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04 de agosto de 1993
As mulheres em
busca do prazer

Em pesquisas ou em sessões terapêuticas,
elas expressam seu desejo de
mais e melhores relações sexuais

O mundo ainda funciona num padrão masculino, mas a receita tem mudado bastante. A mulher entrou firme no mercado de trabalho, ganhou auto-suficiência econômica e bastante poder político. Ela está nas artes, na televisão, no esporte. Parece ter chegado o momento de também exigir mais num terreno antes proibido - o sexo. Não se fala aqui daquelas sessões maçantes do feminismo das décadas anteriores, em que elas discutiam genericamente a libertação da mulher sob o olhar irônico e despreocupado dos homens. Agora, a cobrança incomoda e é dirigida individualmente a cada namorado, parceiro, marido. Em resumo, as mulheres estão menos satisfeitas do que se poderia imaginar com a vida sexual que levam. Querem mais. E querem melhor.

Não é uma mudança abrupta. A valorização da sexualidade feminina explodiu a partir da revolução dos costumes dos anos 60. A novidade é que a mulher está expressando-se numa linguagem cada vez mais direta, que alguns homens consideram até chocante. Uma primeira pista da novidade vem de pesquisas de comportamento sexual. Apesar da cautela com que se deve interpretar qualquer estudo estatístico nessa área - em que as pessoas tendem a omitir ou a exagerar nas respostas -, os índices sugerem um claro sinal de alerta. Numa pesquisa concluída neste ano nas principais cidades brasileiras pelo sexólogo mineiro Gérson Lopes, 60% das mulheres casadas se queixam da baixa freqüência sexual proporcionada por seus maridos.

"Até poucos anos atrás, a grande reclamação das mulheres no consultório era de falta de apetite sexual. Hoje, esse número é cinco vezes mais baixo entre as mulheres e aumentou entre os homens", analisa Lopes, diretor científico do Centro de Estudos em Sexualidade e coordenador do curso de Sexologia Humana da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte. "No meu consultório, as mulheres reclamam mais de quantidade do que de qualidade. Mas quando há quantidade elas reclamam da qualidade", diz o psiquiatra Luiz Cuschnir, professor da Universidade de São Paulo, e autor do livro Masculino/Feminina, da Editora Rosa dos Tempos.

"FAÇA VOCÊ MESMO" - Dentro da reclamação generalizada, há queixas específicas. Para começar, a mulher reivindica mais carícias preliminares. Dois terços das mulheres entrevistadas por Gérson Lopes batem nessa tecla. Ela quer também o acesso ao prazer absoluto. Um total de 57% das mulheres que escreveram no último ano para o sexólogo carioca Marcos Ribeiro queria resolver o problema do orgasmo. "A mulher está passando por uma busca de orgasmo assim como o homem sempre buscou a potência", diz o psiquiatra paulista Moacir Costa, que trata de questões ligadas à sexualidade e escreveu diversos livros sobre o tema. Outra exigência: ela quer um parceiro menos afobado. "A mulher quer que o homem demore mais", observa Arletty Pinel, terapeuta de casais e assessora da Organização Mundial de Saúde.

O que está acontecendo? É simples: as mulheres estão tomando mais consciência de sua vida sexual e tentam solucionar os conflitos que detectam nesse campo. Procuram, por assim dizer, aumentar sua produtividade sexual. Na tentativa, descobrem às vezes que é preciso fazer um diagnóstico muito cuidadoso das insatisfações para não procurar a solução no lugar errado. A bailarina mineira Dudude Herrmann, 34 anos, separada há oito meses, usou sua relação sexual com o marido como um anestésico dos problemas conjugais. Não funcionou. "A gente resolvia as coisas transando. O problema é que as soluções eram sempre passageiras. O sexo, como terapia, apenas despistava o mal-estar", admite.

Os padrões mais flexíveis de comportamento sexual aparecem na elite, que não precisa prestar contas a ninguém, e nas classes pobres, que não têm o que perder. A classe média é a guardiã da moralidade tradicional. Pois é justamente aí, na classe média, que está batendo a insatisfação maior. Uma das válvulas de escape são os manuais de auto-ajuda. Livros sobre sexo vendem como pão quente. Os guias de sexo têm 280 títulos em catálogo, enquanto manuais de cuidados com crianças, jardinagem ou decoração não alcançam sequer um terço dessa cifra.

Publicado há dois meses pela Editora Civilização Brasileira, o Manual do Orgasmo, da médica curitibana Marilene Cristina Vargas, já é best-seller. Com três edições esgotadas, a editora prepara o lançamento da quarta, de 9.000 exemplares. Trata-se de um guia prático que ensina passo a passo, em 150 páginas e ilustrações didáticas, o caminho até o nirvana sexual. Se estivesse ensinando como se prepara um bolo de baunilha, a autora não seria mais clara. A receita não é inédita. Em sua sétima edição, o livro Como Fazer Amor com a Mesma Pessoa por Toda a Vida (E Continuar Gostando), da americana Dagmar O'Connor, é tão elucidativo como o prolixo título sugere. Com 21.000 exemplares vendidos, é o campeão do gênero.

O mercado editorial feminino deixou há muito tempo a fase da ingenuidade e passou a refletir as ansiedades de suas leitoras. Revistas como Nova ou Claudia, da Editora Abril, preparam um mínimo de duas reportagens sobre questões sexuais a cada edição. Nos Estados Unidos, a revista Cosmopolitan, dirigida às mulheres, publica mais artigos sobre sexo do que revistas masculinas como Playboy. Lá, para cada sete páginas que a Cosmopolitan dedica ao assunto, a Playboy oferece apenas duas. As editoras americanas despejam anualmente 700 títulos do tipo "faça você mesmo", indo de A a Z no repertório das habilidades sexuais.

DEZ LIÇÕES - Deve-se examinar esses manuais com alguma reserva. Alguns são bons, outros parecem aqueles livros que ensinam a ficar rico em dez lições. Mas estão aí como um claro sintoma da reação da mulher à falta de informação. E, é claro, é melhor ler um manual, mesmo que tenha defeitos, do que ficar com nada. É que nada, em matéria sexual, significa muito. O sexo, sujeito a tabus de toda ordem, costuma ser apresentado às pessoas imaturas ou mal informadas com uma carga negativa terrível.
 Mesmo entre faixas educadas da população, as crianças estão submetidas a mensagens de padrão duplo. São incentivadas a ser graciosas, a pensar num futuro relacionamento com pessoa do outro sexo e ao mesmo tempo são bombardeadas por sugestões de que sexo é pecaminoso, arriscado e até sujo. Os órgãos sexuais não devem ser tocados em público, qualquer referência da criança ao sexo adulto é motivo de desconversa e os pais entram em pânico se meninos e meninas começam a brincar de médico no sofá.

As mulheres sofrem um massacre mais sério. Quando jovens, ouvem referências à gravidez indesejada, à violência masculina e à expectativa de que uma moça seja bem-comportada, qualquer que seja o significado dessa expressão. Há também o perigo da Aids. O surpreendente é que as pessoas consigam relacionamentos saudáveis no meio dessa conspiração contra o sexo. De maneira geral, conseguem. Quanto à conspiração, ela faz parte de uma manobra subliminar velhíssima, através da qual se procura um equilíbrio entre a manifestação sexual (necessária) e a contenção de seus abusos (também necessária, para que o escriturário não pule babando sobre a garota do protocolo nem esta precise arrancar-lhe a metade da orelha com uma mordida).

FANTASIA COLETIVA - Os livros que tratam de sexo têm a virtude de esclarecer pontos obscuros num mundo ainda dominado por ignorância e receios. Não surpreende que despertem interesse. É recomendável apenas que não sejam encarados como a satisfação garantida de todos os sonhos. "Os manuais são válidos, mas o sexo é aprendizagem, não dá para comprar num pacote", questiona Arletty Pinel. As mulheres estão aprendendo depressa. A coordenadora de moda Elza Lucchesi, paulista de 44 anos, é um exemplo. Casou-se pela primeira vez com um homem mais velho e sentiu-se pressionada a reprimir sua energia sexual. Conta que se liberou no segundo casamento, com Geraldo Peixoto Netto, catorze anos mais novo que ela. "Só consegui realizar minhas fantasias dos 18 anos depois dos 30, com Geraldo, que me trouxe energia sexual e espiritual", diz Elza. Alguma senhora diria uma frase como essa vinte anos atrás?

A tomada de consciência é um avanço. Mas vem na esteira de um cenário excessivamente erotizado. Das novelas do horário nobre, passando pelos comerciais de refrigerante, uma onda de sensualidade se propaga no ar. A era é de Madonna. O exibicionismo virou uma fantasia coletiva. Alguns sexólogos acham que é fruto da disseminação da Aids. Por esse raciocínio, as pessoas estariam falando muito de sexo para compensar a prática modesta. Alguns sociólogos preferem chamar o exibicionismo de tentativa amalucada de ganhar aqueles quinze minutos de fama. "Parece que está havendo uma disputa para saber quem conta detalhes mais íntimos e pavorosos", assusta-se o antropólogo Roberto da Matta.

O presidente da Academia Brasileira de Letras, aquele velhinho simpático de 94 anos, Austregésilo de Athayde, é capaz de contar em entrevista que ainda tem ereções. Acredite se quiser. A atriz Patrícia de Sabritt, 18 anos, teve a sem-cerimônia de dizer no programa de TV da apresentadora Silvia Poppovic que a mãe lançava olhares de desejo sobre seus namorados. Acredite. "O público quer ouvir mais, pede que esse assunto de sexo seja abordado de novo", conta Zeca Camargo, apresentador da MTV que já colheu depoimentos ao vivo de artistas sobre a vida íntima deles. Mesmo dentro da televisão, onde impera um comportamento mais avançado, algumas pessoas acham demais. "Andam confundindo sexualidade com algazarra", critica a atriz Tássia Camargo, 32 anos, casada há dez.

BAIXA LIBIDO - Há exageros, mas a soma geral é positiva. Nos anos 50, um detalhe anatômico como a virgindade era encarado como um carimbo de "nada consta" no currículo social de uma mulher. Sem ele, nem pensar em casamento. Uma pesquisa realizada com 4.500 leitoras da revista Nova, em setembro de 1991, apurou que, entre as mulheres de 14 a 19 anos que participaram do levantamento, 58% mantinham relacionamento sexual com o namorado. Entre as maiores de 30 anos, a porcentagem saltou para 90%. Ou seja, nessa faixa quase todas estão na brincadeira.
 Atualmente, as mulheres se divorciam, podem experimentar novas relações com menos culpa e a fase da descoberta e seleção do futuro parceiro vai-se tornando um jogo cada vez mais transparente. "Discuto com meu parceiro as minhas preferências sexuais e, se não der certo da primeira vez, dificilmente tento de novo", radicaliza a carioca Marcela Lima, 17 anos, assistente de produção teatral. Sob o prisma social, a condição sexual da mulher evoluiu mais dos anos 60 até aqui do que de Cristo até os anos 60. Até mesmo em direções indesejadas pelas mulheres. A produtora de televisão gaúcha Silvia Dinelli, 44 anos, separada há onze anos e mãe de dois adolescentes, acha que os homens estão ficando descuidados por causa do excesso de demanda feminina no mercado. "Os homens de hoje estão enfastiados com tanta disponibilidade de mulheres. A culpa é da liberação sexual excessiva dos últimos anos", diz Silvia. "Conheço homens charmosos, sensuais, que na hora H têm um desempenho muito fraco", lamenta.

Talvez haja um fator extra em ação. "As mulheres verbalizam mais suas emoções e frustrações, não estocando mágoas. O homem, ao contrário, é um colecionador de ressentimentos", diz Luiz Cuschnir. Pressões e stress de trabalho são antiafrodisíacos, talvez os piores, depois da feiúra. E o homem, sua maior vítima. Para a maioria dos terapeutas sexuais consultados por VEJA nas últimas semanas, o homem está sendo afetado pela crise econômica do país. Ele enfrenta, conforme alguns depoimentos, uma de suas piores crises de baixa libido.

Com facilidade de verbalizar o que sente, a mulher está falando das suas coisas mais íntimas porque espera melhorá-las. Neste ano, uma pesquisa conduzida pelo casal de médicos americanos Samuel e Cynthia Janus, entre 8.000 entrevistados, mostrou que apenas 15% das mulheres americanas teriam orgasmo com seus parceiros. Coloque-se uma mar gem de dúvida em relação a essas pesquisas e, ainda assim, não é possível que o levantamento tenha invertido por completo a situação. A única dedução é que o orgasmo entre as mulheres é menos comum do que se imagina e, nesse ponto, a famosa revolução dos costumes não deu em nada.

Talvez seja por isso mesmo que as mulheres estão lendo mais sobre sexo, exigindo mais dos parceiros, freqüentando terapeutas. Estão até fazendo treinamento muscular para, hum..., obter mais prazer. As avós da geração atual diriam que isso não passa de pouca-vergonha. Está longe de ser. Em São Paulo, a socióloga Sonia Novinsky aplica os conceitos da bioenergética, uma técnica de condicionamento das energias corporais, em suas pacientes com dificuldade de chegar ao orgasmo. Em sessões semanais, as mulheres são orientadas a exercitar os músculos da pélvis com ginástica especial. "A mulher carrega a pélvis de energia e faz com que a descarga do orgasmo seja mais intensa", diz Sonia. "As mulheres estão preocupadas com sua sexualidade. Já foram dóceis demais e agressivas demais. Buscam agora o meio-termo", diz a socióloga.

O meio-termo sugere a busca de uma relação harmônica com o parceiro e põe um ponto final à era da simulação. Dona de uma academia de ginástica no Rio de Janeiro, a aeróbica Lígia Azevedo, 51 anos, diz que só conseguiu o que chama de "independência sexual" aos 40 anos, depois de dez anos de análise e já no segundo casamento. "Até então, meu modelo de comportamento sexual era submisso. Quando não tinha orgasmos, fingia. Achava que poderia ofender o parceiro se não sentisse nada." A estudante de Letras Renata Vieira Griffo, 22 anos, casada há quatro, nunca teve esse problema. "Na minha geração, todos têm direito ao prazer e a fazer só o que se está com vontade." Quando não consegue chegar ao orgasmo, não tem vergonha de dizer. "Digo que vou tentar outra vez, rimos e começamos tudo de novo", conta Renata.

PONTO G - As explicações para as dificuldades da mulher em obter o prazer são tanto culturais como biológicas. "A dificuldade orgástica advém do atraso na sua iniciação sexual. O adolescente masculino é muito mais bem preparado no contato com o próprio corpo", analisa Moacir Costa. É por isso que os bê-á-bás do sexo insistem tanto nas lições de autoconhecimento para a mulher. Recomendam prolongados banhos de imersão e uma exploração do corpo desde os dedinhos do pé até as zonas erógenas. A descoberta do próprio corpo é considerada pelos profissionais da sexualidade como a chave para uma satisfação maior. A leitura de um livro desses seria considerada um exercício de pornografia por qualquer família nos anos 50 ou mesmo nos 60.

Fala-se tanto em sexólogos, mas é preciso entender que eles não sabem tudo. Muitos nem pouco sabem. O difícil é encontrar um especialista que reconheça a própria ignorância. No campo sexual, há um caso em que isso acontece. É o famoso Ponto G, sobre o qual os sexólogos simplesmente dizem não sei. Citado no Mae em vários outros livros, o Ponto G seria uma espécie de Eldorado do sexo. Quem falou disso primeiro foi o médico alemão Ernst Grafenberg, para quem o Ponto G é uma pequena área na parede da vagina que leva a um orgasmo intenso quando estimulada. No caso do Eldorado, bastaria encontrá-lo para ter acesso à riqueza. Com o Ponto G a coisa funcionaria do mesmo jeito. Achada a mina do prazer feminino, os sinos tocariam para a felizarda que tivesse encontrado o caminho do céu. Infelizmente, não há nenhuma evidência científica sobre a existência desse lugar tão especial. É outra fábula sobre a sexualidade. "A única certeza universal que se tem da sensibilidade genital da mulher é a estimulação do clitóris", diz o psiquiatra Moacir Costa.

Outra dificuldade da mulher para o exercício do prazer nada tem de misterioso. É o homem. Ele não está preparado para as novas exigências femininas. Educado para satisfazer a si próprio e manter o controle absoluto da situação, ele foi pego de surpresa pela reviravolta dos costumes. "O homem não sabe lidar com o desconhecido. Se a parceira sai do script, ele se sente ameaçado", explica o sexólogo Sócrates Nolasco, professor da PUC carioca que está lançando pela Editora Rocco o livro O Mito da Masculinidade. O desencontro é pior quando falta a compreensão da parceira. A advogada curitibana Elislean Bueno Ravache, 24 anos, casada há três anos, viu seu relacionamento físico com o marido desmoronar depois do nascimento de sua filha. "Foi um choque, de uma hora para outra ele não queria mais saber de sexo", desabafa Elislean.

RECORDES SEXUAIS - O casal continua mantendo uma relação de afeto e companheirismo, mas Elislean gostaria de voltar a ter uma vida sexual com o marido tão ativa quanto era no passado. "Ele diz que é uma fase, mas isso já dura dois anos", suspira a advogada. Quando faz esse tipo de cobrança - e a faz com toda a clareza -, a mulher geralmente está pedindo também provas do interesse e do amor de seu parceiro. Os seres humanos de ambos os sexos têm uma tremenda necessidade de ser apreciados, desejados e amados. O ato sexual é uma das maneiras mais convincentes de mostrar a alguém que ele ou ela é atraente, interessante, digno de ser amado. Quem é desejado sente-se acariciado no ego. O sexo, desse ponto de vista, faz muito bem.

Mas atenção: algumas mulheres estão confundindo as coisas ao procurar solução para suas insatisfações como quem reivindica equiparação salarial ou igualdade de direitos políticos. A sexualidade não é tema que se resolva em assembléia, por pressão de maioria ou votação democrática. Um dos erros é buscar uma equiparação com o homem quanto ao número de orgasmos obtidos. Pode parecer uma caricatura do problema, mas a verdade é que se assiste a uma espécie de reivindicação do orgasmo por parte de uma parcela das mulheres. "A mídia é que estimula esse modelo", adverte Arletty Pinel. "É a masculinização da sexualidade."

Para a mulher é quase impossível dissociar sexualidade de afetividade. Para o homem é mais fácil, embora ele também faça a associação. Depois de certo tempo de união, mesmo os casais mais apaixonados tendem a baixar o seu ritmo sexual. A mulher, que identifica o ato sexual como prova de afetividade do marido, associa essa queda natural a desamor e desinteresse. Pode não ser. "O homens deveria falar para sua companheira que a ama apesar de não manter mais relações três ou quatro vezes por semana. Mas ele não sabe verbalizar esse tipo de sentimento e ela se ressente", diz Gérson Lopes.

MITO - Ao reclamar uma freqüência acima da disponibilidade do parceiro, a mulher está deixando um tabu (o do silêncio) para cultivar um mito (o do recorde sexual). Para medir seu grau de satisfação na cama, muitas vezes as mulheres tomam como parâmetro alguns índices que são muito relativos. "Até dez anos atrás a média internacional era de uma a duas vezes por semana", diz Gérson Lopes. "Alguns autores chegam a admitir que o limite da normalidade é de uma vez a cada dois meses", explica. Antropólogos já estudaram sociedades que se contentam com uma vez ao ano e outras que não deixam por menos que uma vez ao dia. O melhor então é esquecer o que sussurra a vizinha e cada casal fazer o seu próprio ritmo. Outro mito é o das múltiplas relações em uma mesma noite. "Essa história de transar três vezes seguidas não pode ser considerada padrão de comportamento", diz Gérson Lopes. A grande maioria dos casais tem apenas uma relação por vez. Mais importante do que ultrapassar os recordes alardeados é não ameaçar a própria afetividade com a busca ansiosa do orgasmo.

"A mulher está tentando desvincular o sexo da afetividade. Mas se machuca, porque não consegue", afirma a terapeuta Arletty Pinel. O que parece um paradoxo - a mulher pleiteia a relação sexual, mas sente falta de amor - é uma realidade palpável nos consultórios terapêuticos. Muitas mulheres se queixam de baixa freqüência sexual ao mesmo tempo que reclamam não poder abraçar e beijar seus maridos sem que esse carinho seja compreendido como um convite a uma relação. Os homens, por outro lado, reagem sofregamente e se empenham em dar o máximo para satisfazer suas mulheres. "Isso também é um engodo", analisa Moacir Costa. "O homem que vai para a cama com a obsessão de dar prazer à companheira está querendo ter o controle total da relação." E nem sempre é bem-sucedido. "Ninguém tem que se preocupar com nada", opina a atriz Bruna Lombardi, 39 anos, casada há treze com o ator Carlos Alberto Riccelli. "A fantasia sexual tem que estar sempre acesa. Mas quem se preocupa muito na hora dança."  

A pressão feminina

Segundo o sexólogo mineiro Gérson Lopes, que aplicou questionários entre 390 casais de classe média e média alta de cinco cidades brasileiras, no primeiro semestre deste ano, as conclusões de seu estudo são:

 • Mais da metade das mulheres gostariam de maior freqüência sexual.
 • Cerca de 90% das mulheres relacionam o amor por seus maridos com o prazer sexual que eles podem proporcionar.
 • A maioria das mulheres entrevistadas queixou-se da diminuição das carícias preliminares.
 • Para a maior parte dos casais que responderam ao questionário, sua satisfação sexual é apenas mediana.

A mina dos manuais do amor

A americana Nancy Friday é uma dona de casa feliz, com um biótipo que suas amigas consideram digno de uma Miss América. Nancy também é uma escritora capaz de vender 1 milhão de exemplares de um livro que leva o título de Meu Jardim Secreto. Sobre sexo, claro. O best-seller da senhora Friday, um livro que relata fantasias eróticas femininas, já tem duas décadas e, lançado em 1988 no Brasil, continua imbatível na categoria. A razão do sucesso é simples. Nancy conseguiu romper a sisudez dos tratados feministas editados à época e levou às mulheres um pouco de feijão-com-arroz temperado.

O caminho aberto por ela virou um filão editorial na década de 90. A diferença é que, em vez das historinhas picantes relatadas pela escritora, as mulheres estão em busca de manuais sobre sexo. Ou seja, elas querem saber quando e como aplicar suas fantasias. No Brasil os números já deixam claro que sexo é cultura de massa: estão em catálogo nas livrarias mais de 280 títulos sobre o assunto, contra 76 sobre lazer e 84 sobre cuidados com as crianças. "Esse tema é de venda garantida", afirma Sérgio Machado, da Editora Record, que tem nas livrarias mais de quinze títulos sobre sexo.

NIRVANA SEXUAL - Existem livros para todos os gostos. Há, por exemplo, um guia para melhorar a vida sexual dos casados, chamado Como Fazer Amor com a Mesma Pessoa por Toda a Vida e Continuar Gostando, da americana Dagmar O'Connor. Para casadas e solteiras, existem o Manual do Orgasmo, da brasileira Marilene Vargas, ou A Mulher Sexualmente Satisfeita, do argentino Juan Carlos Kusnetzoff. Em comum, uma linguagem didática e dicas para que a mulher resolva seus problemas de sexualidade. "A mulher está exigindo co-participação no ato sexual", explica ênio Silveira, editor da Civilização Brasileira. Ao resolver editar o Manual do Orgasmo, um guia prático para alcançar o nirvana sexual, a editora conseguiu emplacar o livro na lista dos mais vendidos.

"Os livros de sexo sempre sustentaram as editoras", afirma Rose Marie Muraro, editora da Rosa dos Tempos. Rose tem experiência no assunto. Seu Sexualidade da Mulher Brasileira, de 1983, vendeu 18.000 exemplares. Prova da mudança de comportamento do público: hoje, como editora, Rose exibe uma marca muito maior. Um dos produtos da casa, Conversando sobre Sexo, da psicanalista Marta Suplicy, bateu a casa dos 200.000 exemplares vendidos.

Boas surpresas na meia-idade

Em 1975, as americanas de meia-idade sofriam de horrendas dores de cabeça. à época, uma pesquisa conduzida pelo psicólogo americano Paul Cameron mostrou que a mulher de meia-idade dos Estados Unidos achava o sexo menos importante do que qualquer tarefa doméstica - como limpar a cozinha, passar roupa, ver TV. E dormir. Quase vinte anos depois, as enxaquecas, se não passaram totalmente, diminuíram de forma radical. Hoje, 43% das americanas com mais de 65 anos têm vida sexualmente ativa, segundo os dados do Relatório Janus de comportamento sexual. O relatório, uma radiografia minuciosa da vida amorosa do americano dos anos 90, mostrou também que o sexo, para boa parte das entrevistadas, tornou-se até mais gratificante do que na juventude.

Por quê? As mulheres que responderam ao Janus acham que na maturidade o sexo é mais demorado, há maior intimidade com o parceiro e os filhos já não exigem cuidados. Estão crescidos e geralmente fora de casa. Não é de hoje que os sexólogos garantem que a atividade sexual é possível e saudável na maturidade. O problema é que esse recado parecia ser dirigido ao homem, que, depois dos 50 anos, passa a se preocupar com seu vigor sexual. O que as pesquisas estão mostrando agora é que a mulher, além de ter assegurado seu direito ao prazer, encontra na meia-idade uma vitalidade erótica muitas vezes superior à de seu parceiro.

Por motivos biológicos e influências culturais, o homem tem seu pico de capacidade erótica aos 18 anos. Perde vigor a partir daí, mas em geral vai muito bem até por volta dos 50. Então, o declínio se acentua ano a ano, tanto na intensidade do período de excitação como na sua duração. Ou seja, o homem faz menos e pior. Aos 65 anos, 25% dos homens já estão impotentes e, aos 75, a metade deles já jogou a toalha, conforme o célebre Relatório Kinsey. A mulher, que tem seu pico erótico aos 30 anos, também o perde a partir da menopausa, mas muito menos. No seu caso, a mudança, além de mínima, não aparece. Outra vantagem feminina: na meia-idade, a mulher já suplantou inibições comuns às mocinhas. Está mais segura e exigente, enquanto o marido tem menos a oferecer.


 
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