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2 de dezembro de 1992
Os ajustes que faltam
Com o pacote fiscal na mão, o governo
se esquece de cortar gastos, apertar
caloteiros e procurar outras formas
de dar vitamina ao Tesouro
Por mais que os críticos do governo
tentem desmerecer a idéia do ajuste fiscal, os ministros
Gustavo Krause e Paulo Haddad ao menos acertaram no diagnóstico.
Como as padarias mal administradas, o Tesouro Nacional mergulhou
no vermelho e iria à falência se estivesse no ramo
comercial. Nas últimas semanas, os dois ministros da área
econômica têm se esforçado sinceramente para
consertar a situação e, através de uma proposta
de ajuste fiscal enviada ao Congresso, estão pedindo um aumento
de impostos. Esta é uma providência tradicional dos
governos, mas costuma ser tão mal recebida que às
vezes provoca revoluções como a que ocorreu aqui mesmo,
no Brasil, quando a Coroa fazia derramas para tomar à força
um quinto do ouro de Minas Gerais, no século XVIII. Numa
das tentativas, os mauricinhos de Ouro Preto, tendo à frente
o pobre barbudo, fizeram a Inconfidência Mineira.
Na semana passada, os mauricinhos da Federação
das Indústrias de São Paulo, preocupados com a derrama
de Krause e Haddad, foram até Brasília conversar com
o chefe deles, Itamar Franco. Falaram do bem do Brasil, em geral,
e do aperto dos impostos em particular, sem perder a oportunidade
de pedir a compreensão do presidente para os sonegadores
da Fiesp, que querem uma moratória de dois anos. Não
se sabe o que ltamar achou, mas seu ministro Krause foi claro. "Estou
mais interessado nos que pagam do que nos que não pagam",
descartou Krause. Ele dispõe de dados segundo os quais os
empresários brasileiros sonegam metade dos impostos que deveriam
entregar ao Fisco.
Vida ou morte - Tanto se debateu
o ajuste fiscal nos últimos meses que a idéia acabou
pegando. Não há virtualmente um único brasileiro
de boa vontade que não o entenda como uma questão
de vida ou morte para a organização do estado. O governo
federal carrega um déficit de aproximadamente 12 bilhões
de dólares, ou 3% do PIB, e está acossado por uma
dívida interna de 66 bilhões de dólares, que
cresce com o fermento das altas taxas de juros. Debilitado, o Tesouro
Federal ainda perde proteínas porque a Receita caiu sob o
ataque de duas feras vorazes, a sonegação e a recessão.
Esse é o pano de fundo para a derrama. Na superfície,
há razões mais espantosas.
Em sua infelicidade burocrática,
o Brasil está enredado numa malha de 58 impostos, taxas e
emolumentos, burlados religiosamente pelos contribuintes. É
tamanha a confusão que as empresas organizadas precisam ocupar
60% do seu pessoal administrativo unicamente com a papelada do Fisco.
Acredita-se que a Receita, com esse número colossal de tributos,
poderia se apropriar de 44% de tudo que o Brasil produz a cada ano
se todos recolhessem exatamente o que manda a lei. A arrecadação
real está em apenas 22% do PIB.
O diagnóstico favorável à
reforma fiscal também se baseia na injustiça do sistema
tributário brasileiro. No Brasil, ricos e pobres são
igualmente taxados pelos impostos indiretos quando vão ao
supermercado. Como não se pode fugir do imposto que vem embutido
na caixa de fósforos ou na lata de óleo de soja, o
governo apóia a arrecadação majoritariamente
sobre esses tributos, que respondem por mais de 60% da receita global.
Na Europa, apenas 25% da arrecadação, em média,
se deve aos impostos indiretos, nos Estados Unidos, só 16%
e, no Japão, 12%. É uma iniqüidade que pune o
trabalhador brasileiro já massacrado por salários
de fome.
Por baixo do pano - Na sua catequese
para convencer o país de que o ajuste fiscal é necessário,
os ministros Haddad e Krause também acertaram ao apontar
outra injustiça óbvia: no Brasil poucos pagam muito
e muitos nada pagam. O desafio real, a grande reforma, é
aumentar o número dos que podem e deveriam contribuir, mas
conseguem escapar da pata do leão. Enquanto o trabalhador
de carteira assinada submete-se aos descontos no contracheque e
a empresa organizada sacrifica-se para ficar em dia com a Receita,
o batalhão dos sonegadores age com desembaraço cada
vez maior.
O dono de um grande shopping center de
São Paulo admitiu há dias a um interlocutor que os
comerciantes a quem aluga lojas declaram apenas 20% do que vendem.
"Dão mais 10% para os fiscais e fecham a conta em 30%
do que deveriam pagar", admitiu o empresário. Um dos
resultados dessa atitude de frouxidão fiscal é criar
uma concorrência selvagem entre as empresas que fraudam e
as que pagam os tributos. Ganha o prêmio, normalmente, o fraudador
Outro motivo para fazer uma reforma fiscal
é uma tendência à descentralização
que se implantou no Brasil desde o ocaso dos governos militares.
Como reação ao poder excessivo dos governantes fardados
na era das grandes obras federais, procurou-se descentralizar a
arrecadação, entregando mais dinheiro a estados e
municípios. Em 1984, fim do período militar, a União
repassava 21% do imposto de renda e do IPI aos estados e municípios.
Hoje, manda 44%, o dobro. A idéia é boa, mas esqueceu-se
de descentralizar também os gastos. A União ficou
com menos dinheiro, mas não repassou funcionários
para governadores e prefeitos, não partilhou com eles as
suas dívidas e continua ridiculamente amarrada à distribuição
de merenda escolar, guarda-chuvas e bicicletas para agentes sanitários,
e a canalizar córregos pelos confins do país.
"Pacto Federativo" - ''Nenhuma
reforma fiscal pode funcionar no Brasil se não for precedida
de um pacto federativo, para distribuir novamente as competências,
as receitas e os encargos", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega.
"O Brasil está sem condição de gerência.
Enquanto isso não for resolvido, os pobres é que pagarão
a conta do desequilíbrio". Segundo o raciocínio
do ex-ministro, a União deu o pulo-do-gato ao perder receita.
Tentou ir buscar uma compensação nos impostos indiretos,
terrivelmente aumentados. E são esses impostos que pegam
os pobres pela proa.
Por todas essas razões, o Brasil
precisa de uma reforma fiscal, mas será ela o ajuste proposto
pelos ministros Paulo Haddad e Gustavo Krause? Certamente, não.
"O risco é que o ajuste fiscal seja encarado como mais
uma panacéia para todos os males", diz o deputado tucano
José Serra, que vê vários pontos positivos na
proposta do governo, mas acha difícil apostar num resultado
rápido e feliz, mesmo porque o projeto tem defeitos e a Câmara,
limitações. Em sua proposta, o governo sugere a criação
e a extinção de vários impostos, o que não
se pode fazer sem alterações constitucionais. Assim,
o grande ajuste fiscal de que o Brasil precisa poderia muito bem
esperar pela revisão da Carta, marcada para outubro do ano
que vem, quando as mudanças na Constituição
serão feitas com relativa facilidade, bastando que a metade
mais um dos parlamentares vote a favor.
A mudança constitucional proposta
para já pelo governo Itamar Franco é um sonho de verão.
Exige 78 alterações na Constituição,
cada uma delas a ser aprovada por três quintos dos parlamentares,
duas vezes na Câmara e outras duas no Senado. Um inferno de
Java. É melhor reconhecer logo: não dá para
fazer agora.
Questões de fundo prejudicam também
a proposta de Itamar Franco. A mais grave chama-se recessão.
Aumentar os impostos quando os contribuintes estão financeiramente
desidratados pela estagnação econômica pode
ser um erro perigoso. "Não se faz ajuste fiscal em período
recessivo", diz o economista Michal Gartenkraut, secretário-geral
do Ministério do Planejamento na gestão Sarney, hoje
com uma consultoria em São Paulo. Conforme um cálculo
do deputado Antônio Delfim Netto, as empresas estão
usando apenas 70% de sua capacidade produtiva, para uma média
de 85% em períodos de atividade normal. Se houvesse uma retomada
do desenvolvimento, mesmo sem euforia, só isso produziria
60 bilhões de dólares a mais na economia brasileira
- e, em decorrência, a arrecadação de impostos
voltaria ao normal. "Basta retomar o nível histórico
de atividade para que o governo arrecade 12 bilhões de dólares
a mais", argumenta Delfim. "Nosso problema não
é aumentar os impostos e sim aumentar a produção".
Que não haja engano: o ajuste de Krause e Haddad foi planejado
só para aumentar impostos - em 16 bilhões de dólares
ou 4% do PIB.
Por ser o método mais confortável
de arranjar dinheiro, a elevação dos tributos é
tão popular entre os governantes. Mas há um risco.
A simples elevação de alíquotas pode provocar
mais sonegação ainda, se as pessoas se julgarem exploradas
por uma tributação injusta. De um lado, o contribuinte
observa a desenvoltura dos esquemas de assalto ao estado, como o
que foi montado pela dobradinha Fernando Collor e PC Farias. De
outro, sente que o governo está levando uma parte excessiva
de seu salário ou lucro - tudo para ser mal-usado. No Brasil,
para cada quatro maços de cigarros que paga, o consumidor
só fuma um. Os outros são do Fisco. Cada carro custa
o preço de dois. O estômago da Receita digere 1 quilo
de feijão para cada 5 que são vendidos. O contribuinte
já começou a perceber que há exagero na facada
oficial.
Covardia - Há uma relação
interessante sobre o peso da carga fiscal. Numa reação
paradoxal das vítimas, a arrecadação de impostos
cai sempre que se elevam as alíquotas a partir de certo limite.
Isso aconteceu com a cerveja, um produto de que o Fisco tentou abusar.
De cada sete cervejas que bebe, o americano paga uma de imposto.
Os brasileiros estavam na relação uma a uma até
o ano passado. Agora, o consumidor paga duas garrafas e meia para
ficar apenas com uma. A indústria de bebidas está
acusando queda de 20% na venda de cervejas neste ano em relação
a 1991 e acha que o aumento de impostos tem muito a ver com isso.
Com algumas contas, descobre-se que a simples
organização do estado daria mais resultados em matéria
de arrecadação do que a criação de novos
impostos. E todos sairiam ganhando. Do início do período
Collor até agora, a União perdeu 17 bilhões
de dólares por tolices variadas, segundo cálculo do
deputado Francisco Dornelles, ex-ministro da Fazenda. Perdeu o prazo
para revalidar o Finsocial, desindexou os impostos da inflação,
mexeu de maneira desastrada nos limites de isenção
do imposto de renda. "Isso não é sonegação
nem evasão", diz Dornelles. "É falta de
administração".
O governo também perde dinheiro
por covardia. Administrações estaduais e municipais
lhe devem 58 bilhões de dólares, não pagam
e não são pressionadas para valer. Essa dívida
poderia ser facilmente saldada, já que a Constituição
permite à União que deixe de repassar impostos aos
caloteiros. "Se cortasse os créditos a estados perdulários,
o governo estaria jogando a favor da sociedade", diz o tributarista
Ives Gandra. Outro motivo pelo qual o governo vem perdendo dinheiro:
sua tropa de fiscais está se desmanchando. Eram 12 000 há
duas décadas e hoje não passam de 5 700.
Boas intenções - Não
se ouviu falar dessas coisas no anúncio do projeto de ajuste
de Krause e Haddad. Os ministros chegaram a mencionar a redução
de gastos, mas tipicamente não passaram de declarações
gerais de boas intenções. Continua-se a dar dinheiro
para saneamento básico, construção de estradas
vicinais ou distribuição de cestas básicas,
coisas que nem são da alçada do governo federal. Na
semana passada, o ministro da Educação, o mineiro
Murílio Hingel, resolveu investir num projeto incrível.
Mandou comprar 40 000 vagas na rede da Companhia Nacional de Escolas
de Comunidade, que está com 300 000 vagas ociosas - e tem
um time de senadores e deputados no seu conselho, um mineiro na
vice-presidência e outro na presidência. Será
isto o governo mineiro e congressual de Itamar Franco? "A União
não quer perder o controle de nada. É uma questão
de poder político", diz o economista Carlos Longo, professor
da Universidade de São Paulo.
Se cobrasse as dívidas dos caloteiros,
contornasse a sonegação e as disputas por impostos
nos tribunais, evitasse os gastos desnecessários e outras
manifestações de desorganização, Itamar
arranjaria mais dinheiro para seu governo. Prefere evitar atritos
e arrancar o dinheiro dos que produzem. Poderá se desiludir.
Entre os impostos que está criando, o governo põe
mais fé no imposto provisório sobre movimentações
financeiras, IPMF, com uma incidência de 0,25% sobre as operações
bancárias. Espera tomar 7,2 bilhões de dólares
com esse tributo. Conforme cálculo do deputado José
Serra, a arrecadação não passaria de 4,5 bilhões
na melhor das hipóteses. Na pior, menos de 1 bilhão.
Será o fim do sonho da reforma fácil.
Os
piratas do Fisco
Num ambiente de impunidade, os sonegadores
embolsam metade da receita tributária do país
À sua moda informal, o Brasil virou
um paraíso fiscal tão atraente quanto as ilhotas Cayman.
Há uma diferença material. No Brasil, quem não
quer pagar imposto nem precisa contratar um testa-de-ferro ou abrir
uma sociedade por cotas ao portador. Basta não pagar. A possibilidade
de que um fiscal aparecer e multar é remotíssima.
Se o fiscal aparecer e multar, haverá um demorado processo
administrativo, ao fim do qual cabe recurso a um demorado processo
judicial. O que apavora os delinqüentes do Fisco em outros
países - a cadeia - não existe no Brasil.
Pelo menos é uma hipótese
tão remota que não assusta ninguém. O deputado
estadual Ledevino Piccinini, do Rio Grande do Sul, e seu irmão
Alceu, donos da empresa de bebidas 7 Campos Ltda., estão
sendo processados por estelionato. Usaram selos falsos de IPI na
7 Campos Ltda. A empresa também está sendo processada
por sonegação de imposto de renda e do ICMS. "Não
tenho nada a ver com o que acontece na fábrica", diz
o deputado, com a tranqüilidade de quem nada teme.
Saturação - Os brasileiros,
teoricamente, sonegam 1 cruzeiro para cada cruzeiro que pagam de
imposto. Deve-se descontar desse potencial de arrecadação
coisas como subsídios, taxas que envelheceram e foram esquecidas
e impostos ilegais, que são contestados na Justiça
com êxito. Também não seria possível
arrancar de uma economia combalida por três anos de recessão
metade da riqueza que ela fabrica. Segundo um levantamento da Receita
Federal, de cada 100 empresas visitadas pelos seus fiscais 97 são
autuadas por irregularidades. Por essa amostragem se conclui que
apenas 3% das empresas sairiam limpas se houvesse uma devassa geral
no país. "A sonegação está tremenda,
espantosa, e é necessário combatê-la",
diz o ministro Gustavo Krause, da Fazenda.
Os dados do Fisco apenas confirmam aquilo
que todo mundo já sabe - a sonegação não
é uma exceção. É a regra entre os contribuintes
brasileiros, profissionais liberais e empresas. Costumam pagar corretamente
os impostos, além das pessoas sérias que existem em
qualquer atividade, as multinacionais, as empresas de capital aberto
e companhias tão grandes e complexas que não podem
se dar ao luxo de ter uma contabilidade paralela. O problema é
que esses pagam pelos outros.
No ameno clima fiscal brasileiro, respiram
as pulgas sonegadoras que todo mundo sabe quais são: o dentista
que emite um recibo a cada setenta obturações, o padeiro
que não dá nota fiscal e o dono da fabriqueta que
nunca pagou IPI e não registra os funcionários. Quando
se vai ao arquivo dos tribunais encontra-se a marca dos sonegadores
de porte muito maior. Ao lado das pulgas da economia informal, que
são um problema para os fiscais de todo o planeta, tiveram
problema com o Fisco empresas como o Banco Econômico; a Philips
e a corretora Boavista, da família Paula Machado, tradicional
nas rodas sociais do Rio de Janeiro. As três empresas são
conhecidas e muito respeitadas, mas responderam a investigações
por sonegação.
Tíquetes - Há dois
meses, a Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro descobriu que o
Banco Econômico estava recebendo uma avalanche de tíquetes
refeição. Cobrou ICMS do banco, imposto que se paga
pela operação dos tíquetes. Um diretor do Econômico
disse aos fiscais que, como a sua empresa não era um restaurante,
não pagaria o imposto. Num primeiro aperto, a secretaria
ameaçou comunicar o fato ao Banco Central. O Econômico
recuou. Disse à secretaria que recebia os tíquetes
por um restaurante interno, para os funcionários. Os fiscais
fizeram um segundo aperto. Pediram as notas fiscais de compra de
alimentos, que o banco não tinha
Prensado, na semana passada o Econômico
comprometeu-se a pagar uma multa de mais de 500 milhões de
cruzeiros. "É um caso insignificante", diz o presidente
do conselho de administração do banco, o ex-ministro
da Secretaria de Desenvolvimento Regional Ângelo Calmon de
Sá. A suspeita dos fiscais do Rio é de que alguém
do banco estivesse fazendo um outro truque. Estaria recebendo os
tíquetes como pagamento de duplicatas, sem recolher o imposto
sobre operações financeiras, o IOF.
A Philips, maior fabricante de televisores
do país, foi condenada em março deste ano a pagar
uma multa de 1,3 milhão de dólares ao Fisco, sob a
acusação de ter sonegado imposto de renda em 1989.
Os fiscais encontraram na contabilidade da companhia uma dezena
de notas frias, emitidas por empresas de São Paulo e do Rio.
O valor das notas foi lançado como despesa e serviu para
abatimento no imposto devido pela Philips. A multinacional, presidida
no Brasil por Frans Sluiter, acabou pagando a multa. Procurada por
VEJA, a Philips preferiu não comentar seu problema com o
Fisco, respondendo apenas que "sempre seguiu todas as normas
fiscais vigentes".
Em 1986, o banqueiro Lineu de Paula Machado
Filho, conhecido na alta sociedade carioca como "Lineuzinho",
vendeu títulos do Tesouro Nacional ao pai, Lineu de Paula
Machado, por um valor abaixo do mercado. Segundo a Receita Federal,
Lineuzinho fez a operação para diminuir os lucros
da Boa Vista S.A., uma corretora que pertence à família
(dona do Banco Boavista), a fim de reduzir o seu imposto de renda.
Foi flagrado pela fiscalização, o processo está
correndo há seis anos e no último mês de março
estabeleceu-se uma multa equivalente a 60 000 dólares. Lineuzinho
recorreu da sentença administrativa e ganhou, em outubro,
uma liminar da Justiça comum, que suspendeu a multa. "Na
época, todo mundo fazia isso no mercado", diz Lineuzinho.
Erro e Crime - Um mar separa os
que sonegam por desconhecimento ou erro dos que sonegam para ver
se cola, voltando atrás caso sejam pilhados, e por fim aqueles
que sonegam com gosto, malícia e determinação
- os sonegadores absolutos. Numa ponta se tem casos como o da construtora
Norberto Odebrecht, metida em vários escândalos do
governo Collor, que foi pilhada em 1988 com uma nota fiscal fria
em sua contabilidade. A construtora pagou a multa, alegou que se
tratava de um equívoco e é até possível
que tenha sido. Perto da Odebrecht, um pouco mais para o meio, aparecem
o Banco Econômico, a Philips e a corretora Boavista de Lineuzinho.
No fim da linha, descobrem-se delitos fiscais que chegam a ponto
de atravessar a linha do crime.
Dono da Audi, um grupo de empresas com
negócios no setor químico, e um dos maiores criadores
de cavalos árabes do país, o empresário paulista
Nagib Audi está sendo denunciado pelo Ministério Público
por prática de estelionato e uso de documentos públicos
falsos para enganar o Fisco. Em 1988, a Química Industrial
Paulista, a maior empresa de Nagib, foi autuada pelos fiscais da
Receita por sonegar quase todos os impostos federais. A empresa
reconheceu o erro e comprometeu-se a quitar sua dívida em
60 parcelas mensais. Acabou pagando tudo quase de uma vez. Em 1990,
os fiscais da Receita retomaram à Química Industrial
Paulista e descobriram que os recibos que comprovavam a quitação
do débito, os Documentos de Arrecadação da
Receita Federal, Darf, eram falsos. Ou seja, além de sonegar,
a empresa havia aplicado um golpe de estelionato na Receita Federal.
Truques - Nagib Audi culpou o advogado
Fernando Maron, seu braço direito no grupo, pelo estelionato.
"Ele pegou os cheques para pagar a dívida, me apresentou
os recibos falsos e ficou com o dinheiro", diz o empresário.
O advogado não tem como se defender. Foi assassinado em julho
de 1989, na véspera de um depoimento marcado na extinta Carteira
de Comércio Exterior do Banco do Brasil, Cacex, onde seria
interrogado sobre outras irregularidades cometidas pela Química
Industrial Paulista. O assassinato não foi esclarecido até
hoje. Nagib acabou pagando uma dívida de 8 bilhões
de cruzeiros, em valores de hoje, e foi absolvido do crime de sonegação
pela Justiça Federal. O Ministério Público
recorreu da sentença e quer que Nagib seja processado por
estelionato. "É impossível que ele não
soubesse da fraude. O dinheiro que o advogado teria usado para pagar
a dívida da empresa apareceu 17 dias depois na conta pessoal
de Nagib", diz o procurador da República Francisco Dias
Teixeira.
O arsenal de truques para enganar o Fisco
é imenso, mas o principal fosso de sumiço de imposto
atende pelo nome de nota fiscal fria. Ela serve para burlar qualquer
tipo de cobrança, dos impostos federais aos municipais. No
Brasil, há um gordo mercado para fabriquetas de notas frias,
empresas de fachada que vivem da venda de recibos para quem deseja
enganar o Fisco. Segundo a Secretaria da Fazenda de São Paulo,
cerca de 10 000 dessas empresas abriram e fecharam no estado durante
os últimos dez anos.
Por três anos, a partir de 1987,
a Santa Bárbara Engenharia, a segunda empresa do país
no ramo de construção de casas populares, sonegou
todos os impostos - imposto de renda, Finsocial, ICMS etc. Usou
e abusou de notas frias. Fez mais: segundo um processo que corre
em Belo Horizonte, adulterou notas fiscais. Numa nota de compra
de 300 sacos de cimento, colocou-se um zero a mais. A Santa Bárbara
pertence ao grupo Cauê, um dos grandes fabricantes brasileiros
de cimento. Sua dívida total com o Fisco é de 22,3
bilhões de cruzeiros. O grupo Cauê cometeu outros deslizes
fiscais. Uma de suas empresas, a Dileta Corretora de Títulos
e Valores Mobiliários, sonegou imposto de renda, IOF, PIS
e Finsocial. No capítulo da Dileta, que está em processo
de liquidação, o grupo deve 239,9 bilhões de
cruzeiros e está contestando a multa na Justiça.
As empresas que fabricam e vendem notas
fiscais para a roda da sonegação têm sempre
um testa-de-ferro à frente. Mesmo quando são flagradas,
é difícil prender o dono verdadeiro. Em Pernambuco,
a Secretaria da Fazenda identificou uma empresa chamada Mercantil
Minas de Prata como sendo a maior sonegadora do estado. Suas notas
foram encontradas em dezenas de empresas, mas a Mercantil nunca
pagou um cruzeiro de imposto. Sua sede, em Olinda, nunca abriu a
porta. O mais impressionante: o dono da Mercantil é o biscateiro
Wellington Francisco da Silva, 31 anos, que mora na periferia de
Recife. Ele vive com cerca de 500 000 cruzeiros mensais, trabalhando
como ajudante de pedreiro durante o dia e passando a noite na fila
do Inamps, para vender a vaga no dia seguinte.
Em abril do ano passado, Wellington conheceu
um sujeito num bar perto de sua casa. Em troca de algumas doses
de pinga, assinou alguns papéis e emprestou seus documentos.
"Não perguntei para que ele queria. Ficamos bebendo
e conversando sobre futebol", conta o biscateiro. Sem saber
que virou empresário, Wellington transformou-se no maior
sonegador de Pernambuco. Só para o Fisco estadual, ele deve
52 bilhões de cruzeiros. Quem ganhou dinheiro usando o nome
de Wellington foi o empresário Josué Gomes Correia,
que foi descoberto recentemente e poderá ser processado por
crime de estelionato.
No paraíso fiscal brasileiro, onde
quer que se olhe há um enclave sonegador. Das 35 usinas de
açúcar e álcool do Recife, dez estão
sendo processadas pela Fazenda. Devem 42 milhões de dólares.
A principal devedora é a usina Massauassu. Seu dono, o empresário
Rui Berardo Carneiro da Cunha, deve 12,6 milhões de dólares
em impostos, mora num apartamento em Boa Viagem, bairro de classe
média alta do Recife, leva uma vida de lorde e recusa-se
a falar sobre seus débitos.
Punição - Um dos recursos
largamente usados em outros países é justamente a
punição pública do sonegador de impostos, para
induzir os demais a cumprir os deveres de contribuinte. Em março
deste ano, a milionária americana Leona Helmsley, dona de
uma rede de hotéis e do Empire State Building, que costumava
dizer que só gentinha pagava imposto, foi condenada a quatro
anos de prisão e a uma multa de 7 milhões de dólares.
Razão: despejava na conta de suas empresas despesas pessoais.
Nos Estados Unidos, há sempre a
prisão de alguns figurões às vésperas
da entrega das declarações de renda. Acredita-se que
muitos renitentes se animam a declarar - e corretamente - quando
tomam conhecimento dessas prisões. No México, o ministro
Pedro Aspe mandou para a cadeia mais de 200 empresários que
desviaram dinheiro do Fisco. "No Brasil, as pessoas sonegam
porque não temem punições. Quando arriscar
for perigoso, vão pagar seus impostos", diz Roberto
Quiroga, sócio de um dos maiores escritórios de advocacia
tributária de São Paulo.
Sempre que se apertam os sonegadores algum
dinheiro aparece. Em 1990, os fiscais do estado de São Paulo
instalaram sensores eletrônicos nos frigoríficos. Os
aparelhos contavam automaticamente o número de bois abatidos
durante o mês.
Dos 90 frigoríficos que funcionavam
em São Paulo, 38 preferiram mudar de estado, com todas as
despesas que isso acarreta, a conviver com o sensor e pagar imposto.
Apesar da emigração de 38 frigoríficos, e numa
época de plena recessão, a arrecadação
de imposto nesse setor cresceu com o arrocho eletrônico.
Bicho-Preguiça - O governo
não precisaria de mais impostos se fosse buscar dinheiro
nos territórios da sonegação. Um bom começo
seria verificar, para valer, as declarações de bens
dos empresários e compará-Ias com seu padrão
de vida. Uma parte deles costuma lançar tudo - o carro, a
casa de praia, gastos com mordomo e jardineiro - como despesas da
empresa. Sabe-se que o dono de uma das redes de rádio e televisão
do país passa seus momentos de descanso num casarão
de praia que não está em seu nome, da mesma forma
que outras mordomias que desfruta no aconchego doméstico.
Os ritos legais também parecem ter
sido feitos para não punir ninguém. Depois que um
sonegador é apanhado, seu processo pode percorrer seis instâncias.
Segundo os fiscais, só a fase administrativa - anterior aos
processos judiciais - pode demorar oito anos. O detalhe é
que até recentemente um processo por sonegação
fiscal prescrevia em quatro anos. Em 1992, a prescrição
foi esticada para 12 anos. Talvez ainda seja pouco. Com um bom advogado
o sonegador, encerrado o processo administrativo, ainda pode recorrer
à Justiça comum, que tem a velocidade de um bicho-preguiça.
Em Pernambuco, na cidade do Cabo, na periferia
do Recife, funciona a Sarabor, uma fábrica de artefatos de
borracha. A Sarabor é uma notória sonegadora. No fórum
da cidade há 33 processos de execução fiscal
contra a empresa, e seu dono, Roberto Pinto, deve 800 000 dólares
ao Fisco. Num outro país, a Sarabor teria ido a leilão
há anos. No Brasil, ela sobrevive, sonegando, e seu dono
até pretende vendê-Ia. "Entrego a fábrica
por 13 milhões de dólares ao primeiro que aparecer",
diz Roberto Pinto.
No primeiro semestre deste ano, a promotora
de Santa Catarina Márcia Aguiar Arendt passou a economia
do município de Brusque, no interior do estado, por uma peneira
fina. Apenas nesse primeiro cerco, numa cidade pequena, surgiram
40 processos por sonegação de imposto. Na devassa,
dois empresários da cidade foram parar na cadeia. Até
o prefeito de Brusque, Ciro Rosa, foi denunciado pela promotora
como sonegador de 9 bilhões de cruzeiros. "Eu não
estou aqui para brincar", diz a promotora Se esse zelo se repetisse
em outras partes do país, é bem provável que
o contribuinte brasileiro pensasse duas vezes antes de dar um calote
no Fisco.
A tropa do achaque
Com menos funcionários do que necessita,
a Receita enfrenta ainda a corrupção entre os fiscais
Há uma equação ruim,
no interior do sistema fiscal brasileiro, que simplifica muito a
vida do sonegador. A Receita Federal foi enfraquecida durante o
governo Sarney e quase recebeu o golpe de misericórdia na
reforma administrativa do governo Collor. Os fiscais federais, que
eram 12 000 na década de 70, estão reduzidos à
metade. A elite da fiscalização federal, formada pelos
2 500 funcionários mais antigos, se aposentou com a reforma
do ex-ministro João Santana. Os processos fiscais são
demorados e a burocracia encarregada de empurrá-los ainda
é diminuta. Há também o problema da corrupção.
Segundo a opinião dos que lidam com fiscais, ela aumentou
barbaramente nos últimos tempos. Para quem duvida, há
um número citado informalmente pelas entidades de classe
dos próprios fiscais. Hoje, para cada dois fiscais que trabalham
em grandes cidades um aceitou, aceita ou é capaz de aceitar
propinas.
Assim como o sonegador, o fiscal que aceita
suborno ou achaca empresários parece estar abrigado das punições.
Nos últimos dez anos, 52 fiscais federais foram afastados
do serviço público por corrupção comprovada.
Esse índice de punição é minúsculo
perto do que se conta entre os empresários sobre subornos
ou achaques. Em cadeia, nem se fala. Há cinco anos, o empresário
carioca Nilton da Cruz Marques teve um de seus caminhões
retido numa barreira da Receita Federal. Os fiscais pediram dinheiro
para liberar o caminhão, Marques denunciou o achaque e um
flagrante foi lavrado. Os seis fiscais denunciados respondem a processo
no fórum da cidade de Resende, no Rio de Janeiro, mas continuam
trabalhando normalmente. O empresário, em compensação,
sofreu uma temporada de ameaças e se mudou para São
Paulo, exilado. "Se a corrupção está solta,
a culpa é das autoridades, que não gostam de levar
as coisas adiante", diz Marques.
A corrupção está solta
por várias razões. De uma parte, existe a simbiose
entre o empresário desonesto e o fiscal corrupto. De outra,
existe uma legislação tributária complicadíssima,
que permite ao fiscal achar enganos, e criar problemas, em qualquer
lugar. Um alto funcionário da Secretaria da Fazenda de São
Paulo tem um raciocínio curioso a respeito da ética
da fiscalização, provocada pela balbúrdia dos
tributos. Segundo ele, a maioria dos fiscais pune exemplarmente
o empresário que fraudou o Fisco por má-fé.
Essa maioria é complacente com os erros ou o desmazelo no
recolhimento de impostos e aceita presentes para resolver problemas.
Ou pede presentes. Em agosto, o empresário
Lawrence Pih, presidente do Moinho Pacífico, de São
Paulo, importou uma máquina da Itália. Estava tudo
certo com a papelada, mas a máquina tinha uma peça
alemã. O fiscal se agarrou a esse detalhe para infernizar
a vida de Pih e acabou pedindo dinheiro para desembaraçar
o equipamento. O empresário chamou um advogado, preparou
um flagrante, mas na última hora o fiscal desistiu do achaque.
"Eu o enfrentei e, se ele não desistisse, iria denunciá-lo",
conta Pih.
Mustafa - Ao lado
da corrupção e da destruição da Receita
Federal, na década de 80 um outro nó, o do poder político,
se agregou ao problema fiscal brasileiro. A Receita passou a ser
dirigida por técnicos que prestavam atenção
a seus padrinhos políticos e às vezes lhes pediam
conselhos sobre como tratar um caso de sonegação ou
até de contrabando. Em 1989, um jatinho que servia à
campanha de Fernando Collor de Mello pousou em Brasília vindo
de Manaus. Na cabine do avião estava a jornalista Belisa
Ribeiro, encarregada de cuidar da imagem pública de Collor.
A barriga do jato estava carregada de mercadorias
importadas, sem nota fiscal. A Polícia Federal prendeu a
muamba, mas consultou o chefe da Receita Federal, Reinaldo Mustafa.
Mustafa ligou para seu padrinho no Congresso, o deputado Benito
Gama. Benito recomendou a Mustafa que cumprisse a lei. Há
nesse caso um comportamento tortíssimo do chefe da Receita
Federal. Ele agiu como se precisasse de conselhos para cumprir o
seu dever.
A corrupção não seria
tanta se houvesse fiscais vigiando fiscais e uma lei mais dura para
os deslizes. Mas é muito difícil fiscalizar o fiscal.
Em 1988, a Secretaria da Fazenda de São Paulo montou um setor
para acompanhar processos contra fiscais (nenhum era punido desde
1979, apesar das denúncias). À frente do setor estava
um advogado, auxiliado por um promotor. Os processos começaram
a andar e fiscais foram despejados da secretaria. O promotor e o
advogado enfrentaram um pedaço difícil. O advogado
começou a receber ameaças por telefone e, por duas
vezes, atiraram na janela do apartamento do promotor.
Sinais de riqueza - É possível
fiscalizar os fiscais usando as mesmas técnicas que se pregam
para apanhar quem sonega imposto. Uma boa sugestão é
observar os seus sinais exteriores de riqueza. De 1986 a 1988, a
Delegacia da Receita Federal do Rio de Janeiro foi comandada por
Bráulio Café, que hoje é um fiscal comum. Bráulio
ficou célebre pelas multas fabulosas que aplicava. Multou
as Casas Pernambucanas em 2,4 bilhões de dólares,
dinheiro suficiente para comprar cinco empresas do porte da Acesita.
Uma engarrafadora da Coca-Cola foi multada em 70 milhões
de dólares. As duas multas acabaram canceladas pelo seu valor
muito alto. Suspeita de alguns empresários: multava-se alto
para negociar depois.
O ex-ministro Mailson da Nóbrega
tentou remover Bráulio Café da Receita do Rio, e não
conseguiu. O ex-ministro-chefe do Serviço Nacional de Informação,
o SNl, general Ivan de Souza Mendes, também tentou. "Falam
muita coisa de mim, mas nunca provaram nada", diz Bráulio.
De fato, nada ficou provado contra ele. Bráulio Café
ganha um salário de cerca de 30 milhões de cruzeiros,
mas circula num automóvel Mercedes-Benz e mora num apartamento
de 250 000 dólares numa rua do bairro de Ipanema.
O caminho mais fácil para apanhar
o fiscal que achaca é o flagrante, mas neste caso é
preciso ter coragem e ficha muito limpa. Em 1989, o empresário
paulista Ângelo Andrea Matarazzo, presidente da Metalúrgica
Matarazzo, recebeu de um fiscal uma multa e a proposta de trocá-Ia
por uma propina mais módica. Matarazzo conseguiu que a polícia
flagrasse o fiscal na hora da troca. "Não paguei e nunca
vou pagar propina a fiscal. Sou intransigente com esse tipo de coisa",
diz o empresário.
Semler - O problema da corrupção,
assim como as outras questões fiscais brasileiras, não
vai se resolver do dia para a noite. É preciso que os fiscais
recebam salários melhores, para que não sofram tentações.
A legislação precisa ser simplificada, para que a
contabilidade das empresas não fique tão exposta.
Mas é necessário também que o fiscal apanhado
num caso de corrupção sofra uma punição
exemplar, o que não acontece. Em 1990, o empresário
paulista Ricardo Semler denunciou o achaque do fiscal Leonel Alvarenga
de Campos Filho. Foi feito um flagrante, o fiscal passou três
meses na cadeia e acabou condenado. Mas já está solto
e promete vingança. "Um dia eu apresento provas contra
o Ricardo Semler", diz Campos Filho.
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