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Reportagens 3 de agosto de 1994O laboratório dos candidatos Longe do eleitor, as pesquisas
Há um cérebro em atividade nos bastidores da campanha presidencial - os institutos de pesquisa. Contratados pelos meios de comunicação e pelos candidatos, os institutos realizam dois tipos de trabalho. O mais conhecido são as pesquisas quantitativas, que levantam as intenções de voto e apontam o cacife de cada um, e hoje indicam uma situação de empate técnico entre Lula e Fernando Henrique (veja quadro à pág. 30). O outro trabalho se passa longe dos olhos do eleitor, mas é o que mais fascina os políticos. São as pesquisas qualitativas. Reunindo pequenos grupos anônimos, representativos de todo o eleitorado que irá às urnas em 3 de outubro, os institutos levantam opiniões e preferências, detectam sentimentos e afiam um candidato. Com as pesquisas quantitativas, os candidatos conseguem saber quantos eleitores pretendem votar neles. Com as qualitativas, abrem os ouvidos para que o eleitor fale à vontade a seu respeito como faz em bares, ruas, escritórios e dentro de casa, confeccionando um verdadeiro manual de bom comportamento. Essas pesquisas são tradicionais na publicidade, que as emprega para lançar e testar novos produtos, e nas emissoras de televisão, que mudam o desfecho de uma novela em função de consultas desse tipo. Foi numa reunião de um grupo de eleitores promovida pelo Instituto Vox Populi que, em 1989, um eleitor disse que admirava muito Fernando Collor, mas preocupava-se porque ele se encontrava "sozinho, sem apoio". Dias depois, num comício em Manaus, Collor lançava seu slogan: "Não me deixem só!" Em março deste ano, o PT encomendou uma pesquisa que ouviu 3.500 eleitores no país inteiro. Fez-se, ali, uma descoberta de grande utilidade. Muitos eleitores observaram que Lula "enriqueceu como político". O candidato tomou providências imediatas. Parou de fumar seus charutos - cubanos ou nacionais - em público. Outra observação é que, para muitos eleitores, o PT é um partido "baderneiro". Em função disso, o PT faz o possível para ficar longe da agitação sindical. Há um mês, quase não reagiu quando dois militantes da CUT foram assassinados no interior de São Paulo. GUINADA - Depois do Plano Real, o PT fez pesquisas qualitativas. Não só constatou que a população aprovou a nova moeda mas temia que, com suas críticas ao Real, Lula estivesse com a idéia de tentar chegar ao Planalto para trocar o dinheiro mais uma vez. O PT deu uma guinada eleitoral e parou de chamar o Real de pesadelo. Ataca o plano, mas defende a moeda. Diz que, com Fernando Henrique, o país convive com "Moeda Forte e Salário Fraco". E promete que, com Lula, haverá "Moeda Forte e Salário Forte". "Acredito em pesquisas e acho que elas têm valor científico", afirma Lula. "Mas o candidato que se guiar apenas por elas pode se dar mal. Muitas vezes uma campanha é feita contra as pesquisas. Se você está embaixo, procura subir. Se o eleitor não compreende a sua mensagem, você tenta explicar de outra maneira." Em seu cotidiano, o QG de Fernando Henrique é um laboratório. Cinco empresas prestam serviço ao candidato - entre elas, o Ibope e a CBPA, que também trabalha para o PT. Quem coordena os trabalhos é o sociólogo pernambucano Antônio Lavareda. O PSDB já reuniu cinqüenta grupos de pesquisas qualitativas em dez Estados. A partir do horário eleitoral, serão pelo menos quatro grupos diários, formados para avaliar o desempenho do candidato na TV. Também possui um sistema de consultas telefônicas, pelo qual ouve eleitores em qualquer emergência. As pesquisas tucanas definiram a marca da campanha, a mão aberta, considerada um símbolo positivo, que lembraria amizade, terra, trabalho. POSTURA DE CAVALHEIRO - Tempos atrás se cogitou em mudar o nome do candidato, que seria tratado em cartazes e comícios pelas iniciais, FHC, em vez de Fernando Henrique, como sempre foi conhecido, na academia e na política. As pesquisas mostraram que FHC podia até lembrar nome de vacina, mas não iria funcionar. "Houve desaprovação unânime ao uso de FHC. Fernando Henrique é mais sonoro, pessoal e suave", explica Lavareda. Quando surgiram as denúncias contra o ex-vice de Lula José Paulo Bisol, os tucanos pesquisaram o tamanho do estrago. Descobriram que 30% dos eleitores de Lula estavam constrangidos, mas nenhum mudaria de voto por causa disso. Fernando Henrique aproveitou para assumir postura de cavalheiro e proclamar que Bisol é "um homem de bem". No lançamento do Real, o candidato esperou por uma pesquisa telefônica antes de sair dando entrevistas otimistas sobre o plano que fez como ministro. Ou seja: ilude-se quem pensa que as tiradas, símbolos, slogans, críticas, a postura inteira dos candidatos nasce de convicções, intuições, iluminações. Elas nascem do trabalho de especialistas em traduzir em gestos e palavras o que o eleitor pensa e sente. As pesquisas informam um ponto fraco de Fernando Henrique. Ao contrário de Lula, sua origem social é vista como defeito por boa parte dos entrevistados. A maioria respeita muito seus diplomas, mas desconfia que o candidato tucano "não sente o problema do pobre". Num esforço para mudar essa situação, Fernando Henrique foi metido em cenas engraçadas. Em junho passado, no interior de Alagoas, fez o passeio no lombo de um jegue. Também disse que era "mulatinho". No dia seguinte à cavalgada, foram reunidos grupos em Minas Gerais, em São Paulo e no Paraná. Apresentou-se um vídeo com a cena. Até que não pegou tão mal. "Os eleitores identificaram aquilo como um gesto de simplicidade dele", diz Lavareda. Ninguém acreditou, no entanto, que fosse um gesto natural. O problema continuou do mesmo tamanho, mas, depois do teste, o candidato já evita um comportamento postiço. "As pesquisas dizem que o povo quer um candidato calmo, que seja professoral, e não um populista. Eles não querem o candidato que sobe no jegue", explicou FHC a um amigo. O mundo que se avista nas pesquisas qualitativas é de uma riqueza inesperada. Separados por classe social, pois a experiência informa que cidadãos que vivem nos escalões de baixo ficam inibidos diante dos de cima, os eleitores são recrutados em seus bairros e participam de uma conversa que se prolonga por duas e até três horas. Não ficam sabendo qual é o candidato que está interessado em suas opiniões, pois é certo que essa informação pode sugestioná-los. Os institutos mantêm um banco de dados comum, com nome e endereço de cada entrevistado, para evitar que a mesma pessoa seja ouvida mais de uma vez - teme-se, aí, depoimentos viciados. "TENHO MEDO" - Quem aceita participar não recebe dinheiro, mas senta-se em torno de uma mesa na qual são servidos sanduíches e refrigerante. Assessores do candidato ficam do lado de fora, assistindo à conversa através de um desses espelhos pelos quais quem está do lado de dentro da sala não percebe que está sendo observado. Orientando a conversa, há um profissional, o mediador, que faz o possível para manter um ambiente descontraído, falando de assuntos amenos para só depois entrar no que interessa. Em Belo Horizonte, VEJA assistiu a uma dessas reuniões, promovida pelo instituto Vox Populi. Eram dez cidadãos, homens e mulheres, entre 25 e 35 anos, integrantes das classes C e D. Falou-se, primeiro, de Fernando Henrique Cardoso. - É um oportunista. Usou o governo para fazer o plano. Ele ganha e o plano faz água - disse um participante. - Sem economia estável ninguém faz nada - respondeu outro. O mediador interrompeu o debate. - Vamos esquecer o plano. Quem é Fernando Henrique Cardoso? Os presentes fizeram um minuto e trinta segundos de silêncio. Depois, alguém falou, explicando: - A maioria conhece Fernando Henrique como ministro. Não tem jeito de esquecer o plano. Com delicadeza, o mediador perguntou sobre Lula. Uma resposta rápida: - Gosto do PT, mas tenho medo de que no poder Lula deflagre a greve geral. Tenho medo de golpe militar. Por isso estou com um pé atrás. Armazém de grandes segredos, essas pesquisas são uma caixa-preta. Ali estão escondidos os defeitos que um candidato sabe que possui e também seus planos para atacar os adversários. Dias atrás, numa situação inédita, veio a público uma pesquisa do PSDB, em que o QG tucano testava argumentos que pretendia empregar contra Lula. Não era uma pesquisa em grupos, mas um questionário, chamado teste de argumentação, no qual são feitas entrevistas de porta em porta. Com esse levantamento, a assessoria de Fernando Henrique pretendia saber, junto aos eleitores, qual o tipo de ataque ideal a ser empregado. Na pesquisa, o entrevistador levantava acusações, suspeitas e mesmo inverdades sobre o rival, e depois perguntava se alguma delas seria capaz de convencê-lo a mudar seu voto. Era uma seleção de golpes duros e baixos, destrutivos, que nada tem de professoral. Exemplos: •Lula diz que luta pelos trabalhadores, mas nunca ajudou seus irmãos, que são pobres. •Lula está em um partido que aprova o aborto e o casamento entre homossexuais. •Lula é cercado por radicais que defendem as greves, as invasões de terra e a violência como o caminho para obterem o que querem. •Lula diz que vai mudar o modo como as coisas são feitas no Brasil, mas mora de graça em uma casa pertencente a um rico empresário e praticamente dobrou o tamanho de seu patrimônio desde a última eleição. Sempre preocupado com a origem de Fernando Henrique, o questionário também testava a seguinte afirmação: •Fernando Henrique é da classe média e não da elite. O levantamento, contratado junto ao Ibope, acabou descoberto porque um entrevistador do próprio instituto, com certeza um eleitor anônimo de Lula que seus superiores tentavam identificar na semana passada, não gostou do que leu e resolveu enviá-lo, por fax, para o gabinete do deputado Chico Vigilante (PT-DF). Através das perguntas fica claro que, entre os possíveis ataques em estudo pelo PSDB, figuram temas familiares, como a situação dos irmãos do candidato, e até mesmo afirmações mentirosas, como a defesa do aborto e do casamento de homossexuais, que acabou retirada do programa de governo no encontro nacional do partido. "Em tese é normal fazer levantamentos desse tipo, pois eles permitem saber qual o modelo de argumento o eleitorado compreende e aceita", afirma Jorge Almeida, coordenador do Data-Lula, um miniinstituto montado pelo próprio PT. "Mas as baixarias que colocaram no questionário dão bem uma idéia do que vem por aí." ERROS E ACERTOS - Existem cinqüenta institutos que fazem pesquisas eleitorais no Brasil, e se avalia que irão faturar mais de 20 milhões de reais neste ano. "Pretendemos dobrar nosso faturamento nessa área", afirma Marcia Cavallari, diretora de opinião pública do Ibope, que em anos normais fatura 3 milhões de reais com pesquisa política. O Vox Populi espera faturar 5 milhões. "Estou espantado com o interesse dos políticos. Recebi pedidos de quinze Estados e estou sem condições de pegar novos clientes", diz Marcos Coimbra. Para reunir um grupo, os institutos cobram 3.000 reais. Conforme a quantidade de grupos que são formados, acaba saindo um bom dinheiro. Apenas com as reuniões que irão promover para analisar o programa de TV, os tucanos devem desembolsar 720.000 reais em dois meses. Mais conhecidas, as pesquisas quantitativas começaram a ser feitas no pós-guerra, quando o Ibope previu e acertou a vitória de Eurico Dutra nas urnas. De lá para cá, os institutos acertaram muito mais do que erraram, mas, em tempos recentes, tiveram seu ano negro em 1985, quando apontaram Fernando Henrique como o novo prefeito de São Paulo (deu Jânio Quadros) e o peemedebista Paes de Andrade na prefeitura de Fortaleza (venceu a petista Maria Luiza Fontenelle). As pesquisas quantitativas custam entre 30.000 e 100.000 dólares, e o preço varia de acordo com o número de entrevistas. A maioria dos institutos faz 2.500 entrevistas, recolhendo opiniões por amostras de classe, sexo e educação. Para chegar a um entrevistado, o método mais comum é o sorteio. Um programa de computador escolhe para o Ibope o bairro e o número de entrevistas que devem ser realizadas no local. Instruído num escritório, o pesquisador se dirige à área onde deve preencher cotas pré-definidas. Um determinado número de donas de casa, outro de funcionários de escritórios, um tanto de trabalhadores na indústria. Vai batendo de porta em porta até terminar o serviço, trazendo de volta os questionários preenchidos. O Datafolha também trabalha com sorteio, mas o entrevistador sai de seus escritórios apenas sabendo a rua onde irá fazer entrevistas, colhendo depoimentos em pontos de maior fluxo de pessoas. Os números finais dos institutos até variam um pouco para cima ou para baixo, mas apontam para tendências idênticas. Ambos anunciaram a vantagem de Lula até dois meses atrás e informaram juntos sobre a ascensão de Fernando Henrique. Uma das mais antigas discussões sobre as pesquisas diz respeito a sua influência numa campanha. É certo que elas têm um peso, mas é ingenuidade supor que definam uma eleição. Se fosse assim, Leonel Brizola teria sido eleito presidente em 1989, pois liderou as pesquisas até meados do primeiro semestre daquele ano. Também não ocorreriam viradas de última hora, como a que levou Luiza Erundina para a prefeitura de São Paulo em 1988. Considera-se que as pesquisas influenciam o voto daquele eleitor que gosta de votar no vencedor e, nesse caso, uma estatística errada ou mesmo fraudada pode produzir um desastre. A dificuldade é que até hoje ninguém foi capaz de avaliar o peso dessa faixa do eleitorado. "Mesmo o eleitor mais humilde leva a eleição a sério, está preocupado em escolher o melhor, e considera isso uma grande responsabilidade", explica Marcos Coimbra. "E esse eleitor tem muita dificuldade para entender estatísticas, compreender uma porcentagem. Para ele, esse é um mundo estranho." Um mundo estranho o das pesquisas: ele faz com que o eleitor mude o candidato para que ele possa escolhê-lo nas urnas. Mundo estranho o das pesquisas: ele faz com que o eleitor não saiba se está votando num candidato ou num bom ator.
Na pesquisa do Ibope, a arquiteta e professora gaúcha Clarice Maraschini, 32 anos, vale 45.107 intenções de voto. Ela é a representante das mulheres situadas na faixa etária entre 30 e 40 anos, com curso universitário e renda familiar acima de vinte salários mínimos. Com base em pesquisas anteriores, esse perfil sócio-econômico faria de Clarice uma típica eleitora do candidato tucano Fernando Henrique Cardoso. Mas, inquirida pelo pesquisador Sérgio Mello, garantiu que no dia 3 de outubro depositará na urna um voto para o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva. "É o único candidato com compromisso popular", justifica. Casada, mãe de uma menina de 4 anos, Clarice leva uma rotina de classe média. Mora num apartamento próprio em Porto Alegre e todos os dias pega o seu Gol ano 88 e vai até a Universidade do Vale dos Sinos, onde dá aulas de planejamento urbano. Planos para o futuro, só a curto prazo. Junto com o marido, o engenheiro mecânico Otávio Vescovi, a arquiteta faz contas na ponta do lápis para economizar o máximo possível da renda mensal da família, 3.000 reais. O objetivo da acrobacia é chegar às próximas férias com uma poupança gorda o suficiente para financiar uma viagem ao exterior. Por enquanto, Clarice ainda alimenta o sonho com as lembranças dos trinta dias que passou na Europa há seis anos. Mesmo sentindo na pele o que os pesquisadores chamam de "achatamento da classe média", Clarice acredita num futuro promissor. Cansada de verificar os índices da inflação nas prateleiras do supermercado, torce para que o Plano Real dê certo. "Sou otimista com o Brasil, mas acho que muita coisa tem de mudar por aqui", diz a professora. "O país só vai dar certo se correr atrás da eficiência em todos os campos."
Ao abrir a porta de sua casa para o pesquisador Luiz Sena, do Ibope, o vigilante José Jorge Dantas Lopes, 35 anos, recebeu um questionário com a pergunta: em quem vai votar para presidente? Se as tendências das últimas pesquisas fossem a verdade estabelecida, a resposta de Lopes seria: Lula. Morador de uma pequena casa no município de São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife, Lopes ganha pouco mais de dois salários mínimos, está na faixa de idade entre 30 e 40 anos e não tem o 1º grau completo. Pelas projeções do Ibope, representa 27.000 intenções de voto e seria um eleitor modelo do PT, mas disse ao pesquisador que pretende votar em Fernando Henrique Cardoso. "Lula é muito radical, se ganhar vai encher este país de greve", analisa. "Já Fernando Henrique é sério e competente", completa. Junto com a mulher e o filho de 3 anos, José Lopes mora numa casa de dois quartos. Todos os dias, acorda cedo, pega dois ônibus e leva quase duas horas até chegar à firma em que trabalha há três anos. Do esforço, resulta um salário de 140 reais. É a única fonte de renda da família. Assim que recebe, o vigilante reserva 20 reais para o aluguel. O que sobra é dividido em parcelas que devem ser gastas durante cada semana, de acordo com as necessidades da casa. O saldo desses cálculos domésticos é uma desilusão com os políticos. José Lopes não lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições. Em 3 de outubro, vai votar apenas para presidente. Os candidatos ao Senado Federal, ao governo do Estado e aos cargos proporcionais não terão seu apoio. "Eles não merecem", diz. A descrença de Lopes vai além dos políticos. Mesmo tendo a oportunidade de dar sua intenção de voto ao Ibope, ele desconfia das pesquisas eleitorais. "Nunca acreditei nelas." |
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