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Reportagens 2 de dezembro de 1970O papa na tormenta Os difíceis frutos
Que pode acontecer de pior a um chefe de Estado: um atentado, uma rebelião de seus ministros ou as críticas e manifestações hostis de seus soldados? O papa Paulo VI, chefe de 600 milhões de católicos, conseguiu passar, na semana passada, pelas três provas aparentemente sem grandes abalos: um pintor surrealista tentou matá-lo nas Filipinas; dois cardeais criticaram até com ironias não muito veladas o moto próprio - um decreto em que o papa manifesta a sua vontade sem admitir contestação - pelo qual ficam afastados da eleição do pontífice os cardeais de mais de oitenta anos; freiras e padres de Hong Kong tiveram um gesto de rebeldia contra a visita de Paulo VI. SEM SORRISO - Ao se despedir da multidão no aeroporto de Fiumicino, em Roma, na quinta-feira, para iniciar a mais longa de suas nove viagens internacionais, o papa não sorriu. Levantou os braços num gesto tradicional, mas a benção foi acompanhada de uma expressão preocupada em seu rosto marcado por olheiras. Paulo VI percorreria, numa viagem "pastoral e missionária", 40.000 quilômetros e visitaria sete países do Extremo Oriente e a Austrália. Na verdade, todas as provações já eram esperadas. O simples anúncio da viagem e do itinerário, há alguns meses, provocou os primeiros murmúrios de descontentamento. Sua intenção de descer na colônia inglesa de Hong Kong, às portas da China Comunista, e "manifestar a todo o povo chinês, sem distinção, a estima e o amor da Igreja Católica" magoou os chineses de Formosa; sacerdotes e freiras de Hong Kong decidiram ignorar a sua visita, rezando, na mesma hora, missa em memória das vítimas do comunismo na China Continental. Não faltaram até acusações de que Paulo VI pretenderia, por interesses políticos, fortalecer a posição da Igreja Católica e se imiscuir nos assuntos internos dos países do Terceiro Mundo. PERTO DA MORTE - Na viagem do papa, minuciosamente planejada, a morte, como um dos obstáculos possíveis, não foi posta fora de cogitação. "Se quiserem, podem matá-lo", disse uma vez um de seus assessores. "Não se pode impedir esse tipo de ataques." E realmente, embora os governos dos países visitados tivessem preparado, na medida do possível, um forte esquema de segurança (em Pago-Pago, por exemplo, além dos policiais, os cuidados chegaram ao extremo de colocar trezentas crianças entre o pontífice e a multidão), o papa estaria sempre exposto a um atentado. Paulo VI já tivera desagradáveis experiências anteriores. Quando visitou Cagliari, na Sardenha, em abril passado, sua comitiva foi apedrejada por um grupo de anarquistas. E mais recentemente, durante uma audiência pública, em seu palácio de verão de Castelgandolfo, um louco atirou-lhe uma pedra, sem acertá-lo. Os auxiliares do papa dizem que "Paulo VI confia na providência divina e nunca se ocupa de seu bem-estar". Mas o papa não vira a morte violenta ameaçá-lo tão de perto como em Manilha, capital das Filipinas (único país de maioria católica da Ásia), onde desembarcou na madrugada de sexta-feira. Depois da passagem por escala em Teerã, no Irã, e Dacca, capital do Paquistão (para consolar os sobreviventes do maremoto que matou 1 milhão e meio de pessoas), Paulo VI chegou a Manilha para uma visita de dois dias. Três mil pessoas o esperavam. Assim que acabou de descer do jato da Alitalia, um homem de batina preta destacou-se da multidão. Em suas mãos, uma caixa de papelão, com um crucifixo pregado na tampa. Os guardas o deixaram passar, pensando que levava um presente para Paulo VI. A 1 metro do papa, o homem de batina abriu a caixa, de lá tirou um punhal kris malaio, de lâmina dupla, com 30 centímetros de comprimento. Esticou as duas mãos em direção ao peito do papa, mas foi empurrado pelo presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos. O punho esquerdo do agressor bateu em Paulo VI, o punhal da mão direita feriu levemente o cardeal coreano Stephan Kim. Os policiais agarraram o homem de batina e o retiraram à força do aeroporto, enquanto os sinos das igrejas de Manilha ainda tocavam em comemoração à chegada do papa. A polícia identificou o falso sacerdote como Benjamin Mendoza y Amor, um pintor surrealista boliviano de 35 anos. Na sotaina de Paulo VI ficaram algumas gotas de sangue, caídas da mão ferida do cardeal coreano. O PERDÃO DO PAPA - Como fizera com o homem que lhe jogara uma pedra em Castelgandolfo, Paulo VI pediu às autoridades de Manilha clemência para Mendoza - que se define com estranhas palavras, como um pintor "incapaz de expressar-se com todo o poder necessário, com as emoções adormecidas no obscuro recôndito de minha alma e meu pincel". Paulo VI, o primeiro papa a sofrer um atentado nos últimos 120 anos (em 1848, Pio IX foi atacado a tiros, em sua residência, e escapou), conservou-se sereno. De um palanque leu sua saudação ao povo das Filipinas - um dos sessenta discursos preparados para sua viagem. No fim da leitura, seu sorriso voltou e ele gritou ao microfone na linguagem nativa, o taglos: "Mabuhay Filipinas" (Vivam as Filipinas). Bandeiras nacionais e do Vaticano começaram a se agitar. OS VELHOS CARDEAIS - O terceiro grande problema, Paulo VI o deixara em Roma: um documento tirando aos cardeais com mais de oitenta anos o direito de votarem nas eleições dos papas. Já em 1966, o papa, em seu moto próprio "Ecclesiae Sanctae", recomendara aos bispos e padres que "renunciassem, espontaneamente, aos cargos de direção de diocese ou paróquia" quando completassem 75 anos. Manobra para afastar os velhos e conservadores cardeais das altas decisões da Igreja? Em 1968, um grupo de destacados teólogos católicos pediu a Paulo VI uma reforma radical na direção do ex-Santo Ofício (atual Congregação para Doutrina da Fé). O objetivo, na opinião dos observadores, era o afastamento definitivo do cardeal Alfredo Ottaviani, cujo extremado conservadorismo é considerado, em algumas alas, prejudicial ao desenvolvimento da Igreja. Embora já tivesse saído da chefia da temida Congregação, por ter mais de 75 anos, o cardeal era uma presença constante nos seus bastidores e sua influência em nada diminuíra. Com o novo documento papal, Ottaviani, que completa oitenta anos em outubro, está irremediavelmente aposentado, juntamente com mais 24 dos 127 cardeais da Igreja Católica. Ficará apenas com a lembrança das glórias passadas: foi ele quem anunciou a eleição de um novo papa, em junho de 1963; e sua voz bastante emocionada transmitiu à multidão ansiosa, na praça de São Pedro, o nome de Giovanni Battista Montini, Paulo VI. "Fui eu também quem teve a honra de o coroar. É uma lembrança inesquecível." A REBELIÃO - As palavras ditas pelo cardeal Ottaviani na semana passada revelavam profunda mágoa: "Não se costuma rasgar com um simples moto próprio as páginas de uma constituição como a 'Vacante Sede Apostolica' (que regulamenta as eleições do papa) e do Direito Canônico. Trata-se de um ato praticado à margem de uma tradição mais que secular". O cardeal Eugene Tisserant, de 83 anos, decano do Sacro Colégio de Cardeais, por sua idade o primeiro a votar na eleição do papa, foi também atingido pela determinação de Paulo VI. Numa entrevista à televisão francesa, Tisserant ironizou: "No que me diz respeito, penso que ainda sou capaz de fazer muita coisa, de falar e de agir". Um argumento usado pelos cardeais é o de que houve "grandes papas que, muito velhos, governaram sábia e santamente a Igreja". O próprio papa João XXIII, cujo estilo liberal influenciou bastante Paulo VI, foi coroado aos 77 anos. Por causa de sua idade avançada, todos o julgaram um "papa de transição", incapaz de imprimir à Igreja o dinamismo necessário. Preencheria apenas o tempo durante o qual os cardeais escolheriam, com mais calma, uma figura realmente expressiva. Mas João XXIII, papa da era espacial, reconheceu mais que ninguém a necessidade de uma grande renovação dentro da Igreja. Também Sisto V, embora relativamente jovem (65 anos), quando foi eleito papa era um homem doente. Ao entrar no conclave de 1585, apoiava-se numa bengala e mal podia falar. Mas, tão logo soube da sua eleição, jogou fora sua bengala e acabou se tornando uma das maiores figuras da contra-reforma, consolidando o poder da Igreja Católica, abalado pelo protestantismo. A FORÇA DO ESPÍRITO - Os teólogos levantam também o problema da assistência do Espírito Santo. Durante os trabalhos para escolha do sucessor de João XXIII, o cardeal brasileiro dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, outro atingido pelo documento papal, então com 73 anos, podia sentar-se com seus colegas e pedir a orientação divina para apontar o candidato certo ao governo da Igreja. Agora, com oitenta anos, o Espírito Santo já não lhe transmitiria sabedoria suficiente? Seguindo o rasto de tais conjeturas, o próprio Paulo VI, segundo o cardeal Ottaviani, teria de renunciar ao completar 75 ou 80 anos, para dar o exemplo. O cardeal Tisserant, com certa morbidez, acha que esse problema não existirá em 1972 (Paulo VI está com 73 anos) "em virtude da notória precariedade de seu estado de saúde, que o fez sair quase carregado ao fim da audiência pública, na semana passada, na Basílica de São Pedro". Se renunciasse, Paulo VI estaria praticando mais um ato quase inédito; o único que o fez, entre os 262 papas, foi Pedro Celestino, no século XV. (Seu caso, entretanto, era especial: ermitão, não suportou a vida entre os muros do Vaticano. Depois de alguns dias teve de voltar para suas montanhas.) UM INOVADOR? - Por quais caminhos Paulo VI pretende guiar seu imenso rebanho de 500 milhões de fiéis? E como pretende organizar o grande grupo de seus pastores? Sua última medida, aposentando de altas responsabilidades os velhos cardeais, levantou de imediato a impressão de que ele pretende rejuvenescer a Igreja, para eliminar o principal obstáculo às suas medidas inovadoras. (Um exemplo da resistência desse obstáculo: as críticas irreverentes do cardeal Ottaviani à crescente decisão de Paulo VI de reformar a liturgia.) Mas, se Paulo VI pretende realmente conduzir o barco de Pedro por rotas liberais, como explicar os ataques a ele dirigidos por um cardeal como o belga Suenens, considerado líder da corrente "progressista"? Um episódio que melhor revela a personalidade e as intenções de Paulo VI ocorreu pouco depois do encerramento do Concílio Vaticano II, há cinco anos. Os representantes da corrente renovadora pediram a Paulo VI que permitisse a canonização de João XXIII "por aclamação", costume há muito tempo abandonado. Isso exigia uma tomada de posição. Mas o papa sabia da existência de numerosos devotos de Pio XII entre os membros da Cúria Romana considerados "conservadores". E então ordenou que fossem abertos, para ambos os papas, processos de canonização. Manteve-se, assim, fiei à tradição e eqüidistante das duas correntes. Nas questões internas da Igreja, bem como em suas relações com outros governos, Paulo VI sempre agiu como um hábil político. Suas viagens, sua encíclica "Populorum Progressio", em favor dos povos subdesenvolvidos, a reforma litúrgica que promoveu, a simplificação das vestes dos cardeais, seu trabalho em favor do ecumenismo, deram grandes esperanças aos que invocam mudanças radicais dentro da Igreja. Mas os que se preocupavam com esses avanços foram premiados com uma certeza: Paulo VI jamais se afastaria das doutrinas fundamentais. Seu documento reafirmando o valor do celibato e a encíclica "Humanae Vitae", contra a pílula anticoncepcional, foram provas dessa orientação. O ESPÍRITO DIPLOMÁTICO - Nas Filipinas, por meses, o presidente Ferdinand Marcos e sua mulher Imelda trabalharam com o cardeal Rufino nos preparativos para a recepção do papa. No dia da visita, o presidente perdeu a disputa pelo direito de conduzir o papa: Paulo VI preferiu a Mercedes-Benz do cardeal. E quando Imelda soube do plano do papa de visitar o projeto de uma igreja num bairro pobre, tentou mudar o roteiro da visita para levá-lo a ver um de seus próprios projetos. O papa delicadamente recusou e assim evitou piorar a imagem da Igreja diante de alguns grupos que acusam os padres de desfrutar, nas Filipinas, uma situação econômica privilegiada. Mas, apesar de todo o seu cuidado em se equilibrar entre os extremos progressistas e conservadores, Paulo VI tem atraído tormentas difíceis de controlar. Nenhum papa, antes dele, sofreu ataques tão diretos de seus cardeais. O único caso conhecido é o de Leão X, no começo do século XVI, mas é um caso extremo: dois cardeais descontentes com seu espírito absolutista tentaram envenená-lo. Leão X, além de mandar executar um dos cardeais conspiradores, prendeu outros e renovou quase inteiramente o Sacro Colégio. As reformas litúrgicas e pastorais de Paulo VI recebem críticas de jovens sacerdotes que as vêem como "uma válvula criada para não realizar as reformas profundas na estrutura da Igreja". Quanto à encíclica "Populorum Progressio", dizem que, "por enquanto, está só no papel". Para a maioria dos observadores, entretanto, não é justo atribuir a um homem apenas a responsabilidad pela crise que a Igreja atravessa. Durante os anos imediatamente posteriores ao Concílio, Paulo VI sofreu fortes pressões por parte de renovadores e conservadores. Para os primeiros, a Cúria Romana permanecia numa situação anacrônica (pré-conciliar, na linguagem deles) pela qual responsabilizavam com maior veemência o cardeal Ottaviani. A outra ala, que saíra insatisfeita do Concílio, pensava em uma forma de conseguir uma espécie de revanche. Paulo VI, segundo esses observadores, teria compreendido o perigo que tal situação criava para a unidade da Igreja. Agiu sempre com extrema cautela, começando com reformas que o próprio Concílio exigira: criou um sínodo de bispos com funções consultivas, uma comissão teológica composta de trinta teólogos de tendências e nacionalidades diferentes para assessorá-lo na solução de problemas doutrinários, e começou uma lenta e progressiva reforma da Cúria Romana, centro da maioria das controvérsias internas. Numa lenta operação, houve um grande revezamento de homens nos postos-chaves. Em 1968, seis cardeais, entre eles Ottaviani, foram substituídos por motivo de idade ou saúde. No ano passado, o cardeal francês Jean Villot foi nomeado secretário de Estado, no lugar de Amleto Cicognani. Villot é o primeiro não italiano a ocupar tão alto posto na hierarquia católica. REFORMA SUPERFICIAL - A substituição dos chefes de congregação não significou porém uma mudança imediata de mentalidade e de métodos, pois os mais importantes auxiliares continuavam sendo os mesmos. Ao mesmo tempo que fazia essas mudanças, Paulo VI demonstrava uma angustiante preocupação em conter o entusiasmo renovador de alguns bispos e da maioria de padres jovens. Um teólogo americano, padre Murphy, chegou a dizer numa entrevista à imprensa: "Isso não é liderança, é oscilação". Nos meios moderados, a pergunta que se faz freqüentemente é: Paulo VI poderia agir de outra forma? De um lado há sacerdotes se rebelando contra os bispos, teólogos anunciando a morte de Deus, padres defendendo a violência e até aderindo a ela, experiências litúrgicas não autorizadas pondo em perigo as doutrinas tradicionais. Contra esse vento já de certo modo irresistível lutam desesperadamente os que desejam uma Igreja estável e perene. Como manter a unidade senão através do caminho da constante conciliação? Tudo indica, no entanto, que, atrás de sua aparente angústia em busca do equilíbrio, Paulo VI sabe exatamente o que quer. Apesar das críticas de pequenas alas, suas viagens têm aumentado o prestígio da Igreja perante os governos dos países visitados. Internamente, Paulo VI já mostrou que não pretende mudar uma única letra nas doutrinas fundamentais da Igreja e reforçará o princípio da origem divina da hierarquia. Mas muita coisa no governo da Igreja deverá mudar ainda mais. E é significativa sua decisão de, antes de fazer a viagem, nomear como cardeal camerlengo o cardeal Jean Villot: caso alguma coisa aconteça a Paulo VI durante sua ausência de dez dias, será Villot seu sucessor legal. E o Vaticano teria, pela primeira vez, até a eleição de um novo chefe, um papa não italiano. Tudo Paulo VI fará com suavidade, de acordo com seu inegável talento político: transformando a polêmica em diálogo, aceitando a contestação dentro dos limites da ortodoxia e reformando nas mesmas condições o que puder ser reformado. Mas sempre insistindo: "Tenham paciência, dêem-me tempo. Mas não esperem que remova um só jota da doutrina certa". |
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