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5 de abril de 1989
Terremoto no Leste

Os soviéticos infligem nas urnas uma
derrota fragorosa à cúpula dirigente
e avançam um passo histórico nas
mudanças que sacodem o comunismo

Desde 1917 não se via algo semelhante na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Primeiro, se marcaram eleições em que se permitiu a participação de candidatos que defendessem algo diferente das diretrizes do Partido Comunista. Depois, durante a campanha foram promovidos animados comícios eleitorais, manifestações de rua e debates entre os candidatos - alguns deles até transmitidos pelo rádio. Por fim, no domingo da semana passada, dia 26, 180 milhões de soviéticos foram às urnas para, através do voto, afirmar o que pensam do governo comunista e da política de abertura do presidente Mikhail Gorbachev e dos que, pela direita ou pela esquerda, se opõem ao ritmo da glasnost. Os resultados foram acachapantes: não houve figurão do Partido Comunista que não amargasse derrotas humilhantes. Em Moscou, Boris YeItsin, um ex-membro da cúpula do governo que foi afastado da direção do partido por atacar a lentidão com que Gorbachev dava passos no sentido da reforma, recebeu nada menos que 89,4% dos votos, esmagando o candidato oficial da burocracia. Os soviéticos disseram "não" àqueles que se dizem os legítimos herdeiros da revolução que instaurou o comunismo no país, em outubro de 1917.

Em todos os cantos do país, a situação de Moscou se repetiu, vitimando generais, almirantes, chefes regionais do PC e dirigentes da KGB, o sinistro e temido serviço secreto soviético. Os eleitos, por sua vez, foram oposicionistas de longa data, dissidentes que até há pouco estavam na cadeia, representantes de minorias nacionais, candidatos que defenderam o pluripartidarismo ou os "pobres". Até nos lugares em que só concorriam os candidatos oficiais do governo houve derrotas humilhantes. Em Leningrado, a segunda maior cidade do país, Yuri Solovyev, membro consultivo do Politburo, a instância máxima do partido, foi às umas como candidato único, mas mais da metade dos eleitores escreveu na cédula que não o queria como seu representante. Como ele não teve 50% dos votos, novas eleições terão de ser realizadas em Leningrado.

"Escola da democracia" - O mesmo processo de novas eleições terá de ser feito em Kiev, a terceira cidade do país, onde o prefeito era candidato e foi derrotado pelo "não". Na Lituânia, onde concorreram candidatos de oposição, os movimentos nacionalistas conquistaram 32 dos 42 cargos em disputa. Na Armênia, onde as organizações nacionalistas não conseguiram registrar seus candidatos, elas fizeram campanha pelo boicote - e mais de 50% dos eleitores não foram às urnas. Na cidade de Yaroslav, no norte da Rússia, por fim, deu-se a mais estapafúrdia das derrotas: o general Boris Snetkov, comandante das forças militares soviéticas na Alemanha Oriental, perdeu a eleição para um tenente-coronel que fez campanha pregando uma "reforma radical" da organização do Exército, inclusive com o fim do serviço militar obrigatório.

A derrota dos candidatos apoiados pela direção do PC, dada a sua amplitude, pegou o governo soviético de surpresa. Essa surpresa se manifestou nos órgãos de imprensa, que estamparam interpretações radicalmente opostas dos resultados eleitorais. No noticiário de televisão da noite de segunda-feira passada, equivalente ao Jornal Nacional, mal se percebeu que o país saíra de suas eleições mais livres em 72 anos: foram quatro minutos de entrevista com o responsável pelas apurações, que não deu os resultados. O Pravda, jornal oficial do PC, não noticiou que Boris YeItsin havia recebido quase 90% dos votos e disse que os moscovitas não haviam dado mostras de "uma cultura política suficiente" ao não elegerem o candidato da direção do partido. Já o Izvestia, o jornal do governo, saudou os resultados com manchetes eufóricas do tipo "A escola da democracia" e "O símbolo das mudanças".

A confusão na imprensa foi tão grande que o próprio Gorbachev convocou os editores dos principais jornais e revistas para uma conversa na quarta-feira. "Os resultados não devem provocar alarme", disse o líder soviético aos jornalistas. "Numa democracia de verdade há sempre candidatos vencedores e perdedores." O balanço geral que Gorbachev fez das eleições é ambíguo, prudente e realista: "Os soviéticos falaram nas eleições, e houve quem não gostasse disso". Ambíguo porque o arauto da glasnost não disse se considera que sua política saiu fortalecida nas urnas. Prudente porque Gorbachev evitou apontar responsabilidades pela derrota do PC, melindrando dirigentes do partido aos quais venha a ter de se aliar no futuro. E realista porque sabe que a voz das umas expressou um descontentamento popular que é sintoma de uma crise profunda. Essa crise é do comunismo, na União Soviética e em toda a Europa, e está escapando ao controle tanto dos partidos comunistas corno dos reformistas que articularam a perestroika.

Sangue sob a ponte - Segundo Lênin, o primeiro chefe de Estado marxista, o comunismo é uma doutrina política tipicamente européia - fruto da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo utópico francês. Essa doutrina foi criada por dois alemães, Karl Marx e Friederich Engels, que em 1847 abriram o Manifesto do Partido Comunista com a frase famosa: "Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo". Esse espectro rondou a Europa durante setenta anos, até que se transformou em poder concreto, na forma de governo e Estado, na Ásia, quando o partido bolchevique de Lênin tomou o poder na Rússia. Muito sangue correu debaixo da ponte do comunismo soviético antes que ele se instalasse na Europa: Stalin assassinou cerca de 20 milhões de russos durante os expurgos terroristas e as coletivizações forçadas dos anos 30 e 40.

Só com o final da II Guerra Mundial - quando morreram outros 20 milhões de soviéticos nas batalhas contra o nazismo - o comunismo se instalou na Europa. E se instalou não por vontade própria, mas porque em 1945, nas conferências de Yalta e Potsdan, a URSS de Stalin e os EUA de Truman (e depois Roosevelt) dividiram a Europa em áreas de influência. Dessa divisão surgiu uma entidade geopolítica artificial, a chamada Europa do Leste, mas tremendamente palpável enquanto realidade econômica. A Europa comunista é formada hoje por nove países com mais de 150 milhões de habitantes. Junto com a URSS, são mais de 430 milhões de pessoas vivendo numa região imensa, de amplos recursos materiais, e instalados bem no meio de um terremoto político e econômico.

Tudo que é sólido - Nesse comunismo de feições ricas - pelo menos em comparação com os Estados marxistas da África, da Ásia e a vertente cubana - está acontecendo hoje, num ritmo vertiginoso, aquilo que Marx e EngeIs apontaram como característico do capitalismo no Manifesto: "Todas as novas relações se tomam antiquadas antes que cheguem a ossificar, tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado". Na Europa comunista tudo que é sólido desmancha no ar e tudo se transforma no seu contrário. Na Hungria, a maré reformista chegou ao ponto de o governo permitir a existência de uma Bolsa de Valores, de aprovar o pluripartidarismo e incentivar cadeias ocidentais como Mc'Donalds, Beneton e Adidas a abrir suas lojas em Budapeste. Na Iugoslávia, o primeiro-ministro Ante Markovic defende pontos de vista que, em termos de ortodoxia capitalista, são de fazer inveja a um Roberto Campos. Na Polônia, o general Jaruzelski reclama dos manifestantes que chamam os governantes de "comunas", e o líder do Solidariedade, Lech Walesa, é cada vez mais chamado de "conservador e contemporizador" pelas bases de sua central sindical.

As mudanças no comunismo europeu são tantas, e tão desencontradas, que mesmo os especialistas tomam grandes cautelas ao analisar a situação. Charles Gatti, da Universidade Colúmbia e uma das maiores autoridades americanas em estudos sobre a Europa do Leste, foi convidado para dar uma entrevista radiofônica a ser transmitida naquela região. Aceitou, mas com uma condição: a de que ela fosse ao ar no dia seguinte. "Se você fala de uma coisa hoje, depois de amanhã você pode parecer um tolo por ter deixado de analisar algo muito mais importante, tal a rapidez com que as coisas acontecem", explica o professor. Mas Gatti nota que, de maneiras diferentes e até opostas, cada país da Europa do Leste está tomando distâncias em relação a Moscou e que, no final desse processo - que ninguém pode prever hoje com certeza -, está uma Europa radicalmente diferente da de hoje. Para ele, o próprio conceito de Europa do Leste é errado, até por razões elementares de geografia. "Praga, tida como cidade do Leste, fica a oeste de Viena, cidade que se considera como parte integrante do Ocidente."

Na União Soviética, igualmente, a crise do regime se manifesta quase cotidianamente. Na semana passada, por exemplo, o governo russo assinou um acordo com a empresa suíça de publicidade Punto em que cede espaço no uniforme de cosmonautas soviéticos para se fazer merchandising. Pelo contrato, no valor de 620.000 dólares, a firma suíça terá o direito de transformar um astronauta russo num similar de Ayrton Senna: uniforme e capacetes cobertos de logotipos de empresas ocidentais. Também na semana passada, a URSS fechou um contrato com seis das maiores empresas americanas - entre elas a Kodak e a Johnson & Johnson -, no valor de 10 bilhões de dólares, prevendo a criação de 25 empresas de capital misto. Pela primeira vez na história do comunismo russo será permitida a remessa de lucros para o exterior.

No centro desse terremoto no mundo do comunismo rico está a figura de Gorbachev. As eleições que ele promoveu na semana passada de certa forma diminuíram a sua margem de manobra. As eleições não foram nem livres nem ameaçam o monopólio do poder do Partido Comunista. Elas serviram para eleger 1.500 dos 2.250 representantes do Congresso dos Deputados do Povo. Os

outros 750 deputados desse Congresso são biônicos: escolhidos pelo próprio PC e pelas organizações "sociais". Na teoria, esse Congresso será a instância máxima de poder na URSS. Mas ele só vai se reunir uma vez ao ano e escolherá 542 membros para o Soviete Supremo, que tomará decisões com mais assiduidade. Como não há liberdade de organização partidária e o sistema de indicações de candidatos se presta a inúmeras manipulações, na prática, é impossível suplantar a máquina da burocracia do PC no terreno da gerência do poder.

Limites da liberdade - Há vários pontos de contato entre as eleições soviéticas da semana passada e as que se realizaram no Brasil em 1974, quando Ernesto Geisel era presidente. No Brasil, havia dois partidos criados pelo regime, uma legislação repleta de casuísmos que impedia que o governo fosse apeado do poder, uma grande insatisfação popular e um presidente disposto a neutralizar uma linha dura do governo e a promover uma abertura. Resultado: o MDB foi usado pela população para expressar o seu descontentamento, ganhou as eleições mas não obteve o poder, Geisel pôde avançar um pouco na abertura, o regime foi mantido, mas já ferido profundamente. Na URSS, Gorbachev reuniu um cacife maior para se opor à fração do partido que é contra a glasnost (o Silvio Frota russo chama-se Ligachev), mas o descontentamento expresso nas umas parece ter sido bem maior do que o que ele esperava.

No Brasil, através de uma série de espasmos, de crises e de manifestações que culminaram na campanha pelas diretas, explodiu a camisa-de-força institucional - e Tancredo Neves foi eleito presidente por um Colégio Eleitoral fraudulento, criado para impedir que a oposição chegasse ao poder. Na URSS, se é impossível prever que a evolução será semelhante, as eleições colocaram o mesmíssimo problema: aquele que diz respeito à democracia, à capacidade da sociedade de estabelecer, nas urnas, quais os limites que se tem para a liberdade.

Enquanto o comunismo vai degelando na URSS e na Europa, o Brasil, com suas instituições muito mais democráticas, corre o risco de caminhar no sentido das soluções que foram testadas e fracassaram. A julgar por muitas das idéias e programas que são defendidos por políticos brasileiros, de esquerda e de direita, o país pode até ser o último do mundo a querer ser ortodoxamente comunista. Estatização, monopólio de setores inteiros da economia na mão do Estado e proteção de funcionários públicos ineficientes, com base no nepotismo ou no favorecimento, são coisas que o comunismo rico vem combatendo, enquanto no Brasil encontram defensores intransigentes. O Brasil, último país da América a abolir a escravidão e a proclamar a República, um dos últimos a pegar o bonde da industrialização, pode ser também um dos últimos a adotar o comunismo. O comunismo antes das reformas que vêm mudando sua face.


 
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