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5 de novembro de 1986
O paquiderme atômico brasileiro

Três anos depois de sua inauguração,
a usina nuclear Angra I quebra pela 22ª vez

Deitado em berço esplêndido, numa praia de Angra dos Reis, a meio caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, dormita um paquiderme que os brasileiros não conseguem decifrar. 0 organismo desse animal, batizado como Angra 1, feito de concreto e aço e animado por uma pilha atômica, começou a nascer em 1971, mas até hoje ninguém é capaz de assegurar que ele esteja realmente vivo. Angra 1 é um animal caprichoso. Quando se pensa que dormiu, descobre-se pelo anúncio de autoridades do governo que ele vai funcionar de novo. Quando se imagina que Angra 1 está bem-disposto, em pleno funcionamento, alguém dá o alarme e põe a esfinge para dormir outra vez.

Em geral, teme-se que as usinas nucleares provoquem desastres ecológicos. Angra 1, com seu fracasso, é o símbolo de um desastre administrativo e do regime que concebeu soluções autoritárias supostamente clarividentes que, com o tempo, se mostraram como rematadas bobagens. A usina nuclear Angra 1, que o Brasil comprou da empresa americana Westinghouse no governo do general Garrastazu Medici, já quebrou 22 vezes, sem contar nesse número defeitos que eventualmente não tenham chegado ao conhecimento público. A usina deveria ficar pronta em 1977, mas só foi inaugurada em 1983, doze anos depois do início das obras. Deveria ter custado 300 milhões de dólares e já custou seis vezes mais. Pela sua natureza, teria de produzir energia elétrica. Não produz. Pelo potencial de risco envolvido num empreendimento de sua espécie, precisaria ser segura. Não é. Na semana passada, dois técnicos trazidos apressadamente dos Estados Unidos tentavam descobrir a origem do 22º defeito ocorrido em Angra - uma pane que comprometeu um gerador de emergência tocado a diesel, já apanhado pelo menos duas outras vezes em situação de colapso. O 21º problema ocorreu apenas três semanas antes, quando a água que resfria as varetas de urânio radioativo da usina - portanto, água radioativa vazou para dentro de um tanque de contenção por defeito numa válvula. Sempre, que acometida por algum enguiço, Angra I é desligada, mas seus equipamentos enfartam com tal freqüência que, nos últimos três anos, desde sua inauguração sob o fogo de rojões, ela funcionou no total por menos de três meses.

VONTADE DE DEUS - "A usina não poderá apresentar defeitos quando estiver em funcionamento, mas teste é para isso mesmo", dizia na semana passada , o ministro Aurel Chaves, das Minas e Energia, a quem compete a dura tarefa de carregar o paquiderme. Com sua interpretação a respeito de períodos de ensaio, Aureli consagrou a mais longa fase de testes registrada numa usina nuclear. "Aborrece-me a dimensão que se dá à palavra vazamento", reagiu o ex-ministro da Indústria e do Comércio, João Camilo Penna, hoje presidente da Furnas Centrais Elétricas, a empresa estatal responsável construção e funcionamento da usina. "Isso permite a interpretação de que houve liberação de radioatividade para o meio ambiente, o que não aconteceu." Como de outras vezes, Camilo Penna prometeu religar a usina o mais cedo possível, numa data a ser decidida no céu. "O futuro a Deus pertence", disse ele semana passada. "E Angra voltará a operar quando Deus quiser." Até que seja feita a vontade de Deus, caberá ao contribuinte pagar a conta.

A central nuclear Angra I pode ser e encarada como um empreendimento excepcional mesmo no vasto universo das usinas movidas a urânio, entre as quais bateu recordes memoráveis. Não se tem notícia de uma central nuclear, entre as 375 espalhadas pelo mundo, que tenha torrado tanto dinheiro como seu principal combustível e haja fu vasto universo das usinas movidas a urânio, entre as quais bateu recordes memoráveis. Não se tem notícia de uma central nuclear, entre as 375 espalhadas pelo mundo, que tenha torrado tanto dinheiro como seu principal combustível e haja furado prazos de maneira tão descarada quanto Angra 1. Furnas deve tamanha bolada no exterior em decorrência de empréstimos tomados para pagar a primeira usina nuclear do país que, só de juros, gasta milhão de dólares por dia. É o quanto se dos cofres públicos para sustentar uma fábrica de quilowatts que não os emite e , a exemplo dos vagalumes, acende e sem iluminar coisa alguma. Para se ter idéia do que representa essa sangria, meio milhão de dólares daria para abastecer de carne uma capital do porte de Belo Horizonte ou Porto Alegre.

CASO SIMLES - Pode-se definir Angra I como o mais acabado exemplo de dissipação de recursos públicos e de incompetência gerencial dentro da multidão de casos exibidos no país. Nos anos 50 e 60 criticou-se incessantemente o presidente Juscelino Kubitschek pela construção de uma capital sertão, mas Brasília, com seu núcleo básico em funcionamento e Jânio Quadros na Presidência, não custou mais do que uma Angra 1. A Rodovia Transamazônica, outro alvo de críticas nesse terreno, ficou quinze vezes mais barata do que a usina de Angra dos Reis. A diferença é que Brasília funciona a plena carga e tornou-se uma cidade auto-sustentável, como previa seu idealizador, e a Transamazônica permanece em atividade nos 365 dias do ano. A Tranzamazônica, além disso, não incomoda mais os ecologistas, que se esqueceram dela para concentrar-se em objetivos mais alarmantes, como a própria Angra 1. Só com a explosão na central soviética de Chernobyl, os responsáveis pela condução da usina brasileira lembraram-se de montar um plano de evacuação da população que vive nas circunvizinhanças, para o caso de um acidente. Esse plano, em si, daria outra medalha de ouro a Angra 1 na disputa com centrais de outros países. Previu-se, por exemplo, que ônibus da CMTC do Rio de Janeiro, a 130 quilômetros de distância, entrariam numa eventual operação de salvamento. Os ecologistas, de cabelos em pé, não poderiam ter melhor prato. Na semana passada um grupo carregava uma faixa antinuclear nas areias da praia de Ipanema. Protesto inútil. Uma central desligada nunca poderia explodir.

O que assusta no caso Angra I é sua extrema simplicidade. Fez-se um péssimo negócio, em primeiro lugar devido ao contrato de compra da usina - trata-se de um desses contratos muito bons para quem vende e muito ruins para quem compra. "Pelo tempo que passei na Eletrobrás, considero a Westinghouse a responsável exclusiva pelos problemas existentes", golpeia o ministro Antônio Carlos Magalhães, das Comunicações, que presidiu a empresa durante o governo Geisel e é um homem que não costuma buscar no céu as razões para o bom ou mau desempenho de uma instalação industrial qualquer. "Além de ter apresentado um contrato desvantajoso para o Brasil, a Westinghouse exigiu por mais de uma vez, em várias administrações, aditamentos para funcionar - e até hoje não funciona", diz Antônio Carlos. Adiantamento pode ser traduzido por mais dinheiro e mais prazo.

TROCA DE CADEIRAS - Em todo bom negócio, porém, há sempre um esperto e um tolo - e esse segundo personagem deve ser procurado no Brasil entre os funcionários de alguma forma envolvidos na discussão do contrato ou em suas renegociações. Em tomo da questão Angra 1, curiosamente, há uma ciranda de nomes - sempre os mesmos - que por longo tempo trocaram de cadeiras entre si. Começa-se pelo engenheiro Mário Bliering, que presidia a Eletrobrás; no governo Medici, quando o contrato com a Westinghouse foi assinado sob seu aplauso e com sua participação, e hoje está de volta à mesma cadeira como um inesperado crítico de Angra I. Camilo Penna, ex-ministro da Indústria e do Comércio, é agora presidente de Furnas, onde Bliering atuou, enquanto Aureliano Chaves, atual ministro das Minas e Energia e um entusiasta do programa nuclear brasileiro, ocupou a presidência da Comissão de Energia da Câmara dos Deputados e a chefia da Comissão de Energia do governo Figueiredo. César Cals, ex-ministro das Minas e Energia, passou antes pela Eletrobrás, quanto Licínio Seabra, que comandou Furnas, está hoje à frente da Nucleobrás.

Entre os que participaram da negociação da usina, Mário Bhering dos que reconhecem o malfeito. "O Brasil está correndo atrás dos prejuízos e brigando muito com a Westinghouse", diz Bhering. "Ela foi a principal responsável pelo retardamento da usina e não pagou multa pelo atraso", afirma ele. Não pagou multa alguma simplesmente porque o contrato não previa essa possibilidade, da mes ma forma que não dá garantia de que equipamento vendido vai funcionar corretamente - uma garantia presente em vendas de coisas mais simples, como automóveis ou máquinas de lavar roupa. "A questão do contrato deve ser explicada pelos brasileiros", afirmava na semana passada, com muita propriedade, Henderson, porta-voz da Westinghouse nos Estados Unidos.

"NINGUÉM SABIA" - Testemunhas das negociações entre americanos e funcionários brasileiros para a compra da usina contam que os vendedores, bem preparados e experientes, exigiam tudo, enquanto os compradores, animados candidatos à antesala do clube atômico, cediam sem parar com surpreendente falta de noção a respeito daquilo que estavam tratando. "Essas grandes empresas estrangeiras são muito competentes na hora de fazer bons contratos para elas", diz o físico José Goldemberg, expresidente da Centrais Elétricas de São Paulo, ela mesma uma grande empresa, e atual reitor da Universidade de São Paulo. "Os funcionários que contrataram Angra eram inexperientes nesse assunto - e muita gente não lê os calhamaços dos contratos com a atenção necessária", avalia Goldemberg. Com elegância, o físico paulista levanta a segunda ponta do véu: além de não saberem o que estavam comprando, os negociadores não sabiam como estavam comprando.

A ignorância a respeito do artigo encomendado é tão espantosa quanto a sua admissão. "Acho que ninguém sabia naquela época que o modelo da usina estava ultrapassado", explica Bhering. Ele se colocou na posição de negociador, como vários outros técnicos brasileiros, aparentemente seguro do que estava fazendo. Hoje, é o primeiro a cassar as credenciais daqueles que trataram do negócio com os homens da Westinghouse, mas encara a falha com a naturalidade de quem estivesse lamentando a compra de um televisor errado. A lamentação atual de Bhering contrasta vivamente com seu otimismo, em 1970, quando sentado na mesma cadeira de presidente da Eletrobrás saudava a central nuclear ainda por construir. "Será uma usina do tipo provado e de confiabilidade assegurada, não sendo considerados para a concorrência reatores obsoletos", afirmava ele naquela época.

SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA - Um terceiro elemento que compõe o desastre de Angra I, além dos termos desvantajosos do contrato e o erro na escolha de um modelo ultrapassado de usina, é a fragilidade ou inadequação de suas peças para agüentar as exigências de uma central nuclear. Em Angra 1, como em algumas usinas semelhantes a ela (veja o quadro à pág. 107), quase tudo já quebrou, com exceção do próprio coração do reator, as varetas de urânio enriquecido. O gerador de vapor da central já enguiçou, o eixo da turbina sofreu desnivelamento, os tubos do condensador da mesma turbina apresentaram sinais de corrosão - e assim por diante, até a ocorrência dos dois defeitos das últimas semanas. A pane que há dez dias comprometeu o gerador de eletricidade a diesel abateu-se sobre uma peça já flagrada em colapso em pelo menos duas oportunidades anteriores.

Esse gerador existe para situações de emergência, nas quais o fornecimento de eletricidade às máquinas da usina é interrompido por algum problema na rede convencional. Nesse caso, é transferida a esse gerador a tarefa de manter em funcionamento o sistema de refrigeração dos bastões de urânio radioativo da usina. Deixar uma central nuclear ligada com falha na rede elétrica e ao mesmo tempo no gerador de emergência eqüivale a pilotar um carro sem freio. Durante a manutenção preventiva dos filtros do gerador diesel, técnicos da usina descobriram que partículas metálicas haviam sido capturadas pelo equipamento, uma ocorrência anormal. Se havia partículas, elas obrigatoriamente teriam de se ter desprendido em algum lugar e esse ponto estava em perigo. "É uma indicação de degradação de matéria" , explica Pedro Figueiredo, chefe da usina.

A limalha recolhida foi enviada para exame nos Estados Unidos, onde se tentará descobrir de que tipo de peça escapou. "Ainda não sabemos", diz Pedro Figueiredo, que considera o incidente perto de banal. Segundo os primeiros indícios, os exames poderão indicar que houve um destes problemas: lubrificação deficiente, sobrecarga do equipamento, fadiga do material e falha de fabricação. 0 vazamento de água radioativa, ocorrido há um mês, também cria uma repetição no terreno: trata-se do décimo vazamento nos últimos sete anos. "É impossível ter zero de vazamento", explica Figueiredo, um funcionário que se expressa num dialeto de uso corrente em Angra 1. " O vazamento foi apenas um evento não usual", afirma ele.

Em Angra já aconteceu um grande incêndio e até o chão já enguiçou. Nesses casos, porém, não se pode falar em falhas de material. Nessas duas ocorrências, falharam as pessoas. No primeiro caso, suspeita-se de um incêndio criminoso, provocado deliberadamente para queimar estoques e pistas de desvio de dinheiro. "Eles compraram muito mais ou muito menos e queriam evitar a descoberta fato", acusa um alto executivo de uma das empresas fornecedoras de Angra 1. O enguiço do chão decorreu da construção de outra Angra II, bem ao lado de Angra I. Com essa interferência, o terreno cedeu e um dos prédios de máquinas de Angra I adernou como navio antes do naufrágio.

CULPA DO PEÃO - Em pelo menos quatro relatórios preparados por Furnas, aponta-se ainda um outro culpado pelos males da usina - a mão-de-obra sem habilitação na construção da central nuclear. Chegou-se assim à perfeição caça aos responsáveis pelo desastre da usina. De um lado está Deus, com sua capacidade de interferir no cotidiano do reator. De outro, o humilde peão que bateu à porta de Furnas para pedir emprego na obra de Angra. Como sempre, tais situações fabricam-se culpados inatingíveis, enquanto aqueles personagens com nome e sobrenome - e com atuação visível em cada um dos tropeços da usina - nem sequer são incomodados com um pedido de explicação. Assinou-se um contrato para a compra de um equipamento caro e complexo e não se exigiu garantias formais do vendedor. Adquiriu-se uma usina obsoleta e com ela, uma multidão de peças com uma incrível capacidade de quebrar. Jogou-se dinheiro pela janela com uma facilidade assustadora - e tudo isso é encarado como se fosse produto de alguma fatalidade. "As condições da época não permitiam visualizar um programa mais ambicioso e Angra I foi um passo inicial necessário para o Brasil ingressar na tecnologia nuclear", defende Licínio Seabra, o presidente da Nuclebrás, que também já presidiu Furnas Centrais Elétricas. Enfim, ultrapassou-se a perfeição. Depois de culpar Deus e os operários, joga-se a responsabilidade na época.

O Brasil é hoje obrigado a embalar o sono de Angra I porque o regime militar se deixou embalar pelo sonho do programa nuclear. Para o projeto do Brasil pacífico, os militares criaram a repressão, que resvalou à tortura e gerou os DOI-CODI. Para o projeto do Brasil grande, eles entraram com o sonho nuclear e, encapuzada dentro dele, a idéia de chegar à bomba. Como se faz uma bomba atômica? A maneira mais prática é montar uma usina nuclear e uma fornecedora de combustível para ela. A central nuclear é apenas uma portentosa máquina de fazer calor, usado para girar turbinas que produzem a eletricidade - um mecanismo que seria simples como a caldeira da locomotiva se, em vez da lenha, não usasse urânio enriquecido. O urânio queimado numa usina, porém, pode ser reaproveitado, desde que passe por uma central de reprocessamento - e aí começa a nascer uma eventual bomba atômica. Ocorre que a cinza do reator contém ainda muito urânio e um pouco de plutônio - a matéria-prima utilizada na fabricação de armas atômicas.

Durante o governo Figueiredo, o interesse pela bomba fica claro até mesmo em algumas reuniões das 9 no Palácio do Planalto - aquelas que o presidente tinha diariamente com seus auxiliares mais chegados, os chamados ministros da casa. Nessas reuniões, decidiu-se isentar a importação de peças para uma usina de reprocessamento de combustível e examinou-se um oferecimento de combustível enriquecido feito pela China. Anos antes, Cyrus Vance, secretário de Estado do governo americano, chegou a oferecer ao Brasil uma usina de reprocessamento a ser compartilhada com a Argentina, em território brasileiro. A idéia dos americanos era estimular esse empreendimento, que, por sua natureza binacional, ficaria mais facilmente exposto à fiscalização internacional. A Argentina aceitou a idéia. O Brasil, com um olho posto na experiência de Israel, que fabricara a bomba a partir do plutônio retirado de uma usina comum, rejeitou a oferta de Vance.

PATRIMÔNIO ADEQUADO - Comparada com outras usinas, Angra I revela-se um fiasco quase incompreensível. A hidrelétrica de Itumbiara, na divisa de Minas Gerais com Goiás, começou a ser construída na mesma época que ela, ficou pronta em apenas quatro anos e meio, custou duas vezes e meia menos e produz 2,1 milhões de quilowatts - três vezes mais do que a central nuclear deveria produzir com sua carga de 51 toneladas de urânio. Muda-se o parâmetro para algo mais adequado - outra central nuclear - e a defasagem persiste. Na Alemanha Ocidental, existe o que se poderia chamar de "usina de referência" para as futuras centrais nucleares brasileiras, Angra II e Angra III, em construção ao lado de Angra I. É a usina de Grafenrheifeld, instalada no sul do país e muito parecida com as duas que a Alemanha vendeu ao Brasil através do acordo que os dois países assinaram em 1975. Inaugurada em 1983, no ano em que Angra 1 foi ligada, essa usina parou uma única vez - e apenas por um dia do ano.

Angra I é a única face visível do uso comercial do átomo no país - e essa face amarga. Não se pode dizer com segurança que um dia ela vá funcionar a contento - e, nesse caso, suprir 1% das necessidades energéticas do país, conforme permite seu potencial. Será pouco para o que custou mas ainda assim valerá a pena fazê-la entrar nos eixos de vez. "Já que chegamos a esse ponto, é melhor tê-la produzindo do que parada", diz o físico José Zatz, da Agência para Aplicação de Energia do Estado de São Paulo e um crítico das centrais nucleares. "Mas isso desde que o cumprimento normas de segurança seja inspecionado por gente que não trabalhe em nenhuma das entidades que controlam e operam a usina", afirma o físico. Zatz é mais um dos muito desconfiados com o pessoal responsável pela existência e pelo funcionamento do paquiderme.

CONGELAMENTO - A face ainda invisível. do uso comercial do átomo está embrulhada no acordo com a Alemanha Ocidental, através do qual o Brasil encomendou oito usinas que ficariam pronta até 1990. De concepção diferente de Angra I, essas centrais foram sendo abatidas uma atrás da outra a partir da constatação, pelo governo Figueiredo, de que o país, àquela época no declive de uma grave crise econômica, não tinha dinheiro para bancar a encomenda nem necessidade de toda a energia elétrica que as novas usinas produziriam. Limitou-se, então, o projeto ao início das obras de Angra II e III. As demais usinas encontram-se congeladas no papel e ali ficarão por tempo indeterminado.

"O governo pretende acabar Angra II, que está quase pronta, mas não tomou ainda uma decisão a respeito de Angra III", garante Henri Philippe Reichstuil, secretário-geral da Secretaria do Planejamento. No primeiro caso, não há praticamente como discordar da decisão. O governo já gastou mais de 2 bilhões de dólares na usina, que tem 75% de seus equipamentos já importados e guardados em três depósitos. "Não podemos jogar fora o que já foi investido", diz Reichstul. Mesmo assim, as obras da segunda usina em Angra dos Reis estão praticamente paralisadas.

Do ambicioso programa nuclear brasileiro, montado nos anos 70, resta assim bem pouco e o que ficou tem a aparência de algo salvado do incêndio. A Nuclebrás é hoje um órgão de 5 500 funcionários, cuja principal função é a de olhar uns para os outros, conforme descobriu a malícia da própria comunidade envolvida nesse flerte. O namoro sai caro. Com base em dados do orçamento deste ano, as seis empresas que se abrigam sob o guarda-chuva da Nuclebrás deverão gastar 329 milhões de cruzados com sua folha de pagamento. Uma dessas crias da Nuclebrás, a Nuclep, uma indústria que deveria produzir uma central nuclear por ano segundo a fantasia de seus criadores, está ociosa em Itaguaí, a 80 quilômetros do Rio, depois de devorar 350 milhões de dólares. Da mesma forma, uma usina para enriquecimento de urânio, construída em Resende, também no Estado do Rio, vaga no sonambulismo.

FICHA CONTRA - Tem razão, portanto, o cidadão que olha intrigado para o projeto nuclear do governo brasileiro posto em circulação nos anos 70. Angra I é um caso típico de coisa intratável pelo prisma da racionalidade. Ao comprá-la, os responsáveis pela transação ficaram na mesma posição de uma pessoa que adquirisse um apartamento de 1,5 milhão de cruzados para entrega em um ano e acabasse pagando 9 milhões de cruzados pelo imóvel com um prazo de entrega esticado para o dobro do original. Esse comprador, além disso, entraria num apartamento que só seria habitável com uma reforma - e a ele competiria arcar corri os custos dos consertos.

Para gastar 1,8 bilhão de dólares em algo de má qualidade que lhe fora oferecido por 300 milhões, o regime militar teve de se proteger dos críticos, movendo-lhes uma cuidadosa caçada. O próprio Goldemberg foi indicado para a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo ex-ministro Delfim Netto, em 1981, e teve sua nomeação vetada pelo Serviço Nacional de Informações. Outro físico, Jaime Tiorrimo, indicado em 1979 Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen, acabou igualmente bombardeado pelo SNI. Em sua ficha no órgão de informações constava um registro que o dava como comunista e outro que o definia anticomunista. Na dúvida, o SNI aconselhou a nomeação de Tiommo, um homem de idéias políticas moderadas que provavelmente se colocaria eqüidistante das duas extremidades a que foi lançado na ficha policial.

CAROÇO MILITARIZADO - Fenômeno típico da ditadura, essa perseguição físicos esculpiu um dos mais claros movimentos ao hábito das decisões centralizadas. Para um regime que se julgava onipotente, nada mais natural do que calar os donos de opiniões diferentes. Se eles tivessem sido chamados para opinar, é possível que desastres como o de Angra I fossem sem minorados. Alguma coisa mudou de lá para cá. Os críticos de ontem podem agora ocupar postos em órgãos como a Funarte ou o CNPq. Na sua essência, porém, o programa nuclear mantém um caroço militarizado, esquivo e inacessível aos adversários de ontem.

Numa conta final, prática e simples, acaba-se por revalidar a grande lei de Simonsem, formulada em 1981 pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen. "Em muitos casos, é melhor pagar a comissão do que fazer a obra", reza a lei. Se isso tivesse sido aplicado no caso de Angra I, ninguém hoje teria muita razão para se lamentar. Supondo-se uma comissão de 1% sobre o preço inicial da usina, de 300 milhões de dólares, todas as pessoas com alguma participação no a propina teriam levado em conjunto 3 milhões de dólares, suficientes para a construção de um belíssimo condomínio na praia de Grumari, em Angra dos Reis. Assim, pelo menos haveria alguma coisa funcionando no local e o país teria economizado uma bolada de 1,8 bilhão de dólares, dinheiro suficiente para reformar toda a rede ferroviária que serve a região metropolitana do de Janeiro.


Westinghouse:
uma caixa preta e ruim


A Westinghouse, tradicional indústria americana fabricante de máquinas de lavar roupa, aparelhos de telecomunicação e medidores elétricos, cujas vendas anuais giram em tomo de 10 bilhões de dólares, é tida como uma das empresas mais confiáveis do mundo. No seu ramo de produção nuclear, responsável por cerca de 35% do total de investimentos do conglomerado industrial, paira, contudo, uma sombra de dúvida. Com 71 usinas atômicas espalhadas por doze países, a Westinghouse nunca registrou um real acidente com escapamento de vapor radioativo para o meio ambiente ou para dentro do prédio onde trabalham operários desprotegidos. Um exame mais cuidadoso revela, porém, que durante cinco anos, de 1978 a 1982, a empresa produziu e vendeu usinas com defeito genético, uma marca de nascença que, se não as tornou arriscadas para o manuseio, as transformou num tormento para os donos. Nessas usinas, a água usada no sistema de refrigeração do reator é bombeada com tal força que as tubulações se deterioram mais depressa do que a capacidade dos operários da usina em trocá-las.

A Westinghouse também é acusada, em pelo menos uma vez, de se ter envolvido num caso de suborno. O governo da atual presidente das Filipinas, Corazón Aquino, reuniu evidências de que em 1974 a Westinghouse teria subornado o ditador Ferdinand Marcos, então presidente filipino, para vencer uma concorrência que lhe daria direito de instalar um reator nuclear no país. Jesus Vergara, ex-presidente da filial de vendas da Westinghouse nas Filipinas, revelou, durante um interrogatório feito em abril deste ano por agentes de Aquino, que a empresa americana teria pago 50 milhões de dólares a autoridades filipinas, dos quais 30 milhões teriam ido parar nas mãos de Marcos. "O negócio da Westinghouse é a transação mais limpa de Marcos", ironizou Vergara no depoimento. A Westinghouse nega até hoje tal história.

AUMENTO DE CUSTO - A usina, que segundo seus engenheiros projetistas custaria cerca de 650 milhões de dólares, ficou por 2,2 bilhões de dólares, numa situação que lembra o fantástico aumento de custo registrado em relação à usina de Angra I. Além disso, a usina construída nas Filipinas apresentou vários defeitos de funcionamento e, hoje, doze anos após seu início, está parada. Os especialistas em energia nuclear contestaram a qualidade da construção. Havia defeitos na parte elétrica, nos postes que sustentavam os milhares de metros de cabos elétricos e nos canos que conduziam vapor e água radioativos. Segundo informações obtidas pelo inquérito aberto por Corazón Aquino, a Westinghouse ocupou-se de alguns desses problemas simplesmente reescrevendo as especificações técnicas depois que a usina já estava construída.

As usinas problemáticas da Westinghouse foram vendidas a granel. Onze delas estão instaladas nos Estados Unidos, uma na cidade de Almaraz, na Espanha, e outra em Ringhlas, na Suécia. Tanto em Ringlilas como em Almaraz o defeito do reator trouxe problemas sérios. Ringbias nunca conseguiu passar de 50% de sua potência máxima projetada. Almaraz chegou a atingir um máximo de 60%, em meio a uma série de dificuldades sérias, e parou . A usina de Angra I apresenta problemas semelhantes aos registrados nessas duas centrais e nas Filipinas. O que falta para que os casos brasileiro e filipino sejam iguais é a evidência de que no Brasil houve suborno.


 
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