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Reportagens 3 de abril de 1996A roda global O que é a globalização,
O mundo não é mais como foi o de papai. Ouve-se falar num momento que as grandes corporações americanas estão demitindo dezenas de milhares de trabalhadores de olhos azuis e transferindo suas operações para países morenos, de mão-de-obra mais barata. Em outro momento, as novidades amargas vêm da Europa Ocidental. Numa região que conseguiu contornar as tensões do pós-guerra com a construção de uma rede de assistência social impecável e caríssima, o estado do bem-estar terminou quebrado e, ainda assim, o número de empregos disponíveis continua exatamente o mesmo nos últimos vinte anos. Países tão diferentes como a Espanha e a Finlândia enfrentam taxas de desemprego de quase 20%, enquanto os pequenos tigres da Ásia, como Cingapura, Taiwan e Hong Kong, ou alguns aprendizes, como Malásia e Tailândia, são apontados como modelos de agressividade econômica. Na segunda economia do mundo, a japonesa, vive-se uma recessão desde o início da década. As indústrias japonesas estão indo instalar-se em países com mão-de-obra mais barata, e, em casa, a taxa de desemprego oficialmente admitida é de 3,4%. No mundo do trabalho internacionalizado, o que mais há é desemprego. E quem fica à margem desse novo giro do capitalismo está condenado ao atraso e à miséria. Mas quem se adapta a ele nem por isso se sai bem. Vide o México, que cumpriu à risca a receita ortodoxa para integrar sua economia ao mundo avançado, no contrapé, foi à lona e quebrou. O brasileiro toma conhecimento disso tudo e, se trabalha na indústria - especialmente na Grande São Paulo -, sente que o momento também não é bom para ele. A firma está toda cheia de boletins sobre reengenharia, programa de qualidade total e outros balacobacos da técnica gerencial. Tudo que ele vê na prática é demissão. Desde 1988, algo como 2 milhões de empregos sumiram na indústria brasileira - para reaparecer em número bem maior no comércio e no setor de serviços, beneficiando outras pessoas, sem que o metalúrgico rifado tivesse alguma compensação no processo. De algum tempo para cá, o medo do desemprego é a principal preocupação do brasileiro, dizem as pesquisas de opinião pública. Em plena vitória do Real, com uma inflação cadente há 21 meses, o cidadão de São Paulo ou do Rio de Janeiro tem mais receio de problemas econômicos do que da falta de segurança. Não, não está em andamento um processo de decadência econômica. O que está na base do temor não é tanto a ameaça real, mas a sensação de que ela existe. O mundo que produz e que emprega não é mais o de vinte ou trinta anos atrás. Está girando mais depressa. E está mudando também. Num programa de televisão recente, o pré-candidato a presidente dos Estados Unidos Pat Buchanan, um arquiconservador, estava desancando os estrangeiros por roubarem empregos dos americanos e as grandes empresas por demiti-los. Sua receita contra o problema: alíquotas altas e cotas sobre os produtos importados. Isso acabaria com a concorrência dos artigos mais baratos do Terceiro Mundo, que prejudicam as vendas da mercadoria feita nos Estados Unidos. 'O que você faria, como presidente, contra uma dessas corporações que estão demitindo?', perguntou um dos entrevistadores do programa. Buchanan perdeu a língua. 'Essa é uma pergunta difícil de responder', desconversou o candidato. ENTRELAÇAMENTO - O que está provocando todo esse misto de ansiedade e ressentimento se chama globalização. É um processo de aceleração capitalista, num ritmo jamais visto, em que o produtor vai comprar matéria-prima em qualquer lugar do mundo onde ela seja melhor e mais barata. Instala a fábrica nos países onde a mão-de-obra fique mais em conta, não importa se no Vietnã ou na Guatemala. Vende a mercadoria para o mundo inteiro. Em resumo: o entrelaçamento econômico das paróquias é um processo que começou na Pré-História, mas sempre progrediu em marcha lenta. Neste momento, está na velocidade da luz. Essa é a diferença. Ao lado de seu tremendo potencial para criar soluções e riquezas num ritmo alucinante, pode causar dor. Quando a máquina a vapor entrou em cena, na virada do século XVIII para o XIX, ela também provocou um choque de aceleração produtiva. Passou a movimentar os teares - e um turbilhão de braços humanos perdeu sua função e seu emprego. Perplexos, assustados, trabalhadores chegaram a invadir fábricas para destruir as máquinas que os deixavam sem o ganha-pão. No século XVIII foi a máquina a vapor. Neste fim do século XX, o motor da nova revolução é a tecnologia, o aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. A tecnologia sempre se alterou, nunca tão depressa. Os meios de transporte evoluem desde a invenção do carro de boi, mas jamais foi possível deslocar artigos de um lugar para outro numa quantidade tão grande e numa velocidade tão espantosa. A viagem aumenta apenas de 5% a 10% o preço da mercadoria. E as comunicações, em sua capacidade de conectar instantaneamente os pontos diferentes do planeta, tornaram as distâncias irrelevantes para as operações empresariais. O resultado é um mundo onde as economias nacionais perdem importância relativa. 'Países se estilhaçam, blocos regionais de comércio crescem, a economia global torna-se cada vez mais inter-conectada', afirma em seu último livro, O Futuro do Capitalismo, o economista americano Lester Thurow, professor do MIT. A outra faceta do processo de globalização está na indústria. Tomem-se as dez maiores corporações mundiais - Mitsubishi, Mitsui, Itochu, Sumimoto, General Motors, Marubeni, Ford, Exxon, Nissho e Shell. Elas faturam 1,4 trilhão de dólares, o que equivale ao PIB conjunto de Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela. Metade dos prédios, máquinas e laboratórios desses grupos e mais da metade de seus funcionários estão em unidades fora do país de origem. E 61% do seu faturamento é obtido em operações no estrangeiro. Esses cálculos foram feitos pelo economista Gilberto Dupas, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de São Paulo. Se a conta se expande para as 100 maiores corporações, descobre-se que um terço do comércio internacional (1 trilhão de dólares em 1990) refere-se a trocas entre unidades das transnacionais. Elas empregam 20% da mão-de-obra não agrícola nos países em desenvolvimento e 40% nos países desenvolvidos. Têm seus próprios laboratórios e financiam boa parte da ciência acadêmica. É um poder de dimensões assustadoras. Segundo Dupas, a força dessas corporações e sua atuação geográfica - operam praticamente em todos os países - mudaram o enfoque do jogo econômico. No passado, quem fazia as grandes decisões econômicas eram os governos. Agora são as empresas. 'As maiores corporações mundiais estão decidindo basicamente o que, como, quando e onde produzir os bens e serviços utilizados pelos seres humanos', diz o economista. O terceiro elemento da globalização está no consumidor. Há algumas décadas, ele usava produtos nacionais. Hoje, não compra exatamente produtos de um país estrangeiro. O que ele consome em número cada vez maior é o produto sem pátria, sem carteira de identidade, sem sotaque identificável. A indústria de computadores Compaq, tida como americana, usa patentes de outros países no composto tecnológico de seus aparelhos e os componentes físicos utilizados são fabricados na China, em Taiwan, Cingapura, Coréia, Japão, Vietnã - alguns até mesmo nos Estados Unidos. Quando se examina a anatomia de um artigo como o tênis Nike, entende-se mais facilmente em que medida o modo de produção está mudando. A Nike é uma empresa americana que, em teoria, produz calçados. Só que todos os 9 000 funcionários da Nike que trabalham nos Estados Unidos não costuram solas nem colam palmilhas. Eles trabalham em projetos, planejamento de marketing e funções de gerenciamento. A produção física dos sapatos é feita por 75 000 funcionários, alocados em outras empresas fora dos Estados Unidos. Na China comunista, inclusive. A AT&T, gigante das comunicações dos Estados Unidos, concentrou o grosso de seu pessoal em Porto Rico. 'A mão-de-obra lá é mais barata e em geral bilíngüe', diz o economista e banqueiro Daniel Dantas. Agora, teste sua imersão na globalização: o Ford é um carro de que nacionalidade? Resposta: depende. A Ford americana é dona de 25% da Mazda japonesa, numa operação em que fabricam carros pequenos. Juntas, as duas companhias são sócias da coreana Kia Motors. A Kia vende peças para a Ford/Mazda. E a Yamaha japonesa vende os motores. O que aparece no final é um carro Ford, só que ele não tem identidade nacional. Para complicar ainda mais: o grande mercado desses automóveis é a Europa. Dentro de duas semanas, a Fiat lançará no Brasil um novo carro, o Palio, que vai substituir as versões 1 500 e 1 600 cilindradas do Uno. Será fabricado simultaneamente em Minas Gerais, Argentina, Colômbia, Venezuela, Índia, Marrocos e China. Será montado, em parte, com peças importadas da Venezuela, Marrocos, Equador, Egito, Argélia e Vietnã. Quando se fala em globalização, tende-se a destacar os aspectos da produção de riquezas e do consumo. Isso é apenas o primeiro resultado da mudança. Os processos anteriores de aceleração econômica sempre provocaram alterações em outros setores da atividade humana. A Revolução- industrial, o mais dramático deles, deslocou o foco da sociedade do campo para a cidade. Como os trabalhadores precisavam de maior volume de conhecimento para atuar na fábrica, as escolas começaram a se difundir e as idéias a se propagar. Novo desenho de classes sociais se estabeleceu. Surgiram o operariado, os sindicatos, as teorias socialistas, a demanda por direitos e a produção de leis refletindo conquistas sociais. A globalização ainda está no seu início. É impossível dizer que conseqüências trará, a não ser as já conhecidas. Entre os otimistas, a expectativa é grande: 'Trata-se de uma nova espécie de processo social, uma coisa nunca vista antes: uma civilização genuinamente transnacional, alimentada pela exposição à tecnologia e pelas mesmas fontes de informação', escreve o economista japonês Kenichi Ohmae no livro O Fim do Estado Nação, lançado no ano passado. É claro que não se está falando de um mundo uniforme. Alguns países andam mais depressa, regiões inteiras ficam para trás, diferentes classes sociais podem ser mais ou menos beneficiadas. Neste primeiro momento da globalização já se percebem desdobramentos para terrenos fora do econômico. A Internet, por exemplo. Agora mesmo, o adolescente japonês pode conversar com seu colega brasileiro sobre a tirania dos professores de matemática. Com o acesso ao mesmo tipo de informação, revelam pesquisas feitas em amplitude mundial, os jovens de classe média estão tendendo para um mesmo padrão de consumo, comportamento, aspirações. Nos estudos dos economistas, deu-se o nome de 'desemprego estrutural' a essa tendência. O desemprego estrutural é um processo cruel porque significa que as fábricas robotizadas não precisam mais de tantos operários e os escritórios informatizados podem dispensar a maioria de seus datilógrafos, contadores, gerentes. Ele é diferente do desemprego que se conhecia até agora, motivado por recessões, que cedo ou tarde passavam. Os economistas apontam no desemprego estrutural um paradoxo do sistema de globalização. Ele se ergueu para produzir coisas boas e baratas, vendidas numa escala planetária, fabricadas em grande parte por robôs, que são orientados por computadores. Mas, por cortar o emprego das pessoas e sua renda, não terá para quem vender seus carros reluzentes e seus computadores multimídia. Da depressão de 1929, por exemplo, surgiu um novo modelo, em que o Estado investia pesadamente, gerava renda e consumo e criava emprego nas empresas privadas. Em matéria econômica, é sempre perigoso fazer previsões, mas não há por que estabelecer, a priori, que a globalização da economia seja sinônimo de desemprego. Mesmo porque, até agora, o desemprego é muito menos generalizado do que se diz. Por ser um problema que provoca a ansiedade das pessoas - e também porque serve de matéria-prima para o oportunismo político -, o desemprego está produzindo um debate um pouco desfocado. No momento, ele é fortíssimo nos países europeus. Mas é bom lembrar que os Estados Unidos, apesar das demissões em certos setores, exibem taxa muito moderada de desemprego (cerca de 5%). O que há, nos Estados Unidos, é uma feroz adaptação de certas corporações a um sistema de concorrência internacional que ficou muito mais aguçado. Para sobreviver e continuar vencendo, essas empresas precisam produzir melhor e mais barato do que suas concorrentes em escala mundial. Mais barato, por exemplo, do que as corporações agressivas do Oriente. No processo doloroso da adaptação, essas companhias americanas deslocam unidades industriais para outros países, terceirizam parte do trabalho, automatizam outras, e assim por diante. O resultado tem um nome feio: demissões. Quando se olha o panorama do alto da montanha, sem focalizar as companhias que demitiram multidões, como a GM, a AT&T ou a IBM, descobre-se que, em seu conjunto, o emprego nos Estados Unidos está crescendo - e muito -, e não o contrário. No Japão, também não há crise de desemprego. A economia do Japão foi construída para dar emprego pela vida inteira a todo mundo. Num ambiente desse tipo, qualquer elevação da insegurança no trabalho assusta. Mas o Japão ainda está numa faixa que pode ser considerada de pleno emprego, apesar da recessão. Na China, e nos outros Tigres Asiáticos, o regime é de ocupar braços, não de demiti-los. O Brasil, com toda a gritaria promovida em torno do assunto por grupos de interesses variados, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, aos sindicatos, a taxa de desemprego continua firme na casa dos 5%, que pode ser considerada razoável para os padrões brasileiros. O problema real, até agora, é a Europa. É possível que o terremoto varra ainda outras partes do mundo, mesmo porque a tendência à automatização é irreversível. Por enquanto, porém, o que existe é corte de vagas na indústria e abertura de vagas no setor de serviços. A verdade é que os prognósticos sombrios sempre prevalecem nos períodos de transformação. Isso é natural. O ser humano, talvez até biologicamente, detesta a mudança no meio ambiente. Fica ansioso, assustado. A globalização é uma mudança de intensidade na indústria, no comércio, nas comunicações e nos transportes que nem deveria estar provocando debate. Seus primeiros movimentos começaram há décadas e o resultado final era perfeitamente previsível. O que se vê, no entanto, é a elevação de uma onda moral de indignação contra os efeitos da globalização, como se ela resultasse de uma opção ideológica (da direita, no caso) para acumular mais capital à custa do sofrimento dos trabalhadores. Trata-se de uma interpretação perfeitamente cretina de um movimento econômico a respeito do qual não cabe ficar contra ou a favor, para adotá-lo ou não de acordo com as preferências de cada um. Há, enfim, uma perda de controle sobre a produção e comercialização de tecnologia, coisa que, nos tempos da Guerra Fria, seria impensável. Naquela época, a tecnologia estava ligada à soberania dos países. Hoje, para empresas que operam em escala planetária e têm uma multiplicidade de contratos para cumprir em várias partes do mundo, a origem da tecnologia, da matéria-prima e do trabalho não tem a menor importância, desde que seu custo seja baixo e sua qualidade seja alta. As redes de pesquisa estabelecidas entre as transnacionais são tão complexas que é difícil dizer quem está projetando o quê. A IBM americana tem laboratórios no Japão e na Suíça. A Hewlett-Packard emprega cientistas na Austrália, Alemanha e Cingapura. A Honda e a Mazda mantêm centros de pesquisa nos Estados Unidos. Equipamentos de precisão para a prática de hóquei no gelo são desenhados na Suécia, financiados pelo Canadá, montados na Dinamarca e vendidos na Europa. O material utilizado é uma liga metálica cuja estrutura molecular foi desenvolvida e patenteada nos Estados Unidos e é produzida no Japão. Proteção na alfândega, como pregam o candidato americano Pat Buchanan e os lobbies brasileiros da Fiesp, tem efeitos deletérios na economia globalizada. Para ficar apenas em um exemplo, os produtores de aço americano pressionaram por proteção contra as importações e conseguiram o que queriam. Como conseqüência, o preço da chapa de aço ficou 40% mais alto para os seus colegas que fabricam automóveis nos Estados Unidos. O carro americano, é claro, perdeu competitividade diante do japonês e foi o que se viu. A produção americana está tão ligada à de outros países, depende tanto de componentes importados que barreiras alfandegárias criariam inflação de imediato. Que essa proteção seja capaz de criar empregos também é duvidoso. A competição estrangeira tem impacto, mas bastante reduzido, sobre o emprego num país. A automatização pesa mais. Os Estados Unidos são um grande país liberal cujas corporações industriais, que se transformaram em multinacionais e hoje são transnacionais, formam o próprio coração da economia global. Nos últimos vinte anos, 35 milhões de empregos foram criados no país, apesar de sua abertura econômica. Nesse período, a criação de empregos líquidos nos países europeus, altamente protecionistas, equivale a zero. Claro está que, por ser a maior potência econômica do mundo, os Estados Unidos têm força bastante para impor determinados padrões de intercâmbio internacional. Mas é ilusão imaginar que atos de força na alfândega, reservas de mercado e regulamentos de toda ordem signifiquem uma alternativa de progresso econômico. Os tempos mudaram, e um país com fronteiras fechadas tem pouco acesso a capitais e a novidades tecnológicas. Com isso, o país perde competitividade e marca passo. 'Sua indústria envelhece, fica incapaz de produzir coisas melhores e baratas, a inflação sobe e a capacidade de criar empregos cai', diz Luís Roberto Martins, presidente da EDS, consultoria de São Paulo. A matéria-prima tem uma importância muito menor para a soberania econômica de um país. Com a globalização, é possível comprá-la a preços baixos nos cinco continentes. E seu preço tende a cair ainda mais. Quem acha que é preciso reservar as jazidas de minério de ferro para uso nacional deve pensar que o aço está perdendo valor. É provável que, num futuro bem próximo, os blocos de motor sejam feitos de cerâmica. O alumínio que se emprega na construção de aviões está sendo gradativamente substituído por materiais compostos, como a fibra de carbono. Nos países já ajustados à ordem econômica transnacional, as grandes obras de infra-estrutura deixaram de ser tarefa de governos. Usa-se agora o sistema BOT, sigla que, em inglês, quer dizer build, operate, transfer. Ou seja: o empreiteiro constrói a estrada de rodagem ou a ponte, cobra pedágio durante alguns anos e depois a transfere para o Estado, que não gasta um tostão. Como se vê, o modelo capitalista brasileiro está muito longe dessa prática. As finanças governamentais estão esfarrapadas, a capacidade de investimento do setor público é zero, e os serviços públicos estão abaixo da crítica mais generosa. Mas o governo, aliado ao Congresso, reluta em abrir mão de suas estradas esburacadas, suas empresas de eletricidade desenergizadas e seu serviço de telefonia, que está entre os piores do mundo. Num ponto, os atrasos do Brasil são compreensíveis e ocorrem também em países do Primeiro Mundo, em escala menor. O dinheiro público, expresso na forma de empréstimos, subsídios, proteção alfandegária, reserva de mercado, gasto em obras e empresas estatais, sempre foi uma fonte de votos para os políticos e de poder para os burocratas. No Japão, a importação de arroz é proibida por uma questão mais política e burocrática do que econômica. Os plantadores formavam um eleitorado fiel do Partido Liberal Democrata, o 'Jimintô', que já perdeu o poder. Os rizicultores são apenas 170 000, mas agora interessam aos burocratas. Os funcionários públicos que cuidam deles são 420 000. Quando é um político ou um burocrata quem toma uma decisão econômica, as chances de dar errado são grandes, como o Brasil descobriu nas últimas três décadas. A estrada é aberta na Floresta Amazônica, a tecnologia da usina atômica é um fiasco, a refinaria é montada no Recôncavo Baiano e o subsídio vai para os produtores de álcool. O ex-presidente Itamar Franco pensou até em montar uma estatal produtora de fubá. O capitalismo demorou 300 anos para criar a classe média, que consome intensivamente. A classe média já representa 75% da população dos países desenvolvidos, ou cerca de 600 milhões de pessoas. 'Esse número pode pular para 1,2 bilhão considerando-se apenas a incorporação de novos consumidores na China e nos países da antiga União Soviética', diz Luís Roberto Martins, o presidente da EDS. O fato é que as empresas globais têm condições de baratear e melhorar os produtos num ritmo jamais visto. Em 1990, um chip de memória custava 35 dólares. Seu preço caiu para 12 dólares em 1995. Seus fabricantes dizem que, embora empreguem mais Ph.Ds. por metro quadrado do que qualquer outra indústria, o chip acabará tendo o mesmo preço do grão de milho. Em 1986, um computador vendido no Brasil custava o equivalente a um carro médio. Hoje, compra-se um Pentium multimídia por 3 000 reais. Até recentemente, as indústrias eram qualificadas como sendo ou de capital intensivo ou de mão-de-obra intensiva. As de capital intensivo eram aquelas que exigiam muito investimento e pouca mão-de-obra, como as fabricantes de papel e celulose. Nos últimos vinte anos, surgiram as empresas de inteligência intensiva. Apenas 15% do preço de um chip refere-se a custos com matéria-prima, maquinário, energia e mão-de-obra. Os outros 85% são gastos com pesquisa ou trabalhos de engenharia e design. A divisão das empresas entre companhias industriais e de serviços está perdendo o sentido. A IBM, por exemplo, é listada como uma corporação industrial que fabrica computadores. Em 1990, a IBM empregava 400 000 funcionários, dos quais menos de 20 000 se ocupavam em fabricar máquinas. Os outros trabalhavam na elaboração de softwares, marketing, projetos ou integração de sistemas de computadores. Agora é uma empresa de serviços. A globalização e o viés high tech da economia atual colocaram um problema até para os contadores. As empresas de antigamente (antigamente quer dizer alguns anos atrás) tinham um patrimônio a apresentar aos acionistas e consumidores. Eram donas de fábricas, máquinas, armazéns, frotas de veículos. Hoje, algumas companhias que empregam milhares de pessoas e são altamente lucrativas podem nem ter patrimônio físico. Como calcular o valor de um escritório italiano de design ou de uma consultoria empresarial americana, se ele está quase integralmente contido no cérebro das pessoas que os compõem? A corrida espacial consumiu dinheiro maciço em pesquisa e formação de cientistas, e seu subproduto tangível são coisas como o raio laser, o satélite, o videocassete e as raquetes de tênis feitas de grafite. Ela provocou uma revolução tecnológica na qual as empresas se basearam para moldar a economia global. Com esforço, e um grau de alta ansiedade, os brasileiros estão deixando o seu isolamento para entrar nessa corrente. A ginástica pode ser cansativa e dolorida, mas não há outra maneira de ingressar no futuro. Ou de não comer poeira, ficando no passado. 'A globalização está multiplicando a riqueza e desencadeando forças produtivas numa escala sem precedentes. Tornou universais valores como a democracia e a liberdade. Envolve diversos processos simultâneos: a difusão internacional da notícia, redes como a Internet, o tratamento internacional de temas como meio ambiente e direitos humanos e a integração econômica global.' 'A globalização é a revolução do fim do século. Com ela, a conjuntura social e política das nações passa a ser desimportante na definição de investimentos. O indivíduo torna-se uma peça na engrenagem da corporação. Os países precisam-se ajustar para permanecer competitivos numa economia global - e aí não podem ter mais impostos, mais encargos ou mais inflação que os outros.' 'A globalização é tão velha como Matusalém. O Brasil é produto da expansão do capitalismo europeu do final do século XV. O que está havendo agora é uma aceleração. Isso pode ser destrutivo para o Brasil, se o país não administrar sua participação no processo. A globalização é boa para as classes mais favorecidas. As menos favorecidas ficam sujeitas a perder o emprego.' 'A globalização começou na década de 70, a partir do aumento da produção das empresas, e foi acelerada porque as empresas precisam estar em vários países para se aproveitar das variações cambiais. Além disso, a globalização é uma bolha especulativa, que se expressa no mercado de derivativos. É a jogatina da moeda diária. Isso afeta empregos. Há uma recessão também globalizada.' 'As políticas internacionais uniformizam mecanismos de produção para obter maior produtividade. Quando a globalização é usada para melhorar a vida das pessoas descobrindo um remédio, por exemplo, ela é positiva. Mas a tendência é de que se desconsidere o ser humano, aumentando o desemprego. Os que estão empregados têm de estar integrados com os avanços tecnológicos.' 'A globalização é um fenômeno tão importante quanto a Revolução Industrial ou a reorganização capitalista da década de 30. É a integração econômica e tecnológica dos países. A globalização da economia não é um processo ideológico. É um movimento de transformação social e de produção que vai permitir melhoria da qualidade de vida do cidadão e domínio cada vez maior das potencialidades naturais.' 'Com a globalização, a vantagem de localização que um país tinha na produção de algum bem passa a ser ameaçada pela competição internacional. Se o brasileiro não tem preço competitivo, perde mercado para uma empresa da Índia. Mas, ao mesmo tempo que traz riscos, a globalização cria oportunidades. A única barreira que fica entre países e empresas é a da competência.'
A força da aldeia Poderosos contrapesos à marcha da globalização,
'Melhor não profetizar, especialmente sobre o futuro.' Trinta anos atrás, se se perguntasse como ia ser o mundo no futuro, a resposta dominante era que ia ser como a União Soviética. Gostasse-se ou não, o socialismo era inevitável. A previsão revelou-se falha como a do comentarista F. Cunliffe-Owen, do jornal New York Sun, que em sua coluna de 29 de junho de 1914, dia seguinte ao atentado de Sarajevo, em que morreu o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, escreveu: Do que se está falando, quando se fala em 'globalização'? Eis a primeira questão. Parece certo, (1) que a grande indústria encaminha-se para uma produção pulverizada, ao redor do mundo, segundo suas conveniências de custo, assim como o grande comércio adota uma política de vendas voltada para tantos mercados nacionais quanto possível e a grande finança paira acima das fronteiras; e (2) que as telecomunicações operaram milagres, nos últimos anos. Daí decorreria, (1) que o mundo encontrou seu modelo econômico definitivo, ou, pelo menos, um modelo destinado a longa duração?; (2) que esse modelo implicaria grandes metamorfoses institucionais, a ponto de colocar em xeque a própria existência dos Estados nacionais?; e (3) que as mentalidades, os usos, os costumes e culturas tenderiam a ser cada vez mais universais, e, portanto, mais iguais? Se o conceito de globalização limita-se às duas primeiras afirmações, dá menos margem à discussão. É por esse entendimento, digamos reducionista, que parece optar o cientista político Bolivar Lamounier, ao afirmar, na publicação Papers, da Fundação Konrad Adenauer: 'O termo globalização refere-se à reorganização das estruturas produtivas e ao aumento dos fluxos comerciais e financeiros, configurando uma situação de crescente interdependência mundial, no presente contexto de aceleração do desenvolvimento tecnológico'. Se no entanto no conceito de globalização incluírem-se os três itens enunciados em forma de perguntas, então entra-se num terreno mais controverso. A convicção, partilhada por muita gente, de que o modelo é definitivo, ou pelo menos destinado a longa duração, decorre do entusiasmo capitalista pelo fracasso do modelo socialista estatal e centralizado. É parente próximo do 'fim da história' apregoado pelo americano Francis Fukuyama. Mas o entusiasmo é mau conselheiro. Em 1955 o mundo estava entusiasmado pela energia nuclear, e um empresário americano, Alex Lewyt, afirmou: 'Dentro de dez anos, os aspiradores de pó serão movidos a energia nuclear'. Errou. Passemos à segunda pergunta, relativa aos Estados nacionais. Se eles se enfraquecem, então por que a Bósnia? A Chechênia? A crise da União Européia? Tanto a lógica empresarial como a tecnológica apontavam na direção do esgarçamento das fronteiras e das instituições nacionais, em favor das internacionais. A isso somava-se a lógica política, ou geopolítica, segundo a qual o mundo tende a se organizar em blocos regionais. E no entanto, quando desmoronou a antiga ordem na Europa do Leste, que ocorreu? Um movimento em direção ao particular, não ao geral, ao nacional e ao local, não ao universal. Os antigos iugoslavos guerrearam entre si para voltar a ser bósnios, croatas, eslovenos. Os checoslovacos voltaram a ser checos e eslovacos. Até a Chechênia fez sua erupção no cenário. Enquanto isso, na Europa Ocidental, esvaziava-se a utopia da moeda única, da política externa única e, em última análise, do Estado único.Quando se estende a vista às mentalidades, os usos e as culturas, as dúvidas aumentam. Este é um mundo complexo demais, variando dos indianos que não comem carne de vaca aos chineses que comem até cachorro. Há uma tendência para a humanidade se encontrar no tênis Nike e no Big Mac, mas isso coexiste com a retomada do fundamentalismo islâmico. O cientista político americano Benjamin R. Barber, da Rutgers University, escreveu um artigo na revista Atlantic Monthly em que opõe dois universos - o que ele chamou de 'Jihad', a guerra santa dos muçulmanos, e aquele a que deu o nome de 'McWord', inspirado no Macintosh, o computador, e no McDonald’s, o hambúrguer. Barber resume assim a paradoxal coexistência dos dois: 'O planeta está fazendo-se em pedaços e juntando suas partes ao mesmo tempo'. Voltemos a Sarajevo, cidade onde começou e acabou o século XX. Começou com uma Sarajevo tão globalizada que virou estopim para a guerra mundial, e terminou com uma Sarajevo particularizada a ponto de encarnar sozinha a tragédia da Bósnia. A escritora americana Susan Sontag visitou a cidade nove vezes, durante a guerra. Num artigo recentemente reproduzido na Folha de S. Paulo, ela se perguntou por que mais intelectuais não visitaram a Bósnia, ou pelo menos se intessaram por sua sorte. Por que a Bósnia não mereceu os voluntários famosos, como a Espanha da década de 30, ou os manifestos, as manifestações, os filmes, livros e músicas da Guerra do Vietnã? A resposta de Sontag é que os intelectuais de hoje, 'sombriamente despolitizados', 'cínicos', atacados pelo 'vício do entretenimento', são mobilizáveis apenas para 'ações limitadas', 'dentro de seus próprios países'. Escreve Sontag: 'Houve um declínio vertiginoso da própria noção de solidariedade internacional'. Onde a globalização? O conceito de globalização se presta a disputas e torcidas. Houve tempo em que a globalização se chamava internacionalismo e era amada pela esquerda. Como hoje avança pelo empresariado, em vez de pelo proletariado, é odiada. A rigor a tendência à globalização manifesta-se desde que a primeira aldeia fez o primeiro contato com a aldeia vizinha, e conheceu momentos tão empolgantes quanto o presente - por exemplo, quando os portugueses saíram à descoberta do mundo em suas naus. Mas ela sempre avança em meio a tensões e contradições em que o mundinho da família, da aldeia e da nação faz valer os seus direitos.
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