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4 de outubro de 1978
A morte
no 34º dia

Por todas as partes, a mesma
incredulidade ante a notícia
de que morreu João Paulo I,
o papa sorridente que mal
iniciava seu pontificado

Apagou-se, tão rápido como surgiu para o mundo, o sorriso de João Paulo I, o 261º papa dos 700 milhões de católicos. Mal iniciava o seu 34º dia de pontificado, por volta das 23 horas de quinta-feira da semana passada, quando morreu de um enfarte agudo do miocárdio. Segundo informa o comunicado oficial do Vaticano, o primeiro a saber de sua morte foi seu secretário particular, às 5h30 da manhã de sexta-feira. Nessa hora, habitualmente, os dois se encontravam na capela, para a missa de todos os dias. Como João Paulo I não aparecesse, o secretário, padre Magee, foi procurá-lo em seu quarto. As luzes estavam acesas, o papa recostado em seu leito. Ao lado, um volume de "A Imitação de Cristo", livro de meditações do século XV.

A surpresa, comparável à de sua escolha no primeiro dia do conclave para escolha do sucessor de Paulo VI, a 26 de agosto, logo se transformaria em incredulidade, onde quer que chegasse a notícia. "Estou arrasado", diria em Madri o cardeal espanhol dom Vicente Henrique y Tarancón. "Recebo esta notícia como uma catástrofe", diria no Rio de Janeiro o cardeal brasileiro dom Eugênio Salles. "Não é possível, não pode ser", repetiam, na praça São Pedro, os fiéis alertados pelos sinos das igrejas romanas. Ali, no correr do dia, uma fila silenciosa se estendia desde o lado direito das colunas de Bernini até a Via Della Conciliazione, 500 metros depois. Era preciso esperar no mínimo três horas para ver o corpo do pontífice, vestido com os trajes rituais: hábito branco sob o manto vermelho, sapatos vermelhos, o pálio de lã branca com cruzes pretas sobre os ombros, a mitra na cabeça. Entre as mãos, o rosário. Sob o braço esquerdo, a cruz pastoral. Atrás do catafalco, um crucifixo e um grande círio.

ADIAMENTOS - Mais que tudo, a boca entreaberta, o rosto com uma expressão serena mas não sorridente, comprovavam a morte de dom Albino Luciani, papa João Paulo I, aos 65 anos de idade (completaria 66 no próximo dia 17). "É muito comum morrer de crise cardíaca em nossa família", informaria uma sua prima, Agnes Lacotte, residente no interior da França. Reforçava-se, assim, outra informação familiar, dada ainda em agosto por uma sobrinha, Pia - "sua saúde sempre foi motivo de preocupação". Ele próprio, na última audiência pública, na quarta-feira, afirmou a um grupo de enfermos: "Não se preocupem. Eu, que já sofri quatro cirurgias, sinto-me agora muito melhor".

Contudo, não teria sido em conseqüência de qualquer dessas operações - a mais grave delas motivada por uma doença pulmonar - que o papa morreu. A causa, na opinião da maioria dos médicos ouvidos em varios países, talvez seja o stress, o esgotamento, confirmado por uma queixa de João Paulo I, no início da semana. Na ocasião, conversando com colaboradores, ele teria comentado, bem ao seu estilo, que gostaria de contar com uma máquina de leitura, como há as máquinas de escrever. De fato, seu dia normal de trabalho era longo - começava às 5h30, com a missa e as orações matinais, e só ia terminar dezesseis horas depois, com as leituras e orações da noite. Na manhã da quinta-feira em que morreu, por exemplo, recebeu várias personalidades em audiência - entre elas o núncio apostólico no Brasil, dom Carmine Rocco, e o cardeal Bernardin Gantin, presidente da Comissão de Justiça e Paz. Depois do almoço, ficou a tarde toda em conferência com o cardeal Jean Villot, seu secretário de Estado e última pessoa a vê-lo com vida.

Para a maioria dos católicos, no entanto, a saúde precária ou o cansaço físico de João Paulo I eram absolutamente desconhecidos e inimagináveis. Sob sua aprovação, comunicada a diferentes bispos e cardeais, prosseguiam, por exemplo, os preparativos para o encontro dos prelados latino-americanos em Puebla, no México, a ser realizado entre 12 e 28 de outubro. Nesse encontro, agora adiado, se discutiriam as novas diretrizes da Igreja na América Latina. Também com o conhecimento de João Paulo I, 39 bispos brasileiros estavam reunidos em Brasília, desde a terça-feira. Preparavam a próxima assembléia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a ser realizada em janeiro, quando a notícia da morte do papa determinou o adiamento da reunião

'É UM ABSURDO' - Em Brasília, naquela noite, a grande preocupação era com a saúde de dom Aloísio Lorscheider, presidente da CNBB, internado na unidade de tratamento intensivo do Hospital Distrital. Na tarde de quinta-feira, enquanto celebrava missa, dom Aloísio sentira-se mal e as primeiras notícias eram de que sofrera um enfarte. Era a terceira vez, este ano, que o cardeal acusava mal-estar - a primeira em Bogotá, pouco antes de viajar para Roma, em agosto, e a segunda durante o conclave. Embora o último comunicado informasse que dom Aloísio passava bem, os bispos dormiram preocupados. E todos, ao serem acordados na madrugada, tinham esse motivo a mais para não imaginar que a notícia era a da morte de João Paulo I.

O mesmo ocorreria em São Paulo, com o cardeal dom Paulo Evaristo Arns. "Fiquei até alta hora da noite esperando telefonema de Brasília", conta ele. "Assim, quando soou o telefone, às 3h30, eu disse: 'Não, deve haver um engano'. Pensava que fosse notícia sobre dom Aloísio. Não acreditei. E fui buscar o meu radinho, para confirmar." Também de incredulidade foi a reação do padre Mario Gerlin, convertido ao catolicismo pelo então bispo Albino Luciani, em 1959, e há cinco anos em Bambuí, no interior de Minas Gerais, onde dirige o Leprosário São Francisco de Assis. "O papa, o papa", disse-lhe assustada a mesma freira, que um mês antes, lhe comunicara que seu conversor era o novo pontífice. "O que houve com dom Luciani?", quis saber o padre Gerlin. "É um absurdo", foi o que conseguiu balbuciar, em seguida. À tarde, já refeito, diria ele a VEJA: "Eu ia encontrá-lo em janeiro, no Vaticano. Ele nunca me disse nada sobre doença, nunca reclamou. Creio que seu coração não resistiu ao peso da responsabilidade diante deste mundo".

Uma vez mais, a hipótese do esgotamento emergia, como aconteceria também com dom Paulo Evaristo, ao se lembrar de uma conversa que teve, ao final do conclave, com um cardeal australiano. "Dom Paulo", disse-lhe então o cardeal, a propósito da escolha de dom Albino Luciani para suceder Paulo VI, "ele é tão humilde, tão delicado, que uma notícia dessas pode fulminá-lo com um ataque cardíaco." Na hora, dom Paulo Evaristo duvidou. Na sexta-feira passada, entretanto, ele dizia a VEJA: "Esse cardeal australiano teve a impressão de que o papa se sentia tão pequenino que talvez a magnitude desta tarefa mundial o esmagasse, como realmente o esmagou".

SUCESSÃO - Os bastidores do conclave, até onde os juramentos de segredo permitem revelações, ocupavam igualmente uma grande parte das conversas em Brasília. Dom Aloísio contara, antes de adoecer, sobre as condições desfavoráveis - como o calor forte, a falta de ar condicionado e de banheiro em muitos aposentos, além da alimentação, também insatisfatória. E o que lhe havia cochichado João Paulo I, conforme foi visto pela televisão, no momento em que dom Aloísio beijou seu anel?, quiseram saber os bispos. Era apenas um abraço mandado para dom Ivo Lorscheiter, secretário da CNBB e primo de dom Aloísio, revelou ele.

Por sua vez, dom Ivo também contava de seu encontro com João Paulo, logo após sua posse como papa. Seria apenas uma audiência formal, de 15 minutos, mas ao final o papa convidou-o para almoçar - numa retribuição à hospitalidade que dom Ivo lhe dedicara dois anos atrás, quando o ainda cardeal Luciani esteve no Brasil. Com a morte de João Paulo I - "ele estava bem, em nenhum momento deixando entrever que isto poderia ocorrer" - dom Ivo recusou-se a comentar detalhes daquele almoço. Mas sabe-se que, perguntado sobre quando visitaria o Brasil novamente, o papa lhe respondeu: "Pretendo fazer essa visita antes de 1980. Mas não sei se estarei vivo até lá". Na sexta-feira, procurado por VEJA, dom Ivo não confirmou essa parte de sua conversa. Justificando seu silêncio de agora, informou que, ao final do encontro, ouviu a seguinte recomendação: "Diga apenas que almoçou com o papa".

Na verdade, o que circulava no meios clericais brasileiros, nos últimos dias, é que dom Ivo seria brevemente nomeado o próximo cardeal do Brasil, talvez para Manaus. A boa acolhida aos sacerdotes brasileiros, de todo modo, orientava as especulações sucessórias, ja delineadas na sexta-feira. Lembrava-se, assim, a informação não desmentida de que, no conclave, dom Luciani votou em dom Aloísio. Retomavam força, igualmente, as análises que indicavam o cardeal brasileiro com um dos mais fortes papabili não italianos. Apesar de seus problemas cardíacos, dom Aloísio é de fato lembrado como o presidente de duas importantes e numerosas conferências episcopais - a CNBB e o Celam, que reúne os bispos latino-americanos.

UM MUSEU - Como aconteceu após a morte de Paulo VI, dois meses atrás, e como acontece após a morte de todos os papas há séculos, a consternação do primeiro momento coexiste inevitavelmente com as considerações sobre o futuro chefe da Igreja. A peculiaridade, agora, é que todas as possibilidades e hipóteses foram levantadas há muito pouco tempo. E mais: todas as previsões e cálculos se revelaram inexatos, ante a surpreendente eleição do patriarca de Veneza, dom Albino Luciani - um nome que só muito fugazmente, e nos últimos lugares, freqüentara as dezenas de listas de papabili. "Acho inútil apontar nomes", diz dom Paulo Evaristo, "porque mesmo que relacionasse todas as minhas informações, vocês teriam tanta dúvida quanto eu ainda tenho. Então, para não errarmos, não vamos mais citar nomes daqui para a frente."

Por certo, será esta a lição que os vaticanólogos seguirão. Desde a noite de sexta-feira passada, quando um vento frio soprava sobre as centenas de fiéis presentes à praça São Pedro, os 112 cardeais com menos de 80 anos - e aptos a participar do conclave, portanto - começavam a receber telegramas convocando-os a Roma. São nomes estudados pelos especialistas, com cotações ainda muito recentes nas bolsas de apostas. Mesmo assim, ninguém se arriscaria a indicar um deles, sem também estar arriscando a própria reputação de entendido nas coisas do Vaticano. O mais seguro é prever que o sucessor de João Paulo O terá a maioria de suas características - um cardeal mais ligado à atividade pastoral que à diplomacia, aberto a um trabalho colegiado, disposto a dividir poderes. Talvez até alguém de origem humilde, capaz de ser visto como um semelhante por uma população simples como a de Belo Jardim, no interior de Pernambuco, onde dom Luciani esteve durante sua visita ao Brasil. Ali, agora, prepara-se um museu, com as seguintes peças: a colcha e os lençóis onde ele dormiu, os talheres e o prato onde ele comeu, as medalhas e os santinhos que ele distribuiu.


Um pároco de aldeia

O estilo jovial, diferente, de um papa que preferia agir

A amarga perplexidade que tomou conta dos 700 milhões de católicos de todo o mundo, quando a Rádio Vaticano anunciou oficialmente, na manhã da sexta-feira, dia 29 de setembro, a morte do papa João Paulo I, encerrou um dos mais breves pontificados da Igreja. Mas em apenas 34 dias como o 261º sucessor de São Pedro o até pouco tempo discreto cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, conseguiu passar à História como o papa da jovialidade e do afeto. E isso não só em virtude de seu permanente bom humor haver conquistado a simpatia e a confiança de todos quantos o conheceram pessoalmente ou pela televisão, como também pelo fato de em todos os seus pronunciamentos ele haver abordado insistentemente o tema do amor cristão. Por outro lado, o livro que tinha nas mãos ao morrer - "A Imitação de Cristo", atribuído a Thomas Kempis - enfatizou uma clara preocupação de João Paulo I: a humildade extravasada desde os tempos em que foi bispo no norte da Itália e que o levou a trocar a pomposa cerimônia de coroação por uma missa de posse na praça São Pedro. O livro é justamente uma coleção de manuscritos sobre a piedosa conduta interior e exterior do perfeito cristão, algo que João Paulo I perseguiu até a morte.

Que se tratava de um papa diferente, notou-se desde o início. Já na primeira aparição aos fiéis, dia 26 de agosto, momentos após sua eleição, ele surpreendeu os católicos ao adotar o inédito nome composto de João Paulo. Contudo, com a mesma voz radiante anunciou a intenção de recolher e carregar a herança de seus dois últimos antecessores: "Não tenho nem a sapientia cordis de João XXIII, nem a preparação e a cultura de Paulo VI. Mas estou no lugar deles e devo procurar servir à Igreja. Espero que me ajudeis com vossas preces". Além disso, na homilia de sua primeira missa como papa, oficiada no próprio recinto do conclave que o elegeu, João Paulo I prometeu ao mesmo tempo aplicar equilibradamente o Concílio Vaticano II e consolidar "a grande disciplina da Igreja".

TRANSIÇÃO INDOLOR - Poucas vezes, no entanto, João Paulo I voltaria a falar em problemas pastorais do ponto de vista da política eclesiástica. E para os que, ao ouvi-lo confessar que se sentia "num labirinto" e ao vê-lo deslumbrado com a rica decoração do teto da sala de audiências, durante uma cerimônia, chegaram a encará-lo como um papa desprovido de senso político ou diplomático, teve uma resposta fulminante: confirmou nos seus postos toda a hierarquia da Cúria Romana, inclusive o discutido e enérgico cardeal Jean Villot na Secretaria de Estado do Vaticano.

Segundo análise do correspondente em Roma do jornal francês Le Monde, João Paulo I demonstrou intuir, com esse gesto, a vital necessidade de realizar uma transição indolor, "quase imperceptível", do reinado anterior para o seu. No mais, falando aos prelados e personalidades que recebia especialmente ou aos milhares de fiéis que acorriam a suas audiências das quartas-feiras, o "papa sorriso", como o chamavam nos bairros populares de Roma, preferia usar uma linguagem direta, franca, quando não bem-humoradas imagens pastorais.

Dessa maneira, na primeira recepção ao colégio dos cardeais, ele abandonou o texto preparado por assessores para improvisar sobre seus propósitos de defender a unidade da Igreja. Aos embaixadores acreditados junto à Santa Sé, lembrou que as funções pastorais da Igreja devem prevalecer sobre as suas atividades terrenas, mas aos chefes das delegações estrangeiras que foram a Roma para a missa solene do início de seu pontificado não deixou de cobrar o respeito aos direitos humanos e à liberdade religiosa. E aos cerca de 800 jornalistas que acompanharam sua eleição, João Paulo I deu o fraterno título de "colegas" - referência a sua passagem como articulista do jornal Il Messagero di Santo Antonio, quando patriarca de Veneza -, além de pedir de modo quase confidente que apresentassem a Igreja à opinião pública "com amor pela verdade". Era também a primeira vez que aqueles profissionais da comunicação tinham um contato pessoal com o novo papa e podiam observar de perto o seu porte sólido, em claro contraste com a imagem franzina de seu antecessor Paulo VI, nos últimos tempos de vida. João Paulo I movimentava-se de maneira ágil, decidida, indiferente à consagrada e solene postura pontifícia - ninguém podia imaginá-lo na antevéspera da morte.

PÁROCO DE ALDEIA - Em sua última audiência pública, de fato, ele continuava a aparentar excelente saúde. E, repetindo uma de suas atitudes pouco ortodoxas, chamou um menino de quinto ano primário e conversou com ele sobre a importância do estudo para a sua promoção a uma classe mais adiantada. Provavelmente nenhum papa haja rompido tão drasticamente com as frivolidades protocolares estabelecidas por seus antecessores e se comportado tão a vontade no mais alto cargo da Igreja. "Suas audiências públicas eram simples lições de um pároco de aldeia", definiu um cronista do jornal católico italiano L'Avvenire. Significativamente, na primeira delas, a 6 de setembro, depois de ser recebido timidamente por um jamais visto auditório de 17.000 pessoas, João Paulo I foi aclamado entusiasticamente ao declarar que estava ali "como se fosse um catequista paroquial". Na mesma oportunidade, aproximando-se de um pequeno coroinha, estabeleceu com ele um pungente diálogo sobre a solidariedade e a fraternidade cristãs. No dia seguinte, ao receber o clero de Roma, que o reverenciava sobretudo como bispo da cidade (um dos títulos do papa), recordou-lhe o dever de obediência e o espírito de sacrifício "na missão apostolar confiada por Cristo a seus discípulos".

Até as últimas audiências João Paulo I manteve o estilo informal, temperado por anedotas, achados e citações. Certa vez, para visível deslumbramento da multidão de Fiéis, comparou a alma a um automóvel que, se abastecido apenas de champanha e marmelada, em vez de gasolina, acabaria num fosso. Em outra, surpreendeu os que o contemplavam na janela de seu escritório com a proclamação: "Deus é Pai e, mais ainda, é Mãe". Enfim, cada contato seu com o público era uma oportunidade para uma nova estocada no protocolo e na tradição. Mas ninguém, nem mesmo os impenitentes conservadores da Cúria Romana, se atrevia a reclamar, pois o novo papa havia restabelecido o contato humano com as grandes massas católicas, de certo modo algo só ocorrido neste século por ocasião do pontificado do também alegre papa João XXIII. Em entrevista à revista italiana Panorama, Alfonso Di Nicola, antropólogo e estudioso da história das religiões, classificou o estilo de João Paulo 1 de "profundamente evangélico e oportuno num momento em que a Igreja não precisa mais de um papa como Pio XII ou Leão XIII, ambos dotados de grande sabedoria teológica". E explicou: "O que a Igreja precisa é de um homem igual aos homens".

LIÇÕES DO CONCÍLIO - O papa que construiu rapidamente a imagem de "um homem igual aos homens" - nos primeiros dias chegava a dar buon giorno aos guardas suíços que encontra nos corredores do palácio apostólico - deixou no entanto pelo menos uma clara indicação de que não pretendia apoiar os setores mais progressistas do cristianismo, voltados sobretudo para as questões sociais. Tanto os adeptos da vanguardista "teologia da libertação", de origem latino-americana, como os do grupo europeu "cristãos para o socialismo" receberam uma clara advertência de João Paulo I para não confundirem a libertação terrena com "verdadeira libertação", ou seja, a proporcionada pela fé. Segundo afirmou o falecido papa, "não há verdade na afirmativa de que ubi Lênin ibi Jerusalém (onde está Lênim está Jerusalém)".

Mas, ainda que rejeitasse com firmeza qualquer compromisso com o marxismo, João Paulo I parecia extraordinariamente aberto a uma das mais renovadoras lições do Concílio Vaticano II - o ecumenismo. Assim, não foi certamente sem grande emoção que o breve pontífice viu morrer em seus braços, no palácio apostólico, o "número 2" da Igreja Ortodoxa Russa, o metropolita de Leningrado Nikodim, enquanto o recebia em audiência privada. A propósito, o padre Gianni Baget Bozzo, articulado analista de assuntos religiosos, lembrava em recente artigo a morte de Nikodim diante de João Paulo I para sublinhar que "o ecumenismo entre as igrejas católica e ortodoxa realizou-se diante do corpo do arcebispo russo".

De qualquer forma, ninguém pode assegurar ao certo como seria o seu reinado se ele durasse um pouco mais. Seria um pontífice conservador ou apenas manteria o estilo do "pároco de aldeia", como apareceu no primeiro sermão para o mundo? Um sacerdote italiano que convivera com ele durante longo tempo declarou em Roma, logo após sua eleição: "Eu não o qualificaria de conservador, estando inclinado a acreditar que ele não mudará seu jeito. Um conservador é um homem que tem seus próprios esquemas mentais e só aceita o que cabe dentro deles. João Paulo I é homem de principios mas sabe escutar. Ele é consciente de seus limites - e é isso que o salva". Alguns acontecimentos previstos para os primeiros doze meses do reinado de João Paulo i é que permitiriam uma definição. O primeiro deles seria a escolha de seu sucessor no patriarcado de Veneza e também do cardeal Colombo no arcebispado de Milão, por limite de idade. O segundo seria o preenchimento de algumas vagas na Cúria Romana. Finalmente, esperava-se uma encíclica de João Paulo I, cumprindo a tradição de que o novo papa deve divulgar um grande texto menos de um ano após sua eleição.

FUTURO INCERTO - O fato é que João Paulo I vinha conseguindo operar o milagre de reger simultaneamente o coral dos conservadores e dos progressistas. Os cardeais davam entrevistas e, apesar de presos ao juramento de segredo imposto pela regra do conclave, insistiam em dizer, em meio a inconfidências, que o Espírito Santo iluminara os quatro escrutínios necessários para escolher João Paulo I. O clero de Veneza afiançava que lá ele havia vendido bens da Igreia para ajudar os pobres. Sua caridade lhe rendera até o apelido de "papa do Terceiro Mundo", de parte sobretudo dos animados bispos latino-americanos. O cardeal Aloísio Lorscheider, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, achava que possuía um forte aliado sentado no trono de São Pedro.

A moderação de João Paulo I tranqüilizava a Cúria Romana, satisfeita com sua firmeza em matéria de doutrina e de disciplina. Foi esse clima de expectativa e de regozijo que a morte do recém-eleito papa veio frustrar, lançando mais uma vez sobre a Santa Sé a dúvida e a incerteza.

É bem verdade que, do ponto de vista teórico, o quadro não mudou: os cardeais eleitores são os mesmos e se vêem assolados pelas mesmas interrogações. Mas, na prática, o breve pontificado de João Paulo I talvez lhes arranque novas reflexões. Na sexta-feira passada, um influente cardeal brasileiro confidenciava a VEJA que, na sua opinião, a tendência dos cardeais eleitores será buscar um papa que reúna as características de pastor e homem simples do recém-falecido João Paulo I "e talvez uma qualidade que lhe faltava - um pouco mais de experiência do complexo mundo da Igreja".

Dessa maneira, o próximo pontífice teria de ser novamente italiano e fiel ao espírito do Concílio Vaticano II, ou seja, originário de uma rara safra de cardeais. O arcebispo de Bolonha, Antonio Poma, por exemplo, que reuniria tais condições, possui saúde frágil. É possível, assim, que os eleitores se voltem para Hugo Poletti, vigário de Roma, embora aparentemente lhe falte "qualificação mais abrangente". Por outro lado, ainda segundo o mesmo cardeal brasileiro, os nomes de Sebastiano Baggio, presidente da Congregação dos Bispos, e Giovanni Benelli, cardeal de Florença, também poderão ser votados. E, em caso de não se chegar a um acordo em torno desses nomes, "ainda é provável que se parta para uma opção marcantemente mais conservadora".

Muito mais do que nomes, no entanto, deverá prevalecer a experiência acumulada pela Igreja em seus 2.000 anos de existência. Sempre adaptado a seu tempo, o sumo pontífice deve saber continuar a obra na qual Jesus Cristo investiu o apóstolo São Pedro. Atualmente, teria de conciliar as virtudes de um chefe espiritual amado pelos seus fiéis com as responsabilidades temporais de um chefe de Estado respeitado por seus pares.


 
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