assunto calculam que as vendas estejam em tomo de 120.000 armas por ano. Raul Rossi, 30 anos, diretor de vendas da fábrica Rossi, acha que o rigor da legislação brasileira prejudica esse tipo de comércio. "Enquanto lutamos contra o mercado clandestino que abastece o marginal, as leis brasileira restringem a compra de armas por cidadãos honestos", queixa-se Rossi. Ele observa que nos Estados Unidos - maior mercado de exportação tanto para a Rossi quanto para sua maior concorrente, a Taurus - "portar arma é um direito do cidadão para se defender". A Rossi domina 65% do mercado de carabinas e pretende ampliar sua participação na venda de revólveres lançando o modelo calibre 38 de seis tiros, para concorrer com a arma mais vendida pela Taurus, o calibre 38 de cinco tiros. RESTRIÇÕES ÀS VITRINES - Carlos Alberto Paranhos Murgel, 46 anos, vice-presidente executivo da Taurus - dona de 70% do mercado de revólveres no país -, considera que a clientela doméstica é demasiado pequena se comparada à freguesia de sua empresa no exterior. "Vendemos para 63 países", informa. "Mais da metade da nossa produção vai para fora do país." Os fabricantes reclamam das exigências burocráticas fixadas pelo Ministério do Exército para registro e porte de armas, e sustentam que esse tipo de comércio seria muito mais próspero se houvesse mais liberalidade - o que atrairia fregueses que hoje se abastecem no mercado clandestino de armas. A vida dos comerciantes ficará mais difícil se for aprovado um projeto do deputado José Frejat (PDT-RJ) que pretende proibir a exposição de armas nas vitrines das lojas. Por enquanto, pelo menos no Rio e em São Paulo, muitos comerciantes não têm qualquer motivo para queixa. Segundo Jaime Carvalho de Brito Júnior, gerente comercial do Mappin em São Paulo, foi uma boa idéia ter montado em 1981 uma seção especial para armas naquela tradicional loja de departamentos. "Vendemos quase 300 revólveres por mês, com aumento sobre aumento", alegra-se. Também em território carioca tal fenômeno é detectado. "Temos registrado aumentos muito significativos nas vendas", constata Luís Cunha, das Lojas Palomar. Entretido com planos de expansão, Cunha não mostra simpatia alguma por uma campanha destinada a desarmar o cidadão, patrocinada pelo governador Leonel Brizola. "A arma é o objeto mais brutal em toda esta questão da violência", diz Joubert Peixoto, 47 anos, diretor de Fiscalização de Armas e Explosivos da Polícia Judiciária. Encarregado de executar em seu setor a política traçada por Brizola, Peixoto é especialmente rigoroso na concessão de portes de arma. "É prioridade do governo reduzir o volume de armas em circulação", informa. O colunista social Ibrahim Sued contesta frontalmente a campanha patrocinada por Brizola. "É imprudente andar desarmado hoje no Rio", afirma Ibrahim, "pois há um clima de insegurança criado por uma polícia incompetente e inoperante." Embora nunca tenha sido assaltado, o colunista concluiu, há cinco anos, que poderia ingressar a qualquer momento nas estatísticas dos assaltos no bairro de Ipanema, onde mora, e tratou de armar-se. Desde então, nunca mais se separou do que chama de "uma jóia feita para matar", comprada nos Estados Unidos por 5.000 dólares. Trata-se de uma pequena Long Rifle 22, com cabo de madrepérola, que só tem duas similares no Brasil. Um desses exemplares pertence ao presidente João Figueiredo. No escritório, Ibrahim tem um Colt 38 dentro de uma gaveta, ao alcance da mão. Além da insegurança que ameaça qualquer carioca, ele tem fortes motivos para defender-se: anda sempre com dois cordões e duas pulseiras, que pesam meio quilo de ouro puro, avaliados em 10 milhões de cruzeiros. Nenhuma das armas do colunista é registrada na polícia, mais um dos numerosos indícios de que o registro oficial da Polícia Judiciária, que cataloga 1 milhão de armas, não reflete o número real em circulação no Rio. A estimular o arsenal clandestino existe a legislação burocrática que exige, para que uma arma seja legalizada, uma grande quantidade de documentos e um prazo nunca inferior a vinte dias para que o comprador possa levá-la para casa. Na Baixada Fluminense, é possível comprar qualquer tipo de arma sem sobressaltos. A maior revendedora subterrânea do Rio está localizada em Nilópolis: a Casa Alvim, uma velha loja de armas hoje aparentemente transformada num prosaico bazar que vende todo tipo de bugigangas domésticas. A vitrine exibe um velho e solitário revólver. Mas quem estiver interessado em qualquer tipo de armamento pode obtê-lo nos fundos da loja, onde Cirne Carvalho Alvim, 35 anos, fica à disposição de fregueses mais exigentes. Dependendo da quantidade e do tipo da arma, o comprador pode ser atendido imediatamente ou receber a encomenda num prazo médio de vinte dias, sem complicações burocráticas. FAMÍLIA UNIDA - Compradores de armas são sempre adultos, mas muitos brasileiros entendem que não há idade para começar a atirar. No Rio Grande do Sul, o médico dermatologista João Carlos Caleffi Fauri, 40 anos, coordenador de tiros da fábrica Taurus, ensinou toda a sua família a puxar com destreza um gatilho. Apaixonado por armas, Fauri é membro honorário da polícia de Nova York e fez um curso de tiro em Camp Smith, onde a Swat - grupo de elite da Polícia de Nova York - treina seus homens. Sua mulher, Inês, advogada de 39 anos, é uma exímia atiradora. "Às vezes, ela precisa ir durante a noite até zonas muito perigosas", explica o marido. As duas filhas do casal, Ana Letícia, de 13 anos, e Caroline, de 10 anos, também já foram iniciadas na ciência de bem atirar. "Toda criança pode ser ensinada a atirar, desde que tenha maturidade", argumenta Fauri. "É assim que se evitam acidentes." O empresário pemambucano Edson Morais e sua mulher, Cristina, também compõem uma dupla pronta a sacar uma arma. Eles resolveram aprender a atirar depois de terem sofrido um assalto quando estavam em sua casa numa praia próxima ao Recife: "De madrugada limparam tudo", conta Edson Morais. "Eles chegaram a pisar na cama onde dormíamos, deixando a marca de um pé tamanho 44, e não sentimos nada." Para ele, "a doutrina dos direitos humanos tem muito a ver com o atual clima de violência, pois o criminoso sabe que não será molestado e que um advogado hábil o tira da cadeia em pouco tempo". Nem todos, porém, assimilam com desembaraço a idéia de ficar com as mãos no coldre - e, para esses, as agências de segurança oferecem sistemas de proteção que começam a incluir requintes desconcertantes. LEOAS E GANSOS - A Agents, do Rio de Janeiro, por exemplo, está treinando duas leoas para alugá-las a fregueses decididos a manter seus lares ou empresas a distância dos mais ousados assaltantes. Luiza Kruger, 61 anos, que habita sozinha uma chácara a 15 quilômetros de Curitiba, prefere animais menos assustadores para proteger-se. Na pequena propriedade, ela mantém soltos onze irascíveis e estridentes gansos, que tão logo vislumbram a presença de estranhos partem sobre eles com seus bicos afiados. Conhecidos no Sul do país como "cachorros de polaco", os gansos são a única defesa de Luiza, que nunca foi assaltada e prefere não andar armada pois, segundo ela, "revólveres são coisas do diabo". Naturalmente, os brasileiros que decidem confiar sua segurança a terceiros preferem, a gansos e leoas, soluções mais ortodoxas. É o caso da ex-miss universo Ieda Maria Vargas, 40 anos, que em 1982 teve assaltada sua casa em Porto Alegre por ladrões que levaram todas as jóias, entre elas o colar de ouro e brilhantes presenteado pelos organizadores do concurso. Depois de confabular com o marido, o industrial José Carlos Athanasio, Ieda tratou de reforçar a segurança doméstica. "Contratamos um caseiro que é ex-policial e vive permanentemente armado", conta. Um outro vigilante fica numa guarita localizada na entrada da casa durante a noite inteira e os filhos do casal passaram a freqüentar a escola escoltados por um guarda. Até agora, Ieda não se animou a comprar algum revólver. "Não superei esse problema", diz. "Vivo em constante preocupação, mas não consigo chegar perto de uma arma." Milhares de cidadãos pensaram como Ieda Vargas até o momento em que, amedrontados e descrentes da ação da polícia, tocaram com os dedos um gatilho. Descobriram, então, que estavam prontos para puxá-lo. |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|