Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

 

4 de fevereiro de 1976

Pior que tudo é o cotidiano

Diversões, automóveis, ar, água - tudo pode significar um tormento a mais para o paulistano

As chuvas de verão reprisaram na quarta e quinta-feira passadas, em São Paulo, alguns dos habituais espetáculos de anos anteriores. Doentes foram retirados às pressas de um hospital, sobre jangadas improvisadas com tambores de gasolina. Crianças tiveram de se refugiar dentro de casa, em cima de velhas mesas e guarda-louças. enquanto suas aflitas mães tentavam salvar a nova enceradeira ou o novo sofá. Jardins duramente cultivados fenecerem sob as enxurradas e sob a lama. Ônibus sitiados renderam-se às águas. Telefones silenciaram e canoas deslizaram pelas ruas.

Nem os mais tristes infortúnios, porém, parecem capazes de despertar a cidade de sua rotina - ou de sua crescente indiferença diante de situações desse tipo. Assim, pouco antes das 5 da manhã de quinta-feira passada, com as águas à altura da cintura, João Evaristo, 36 anos, já se arrastava para fora de sua casa alagada, no bairro central do Cambuci, rumo à Vila Mariana, onde um emprego que vai diariamente das 5h30 às 22 horas, incluindo domingos, lhe rende 2.300 cruzeiros de salário. A mulher, Aldevina, acompanhou-o ao portão, como faz freqüentemente, e resignada esperou que as águas baixassem para limpar o lodaçal e varrer a imundície - repetindo mecanicamente uma operação que já exige dela. desde que mudou para ali, cinco anos de paciência. "Para nós, tudo isso é natural", comentou.

Decerto, São Paulo é uma cidade que tipicamente costuma reivindicar de seus moradores uma sacrossanta resignação e infinita paciência. Enchentes, poluição, trânsito conturbado, sujeira, desemprego, epidemias, assaltos, são alguns dos dramas que parecem definitivamente incorporados ao seu confuso, árido e turbulento quadro urbano. Portanto, por que dona Aldevina, o sr. Evaristo e seus vizinhos do Cambuci haveriam de se indignar, de tempos em tempos, com a forçada convivência com as águas barrentas do Tamanduateí? Em São Paulo, a provação real está no próprio cotidiano.

O paulistano, nos últimos anos, aprendeu a despertar graças à metálica histeria de uma serra elétrica de uma obra exatamente sob sua janela. Nada mais natural do que perder duas, três horas diárias dentro de um ônibus coletivo, em demanda do longínquo trabalho. Ninguém acha estranho enfrentar empurrões e cotoveladas para obter um lugar no cinema. Comenta-se, assim, estoicamente. que os assaltantes locais já se especializam a tal ponto que alguns preferem atuar apenas nos dias 10 de cada mês - que, sabem eles, é o dia do pagamento. E há muito tempo, obviamente, foi esgotada a capacidade de admiração com a gradativa escalada dos gráficos de poluição atmosférica.

A pesar de tudo, este informe acampamento não deixa de ter seus encantos. Antônio Carlos Moana, por exemplo, 30 anos, em São Paulo desde 1964, encontrou-os finalmente, depois de anos de luta para vencer na vida. Morou em porões e pensões insalubres, viveu dos raros sanduíches que lhe permitia um salário de auxiliar de contabilidade e estudou à noite, até se formar em direito, na vizinha Moji das Cruzes. Hoje, tem mulher, três filhos, um Passat zero quilômetro, uma casa de três quartos no Parque Continental, e um trabalho que lhe exige gravata, dez audiências diárias, em média, no Forum, dezenas de cobranças pelo telefone e o dia todo longe de casa.

A família Moana só se vê de manhã, às 7 e meia, quando saem marido e mulher para o trabalho. Ao cinema, normalmente, só se vai de seis em seis meses. Eventualmente, os Moana fazem um passeio pelo Parque do Ibirapuera, aos domingos, e recebem os amigos em casa, nas noites de sexta-feira, para uma partida de buraco. O casal sonha, um dia, fugir do barulho, da confusão, do tumulto de São Paulo "e voltar para o interior". O que, hoje, no fundo lhes parece cada vez mais remoto. A eles e, possivelmente, à maior parte dos 10 milhões de desesperançados, mas persistentes, cidadãos da Grande São Paulo que completou 422 anos no último dia 25 de janeiro.

Se acaso revissem hoje a cidade que germinou em torno do colégio dos jesuítas, Manuel de Nóbrega e José de Anchieta seguramente se espantariam. Da semente religiosa lançada em 1554 no planalto de Piratininga surgiria o monstruoso aglomerado urbano dos anos 70. Lima das sete cidades do mundo com mais de 10 milhões de habitantes na área metropolitana. E os protagonistas e espectadores desse pesadelo moderno são

Justamente os herdeiros de seu primitivo rebanho. Aos fundadores do que viria a ser uma megalópole, entretanto, talvez ocorresse uma dúvida: teria valido a pena?

Até o final do século passado, os dois jesuítas poderiam contemplar São Paulo sem pasmo ou pena. Durante mais de 300 anos, a cidade sobreviveu harmoniosa corno um simples ponto no planalto – uma silenciosa comunidade que, ainda em 1872, reunia somente 31.000 almas. Mas o século XX multiplicou indícios de que a antiga calmaria agoniza. Assim é que, em 1900, a população já saltara para 240.000 habitantes, inaugurando uma vertiginosa escalada demográfica. Greves operárias como a de 1918 atestavam a rapidez da expansão industrial, bondes e automóveis invadiam as ruas. Chegavam imigrantes estrangeiros e brasileiros de outras regiões – o que acabou invertendo a histórica tendência sedimentada ao tempo dos bandeirantes, que caracterizava São Paulo como um vigoroso manancial de homens em demanda do sertão.

Durante todo esse tempo, prefeitos e interventores– quase todos excessivamente absorvidos pelo intricado jogo político mantinham anos-luz de distância em relação às questões urbanas. Ou, em certos casos, se mostravam constrangedoramente ingênuos. Pavimentavam ruas, erguiam viadutos, abriam novos caminhos, alguns até já exibiram um estimulante apreço por água, esgotos e outros esquecidos redutos do crucial saneamento básico. Mas nenhum deles soube antever o futuro nem empreender preparativos para o impacto das transformações. Com exceção do prefeito e engenheiro Francisco Prestes Maia, que em 1942 planejou a São Paulo do futuro. Só que a cidade vislumbrada por Prestes Maia teria apenas 2 milhões de habitantes – limite amplamente ultrapassado oito anos mais tarde.

"A máquina administrativa sempre atuou a reboque de São Paulo", resume o prefeito Olavo Egydio Setúbal. "Em nenhum instante a Prefeitura interferiu para alterar os rumos do desenvolvimento urbano ou para disciplinar o crescimento." Segundo Setúbal, uma adequada legislação urbana provavelmente mataria no nascedouro algumas fundas distorções, como exageradas concentrações industriais e imobiliárias, ou gigantescos loteamentos clandestinos que nascem da noite para o dia inteiramente despidos de serviços urbanos. Da mesma forma, uma dramática falta de visão impediu que os administradores ordenassem a estreita, confusa e insuficiente malha viária – antes que ela fosse atropelada pela era do automóvel.

Finalmente. as caudalosas correntes migratórias dos últimos trinta anos. originárias sobretudo do nordeste e vigorosamente alimentadas pela progressiva liberação da mão-de-obra agrícola, forneceram ao drama paulistano o componente que faltava. Hoje, a cidade recebe perto de 500.000 novos habitantes por ano, em busca do trabalho que poucos conseguem. Na maioria, vão engrossar o sombrio cordão periférico formado por um emaranhado de ruas esburacadas, fossas infectas, poços contaminados e casebres fustigados por toda a sorte de carências. A verdade é que, em São Paulo, somente nos anos 60 os urbanistas passaram a merecer alguma atenção e neologismos como "qualidade de vida da população" vêm obtendo crescente importância no vocabulário dos administradores.

De qualquer forma, pelo menos por enquanto, essa mudança de rumos não foi convertida em resultados práticos e mesmo no brando linguajar dos técnicos a qualidade de vida dos paulistanos continua "insatisfatória". Na verdade, o prefeito Setúbal adverte que "não é possível nem justo criar-se uma ilha de bem-estar num país que, como o Brasil, é afetado por sérios problemas em toda a sua extensão". Entretanto. o quadro clínico de São Paulo reclama intervenções cirúrgicas que, se não forem capazes de restaurar a saúde do paciente, ao menos evitarão o fatal agravamento de seu estado. Mas elas não podem tardar, principalmente porque há claros indícios de que o fenômeno da urbanização intensiva, detectado em todo o mundo, apenas começou a produzir seus efeitos mais perturbadores.

A Grande Tóquio, por exemplo, já se aproxima dos 18 milhões de habitantes - uma população superior à da Austrália, cuja superfície equivale à da Europa Ocidental. Em 1985, segundo a Organização das Nações Unidas, dois em cada três habitantes das cidades viverão nos países subdesenvolvidos. As conseqüências desse fenômeno, que em menos de 100 anos transformou em urbano um planeta essencialmente rural, têm sido freqüentemente brandidas por inquietos especialistas internacionais. Algumas delas: pobreza urbana, desmoronamento dos serviços públicos, decadência generalizada das cidades, privações culturais nos subúrbios.

Há seis meses, uma pesquisa do Instituto Gallup revelou que 56% dos paulistanos gostariam de deixar a cidade - a maioria deseja tão-somente "voltar para o interior". Entre as causas capitais desse desalento avultam, em ordem decrescente, poluição, trânsito, escassez de água, coleta de esgotos insatisfatória, deficiências nos transportes coletivos, custo de vida e insegurança. Recentemente, outra pesquisa do Gallup comprovou que 51% dos entrevistados acham que, de um ano para cá, as condições de vida na cidade se tornaram sensivelmente piores.

Naturalmente, muitos deles são forasteiros que, depois de alguns anos e sucessivas decepções, simplesmente se desencantaram com as promessas do velho eldorado. Outros são desconsolados moradores da periferia tentando escapar à marginal idade urbana em que vivem – como os primeiros, também eles sofrem permanente ameaça de desemprego. Sintomaticamente, porém, esse conglomerado de desiludidos abriga um número cada vez maior de paulistanos das camadas médias. Eles geralmente têm emprego, moram com a família em apartamentos, possuem automóvel e uma razoável experiência da vida nas metrópoles. Mas. acima de tudo, parecem cansados.

"Essa cidade arrebenta com agente", diz o estudante de engenharia Francisco Jodas Martins Neto, 23 anos, funcionário da Construtora Pinheiro. "No fim das contas, as únicas vantagens incontestáveis acabam sendo o amplo mercado de trabalho e o acesso à cultura." Há cinco anos, Martins deixou sua cidade natal no interior paulista e não demorou a encontrar emprego. Mas logo percebeu que a metrópole costuma cobrar pesados tributos dos adventícios - resumidos na penosa rotina diária inevitavelmente vivida por milhões de paulistanos.

Dia após dia. esses paulistanos das camadas médias enfrentam idas e vindas entre a casa e o local de trabalho, freqüentemente engolfados por colossais congestionamentos de tráfego. Engrossam filas monumentais, respiram ar poluído, sofrem os tormentos da insegurança, disputam vagas em ônibus que na zona central se arrastam a 7 quilômetros por hora. Por alguns momentos de recreação, esperam horas seguidas entre pequenas multidões. E até suas habituais viagens ao litoral vêm sendo sistematicamente sabotadas por engarrafamentos, reproduzindo nas estradas as mesmas filas enfrentadas nas avenidas. Assim, é natural que milhares deles se tornem fortes candidatos à extensa relação de distúrbios nervosos que rondam o homem das metrópoles.

Aliás, o ritmo frenético imposto pela cidade não poupa sequer sua própria fisionomia. "São Paulo não tem rosto", diz a desenhista Célia Sotamaroni, 24 anos, nascida no bairro de Perdizes. "O rosto era a praça da Sé, que foi completamente desfigurada por causa do metrô." Célia desaconselha vinculações sentimentais com paisagens paulistanas: "Às vezes, um prédio qualquer recorda alguma fase importante da sua vida, você pensa nele quando está longe de São Paulo. De repente, alguém resolve fazer uma implosão e o prédio vira pó."

Em outubro do ano passado, em depoimento prestado à Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada pela Assembléia Legislativa para investigar a situação do menor em São Paulo, a secretária dos Serviços Sociais da Prefeitura, professora Leopoldina Saraiva, ampliou o forte coro de lamentações. "São Paulo é uma cidade terrível para as crianças", sentenciou. "Seu barulho, seu trânsito, a agressividade, a longa espera pela condução, o salário que não dá, tudo isso traumatiza os adultos, os aborrece e massacra de tal forma que as crianças sofrem, recebendo toda uma carga negativa vinda do desalento, irritação, cansaço e impaciência de seus pais e irmãos maiores." Diante desse quadro, a própria secretária indaga: "Não seria o caso de reconhecer seriamente que a cidade precisa de planos lúcidos para seu desafogo?"

N a verdade, pouquíssimos especialistas se atrevem a prescrever com segurança uma terapia adequada às peculiaridades paulistanas. Afinal, a ONU acaba de outorgar a São Paulo - juntamente com a turbulenta Cidade do México - o título de "maior laboratório urbano do mundo". Mas é preciso tentar, e talvez fosse conveniente começar por providências devidamente testadas em outras partes do mundo. Antes de mais nada, é necessário conter rapidamente a pressão das correntes migratórias. Pois, entre 1960 e 1970. segundo estatísticas da Organização Interrnacional do Trabalho (OIT), 65% dos brasileiros que deixaram seu lugar de origem afluíram para São Paulo.

Por sua vez, o arquiteto Roberto Cerqueira Cézar, secretário dos Negócios Metropolitanos do governo estadual, informou recentemente que, só no ano passado, o número de favelas constituídas por recém-chegados aumentou em cerca de 80%. Diante desses números, não é de admirar que, dos 7,2 milhões de habitantes concentrados no perímetro urbano da capital, quase 4 milhões tenham nascido em outras cidades. Contudo, se esse quadro não for drasticamente alterado, até o fim do século o planalto paulista verá surgir um assustador amontoado de 19 milhões de pessoas.

Seja como for, ninguém pretende estender em torno das divisas urbanas alguma muralha capaz de deter os forasteiros. Afinal, mesmo numa favela, as perspectivas de sobrevivência para os moradores costumam ser maiores que nos rincões de onde procedem as procissões errantes. Muito mais lógico portanto, é atrair os migrantes para "pólos Intermediários", ou cidades especificamente preparadas para a racional absorção das multidões em movimento. No começo deste mês, o governador Paulo Egydio Martins encampou oficialmente a idéia ao divulgar o "programa das Cidades médias". De acordo com o plano, 44 municípios do interior merecerão maciços investimentos nos próximos anos, destinados sobretudo à criação de empregos para migrantes a caminho da capital paulista.

Se a idéia vingar, é possível que a Prefeitura e o governo estadual logo se unam para as medidas complementares de desafogo. Uma delas deverá ser a desconcentração industrial - por meio de sedutoras facilidades fiscais, dezenas de fábricas migrariam para núcleos urbanos menos congestionados. Ao mesmo tempo. uma rigorosa legislação do uso do solo poderá colocar insuperáveis freios ao crescimento desmesurado. Depois disso, São Paulo estaria apta a empreender um longo mergulho para dentro de suas próprias fronteiras. E só então os paulista nos saberão se existe alguma possibilidade de salvação para a sua "Profitópolis" - segundo Cerqueira Cézar, "uma cidade cuja finalidade é o lucro, não o bem-estar de seus moradores".

Para 82% dos entrevistados pelo Instituto Gallup, que vêem nas diversas formas de poluição o maior flagelo paulistano, a tarefa de devolver a cidade a seus habitantes deve começar pelo implacável cerco às chaminés. Seus temores parecem justificados. No ano passado, uma pesquisa coordenada por estudantes de várias faculdades de medicina detectou problemas respiratórios em 70% das crianças de São Caetano - na região do ABC, o maior aglomerado fabril da Grande São Paulo. A incidência dessas moléstias desce a somente 13% em Embu-Guaçu, também na área metropolitana, mas a providenciais quilômetros de distância das nuvens de fumaça.

A Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e Defesa do Meio Ambiente (Cetesb) tem recebido milhares de telefonemas desde que a Operação Branca, lançada em novembro, concitou a população a denunciar qualquer espécie de agente poluidor. Mas seus técnicos confessam desconhecer a exata incidência de moléstias respiratórias em São Paulo. De qualquer modo, o bancário Pedro Genovezi, 51 anos, e há quinze no Tatuapé - o mais poluído bairro da capital -, conta que um número cada vez maior de crianças da vizinhança vem contraindo uma estranha espécie de gripe: "Ela resiste a qualquer remédio e só desaparece quando a criança fica alguns dias longe do Tatuapé", explica Genovezi.

Particularmente otimistas, muitos paulistanos sonham também com a recuperação dos infectos cursos de água que cortam a cidade. Não só por temor às bactérias que infestam seus leitos, mas ainda porque a ressurreição dos rios, córregos e represas ampliaria o diminuto acervo dos chamados "equipamentos de lazer". Isso viria em boa hora. Principalmente porque, nos dias que correm, a busca de supostas recreações submete os paulista nos a um massacrante vale-tudo, capaz de irritar os mais pacientes mortais. Assim é. por exemplo, na convulsionada praia do Estoril, às margens da Billings, onde nos fins de semana mais de 10.000 pessoas disputam valentemente espaços disponíveis nos exíguos 100 metros de areia.

Enfim. é preciso conseguir o que fazer nas poucas horas livres. Milhares de pessoas ainda cultivam o hábito ancestral de ir à praça. Mas só há 88 praças nos 1.500 quilômetros quadrados da cidade. Outros se aventuram em piqueniques nos quiosques da rodovia Raposo Tavares, sujeitando-se ao ruído e à fumaça dos veículos que passam zunindo a apenas alguns metros das merendas. E mesmo os que limitam a programação a um simples almoço fora de casa precisam se armar de muita paciência - nas grandes churrascarias, que aos sábados recebem em média 5.000 comensais, a espera por uma mesa vaga dificilmente é inferior a 20 minutos.

Ao que parece, saber esperar é uma das mais indispensáveis virtudes adquiridas pelos paulistanos. "Estou há duas horas nesta fila", disse a Maria Helena Passos, de VEJA, o joalheiro Osmar Gavioli, 30 anos, enquanto aguardava, na entrada do superlotado cinema Comodoro, as emoções do filme "Terremoto". Como Gavioli, nos fins de semana milhares de pessoas se acotovelam em filas diante dos insuficientes 117 cinemas da cidade. Ou, então, diante das bilheterias que dão acesso às eventuais e sempre concorridíssimas novidades. Como a Arca de Noé, montada no pavilhão do Anhembi, para onde afluem diariamente 15.000 espectadores - 50.000 aos domingos - atraídos pelos bichos expostos no gigantesco salão. Animais da moda, os tubarões são as naturais estrelas da feira. Mas até simplórias galinhas e formigas ocupam surpreendentes posições de destaque. "Todo dia aparecem dezenas de crianças, que, embora em idade escolar, jamais viram uma galinha", conta Caio de Alcântara Machado Jr., um dos organizadores da mostra.

Provavelmente, muitas dessas crianças residem nos desumanos "espigões" que vão invadindo celeremente os derradeiros redutos ainda tranqüilos das camadas médias paulistanas. Pois o tempo das casas baixas e quintais começa a viver seus últimos dias também em bairros centrais, como Pompéia e Perdizes, que até recentemente tentavam imitar a placidez das cidades do interior. Logo, eles também deverão assumir a tensa fisionomia de lugares como o residencial Itaim, transformado em menos de dez anos numa sucessão de escuros canyons entre edifícios. Na estreita rua Itacema, por exemplo, em um corredor com menos de 300 metros de extensão, há vinte edifícios de quinze andares - mais de 1.000 apartamentos, no espaço onde havia antes algo como duas dúzias de casas. Como o paulistimo-padrão raramente pode dispensar seu automóvel, não há espaço suficiente nas garagens dos prédios. E a rotina diária de um morador do Itaim geralmente começa com um congestionamento matinal no próprio subsolo de sua residência.

Não é, com certeza, um bom começo de jornada. Sobretudo para quem vai enfrentar um trânsito que, além de gerar seguidos e torturantes congestionamentos, detém um tenebroso recorde mundial - 38 mortes anuais para cada grupo de 10.000 veículos, quando o recorde europeu é de cinco por 10.000 - e uma infinidade de estatísticas do mesmo jaez. Em 1975, ocorreram 63.000 desastres de trânsito somente no perímetro urbano, deixando nas ruas a apavorante média diária de quatro mortos, 65 feridos, três postes derrubados e pesados prejuízos materiais. "Dos acidentes, 80% são provocados por falhas humanas", afirma Isao Kohno, diretor de engenharia do Detran. Certa vez, ele teve o cuidado de contar quantas vezes se é involuntariamente exposto a acidentes nas ruas da cidade. "Fui fechado nada menos de 25 vezes num único dia", recorda Kohno.

Mesmo assim, 600 novos veículos são diariamente lançados às ruas. Se essa enxurrada não for estancada, num futuro próximo sobrevirão congestionamentos de proporções bíblicas. "Para que a cidade não seja paralisada", explica Kohno, "a Prefeitura precisaria construir todos os dias uma via de 1 quilômetro de extensão". No ano passado, porém, só foram abertos 104 dos 365 quilômetros preconizados pelo diretor do Detran. E o engenheiro Otávio Camilo Pereira de Almeida, secretário de Obras da Prefeitura, acrescenta que a previsão para 1976 é de somente 255 quilômetros.

Mais ainda, o orçamento de qualquer motorista paulistano está permanentemente exposto a profundas sangrias. Algumas são previsíveis, como as generosas taxas e gorjetas que acompanham a regularização dos documentos de um veículo. As gorjetas são ostensivamente cobradas por funcionários do Detran, que também não gostam de se entender diretamente com o proprietário - preferem despachantes, uma profissão que, sintomaticamente, só existe no Brasil Outros gastos são absolutamente inesperados, como as multas distribuídas a granel pelos 3.100 guardas de trânsito, e que punem inocentes com perturbadora freqüência.

Em dezembro, por exemplo, ao licenciar seu carro, o estudante de economia Lindorf Sampaio foi informado de que havia oito multas a pagar. Sampaio retrucou que só uma delas era procedente – as restantes simplesmente tinham sido inventadas. "Antes que eu entrasse em detalhes", conta Sampaio, "o rapaz do guichê disse que iria lá dentro conferir." Uma hora depois, o funcionário voltou com um papel que indicava a existência de uma única multa. "Era a verdadeira", informa Sampaio.

Se mais pessoas reclamassem, provavelmente ocorreriam sensíveis reduções no fantástico balanço de 1975, quando 1,4 milhão de multas aplicadas nas ruas da cidade renderam 170 milhões de cruzeiros. O paulistano, todavia, parece sofrer de um inexplicável pudor na defesa de seus direitos. E a maioria aceita em silêncio tanto multas injustas como abusivas tabelas de preços para conserto de veículos, ou contas de luz e de água misteriosamente aumentadas. Da mesma forma que se submete diariamente à cruel ineficiência do sistema de transportes coletivos - permanentemente à beira do completo colapso.

Para os técnicos desse setor, a única esperança parece repousar numa rápida ampliação da rede do metrô, ainda circunscrita aos 17,2 quilômetros da linha Norte-Sul, ligando os bairros de Santana e Jabaquara. Enquanto isso, o sistema permanece apoiado nos velhos, sujos e inseguros ônibus que sacolejam pela cidade, transportando diariamente 10 milhões de passageiros em viagens que acusam atrasos raramente inferiores a 200%. Segundo estimativas da Secretaria de Trabalho do Estado, esses veículos são responsáveis pelo desperdício de 4 milhões de horas úteis por dia. Naturalmente, é difícil que seus usuários se sintam satisfeitos.

"Tomo o Penha-Lapa há oito anos", depõe o técnico em contabilidade Célio Moretzshon, 31 anos, referindo-se à linha que corta a cidade em seu sentido mais longo, o leste-oeste. "Nesse ônibus, meu velho, passageiro sentado não oferece lugar nem a mulher grávida", assegura Moretzshon. Em linhas como essa, gestos de cortesia realmente costumam causar espanto, até mesmo reações agressivas. De certa forma, essa atitude também reflete o clima de insegurança que vem penetrando na própria alma da cidade, gerando fobias tipicamente paulistanas.

"Sempre que arranjo uma nova empregada doméstica, acabo me transformando em investigadora", diz Sandra Peixoto Mariani, 25 anos, mãe de duas crianças. "Faço perguntas, fico procurando contradições, mas nunca me tranqüilizo." Já o escriturário Olindo de Oliveira Cruz, que mora no 15º andar do central edifício Copan, confessa que, "depois do que houve no Andraus e no Joelma, nem no meu apartamento me sinto seguro". Seu medo é compreensível. Afinal. no ano passado os 1.500 soldados do Corpo de Bombeiros socorreram 2.025 incêndios só no perímetro urbano. E é conhecida a leviandade com que se aplicam as normas de segurança contra o fogo nos "espigões".

O apartamento, contudo, se impõe como solução cada vez mais inevitável dentro do problema habitacional paulistano. Na esquina das ruas Japão e Itacema, por exemplo, destoando da muralhada de concreto que esconde o Itaim - teimosamente chamado de "Jardim Paulista" por seus moradores -, uma casa assobradada resiste heroicamente ao cerco das imobiliárias. Enquanto rechaçam os insistentes agentes e suas propostas milionárias, o inspetor de ensino Walter Carvalho e sua mulher Maria José explicam que as mudanças se acentuaram a partir de 1970.

"O Jardim Paulista de antigamente era uma maravilha, não essa coisa de agora", lamenta dona Maria José. "Sabe lá o que é agüentar barulho de construção seis dias por semana?" Eles asseguram que só venderão a casa "para quem estiver interessado em morar nela". Mas depois confessam a iminência de uma capitulação, já dispostos a saírem à procura de um apartamento "num lugar mais tranqüilo", a vários quilômetros de distância do bairro onde residem há treze anos.

Outros paulistanos, entretanto, não têm qualquer alternativa senão conviver pacientemente com ruídos infernais. É o caso de centenas de moradores da avenida São João, na zona central da cidade. Ali foi erguido, em 1969, a monstruosa via elevada Presidente Costa e Silva - o "Minhocão" -, que serpenteia entre janelas numa extensão de 3 quilômetros. E dá a seus vizinhos, sobretudo durante os engarrafamentos do crepúsculo, a impressão de que se encontram no epicentro de um terremoto.

Na verdade, até os cemitérios de São Paulo se ressentem da falta de espaço e sossego. No pequeno cemitério da Consolação, por exemplo, onde o metro quadrado é vendido a 4.500 cruzeiros, já não há lugar para novas sepulturas. E o advogado Paulo Oliver, ex-administrador do cemitério do Araçá, conta que teve de enfrentar singulares problemas ao assumir o posto: "Havia gente morando nos túmulos. Eles faziam fogueiras, quebravam vasos, lavavam roupas. E uma mulher teve três partos no próprio cemitério".

Enquanto isso, as 41.000 ruas da cidade testemunham a inquietante escalada da violência metropolitana. No dia 19 de janeiro deste ano, por exemplo, uma segunda-feira aparentemente tranqüila, a Secretaria da Segurança Pública registrou em São Paulo as seguintes ocorrências: seis homicídios, 24 assaltos a mão armada, duas detenções por posse de entorpecentes, 256 conflitos, 52 furtos, oito incêndios, um rapto, doze autuações por porte ilegal de armas, onze detenções por vadiagem ou embriaguez, 36 tentativas de suicídio, 24 furtos de automóveis e 151 acidentes de trânsito com vítimas.

Nesse mesmo dia, 27 marginais foram detidos em flagrante, por delitos que variam do furto simples ao homicídio. E o recém-nascido Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) registrou sua média diária de 4.500 telefonemas. Os chamados tanto incluíram desesperados avisos de iminentes assaltos quanto os habituais pedidos extravagantes, uma praga para a polícia. Um dos interlocutores, por exemplo, reivindicou que uma radiopatrulha o acordasse às 5 horas da manhã - segundo explicou, "não podia perder o avião".

Para o coronel Francisco Batista Torres de Melo, comandante da PM, números e casos como esses significam. acima de tudo, que a polícia está ativa. "Temos 800 viaturas rodando pela cidade e 4.000 homens permanentemente em serviço", salienta. Ele insiste em convidar a população a utilizar os doze aparelhos telefônicos diretamente ligados com o Copom, recentemente espalhados por diversos pontos de São Paulo.

E lembra, também, que a polícia civil dispõe de 11.000 integrantes. Mas o próprio coronel Torres de Melo reconhece que o poderio da PM costuma ser parcialmente absorvido por tarefas anticonvencionais: "Em que país do mundo a instituição policial se encarrega de atender partos, loucos, bêbados, migrantes que chegam e não sabem o que fazer?", pergunta.

O coronel Erasmo Antônio Dias, secretário da Segurança Pública, assegura que, em relação a 1974, "o ano passado foi um ano bom" - e, de fato, houve um inédito recuo nas taxas de criminal idade. O êxito mais evidente foi a redução, pela metade, dos assaltos a mão armada, que em 1974 oscilaram em torno do alarmante índice de cinqüenta por dia. "Esse tipo de crime é um bom indicador da violência urbana", informa o secretário. Todavia, ele também adverte que não deve contar com novas vitórias estatísticas: "Vai ser difícil reduzir mais ainda o número de assaltos, porque a polícia já chegou ao seu limite de eficiência".

É uma informação significativa - sobretudo por mostrar que nenhuma força policial conseguirá acompanhar o explosivo crescimento da cidade. Segundo informações da Secretaria da Segurança Pública, 75.000 mandados de prisão expedidos pelo Poder Judiciário aguardam cumprimento. E estão à solta pelo menos 30.000 marginais que o coronel Erasmo Dias classifica de "profissionais do crime".

Obviamente, ninguém tem a menor idéia sobre como tirar 30.000 pessoas de circulação - inclusive porque não se saberia onde colocá-las. Por tudo isso, na semana passada, o secretário apelava aos namorados paulistanos:

"Abro os quartéis para vocês, mas, por favor, não parem na rua. É muito perigoso".

 
   
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia