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3 de novembro de 1982
A arrancada das motos
A indústria de motocicletas cresce
aos saltos, os compradores brotam
de todos os lados e a condução
sobre duas rodas se implanta no país
O exemplo vem de cima. Como 700.000 brasileiros, o presidente da
República é um motociclista. Que ele consegue pilotar
uma moto já o sabem todos os que assistem, aos domingos,
ao programa da Globo O Povo e o Presidente, em cuja introdução
João Batista Figueiredo aparece por momentos bem montado
em seu cavalo de aço cromado. Mas como esse hábito
de Figueiredo constitui um meio-segredo oficial, poucos sabem do
resto. O presidente tem duas motos uma Yamaha 125, de 368.000
cruzeiros, máquina de potência modesta, sobre a qual
ele se sente mais seguro, e uma atrevida Honda 400, de 900.000 cruzeiros,
capaz de fazer 180 quilômetros por hora numa estrada.
Com a Yamaha, que considera um pouco perigosa, Figueiredo passeia
freqüentemente, de manhã, dentro dos limites da Granja
do Torto, sua residência oficial, em Brasília. Com
a Honda, escapa vez por outra para o centro da capital, sem a proteção
de guardas de segurança mas bem protegido por um capacete
prateado, americano, que lhe esconde o rosto e permite, como já
aconteceu, que se junte a um grupo de motociclistas para, incógnito,
saborear despreocupado uma viagem de alguns quilômetros em
sua companhia. Os ministros sabem e se preocupam. Agora,
a reveladora foto de Figueiredo será retirada do programa
de televisão. Por decreto que o presidente assinou recentemente,
o capacete é equipamento obrigatório e, na
televisão, Figueiredo aparece sem capacete. "Poderia
dar mau exemplo" , justifica Carlos Atila, secretário
de imprensa da Presidência da República.
O candidato do PDS ao governo do estado do Rio de Janeiro, Wellington
Moreira Franco, faz diferente. Sem disposição para
sentar-se em um selim, transfere a tarefa. Quando sai para um comício
na Zona Sul carioca, costuma carregar 12 atraentes motoqueiras na
sua caravana. As motos, pintadas de azul, branco e vermelho, as
cores do PDS, chamam atenção. E as moças que
as cavalgam, mais ainda, engrossando a multidão para o discurso.
Éder, o ponta-esquerda do Atlético Mineiro e da Seleção
Brasileira, também é do time tem uma Honda
vermelha, de 400 cilindradas, igual à de Figueiredo e à
de Bernard, o inventor do saque "jornada nas estrelas"
e um dos magos da Seleção que voltou vice-campeã
do Mundial de Vôlei, na Argentina. Como se obedecessem a algum
impulso inadiável, os brasileiros, hoje em dia, estão
comprando motos como nunca. Com elas, os paulistas invadem, aos
sábados e domingos, a placidez do Parque do Ibirapuera
e, todas as noites, a região movimentada da Rua Augusta,
no coração dos Jardins. Os cariocas estacionam motos
lado a lado nos calçadões de Ipanema e Leblon e trafegam
em tribos enormes, de dezenas de motocicletas, na região
da Praia do Pepino, também freqüentada pelos pilotos
e admiradores das asas delta. É assim por toda parte. De
norte a sul do país, a moto vai-se tornando uma epidemia
nacional. Há várias razões para este surto,
iniciado em meados da década de 70 com a fabricação
das primeiras motos no Brasil, e que vem crescendo num ritmo avassalador.
A primeira delas é econômica. A motocicleta custa muito
menos que o automóvel e consome pouquíssimo combustível
as de potência média, por exemplo, fazem ao
redor de 50 quilômetros por litro de gasolina. E, para a legião
crescente dos que a ela vão aderindo, de empregados de escritórios
a executivos, serve perfeitamente como meio de transporte.
As fábricas de motocicletas, da mesma forma que as de tênis
ou de computadores, exceções vitoriosas num mercado
comprador hesitante, ignoram olimpicamente a crise econômica.
Sua produção aumentou à espetacular taxa média
anual de 50%, desde que a primeira moto brasileira, uma Yamaha 50,
saiu em 1975 da linha de produção, nas instalações
da empresa, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Nesse momento,
a segunda maior indústria de motocicletas do mundo
a primeira é a Honda, de origem japonesa como a Yamaha
dava seus primeiros passos no Brasil. Hoje a Yamaha faz 60 000 motos
por ano no país e se expande num ritmo vertiginoso. Enquanto
isso, a indústria automobilística, do outro lado da
gangorra, perde terreno. Na semana passada, a Yamaha deu um passo
adiante na conquista do mercado receptivo, com o lançamento
simultâneo de dois novos modelos.
Globo da morte Um deles, a RDZ 125 (546.000 cruzeiros),
como indica o número de cilindradas com que foi abastecida,
tem uma câmara de compressão para a mistura de gasolina
e ar com 125 centímetros cúbicos. Em termos práticos,
isso significa que consome 1 litro de gasolina por 50 quilômetros
rodados um sedan Volkswagen faz 10 quilômetros por
litro e atinge uma velocidade de 115 quilômetros por
hora. "Ela é ágil, rápida, estável",
entusiasma-se Toshiki Suhara, diretor comercial da Yamaha, "excelente
para enfrentar o trânsito das cidades". Também
é boa para a estrada. Equipada com o maior tanque entre todas
as motos de sua categoria fabricadas no Brasil, a RDZ 125 leva 16
litros de combustível, com os quais percorre mais de 500
quilômetros, sem precisar estacionar em postos de gasolina.
A outra motocicleta lançada pela Yamaha, a DT-180 Six Speed
(700.000 cruzeiros), gasta um pouco mais de gasolina, desenvolve
mais velocidade e, principalmente, é muito mais resistente.
"É uma moto com a suspensão reforçada
para agüentar passeios fora da estrada" , informa Suhara.
Com ela, a Yamaha atira num alvo certo: os jovens preferem cada
vez mais essas motos chamadas de trail, capazes de vencer trilhas
em montanhas, mergulhar sem problemas na lama e galgar elevações
aos solavancos.
Duas motocicletas lançadas numa mesma semana, mais de 200.000
saindo das linhas de montagem até o final de 1982
é, realmente, um notável salto em relação
ao passado. Há 20 anos mal se viam motos nas cidades brasileiras.
Elas freqüentavam, então, os espetáculos de "globo
da morte" nos circos ou estacionavam em garagens de um ou outro
excêntrico, geralmente estrangeiro, que trazia o hábito
de seu país. Nos últimos anos, a gasolina em disparada
e os preços dos carros galopando acima da taxa de inflação,
era natural que o brasileiro se voltasse para as motocicletas. Afinal,
com 100.000 cruzeiros de entrada e 24 prestações de
20.000 cruzeiros se pode sair de uma revendedora com uma moto de
segunda mão um passaporte à altura de bancários,
empregados públicos e funcionários de escritório.
Para eles, e também para faixas de maior renda, que buscam
lazer com certa aventura em máquinas mais potentes e caras,
produzem-se atualmente no Brasil 18 diferentes modelos de motocicletas,
a maior parte na fábrica de Manaus, onde impera a Moto Honda
da Amazônia, dona de quase 70% do mercado. A Yamaha, sua única
competidora as outras marcas disputam menos de 3% das vendas
, encarrega-se do resto do abastecimento. Assim, as duas gigantes
da indústria de motocicletas no mundo repetem agora no Brasil
o duelo que travam em quatro continentes, onde têm suas fábricas
instaladas. Além dos produtos locais da Honda e da Yamaha,
existem ao redor de 50.000 motos importadas no país. Custam
o dobro das motocicletas brasileiras da mesma potência e,
a partir da proibição de importações
de motos no Brasil, em 1974, entram clandestinamente pelo Paraguai.
Experiência excitante Entre os que freqüentam
as revendedoras, há consumidores ilustres. No Rio de Janeiro,
o advogado criminal Técio Lins e Silva, 35 anos, defensor
da atriz Dorinha Duvai, quando ela matou o marido há dois
anos, anda de moto há dez anos, mas poucos de seus colegas
conheciam sua inclinação até pouco tempo atrás.
Com medo de que algum juiz o visse em cima da máquina
afinal, até hoje ainda há quem coloque os motociclistas
na lista geral das pessoas não-sérias , Lins
e Silva escondia sua Yamaha 250 ou sua Suzuki 750, importada, a
vários quarteirões do Fórum do Rio de Janeiro.
"Mas perdi a vergonha", conta ele, lembrando o dia em
que encontrou o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil,
Eduardo Seabra Fagundes, 46 anos, estacionando sua Honda 125 também
a uma distância enorme e conveniente do Fórum. Fagundes
mora no bairro de São Conrado e, para trabalhar no centro,
deixa o carro em casa. Só usa a moto. "É mais
econômica e mais fácil de estacionar", diz.
O ex-governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, 54 anos,
tem três motos em casa, duas para os filhos e uma Honda 400,
vigorosa, para seus passeios. "Andar de moto é uma experiência
excitante", afirma Martins. "O contato com o ar, o sol,
a paisagem, é muito maior do que no automóvel."
Numa eterna ponte aérea entre São Paulo, Rio e Brasília,
o presidente da Embratur e ex-prefeito de São Paulo, Miguel
Colasuonno, um dos mais antigos motoqueiros entre as figuras públicas,
acha que a motocicleta é o melhor antídoto que existe
contra o aperto da gravata. Nos fins de semana, em São Paulo,
deixa o terno e a gravata e sai de roupa leve e solta, a cavalo
sobre sua nervosa, potentíssima Honda 1000, importada e dez
vezes mais vigorosa que as pequenas nacionais. Fico preso
no escritório a semana inteira, diz Colasuonno. Mas
me liberto com a moto aos sábados e domingos.
Nostalgia do cavalo Como sabe todo motociclista,
uma máquina que rola em cima de duas rodas e exige que seu
condutor mantenha o equilíbrio é mais que um simples
meio de transporte. "Gosto de moto porque entro em entendimento
com ela, formamos um só conjunto", explica a modelo
profissional carioca Ana Cristina de Carvalho Campos, 26 anos, que
contribui para esse conjunto com um corpo bem moldado através
de aulas de balé. "Andar de moto depende da musculatura,
do jogo de cintura", diz Ana Cristina. E, corpo e máquina
integrados, o conjunto visita agências de publicidade, onde
a parte feminina da dupla posa para fotografias de propaganda. A
satisfação de Ana Cristina só não é
maior porque existem motoristas que se divertem assustando mulheres
motociclistas. "Alguns empurram o carro em cima da gente, para
ver o que acontece. Por isso, uso blusões largos e capacete
para ser confundida com homem".
A relação do ser humano com a máquina de duas
rodas recebe uma interpretação, a sério, do
humorista Jô Soares, que acaba de vender a sua Harley Davidson
1200, americana, e já está de olho nas novidades da
praça para substituir a companhia antiga, sobre a qual chegou
a andar de pé, na rua Augusta, em São Paulo. "Acho
que o homem gosta de moto por causa da nostalgia do cavalo",
pontifica. "Eu, pelo menos, me sinto assim". A parte da
psiquiatria que tem familiaridade com o ramo das duas rodas lhe
dá razão.
A aventura, é claro, encerra também perigo. Motocicleta,
dizem as estatísticas, é um veículo muito perigoso.
"Os acidentes com motos matam cinco vezes mais que os de carro",
afirma Gilberto Lehfeld, coordenador do programa de redução
de acidentes do Departamento de Operação do Sistema
Viário (DSV), de São Paulo. O calcanhar de Aquiles
do motociclista fica na cabeça: conforme levantamentos em
todo o mundo, confirmados em São Paulo por Lehfeld, de cada
dez motociclistas mortos em acidentes, sete perderam a vida em conseqüência
de traumatismo craniano.
O jogador de vôlei Bernard, 25 anos, não desconhece
as estatísticas. "Pára-choque de moto é
a cabeça da gente", comenta sombrio. A bordo de sua
Honda 400, mantém velocidade prudente e nunca caiu. Pensa
diferente o ponta-esquerda Eder, da mesma idade de Bernard e sem
habilitação para dirigir moto, apesar de ter uma há
dois anos. "Não gosto de usar capacete", informa
em Belo Horizonte. "Atrapalha a paquera." E anda com a
cabeça desprotegida, como a maioria dos motociclistas cariocas,
que não conseguem casar sol ardente e praia com o uso do
elmo protetor. O sacrifício, mesmo com sol muito quente,
valeria a pena "O uso do capacete diminui em 40% o perigo
do traumatismo craniano, quando a pessoa leva um tombo", alerta
Lehfeld.
Vôo de 40 metros O perigo ronda sempre com
mais insistência os que abusam, mas as revelações
das pesquisas sobre os riscos da motocicleta são, de qualquer
modo, capazes de desencorajar quem considera a segurança
como a prioridade número 1 ao locomover-se. Viajando sobre
a moto em grande velocidade, o motociclista se transforma num projétil
humano. Se tem 70 quilos, vai a 70 quilômetros por hora e
bate num obstáculo fixo o pára-lama dianteiro
de um carro parado, por exemplo será catapultado para
cima, com força suficiente para atingir 8 metros de altura,
ou para frente, com impulso capaz de jogá-lo em vôo
a até 40 metros do ponto do choque. "Quem tem diploma
do segundo grau pode fazer as contas facilmente e tomar suas precauções",
diz o professor de Física Alfredo Stavale, do Curso Anglo
Vestibulares, em São Paulo.
Uma planagem por tão longa distância pode parecer
uma condenação certa à morte. Na verdade, o
uso de roupas adequadas protege contra arranhões e cortes,
enquanto o capacete amortece pancadas na cabeça de uma forma
que espantaria os leigos em motociclismo. Em muitos casos, o blusão
ou a bota saem rasgados de um acidente e quem vai dentro da roupa
nada sofre. O ator e diretor de "casos especiais" e míni-séries
na TV Globo, Marcos Paulo, derrapou numa curva da estrada Friburgo-Rio
de Janeiro, anos atrás, e fraturou o fêmur. Desagradável,
mas ainda assim nada mau: seu capacete saiu esmagado do desastre
e sua cabeça intacta. Marcos Paulo dirigia uma Honda 500
e agora, vendendo saúde aos 31 anos, pilota uma moto mais
lenta, uma Yamaha DT 250 verde-prata.
Piloto distraído Aos 28 anos, o piloto paulista
Antônio Luís Cunha Geremias tem currículo mais
carregado que o do ator. Como testador de motocicletas para a revista
Moto, da Editora Abril, especializada em motociclismo, Geremias
leva pelo menos dois bons tombos por mês. Sua profissão
é justamente levar a máquina à maior velocidade
possível, freá-Ia em condições adversas,
incliná-Ia para o lado em curvas muito fechadas, até
que seu joelho roce o asfalto. "Dirijo motocicletas desde os
14 anos e já perdi a conta de quantas vezes caí,
diz ele, exibindo algumas cicatrizes espalhadas pelos braços
e pernas. Mesmo assim, acha que a prudência, raramente, leva
ao acidente. A moto não é perigosa, diz
ele, perigoso pode ser o piloto. Principalmente os distraídos,
acrescenta.
Faz sentido. Segundo pesquisa feita pela Honda, 77% dos acidentes
com motocicletas são provocados por quem vai montado nelas.
Essa lição é a primeira que as moto-escolas
Honda, supervisionadas pela indústria e instaladas em revendedoras
de sua marca, transmitem aos alunos. Há 30 dessas moto-escolas
espalhadas pelo Brasil e 10.000 brasileiros diplomados por elas.
Na primeira aula, todos os alunos da Honda levam um pequeno susto
é melhor que levar tombos mais tarde. Para os novatos,
a Honda apresenta um audiovisual de 12 minutos, mostrando cenas
cruas de acidentes fatais com motocicletas e explicando suas causas.
Só depois o aluno sobe numa moto para, geralmente seis aulas
mais tarde, sair em condição de tirar a carteira.
O curso custa em média 15.000 cruzeiros e os piores alunos
nunca tomam mais de 20 aulas afinal, dirigir uma moto não
é muito mais complicado do que andar de bicicleta. As outras
moto-escolas cobram geralmente o mesmo preço, formam no mesmo
tempo, mas sem tanto empenho em mostrar aos alunos que a eles principalmente
compete escolher o grau de risco que vão correr no trânsito.
Peça fundamental A explosão das motocicletas
no Brasil, que encontra no piloto particular seu maior apoio, conta
também com aliados dentro das empresas. Descobriram-se utilidades
para a motocicleta em praticamente todos os departamentos de entregas
das grandes empresas. E até de pequenas. A Farmácia
Piauí, com lojas nos bairros cariocas do Leblon e Copacabana,
das mais movimentadas do Rio de Janeiro, pôs dez motos em
funcionamento para entregar remédios a seus clientes. Resultado:
a Piauí, hoje, garante 60% de suas vendas com o serviço
de pedido por telefone e entrega a domicílio. A TV Globo
se converteu há cinco anos, quando comprou cinco motos no
Rio e duas em São Paulo, para agilizar seus serviços
de reportagem. Quando os carros de gravação ficam
presos em congestionamentos, por exemplo, as motos entram em cena.
Com os teipes gravados, o motociclista parte velozmente para a emissora,
sem risco de atraso para o programa. "É uma peça
fundamental no nosso trabalho", comenta Sérgio Rigó,
coordenador da Divisão de Operações de Jornalismo,
no Rio de Janeiro, e um entusiasta do auxílio prestado pelos
ágeis veículos que varam congestionamentos com facilidade
e rapidez.
Os novos usuários, que brotam de todos os lados, terão
cada vez mais produtos à sua escolha. "A Yamaha se compromete
a lançar um novo modelo a cada ano", afirma o presidente
da empresa, Masahiko Fukuta. A Honda promete o mesmo. E as duas
empresas fazem neste momento planos de expansão de suas fábricas,
em Guarulhos e em Manaus. Tudo indica que, se levarem seus projetos
adiante, não terão motivos para arrependimento. Até
abril deste ano, a revista Quatro Rodas, da Editora Abril, mantinha
uma edição especial sobre motocicletas, publicada
a cada três meses. Como os leitores viviam pedindo mais reportagens
sobre motos através de cartas, o suplemento se transformou
em uma revista independente e mensal. "Em seis meses, a tiragem
saltou de 60.000 para 80.000 exemplares", informa José
Carlos Marão, diretor de Quatro Rodas e de Moto, uma revista
feita por 13 pessoas, sete delas acostumadas a fazer diariamente
o trajeto entre a residência e o local de trabalho sobre o
selim de uma motocicleta. O assunto motocicleta, sem dúvida,
está pulsando.
Vereador dos motociclistas As pulsações,
em círculos concêntricos, alastram-se agora pelo interior
do país. A cidade paulista de Rio Claro, por exemplo, tem
120.000 habitantes e 8.000 motociclistas uma moto para cada
15 de seus moradores. Excetuando-se as crianças e adolescentes,
que formam o maior contingente de habitantes, a média torna-se
expressiva. Tanto que em Rio Claro surgiu este ano um candidato
a vereador que pretende eleger-se exclusivamente com os votos dos
pilotos conterrâneos. Segundanista de Administração
de Empresas, José Casonato, 24 anos, tem uma Honda 400, só
faz propaganda baseada no motociclismo e tem certeza de que está
eleito. "Com 800 votos, garanto minha cadeira na Câmara",
diz. "E em quem mais vão votar os motociclistas de Rio
Claro?"
Talvez mais expressivo seja o fato de que, há duas semanas,
20 000 pessoas compareceram a um bairro de periferia de Rio Claro
para assistir a uma corrida de motocicletas sobre terra e lama.
Nessas condições adversas, disputa-se o motocross,
que em Rio Claro reuniu mais público do que a final do Mundialito
de Vôlei levou ao Maracanãzinho, em setembro, quando
a Seleção Brasileira disputava a taça com a
da União Soviética. Pilotos ágeis, os competidores
do motocross enfiam-se na lama, em areões, poças d'água
e buracos, em busca de vitórias suadas. Quando saltam, ejetados
de alguma elevação no terreno irregular, suas motos
sobem a até 5 metros de altura. Com esses ingredientes rudes,
o motocross é disputado em motocicletas muito resistentes
e leves e, geralmente, no interior.
100 tombos No domingo passado, depois do sucesso
em Rio Claro, chegou a vez de Sorocaba, outra cidade do interior
paulista, com 270.000 habitantes e a 90 quilômetros da capital.
Para ver a final do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Paulista,
cerca de 30.000 pessoas se juntaram ao lado da pista acidentada
que a cidade rasgou para as motos e que, atualmente, atrai mais
gente que o estádio de futebol onde o veterano São
Bento disputa as partidas do Campeonato Paulista. Ali, os adeptos
do esporte presenciaram a vitória de um supercampeão,
o gaúcho Pedro Bernardo Raymundo, o "Moronguinho".
Aos 24 anos, Moronguinho é piloto da Honda, com salário
de 500.000 cruzeiros mensais, e vale o quanto ganha. É duas
vezes campeão latino-americano, cinco vezes campeão
brasileiro e único piloto de motocross que saiu do Brasil
para disputar o concorridíssimo Campeonato Japonês.
Na prova, realizada em Suzuka, há duas semanas, ficou em
10º lugar entre os melhores pilotos de motocross de todo o
mundo.
Moronguinho, que ganha a vida com uma motocicleta, quase a perdeu
com o mesmo instrumento. Salvou-o o capacete protetor. A 80 quilômetros
por hora, entrou de frente em um automóvel, há quatro
anos, numa rua de Porto Alegre. Aterrissou violentamente sobre o
asfalto, rolou e, ao se dar conta do que ocorrera, descobriu que
seu capacete, um presente da namorada, estava rachado ao meio. "Mas
minha cabeça continuava inteira", conta ele. Além
disso, já fraturou o maxilar, ao voar sobre um automóvel
que abalroou a 100 quilômetros por hora, e coleciona uma cobertura
de marcas sobre a pele, resultado de dezenas de tombos menores que
tomou. "Acho que já caí umas 100 vezes"
, calcula.
Com essa experiência perturbadora, Moronguinho absolve a
motocicleta. Tornou-se cada vez mais cuidadoso com o passar dos
anos e, hoje, quando pilota sua Honda 250 em Porto Alegre, anda
pela rua a prudentes 60, 70 quilômetros por hora. Se chove,
deixa a motocicleta em casa e sai em seu Passat. Sobretudo, concentra
a atenção no que está fazendo. "Quem está
em cima de uma moto, precisa estar alerta esse é o
segredo".
Os motociclistas brasileiros recebem, por sua vez, uma absolvição.
A imagem do motociclista deve muito à tradição
dos filmes americanos de décadas atrás, em que motos,
blusões pretos e violência gratuita apareciam sempre
associados. Na década de 50, a Lambreta reforçou o
estigma, quando rapazes brasileiros de classe média invadiam
festas e promoviam balbúrdias, sob a inspiração
do que se chamava na época de "juventude transviada".
Para o motociclista de hoje, a idéia não se aplica.
"Eles raramente se envolvem em bagunças e brigas no
trânsito", informa o diretor do Departamento de Operações
do Sistema Viário de São Paulo, engenheiro Roberto
Scaaringella. Além disso, eles aprendem com as campanhas
de educação para o trânsito. "Curiosamente",
afirma ScaringellIa, "mudam seus hábitos de guiar para
melhor com muito mais facilidade que os motoristas de automóvel".
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