BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



3 de novembro de 1971
Pequim na arena

Para os Estados Unidos, acostumados durante 21 anos consecutivos a olhar com tranqüilidade o colorido painel eletrônico que marca as votações na ONU - e festejar sem excitação a invariável vitória -, foi talvez o momento mais amargo na história de sua diplomacia moderna. Para os defensores da China Comunista, cansados colecionadores de derrotas desde 1950, foi o encerramento de uma era de desapontamentos e frustrações. Ao fim de oito horas dramáticas, a votação, que na noite chuvosa de segunda-feira da semana passada, em Nova York, admitiu Pequim e expulsou Formosa da ONU, riscava da agenda da Organização seu problema mais velho, que durante duas décadas separou nações, fez e desfez amizades, construiu blocos e alianças rivais - e abria, para a ONU, um futuro tão diferente de seu passado a ponto de, talvez, equivaler a uma nova fundação.

"Foi um momento de infâmia", declarava, logo após a sua derrota por 76 votos contra 35 e 17 abstenções, o delegado americano George Bush, numa opinião oposta à de muitos delegados africanos e asiáticos, que dançavam, riam ou gritavam no que lhes parecia uma hora de glória. "A ONU", acrescentou Bush, "acaba de cruzar uma ponte muito perigosa." A travessia da ponte, em si, não parece suficiente para mudar de forma decisiva as realidades do mundo nem os destinos da humanidade - a ONU, concordam quase todos, é um parlamento que não se dirige a nenhum executivo, onde se fala muito e se decide cada vez menos. Mas, se grandes e pequenos continuam com a mesma força que sempre tiveram, a ONU, por sua vez, se altera radicalmente, e a faixa de atividade política que os países exercem dentro da Organização terá de submeter-se às regras de um jogo inteiramente novo.

No final da semana passada, enquanto se esperava já com certa impaciência que Pequim enviasse sua delegação a Nova York - ou que pelo menos anunciasse sua nomeação -, o entusiasmo dos vencedores e a amargura dos vencidos começavam a dar lugar às preocupações mais concretas quanto ao futuro. A lista de problemas parece ser extensa. Com a entrada da China Comunista, o monopólio de poder exercido dentro da ONU por americanos e soviéticos poderá ser colocado brevemente em xeque. A expulsão de Formosa, ao mesmo tempo, abre um precedente que muitos consideram infeliz - uma grande maioria, eventualmente, poderia se formar amanhã contra países bem servidos de inimigos, como África do Sul, Israel, Paquistão. A irritação com a derrota, por outro lado, talvez faça Washington diminuir seu interesse pelas Nacões Unidas, o que enfraqueceria severamente a Organização. Uma represália financeira dos americanos contra a ONU - que, como diz seu secretário-geral U Thant, já se encontra em estado de "virtual bancarrota" - é uma hipótese viável. A eleição de um substituto para U Thant, com a presença chinesa, terá de ser pensada em novos termos. E o debate do Oriente Médio, maior problema atual da Organização, deixará de estar confinado aos quatro "grandes", para ganhar um novo e combativo participante.

BOM JÓQUEI - Tudo isso veio com repentina dramaticidade na noite de segunda-feira, na mais turbulenta assembléia de que há memória na ONU desde que Nikita Kruschev, em 1960, espancou com seu sapato a bancada da delegação soviética. Não foi propriamente uma surpresa, pois até o último momento as chances pareciam se dividir igualmente. Mas, para George Bush - "Um bom jóquei com um mau cavalo", como disse o representante peruano Perez del Cuellar -, a lista de votos seguros que tinha em mãos durante a tarde se revelou, à noite, fatalmente exagerada. "Esperávamos ganhar por uma margem muito, muito apertada", confessava ele desalentado, após o voto final. A surpresa maior, no fundo, foi a rapidez com que tudo se decidiu.

De fato, ao invés de uma maratona de votações ao longo do cipoal de filigranas regimentais, a questão se resolveu em golpes rápidos e incisivos - iniciada pouco após as 3 horas da tarde, a discussão estava encerrada às 11h15 da noite, com o anúncio oficial de que a proposta da Albânia, admitindo Pequim e expulsando Formosa, tinha sido aprovada na última votação. A vitória dos defensores de Pequim, na realidade, estava praticamente decidida noventa minutos antes, quando a Assembléia, por 59 votos contra 55 e 15 abstenções, desmontou o poderoso, essencial instrumento que os americanos contavam usar em seu favor: a proposta estabelecendo que a expulsão de Formosa deveria ser uma "questão importante", o que exigiria a aprovação por dois terços dos votos. A explosão de entusiasmo dos partidários da Albânia - dois minutos inteiros de aplausos e gritos - indicava que nada mais poderia segurar sua vitória. Uma moção do representante da Arábia Saudita, Jamil Baroody, propondo que a votação fosse adiada para o dia seguinte (uma tentativa de ganhar tempo para os americanos), havia sido derrotada anteriormente por 56 votos contra 53 e 19 abstenções, e o caminho estava afinal livre para a aprovação da proposta albanesa por maioria simples.

Bush, quase de costas para a tribuna, olhava em silêncio o espetáculo - a seus olhos, consternador - dos subdesenvolvidos em júbilo e se perguntava por que oito países (ao que consta, Bélgica, Chipre, Laos, Qatar, Senegal, Togo, Trinidad e Tunísia), até então considerados "certos", haviam decidido se abster na última hora - um golpe mortal para a proposta da "questão importante". Mais tarde, após a votação final, ele arrancaria dos ouvidos e jogaria sobre a mesa, irritado, os fones de tradução, quando o representante da AIbânia, Reis Malile, iniciava em francês uma ladainha contra o imperialismo americano - logo interrompida pelo presidente da Assembléia, Adam Malik.

SEM TELEVISÃO - O pesar de Bush, partilhado pelo presidente Richard Nixon, pelo Legislativo americano e por grande parte da opinião pública do país, tinha razões extensas. Dos 131 membros da ONU, os Estados Unidos, no fim, ficaram com o apoio de apenas 34. Nenhum país europeu se colocou a seu lado - tudo o que se conseguiu foram as abstenções de Grécia e Espanha. No continente americano, Washington só obteve os votos de doze dos seus 25 vizinhos. E sua proposta de duas Chinas, morta prematuramente com a aprovação da moção albanesa, nem chegou a ser votada. Esse balanço severo, nos Estados Unidos, praticamente só começou a mostrar seus efeitos no dia seguinte. Na segunda-feira, feriado nacional do Veteran's Day, uma chuva pesada caiu durante todo o dia sobre Washington, e a maioria dos altos funcionários não se animou a sair de casa, à noite, para acompanhar a votação em seus gabinetes. Como a televisão, na capital, acabou não transmitindo as passagens cruciais do debate, muitos deles foram dormir sem conhecer o desfecho - o que contribuiu para a quieta, calma reação inicial dos círculos oficiais de Washington.

Mas definitivamente silenciosa foi a reação de Pequim. Somente na sexta-feira o ministro interino das Relações Exteriores, Chi Peng-fei, respondeu por telegrama às mensagens que havia recebido da ONU - sem indicar, contudo, os nomes dos delegados que enviará. A delegação chinesa - que poderá ter mais de 120 membros - é esperada esta semana em Nova York, provavelmente na quinta-feira, para participar regularmente dos trabalhos da atual 26ª Assembléia e ocupar, talvez logo atrás da bancada brasileira, as cadeiras que Formosa deixou vazias desde a noite de segunda-feira. Os rumores, até o final da semana, eram de que o grande artífice da entrada da China na ONU, o primeiro-ministro Chu En-lai, viria pessoalmente a Nova York, para uma espécie de entrada triunfal no Palácio de Vidro, às margens do East River. A chefia permanente da delegação, entretanto, parecia girar em torno de três nomes: Huang Hua, o hábil, temperamental embaixador no Canadá, homem-chave da diplomacia de Chu e peça importante no trabalho de bastidores para a admissão da China; Chiao Kuang-hua, vice-ministro das Relações Exteriores; ou ainda o próprio Chi Peng-fei.

SONOLÊNCIA - De qualquer forma, espera-se desde já que a entrada da China de Mao venha sacudir a sonolência da ONU e despertar de novo o interesse sobre a Organização - a começar pelos sinólogos ocidentais, que, a partir da chegada da delegação chinesa, vão transformar Nova York na sua central de observações. "Se americanos e russos brigam", costumava dizer o sarcástico Krishna Menon, "a ONU não pode fazer nada para forçá-los a se entenderem. Se eles estão de acordo, a ONU passa a não ter nenhuma utilidade." O desabafo do velho diplomata indiano poderia definir bem a ínoperância e desprestígio em que a Organização foi mergulhando com o passar dos anos. Na verdade, o assustador volume de trabalho contabilizado pela ONU - até o fim da 26ª Assembléia, em dezembro, os delegados terão atravessado 108 itens da agenda, 800 reuniões de vários tipos, 27.000 páginas de documentos, 10 milhões de palavras de discursos - é quase sempre uma ilusão de atividade. Das cem ou mais resoluções que a ONU adotará este ano, a maior parte mal será noticiada - e muito menos executada.

O motivo básico disso é que a representação numérica da ONU, hoje, é desproporcional a qualquer realidade prática: 85 países formam quase dois terços da Assembléia Geral, mas, somados, representam apenas 10% da população mundial, 5% da economia e 0% de importância política real. Os grandes, não querendo se submeter às decisões desse tipo de maioria, tratam virtualmente de todos os seus problemas fora da Assembléia. Para eles, a ONU vai progressivamente se transformando numa agência social onde os temas principais são o controle da natalidade, a proteção do meio ambiente, a repressão aos narcóticos. Ou, do ponto de vista político, num fórum de debates: como observava recentemente o embaixador Bush, "sempre é melhor conversar do que atirar".

É nesse parlamento, aparentemente, que a China vai alterar a face da ONU, tentando assumir algum tipo de liderança no vasto grupo - cerca de cem países - do chamado Terceiro Mundo. E para russos e americanos, que por motivos políticos e diplomáticos precisam manter sua influência na Assembléia Geral, uma rude disputa com Pequim parece inevitável. Será, como vêem muitos observadores, a terceira fase que a Assembléia vai viver nestes seus 26 anos de existência. No início, com os seus 51 membros originais, ela foi praticamente dominada pelos Estados Unidos, que comandavam uma maioria mecânica e se preocupavam, basicamente, em conter o bloco comunista. Na década de 60, entretanto, o controle automático terminou. Com o "rush" final da descolonização, uma enxurrada de países africanos e asiáticos inflacionou a Assembléia em 1961, o número de membros tinha dobrado para 104 - e as maiorias passaram a depender das pequenas nações.

POUCA FORÇA - Os novos membros, entretanto, nunca chegaram a predominar. Sem formar um bloco compacto, sua maioria numérica tem permanecido amorfa. Por outro lado, o fim da guerra fria aproximou americanos e russos, tornando seus interesses, em relação aos pequenos, cada vez mais coincidentes. É essa a situação que a entrada de Pequim pode mudar. O "conluio das superpotências", o "congelamento do poder mundial" devem ser os alvos iniciais dos chineses - que em sua primeira declaração oficial sobre a admissão, pela Rádio Pequim, anunciaram que não irão à ONU com propósitos de "grande". Nessa sua tentativa de assumir a liderança dos subdesenvolvidos e transformar sua superioridade numérica numa força mais efetiva, Pequim talvez force Washington e Moscou a reformularem sua atitude de indiferença para com os pequenos - só procurados, geralmente, nas raras ocasiões de votações muito importantes.

Afora a ofensiva ideológica, Pequim também deverá estar presente em cada um dos problemas importantes que a ONU tem perenemente em sua pauta e, eventualmente, lançar novos. O debate dos quatro (Inglaterra, França, EUA e URSS), sobre o Oriente Médio, transformado em debate dos cinco com Pequim, colocaria mais um alido ao lado dos árabes e poderia se ampliar com a inclusão, pelos chineses, das posições dos guerrilheiros palestinos - um tema que Moscou trata de forma volátil. As emperradas conversações de desarmamento, em Genebra, poderão ganhar um novo equilíbrio. O problema do Vietnã e da segurança asiática poderá ser repentinamente trazido à Assembléia. E regras sagradas das grandes potências, como as que regem o decisivo Conselho de Segurança, talvez se vejam desafiadas por Pequim.

NO CLUBE - O comportamento de Pequim no Conselho - onde ganha cadeira permanente e direito de veto ao substituir Formosa - é, aparentemente, a maior incógnita de sua participação na ONU. No fechado clube dos cinco membros fixos - os outros dez são escolhidos de dois em dois anos -, onde as decisões têm se originado progressivamente de um consenso entre russos e americanos, os acordos, daqui por diante, terão de ser feitos a três. Nessas circunstâncias, há a hipótese de que o veto, ultimamente esquecido, possa voltar à moda eque o "pu-shi" chinês reedite o "nyet" com que os russos, em cerca de cem ocasiões, paralisaram o órgão no início da década de 50. Na sua possível intenção de evitar semelhanças com as grandes potências, entretanto, Pequim poderia, segundo as especulações de alguns observadores, tentar diminuir os poderes do clube e transferir mais responsabilidades à Assembléia Geral como, por exemplo, a nomeação de comitês especiais para soluções de conflitos, idéia defendida pelo Brasil no ano passado e rejeitada por americanos e soviéticos.

A ONU com a China, finalmente, terá significativas alterações administrativas. Pequim já insistia, na semana passada, que Formosa deve ser expulsa de todas as agências especializadas das Nações Unidas. Seus representantes, por outro lado, vão querer participar do ECOSOC e UNCTAD, dois dos principais braços econômicos da Organização, e talvez Pequim lembre, em breve, a ausência de um juiz chinês na Corte Internacional de Justiça, em Haia. Os empregos que cabem à China no secretariado também sofrerão alterações: dos 78 cargos disponíveis, 27 não estão preenchidos pelos chineses de Formosa (esses funcionários não devem ser demitidos) e Pequim, rapidamente, vai tentar ocupar até a última vaga.

EM MANHATTAN - Com o desembarque de sua delegação e funcionários em Nova York, a China vai provocar, na cidade, um impacto quase tão grande quanto o que causará dentro da ONU. A polícia, já ocupada com a segurança das 26.000 pessoas com status diplomático que vivem na área metropolitana, será a primeira a sentir as conseqüências de uma Manhattan com os chineses de Mao. O cuidado com sua proteção - prudentemente planejado várias semanas atrás - terá de ser especial. A existência de grupos tão pouco amigáveis como o Comitê de Um Milhão para Manter a China Fora da ONU promete dias turbulentos nas vizinhanças do prédio onde se instalará a missão chinesa.

A dura experiência da polícia de Nova York com os russos - desde janeiro todo o quarteirão da elegante rua 67, onde fica a missão soviética, está fechado ao tráfego, para dificultar os regulares ataques da Liga de Defesa Judia - poderá se repetir com os diplomatas de Pequim. Para protegê-los, a polícia calcula que terá de usar uma equipe de vinte homens em tempo integral - a um custo de 250.000 dólares por ano. Quanto ao aluguel de seu quartel-general - que já estaria sendo negociado secretamente de Ottawa -, os chineses terão dificuldade de encontrar em Manhattan o seu tipo de edifício predileto para embaixada: uma grande casa de dois ou três andares, isolada do centro comercial e cercada por muros altos.

LONGA MARCHA - O contato com esses novos problemas, para a China, é o ponto final de sua mais longa marcha como país comunista - uma caminhada que consumiu 21 anos, desde o dia de novembro de 1950, tão chuvoso quanto a segunda-feira passada, em que uma delegação chinesa de sete membros fez sua primeira e única aparição na sede da ONU para pleitear sua admissão e a expulsão de Formosa. Imóvel debaixo do guarda-chuva, o general Wu Hsiu-chuan, vice-ministro das Relações Exteriores de Pequim, se apresentou à entrada da sede provisória da ONU, então instalada na cidadezinha de Lake Success, perto de Nova York, para formalizar o pedido feito por carta pelo primeiro-ministro Chu En-lai - desde essa época o condutor da batalha que viria a acabar na última semana.

Nesse mesmo ano de 1950, a Índia - hoje um quase-inimigo de Pequim - apresentou ofipialmente para votação, pela primeira vez, uma moção propondo a admissão dos comunistas. Por iniciativa dos Estados Unidos - e 33 votos contra 16 e 10 abstenções -, a proposta foi declarada fora da agenda, numa decisão que iria se repetir religiosamente todos os anos, até 1960. Nessa travessia do deserto, Pequim chegaria ao ponto de ter apenas sete votos a seu favor, como ocorreu em 1952 - mas, a partir desse ano e pelos dez que se seguiram, sua posição, inexoravelmente, conquistava mais votos a cada tentativa. A partir de 1961, a proposta efetiva de admissão passou a ser votada: os EUA, desistindo da tática de manter a questão fora da agenda, passaram a adotar o esquema da "questão importante" para bloquear a entrada de Pequim - o mesmo instrumento utilizado agora na tentativa de salvar Formosa.

Em 1965, os chineses já puderam festejar um empate. E no ano passado, finalmente, pela primeira vez conseguiram uma maioria - 51 contra 49 e 25 abstenções. Sem obter os dois terços regimentais, Pequim não pôde entrar. Mas o voto foi dramaticamente sintomático. Logo em seguida, o presidente Nixon decidiu que tinha chegado o momento de jogar com outras cartas. E o pingue-pongue de abril, o anúncio de sua viagem a Pequim em julho e a declaração do secretário de Estado William Rogers em agosto, de que os EUA não mais se oporiam à entrada de Pequim - defenderiam, apenas, a permanência de Formosa -, acabaram consumando em poucos meses a metamorfose relâmpago de uma política de duas décadas. A China, enfim, chegava a poucos passos do término de sua marcha. E ficava claro que as maiores arrancadas tinham sido dadas fora da ONU: o fim da Revolução Cultural, a campanha de Chu En-lai para quebrar o isolamento chinês, o ritmo cada vez mais rápido com que governos ocidentais trocaram embaixadas com Pequim, a guinada fundamental na política exterior americana.

DERROTA E PROGRESSO - O ingresso da China na ONU, para muitos analistas, parecia assim menos uma vitória ideológica dos partidários de Pequim e mais uma acomodação geral dos países às realidades atuais da ordem mundial. Esse realismo, segundo Nixon, foi que levou os EUA a alterarem profundamente nos últimos meses a sua atuação internacional. Esta, se acabou trazendo a dura derrota que foi a expulsão de Formosa, ao mesmo tempo aparenta ser capaz, num quadro mais amplo e distante, de retirar frutos desse fracasso. De fato, quando Henry Kissinger tomou em Pequim o avião de volta a Washington, no dia seguinte à votação na ONU, sua missão de acertar os detalhes práticos para a viagem de Nixon recebia um fecho bem mais promissor do que aconteceria se a proposta americana tivesse sido aprovada. Entre Washington e Pequim, o problema ONU fica basicamente resolvido - e, no difícil caminho de sua aproximação, é uma importante pedra a menos.

Dentro dos Estados Unidos, entretanto, uma onda de indignação se levantou contra a decisão da ONU. O próprio Nixon, ressentido, condenou a "animosidade pessoal" de alguns delegados contra a representação americana. O secretário Rogers chamou a decisão de "lamentável". E, embora o embaixador Bush tenha ido levar a U Thant uma declaração de que seu país continuaria apoiando a Organização, um forte sentimento anti-ONU parecia ter-se instalado nos Estados Unidos. O senador James Buckley, imediatamente após a votação, conseguiu que o Senado aprovasse uma recomendação diminuindo de 31,5% para 25% a dotação financeira dos EUA para o orçamento da ONU, calculado em 215 milhões de dólares para 1972. Num momento em que a Organização atravessa sua pior crise financeira - há mais de 66 milhões de dólares acumulados em contribuições atrasadas, metade deles "incobráveis" - e vive o drama de saldar a folha de pagamento no fim de cada mês, a represália de Buckley é uma ameaça respeitável.

A desilusão de muitos americanos, inclusive, induziu alguns políticos, como o senador Barry Goldwater e o governador George Wallace, a insistirem no tema de que a ONU deveria retirar sua sede do território americano. E, na sexta-feira, a derrota chegou a influenciar os votos de alguns senadores na decisão de suprimir os programas americanos de ajuda exterior - dentro dos quais havia 143 milhões de dólares de contribuição especial à ONU, uma importância da qual a Organização, como disse um funcionário, "necessita desesperadamente".

PRECEDENTE - O governo americano, por fim, tem o problema inédito de ao mesmo tempo apoiar a ONU e manter sua aliança com Formosa - um país que não faz parte da Organização e é inimigo declarado de um de seus integrantes. Essa situação singular não apresenta perspectivas de solução. Primeiro membro expulso da ONU, Formosa não tem retorno possível à Organização.

Mas, com 14 milhões de habitantes uma população superior a 96 dos atuais membros da ONU -, um poderoso sistema de defesa e uma firme ligação não só com os Estados Unidos mas também com o Japão, a ilha de Chiang Kai-shek continua existindo por inteiro. E, desde que a China de Mao parece excluir a possibilidade de um ataque militar para apoderar-se da ilha, a 160 km de sua costa, algum tipo de acordo entre os dois poderes, projetado sem prazo para o futuro, é o único esboço de saída desse estranho impasse.

Em todo caso, no momento, qualquer aproximação soa impossível. Catorze horas após a votação da ONU, o generalíssimo Chiang Kai-shek reafirmava num discurso sua decisão de derrubar o governo de Pequim e reconquistar o continente - e nada, em seus cálculos, deixa prever uma possibilidade de negociação. Aos 84 anos, entretanto, o generalíssimo não tem um longo futuro político pela frente. E é com seus sucessores, eventualmente, que um acordo poderia começar a ser trabalhado, tendo como base inicial o reconhecimento da soberania de Pequim sobre Formosa e a atribuição, pelo governo central, de uma autonomia especial à ilha.

LEGITIMIDADE - Resta o problema da presença militar americana em Formosa e no estreito que a separa do continente - um ponto que Pequim considera básico para discutir a normalização de suas relações com Washington. Com 9.000 soldados e três bases aéreas - uma delas para operar armas atômicas -, os Estados Unidos têm usado suas instalações militares na ilha principalmente como apoio logistico em sua campanha no Vietnã e como centro de vigilância sobre movimentação de tropas e atividade aérea na China. Na eventualidade de um degelo entre Pequim e Formosa, a retirada americana não parece apresentar um problema insolúvel: no Vietnã, a guerra necessita cada vez menos suporte, as operações de inteligência vão sendo progressivamente assumidas pelos satélites (os vôos de reconhecimento sobre a China já estão suspensos desde julho) e as armas atômicas poderiam ser deslocadas para a ilha próxima de Guam.

Em todos esses problemas, a partir da semana passada, a China pode falar com uma nova legitimidade. Sua cadeira na ONU, em seguida a um abrandamento que lhe trouxe relações diplomáticas com 68 países - a Bélgica, no mesmo dia da votação, foi a última a entrar no grupo -, faz com que Pequim, finalmente, comece a assumir o ar de uma potência normal. A era do isolamento, aparentemente, caminha para um fim definitivo. E, entre os símbolos que servirão para marcá-lo, a chegada dos chineses a Nova York será com certeza o mais eloqüente.


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |