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5 de junho de 1985
Massacre
em
Bruxelas
Torcedores ingleses
provocam chacina
na final da
Copa Européia: 38 mortos
O clima exibia a clássica mistura de nervosismo e euforia, temperada pelo ar geral de festa que costuma anteceder os grandes acontecimentos esportivos. Na tribuna oficial do Estádio de Heysel, de Bruxelas, na Bélgica, onde jogariam a Juventus, da Itália, e o Liverpool, da Inglaterra, pela final da Copa Européia de Clubes Campeões, encontrava-se Jacques Delors, ex-ministro das Finanças da França e atual presidente da Comunidade Econômica Européia - e sua presença simbolizava o tom de grande gala e de congraçamento continental que marcava o acontecimento. Em Londres, como milhões de outros ingleses, a primeira-ministra Margaret Thatcher postou-se à frente de um aparelho de televisão, em sua residência no histórico número 10 da Downing Street, para acompanhar o jogo. O mesmo fez, em Roma, o octogenário presidente italiano Sandro Pertini, recolhido aos aposentos privados do Palácio Quirinale.
O que acabou por assinalar a noite de quarta-feira passada, porém - uma noite que vai passar para a história do futebol mundial com mais força do que muitas decisões de Copa do Mundo - não foram os passes inteligentes do francês Michel Platini, o grande astro da Juventus de Turim, nem as arrancadas em direção ao gol do centroavante Rush, o celebrado artilheiro do time do Liverpool. Em vez de futebol, o que se viu foi um inédito espetáculo de barbárie, horror e morte - patrocinado, mais uma vez, pelos torcedores ingleses, que nos últimos dez anos vêm espalhando o terror nos estádios da Europa com seu comportamento selvagem. Em vez de gritos de gol, ouviram-se gritos de socorro. Em vez do colorido das bandeiras, destacou-se dramaticamente o vermelho do sangue. Desencadeada por uma monumental briga de torcidas e prolongada pela derrubada de um muro, sem falar nas inevitáveis correrias, no pânico e nos pisoteamentos, uma tragédia tomou conta do Estádio de Heysel - uma das maiores da história das competições esportivas.
As cenas de horror duraram 1 hora e 15 minutos - e tornaram decididamente irrelevante o resultado do jogo, iniciado com 60 minutos de atraso. A Juventus venceu por 1 a 0, gol marcad por Platini de pênalti, e conquistou pela primeira vez a Copa Européia. Mas faltou ânimo para qualquer comemoração. Tanto para jogadores e torcedores presentes ao estádio quanto para milhões de telespectadores que testemunharam pela televisão o massacre de Bruxelas ficará para sempre na memória outro p!acar, muito mais chocante: 38 mortos e 454 feridos, 270 dos quais hospitalizados. Alguns estavam em estado de coma, outros tinham fraturas expostas em ambas as pernas. Esses números ilustravam o clima geral de revolta e consternação que prontamente tomaria conta de todo o continente europeu.
AVISOS PRESSAGOS - "A Europa, que vive uma era de liberdade, não pode permitir que ocorram espetáculos de horror como o do estádio de Bruxelas", disse perante as Cortes, o Parlamento de seu país, o primeiro-ministro espanhol, Felipe González. No outro extremo do continente, a União Soviética aproveitou a chance para, num despacho da agência Tass, atribuir os incidentes "à crise do sistema capitalista". O massacre em que se transformou a final da Copa Européia tornou-se o assunto dominante e obsessivo também em outros pontos do planeta. A Argentina, por exemplo, ainda traumatizada pela guerra das Malvinas, viu no episódio uma excelente oportunidade para comprovar "a selvageria dos ingleses" e, de quebra, para endurecer sua própria legislação destinada a punir a violência nos estádios.
No item da identificação dos culpados, a Argentina não esteve sozinha - ao contrário. De uma ponta a outra da Europa execraram-se os torcedores ingleses, notórios por seus hábitos violentos onde quer que se encontrem. Acampados em Bruxelas desde o começo da semana, os torcedores do Liverpool trataram de emitir pressagos avisos do que estava por vir. Durante três dias, os agressivos forasteiros colecionaram bebedeiras, brigas, grosserias e desordens. Na terça-feira, um grupo de ingleses foi acusado de estuprar uma jovem numa das ruas da cidade. Na quarta-feira, outro bando depredou e assaltou uma joalheria, levando objetos no valor de 160.000 dólares. Pouco antes do jogo, enfim, eles começariam a briga que ensangüentaria o Estádio de Heysel.
"Trata-se de uma horda de vândalos incorrigíveis", acusou na Itália, ainda na noite de quarta-feira, o industrial Giovanni Agnelli, presidente da Fiat e, também, da Juventus. O governo italiano reagiu com palavras igualmente ásperas. Na Inglaterra, num ato de contrição, a primeira-ministra Margaret Thatcher ecoou: "Os responsáveis por essa tragédia trouxeram desgraça e vergonha para meu país". Na sexta-feira, depois de uma reunião com Margaret Thatcher, o presidente da Associação de Futebol da Inglaterra, Bert Millichip. anunciou que nenhuma equipe do país paricipará dos campeonatos europeus da próxima temporada. Os seis clubes atingidos pelo veto amargarão, em conjunto, um prejuízo de 2,5 milhões de dólares. Alguns de seus dirigentes esboçaram tímidas reações, logo abafadas pelo coro de aprovação da imprensa inglesa. "Devemos evitar a exportação de carne podre", bradou em manchete o jornal The Times, de Londres.
IMAGENS VIVAS - É provável que a decisão do governo inglês se tenha apenas antecipado a um veto, bem mais pesado e extenso, que a UEFA, a união européia de futebol, pretende examinar no começo desta semana. Há fortes indícios de que da reunião da UEFA emergirá a decisão de proibir qualquer time da Inglaterra de jogar fora do seu país. Já na sexta-feira passada, o govemo da Bélgica se dispensara de aguardar a reunião da UEFA e fechara suas fronteiras à entrada de equipes inglesas. No mesmo dia, o prefeito de Paris, Jacques Chirac, também lhes fechou os estádios da capital da França. Ninguém ousou queixar-se dessas atitudes - as imagens do massacre de Bruxelas ainda estão demasiado vivas.
Talvez seja necessário recuar até a II Guerra Mundial para recordar um episódio em que a mansa e pacífica Bélgica tenha sido sede de um episódio tão sangrento quanto o de quarta-feira passada - que, com a televisão funcionando como poderoso amplificador de cenas, alcançou dimensões continentais. O jogo seria transmitido para 77 países, com um público estimado em 300 milhões de pessoas. Essa gigantesca platéia acabou assistindo, ao vivo, a um espetáculo inédito na história da televisão - pela crueza das cenas, o nível de detalhamento e, sobretudo, a permanência e simultaneidade da selvageria. "Onde estamos? No Líbano?", perguntou-se a certa altura o locutor que narrava os acontecimentos para a televisão francesa. A TV suíça cortou suas transmissões pela metade. A TV alemã, ao saber que o jogo seria realizado de qualquer forma, suspendeu sua ligação com Bruxelas e, em vez de futebol, colocou no ar um editorial de protesto contra a decisão de deixar correr a partida.
Para milhões de europeus, foi mais ou menos como se o tristemente célebre massacre de Lod, em que um bando de terroristas passou a atirar contra indefesos passageiros no aeroporto de Telavive, em 1972, tivesse sido transmitido direto pela televisão. Uma coisa é ver cenas desse gênero num telejornal noturno, quando já se sabe o resultado e tudo é apresentado de forma ordenada e mais distante. Outra é contemplá-Ias, diretamente, ao vivo - e viver a agonia e o suspense do ato de adivinhar se determinada pessoa que está sendo pisoteada vai morrer, ou se aquele pai que procura o filho no meio dos escombros vai encontrá-lo. Pois precisamente tais cenas foram levadas ao ar no mesmo instante em que aconteciam - ou relatadas pelo depoimento desesperado das testemunhas. "Vi um menino de 6 anos ferido e seu pai morto a seus pés", contou René Buitenkand, um espectador holandês presente ao estádio.
PAUS E PEDRAS - O grande conflito do Estádio de Heysel, o maior da Bélgica, com todos os seus 65.000 lugares ocupados naquela noite, irrompeu no setor das arquibancadas onde torcedores ingleses e italianos estavam perigosamente próximos. Uma simples malha de aço separava os dois blocos, e nenhum policial ali se alinhava para vigiar tão precária fronteira. Por volta das 19 horas, 30 minutos antes do horário marcado para o início do jogo, grupos de torcedores ingleses desencadearam as primeiras escaramuças, atirando pedaços de pau, pedras, copos de plástico e garrafas nos italianos. A resposta dos agredidos vinha na mesma moeda - e os ânimos foram esquentando.
Quinze minutos depois, já em meio à batalha campal, os ingleses, sempre mais agressivos, forçaram o recuo dos adversários. Só então os italianos, acuados e em franca minoria naquele ponto do estádio, constataram que não teriam para onde escapar. Acima deles, as portas de acesso ao estádio estavam fechadas. Abaixo, erguia-se uma mureta de concreto cujo topo ficava a 5 metros do solo. Uma adolescente italiana, com sangue espirrando da cabeça, hesitou alguns segundos para saltar da mureta e ganhar a pista que rodeia o campo, até ser desequilibrada por pedras atiradas por ingleses e desabar no solo. Quando a situação já beirava o completo pânico a polícia belga resolveu intervir. Foi uma intervenção tardia e, sobretudo, desastrada.
Infiltrados nas linhas de retaguarda dos ingleses, os policiais começaram a atacá-los com cassetetes. Pressionados, os torcedores situados ao alcance das mãos da polícia empurraram os que estavam à sua frente, e estes se precipitaram sobre a frágil cerca de aço que os separava dos italianos. Não demorou muito para que a cerca desabasse - e aí desenhou-se verdadeiramente a tragédia. Cerca de 200 ingleses, particularmente violentos, invadiram o território inimigo abrindo caminho a golpes de pau, de mastro de bandeira ou a socos, investindo contra os italianos e precipitando-os arquibancada abaixo. Alguns, aterrorizados, saltaram das arquibancadas para a pista e quebraram as duas pernas. Outros pisavam sobre os que haviam caído. "Quem queria salvar-se tinha de passar por cima dos outros", admitiu em Milão, na sexta-feira, o italiano Edoardo Pizzocheri, sobrevivente da tragédia. "É terrível, mas foi assim mesmo."
CORPOS SOBRE CORPOS - Pior foi quando o muro pelo qual torcedores em fuga se lançavam das arquibancadas para o chão cedeu - então, eles passaram a ser remetidos em bloco para baixo. Pedaços de concreto despencavam sobre os que já estavam caídos e imóveis, corpos amontoavam-se sobre corpos. A certa altura, dezenas de pessoas precipitaram-se para o alambrado de três metros de altura, com fios de arame farpado no topo, na tentativa de escalá-lo e encontrar refúgio no gramado. Muitos ficaram presos no arame farpado. Outros chegaram ao gramado com os corpos rasgados.
"Nessa hora, fui pisoteado e quase desmaiei", contou a VEJA na sexta-feira o enfermeiro francês Paul Giraud, 45 anos, três filhos, que se deslocara do Havre para assistir à final da Copa Européia. Giraud voltou de Bruxelas vivo, mas com duas costelas quebradas, uma inflamação em cada joelho, lesões nas pernas e enormes hematomas nos cotovelos. Voltou, também, com lembranças terríveis, colhidas nos 10 minutos em que permaneceu estendido no solo. "Viu m rapaz ao meu lado morrer de asfixia", recorda. "E, ao levantar-me, descobri que a mulher que fazia peso em minhas costas também estava morta." Com os cotovelos, Giraud garantiu espaços para respirar. "Quando consegui erguer-me", lembra, "saí do estádio, comprei uma garrafa de água e fui embora."
No Brasil, as cenas sangrentas de Bruxelas chocaram mesmo alguns assíduos freqüentadores de arquibancadas já calejados em brigas de torcidas. "Evitar brigas é função da polícia", afirma Francisco Carlos Pereira, 24 anos, presidente da Torcida Uniformizada Leões da Fabulosa, da Portuguesa de Desportos, talvez a mais agressiva de São Paulo. "Houve falha do policiamento, que deveria ter dividido melhor as torcidas no estádio", concorda Avelino Leonardo Gomes, 33 anos, presidente da Gaviões da Fiel, uma das facções da torcida do Corinthians. "Os ingleses, todo mundo sabe, são animalescos", diz Gomes. Em Bruxelas, os erros da policia foram evidentes. Para começar, no princípio do conflito havia 220 policiais dentro do estádio contra 480 do lado de fora, um erro de estratégia nascido da falsa suposição de que os estopins da confusão estariam nos estacionamentos e nos portões de acesso, antes do início do jogo.
CÂMBIO NEGRO - Alem disso, mesmo os poucos policiais que se encontravam do lado de dentro estavam mal distribuídos - a ponto de deixarem completamente desguarnecido o lado das arquibancadas onde tudo começou. Mais tarde, as autoridades belgas explicaram que os torcedores italianos não deveriam estar ali. Seu lugar era no lado oposto, à direita da tribuna oficial - onde realmente ficou o grosso da torcida da Juventus. Aquela estreita faixa estava reservada aos espectadores belgas e de outros países neutros na disputa - tanto assim que nem se cogitou de protegê-la com uma fileira de policiais.
A ação intensa do cânibio negro, aparentemente aliada a um derrame de ingressos falsos, acabou tornando impossível uma rígida separação das torcidas com base na cor dos bilhetes - e uma pequena multidão de italianos acomodou-se em lugares reservados aos neutros. Expostos a um bloco inimigo em franca maioria, os torcedores da Juventus pagaram caro. Até a madrugada de sábado, contavam-se entre os 38 mortos 31 italianos. Havia também quatro belgas, dois franceses e apenas um inglês, Patrick Radcliffe, 37 anos, que trabalhava na sede da Comunidade Européia, em Bruxelas, e pela primeira vez em sua vida fora a um estádio de futebol.
O saldo talvez fosse menos brutal se a polícia tivesse chegado a tempo. No final do conflito, havia 5.000 policiais no estádio, mas então o pior já ocorrera. Enquanto apenas 700 policiais tentavam conter a desordem, o estádio de Bruxelas transformou-se numa terra de ninguém, e colecionaram-se desconcertanfés atos de barbárie. Jovens armados de punhais encurralavam pequenos grupos, torcedores indefesos eram atacados a pontapés. Numa cena documentada pela televisão, um homem aponta o revólver para um alvo desconhecido. Também os primeiros socorros demoraram a chegar - a primeira maca só entrou em campo 45 minutos depois de desencadeados os distúrbios. Sozinhos com seus próprios dramas, alguns torcedores surpreendidos pelo pânico não encontraram forças nem tranqüilidade para auxiliar-se mutuamente. "Quando a gente descobre, num momento desses, que está vivo, não consegue ajudar os outros", conta o comerciante belga Jeari-François Blutel, 25 anos, que escapou com apenas um arranhão no braço esquerdo. "A única coisa a fazer é olhar para os lados e chorar."
PEDIDOS DE CALMA - Enquanto a desordem, a violência e a desolação se instalavam no estádio, outro drama se desenvolvia nos vestiários. Os italianos não queriam entrar em campo, alegando falta de condições psicológicas para jogar e respeito pelos mortos. Os ingleses queriam. As autoridades belgas argumentavam que o anúncio de que a partida fora cancelada poderia gerar mais tumultos. Depois de nervosas negociações, decidiu-se que haveria jogo, e a voz dos capitães dos dois times soou no serviço de alto-falante, pedindo calma aos presentes. Neste momento, um grupo de excitados ingleses abriu uma frente de combate em pleno centro do gramado, atacando policiais belgas com barras de aço e pedaços do muro de concreto que despencara.
A decisão de jogar a qualquer custo permitiu aos aturdidos anfitriões ganharem algum tempo para a montagem de um esquema de emergência. No pátio de estacionamento, improvisou-se um hospital de campanha. Os feridos mais graves seguiam para hospitais de verdade, e em pouco tempo já nao havia leitos disponíveis em Bruxelas. Para um dos cantos do estacionamento eram transportados os mortos, que ali permaneceram enfileirados um a um e cobertos por lençóis. Terminado o jogo, 2.000 policiais organizaram a retirada das torcidas de modo a impedir que ingleses e italianos cruzassem seus caminhos.
Na noite de quarta-feira, torcedores da Juventus protagonizavam cenas semelhantes às que se seguem a uma catástrofe natural. Centenas deles haviam perdido dinheiro e documentos na confusão e tiveram de procurar abrigo e ajuda junto à embaixada de seu país, que providenciou aviões militares para levá-los de volta a Turim. Não houve festas na cidade da campeã Juventus - os poucos torcedores que tentaram comemorar a conquista da Copa Européia foram duramente recriminados pelos conterrâneos. Atrevidamente, alguns ingleses buscaram festejar a volta de torcedores do Liverpool, aclamando-os como heróis de guerra. A parte sadia da lnglaterra, contudo, estava francamente envergonhada.
A tragédia do Estádio de Heysel acendeu potentes holofotes sobre os torcedores ingleses - uma nova espécie de bárbaros, responsáveis por flagelos contumazes nas diversas cidades européias por onde circulam. Brigas em campos de futebol são frequentes em qualquer país do mundo. No Brasil, por exemplo, pancadarias entre torcidas rivais são relativamente comuns. Além disso, encontra-se em extinção a figura do torcedor que, vestido com a camisa do seu clube, vai ao estádio sozinho: manda a precaução que sejam formados grupos preparados para a autodefesa. Diferentemente da Inglaterra, porém, não existem no Brasil grupos que se organizam com a intenção expressa de ir brigar nos estádios de futebol.
DELITOS VARIADOS - A Argentina, país onde ultimamente torcidas rivais têm-se enfrentado a tiros e coquetéis Molotov, talvez seja a única nação futebolística a apresentar alguns pontos de semelhança com o comportamento da torcida inglesa. Mas o que na Argentina é ainda episódico tornou-se rotineiro entre os ingleses. Quando viajam na esteira de seus times, eles não só promovem desordens inesquecíveis nos estádios como patrocinam assaltos, arruaças e outros tipos de delitos nas ruas das cidades que visitam.
Extraordinário é que isso aconteça justamente com os ingleses - não só os inventores do futebol mas também, como nenhuma outra das nações modernas, os propagadores do respeito aos direitos humanos e da convivência civilizada entre as pessoas. Assim como nas ruas um policial inglês não carrega armas nem um cidadão inglês precisa andar com documentos, no princípio o comportamento da torcida inglesa também configurava um padrão de civilização para o mundo - e os súditos de sua majestade costumavam olhar com um misto de espanto e superior ironia para os países que tinham o hábito de erguer alambrados em seus estádios, separando os torcedores do campo. Ainda nos anos 60 não havia essas cautelas nos estádios ingleses, e os espectadores, muitas vezes acompanhados da família, viviam em alegre comunhão com os jogadores.
Em 1969, num jogo realizado em Manchester, registrou-se uma histórica tijolada no goleiro do time visitante, durante uma partida entre o Manchester United e o Milan da ltália - e as coisas começaram a mudar. Pela primeira vez, levantou-se naquele mesmo estádio uma cerca de proteção. A princípio, era apenas uma cerca pela metade, colocada somente atrás dos gols. Mais tarde vieram turbulentas invasões de campo, e os ingleses se renderam ao alambrado completo. O futebol, no país, adquiria progressivamente os contornos de uma festa de violência, numa escalada que se tornou incontroláveI no final dos anos 70.
GREVE PREVENTIVA - Hoje, na Inglaterra, dia de futebol - especialmente quando há algum título em disputa - é dia de desordens e selvageria. A depredação começa nos ônibus e nos trens que transportam os torcedores - não raro, os veículos chegam arrasados a seu destino. A festa macabra continua nos estádios e em seguida se espalha pelas ruas. Depois de um jogo, nas grandes cidades da Inglaterra, só uns poucos carros circulam nos pontos de aglomeração. Sabe-se que ali, onde há bares e grupos nas esquinas, os grupos de marginais estão soltos. Essa epdemia de violência tem se manifestado em outros países do Império Britânico, como a Escócia e a Irlanda. Sempre que a seleção da Escócia joga em Londres, evento que ocorre a cada dois anos, os funcionários do metró londrino entram em greve preventiva, para escapar à ação dos torcedores escoceses.
A violência da torcida acabou por gerar outros fenômenos, já incorporados à organização social dos ingleses. Perto dos estádios, onde os riscos são sempre maiores, caíram os aluguéis e as casas postas à venda têm pouca procura. Nos cultos religiosos, aos domingos, por orientação da hieraraquia anglicana, os sermões alvejam com freqüência a violência no futebol - tema especialmente martelado nas igrejas dos bairros operários de Manchester, Leeds e Liverpool. A tragédia, nesse clima, acaba por rolar tanto quanto a bola, nos gramados.
Ainda no último dia 11, durante um jogo de segunda divisão na cidade de Bradford, o incêndio de uma arquibancada - se provocado ou não, ainda não se sabe - ocasionou a morte de 52 pessoas. Graças às suas proporções o acontecimento foi notícia ao redor do mundo. O que não se noticiou é que naquele mesmo dia, em Leeds, uma desordem com origens semelhantes às de Bruxelas acabou por provocar a queda de um muro e a morte de um menino de 15 anos, que assistia ao seu primeiro jogo de futebol.
DESEMPREGADOS - Por que os torcedores ingleses são assim? Eis aí uma questão em aberto, cada vez mais debatida no país - e para a qual se oferecem inúmeras explicações, sem chegar a um resultado conclusivo. Uma das respostas favoritas, nos últimos tempos, é o desemprego, que hoje afeta cerca de 3,2 milhões de pessoas na Inglaterra, o maior contingente de toda a Europa desenvolvida. Em favor dessa tese, seus defensores observam que a violência tem se manifestado de forma mais aguda nas cidades pesadamente industrializadas do norte. Mas outros países da Europa estão hoje às voltas com altos índices de desemprego sem enfrentar o problema dos distúrbios nos estádios. Outra teoria corrente na Inglaterra é a de que militantes de organizações de extrema direita, como a Frente Nacional, estariam infiltrados entre os torcedores briguentos.
No fim das contas, é provável que seja tão inútil perguntar por que um inglês gosta de badernas em estádios quanto por que um brasileiro gosta de Camaval. Um e outro gostam porque gostam. Na Inglaterra, o futebol vai se transformando num carnaval de selvageria, para o qual o torcedor se prepara como o folião se prepara para o baile. Dois ou três dias antes de um grande jogo, é comum encontrar grupos de ingleses entretidos em festejos antecipados: enquanto bebem em quantidades industriais, já se exibem com cachecóis e gorros, todos adornados com o emblema de seu clube, que carregam na ida aos estádios. Da mesma forma que para muitos brasileiros é essencial chegar embriagado ao baile de Carnaval, para muitos ingleses parece indispensável postar-se bêbados na arquibancada. Como no futebol, ao contrário do Carnaval, há uma disputa entre dois times - e portanto entre duas torcidas rivais -, o pretexto para a violência é muito maior. Há um adversário a atacar e vencer.
Acresce que o futebol oferece a oportunidade para se agir em gangues - e os ingleses, de algum tempo para cá, têm demonstrado especial predileção para esse tipo de organização tribal, seja a gangue do futebol, a gangue dos punks ou a gangue do heavy metal. O fato é que tal fenômeno tem espalhado terror não apenas dentro das fronteiras da Inglaterra como também fora dela. Quando um time inglês cruza o Canal da Mancha, o medo já viajou à sua frente. Mesmo antes dos incidentes do Estádio de Heysel, alguns países castigados por hordas de torcedores ingleses haviam tratado de prevenir tragédias maiores por meio do veto a novas visitas. Em meados da década de 70, por exemplo, Luxemburgo foi literalmente tomado de assalto por torcedores que seguiam seus clubes em decisões de campeonatos europeus. Desde então, times ingleses estão proibidos de jogar no pequeno país.
Num momento de alta civilidade no continente europeu, onde, talvez como nunca na história, vive-se uma experiência de fronteiras abertas e facílima convivência entre os povos, esses sentimentos despertados pela aparição de torcedores ingleses parecem particularmente penosos. "Às vezes, é muito difícil ser inglês", disse na noite de quarta-feira o legendário Bobby Charlton, ex-capitão da seleção nacional. Decididamente, não foi fácil ser inglês na semana do massacre de Bruxelas.
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