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4 de abril de 1973
Uma tragédia brasileira

J. A. A., 58 anos, sexo masculino, cor preta, estado geral precário.
Portador de um adiantado carcinoma nas cordas vocais...

L. M. S., 37 anos, sexo feminino, cor branca, estado geral satisfatório.
Pequeninos grãos alastrando-se pelo seio...

Anônimos e indefesos, como J. A. A. e L. M. S., 200.000 brasileiros são anualmente sorteados, segundo estimativas oficiais, na sinistra loteria do câncer - um número que deverá saltar em 1975, pelos cálculos menos pessimistas, para 520.000 casos. Um terço dos pacientes morrerá no primeiro ano após contrair a doença, alguns serão definitivamente curados, outros terão um incerto período de sobrevída. Mas, por trás dessas 200.000 histórias de dúvida angustiante, há duas tristes certezas - a ignorância e a falta de recursos estão na base da tragédia brasileira do câncer. Porque são exatamente os cânceres de maior incidência no Brasil - colo uterino (34%), pele (22%), mama (11%) e cavidade bucal (10%) - os de mais fácil diagnóstico e maiores possibilidades de cura. Nos dois primeiros casos, de cura total.

Para atacar mais globalmente o problema, o ministro da Saúde, Mário Machado de Lemos, havia anunciado no fim do ano passado um Plano Nacional de Combate ao Câncer, com implantação prevista em janeiro de 1973. Pela primeira vez, a questão entrava na lista das prioridades do governo federal com apoio prometido do Ministério da Fazenda. Entretanto, dispondo de um diagnóstico da situação em todos os Estados e de verba suficiente para começar a campanha, que já havia sido adiada para fim de março, ainda não tem lugar marcado no calendário oficial.

DIAGNÓSTICO - "Não basta apenas uma grande idéia. É preciso que existam as condições de exercitá-la inteiramente", dizia a VEJA o dr. João Sampaio Goes Jr., diretor da Divisão Nacional de Combate ao Câncer, dois meses atrás. Na semana passada. quando presidia no Recife o III Encontro Nacional sobre Controle de Câncer Ginecológico, que reuniu os doze Estados do norte e nordeste, Sampaio Goes deve ter concluído que as condições, no Brasil, permanecem muito aquém do satisfatório. Na abertura da reunião, na última segunda-feira, o representante do Acre, para começar, anunciou simplesmente que não possuía verba para prevenção nem um só leito para câncer em seus hospitais.

A partir de então, as queixas se multiplicaram e Sampaio Goes, quase escondido pelo ramalhete de gladíolos que enfeitava a mesa diretora, no auditório do Senac, ouvia de Jorge Gennari, do Amazonas, que desde o ano passado conta com um serviço de câncer ginecológico no qual professores dão assistência sem qualquer remuneração: "Por favor, é um apelo. Mande-nos material e pessoal, que o nosso povo, por índole, é dócil, gosta de procurar os médicos". O Maranhão provocou risos na platéia: "Temos uma estrutura montada, mas sem nenhum funcionamento", lamentou o dr. Antônio Jorge Deno. E o Piauí informou que, dos seus nove hospitais, apenas um tem clínica ginecológica com serviço de prevenção de câncer. Os demais Estados, embora já possuam esses serviços, mostravam-se alarmados com a grande distância que separa os altos índices de mortalidade por câncer - em Fortaleza e Belém, por exemplo, é a segunda causa da morte, vencida apenas pela disenteria - e os magros recursos destinados à assistencia ginecológica.

MAL EM CASA - No final do encontro, Sampaio Goes afirmava a Marcelo Pontes, de VEJA: "Houve muito entusiasmo e interesse. Nosso objetivo maior era conhecer os problemas do norte e nordeste, para desenvolver um programa eficiente dentro de um critério científico. Nossas idéias agora estão mais amadurecidas e penso que já possuo todos os elementos para apresentar ao Ministério da Saúde e ao presidente da República o Plano Nacional de Combate ao Câncer, que poderá ser lançado a qualquer instante".

A etapa que Sampaio Goes ainda precisa vencer talvez seja pequena, comparada aos obstáculos até agora enfrentados pelos que o antecederam no cargo e por todas as instituições particulares que lutam isolada e teimosamente contra o câncer. A precariedade dos orçamentos, a imperfeição das estatísticas, o desinteresse oficial e o reduzido contingente humano sempre constituíram barreiras intransponíveis aos seus melhores planos.

Por isso, quando em janeiro do ano passado, diante dos rumores de um fracasso na luta anticâncer no Brasil, o então ministro da Saúde, Francisco da Rocha Lagoa, percorreu os onze andares do Instituto Nacional do Câncer, no Rio, e pôde constatar que o mal começava em casa. A verdade é que o hospital oficial do câncer no país chegara aos 34 anos de existência com um déficit de duzentos funcionários, entre enfermeiros e médicos, uma aparelhagem defeituosa, laboratórios destruidos, enfermarias inabitáveis.

OBRA PERECÍVEL - Durante todos aqueles anos, circunscrito a uma salinha no terceiro andar do prédio, cuja limpeza ele mesmo se encarregava de fazer, o então diretor da Divisão Nacional de Combate ao Câncer, dr. Moacyr dos Santos Silva, informou ao ministro: "Para recuperarmos o Instituto, precisamos de 70 milhões de cruzeiros". Recebeu apenas 11 milhões, como parte de um crédito suplementar de 16 milhões concedidos à Divisão.

Hoje, novamente diretor do Instituto (desde que, em agosto de 1972, foi substituído por Sampaio Goes na Divisão), Santos Silva ainda alimenta o sonho de transformá-lo numa entidade científica. Mas a tarefa continua tão complicada como sempre, apesar da verba adicional de 9,4 milhões que o Instituto terá este ano. A carêncía de funcionários saltou para seiscentos, e seus médicos recebem apenas 800 cruzeiros por mes, o que os obriga a dividirem seu tempo por mais dois ou três empregos extras. Outros dados alarmantes foram constatados pessoalmente por Elizabeth de Carvalho, de VEJA, quando visitou o Instituto em companhia do próprio diretor. 0 quadro descrito por ela é mais ou menos o mesmo em todos os andares, distribuídos em dois blocos: sujeira pelo chão e nas paredes, pintura aos pedaços nos cinqüenta apartamentos dos residentes, aparelhagem quebrada e doentes jogados sobre camas com lençóis rasgados, sujos de sangue.

Na sala de radiodiagnóstico, é rotina utilizar em abreugrafias o único aparelho disponível de raios X para o crânio, enquanto o equipamento adequado vai sendo consertado para que volte a funcionar - coisa que há quatro anos não acontece. Nesse meio tempo, é possível ver um doente que aguarda, de pé, numa das salas escuras da seção, o conserto de uma de suas máquinas antigas - todas com mais de quinze anos para que possa ser, finalmente, radiografado.

PRÉ-COMA - No ano passado, um levantamento da Divisão Nacional, em busca de mais exatidão nas estatísticas, revelaria situações ainda mais sérias que a do hospital oficial. Nos Estados do nordeste, por exemplo, as estimativas são confusas e conflitantes. pela inexistência de serviços adequados de controle e atendimento. O Hospital do Câncer de Pernambuco, no Recife, funciona com 60% de sua capacidade (112 leitos) e um deficit de 830.000 cruzeiros. E, somente em 1972, deixou de internar metade dos 3.500 suspeitos ou portadores comprovados da doença que o procuraram.

"0 quadro é o mesmo em todo o nordeste", explica o dr. Jaime de Queiroz Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia e diretor do hospital pernambucano. E tem razões de sobra para pensar assim porque, somando as onze respostas que recebeu até agora de uma circular expedida a quinze instituições filiadas à sua Sociedade, surgiu uma cifra desalentadora: quase 8 milhões de cruzeiros de dívidas.

Para Queiroz Lima, que vive o drama de todas as instituições semelhantes no Brasil - periódicas campanhas públicas para se livrarem da ameaça de fechamento -, um dos agravantes do problema do câncer é não só o baixo grau de educação sanitária das populações, mas principalmente a dificuldade de meios para prevenção e tratamento da doença. E, citando o caso de seu hospital, onde uma verba anual de 200.000 cruzeiros mal chega para as despesas de consumo interno, Queiroz Lima conclui desolado: "Todos os hospitais brasileiros estão em estado pré-comatoso".

OITAVO LUGAR - A falta de recursos e o baixo nível educacional serão, sem dúvida, os principais problemas para o Plano Nacional. Paraíba, por exemplo, está entre as primeiras regiões do mundo em incidência de câncer de útero (oitavo lugar) e de pênis. Mas, para enfrentar essa situação, o Estado conta só com dois instrumentos: o Hospital Napoleão Laureano, que sobrevive com parcos recursos procedentes de entidades públicas (em 1972, informa o diretor Antônio Carneiro Arnaud, o governo contribuiu somente com 2.000 cruzeiros), e a Rede Feminina de Combate ao Câncer, que nem sequer dispõe de transporte para estender seus trabalhos assistenciais ao interior. Mas no Serviço de Prevenção do Câncer Ginecológico, também em João Pessoa, a situação talvez seja pior: mantido pela Loteria Estadual, teve sua verba drasticamente reduzida com a chegada da Loteria Esportiva.

Com todas as deficiências, porém, 43.000 paraibanos foram atendidos durante os últimos doze anos. No Hospital Laureano, com uma boa equipe médica, três salas de raios X e diversos consultórios, os responsáveis falam com orgulho da bomba de cobalto e de um moderno microscópio alemão, ambos doados. Quanto ao resto das instalações, a história da precariedade se repete com o mesmo enredo de outros tempos e lugares: pinturas desbotadas, pisos desfalcados e velhos, magros cardápios para os doentes, vencimentos com meses de atraso para os médicos.

FILA DE ESPERA - Um problema nacional impede, de fato, que boas aparelhagens, como a do Hospital Laureano, sejam adequadamente aproveitadas - a falta de vagas. Com apenas 82 leitos, o hospital paraibano não consegue atender uma parte considerável de casos positivos. "Às vezes, todo o material que examinamos num único dia acusa somente pacientes cancerosas", explica o cancerologista Ely Chaves a Martinho Franco, de VEJA. "Elas não têm, contudo, a menor chance de cirurgia, que deveria ser urgente, porque há sempre pelo menos o triplo de doentes na fila de espera. Muitas vezes, a assistente social manda uma cartinha para determinada paciente, informando que chegou a sua vez, e recebe a resposta de que ela já morreu."

No Brasil central, um paradoxo talvez maior aguarde as medidas que Sampaio Goes pretende efetivar ainda este ano. Segundo o ginecologista Maurício Duzzi, do Hospital Distrital de Brasília, por curiosa ironia, não há na capital federal qualquer recurso especial para o câncer. Nem se realizou até hoje qualquer espécie de campanha anticâncer, porque, explica o médico, "existe em Brasília a mística da prevenção". E a verdade é que esse consenso espontâneo dá seus resultados: das 25.000 a 28.000 mulheres que fizeram exame ginecológico em 1972, a grande maioria pertence à classe média baixa e à classe C, normalmente as menos informadas da população.

UM PARA TRÊS - O quadro é também desanimador em São Paulo, onde há uma falta de mais de 1.000 leitos. E os outros três Estados do sul contam com um único hospital especializado em câncer - o Santa Rita, em Porto Alegre. Nos seus amplos corredores, o diretor Edgar Diefenthaler recomenda silêncio toda vez que se pronuncia a palavra câncer em tom mais alto: somente no ano passado, a doença matou quase 5.000 gaúchos.

"os doentes entram nas salas e andam pelos corredores com o rosto e a fatalidade de condenados", relata Pedro Maciel, de VEJA. "Os médicos, sentindo, talvez, um pouco de culpa diante da impotência dos tratamentos contra o câncer, vão assumindo o mesmo ar de resignação. E todos deixam de falar até na própria palavra." Entretanto, no Instituto de Quimioterapia e Cirurgia de Tumores do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, as mais modernas formas de tratamento já se tornaram rotina.

MEDO DO MEDO - Na maioria dos Estados, um dos grandes receios quanto ao plano a ser lançado é, justamente, o de que a procura se multiplique - e torne ainda mais dramática a carência de oferta. Mas o diretor da Divisão Nacional do Câncer não vê razões para se temer a cancerofobia: "Realizaremos o chamamento de toda a população para exames periódicos, ao mesmo tempo que tivermos recursos para o atendimento. Uma vez instalados os centros básicos, eles é que desenvolverão a campanha em sua região, orientados, é claro, pela Divisão, que brevemente se transferirá para Brasília".

Lá, cercado de todo sigilo, prepara-se o lançamento do boneco "Prevenildo", previsto para maio pela Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República (AERP). Cabelos ralos, nariz redondo, voz persuasiva, Prevenildo é o "doutor" que em seis desenhos animados, em cores, mostrará risonhamente ao público de televisão os verdadeiros perigos do câncer. Segundo seus idealizadores, ele tentará equilibrar dois extremismos em relação à doença - indiferença e pânico.

As vezes agressivas, outras ingénuas - "A mulher que faz exame, todo ano, sem temer, pode dormir sossegada, de câncer não vai morrer", diz o poema-conselho de "Jornal do Câncer", órgão informativo oficial -, a maioria das campanhas publicitárias até agora empreendidas não conseguiu motivar suficientemente o brasileiro. Mas, apesar de seu gosto duvidoso, uma delas obteve não só a adesão de jornais do Rio e de São Paulo como até mesmo do governo federal. A campanha foi idealizada pela Dutra Propaganda depois que seu diretor, Waldemir Dutra ("Publicitário do Ano" em 1971), livrou-se de um melanoma maligno (câncer de pele). Sobre um fundo negro, desenhos de aspecto macabro e um texto agressivo ervem a um propósito definido: "Combater no tapa o medo e a ignorância que a maioria das pessoas revela em relação ao câncer", explica o próprio Dutra.

CONFORMISMO - Medo e ignorância, além da onipresente falta de recursos, são, na verdade, uma das causas de óbitos por câncer no Brasil. "O tratamento de um carcinoma (tumor maligno que deriva da pele ou da mucosa) em fase adiantada", informa Sampaio Goes, "custa cerca de 5.000 cruzeiros. Em sua forma pré-invasora (quando o tumor ainda não infiltrou ou não deu metástase), sai por menos de 800 cruzeiros." Um caso típico é o do Hospital Aristides Maltez, na Bahia, que vive de verbas oficiais e praticamente substitui a participação do Estado no combate ao câncer. Apesar de ter apenas 133 leitos para internamento, sua diretoria tem uma queixa estranha: os quartos que mantém para diaristas (pessoas de poder aquisitivo suficiente para pagar o tratamento) estão sempre vazios. "Quem tem câncer e dinheiro, esconde a doença", esclarece o cancerologista Carlos Aristides Maltez, filho do fundador.

Em cada enfermaria do hospital ficam de seis a oito internos (INPS, Fundo Rural, indigentes), quase sempre pessoas com mais de cinqüenta anos, de aparência humilde. Calados, incapazes de qualquer reação mesmo quando observados por algum estranho, eles refletem o comportamento padrão, que o dr. Luís Carlos Teixeira, responsável pela seção de radioterapia, define numa frase: "Hospital de câncer é hospital de conformados".

SEMPRE TARDE - Um dos maiores problemas é que a maioria dos cancerosos chega tarde demais ao consultório médico e, como as chances de cura são proporcionais ao tempo de evolução da doença, o câncer é uma das principais causa mortis em todas as capitais brasileiras - em Aracaju, chega a ser a primeira. O câncer de colo de útero, com sua grande margem de cura, é um dos casos mais dramáticos. "Atualmente morre de câncer uterino quem quer", diz o dr. Moses Zitron, médico do Serviço de Prevenção do Câncer Ginecológico do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, onde atende, em média, trinta mulheres por dia. No Brasil, entretanto, é justamente este tipo de câncer que está no topo das estatísticas, pela resistência das pacientes em se tratarem.

Mais do que a pobreza, a causa principal dessa resistência é um pudor exagerado em relação ao exame ginecológico. Numa campanha realizada em 1972, na Bahia, nas cidades de Cachoeira e São Félix, onde se planejava examinar 7.000 mulheres, apenas 3.000 compareceram, apesar dos apelos feitos por ambas as prefeituras através de cartazes e alto-falantes. Motivo: vergonha das mulheres e resistência dos maridos.

No entanto, o exame é fácil - uma simples coleta da secreção vaginal. Uma vez detectado o tumor, basta uma pequena cirurgia para amputar o colo do útero, o que não leva mais de 30 minutos e, segundo Zitron, preserva todas as funções vitais da mulher: "Não interfere na menstruação nem na vida sexual normal".

REPOSITÓRIO - "No Brasil, a cirurgia e a radioterapia são ainda consideradas as armas mais eficazes na luta contra o câncer", queixa-se o dr. David Erlich, presidente da Associação Paulista de Combate ao Câncer. Para ele, a quimioterapia - desde 1954, seu front de ação - foi reduzida à condição de receptáculo dos doentes cujo tratamento não teve êxito com outros métodos terapêuticos. Assim, quando o doente chega às mãos do quimioterapeuta, seu estado é praticamente incontrolável e o tratamento não passa de um paliativo para garantir-lhe uns poucos anos de vida.

Provavelmente o Instituto de Antibióticos da Universidade Federal de Pernambuco seja a instituição que mais tem contribuído, na América Latina, para o desenvolvimento da quimioterapia experimental, No entanto, apesar de já ter produzido a Actinomicina D, substância importante para a cura de alguns tumores malignos nas crianças, e a L-Asparaginase, eficaz na leucemia linfática, suas atividades estão atualmente concentradas no ensino.

"Além disso", diz o dr, Erlinch, "existe nos hospitais brasileiros uma resistência à criação de serviços de quimioterapia oncológica", que trata dos tumores malignos. Talvez porque a concretização desses serviços lhe parecesse remota, resolveu pôr em prática suas idéias por conta própria. Assim, com mais cinco médicos, criou em julho do ano passado, no tranqüilo bairro de Pacaembu, em São Paulo, a primeira Clínica Oncológica do Brasil.

Seu aspecto familiar - uma casa de tijolos vermelhos cercada de bem cuidados jardins - tem um objetivo psicológico: o indispensável relaxamento do paciente durante uma terapia que costuma ser sua última esperança,

CARIDADE FANÁTICA - Com ou sem esperanças, o fato é que o brasileiro canceroso tem ohstáculos formidáveis a vencer. Mesmo depois da cura total ou parcial, sua reintegração na sociedade esbarra no muro do preconceito, problema que geralmente ocorre quando o paciente sofreu, na cirurgia, mutilações graves que o tornam incapacitado para o trabalho ou uma figura "agressiva" ao ambiente.

Para o primeiro caso, o dr. Hindo Guida Filho, diretor do Hospital A. C. Camargo, de São Paulo, tem uma soiução planejada: "Como a cada dia os casos de sohrevivência são mais comuns, estamos pensando em criar um setor de laborterapia, onde o ex-doente aprenderia uma profissão, de acordo com sua capacidade funcional. Ele poderia, inclusive, ser aproveitado pelo próprio hospital".

Mas para quem não pode pagar seu internamento, e encontra sempre lotados os leitos gratuitos, o drama é certamente maior. Estes, cancerosos irrecuperáveis ou não, vivem sob a suspeita de que sofrem de um mal contagioso. E, recusados até mesmo pelos abrigos oficiais, obrigados a recolhê-los, dificilmente encontram um canto onde possam simplesmente, morrer.

Essa situação engendrou uma espécie de filantropia fanática em Pedro Cavalheiro, dono da Pensão Bom Jesus - a única em São Paulo que só aceita cancerosos como hóspedes. Desde que decidiu entregar-se à ingrata tarefa em 1958, sua pensão mudou de endereço várias vezes, sempre por pressões de abaixo-assinados de vizinhos "que tinham repugnância pelos doentes", conta ele. Hoje instalado no bairro da Liberdade, a poucos metros do Hospital do Câncer, ele se esmera em provar que seus hóspedes não lhe inspiram esse tipo de sentimento . A primeira coisa que faço para ganhar a confiança desses pobrezinhos é beijar suas feridas", afirma Pedro Cavalheiro.

ÚLTIMA MORADA - Ao contrário de Cavalheiro, as aspirações do vereador paulista João Antônio de Oliveira Laet são mais modestas. "O que eu queria era ter apoio oficial para continuar minhas pesquisas", afirma. Essas pesquisas, interrompidas de forma inesperada há três anos, levaram-no à obtenção de um extrato viscoso feito com entranhas de urubu, com o qual pensava obter um agente imunológico contra o câncer. Mas a matança que tal experiência exigiu no bairro paulistano de Jaçanã rendeu apenas uma ameaça de prisão para Laet, já que os urubus são aves protegidas pela lei.

Resignado, o vereador voltou-se para a caridade. Em Mairiporã, pequena cidade nos arredores de São Paulo, ele mantém uma chácara dividida em cinco casas, a que deu o pitoresco nome de Casa de Caridade Porta do Céu. Para lá são enviados pelos hospitais os doentes desenganados, sem família e sem qualquer espécie de recursos econômicos. Ali, todos permanecem a maior parte do tempo deitados. De seus corpos precocemente decrépitos exala um mau cheiro que uma essência de lavanda constantemente borrifada no ar pela atendente não consegue disfarçar. Os poucos que ainda andam perambulam sem sentido através de uma verdadeira floresta de palmeiras, goiabeiras e amoreiras. E não buscam, de fato, um rumo. Pertencentes àquela categoria dos brasileiros que não conseguem prevenir-se a tempo, os hóspedes de Laet aprendem a se consolar com a promessa de uma outra vida melhor.

E, justificando o nome da casa onde moram, ali, costuma dizer o hospedeiro, "Todos morrem sorrindo".


 
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