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2
de outubro de 1974
Chegando ao extremo
terror
1
Quarta-feira, 7h15 da manhã, Córdoba, Argentina. Como
ocorria todas as manhãs, um soldado conduzindo um veículo
do III Exército estacionou seu carro em frente ao número
35 da rua 8, no bairro de Velez Sarsfield - a menos de vinte quadras
do centro da cidade -, para apanhar em sua residência e levar
ao trabalho o coronel Jorge Oscar Grassi, comandante da Divisão
de Engenharia sediada em Córdoba. Sem nem mesmo notar o Renault-12
de cor cinza estacionado a poucos metros, o soldado-motorista buzinou
duas vezes, para dar conta de sua chegada. Minutos depois, o coronel
deixava sua residência térrea, cercada de um amplo
jardim - e veio caminhando, despreocupadamente, em direção
ao carro.
Foi nesse momento que o Renault cinzento
se pôs em movimento. Andou alguns metros, aproximou-se do
coronel. Subitamente, saltaram de seu banco traseiro dois homens
armados de metralhadoras e passaram a disparar. Por um momento,
o coronel Grassi - de 49 anos, casado, com duas filhas - hesitou,
mas em seguida começou a correr em direção
ao carro do Exército, um refúgio mais próximo,
naquela altura, do que tentar voltar para casa. Quando estava a
apenas 2 metros do carro - e ainda não havia sido atingido
- Grassi, desesperado, jogou-se ao chão. Os terroristas puderam
então aproximar-se mais - e acertaram vários tiros
em sua perna, além de um fatal, no abdome. Imediatamente,
os dois homens voltaram a seu Renault. E, na fuga, "ainda fizeram
mais alguns disparos, tentando atingir o impotente soldado-motorista.
Tudo se passara em apenas 15 minutos. A operação do
Exército Revolucionário do Povo (ERP), de extrema
esquerda, tivera êxito.
2 Sexta-feira, 14 horas, Buenos
Aires. Viajando em dois Ford Falcon, ambos de cor verde-clara, oito
homens pararam à frente do prédio cinzento situado
no número 4474 da Calle Cangallo, a 4 quilômetros do
centro da capital argentina. De armas na mão, quatro homens
desceram de um dos carros, enquanto os outros quatro permaneciam
de guarda na porta, e, pela escada, subiram até o 2° andar
do edifício onde residia o advogado esquerdista Silvio Frondizi,
irmão do presidente Arturo Frondizi. Depois de baterem na
porta, e serem atendidos pelo próprio Frondizi, agarraram-no
pelos cabelos, deram-lhe uma coronhada na cabeça e começaram
a arrastá-lo para fora do apartamento, em direção
às escadas.
Nesse momento, a mulher do advogado,
desesperada, começou a gritar. Atraído pelos gritos,
seu genro Luis Mediburo - morador do apartamento no andar de cima
- correu em seu socorro e, logo ao chegar, foi morto por mais de
vinte tiros de metralhadora. A esta altura, uma pequena multidão
já se encontrava à frente do prédio. Mas, em
meio à confusão, os terroristas puderam escapar levando
sua presa. Vinte minutos depois, o corpo de Frondizi - um homem
de idéias esquerdistas, consideravelmente mais radical do
que o irmão, advogado de presos políticos e um dos
fundadores, na década de 40, do Movimiento de Izquierda Revolucionaria
(MIR) - era encontrado nos bosques próximos ao aeroporto
de Ezeiza com dois tiros na cabeça e sete nas costas, porque
- conforme explicou um manifesto de seus seqüestradores - "os
traidores devem ser mortos pelas costas". Era a 18ª vítima
da organização terrorista de direita AAA, a Aliança
Anticomunista Argentina.
Definitivamente, não há ideologia,
hoje, que salve um argentino ilustre. Se é de direita, sempre
haverá um ERP ao seu encalço; se é de esquerda,
estará nas listas de uma AAA. E na semana passada, certamente
uma das mais negras já vividas pela Argentina do terror,
os assassínios de pessoas de colorações tão
diferentes como o coronel Jorge Oscar Grassi e o advogado Silvio
Frondizi mostraram que, no fogo cruzado das paixões e da
violência, pouco espaço resta.
Grassi e Frondizi foram apenas duas, do
total recorde de onze pessoas assassinadas por motivos políticos
na semana passada. Houve também, por exemplo, o caso do tenente
Luis Roberto Brizt, morto numa rua central de Rosario por um despreocupado
casal que, aproveitando-se de um congestionamento de trânsito,
aproximou-se dele, a pé, e disparou à queima-roupa,
deixando-o tombado sobre o volante. Computado o total semanal, o
sombrio índice de um morto a cada dezenove horas, registrado
na semana anterior, passou para a estarrecedora marca de quase dois
por dia.
Ao todo, desde o dia 1° de julho último
- data da morte de Juan Domingo Perón -, 92 pessoas morreram
vitimadas pelo terror. E isso mostra que a violência, decisivamente,
está hoje tão incorporada à vida dos 24 milhões
de argentinos quanto o tango ou a parrillada. Mais ainda, esse pesadelo
cotidiano começou a deixar antever, na semana passada, um
eventual ocaso da atual experiência peronista, iniciada dezesseis
meses atrás com a saída dos militares do poder.
EXÍLIO VOLUNTÁRIO
- A tal ponto a atmosfera se poluiu com explosões de bombas,
assassínios políticos, seqüestros e atentados,
que muitos incluídos em "listas de morte" - que
não param de sair das centrais do terror de esquerda e de
direita - buscam o exílio voluntário. Outros publicam
anúncios nos jornais pedindo "a quem interessar possa"
que não dinamitem suas casas - como fez na semana passada
a mulher do dirigente sindical esquerdista Agustín Tosco,
de Córdoba, esclarecendo que está separada do marido.
Além disso, numa espécie
de declaração de falência das garantias mínimas
de sobrevivência na Argentina, alguns cidadãos - embora
em pleno gozo de seus direitos e podendo simplesmente comprar uma
passagem e dirigir-se ao aeroporto para deixar o país - pedem
asilo em embaixadas estrangeiras, sem ousar percorrer os 30 quilômetros
que separam o centro de Buenos Aires do aeroporto internacional
de Ezeiza. Nesse quadro sufocante, tanto quanto a certeza de que
a relação mortos/hora certamente se estreitará
ainda mais, os argentinos já começam a deixar de indagar
"se", para perguntar "como" e "quando"
os militares, também eles transformados em alvos das baterias
extremistas, vão interferir.
Para tranqüilizar os civis mais preocupados
- e talvez os militares mais inquietos - o general Leandro Enrique
Anaya, 52 anos, comandante-chefe do Exército, falando também
em nome da Marinha e da Aeronáutica, anunciou na última
quinta-feira, durante o funeral do coronel Grassi, que os quartéis
não estão precisamente em estado de catalepsia. "As
Forças Armadas", disse ele, "estão preparadas
para esmagar, com todos os meios de que dispõem, os que sonham
chegar ao poder por meio do caos em que procuram mergulhar o país."
Anaya julgou conveniente ressalvar, porém, que isso só
ocorrerá "quando o povo assim o exigir por meio de seus
legítimos representantes" - no que muitos vislumbraram
a eventualidade de uma saída à uruguaia, com o poder
civil tutelado por autoconsentimento. E finalizou advertindo que,
se "a nação desencadear todo o poder de combate
de suas instituições armadas, muitos argentinos justos
poderão viver momentos de angústia que não
merecem".
"DULCE PRIMAVERA" - Na
verdade, já estão vivendo. Em Buenos Aires, a chegada
da "hermosa e dulce primavera", saudada alegremente na
semana passada pelos jornais, em nada alterou o tenebroso estado
de espírito em que vêm mergulhando seus habitantes.
Habitualmente loquazes sobre os problemas que os afligem, os portenhos,
na rua, estão se tornando cautelosamente lacônicos
quando se referem à fúria do terror que se abateu
sobre eles. Mostram-se reticentes ao comentá-los, não
querem opinar e, se são diretamente indagados, olham com
suspeita para quem pergunta e respondem com evasivas.
Significativamente, muitos moradores da
capital vêm racionando suas saídas à noite,
um costume do qual não abriam mão ainda recentemente.
"Nunca se sabe quando vai explodir uma bomba, ou se em algum
café há alguém sentenciado à morte -
e sempre podem sobrar umas balas", dizia na semana passada
um funcionário do Banco de Galicia. Explicavelmente mais
previdentes, os "sentenciados" tratam de fugir do alcance
da macabra "justiça" exercitada por seus anônimos
juízes - e estão fugindo com o máximo de pressa.
Quarenta e oito horas depois de incluída, como quatro outros
artistas tidos por esquerdistas pela AAA, numa lista de "sentenças
de morte", a cantora Nacha Guevara abandonou a Argentina e
foi para o Peru na sexta-feira à noite, em companhia do marido,
o músico Alberto Fabero, e de seus três filhos.
Quando se fechavam as portas do avião
da Aerolineas Argentinas - que está tendo vôos lotados
em suas partidas para o exterior, e praticamente vazios nas chegadas,
com a compreensível queda do turismo em direção
à Argentina -, surgiu correndo na pista, acompanhado da mulher,
o cômico de televisão Norman Briski, outro "sentenciado"
pelo terror. "Preciso viajar neste avião, é questão
de vida ou morte", gritava. E partiu, deixando a bagagem nos
balcões da empresa. Outro acusado de "dissociador marxista",
o Cantor Horacio Guarani, teria partido para a Venezuela. E o ator
de teatro Héctor Alterio, em oportuna turnê pela Europa,
já declarou que tão cedo não voltará
à Argentina.
TERCEIRO REITOR - Mesmo escapar
às pressas, entretanto, pode implicar risco de vida - não
haveria franco-atiradores no aeroporto? - e há os que não
ousam fazê-la. Foi o caso, por exemplo, do ex-reitor da Universidade
de Buenos Aires, Rodolfo Puiggrós, que ultimamente vinha
alternando seus pernoites em casas de amigos por ter sido ameaçado
de morte pela AAA. Na última segunda-feira, espantosamente,
ele pediu asilo na embaixada do México.
O governo argentino, já bastante
ferido em sua cambaleante autoridade, aos olhos do mundo, protestou,
argumentando que o pedido não se justificava, pois não
havia ordem de prisão contra Puiggrós. E esclareceu
que ele estava em pleno gozo dos direitos e garantias concedidos
pela lei, "como todos os cidadãos argentinos".
Para o governo mexicano, entretanto, que
concedeu o asilo, parece ter pesado mais a ponderação
do ex-reitor de que os assassinados recentemente também gozavam
dessas garantias teóricas. E, mal Puiggrós deixava
a embaixada em direção ao México, com escolta
reforçada, seu sucessor no cargo, Raúl Laguzzi, igualmente
na lista da AAA, apressava-se em tomar decisão idêntica.
Ao asilar-se na embaixada do México, Laguzzi transformou-se
no terceiro reitor da Universidade de Buenos Aires a escapar da
morte durante a semana passada.
SEM ANTÍDOTO - Ao mesmo tempo,
argentinos grados, que por acaso ou profissão se encontrassem
no exterior, passaram a ter seus nomes automaticamente vinculados
a fantasiosas fugas ou defecções. Assim, o general
e último presidente militar da Argentina, Alejandro Agustín
Lanusse, em viagem particular de seis dias a Punta del Este, no
Uruguai, só deixou de ser considerado um desertor quando
regressou, talvez temerariamente, a Buenos Aires, na quinta-feira
passada. Mas certamente não é a proteção
dos dois oficiais da Polícia Federal e um guarda civil, que
recebe do governo em sua qualidade de ex-chefe de Estado, que lhe
servirá de antídoto contra a morte violenta. Mesmo
residindo na exclusiva e teoricamente bem vigiada Calle Virrey Loreto,
no bairro de Belgrano, a 85 quadras da quinta presidencial de Olivos,
Lanusse não poderia escapar de eventuais atiradores decididos.
Suspeitas raivosas ou divertidas também
acabaram se formando em torno do dentista e ex-presidente Héctor
Cámpora, que há vários meses vive no México
e não encontra ânimo para regressar à sua fazenda
em San Andrés de Giles, não longe de Buenos Aires.
Tradicionalmente visado pelo peronismo de direita e alvo já
veterano de diversas ameaças de morte, Cámpora certamente
não esperou pela eclosão sem limites do terror das
últimas semanas para tomar a decisão de permanecer
por enquanto no México.
"KUNG FU" - Com o medo
e a violência se espalhando em todas as direções,
a voz do governo, mais uma vez, levantou-se na semana passada sem
indicar precisamente os rumos a seguir. Num discurso de 5 minutos
à nação, na quinta-feira, a presidente María
Estela de Perón prometeu dedicar "todos os esforços
à luta para liquidar a subversão e a violência".
Essas promessas, entretanto, já haviam sido repetidas várias
vezes nas semanas anteriores - e os mais cínicos se lembram
de que a providência mais visível do governo foi proibir
a exibição da série "Kung Fu" pela
televisão, para desestimular a violência.
Desta vez, juntamente com o discurso, Isabelita
enviou ao Congresso Nacional um projeto de Ley de Seguridad - aprovado
em dois dias - com sanções severíssimas "contra
os que pretendem perturbar a ordem e a paz do país".
Inevitavelmente, houve quem imaginasse que o extremo rigor da nova
lei, antes de arrefecer os ânimos dos adeptos da violência,
talvez contribua para exacerbá-los ainda mais. De qualquer
forma, a impunidade dos terroristas, a partir de agora, parece seriamente
comprometida. A começar pelos sinais externos: a simples
posse de emblemas ou símbolos de organizações
clandestinas pode significar três anos de cárcere.
A nova lei certamente visa, também,
a abafar os ecos da ação dos terroristas. Serão
punidos com três a cinco anos de cadeia "os integrantes
ou responsáveis por meios de difusão que propaguem
ou informem sobre as atividades de organizações clandestinas",
sem distinção para editores e redatores de jornais
e revistas, e diretores e locutores de rádio e televisão.
Assim, é de se prever que, mesmo não diminuindo em
audácia ou intensidade, os atos de terrorismo, doravante,
não serão mais servidos no café da manhã
aos leitores de jornais argentinos.
"¡QUÉ ASCO!" -
Talvez o governo de Isabelita esteja procurando se convencer de
que isso será suficiente para extirpar a violência
da vida nacional. É mais previsível, contudo, que
o terror continuará presente, física e concretamente,
desdobrando-se no cumprimento de promessas de morte, vinganças
mútuas. Afinal, a própria composição
do trágico rol de 92 mortos - dezoito deles vítimas
da AAA - inclui inúmeros assassínios em represália
pelo assassínio de outros, mais antigos na lista.
A semana passada foi tristemente rica em
termos da atual desgraça argentina, pontilhada pelas mortes
de um operário, estudante, dois militares, dois atores de
cinema, um ex-policial, um dono de hotel e um funcionário
público, além de Frondizi e seu genro, e de inúmeras
tentativas malogradas de metralhamentos e dinamitações.
E, cada vez mais agitado, o fundo desse quadro continua apresentando
seguidas greves trabalhistas por melhores salários, fermentação
no meio estudantil e a crescente radicalização da
luta interna entre as figuras de proa do peronismo. De fato, mais
do que nunca, os herdeiros do general Juan Domingo Perón
se entregam a exercícios de antropofagia política.
E, além de assassínios e atentados, a luta inclui
todo tipo de intrigas, a ponto de o presidente da Câmara dos
Deputados, Raúl Lastiri, ter afirmado na terça-feira,
num programa de televisão, que o último decreto assinado
por Perón antes de morrer foi o de exoneração
de Héctor Cámpora do posto de embaixador no México
- o que teria feito dizendo "¡qué asco!"
SINISTRA COREOGRAFIA - Enquanto
os peronistas palacianos se guerreiam, os protagonistas do desnorteamento
atual da nação argentina ocultam-se sob três
singelos nomes hoje conhecidos de qualquer dona de casa de Buenos
Aires, e do mais simples operário de Córdoba, ao mais
despreocupado criador de ovelhas da Patagônia: ERP, Montoneros,
AAA. A princípio havia apenas as duas primeiras organizações,
ambas de coloração esquerdista, surgidas ainda ao
tempo dos governos militares - o ERP, combatendo o regime em nome
de ideais trotskistas, e o Montoneros, desfraldando a bandeira de
um difuso peronismo de esquerda. Depois - mais precisamente no dia
29 de julho último, quando foi metralhado, em pleno centro
de Buenos Aires, o deputado Rodolfo Ortega Peña - explodiu
no cenário do terror a até então desconhecida
sigla AAA, reunindo terroristas de extrema direita. E, juntos, os
três movimentos, com suas divergências ideológicas
e semelhança de métodos, compõem a coreografia
sinistra de um bailado nas sombras, onde os dançarinos são
anônimos e seus passos quase sempre invisíveis.
Segundo alguns, o ERP teria por volta de
2.000 militantes em armas, enquanto, no caso dos Montoneros, esta
cifra poderia ser duplicada. Mas, para outros, essas estimativas
são exageradas - e as explicações apenas mostram
o pouco acesso possível aos subterrâneos do terror
argentino. Do ERP, por exemplo, se diz que, no mais puro estilo
capitalista, teria uma conta num banco suíço, onde
estariam estocadas as vastas somas adquiridas no rendoso ramo dos
seqüestros. E, quanto à AAA, não faltam fontes
afirmando "com segurança" que na verdade se trata
de um organismo parapolicial, talvez mesmo - pior que isso - uma
força patrocinada pelos próprios militares ou, ainda,
quem sabe, pela inevitável CIA americana.
"BOLCHES ASESINOS" - Quase
sempre, quando se trata das organizações terroristas,
é difícil distinguir entre verdade, boato e imaginação.
E, se é difícil saber precisamente o que são
e de onde vêm os ERP, AAA e similares, mais complexa ainda,
quase insolúvel, é a outra questão que, inevitavelmente,
suas atividades suscitam: que pretendem, exatamente?
Na verdade, tudo se resumiria a uma questão
simples se se aceitasse que o ERP, por exemplo, deseja a instalação
de um socialismo trotskista na Argentina. Mas, em primeiro lugar,
esbarra-se na dificuldade de saber exatamente o que seus militantes
entendem por socialismo trotskista. E, depois, surge a questão,
mais incompreensível ainda, de tentar imaginar de que forma
um objetivo político desses poderia ser atingido através
de seqüestros e assassínios.
Quanto à AAA, sabe-se, através
de seus comunicados, que é contra os "bolches asesinos"
- os bolchevistas assassinos. Mas, além desse ideário,
não é fácil precisar que outros objetivos possa
ter. E soa como puro surrealismo a afirmação de que
a AAA existe para garantir a tranqüilidade dos argentinos,
conforme foi sugerido no parágrafo final do comunicado expedido
pela organização depois do assassínio de Frondizi.
"El pueblo de la Patria esté tranquilo", dizia
esse parágrafo, "mientras las tres A vigilan."
FORTE DEMAIS - Assim, além
de aumentar o número de mortos, a ação de "revolucionários"
e "justiceiros" parece contribuir apenas para que os argentinos
se indaguem sobre as causas e as possíveis saídas
da eterna encruzilhada em que se encontram. Em realidade, teoricamente
não deveria haver muita sintonia entre a violência
convulsiva reinante na Argentina e a sua condição
de um dos países mais desenvolvidos do continente, com uma
invejável renda per capita próxima dos 1.000 dólares,
um exemplar índice de alfabetização de 91%
e, mais que tudo, tendo todas suas instituições de
democracia representativa plenamente vigentes, com um governo eleito
pela maioria do povo.
Não bastasse isso, o governo de
Isabelita conta com o apoio declarado de todas as forças
políticas dissociadas do peronismo, levadas certamente pela
constatação fácil de que o enfraquecimento
do poder do peronismo poderá implicar a supressão
do próprio sistema democrático, onde depositam suas
esperanças de um dia ganharem o poder. Finalmente, dentro
do peronismo, Isabelita desfruta do respaldo compacto de suas bases
populares, os trabalhadores congregados na Confederação
Geral do Trabalho, a CGT. E talvez a resposta à indagação
de por que, então, os níveis de conturbação
do país se comparam aos da mais tumultuada e obscura republiqueta
esteja contida no próprio fato de o peronismo ser forte demais.
REVERSÃO DE PAPÉIS
- De fato, ao longo dos últimos vinte anos, de tal forma
a mística da doutrina peronista foi se sedimentando na alma
política argentina que hoje, mesmo perdida sua essência
básica - Perón -, nenhuma força cogita de lutar
pelo poder fora de seus limites. É, figurativamente, algo
assim como uma panela de pressão na qual, mesmo sofrendo
temperaturas insuportáveis, nenhum elemento pode extravasar.
Em nome de Perón agem os extremistas
de direita da AAA - e os Montoneros, de esquerda. Peronistas são
a CGT - e seus incontáveis sindicatos dissidentes. Há,
é claro, militares peronistas. É difícil supor,
no entanto, que seja a maioria, para a qual a humilhante devolução
do poder ao peronismo, em 25 de maio de 1973, talvez ainda esteja
sendo sentida com amargura. E, com o encaminhamento das coisas na
Argentina pela senda da violência, é possível
que os militares estejam aguardando pacientemente uma reversão
dos papéis - isto é, sejam chamados pelo povo "através
de seus legítimos representantes" (na maioria peronistas),
nas palavras do general Anaya.
Embora haja nessa expressão uma
vaga conotação com golpes lentos, "a la uruguaya",
o general de Infantaria Leandro Enrique Anaya é considerado
um "profissionalista", contrário à intervenção
dos militares em questões políticas. Todavia, não
faltam os rumores, as suposições, as hipóteses
em torno da inquietação de diversas correntes coabitando
nas Forças Armadas - "peruanistas", "uruguaios",
"brasileiros", "profissionalistas" e até
mesmo uma de nebulosos "oficialistas".
AMIZADES - Alguns nomes forçosamente
já assumem preeminência. Na semana passada, falava-se
de uma próxima reforma do general Anaya, abrindo passagem
para o comando ao general Alberto Numa Laplane, 51 anos, atual comandante
do I Exército e cujas posições políticas
permaneciam desconhecidas. O único envolvimento de Laplane
em assuntos políticos do qual se tem notícia refere-se
à sua participação, em nome do Exército,
como tripulante do avião que a 20 de junho do ano passado
transportou Juan Domingo Perón do exílio para a Argentina.
Na ocasião, tornou-se amigo do caudilho e de seu secretário
particular, o atual ministro do Bem-Estar Social, José López
Rega - amizade que ainda cultiva.
Assim, sucedem-se as suposições,
que antes de conduzir a soluções, mesmo imaginárias,
levam irresistivelmente a novas perguntas. No caso de qualquer uma
das supostas tendências militares interferir no poder, certamente
haverá organizações violentas a fustigá-la.
E o trágico cenário atual, de guerrilheiros ocupando
ruas das cidades e de policiais armados a persegui-los, não
deverá desaparecer facilmente.
No entanto, se se mantiver o ritmo de violência
no país, já em níveis insuportáveis,
parece inevitável um reforço na presença das
Forças Armadas. O silêncio que os militares vinham
mantendo até a semana passada poderia significar, simplesmente,
a espera da hora certa para agir - uma hora que os terroristas parecem
antecipar a cada rajada de metralhadora nas ruas das cidades argentinas.
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