| |
4
de fevereiro de 1976
Pior que tudo é o cotidiano Diversões,
automóveis, ar, água - tudo pode significar um tormento a mais para
o paulistano
As chuvas de verão reprisaram na
quarta e quinta-feira passadas, em São Paulo, alguns dos
habituais espetáculos de anos anteriores. Doentes foram retirados
às pressas de um hospital, sobre jangadas improvisadas com
tambores de gasolina. Crianças tiveram de se refugiar dentro
de casa, em cima de velhas mesas e guarda-louças. enquanto
suas aflitas mães tentavam salvar a nova enceradeira ou o
novo sofá. Jardins duramente cultivados fenecerem sob as
enxurradas e sob a lama. Ônibus sitiados renderam-se às
águas. Telefones silenciaram e canoas deslizaram pelas ruas.
Nem os mais tristes infortúnios,
porém, parecem capazes de despertar a cidade de sua rotina
- ou de sua crescente indiferença diante de situações
desse tipo. Assim, pouco antes das 5 da manhã de quinta-feira
passada, com as águas à altura da cintura, João
Evaristo, 36 anos, já se arrastava para fora de sua casa
alagada, no bairro central do Cambuci, rumo à Vila Mariana,
onde um emprego que vai diariamente das 5h30 às 22 horas,
incluindo domingos, lhe rende 2.300 cruzeiros de salário.
A mulher, Aldevina, acompanhou-o ao portão, como faz freqüentemente,
e resignada esperou que as águas baixassem para limpar o
lodaçal e varrer a imundície - repetindo mecanicamente
uma operação que já exige dela. desde que mudou
para ali, cinco anos de paciência. "Para nós,
tudo isso é natural", comentou.
Decerto, São Paulo é uma
cidade que tipicamente costuma reivindicar de seus moradores uma
sacrossanta resignação e infinita paciência.
Enchentes, poluição, trânsito conturbado, sujeira,
desemprego, epidemias, assaltos, são alguns dos dramas que
parecem definitivamente incorporados ao seu confuso, árido
e turbulento quadro urbano. Portanto, por que dona Aldevina, o sr.
Evaristo e seus vizinhos do Cambuci haveriam de se indignar, de
tempos em tempos, com a forçada convivência com as
águas barrentas do Tamanduateí? Em São Paulo,
a provação real está no próprio cotidiano.
O paulistano, nos últimos anos,
aprendeu a despertar graças à metálica histeria
de uma serra elétrica de uma obra exatamente sob sua janela.
Nada mais natural do que perder duas, três horas diárias
dentro de um ônibus coletivo, em demanda do longínquo
trabalho. Ninguém acha estranho enfrentar empurrões
e cotoveladas para obter um lugar no cinema. Comenta-se, assim,
estoicamente. que os assaltantes locais já se especializam
a tal ponto que alguns preferem atuar apenas nos dias 10 de cada
mês - que, sabem eles, é o dia do pagamento. E há
muito tempo, obviamente, foi esgotada a capacidade de admiração
com a gradativa escalada dos gráficos de poluição
atmosférica.
A pesar de tudo, este informe acampamento
não deixa de ter seus encantos. Antônio Carlos Moana,
por exemplo, 30 anos, em São Paulo desde 1964, encontrou-os
finalmente, depois de anos de luta para vencer na vida. Morou em
porões e pensões insalubres, viveu dos raros sanduíches
que lhe permitia um salário de auxiliar de contabilidade
e estudou à noite, até se formar em direito, na vizinha
Moji das Cruzes. Hoje, tem mulher, três filhos, um Passat
zero quilômetro, uma casa de três quartos no Parque
Continental, e um trabalho que lhe exige gravata, dez audiências
diárias, em média, no Forum, dezenas de cobranças
pelo telefone e o dia todo longe de casa.
A família Moana só se vê
de manhã, às 7 e meia, quando saem marido e mulher
para o trabalho. Ao cinema, normalmente, só se vai de seis
em seis meses. Eventualmente, os Moana fazem um passeio pelo Parque
do Ibirapuera, aos domingos, e recebem os amigos em casa, nas noites
de sexta-feira, para uma partida de buraco. O casal sonha, um dia,
fugir do barulho, da confusão, do tumulto de São Paulo
"e voltar para o interior". O que, hoje, no fundo lhes
parece cada vez mais remoto. A eles e, possivelmente, à maior
parte dos 10 milhões de desesperançados, mas persistentes,
cidadãos da Grande São Paulo que completou 422 anos
no último dia 25 de janeiro.
Se acaso revissem hoje a cidade que germinou
em torno do colégio dos jesuítas, Manuel de Nóbrega
e José de Anchieta seguramente se espantariam. Da semente
religiosa lançada em 1554 no planalto de Piratininga surgiria
o monstruoso aglomerado urbano dos anos 70. Lima das sete cidades
do mundo com mais de 10 milhões de habitantes na área
metropolitana. E os protagonistas e espectadores desse pesadelo
moderno são
Justamente os herdeiros de seu primitivo
rebanho. Aos fundadores do que viria a ser uma megalópole,
entretanto, talvez ocorresse uma dúvida: teria valido a pena?
Até o final do século passado,
os dois jesuítas poderiam contemplar São Paulo sem
pasmo ou pena. Durante mais de 300 anos, a cidade sobreviveu harmoniosa
corno um simples ponto no planalto uma silenciosa comunidade
que, ainda em 1872, reunia somente 31.000 almas. Mas o século
XX multiplicou indícios de que a antiga calmaria agoniza.
Assim é que, em 1900, a população já
saltara para 240.000 habitantes, inaugurando uma vertiginosa escalada
demográfica. Greves operárias como a de 1918 atestavam
a rapidez da expansão industrial, bondes e automóveis
invadiam as ruas. Chegavam imigrantes estrangeiros e brasileiros
de outras regiões o que acabou invertendo a histórica
tendência sedimentada ao tempo dos bandeirantes, que caracterizava
São Paulo como um vigoroso manancial de homens em demanda
do sertão.
Durante todo esse tempo, prefeitos e interventores
quase todos excessivamente absorvidos pelo intricado jogo político
mantinham anos-luz de distância em relação às
questões urbanas. Ou, em certos casos, se mostravam constrangedoramente
ingênuos. Pavimentavam ruas, erguiam viadutos, abriam novos
caminhos, alguns até já exibiram um estimulante apreço
por água, esgotos e outros esquecidos redutos do crucial
saneamento básico. Mas nenhum deles soube antever o futuro
nem empreender preparativos para o impacto das transformações.
Com exceção do prefeito e engenheiro Francisco Prestes
Maia, que em 1942 planejou a São Paulo do futuro. Só
que a cidade vislumbrada por Prestes Maia teria apenas 2 milhões
de habitantes limite amplamente ultrapassado oito anos mais
tarde.
"A máquina administrativa sempre
atuou a reboque de São Paulo", resume o prefeito Olavo
Egydio Setúbal. "Em nenhum instante a Prefeitura interferiu
para alterar os rumos do desenvolvimento urbano ou para disciplinar
o crescimento." Segundo Setúbal, uma adequada legislação
urbana provavelmente mataria no nascedouro algumas fundas distorções,
como exageradas concentrações industriais e imobiliárias,
ou gigantescos loteamentos clandestinos que nascem da noite para
o dia inteiramente despidos de serviços urbanos. Da mesma
forma, uma dramática falta de visão impediu que os
administradores ordenassem a estreita, confusa e insuficiente malha
viária antes que ela fosse atropelada pela era do
automóvel.
Finalmente. as caudalosas correntes migratórias
dos últimos trinta anos. originárias sobretudo do
nordeste e vigorosamente alimentadas pela progressiva liberação
da mão-de-obra agrícola, forneceram ao drama paulistano
o componente que faltava. Hoje, a cidade recebe perto de 500.000
novos habitantes por ano, em busca do trabalho que poucos conseguem.
Na maioria, vão engrossar o sombrio cordão periférico
formado por um emaranhado de ruas esburacadas, fossas infectas,
poços contaminados e casebres fustigados por toda a sorte
de carências. A verdade é que, em São Paulo,
somente nos anos 60 os urbanistas passaram a merecer alguma atenção
e neologismos como "qualidade de vida da população"
vêm obtendo crescente importância no vocabulário
dos administradores.
De qualquer forma, pelo menos por enquanto,
essa mudança de rumos não foi convertida em resultados
práticos e mesmo no brando linguajar dos técnicos
a qualidade de vida dos paulistanos continua "insatisfatória".
Na verdade, o prefeito Setúbal adverte que "não
é possível nem justo criar-se uma ilha de bem-estar
num país que, como o Brasil, é afetado por sérios
problemas em toda a sua extensão". Entretanto. o quadro
clínico de São Paulo reclama intervenções
cirúrgicas que, se não forem capazes de restaurar
a saúde do paciente, ao menos evitarão o fatal agravamento
de seu estado. Mas elas não podem tardar, principalmente
porque há claros indícios de que o fenômeno
da urbanização intensiva, detectado em todo o mundo,
apenas começou a produzir seus efeitos mais perturbadores.
A Grande Tóquio, por exemplo, já
se aproxima dos 18 milhões de habitantes - uma população
superior à da Austrália, cuja superfície equivale
à da Europa Ocidental. Em 1985, segundo a Organização
das Nações Unidas, dois em cada três habitantes
das cidades viverão nos países subdesenvolvidos. As
conseqüências desse fenômeno, que em menos de 100
anos transformou em urbano um planeta essencialmente rural, têm
sido freqüentemente brandidas por inquietos especialistas internacionais.
Algumas delas: pobreza urbana, desmoronamento dos serviços
públicos, decadência generalizada das cidades, privações
culturais nos subúrbios.
Há seis meses, uma pesquisa do Instituto
Gallup revelou que 56% dos paulistanos gostariam de deixar a cidade
- a maioria deseja tão-somente "voltar para o interior".
Entre as causas capitais desse desalento avultam, em ordem decrescente,
poluição, trânsito, escassez de água,
coleta de esgotos insatisfatória, deficiências nos
transportes coletivos, custo de vida e insegurança. Recentemente,
outra pesquisa do Gallup comprovou que 51% dos entrevistados acham
que, de um ano para cá, as condições de vida
na cidade se tornaram sensivelmente piores.
Naturalmente, muitos deles são forasteiros
que, depois de alguns anos e sucessivas decepções,
simplesmente se desencantaram com as promessas do velho eldorado.
Outros são desconsolados moradores da periferia tentando
escapar à marginal idade urbana em que vivem como
os primeiros, também eles sofrem permanente ameaça
de desemprego. Sintomaticamente, porém, esse conglomerado
de desiludidos abriga um número cada vez maior de paulistanos
das camadas médias. Eles geralmente têm emprego, moram
com a família em apartamentos, possuem automóvel e
uma razoável experiência da vida nas metrópoles.
Mas. acima de tudo, parecem cansados.
"Essa cidade arrebenta com agente",
diz o estudante de engenharia Francisco Jodas Martins Neto, 23 anos,
funcionário da Construtora Pinheiro. "No fim das contas,
as únicas vantagens incontestáveis acabam sendo o
amplo mercado de trabalho e o acesso à cultura." Há
cinco anos, Martins deixou sua cidade natal no interior paulista
e não demorou a encontrar emprego. Mas logo percebeu que
a metrópole costuma cobrar pesados tributos dos adventícios
- resumidos na penosa rotina diária inevitavelmente vivida
por milhões de paulistanos.
Dia após dia. esses paulistanos
das camadas médias enfrentam idas e vindas entre a casa e
o local de trabalho, freqüentemente engolfados por colossais
congestionamentos de tráfego. Engrossam filas monumentais,
respiram ar poluído, sofrem os tormentos da insegurança,
disputam vagas em ônibus que na zona central se arrastam a
7 quilômetros por hora. Por alguns momentos de recreação,
esperam horas seguidas entre pequenas multidões. E até
suas habituais viagens ao litoral vêm sendo sistematicamente
sabotadas por engarrafamentos, reproduzindo nas estradas as mesmas
filas enfrentadas nas avenidas. Assim, é natural que milhares
deles se tornem fortes candidatos à extensa relação
de distúrbios nervosos que rondam o homem das metrópoles.
Aliás, o ritmo frenético
imposto pela cidade não poupa sequer sua própria fisionomia.
"São Paulo não tem rosto", diz a desenhista
Célia Sotamaroni, 24 anos, nascida no bairro de Perdizes.
"O rosto era a praça da Sé, que foi completamente
desfigurada por causa do metrô." Célia desaconselha
vinculações sentimentais com paisagens paulistanas:
"Às vezes, um prédio qualquer recorda alguma
fase importante da sua vida, você pensa nele quando está
longe de São Paulo. De repente, alguém resolve fazer
uma implosão e o prédio vira pó."
Em outubro do ano passado, em depoimento
prestado à Comissão Parlamentar de Inquérito
instaurada pela Assembléia Legislativa para investigar a
situação do menor em São Paulo, a secretária
dos Serviços Sociais da Prefeitura, professora Leopoldina
Saraiva, ampliou o forte coro de lamentações. "São
Paulo é uma cidade terrível para as crianças",
sentenciou. "Seu barulho, seu trânsito, a agressividade,
a longa espera pela condução, o salário que
não dá, tudo isso traumatiza os adultos, os aborrece
e massacra de tal forma que as crianças sofrem, recebendo
toda uma carga negativa vinda do desalento, irritação,
cansaço e impaciência de seus pais e irmãos
maiores." Diante desse quadro, a própria secretária
indaga: "Não seria o caso de reconhecer seriamente que
a cidade precisa de planos lúcidos para seu desafogo?"
N a verdade, pouquíssimos especialistas
se atrevem a prescrever com segurança uma terapia adequada
às peculiaridades paulistanas. Afinal, a ONU acaba de outorgar
a São Paulo - juntamente com a turbulenta Cidade do México
- o título de "maior laboratório urbano do mundo".
Mas é preciso tentar, e talvez fosse conveniente começar
por providências devidamente testadas em outras partes do
mundo. Antes de mais nada, é necessário conter rapidamente
a pressão das correntes migratórias. Pois, entre 1960
e 1970. segundo estatísticas da Organização
Interrnacional do Trabalho (OIT), 65% dos brasileiros que deixaram
seu lugar de origem afluíram para São Paulo.
Por sua vez, o arquiteto Roberto Cerqueira
Cézar, secretário dos Negócios Metropolitanos
do governo estadual, informou recentemente que, só no ano
passado, o número de favelas constituídas por recém-chegados
aumentou em cerca de 80%. Diante desses números, não
é de admirar que, dos 7,2 milhões de habitantes concentrados
no perímetro urbano da capital, quase 4 milhões tenham
nascido em outras cidades. Contudo, se esse quadro não for
drasticamente alterado, até o fim do século o planalto
paulista verá surgir um assustador amontoado de 19 milhões
de pessoas.
Seja como for, ninguém pretende
estender em torno das divisas urbanas alguma muralha capaz de deter
os forasteiros. Afinal, mesmo numa favela, as perspectivas de sobrevivência
para os moradores costumam ser maiores que nos rincões de
onde procedem as procissões errantes. Muito mais lógico
portanto, é atrair os migrantes para "pólos Intermediários",
ou cidades especificamente preparadas para a racional absorção
das multidões em movimento. No começo deste mês,
o governador Paulo Egydio Martins encampou oficialmente a idéia
ao divulgar o "programa das Cidades médias". De
acordo com o plano, 44 municípios do interior merecerão
maciços investimentos nos próximos anos, destinados
sobretudo à criação de empregos para migrantes
a caminho da capital paulista.
Se a idéia vingar, é possível
que a Prefeitura e o governo estadual logo se unam para as medidas
complementares de desafogo. Uma delas deverá ser a desconcentração
industrial - por meio de sedutoras facilidades fiscais, dezenas
de fábricas migrariam para núcleos urbanos menos congestionados.
Ao mesmo tempo. uma rigorosa legislação do uso do
solo poderá colocar insuperáveis freios ao crescimento
desmesurado. Depois disso, São Paulo estaria apta a empreender
um longo mergulho para dentro de suas próprias fronteiras.
E só então os paulista nos saberão se existe
alguma possibilidade de salvação para a sua "Profitópolis"
- segundo Cerqueira Cézar, "uma cidade cuja finalidade
é o lucro, não o bem-estar de seus moradores".
Para 82% dos entrevistados pelo Instituto
Gallup, que vêem nas diversas formas de poluição
o maior flagelo paulistano, a tarefa de devolver a cidade a seus
habitantes deve começar pelo implacável cerco às
chaminés. Seus temores parecem justificados. No ano passado,
uma pesquisa coordenada por estudantes de várias faculdades
de medicina detectou problemas respiratórios em 70% das crianças
de São Caetano - na região do ABC, o maior aglomerado
fabril da Grande São Paulo. A incidência dessas moléstias
desce a somente 13% em Embu-Guaçu, também na área
metropolitana, mas a providenciais quilômetros de distância
das nuvens de fumaça.
A Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento
Básico e Defesa do Meio Ambiente (Cetesb) tem recebido milhares
de telefonemas desde que a Operação Branca, lançada
em novembro, concitou a população a denunciar qualquer
espécie de agente poluidor. Mas seus técnicos confessam
desconhecer a exata incidência de moléstias respiratórias
em São Paulo. De qualquer modo, o bancário Pedro Genovezi,
51 anos, e há quinze no Tatuapé - o mais poluído
bairro da capital -, conta que um número cada vez maior de
crianças da vizinhança vem contraindo uma estranha
espécie de gripe: "Ela resiste a qualquer remédio
e só desaparece quando a criança fica alguns dias
longe do Tatuapé", explica Genovezi.
Particularmente otimistas, muitos paulistanos
sonham também com a recuperação dos infectos
cursos de água que cortam a cidade. Não só
por temor às bactérias que infestam seus leitos, mas
ainda porque a ressurreição dos rios, córregos
e represas ampliaria o diminuto acervo dos chamados "equipamentos
de lazer". Isso viria em boa hora. Principalmente porque, nos
dias que correm, a busca de supostas recreações submete
os paulista nos a um massacrante vale-tudo, capaz de irritar os
mais pacientes mortais. Assim é. por exemplo, na convulsionada
praia do Estoril, às margens da Billings, onde nos fins de
semana mais de 10.000 pessoas disputam valentemente espaços
disponíveis nos exíguos 100 metros de areia.
Enfim. é preciso conseguir o que
fazer nas poucas horas livres. Milhares de pessoas ainda cultivam
o hábito ancestral de ir à praça. Mas só
há 88 praças nos 1.500 quilômetros quadrados
da cidade. Outros se aventuram em piqueniques nos quiosques da rodovia
Raposo Tavares, sujeitando-se ao ruído e à fumaça
dos veículos que passam zunindo a apenas alguns metros das
merendas. E mesmo os que limitam a programação a um
simples almoço fora de casa precisam se armar de muita paciência
- nas grandes churrascarias, que aos sábados recebem em média
5.000 comensais, a espera por uma mesa vaga dificilmente é
inferior a 20 minutos.
Ao que parece, saber esperar é uma
das mais indispensáveis virtudes adquiridas pelos paulistanos.
"Estou há duas horas nesta fila", disse a Maria
Helena Passos, de VEJA, o joalheiro Osmar Gavioli, 30 anos, enquanto
aguardava, na entrada do superlotado cinema Comodoro, as emoções
do filme "Terremoto". Como Gavioli, nos fins de semana
milhares de pessoas se acotovelam em filas diante dos insuficientes
117 cinemas da cidade. Ou, então, diante das bilheterias
que dão acesso às eventuais e sempre concorridíssimas
novidades. Como a Arca de Noé, montada no pavilhão
do Anhembi, para onde afluem diariamente 15.000 espectadores - 50.000
aos domingos - atraídos pelos bichos expostos no gigantesco
salão. Animais da moda, os tubarões são as
naturais estrelas da feira. Mas até simplórias galinhas
e formigas ocupam surpreendentes posições de destaque.
"Todo dia aparecem dezenas de crianças, que, embora
em idade escolar, jamais viram uma galinha", conta Caio de
Alcântara Machado Jr., um dos organizadores da mostra.
Provavelmente, muitas dessas crianças
residem nos desumanos "espigões" que vão
invadindo celeremente os derradeiros redutos ainda tranqüilos
das camadas médias paulistanas. Pois o tempo das casas baixas
e quintais começa a viver seus últimos dias também
em bairros centrais, como Pompéia e Perdizes, que até
recentemente tentavam imitar a placidez das cidades do interior.
Logo, eles também deverão assumir a tensa fisionomia
de lugares como o residencial Itaim, transformado em menos de dez
anos numa sucessão de escuros canyons entre edifícios.
Na estreita rua Itacema, por exemplo, em um corredor com menos de
300 metros de extensão, há vinte edifícios
de quinze andares - mais de 1.000 apartamentos, no espaço
onde havia antes algo como duas dúzias de casas. Como o paulistimo-padrão
raramente pode dispensar seu automóvel, não há
espaço suficiente nas garagens dos prédios. E a rotina
diária de um morador do Itaim geralmente começa com
um congestionamento matinal no próprio subsolo de sua residência.
Não é, com certeza, um bom
começo de jornada. Sobretudo para quem vai enfrentar um trânsito
que, além de gerar seguidos e torturantes congestionamentos,
detém um tenebroso recorde mundial - 38 mortes anuais para
cada grupo de 10.000 veículos, quando o recorde europeu é
de cinco por 10.000 - e uma infinidade de estatísticas do
mesmo jaez. Em 1975, ocorreram 63.000 desastres de trânsito
somente no perímetro urbano, deixando nas ruas a apavorante
média diária de quatro mortos, 65 feridos, três
postes derrubados e pesados prejuízos materiais. "Dos
acidentes, 80% são provocados por falhas humanas", afirma
Isao Kohno, diretor de engenharia do Detran. Certa vez, ele teve
o cuidado de contar quantas vezes se é involuntariamente
exposto a acidentes nas ruas da cidade. "Fui fechado nada menos
de 25 vezes num único dia", recorda Kohno.
Mesmo assim, 600 novos veículos
são diariamente lançados às ruas. Se essa enxurrada
não for estancada, num futuro próximo sobrevirão
congestionamentos de proporções bíblicas. "Para
que a cidade não seja paralisada", explica Kohno, "a
Prefeitura precisaria construir todos os dias uma via de 1 quilômetro
de extensão". No ano passado, porém, só
foram abertos 104 dos 365 quilômetros preconizados pelo diretor
do Detran. E o engenheiro Otávio Camilo Pereira de Almeida,
secretário de Obras da Prefeitura, acrescenta que a previsão
para 1976 é de somente 255 quilômetros.
Mais ainda, o orçamento de qualquer
motorista paulistano está permanentemente exposto a profundas
sangrias. Algumas são previsíveis, como as generosas
taxas e gorjetas que acompanham a regularização dos
documentos de um veículo. As gorjetas são ostensivamente
cobradas por funcionários do Detran, que também não
gostam de se entender diretamente com o proprietário - preferem
despachantes, uma profissão que, sintomaticamente, só
existe no Brasil Outros gastos são absolutamente inesperados,
como as multas distribuídas a granel pelos 3.100 guardas
de trânsito, e que punem inocentes com perturbadora freqüência.
Em dezembro, por exemplo, ao licenciar
seu carro, o estudante de economia Lindorf Sampaio foi informado
de que havia oito multas a pagar. Sampaio retrucou que só
uma delas era procedente as restantes simplesmente tinham
sido inventadas. "Antes que eu entrasse em detalhes",
conta Sampaio, "o rapaz do guichê disse que iria lá
dentro conferir." Uma hora depois, o funcionário voltou
com um papel que indicava a existência de uma única
multa. "Era a verdadeira", informa Sampaio.
Se mais pessoas reclamassem, provavelmente
ocorreriam sensíveis reduções no fantástico
balanço de 1975, quando 1,4 milhão de multas aplicadas
nas ruas da cidade renderam 170 milhões de cruzeiros. O paulistano,
todavia, parece sofrer de um inexplicável pudor na defesa
de seus direitos. E a maioria aceita em silêncio tanto multas
injustas como abusivas tabelas de preços para conserto de
veículos, ou contas de luz e de água misteriosamente
aumentadas. Da mesma forma que se submete diariamente à cruel
ineficiência do sistema de transportes coletivos - permanentemente
à beira do completo colapso.
Para os técnicos desse setor, a
única esperança parece repousar numa rápida
ampliação da rede do metrô, ainda circunscrita
aos 17,2 quilômetros da linha Norte-Sul, ligando os bairros
de Santana e Jabaquara. Enquanto isso, o sistema permanece apoiado
nos velhos, sujos e inseguros ônibus que sacolejam pela cidade,
transportando diariamente 10 milhões de passageiros em viagens
que acusam atrasos raramente inferiores a 200%. Segundo estimativas
da Secretaria de Trabalho do Estado, esses veículos são
responsáveis pelo desperdício de 4 milhões
de horas úteis por dia. Naturalmente, é difícil
que seus usuários se sintam satisfeitos.
"Tomo o Penha-Lapa há oito
anos", depõe o técnico em contabilidade Célio
Moretzshon, 31 anos, referindo-se à linha que corta a cidade
em seu sentido mais longo, o leste-oeste. "Nesse ônibus,
meu velho, passageiro sentado não oferece lugar nem a mulher
grávida", assegura Moretzshon. Em linhas como essa,
gestos de cortesia realmente costumam causar espanto, até
mesmo reações agressivas. De certa forma, essa atitude
também reflete o clima de insegurança que vem penetrando
na própria alma da cidade, gerando fobias tipicamente paulistanas.
"Sempre que arranjo uma nova empregada
doméstica, acabo me transformando em investigadora",
diz Sandra Peixoto Mariani, 25 anos, mãe de duas crianças.
"Faço perguntas, fico procurando contradições,
mas nunca me tranqüilizo." Já o escriturário
Olindo de Oliveira Cruz, que mora no 15º andar do central edifício
Copan, confessa que, "depois do que houve no Andraus e no Joelma,
nem no meu apartamento me sinto seguro". Seu medo é
compreensível. Afinal. no ano passado os 1.500 soldados do
Corpo de Bombeiros socorreram 2.025 incêndios só no
perímetro urbano. E é conhecida a leviandade com que
se aplicam as normas de segurança contra o fogo nos "espigões".
O apartamento, contudo, se impõe
como solução cada vez mais inevitável dentro
do problema habitacional paulistano. Na esquina das ruas Japão
e Itacema, por exemplo, destoando da muralhada de concreto que esconde
o Itaim - teimosamente chamado de "Jardim Paulista" por
seus moradores -, uma casa assobradada resiste heroicamente ao cerco
das imobiliárias. Enquanto rechaçam os insistentes
agentes e suas propostas milionárias, o inspetor de ensino
Walter Carvalho e sua mulher Maria José explicam que as mudanças
se acentuaram a partir de 1970.
"O Jardim Paulista de antigamente
era uma maravilha, não essa coisa de agora", lamenta
dona Maria José. "Sabe lá o que é agüentar
barulho de construção seis dias por semana?"
Eles asseguram que só venderão a casa "para quem
estiver interessado em morar nela". Mas depois confessam a
iminência de uma capitulação, já dispostos
a saírem à procura de um apartamento "num lugar
mais tranqüilo", a vários quilômetros de
distância do bairro onde residem há treze anos.
Outros paulistanos, entretanto, não
têm qualquer alternativa senão conviver pacientemente
com ruídos infernais. É o caso de centenas de moradores
da avenida São João, na zona central da cidade. Ali
foi erguido, em 1969, a monstruosa via elevada Presidente Costa
e Silva - o "Minhocão" -, que serpenteia entre
janelas numa extensão de 3 quilômetros. E dá
a seus vizinhos, sobretudo durante os engarrafamentos do crepúsculo,
a impressão de que se encontram no epicentro de um terremoto.
Na verdade, até os cemitérios
de São Paulo se ressentem da falta de espaço e sossego.
No pequeno cemitério da Consolação, por exemplo,
onde o metro quadrado é vendido a 4.500 cruzeiros, já
não há lugar para novas sepulturas. E o advogado Paulo
Oliver, ex-administrador do cemitério do Araçá,
conta que teve de enfrentar singulares problemas ao assumir o posto:
"Havia gente morando nos túmulos. Eles faziam fogueiras,
quebravam vasos, lavavam roupas. E uma mulher teve três partos
no próprio cemitério".
Enquanto isso, as 41.000 ruas da cidade
testemunham a inquietante escalada da violência metropolitana.
No dia 19 de janeiro deste ano, por exemplo, uma segunda-feira aparentemente
tranqüila, a Secretaria da Segurança Pública
registrou em São Paulo as seguintes ocorrências: seis
homicídios, 24 assaltos a mão armada, duas detenções
por posse de entorpecentes, 256 conflitos, 52 furtos, oito incêndios,
um rapto, doze autuações por porte ilegal de armas,
onze detenções por vadiagem ou embriaguez, 36 tentativas
de suicídio, 24 furtos de automóveis e 151 acidentes
de trânsito com vítimas.
Nesse mesmo dia, 27 marginais foram detidos
em flagrante, por delitos que variam do furto simples ao homicídio.
E o recém-nascido Centro de Operações da Polícia
Militar (Copom) registrou sua média diária de 4.500
telefonemas. Os chamados tanto incluíram desesperados avisos
de iminentes assaltos quanto os habituais pedidos extravagantes,
uma praga para a polícia. Um dos interlocutores, por exemplo,
reivindicou que uma radiopatrulha o acordasse às 5 horas
da manhã - segundo explicou, "não podia perder
o avião".
Para o coronel Francisco Batista Torres
de Melo, comandante da PM, números e casos como esses significam.
acima de tudo, que a polícia está ativa. "Temos
800 viaturas rodando pela cidade e 4.000 homens permanentemente
em serviço", salienta. Ele insiste em convidar a população
a utilizar os doze aparelhos telefônicos diretamente ligados
com o Copom, recentemente espalhados por diversos pontos de São
Paulo.
E lembra, também, que a polícia
civil dispõe de 11.000 integrantes. Mas o próprio
coronel Torres de Melo reconhece que o poderio da PM costuma ser
parcialmente absorvido por tarefas anticonvencionais: "Em que
país do mundo a instituição policial se encarrega
de atender partos, loucos, bêbados, migrantes que chegam e
não sabem o que fazer?", pergunta.
O coronel Erasmo Antônio Dias, secretário
da Segurança Pública, assegura que, em relação
a 1974, "o ano passado foi um ano bom" - e, de fato, houve
um inédito recuo nas taxas de criminal idade. O êxito
mais evidente foi a redução, pela metade, dos assaltos
a mão armada, que em 1974 oscilaram em torno do alarmante
índice de cinqüenta por dia. "Esse tipo de crime
é um bom indicador da violência urbana", informa
o secretário. Todavia, ele também adverte que não
deve contar com novas vitórias estatísticas: "Vai
ser difícil reduzir mais ainda o número de assaltos,
porque a polícia já chegou ao seu limite de eficiência".
É uma informação
significativa - sobretudo por mostrar que nenhuma força policial
conseguirá acompanhar o explosivo crescimento da cidade.
Segundo informações da Secretaria da Segurança
Pública, 75.000 mandados de prisão expedidos pelo
Poder Judiciário aguardam cumprimento. E estão à
solta pelo menos 30.000 marginais que o coronel Erasmo Dias classifica
de "profissionais do crime".
Obviamente, ninguém tem a menor
idéia sobre como tirar 30.000 pessoas de circulação
- inclusive porque não se saberia onde colocá-las.
Por tudo isso, na semana passada, o secretário apelava aos
namorados paulistanos:
"Abro os quartéis para vocês,
mas, por favor, não parem na rua. É muito perigoso".
| |