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5 de março de 1969
O mundo vem chegando
O Brasil está preparado para o mundo?
A ciência não esperou a resposta:
imagens, gostos e opiniões de 63 países
já podem invadir todas as casas. O que
o mundo vai mostrar-nos, e o que
mostraremos ao mundo?
O mundo começou a ficar menor para os brasileiros, desde sexta-feira passada, quando as imagens do Papa Paulo VI e cenas de Roma e Washington chegaram aos nossos aparelhos de TV. Para as emissoras de televisão, a alegria tinha, porém, o seu lado de sombra: elas bateram recordes de audiência e ao mesmo tempo se interrogaram se poderiam utilizar sempre esta maravilha, tão cara, que as agências de publicidade não encontraram patrocinador para pagar os 750.000 cruzeiros novos cobrados pelos anúncios. E os sociólogos começaram oficialmente a se inquietar com os efeitos de imagens importadas sobre o povo brasileiro: não temos sequer uma televisão nacional. Quando o Presidente Costa e Silva saudava a entrada do Brasil na era das comunicações espaciais, uma fascinante, complexa e perigosa arma de 5 milhões de dólares flutuava a 36.000 km de altura, sobre as costas do Ceará, ligando a base de Itaboraí, a 30 km de Niterói, aos 63 países que formam o consórcio internacional da Intelsat, dona do satélite Intelsat III. Para os técnicos, é uma vitória. Para a Intelsat, uma nova e enorme fonte de lucros. Para os moradores de Itaboraí, "um motivo de orgulho" e de ressentimento: se o satélite pode mudar a vida do país, em nada mudou a da cidade que vive de lembranças do passado, falando em telefones de magneto e manivela enquanto seu gado pasta ao lado da enorme torre transmissora de 50 metros de altura.
'FELIZ NATAL' - O cilindro de 1 metro e meio de altura por 1 de diâmetro, pesando 300 quilos, é o produto final de uma sofisticada série de aparelhos, que estão, pouco a pouco, transformando o mundo. Imaginado, pela primeira ve, por um cientista especializado em ficção científica, Arthur C. Clarke (autor da história do filme "2001"), ele ganhou forma concreta em 1958, quando o satélite experimental "Score" permitiu ao Presidente Eisenhower desejar a todos os americanos "um feliz Natal". Quatro anos depois, quando subiu o "Telstar", transmitindo programas entre os Estados Unidos e a Europa, o conteúdo das mensagens era outro. Uma nova era nascia e seu futuro parecia tão feliz, que o Governo americano não hesitou em formar uma firma de capital misto, a Intelgat - um consórcio em que os Estados Unidos detêm 53% das ações, o conjunto de países europeus 25% e os demais países as restantes (a cota do Brasil é de 1,5%). Seis anos depois do seu primeiro sinal de vida, o satélite de comunicações chega para encontrar um país onde um brasileiro de Pelotas, RS, ao ligar para uma pessoa de Florianópolis, SC, terá que chamar a telefonista de sua cidade, que chamará a do Rio, que chamará a de São Paulo, que chamará a de Curitiba, que chamará a de Florianópolis, que chamará a pessoa.
UMA DIFERENÇA - Em sociologia existe uma expressão grandiloqüente - "contemporaneidade do não-coetâneo" - para expressar essa desigualdade, que encontrou um dos seus exemplos mais trágicos quando o Dr. Christian Barnard fez o seu primeiro transplante de coração: nesse mesmo dia, no mesmo continente africano, uma tribo sacrificou aos deuses o coração de um guerreiro e bebeu-lhe o sangue. Em Itaboraí, à margem da Estrada de Ferro Leopoldina, terra do famoso ator do passado João Caetano, Antônio, um mulato quase sem dentes na boca, nem sabe ao certo para que serve a grande torre construída na cidade. Antônio é o telefonista local e vive se queixando: "Meu braço está doendo de tanto tocar esta manivela - esta mesa é o desgosto da minha vida". É também o desgosto dos 54.000 habitantes de Itaboraí, que gastam de quatro a seis horas para falar com o Rio. A cidade não tem rede de esgoto, metade das casas não tem luz elétrica e um teatro em ruínas é a única prova de que um dia as companhias ambulantes passaram por lá. Fundada em 1696, Itaboraí despertou no século XIX a atenção de Dom João VI, que ia descansar lá, e dois anos atrás atraiu os técnicos encarregados da construção da torre. A cidade não tomou parte da decisão: foi um computador eletrônico que, depois de examinar a ficha de mais de cem municípios brasileiros, decidiu categoricamente que o futuro começaria nas suas terras cheias de plantações de laranja e cana-de-açúcar.
UM PARADOXO - Para os grandes industriais do Rio e São Paulo, os 1.200 canais de telefonia do Intelsat III permitirão negócios internacionais mais rápidos e baratos. Mas, para o grande industrial do Rio Grande do Sul, que deseja falar com seus representantes no Nordeste, ele será um mero objeto de contemplação: suas mensagens continuam a ser mandadas por via aérea, pois os telefones não funcionam. As emissoras de televisão agitam-se: quem poderia prever os índices de audiência de um programa direto com Frank Sinatra ou os Beatles? E logo em seguida esfriam: um simples "videotape" do programa de Sinatra custa 15.000 dólares (o do Dean Martin, que a TV brasileira transmitiu no ano passado, sai por 2.000) e as agências de publicidade só conseguiram vender o programa fazendo um rateio entre vários patrocinadores. As emissoras estão apáticas em relação ao satélite, não têm planos para ele - salvo para as transmissões da Copa do Mundo, em 1970, no México - e na verdade seus sonhos são mais modestos: deverão falar ao resto do país antes de se entender com o mundo.
O grande cilindro brilha no céu - mas a experiência ensina que os problemas se resolvem, antes de mais nada, em terra firme.
FALAR FÁCIL - A imagem é clara: se uma transmissão do Rio ou de São Paulo chegar imediatamente ao Norte e Nordeste, sem alterações, o Brasil terá dado o seu passo final para a integração. E é isso, simplesmente, que poderá acontecer a partir de 1970, quando estará pronto o gigantesco sistema de comunicações por telefonia e microondas que vem sendo montado pela Embratel - Empresa Brasileira de Telecomunicações. Este é o ponto que realmente mexe com os donos de TV. Eles estão certos de que a rede nacional de TV aumentará enormemente o mercado para os programas, com uma vantagem: é o próprio Governo, e não as emissoras, que está preparando o terreno. Ao mesmo tempo, o Governo promete inaugurar no dia 31 de março o primeiro equipamento de DDD (Discagem Direta a Distância), entre Curitiba e Porto Alegre (360 canais de voz, 592 km de distância), seguindo-se em abril a ligação entre São Paulo e Curitiba (660 canais, 370 km) e entre São Paulo e Rio (1.380 canais, 416 km), no segundo semestre. É preciso não confundir o DDD com microondas e com satélites: o primeiro é um sistema de operação, o segundo de transmissão e o terceiro de transmissão e recepção internacionais. Eles se completam e completam os vários sistemas de comunicação: as microondas não eliminarão os fios, assim como o Intelsat III não eliminará os atuais cabos submarinos.
O QUE ENTRA - Para que um jogo de futebol em Curitiba seja visto no Recife, bastará que uma emissora de Curitiba faça um contrato com a Embratel, e esta se encarregará de transportar a imagem, jogando-a de uma estação repetidora a outra durante todo o percurso, de 50 em 50 km. Terminado o programa, o circuito será desligado e a emissora pagará o preço correspondente. No caso de recepções e transmissões internacionais, a coisa se complica. Que poderíamos receber de fora? Em Português, nada. Portugal não faz parte da Intelsat e nem mesmo da Eurovisão, a rede européia. Em francês e inglês poderão chegar grandes reportagens da Radio Télévision Française e da BBC, que já tem mandado ao Brasil, em "video tape", reportagens sobre assuntos ingleses de interesse internacional. A Alemanha tem sido um bom cliente: sua TV manda anualmente uma equipe ao Brasil filmar as novidades e já produziu um filme de trinta minutos sobre o cinema novo brasileiro. Mas, por causa do controle que os Estados Unidos mantêm sobre a Intelsat, é de lá que poderia chegar o maior número de transmissões. Além de programas jornalísticos como "Primeira Terça-Feira", mensal, focalizando temas de interesse mundial (o Brasil foi focalizado em 1962, com o assunto "Nordeste"), poderiam chegar programas como o "Ponto de Vista" da NTC (rede exclusivamente cultural). A NTC encomenda a um cineasta um pequeno filme sobre um país ou assunto, geralmente polêmico, e de preferência contra a coisa focalizada. Jean-Luc Godard fez um documentário sobre os Estados Unidos, Roberto Rossellini fez um sobre a Sicília.
O QUE SAI - As melhores possibilidades comerciais, porém, estarão na importação de musicais, como o Festival de San Remo e o show mensal que a cadeia americana NBC promove com artistas que fazem uma única apresentação anual: Julie Andrews (janeiro), Sammy Davis Jr. (fevereiro), Brigitte Bardot (março), Bob Hope (abril), Beatles (maio), Jerry Lewis (junho), Elvis Presley (julho), Charles Aznavour (agosto), Shirley MacLaine (setembro), Ella Fitzgerald (outubro), Peter Ustinov (novembro) e Frank Sinatra (dezembro). A venda de programas brasileiros para o exterior é mais complicada. Os Estados Unidos seriam naturalmente os maiores fregueses, mas os nossos programas exportados para lá deverão ser narrados em inglês, abordar temas "de tratamento artístico provado", obedecer aos horários da TV americana (diferentes dos nossos por causa do fuso horário), tratar de preferência de assuntos que não sejam exclusivamente brasileiros, mas sul-americanos. Jogos de futebol, só com a presença obrigatória de Pelé e outros jogadores "que sejam identificáveis". Além disso, os compradores estrangeiros preferem filmes coloridos, que não são feitos no Brasil. A idéia de vender filmes para o exterior é animadora: as emissoras americanas pagam até 150.000 dólares por hora de apresentação - pelo menos 50% mais que o mais caro programa que poderia ser produzido aqui. No momento, nenhum programa brasileiro interessa à TV americana, a não ser os festivais da canção e grandes jogos de futebol.
O SEGUNDO DO SATÉLITE - Tudo isso pegou as emissoras de surpresa, mas as agências de publicidade não parecem assustadas. "Vale a pena", proclama Alex Perissinoto, diretor da Alcântara Machado, agência que detém contas grandes como a da Volkswagen e Mercedes Benz. Ele usa um lápis para calcular os lucros dos preços astronômicos das transmissões por satélites. Seu raciocínio é este: um segundo de transmissão numa atual cadeia nacional custa 250 cruzeiros novos, o do satélite foi calculado em 300 na primeira transmissão. O número de pessoas por aparelho, que é de 3,2 numa transmissão nacional, sobe para 4,5 numa internacional. Resultado: "Tínhamos a média de 20 cruzeiros novos para cada milhão de espectadores, na transmissão internacional teremos 18, isto é, 2 a menos que o normal". Não houve patrocinadores na primeira transmissão do satélite, mas, apesar disso, Alex está convencido de que os empresários brasileiros mudarão de mentalidade: "Eles só gastam uns 200 milhões de dólares por ano, nas quinze agências, e isto é o faturamento de uma única agência pequena ou média nos Estados Unidos."
A COPA INCERTA - Já Walter Clark, da TV Globo, do Rio, só pensa na Copa de 1970. Ele já mandou um emissário ao México e entre os problemas a resolver está este: a FIFA - Federação Internacional de Futebol - vendeu os direitos de transmissão internacional da Copa a uma empresa comercial inglesa. Isso pode significar que, no dia de um jogo do Brasil, os telespectadores brasileiros tenham que assistir a um jogo da Inglaterra com um time qualquer. Não é só: os europeus têm mais força dentro da Intelsat que o Brasil e certamente darão preferência aos seus próprios jogos (o satélite só transmite um programa de TV de cada vez). Além disso, a atual tabela de preços fixada pela Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações) é considerada "fora da realidade brasileira" pelas estações: NCr$ 25.000,00 por cem minutos, mais NCr$ 200,00 por minuto extra.
RODA-VIVA - Se os brasileiros estão preocupados com o custo e a consolidação de sua própria rede nacional, os europeus estão furiosos com a supremacia americana. "Estamos de mãos vazias", denuncia o presidente da delegação francesa na conferência de acionistas da Intelsat, que começou na semana passada em Washington. Com isso, ele quer lembrar que, enquanto os europeus só têm 25% das cotas, os Estados Unidos têm maioria absoluta, são os únicos que possuem foguetes capazes de lançar os satélites e detêm os primeiros esboços da legislação internacional sobre o assunto, Todos os diretores da Comsat, a empresa que gere a Intelsat, são americanos e o presidente e vice-presidente da empresa são nomeados pelo Presidente dos Estados Unidos. O protesto europeu é meramente formal: eles não podem desligar-se do Intelsat, sob a pena de ficarem isolados, e seu próprio satélite, o "Sinfonia", um projeto franco-alemão, não subirá antes de 1972, se subir.
Enquanto isso, os soviéticos (a quem foi oferecida uma participação de 1% no consórcio, recusada) formaram a sua própria rede, a Intersputnik, que transmite para países socialistas e eventualmente se liga com a Intelsat. A delegação francesa se inquieta com o céu, que também começa a se dividir em dois blocos.
O BOMBARDEIO TOTAL - Os aspectos políticos se misturam então com os jurídicos e aqui se perde de vista a trajetória dos satélites. Quando eles puderem transmitir diretamente para todos os receptores domésticos sem passar antes pelas estações receptoras como as de Itaboraí, o que acontecerá? Qualquer país dono de uma cadeia de satélites poderá falar diretamente aos telespectadores, sem dar satisfações aos governos locais. E, se a princípio, o controle dos satélites está com a União Soviética e Estados Unidos, no futuro, outros países terão suas próprias redes e farão do céu uma Torre de Babel. Uma comissão de estudos da ONU já expressou sua inquietação: "Numa situação de tensão internacional tipo 'guerra fria', é fácil prever até que ponto as populações poderiam ser envenenadas". No plano comercial, a publicidade dos países donos de satélite bombardearia os consumidores de outros países e se chocaria com os interesses comerciais locais. Alguns técnicos americanos acreditam que a partir de 1972 satélites capazes de transmissões diretas estarão sendo testados. Uma previsão pode ser feita desde já: quando vários países tiverem satélites deste tipo, os outros países terão que fabricar os seus satélites "anti-satélites", para bloquear no espaço as mensagens, antes que elas cheguem à Terra.
O satélite terá saído definitivamente de seus objetivos e será tratado como os mísseis intercontinentais de hoje, que precisam ser detidos no ar antes que joguem suas bombas no país adversário. As bombas que caíram sobre os brasileiros, durante a primeira transmissão do Intelsat III, foram pacíficas: da Itália, o Papa Paulo VI mandou sua bênção e de Washington chegou um documentário contando a história das comunicações humanas. A partida foi dada e o satélite nunca mais será desligado, sob pena de remeter o país ao passado. Talvez por isso, um sociólogo carioca previu, olhando para o céu: "Agora seremos contemporâneos do futuro".
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