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5 de maio de 1982
Os ingleses atacam
Com o bombardeio do aeroporto
das ilhas Malvinas, a Inglaterra dá o
primeiro passo na guerra contra a
Argentina e tem a seu lado os EUA
Aconteceu, enfim, a explosão esperada há quatro semanas. Na manhã do sábado, com o céu ainda escuro sobre as águas geladas do Atlântico Sul, jatos Harrier saídos dos porta-aviões britânicos que navegam nas proximidades do arquipélago das Malvinas surgiram repentinamente sobre Port Stanley, ou Porto Argentino - a capital das ilhas inglesas invadidas pela Argentina no último dia 2 de abril. Numa operação fulminante, passaram a bombardear com foguetes e bombas de 450 quilos o aeroporto local, com o objetivo de inutilizá-lo para as operações da aviação argentina - e possivelmente, de preparar uma ofensiva em larga escala, cujos passos seguintes seriam o desembarque de fuzileiros navais nas ilhas e a batalha para retomá-las às tropas inimigas ali entrincheiradas. Com o bombardeio a Port Stanley, estava em curso, após tantos adiamentos, a guerra entre Inglaterra e Argentina. Seus contornos mais claros só deverão aparecer no início desta semana - e deles dependerá a sorte do regime comandado pelo general Leopoldo Galtieri.
Para enfrentar - e vencer - uma guerra, é preciso ter força econômica, poderio militar ou coesão política. Foi talvez pensando na ausência destes requisitos em seu país que o chanceler argentino Nicanor Costa Mendez acabou batendo às portas da ONU, em Nova York, na manhã de sexta-feira passada, para um esforço de undécima hora num sentido de adiar os primeiros choques armados com a Inglaterra, àquela altura tidos como praticamente certos. "A Argentina está disposta a negociar, negociar, negociar", declarou ele, um tanto aflito, pouco depois de a Inglaterra ter aberto o jogo com todas as suas cartas - e todo o poder de sua frota, que a partir das 8 horas daquele dia prometia abrir fogo sobre todos os navios ou aviões argentinos que encontrasse ao redor das Malvinas. Um dia depois, com o bombardeio de Port Stanley, a promessa começava a ser cumprida.
Havia motivos de sobra para preocupação em Buenos Aires, pois a principal vantagem estratégica dos argentinos sobre o inimigo - a sua proximidade de apenas 800 quilómetros da zona de batalha, contra os mais de 13.000 quilômetros que separam a Armada britânica da Inglaterra - ameaçava transformar-se agora num pesadelo nacional. Com os primeiros bombardeios, a guerra estava às suas portas e, dependendo de sua evolução e ampliação, entraria dentro de casa. Foi essa proximidade física que levou a população portenha a reagir com paixão diante do perigo.
Na verdade, esse perigo, embora anunciado e esperado há quase um mês, materializou-se nas águas glaciais do Atlântico Sul de forma desconcertante para os argentinos. Para começar, no domingo anterior, houve o que o almirante John Forster Woodward, comandante da frota britânica, chamara de "aperitivo" - a fulminante retomada da ilha Geórgia do Sul, a 1.300 quilômetros das Malvinas, que fez 156 prisioneiros argentinos, colocou fora de combate o submarino Santa Fé, e causou sérias rachaduras na fantasia, ostentada pela Forças Armadas da Argentina desde a invasão das Malvinas a 2 de abril último, de que seu país seria militarmente invencível no confronto. Depois, ao longo da semana, pipocaram notícias enervantes, como a de que mais 900 pára-quedistas ingleses estavam sendo embarcados em Portsmouth, rumo às Malvinas, e entoavam a célebre "Don't Cry for Me, Argentina", do musical "Evita", proibido pela junta militar. Soube-se, por outro lado, que uma bandeira britânica das ilhas Falkland estava a bordo do transatlântico de luxo Canberra, transformado em navio de apoio à força-tarefa - obviamente para ser fincada, algum dia próximo, no mastro da antiga residência do governador britânico, em Port Stanley.
TRÊS OPÇÕES - Por fim, veio o desafio decisivo. Confirmando indiretamente que as unidades-chave da frota inglesa haviam finalmente chegado a seu destino, a Inglaterra decretou o bloqueio total, naval e aéreo, às ilhas Malvinas, e ainda recebeu um elástico apoio político e diplomático dos Estados Unidos, acoplado de sanções contra o governo de Buenos Aires. Desta vez não se tratava de mera ameaça, como a que fora feita três semanas atrás, antes que o corpo da Armada chegasse à região. Agora, com sua frota tendo penetrado a fundo na "zona de guerra", os ingleses anunciavam que a partir das 8 horas da sexta-feíra qualquer navio ou avião adversário que fosse detectado num raio de 200 milhas das Malvinas seria destruído. Aquele dia correu sem incidentes mas na madrugada do sábado o bombardeio da pista de Port Stanley viria abrir de vez as hostilidades.
À Argentina, nessa hora da verdade, restaram três opções:
1) Furar o bloqueio à força, para reafirmar sua soberania na área e reabastecer suas tropas aquarteladas nas Malvinas.
2) Não fazer nada, esperando que a Inglaterra desse o próximo passo - a invasão militar das Malvinas -, e que tal invasão fosse repelida pelas forças entrincheiradas no arquipélago.
3) Reabrir uma nova frente diplomática que conduza a uma solução negociada da crise, antes, durante ou após os primeiros tiros.
Nesse terreno, até a manhã de sábado, ninguém parecia compreender coisa alguma sobre o que, afinal de contas, queriam os argentinos, devido, sobretudo, a uma declaração de Nicanor Costa Méndez. "A Argentina", disparou o polêmico chanceler, "apóia integralmente a Resolução 502 do Conselho de Segurança da ONU" - mas como, se tal resolução estabelece, como ponto de partida, justamente a retirada das tropas invasoras das Malvinas? Simultaneamente, Costa Méndez voltava a exigir, como condição prévia para negociações, a garantia da soberania argentina sobre as mesmas Malvinas, o que equivalia a voltar à estaca zero do impasse com a Inglaterra.
"Os argentinos falaram tanto nessas últimas semanas que não entendemos mais nada", desabafou, com ar cansado e cético, o chanceler inglês Francis Pyrn, antes de embarcar outra vez às pressas para os Estados Unidos. "Se eles aceitam a Resolução 502, o que, então, aínda estão fazendo nas FalkIand?", indagou Pym. O chanceler britânico se confessava particularmente atrapalhado em saber quem fala em nome de quem, na Argentina de hoje. "Há o presidente Galtíeri, há este senhor Costa Méndez, há a junta, há generais, há almirantes..." O próprio secretário de Estado americano, Alexander Haig, já havia sentido na carne essa pulverização do poder de decisão na Argentina. Durante sua última excursão a Buenos Aires, foram consumidos 250 cafezinhos, 62 litros de laranja, mas em vão - o que aparentemente acertado não valia realmente.
'VINTE A UM' - Alheios aos floreios verbais e longe do extenuante jogo de empurra-empurra diplomático, pelo menos um homem tratou de não perder o seu rumo, ao longo da semana passada: o comandante da força-tarefa britânica, "Sandy" (por seus cabelos ruivos) Woodward, que completou 50 anos no dia 1º de maio, no exato local para qual foi despachado de Portsmouth semanas atrás, dentro da "zona de exclusão total" decretada pela Inglaterra no Atlântico Sul. Woodward não tem poder de decisão para iniciar hostilidades, pois recebe ordens do Ministério da Defesa, em Londres. Mas a maneira de como as ordens devem ser executadas é de sua inteira responsabilidade. A julgar por suas declarações mais recentes, dadas a bordo do porta-aviões Hermes, a nau-capitânia, o "aperitivo" da Geórgia do Sul foi bem mais fácil de ser digerido do que promete ser o prato principal. "Não existe uma solução militar rápida para a reinstalação da administração britânica nas Malvinas se os argentinos decidirem opor resistência", disse ele na semana passada, antes do primeiro bombardeio de sua frota. De qualquer forma, Woodward excluía a possibilidade de um fracasso militar inglês. "As chances de nossa frota contra os argentinos no Atlântico Sul são de 20 a 1, e isso não é um blefe", disse ele.
O maior inimigo de "Sandy" parecem ser as condições meteorológicas da região e a longa espera a que estão sendo submetidos seus homens. "Viajar dentro de um navio de guerra moderno é quase como viajar no século passado", estima o ex-ministro da Defesa britânico Denis Healey, hoje deputado trabalhista. De fato, as condições físicas dos soldados se deterioram consideravelmente após quinze dias sem sair de um navio, sobretudo em águas tão inóspitas quanto as do Atlântico Sul nesta época do ano. Segundo um correspondente da BBC que acompanha a frota, ondas colossais chegaram por vezes a içar a popa das fragatas para fora da água, deixando suas hélices a rodar em falso no ar.
Nessas circunstâncias, quanto antes a frota britânica decidisse a parada para voltar para casa, melhor. Quanto mais tempo ela for obrigada a brincar de gato e rato com os argentinos, no congestionado campo naval das Malvinas, pior. A proteção de seus navios de guerra mais vulneráveis - os porta-aviões Hermes e Invincible - exige um acompanhamento tão intenso e obsessivo que na semana passada um helicóptero anti-submarino Sea King acabou alvejando uma baleia, guiado por seu equipamento de sonar.
ATOLEIROS E BURACOS - "Um bloqueio, como ação isolada, não faz sentido", comentou na semana passada o especialista em estratégia naval do Instituto Brookings, de Washington, Michael McGwire. "Ele tem de fazer parte de uma ação contínua, de uma invasão." Efetivamente, após o primeiro ataque sobre Port Stanley - e a falhar uma rápida e fulminante gestão diplomática de última hora - o próximo passo militar dos ingleses só poderá mesmo ser um desembarque nas próprias Malvinas. Na verdade, o embrião dessa operação já estava em andamento na semana passada.
Rumores cada vez mais insistentes de Londres davam conta da presença de agentes do supersecreto Special Boat Squadron no interior do arquipélago, para a coleta de informações sobre as tropas argentinas e para a escolha de possíveis locais de desembarque. Nas Malvinas praticamente não há estradas e as poucas trilhas que atravessam as ilhas não passam de uma sucessão de atoleiros e buracos, onde até mesmo motoristas de Land Rover, com tração nas quatro rodas, consideram um sucesso manter a média de 5 quilômetros por hora. É por essa razão, provavelmente, que o grosso das tropas argentinas esteve concentrado até agora em Porto Argentino, o antigo Port Stanley, e em volta do aeroporto, poucos quilômetros a leste.
Homem a homem, a teórica vantagem do defensor em terra sobre o atacante por mar também pode não ser real. Nem de longe os recrutas argentinos contam com a linha de equipamentos eletrônicos e helicópteros exibidos pelos ingleses, e sua capacidade de operar numa guerra modema é duvidosa. Além disso, lançando entre 5.000 e 10.000 soldados numa cidade que, antes do conflito, tinha pouco mais de 1.000 habitantes, os comandantes argentinos estenderam ao máximo os recursos de alimentos e água potável da capital. Na verdade, mesmo que tivessem mais soldados sustentados por uma infra-estrutura mais sólida, dificilmente os argentinos conseguiriam vedar as portas a um desembarque: profundamente recortado por baías e fiordes, o litoral das ilhas se estende por 2.400 quilômetros, a mesma distância, por exemplo, que separa o Rio de Fernando de Noronha.
VÁRIAS OPÇÕES - O grande dilema dos ingleses, assim, pode ser o de escolher, entre as várias opções possíveis, o ponto de desembarque mais abrigado de ondas, ventos e fogo inimigo. Se quiserem, os britânicos podem optar por um desembarque na ilha Grande Malvina, defendida por apenas 600 soldados argentinos; ou penetrar na baía de Choiseul, que virtualmente divide em dois a principal ilha do arquipélago, Soledad, onde se encontra a capital - e a bandeira argentina. Outra possibilidade, para os ingleses, seria chegar bem perto de Porto Argentino, aportando na região da baía de Berkeley, onde praias extensas de areia facilitariam a operação dos lanchões de desembarque.
Seja qual for o plano de ataque escolhido, a destruição prévia da pista do único aeroporto das ilhas constava de todos eles. Na manhã do sábado, após o bombardeio efetuado pelos Harrier, erguia-se a questão de como a ofensiva inglesa iria continuar. Ao mesmo tempo, um dos cenários mais debatidos na semana passada era o de que o navio de assalto Fearless, tendo a bordo a maior parte dos 1.300 fuzileiros navais da frota, se desligaria do corpo principal da Armada - provavelmente aquartelado a cerca de 150 quilômetros a leste do arquipélago, fora do alcance dos aviões inimigos baseados na costa da Argentina - e seguiria para o ponto de desembarque escolhido. Acompanhariam o Fearless entre três e cinco contratorpedeiros e fragatas, com uma dupla missão: protegê-lo de ataques aéreos com seus mísseis e participar, com os canhões de bordo, do silenciamento de possíveis focos de resistência.
O ataque começaria com uma equipe de homens-rãs, que limparia a praia de minas. Depois viriam os comandos de fuzileiros navais, desembarcando de lanchões, na costa, e de helicópteros, mais para o interior da ilha. Outros pára-quedistas, além dos agentes do SBS, realizariam ataques-relâmpago em outras áreas, para distrair as defesas e forçar os argentinos a espalhar seus recursos. Ao optarem por um desembarque desse tipo, os ingleses poderão apanhar o inimigo pelas costas e evitar um custoso ataque direto a Porto Argentino, capaz de destruir a cidade, quase toda formada por construções de madeira, e causar grandes baixas entre militares e civis.
Idealmente, os britânicos usariam então sua mobilidade superior para fechar o cerco em torno da capital - e levar os defensores à rendição pelo isolamento e pela fome. Mesmo a larga superioridade numérica dos argentinos no ar - 230 aviões contra no máximo 60 da frota inglesa - não significa um obstáculo insuperável. A porção mais efetiva da força aérea argentina - os caças a jato Mirage III, Super Etendard e Skyhawk - não pode operar do aeroporto das Malvinas, pequeno e batido por fortes ventos. Por outro lado, seus pilotos gastariam tanto combustível na viagem do continente que poderiam no máximo ficar 15 minutos sobre o terreno - problema que não afeta os Harrier ingleses, operando dos porta-aviões que navegam um pouco a leste das ilhas.
'BANDO DE RUFIÕES' - Paradoxalmente, porém, não foram os planos de ataque britânicos que suscitaram as mais estridentes reações palacianas em Buenos Aires, na semana passada. Antes do ataque de sábado, o primeiro grande choque para os argentinos veio com o anúncio feito pelo secretário de Estado americano, Alexander Haig, na tarde de sexta-feira, de que os Estados Unidos passariam a intervir diretamente no conflito - ao lado da velha Inglaterra. Na verdade, desde o fracasso da missão negociadora empreendida por Haig, um esforço iniciado logo no início da crise e encerrado na semana anterior, as relações EUA-Argetina já haviam começado a rolar ladeira abaixo. E na última segunda-feira, quando o secretário de Estado, após apenas 3 minutos de conversa com o chanceler Costa Méndez, saiu do gabinete do secretário-geral da OEA, em Washington, de cara amarrada, foi fácil perceber que o entendimento havia acabado - afinal, a reunião estava programada para durar uma hora.
No dia seguinte, vazava nas colunas do New York Times a frase de Haig segundo a qual o governo argentino não passava de um "bando de rufiões" - e não tardou para que o próprio Senado dos EUA aprovasse resolução, por 79 votos a 1, estabelecendo que os Estados Unidos deveriam apoiar os ingleses em caso de conflito. A decisão não foi surpresa. Desde o início da crise, a posição básica americana foi a de que não se devia premiar a agressão argentina - e embora, como aliados ao mesmo tempo de Londres e Buenos Aires, os EUA se empenhassem a fundo em evitar uma briga entre amigos, era certo que penderiam para o lado inglês se tal briga se tornasse inevitável. Assim, quando ficaram esgotadas todas as possibilidades para uma retirada argentina das ilhas, Ronald Reagan aceitou adotar sanções contra seu mais recente ex-amigo latino-americano.
Se analisados friamente, os itens que compõem essa lista inicial de punições são quase inócuos - seu significado é essencialmente político. O embargo de vendas de armas a Buenos Aires, por exemplo, já existia na prática, no quadro da emenda Humphrey-Kennedy, de 1977. A suspensão de créditos pela Commodities Credit Corporation (órgão que depende do Ministério da Agricultura dos EUA e funciona como avalista de empréstimos dados por bancos privados americanos para a venda de produtos agrícolas) também não afetará o governo Galtieri de forma sensível.
O bloqueio de créditos do Eximbank poderá doer a longo prazo, se persistir - mas também aqui o pior não se materializou para os argentinos. O bloqueio só vale para novas linhas de crédito, não afetando as já aprovadas, como as destinadas para a construção da hidrelétrica de Yaciretá. Na verdade, se os EUA tivessem querido ferir mais fundo a Argentina, congelariam seus bens em bancos americanos e suspenderiam o comércio entre os dois países, aproximando-se assim das sanções adotadas pelo Mercado Comum Europeu.
UM FANTASMA - Mesmo suaves em seus efeitos, porém, as sanções demonstraram de forma cabal que os Estados Unidos não querem mais nada com a Argentina nesta crise, e aceitam plenamente a perspectiva de perdê-la como um de seus principais aliados na América Latina. Os generais argentinos, na estimativa do governo americano, se portaram de maneira a tornar tal aliança impraticável - não só atacando um outro aliado, muito mais estável, antigo e importante, como também não colaborando com a missão pacificadora de Haig. De mais a mais, é possível que a Argentina estivesse perdida para a diplomacia americana de qualquer forma - não terá escapado a Washington, certamente, a possibilidade de um colapso do governo Galtieri no desfecho da crise, e sua substituição por uma equipe visceralmente hostil aos Estados Unidos.
O significado político da decisão americana e a gélida temperatura que começou a vigorar entre Buenos Aires e Washington não passaram despercebidos no Brasil e fizeram o chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro trancafiar-se no Itamaraty, com sua equipe, até as 10 horas da noite da última sexta-feira, para a elaboração de um telegrama endereçado ao secretário-geral da ONU. "O governo do Brasil considera imperativo que sejam imediatamente acionados os mecanismos previstos na Carta das Nações Unidas para a manutenção da paz e da segurança internacionais", dizia o telegrama, cuja primeira leitura indicava estar a diplomacia brasileira prevendo a eclosão do choque militar nas Malvinas a qualquer momento. Adversário ferrenho de quaisquer sanções unilaterais de qualquer país, o chanceler brasileiro também fez saber seu ponto de vista ao govemo dos Estados Unidos, por meio de carta endereçada a Alexander Haig. Uma preocupação nova do Itamaraty, a julgar pelo depoimento de um dos assessores de Saraiva Guerreiro, é com o vazio político deixado pelo afastamento dos EUA das negociações, que poderia estimular a participação da União Soviética no conflito - ou pelo menos o fantasma que isso provoca nos círculos militares de Brasilia.
Não é seguro, ainda, corroborar a tese amplamente aceita nas três Armas brasileiras de que Galtieri, vitorioso ou derrotado, abra espaço para a esquerda argentina voltar às ruas - e talvez ao poder. "Quando o Chile viveu esse processo e se tornou reduto de nossos exilados, no governo AIlende, tivemos grandes sobressaltos. E o Chile não faz fronteira com o Brasil. Imagine isso num país com o tamanho e a importância da Argentina", lembrava, um tanto assustado, um funcionário graduado do governo na semana passada. Mas o fato é que o aparecimento de retratos da ex-presidenta Isabelita Perón, dos símbolos dos Montoneros e da Juventude Comunista batendo nas portas da Casa Rosada, em Buenos Aires, não deixa de ser incómodo. Para todos os efeitos, trata-se de manifestações patrióticas de apoio ao governo, num momento de perigo nacional - mas, a cada dia, tais propósitos vêm assumindo os contornos de uma ficção.
ATÉ 1984 - Fustigado pela frota inglesa, por um bloqueio econômico da Europa e sanções políticas dos EUA, o regime argentino recorreu, no exterior, à fictícia "unidade latino-arnericana" da OEA e, no plano interno, viu-se levado a procurar apoio nos partidos polfticos, considerados supérfluos até a invasão das Malvinas. Na semana passada, por exemplo, revelou-se que um enviado do Ministério do Interior, em carro oficial, foi ao retiro do vetusto ex-senador peronista Vicente Saadi, em Tortuguitas, a 80 quilômetros de Buenos Aires. Com bons contatos na América Central, Saadi recebeu dos militares um pedido de seus "bons ofícios" para viajar a alguns países - e, velha raposa, cobrou o preço da libertação de todos os presos políticos sem processo, o regresso dos exilados e uma eventual anistia. Saadi não foi o único adversário despachado em missão diplomática. O alto comando peronista julga que os exilados devem voltar o quanto antes à Argentina, porque "o poder militar está debilitado internamente e em guerra". Para não provocar um prematuro fosso com os militares, essa revoada não incluiria os exilados comprometidos com a subversão e a guerrilha.
Assim, o governo argentino viu de repente a ação "patriótica" de seus exóticos pombos-correio transformar-se numa estratégia de fortalecimento dos políticos oposicionistas no âmbito interno. Preocupados, os expoentes da linha dura da Marinha e do Exército argentinos começaram a fazer ameaças. "Os frutos que o peronismo e a esquerda poderão recolher da guerra nas Malvinas", dizem, "serão equivalentes aos que recolheria o Chile - ou seja, continuarão sendo tratados como inimigos perigosos." Mas o fato é que o governo militar não controla as manifestações de rua, não pode impedi-Ias e ganhou com elas uma frente suplementar de preocupações. Com efeito, a efervescência civil bateu todos os recordes em Buenos Aires, na semana passada. "1984 é a data-limite para a entrega do poder por meio de eleições livres, sem condicionamentos ocultos", disse a VEJA o herdeiro peronista Deolindo Felipe BittelI, 59 anos. "A corrida começou e estamos na cancha com o objetivo de ganhar, ou pelo menos empatar."
DRAMA REAL - Com a agonia de uma dívida externa que excede três vezes e meia suas exportações, cujos juros absorvem mais da metade dessas mesmas exportações, e com seus mercados externos parcialmente bloqueados, o govemo Galtieri tem também pela frente uma duríssima batalha econômica. Por enquanto, o regime só está conseguindo novas adesões empresariais em setores ligados à economia de guerra. Há duas semanas, por exemplo, aterrissaram nas mesas dos principais executivos de empresas argentinas de alimentação, roupas e remédios pedidos específicos do governo para a guerra. Posteriormente, os militares solicitaram à moribunda indústria automobilística um plano de reconversão de suas linhas de produção para fins bélicos.
Embora os efeitos práticos de tal plano sejam altamente duvidosos, há uma ruidosa aparência de mobilização. A Alpargatas Argentinas aumentou sua produção de tecidos rústicos para soldados. A Talleres Eletromecânica do Norte, onde foram remodelados os velhos tanques Sherman americanos, passou a acelerar a produção de sistemas de transmissão, freios e motores. Caminhões pesados da Fiat receberam de graça um novo mercado. Mas esses espasmos de atividade económica na Argentina de hoje são tão enganosos quanto as manifestações de massa em apoio à invasão das Malvinas, ou as lendas oficiais sobre a impossibilidade de uma derrota militar. Por trás de todo este vasto jogo de cena há o drama da vida real - um inimigo armado, na porta de casa, que começou enfim a atirar, e com o qual o regime argentino terá de se haver sozinho. |
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