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4 de janeiro de 1984
A demolição do regime
O presidente Raúl Alfonsín usa a
força que recebeu das urnas para
escavar e punir os crimes da ditadura
militar que marcou a Argentina
Poucos
governantes, em todo o mundo, teriam tanto serviço a mostrar,
no espaço de três semanas, quanto o presidente da Argentina,
Raúl Alfonsín - e talvez nenhum outro, hoje em dia,
esteja mudando tão a fundo e tão rapidamente a fisionomia
de seu país como esse decidido advogado de 57 anos que menos
de um mês atrás assumiu a Presidência argentina.
"Precisamos de um impulso para assentar a estabilidade",
diz Alfonsín, certo de que estes seus primeiros 100 dias
na Casa Rosada serão cruciais para que ele consiga ficar
lá até o fim de seu mandato de seis anos. O "impulso"
são medidas concretas, drásticas e imediatas para
mudar a face da Argentina, sem as quais, acredita Alfonsín,
seu governo perderia rapidamente o fôlego e a própria
força de agir.
Plantado em seu gabinete da Casa Rosada,
no centro de Buenos Aires, entre as 7 horas da manhã e as
10 da noite, Alfonsín, nestas três primeiras semanas
de governo, passou por cima da baixa voltagem política que
cerca as festas de Natal e Ano-Novo e atacou em três frentes
principais. Na primeira delas, vital para o futuro econômico
de um país onde a inflação ruge na casa dos
400% ao ano, está armando junto aos bancos estrangeiros credores
uma radical revisão no esquema do pagamento da dívida
externa argentina, de 43 bilhões de dólares. Na segunda,
lançou-se a uma aposta com a História: quebrar, pela
primeira vez em mais de meio século, a espinha dorsal do
golpismo que desde 1930 faz e desfaz os presidentes da Argentina,
através de uma inédita e espetacular depuração
nas Forças Armadas. Na semana passada, Alfonsín deu
mais um passo decisivo nessa direção, reduzindo o
quadro de generais da ativa a apenas dezoito oficiais.
Na terceira frente, enfim, o novo presidente
está fazendo a exumação da ditadura militar
que governou o país de 1976 a 1983, e com inacreditável
rapidez. Na última quinta-feira, iniciou-se o julgamento
sumário dos nove integrantes das três primeiras juntas
militares, lideradas respectivamente pelos generais Jorge Rafael
Videla, Roberto Viola e Leopoldo Galtieri. O objetivo desse processo,
no qual a alta cúpula da época da ditadura é
formalmente acusada por Alfonsín de homicídio, é
estabelecer responsabilidades nos "métodos e meios manifestamente
ilegais na luta anti-subversiva" que abalou a Argentina nos
anos 70.
Enquanto os oficiais acusados eram chamados
a se apresentar ao Supremo Conselho das Forças Armadas, iniciando
a fase de instrução do processo, ainda sigiloso, um
juiz federal, de Buenos Aires, numa atitude exemplar dessa nova
Argentina, que está emergindo com Alfonsín, ditava
uma ordem de captura contra o líder da quarta e última
junta de governo, o general Reynaldo Bignone. O oficial deveria
se apresentar perante o juiz para depor num processo em que é
acusado pelo desaparecimento de dois soldados, mas deixou de ir
alegando doença de sua esposa. Esse primeiro pacote de medidas
sacudiu a nação, emocionada especialmente com o fato
de o governo Alfonsín ter se lançado a desenterrar
oficialmente, também na semana passada, os mortos da guerra
movida pelo governo militar contra a subversão e contra simples
opositores. Enterrados clandestinamente, lançados às
águas geladas do Atlântico Sul e celebrizados sob o
rótulo genérico de "desaparecidos", seu
número pode chegar aos 30.000.
ARRUMANDO A CASA - A verdadeira
revolução que Raul Alfonsín vem realizando
na administração de seu país já atingiu,
inclusive, o dia-a-dia da Casa Rosada, cujos hábitos vêm
sendo também remodelados pelo presidente. Ele providenciou,
desde logo, a instalação de um intercomunicador especial
no palácio, ligando diretamente o seu gabinete aos oito ministérios
e a todas as secretarias de Estado - que funcionam em outros locais.
Essa medida tem provocado cenas constrangedoras em alguns ministérios,
nos quais servidores comuns se encabulam ao ouvir a voz do presidente
às primeiras horas da manhã, no intercomunicador,
procurando pelo titular da pasta, e tendo que responder a Alfonsín
que o seu chefe ainda não chegou para o trabalho. O seu ritmo,
enfim, tem sido tão intenso que depois de duas semanas de
trabalho dois de seus assessores já tiveram que tirar licença,
por estafa. Esse novo estilo de governo tem agradado os argentinos,
que, admirados com a imagem de trabalho ininterrupto que emerge
da Casa Rosada, vêm pixando os muros de Buenos Aires com uma
frase bastante significativa para os portenhos: Alfonsín
Macho!
O impacto destes primeiros dias do governo
Alfonsín emigrou rapidamente para o Brasil, onde o tom das
conversas políticas, neste fim de ano, tem sido dominado
pelo que está acontecendo em Buenos Aires. Desde que uma
populosa caravana de oposicionistas brasileiros compareceu à
posse de Alfonsín, ao lado do representante oficial de Brasília,
ministro João Leitão de Abreu, as comparações
entre Argentina e Brasil não pararam de se multiplicar. Uma
das observações mais incisivas, diante do súbito
caso de amor que políticos brasileiros passaram a ter com
o governo argentino, foi feita pelo presidente João Figueiredo.
"As pessoas aqui querem, agora, que a gente abra como na Argentina",
desabafou Figueiredo, "Mas, na hora de fechar, ninguém
quer que a gente feche como os argentinos fecharam."
O presidente tocou, aí, no ponto
central da questão - e até mesmo próceres da
oposição começam a conceder que para situações
diferentes a evolução também teria de ser diferente.
E o caso do deputado Ulysses Guimarães, presidente nacional
do PMDB, que até há pouco cobrava com veemência
a diferença de rapidez entre a abertura argentina e a brasileira.
Na semana passada, após ter lançado sua própria
candidatura à Presidência na sucessão de Figueiredo,
Ulysses dizia não ver razões para os militares brasileiros
ficarem apreensivos com o tratamento que receberiam se o PMDB chegasse
ao poder. "Na Argentina a ação contra as oposições
foi muito mais dura do que aqui", comparou. "E hoje, no
Brasil, nós temos uma lei de anistia em vigor, que não
deve ser interrompida."
A agressiva estréia de Alfonsín
na vida política argentina, de qualquer forma, em nada afetou
as boas relações existentes entre Buenos Aires e Brasília.
A observação do ex-embaixador argentino no Brasil,
Oscar Camilión, segundo a qual a ida do ministro Leitão
de Abreu à posse de Alfonsín - e não a de Figueiredo
em pessoa - seria um sinal de esfriamento emitido pelo Brasil, foi
considerada sem nenhum propósito no Palácio do Planalto.
"Afinal", comenta um assessor da Presidência, "o
ministro Leitão é um dos colaboradores mais íntimos
do presidente Figueiredo."
À ESPERA DO DIA 5 - Na verdade,
os olhos do Brasil estão voltados, talvez antes até
das questões políticas, para o que vai acontecer na
primeira das frentes atacadas pelo novo presidente da Argentina.
A solução orquestrada por ele para reativar a economia
de seu país, baseada essencialmente na necessidade de um
período razoável para a retomada de fôlego,
é a anunciada intenção de negociar a suspensão
do pagamento e dos juros por seis meses, que os credores estrangeiros
vêm estudando há semanas. Este é um dos aspectos
que mais intrigam as autoridades do Brasil e da Venezuela, países
que trafegam por este mesmo terreno movediço e, até
aqui, preferiram enfrentar a questão de maneira distinta.
A situação ainda é ambígua e, fora a
marcada disposição de ambas as partes em evitar a
utilização da palavra "moratória",
não se conhece avanços concretos. "Vamos ver
o que vai acontecer a partir do próximo dia 5 de janeiro"
, diz o ex-ministro do Planejamento Mário Henrique Simonsen,
referindo-se à data em que vencerá mais uma parcela
dos juros da dívida argentina, e se completarão os
noventa dias fatais em que os atrasos de pagamento têm, legalmente,
de receber a qualificação de calote. A parcela anterior,
vencida em outubro, já não foi paga - e tudo indica
que a próxima também não o será.
Alfonsín, no entanto, não
espera um confronto. Nos primeiros dias de janeiro ele estará
recebendo em Buenos Aires uma delegação oficial do
Tesouro americano, que virá para discutir exatamente a questão
da dívida. E pelos sinais recebidos de Washington, nos últimos
dias, a expectativa na Casa Rosada é de que os Estados Unidos
acabarão intercedendo em favor da Argentina junto aos credores,
para que a moratória seja concedida. "Por enquanto",
comenta o ex-ministro Simonsen, "nada está claro. Ninguém
em Buenos Aires diz a respeito uma frase que tenha ao mesmo tempo
sujeito, verbo e predicado. Só quando juntarem as três
coisas saberemos o que a Argentina quer, e o que pode ou não
ser feito."
"FÉ E PACIÊNCIA"
- O veterano economista Raúl Prebisch, principal mentor
da política econômica do governo Raúl Alfonsín,
confia em que os argumentos apresentados aos bancos estrangeiros
pelo ministro da Economia, Bernardo Grinspun, serão suficientes
para convencê-los a ajudar o país a sair do buraco.
"Não esperamos milagres, porque não há
milagres em matéria econômica", diz Prebisch,
"mas os argentinos devem ter fé e paciência."
Negando-se a revelar detalhes da negociação, Prebisch
lembrou na semana passada que o que reforça a credibilidade
de uma trégua no pagamento dos juros é o fato de Raúl
Alfonsín ter assumido um compromisso com a nação
a esse respeito - ou seja, os credores estão cientes de que
ele não pode voltar atrás.
"Alfonsín não é
homem de dizer coisas sem haver meditado muito sobre elas antes",
assegura Prebisch. Há ainda outra esperança, na Argentina:
a de que os credores não estarão inclinados, nesse
momento, a tomar o caminho de confronto e das sanções
econômicas, que poderiam desestabilizar fatalmente o novo
governo argentino. "Isso não faria aparecer os dólares
dos juros", diz um assessor do Ministério da Economia.
"Além do mais. não há razão para
os credores simpatizarem com uma eventual volta dos militares ao
poder. Afinal, foram eles que fizeram a dívida."
A sombra dos militares sobre a vida argentina,
na verdade, é a questão que mais expectativa tem despertado
no exterior - junto com a audaciosa tentativa de Alfonsín
de afastá-la definitivamente, um feito que vem sendo perseguido
pelas lideranças civis da Argentina, sem nenhum sucesso,
há 54 anos. É nesse campo crucial, aproveitando uma
combinação única de circunstâncias -
a derrota militar na guerra das Malvinas em 1982, sua esmagadora
eleição pelo voto popular, e a desmoralização
conjunta do peronismo batido nas urnas e das Forças Armadas
responsabilizadas pelo desastre nacional -, que Alfonsín
joga a sua grande mão de cartas. Chegar ao final do próprio
mandato já será, para ele, uma vitória notável.
Mais que isso, porém, Alfonsín entrará para
a História se conseguir, como pretende, subordinar as Forças
Armadas ao poder constitucional e transformá·las numa
instituição regular da sociedade argentina, dedicada
às suas funções profissionais - e não
à intervenção permanente na política.
DEFESA NACIONAL - Para tanto, o
chefe da nação argentina saiu jogando duro. Na semana
passada, em prosseguimento ao expurgo através do qual pretende
concentrar na Casa Rosada as alavancas de comando sobre as Forças
Armadas, afastou do Exército de uma só vez, passando-os
à reserva, nada menos que 38 generais - e, com isso, reduziu
de 56 para apenas dezoito o número de generais atualmente
na ativa no Exército argentino, em comparação
com o 160 existentes no Exército brasileiro. Ao mesmo tempo,
extinguiu sumariamente uma unidade inteira da força terrestre,
o IV Exército, que havia sido criado em 1981. Numa ofensiva
paralela, ele já havia afastado, desde a sua posse, cerca
de 5.000 oficiais que ocupavam cargos na administração
pública, substituindo-os por funcionários civis.
"As Forças Armadas argentinas
têm de se conformar, de uma vez por todas, de que seu papel
é obedecer a uma doutrina de defesa nacional, e não
cultuar uma doutrina de segurança nacional", comentou
para VEJA o ministro da Defesa, advogado Raúl Borrás,
enquanto preparava com Alfonsín a lista de medidas prioritárias
a tomar com relação às Forças Armadas.
O primeiro grande passo em direção a essa nova filosofia
foi, sem dúvida, a profunda reestruturação
iniciada na cúpula das três forças e a extinção
do IV Exército, que tinha jurisdição na zona
centro-sul do país, com sede na província de La Pampa.
Alfonsín procurou afastar do comando
militares que poderiam, num futuro imediato, levantar obstáculos
à consolidação da democracia. Um deles, por
exemplo, era o general-de-brigada Mário Oscar Davico, ex-chefe
de Inteligência do Exército, a quem o governo sandinista
da Nicarágua acusara, em 1981, de haver entregue grande volume
de dinheiro aos "contras" - guerrilheiros que vêm
tentando derrubar o regime esquerdista da Nicarágua. No ano
seguinte, Davico foi proposto pelo então presidente, general
Leopoldo Galtieri, como embaixador argentino no Panamá, mas
este governo não lhe concedeu o agreement.
GOLPISTAS DE PLA TÃO - Depois
de ter afastado 38 generais do Exército, pelo mecanismo legal
da preterição, Alfonsín deverá intervir
na Força Aérea nesta semana, passando à reserva,
segundo uma alta fonte da Casa Rosada, um pesado lote de vinte brigadeiros
e 45 comodoros, grau equivalente no Brasil ao de coronel. Além
disso, ele planeja despachar para a sede do agora extinto IV Exército
boa parte da tropa que hoje ocupa as instalações do
I Exército, a unidade terrestre mais poderosa em Buenos Aires
- enfraquecendo, assim, o poder de fogo do general que acaba de
ser nomeado para comandar o contingente mais próximo à
Casa Rosada.
Desta forma, Alfonsín vai paulatinamente
desmontando o aparato que costumeiramente tem se voltado contra
os governos civis, sem apelar para subterfúgios. Lançando
mão apenas de dispositivos legais já existentes e
aceitos pela sociedade argentina, inclusive a que vive na caserna,
Alfonsín optou por colocar à frente da mais poderosa
força do país - o Exército, tradicionalmente
golpista - generais que possuem não mais do que dois anos
nessa patente. Ou seja: são homens que participaram das aventuras
do "Processo de Reorganização Nacional"
- nome autoconcedido à ditadura militar que administrou o
país nos últimos oito anos -, envolvendo-se desde
a repressão feroz até o vexame das Malvinas, mas na
segunda ou terceira linhas de figuração. Hoje já
não existe na ativa nenhum tenente-general, o equivalente
ao general-de-divisão brasileiro. O oficial mais antigo em
atividade é o chefe do Estado Maior Conjunto, o general-de-brigada
Júlio Fernandez Torrez, que foi promovido a essa patente
em 1981.
Saber qual será a atitude desses
novos líderes, forjados no caldo intervencionista que há
cinqüenta anos domina a Argentina, é um exercício
a que se dedicam desde já o presidente Raúl Alfonsín
e seus mais íntimos colaboradores. Confiante, um deles disse
a VEJA na última quinta-feira: "No momento não
há ninguém capaz de liderar um golpe, porque as Forças
Armadas conseguiram a incrível façanha de se destroçarem
a si mesmas. E daqui por diante vai ser cada vez mais difícil,
aos eternos golpistas de plantão, conseguirem arregimentar
adeptos. Afinal, as medidas que estamos tomando são moralizadoras,
e já vinham sendo reclamadas pela jovem oficialidade desde
a guerra das Malvinas". O novo governo confia, ainda, num outro
trunfo para evitar o golpismo: vai intervir nos cursos de formação
de oficiais, onde pretende realizar uma verdadeira revolução
educacional.
Essa contundente e profunda intervenção
que Raúl Alfonsín inicia nas Forças Armadas
não provocou até o momento reações contrárias.
O fato se explica pela total desarticulação do comando
militar dos últimos anos, que hoje se dedica a retaliações
interforças, à procura de um bode expiatório
que justifique à opinião pública - e também
à Corte Marcial que vem julgando os principais acusados -
os motivos da derrota na guerra das Malvinas. O único tema
que poderia, teoricamente, preservar a unidade que as Forças
Armadas demonstraram nos primeiros anos da ditadura seria o da chamada
"guerra suja" - o combate à subversão. Mas,
depois que o Congresso Nacional aprovou a anulação
da lei de anistia, devidamente sancionada por Raúl Alfonsín
na última quarta-feira, o que se viu foram algumas tentativas
isoladas para evitar que o castigo da lei caia sobre os que participaram
efetivamente de crimes na luta anti-subversiva e antiterrorista
durante os anos 70.
A primeira foi uma misteriosa viagem de
um Boeing 707 da Força Aérea Argentina presumivelmente
a Israel, sem cumprir os trâmites obrigatórios dos
serviços alfandegários e de emigração.
Embora uma nota oficial da Força Aérea tenha afirmado
que o objetivo do vôo era apenas transportar material aeronáutico
de Israel para a Argentina, na semana passada surgiram versões
de que o avião deixara Buenos Aires com 5 toneladas de documentos
sobre a luta contra a subversão. Na noite da última
segunda-feira, além disso, um incêndio destruiu totalmente
algumas instalações do Comando de Saúde do
Exército. Há suspeitas, no governo, de que o incêndio
teria sido intencional, provocado para destruir o arquivo do Exército
sobre a repressão política realizada nos últimos
anos e que estaria localizado justamente no galpão mais atingido
pelas chamas.
"Isso era o que nós mais temíamos",
revelou a VEJA uma das diretoras da Assembléia Permanente
pelos Direitos Humanos, Graciela Fernandez. Outros opositores do
regime militar, numa linha inversa à preconizada por Alfonsín
e pelo Poder Judiciário, acham que as provas dos crimes não
são necessárias. É o caso de Hebe de Bonafini,
a presidenta das Madres de la Plaza de Mayo, que tem dois filhos
e uma nora desaparecidos. "A Justiça comum precisa do
corpo de delito, da prova, e nós sabemos que muitos dos nossos
entes queridos foram atirados ao fundo do mar, ou incinerados com
gasolina ou pneus nos fundos dos quartéis", diz ela.
"Se a repressão foi inédita, o julgamento e o
castigo também terão de ser inéditos."
SERVIÇO À PÁTRIA
- Esse tipo de vingança não está nas cogitações
de Alfonsín. Ele quer julgamentos dentro das normas do direito,
e determinou, inclusive, que a apreciação dos crimes
cometidos na guerra interna seja feita por um tribunal militar.
"Resolvendo a questão do regime militar através
da justiça castrense, Alfonsín exclui a possibilidade
de que as Forças Armadas tenham a sensação
de estar do agravadas", comenta admirado historiador americano
Robert Potash, especialista no assunto das influências do
Exército na política argentina, que há três
meses se encontra em Buenos Aires realizando novas pesquisas. "Os
militares", diz ele, "não podem se queixar de nada,
já que seus próprios problemas têm o âmbito
legal que determina a Constituição."
Com a modificação planejada
por Alfonsín para o Código Penal Militar, as sentenças
ditadas pelo tribunal militar brevemente poderão ser passíveis
de apelação à Justiça comum. Por enquanto,
apenas duas vozes se levantaram contra a determinação
do novo governo em julgar os responsáveis pelo desaparecimento
de milhares de argentinos. Uma delas é a do general Luciano
Benjamín Menéndez, ex-comandante do III Exército,
que em 1981 tentou derrubar o então presidente, general Roberto
Viola, e hoje está na reserva. "As únicas pessoas
que dizem que cometemos excessos são os subversivos",
afirmou Menéndez na semana passada. "O que todo mundo
se esquece é de que aqui houve uma guerra: de um lado, os
subversivos que queriam transformar a Argentina num satélite
comunista, e do outro as forças legais, atuando sob o poder
da Constituição."
Argumentos praticamente idênticos
são utilizados pelo ex-chefe da polícia da província
de Buenos Aires, entre 1976 1979, general Ramón Camps. Acusado
judicialmente pelo desaparecimento de várias pessoas, Camps
diz que estava no cumprimento de seus deveres. "Apenas prestei
um serviço à pátria", afirma. "Tanto
o Exército quanto a Marinha, a Aeronáutica e a Polícia
alcançaram uma vitória contra caos. São, portanto,
credores da gratidão nacional." O nome de Camps está
ao lado do general Reynaldo Bignone numa lista de vinte oficiais
que não podem deixar a Argentina, por estarem formalmente
processados em casos de desaparecimento. Nos processos que geraram
a ordem de captura emitida contra ele na semana passada, o ex-presidente
Bignone é acusado de "privação ilegítima
da liberdade" e "omissão de denúncia e falso
testemunho" pela desaparição de dois soldados
da Escola Militar Nacional, em 1976, quando era o seu diretor. O
general Cristino Nicolaides, comandante do Exército no governo
de Bignone, também está arrolado processo idêntico.
Apesar do cerco que o novo governo vem
armando em tomo das Forças Armadas, até aqui nenhum
militar abandonou o país. O general Camps, inclusive, voltou
a Buenos Aires após ter se ausentado dias atrás, para
uma viagem ao Uruguai. Há indicações, entretanto,
de que muitos oficiais estariam pretendendo deixar a Argentina.
Segundo adiantou a VEJA uma fonte do governo, há mais de
150 pedidos de vistos de entrada de oficiais da Marinha em tramitação
na Embaixada da África do Sul, em Buenos Aires. Naquele país,
aliás, já vive o ex-diretor da Escola de Mecânica
da Marinha, o contra-almirante da reserva Rubén Chamorro,
que teve a seus cuidados - segundo o testemunho de raros sobreviventes
- operações de seqüestro e desaparecimentos em
1979.
"TÍNHAMOS MEDO" -
O advogado Martín Tomás Grás, que sobreviveu
às torturas e que até hoje não sabe explicar
direito como conseguiu escapar à lista de desaparecidos,
lembra que os prisioneiros da Marinha tinham horror à palavra
"traslado", operação que costumava acontecer
às quartas-feiras. Eles eram separados em grupos de cinqüenta,
e levados num caminhão até o Aeroporto Jorge Newberry,
mais conhecido como Aeroparque, em Buenos Aires. Antes da viagem,
os presos tomavam injeções de um calmante apelidado
"Pen-naval", que era a droga Pentotal. Depois, eram embarcados
num Fokker da Marinha e levados no rumo sul, mar adentro, até
alcançar uma zona precisa, onde o curso da corrente garantia
o desaparecimento dos cadáveres: nesse ponto, os presos eram
despejados do avião.
Essa é apenas uma das macabras histórias
que os argentinos, horrorizados, começam a conhecer agora,
quando acabam de se livrar da censura que amordaçou a imprensa
nos últimos oito anos. Na semana passada, os quatro canais
de televisão - que até o mês passado eram controlados
diretamente pelo Exército (canais 7 e 9), Marinha (13) e
Aeronáutica (11) - mostraram ao país as cenas chocantes
da exumação dos cadáveres com o cérebro
perfurado de balas, feita diligentemente por juízes federais
em vários cemitérios da Grande Buenos Aires. Ao investigar
denúncias de que alguns dos 30.000 desaparecidos durante
a repressão política teriam sido mortos e enterrados
clandestinamente, e dados como indigentes, os juízes passaram
a exumar dezenas de cadáveres.
Eles constataram, nas exumações
da semana passada, que vários esqueletos apresentavam perfurações
de balas de grosso calibre no crânio - indício, segundo
os magistrados, de que receberam "tiros de misericórdia".
As denúncias, na verdade, já haviam sido feitas há
quinze meses e apontavam a existência de pelo menos 1.500
sepulturas clandestinas em vinte cemitérios argentinos. Mas
elas foram engavetadas pelo regime militar, e agora puderam seguir
o seu caminho natural por expressa determinação de
Raúl Alfonsín. Depois de ele anunciar que todos os
denunciantes teriam total proteção do governo, surgiram
novas pistas e até uma primeira testemunha desses sepultamentos
ilegais, na semana passada. Oscar Ruben Bagliani, vereador de Florencio
Varela, 30 quilômetros ao sul de Buenos Aires, contou ao juiz
Pablo Peralta que entre 1976 e 1978 ele participou do enterro de
trinta jovens, que estavam encapuçados e tinham as mãos
e os pés amarrados por arame: todos haviam sido metralhados.
"Eu era bombeiro voluntário
naquela época", contou Bagliani, "e a polícia
e os militares que usavam uniformes de faxina nos obrigavam a ajudar
a recolher os cadáveres fuzilados de madrugada, e levá-los
ao cemitério." Depois de algumas escavações,
o juiz Peralta encontrou, de fato, os restos que Bagliani denunciara.
Emocionado, o vereador revelou um novo detalhe macabro desse trágico
passado argentino: "Tínhamos muito medo quando nos obrigavam
a apanhar os cadáveres fuzilados, porque muitas vezes eles
tinham granadas presas ao corpo. Aí, tínhamos que
atá-los a cordas e ir puxando de longe, para que não
explodissem na nossa cara. Acho que nem mesmo o nazismo fez coisas
como essas que nos aconteceram aqui na Argentina" .
José Meirelles Passos
Paralelos
inúteis
Brasil e Argentina vão da ditadura
à
abertura por homens e caminhos diferentes
Para a maior parte da oposição
brasileira, a eleição do presidente Raúl Alfonsín
e a maioria de suas providências em menos de um mês
de governo na Argentina são um exemplo a seguir. Para o governo,
um fantasma a evitar. De um e do outro lado do poder no Brasil surgiu
o costume da construção de analogias com a Argentina,
sempre através de um mecanismo pelo qual cada um se vale
da comparação que mais lhe convém. Os adversários
da eleição direta para a Presidência da República
dizem aos militares que ela abrirá inevitavelmente um processo
revanchista contra os oficiais envolvidos no combate à subversão
na década de 70. Já os defensores da eleição
asseguram que um governo saído das urnas terá a legitimidade
necessária para falar grosso com os banqueiros internacionais.
A comparação pura e simples
entre alguns fatos comuns à política argentina e à
brasileira parece indicar, contudo, que se está aí
diante de um caso clássico no qual "toda e qualquer
semelhança é mera coincidência". Parecidos
à primeira vista, os processos de fechamento e abertura políticos
do Brasil e da Argentina guardam tamanhas diferenças essenciais
que a maioria das comparações vai pouco além
do simples exercício de lógica.
A diferença fundamental entre as
duas situações está na guerra das Malvinas.
Os militares argentinos esqueceram-se do velho ensinamento de Benito
Mussolini, segundo o qual "uma ditadura pode fazer tudo, menos
perder uma guerra", e foram levados à fatal humilhação
quando o general Mário Menéndez rendeu-se às
tropas inglesas, em Port Stanley, no dia 14 de junho de 1982. A
derrota militar significou para a ditadura argentina o mesmo que
significara oito anos antes o fracasso da invasão de Chipre
para a ditadura dos coronéis na Grécia, derrubada
quase de imediato quando se mostrou inepta até mesmo no desempenho
de funções especificamente militares, como é
o caso de uma guerra.
Os militares, sempre que ocupam cargos
estranhos à sua carreira, o fazem com o argumento de que
são mais bem preparados, ou mais patriotas, ou ainda mais
honestos que os civis. Na realidade, como não há um
padrão científico para a medida de competência,
patriotismo e honestidade, todos esses atributos adquirem reconhecimento
através do poder de persuasão que a força das
armas dá aos quartéis. Quando essas mesmas armas são
rendidas a um inimigo externo, ocorre uma inevitável desmoralização
do poder que elas sustentam. O general Leopoldo Galtieri, comandante
da aventura das Malvinas, tomou-se um personagem vilipendiado depois
de sua deposição em 17 de junho de 1982, por se mostrar
permanentemente despreparado para a guerra e freqüentemente
embriagado. Sua culpa, porém, pouco tem de pessoal. O general
Ulysses Grant, vencedor da Guerra Civil americana e presidente da
República, mostrou-se despreparado para o cargo e sabe-se
que era um alcoólatra. A diferença entre os dois,
pela qual um freqüenta pedestais e o outro, piadas, está
no fato de que Grant venceu uma guerra e Galtieri perdeu.
LIQUIDAÇÃO DO MAL - Jamais
os militares brasileiros passaram por experiência semelhante,
mas, mesmo excluindo-se a guerra perdida, a comparação
entre os dois processos políticos mostra diferenças
mesmo onde parece haver semelhanças. O general francês
Jacques Massu, comandante das tropas que combatiam em Argel nos
anos 50 e uma espécie de patrono das turmas de militares
que se dedicaram à repressão política pelo
mundo afora, reconheceu, há um ano, que "a idéia
segundo a qual as Forças Armadas podem governar um país
é de uma soberba inacreditável". É na
medida dessa soberba que se encontra outra grande diferença
entre a Argentina e o Brasil.
Nos oito anos de duração
da ditadura dos generais Jorge Videla, Roberto Viola e Leopoldo
Galtieri, os militares argentinos fecharam o Congresso, extinguiram
os partidos e passaram um cadeado até mesmo na Corte Suprema
de Justiça. Ao lado disso, em momento de megalomania, atribuíram
às juntas militares a tarefa da "reconstrução
nacional". E para deixar bem claro que o poder emanava da tropa
e em seu nome era exercido, o presidente da República era
um delegado da Junta de comandantes das três armas. No Brasil,
nem mesmo no mais negro período do AI-5, quando o país
foi governado por uma Junta de setembro a novembro de 1969, chegou-se
a tamanha interferência militar no poder. Pitorescamente,
a Junta de cá, mesmo exercendo o poder, tinha vergonha de
ser chamada pelo nome e, por ordem da Censura, ela se denominava
de "os ministros militares no exercício da Presidência".
E mais: ao ser escolhido presidente pelos quartéis, o general
Emílio Medici exigiu que a sua indicação fosse
submetida ao ritual da Constituição e sagrada no Congresso,
que, para isso, foi reaberto. No Brasil, não se suprimiram
as eleições legislativas, não se fechou o Poder
Judiciário e, nos quase vinte anos decorridos entre 31 de
março de 1964 e agora, o Congresso esteve fechado por apenas
onze meses.
Na Argentina, o general Leopoldo Galtieri,
comandante do Exército, demitiu, em 1981, o presidente Viola.
No Brasil, o presidente Ernesto Geisel, em outubro de 1977, demitiu
o comandante do Exército, general Sylvio Frota. Ou seja,
em dois regimes amparados na força das armas ocorreram movimentos
divergentes. No regime brasileiro, a Presidência afirmou-se
sobre os quartéis. No regime argentino, os quartéis
sobrepunham-se à Presidência. Dispondo dessa primazia,
os militares argentinos administraram o país como se ele
fosse um curso de trigonometria - quando os problemas estivessem
resolvidos, chamariam de volta os civis. Entre os problemas estava
o da oposição, que ia dos liberais aos terroristas,
e acreditou-se na utopia de que era possível acabar com o
dissenso através da supressão física dos dissidentes.
Mataram-se talvez 30.000 pessoas na Argentina
através de um processo megalomaníaco que, mesmo tendo
se infiltrado no processo brasileiro entre 1968 e 1974, por aqui
custou em tomo de 200 vidas. Nem o terrorismo brasileiro teve as
dimensões do argentino, nem a repressão que lhe foi
imposta é comparável à argentina. Mas ainda
não é aí que está a diferença
essencial. Em Buenos Aires, as Forças Armadas acreditaram
no raciocínio estratégico que a repressão sedutoramente
oferecia: o da liquidação do mal. No Brasil, essa
sedução nunca atraiu as Forças Armadas como
um todo.
DITADURA É PROBLEMA - Os
anos mais negros do AI-5 registram atitudes surpreendentes de chefes
militares. Em 1971, o general Idálio Sardenberg deixou de
receber o comando do I Exército, que lhe estava oferecido,
porque discretamente fez circular a informação de
que limparia o DOI-Codi, o órgão militar de repressão
política. Um ano depois, em São Paulo, o brigadeiro
Délio Jardim de Mattos esvaziava as celas do Comando Aéreo
de São Paulo, onde havia presos políticos. Nesse caldo
de cultura estava o embrião da demissão do general
Ednardo d'Ávila Mello, em 1976, quando morreu o terceiro
preso nas dependências do seu DOI-Codi. Ou seja, quem feriu
de morte o aparelho repressivo foi o próprio regime na sua
transformação.
Na Argentina, os presos políticos
não tinham advogados civis e os quatro canais de televisão
foram entregues ao Exército, Marinha e Aeronáutica.
Por fim, ao se verem batidos, os militares argentinos tentaram decretar
uma anistia em favor de si próprios - enquanto no Brasil
foi um general quem assinou a anistia, mas em benefício dos
adversários do regime. Nos dois países, sem dúvida,
as Forças Armadas foram envolvidas em processos de supressão
das liberdades públicas que, em tese, levariam a um futuro
de progresso e abundância. Em ambos os casos deu-se a quebra
das finanças e o encontro com um presente negro. Mas no Brasil
o retorno ao estado de Direito deu-se com suavidade e, por isso
mesmo, pôde ser gradual.
No fundo, todas as comparações
entre o passado e o presente da Argentina e do Brasil permitem uma
única conclusão. A ditadura, com toda sua aparência
de solução, é um problema, enquanto que a democracia,
com sua aparente complicação, é a única
forma eficaz a que recorrem as sociedades - e, nelas, muitas vezes
a contragosto, os militares - para a solução dos problemas
das ditaduras.
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