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2 de setembro de 1981
As fábricas de vida

A Engenharia Genética cria novos
seres e drogas miraculosas. Com
isso, promove a maior revolução
científica desde a fissão do átomo

Um carro esportivo cor de champanha, potente e caro, o Porsche Targa, é o único sinal visível de que o bioquímico Herbert Boyer, um americano de 44 anos, é um homem rico. Boyer veste-se com surrados jeans, como fazia há quinze anos, quando participava de marchas contra a guerra do Vietnã e, durante alguns dias da semana, leva uma vida semelhante à de todos os outros professores da Universidade da Califórnia em San Francisco. Sua fama e sua fortuna, porém, escoram-se na Genentech, a empresa que fundou em 1976 nos arredores de San Francisco. Genentech, como o nome sugere, trata de tecnologia genética e, quando ela surgiu, parecia mais um dos sonhos nascidos no rastro de oportunidades da revolução científica. Boyer pretendia fazer negócios com produtos e descobertas no campo utilitário da Engenharia Genética. À época, acreditava-se que, se esse filão existisse, as grandes empresas químicas do mundo, como a Du Pont, a Eli Lilly e a Hoechst, não o deixariam ao alcance de um filho de ferroviário sem nada além de um título de Ph.D. na mão e algumas idéias na cabeça.

Pois deixaram. E a Genentech, que começou com 100.000 dólares, vale hoje 280 milhões (mais de 28 bilhões de cruzeiros). Um lote de ações da empresa, colocado à venda na Bolsa de Nova York, entrou no pregão a 35 dólares por ação e acabou-se em poucos minutos, quando o preço já subira a 89. Esse sucesso retumbante no mercado de ações surpreendeu os financistas. Até hoje, com efeito, a Genentech, da mesma forma que as outras cinqüenta empresas que trabalham no mesmo ramo nos EUA na Europa, não colocou um só produto no mercado. Há, porém, uma forte razão para o interesse: se não existem produtos da Engenharia Genética à venda, os laboratórios já os fazem, já os testam e logo os lançarão no mercado.

A Genentech produziu em 1978 uma bactéria que fabrica células da insulina humana - uma conquista capaz de aliviar multidões de diabéticos que rejeitam as insulinas animais hoje existentes. Este será o primeiro produto a ser comercializado pela indústria genética. Há um ano, a Biogen suíça faz em laboratório o interferon - substância capaz de redobrar as resistências do organismo aos vírus. O interferon obtido pelos meios convencionais custa hoje em dia 15.000 cruzeiros a dose diária. Com a utilização de bactérias, o preço cairá para 100 cruzeiros. Em junho deste ano, produziu-se uma bactéria capaz de destruir os resíduos tóxicos de um produto desfolhante.

A lista cresce sem parar. No filão da Engenharia Genética não só se descobriu um grande negócio mas também um dos grandes negócios do futuro, em torno de uma ciência que redesenhará uma parte desse futuro. Assim como a Engenharia Civil constrói prédios, a Engenharia Genética constrói organismos. E este novo mundo de criação racional tem, desde junho do ano passado, a proteção legal da Corte Suprema dos Estados Unidos, onde, pela primeira vez na existência, o homem reconheceu em si próprio o direito de criar - e, portanto, de explorar - a vida. Assim, a existência de novos organismos tomou-se patenteável, submetida às mesmas leis que protegem inventos, como o da frigideira que não gruda a fritura.

REVOLUÇÃO - Essa mudança ocorreu graças ao professor indiano Ananda Chakrabarty, que criou em seu laboratório da Universidade do Illinois uma bactéria capaz de comer petróleo, desmontando-lhe a estrutura química. O professor Chakrabarty previu para VEJA que, num prazo de dois a cinco anos, a Engenharia Genética produzirá formas sintéticas de combustíveis. Na década de 90, segundo ele, a revolução chegará à agricultura, "que será alterada de forma que ainda não podemos visualizar, estimulando-se o crescimento de plantas, substituindo-se fertilizantes tradicionais como o nitrogênio". Ainda neste século, os laboratórios fabricarão organismos capazes de livrar o homem de todas suas doenças hereditárias, da hemofilia a certas insuficiências cardíacas.

Desde os primeiros tempos de sua existência, o homem suspeita de que todos os seres vivos do mundo são como são porque algo faz com que eles sejam assim, mas só em 1944 descobriu-se o nome desse agente. Chama-se ácido desoxiribonucléico, famoso por seu apelido: DNA. Todos os organismos são formados por células e todas as células têm um núcleo. Todos os núcleos carregam filamentos de DNA com o formato de escadas em caracol. Nesse conjunto, sempre formado por dois fios, armazenam-se milhões de informações em segmentos do DNA chamados genes e responsáveis pelas características daquela célula e de todas as outras que ela fabrica.

"Se Aristóteles vivesse hoje", diz John Baxter, da Universidade da Califórnia, "certamente passaria algum tempo num laboratório de Engenharia Genética, pois aqui ele poderia resolver, em parte, a dúvida que tanto o atormentava. Ele não perguntava o que era a vida?" A vida, sem dúvida, vem a ser o resultado das informações armazenadas num filamento de DNA. Mexendo-se nesse filamento mexe-se na vida que resultará daquela célula, mudando-se, portanto, o curso da natureza. E é essa mudança que a Engenharia Genética patrocina, fabricando o que ela chama de DNA recombinante, ou seja, um filamento em que todas as informações foram mudadas pela mão humana. "Hoje, o estudo da Biologia é algo tão impensável sem a manipulação do DNA como o é a navegação sem a bússola", diz Charles Weissmann, o criador da empresa Biogen e fabricante do interferon na Suíça. "Nessa revolução", continua ele, "não há possibilidades de exagerar quando se pensa no que a Engenharia Genética poderá produzir."

ANALGÉSICO - Ela pode efetivamente produzir quase tudo o que se imagine. Acaba de fazer, por exemplo, a primeira vacina com a ajuda das bactérias manipuladas contra a febre aftosa, terrível moléstia animal que dizima rebanhos por dezenas de países e que transforma a carne brasileira num produto suspeito na Europa e nos Estados Unidos.  Também fabricou uma substância chamada Urokinase, que dissolve coágulos do sangue. Depois de testada pelos médicos, a urokinase de origem bacteriana poderá ajudar no tratamento de doenças do aparelho circulatório. Um hormônio thymosin alfa-1, que encerra a promessa de talvez combater o câncer do cérebro e do pulmão, e um analgésico eficaz e barato, o beta-endorfim, são outros produtos que recentemente saíram para testes dos cadinhos da Engenharia Genética.

Como todos os pesquisadores, os engenheiros genéticos têm cobaias prediletas. As suas são seres microscópicos e simples, como as bactérias e as leveduras. Fazem-se também tentativas com outras formas de vida. Na Cetts, uma empresa da Califórnia, os cientistas retiram o ovário de um sapo, isolam um de seus ovos e nele inoculam o DNA recombinante para examinar o resultado desse casamento exótico. Se as tentativas funcionarem, uma diminuta porção de um batráquio poderá um dia juntar-se às bactérias como mais uma fábrica de novos produtos. Pela simplicidade de sua estrutura, no entanto, a bactéria Escherichia coli, ou colibacilo, comum no intestino do homem, foi eleita a cobaia principal dos laboratórios que lidam com o DNA recombinante. Ela é uma espécie de macaco rhesus da Engenharia Genética. Carlos Medicis Morel, do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, prefere outra comparação: "É o Volkswagen da Genética", diz Morel, que corta genes e realiza encaixes num dos quatro laboratórios brasileiros há pouco iniciados nessa alquimia moderna.

SEM DEFEITO - Para a produção da insulina bacteriana, partiu-se de um microorganismo simples e de um raciocínio lógico. Toda pessoa queima açúcar em seus tecidos para daí tirar a energia, da mesma forma que os automóveis andam porque queimam gasolina. Por uma falha orgânica, milhões de seres humanos, os diabéticos, não produzem a insulina necessária a essa vital combustão química. Para superar a deficiência, tomam injeções de insulina retirada de porcos e vacas, um pouco diferente da humana, e por isso causa de alergias em 5% dos doentes, um número respeitável de eternos sofredores. A insulina colhida das bactérias Escherichia coli sai sem esse defeito de fábrica: em cada átomo, ela é exatamente igual à insulina humana. Diante disso, a Engenharia Genética lançou mãos a obra e inventou as bactérias secretoras de insulina.

Simples em tese, a operação oferecia enormes dificuldades na prática. A primeira delas: como transplantar um pedaço do DNA humano para dentro de uma bactéria que, de tão pequena, só se enxerga ao microscópio? A questão intrigava um homem chamado Paul Berg, bioquímico da Universidade de Stanford, na Califórnia. Berg começou modestamente, com o DNA de um vírus. Usando compostos químicos chamados enzimas, capazes de cortar como uma tesoura o DNA, tirou um gene do vírus e colocou-o de lado. Em seguida, abriu um ponto de encaixe no DNA da bactéria.

Faltava transportar o gene de um lugar para o outro - ou seja, para dentro da bactéria. Berg utilizou para isso uma pinça viva, um outro tipo de vírus que ataca bactérias. Solução engenhosa, viu-se depois. O vírus atacante carregou em seu corpo o gene que deveria ser transportado- e, ao atacar a bactéria já preparada, com a abertura do ponto de encaixe, para receber a peça genética, pôs em contato duas composições químicas que se atraem irresistivelmente. Em presença um do outro, o pedaço de DNA viajante se acomodou no espaço aberto por Berg no DNA da bactéria, num encaixe perfeito. Era a primeira vez que material genético de dois organismos diferentes se combinavam em laboratório. Em seu laboratório de Stanford, Berg acabava de unir o que a natureza separara desde o surgimento da vida na Terra. Por essa vitória - justamente a invenção da técnica do DNA recombinante - ele ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1980.

ABRINDO ESPAÇO - A produção da insulina, contudo, exigia muito mais que o transplante de material genético de um vírus. A solução nasceu casualmente, entre refrigerantes e sanduíches devorados por dois cientistas no intervalo de um congresso de Microbiologia. Um deles era Stanley Cohen, do Centro de Pesquisas Médicas da Universidade de Stanford. O outro, Herbert Boyer, que mais tarde criaria a Genentech, só tinha a oferecer então algumas idéias interessantes a respeito das enzimas tesouradoras de DNA, seu campo de pesquisa na Universidade da Califórnia em San Francisco.

Ambos se interessavam por bactérias. Cohen conseguira isolar pedacinhos de material genético que ficam fora do núcleo da Escherichia coli, os plasmídios, e Boyer sabia como cortá-los com perfeição. As pesquisas da dupla se harmonizavam com rara felicidade. Os plasmídios de Cohen substituíam com vantagem os vírus transportadores de Paul Berg. E as enzimas de Boyer permitiam que se abrisse delicadamente espaço para encaixe no material genético da bactéria.

O resto veio naturalmente. No organismo humano, os genes dão uma ordem simples às células - elas devem combinar compostos químicos que navegam em seu interior de forma a fabricar as proteínas de que o corpo necessita. A insulina é uma das inúmeras proteínas aviadas por esse processo. Dá-se o mesmo com as bactérias depois de receberem um gene transplantado. Munidas do novo gene - no caso, o da insulina -, elas apenas repetem o que se passa na célula do homem. As bactérias carregam em si todos os elementos necessários para o cumprimento da tarefa que os cientistas lhes destinam. Com o transplante, apenas aprendem a combinar seus próprios compostos químicos em forma de insulina.

As pequenas fábricas biológicas funcionam a contento. Prova disso é que o laboratório Eli Lilly investiu 40 milhões de dólares (mais de 4 bilhões de cruzeiros) na construção de duas fábricas, uma nos Estados Unidos e outra na Inglaterra, para fazer a insulina humana pelo método desenvolvido na Genentech. "A técnica do DNA recombinante", acha Irving Johnson, vice-presidente para pesquisa do Eli Lilly, "é mais importante no campo científico que qualquer outra coisa desde a descoberta das partículas atômicas." Para ele, as aplicações comerciais dos transplantes
genéticos só têm um limite: a imaginação dos cientistas.

CONTRA A POLUIÇÃO - "Qualquer proteína poderá ser produzida em quantidades ilimitadas e a preço muito baixo pela Engenharia Genética", garante o indiano Ananda Chakrabarty. "Insulina, hormônios, vacinas - tudo é proteína. E, sendo assim, as bactérias podem fabricá-la." Chakrabarty se tornou famoso entre os engenheiros genéticos ao inventar uma bactéria que, em vez de fabricar, destrói coisas. Misturou genes de quatro espécies diferentes de bactérias, cada qual naturalmente especializada em digerir certos hidrocarbonetos contidos no petróleo. Cada uma, porém, só sabia comer um único hidrocarboneto. A bactéria que resultou das experiências de Chakrabarty se nutre de quatro hidrocarbonetos ao mesmo tempo. Resultado: ela consegue desfazer a estrutura química do petróleo e tem um grande futuro pela frente.

Enquanto houver navios descarregando acidentalmente petróleo no mar, legiões desses microscópicos organismos do indiano Chakrabarty terão muito trabalho a fazer contra a poluição nos oceanos. Jogadas sobre as manchas de óleo, como um pó, as bactérias se reproduzirão a uma velocidade estonteante e transformarão o petróleo em proteínas que alimentarão outros microscópicos seres marinhos. Só falta agora providenciar nova habilidade para a bactéria: fazê-la apta a devorar apenas o petróleo na água - e não o estoque das jazidas debaixo do solo. "No futuro", diz o cientista, "em vez de banir produtos químicos tóxicos mas com alguma utilidade, faremos bons antídotos contra seus males."

Para David Gibson, professor de Microbiologia da Universidade do Texas, Austin, o futuro está próximo. "Acredito que em poucos anos a Engenharia Genética fará organismos capazes de dar um fim rápido aos dejetos industriais que causam a poluição", profetiza ele.

'CLONIFICAÇÃO' - A técnica do DNA recombinante não fica só nesse audacioso e recente capítulo da Biologia. Teve sucesso nos Estados Unidos, por exemplo, a tentativa de reproduzir ratos assexuadamente apenas com a interferência de técnicas de laboratórios. Sabe-se que uma única célula, seja de um homem ou de uma planta, contém todas as informações necessárias à formação de todo o organismo. Partindo dessa premissa, o americano Peter Hoppe, do Laboratório de Jackson, no Maine, e o suíço Karl Illmensse, da Universidade de Genebra, conseguiram tirar da célula de rato outro animal exatamente igual, como se fosse uma cópia em carbono do primeiro por uma técnica praticada desde os anos 50 com seres biologicamente mais simples. Tira-se o núcleo de uma célula do rato, implanta-se esse núcleo num óvulo de uma rata - do qual foi removido o próprio núcleo - e pronto: nasce um ratinho sem interferência do espermatozóide paterno. Chama-se a isso "clonificação".

Sapos já haviam sido "clonificados". Hoppe e Illmensse conseguiram bem mais que isso. Transportaram com sucesso a técnica da clonificação para o reino dos mamíferos, mais complexo e mais elevado na escala zoológica que o dos batráquios. Com isso, abriram caminhos para experiência com mamíferos superiores - macacos, por exemplo. Ainda está longe o dia em que se possa sonhar com a duplicação de um ser humano a partir de uma única célula de seu corpo. Teoricamente, a possibilidade é discutível. Mas é fascinante saber que a porta da especulação está aberta.

PEIXES IGUAIS - Depois de sapos e ratos, há os peixes. Em recente número da revista científica Nature, Gorge Streisinger, da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, revela que produziu um cardume com centenas de peixes geneticamente idênticos. Necessitava de peixes iguais para uma experiência. Fabricou-os. A clonificação de ratos de Hoppe e Illmensse foi bem mais complexa. Mas jamais se conseguiram tantos clones vertebrados como os peixes de Streisinger. Segundo ele, a técnica pode ser usada para produzir em abundância peixes comercialmente valorizados, como trutas ou salmões. Mas o cientista desaconselha tentativas nessa direção. Populações geneticamente uniformes, previne ele, podem ser facilmente destruídas pois qualquer doença que afete seriamente uma das criaturas tem todas as probabilidades de também atacar seus iguais. Por isso Streisinger é taxativo: "Não devemos permitir nunca que clones, por qualquer motivo, substituam populações formadas pela valiosa mistura de diferentes heranças genéticas".

Na verdade, a discussão mal começou. Mas a corrida para chegar na frente, como no mundo dos negócios, já se processa num cenário científico até pouco tempo atrás praticamente impermeável a questões como mercado, ações, lucros. Da mesma forma que Herbert Boyer, do outro lado do Atlântico, o suíço Charles Weissmann, 50 anos, está destinado a se tornar um cientista rico. Sua empresa, a Biogen, foi fundada em Genebra em 1978 com uma estrela de primeira grandeza entre seus dez colegas de empreitada - o americano Walter Gilbert, Prêmio Nobel de Química de 1980, junto com Paul Berg. Em junho de 1979, um ano depois da fundação da Biogen, uma poderosa indústria de medicamentos dos EUA, a Schering-Plough, investiu modestos 8 milhões de dólares na empresa em troca de 16% de suas ações. Mal se passaram outros seis meses e soube-se enfim o que esse investimento buscava. Numa conferência em Boston, da qual não se esperava grande novidade, Weissmann anunciou que conseguira produzir interferon, com suas bactérias domesticadas. Meses depois, a onipresente Genentech conseguiu o empate: também ela produzira o interferon bacteriano, como no caso da insulina, idêntico ao interferon humano.

CÓDIGO QUÍMICO - De natureza ainda pouco conhecida, o interferon é uma substância fabricada normalmente pelas células do corpo para o ataque a doenças causadas por vírus. Acredita-se que também seja eficaz contra certos tipos de câncer. Quando o organismo sofre o ataque de um vírus e a doença começa a avançar, os genes encarregados de ordenar a confecção do interferon dão seu sinal em código químico à célula - e o antivirótico passa a ser lançado à corrente sangüínea para a guerra contra o agente invasor. Se um doente pudesse receber porções extras de interferon, como um remédio, suas chances de combate interno cresceriam.

O remédio existe, mas em quantidades mínimas, insuficientes para todos os que dele poderiam beneficiar-se. Para obtê-lo pelo meio convencional, os laboratórios empreendem uma prospeção a conta-gotas em fontes como os glóbulos brancos do sangue, com resultados sempre insatisfatórios até agora. Extrai-se pouquíssimo interferon dos tecidos humanos e, por isso, o tratamento fica acima das possibilidades da grande maioria das pessoas - cerca de 5 milhões de cruzeiros por uma série de injeções. Mesmo quem pode pagar, recebe doses talvez pequenas demais para experimentar uma recuperação verdadeiramente satisfatória.

Mas as bactérias entraram em cena - e apenas alguns anos depois que as fantásticas propriedades curativas do interferon chamaram pela primeira vez a atenção da Medicina. Já se iniciaram testes clínicos com o interferon bacteriano. No Hospital Anderson, da Universidade do Texas, os médicos aplicam doses diárias de interferon sintético em pacientes cancerosos. Os próprios médicos recomendam que se evite um excesso de otimismo neste caso: os remédios fornecidos pelas bactérias eram até alguns anos atrás inteiramente desconhecidos pela Medicina e precisam, antes, enfrentar a barreira da prova clínica. As esperanças, em todo o caso, crescem dia a dia. Se o interferon sintético receber enfim a chancela da Medicina, o problema da escassez estará solucionado. Uma bactéria se reproduz a cada 20 minutos. Num prazo de um dia, uma pequena colônia terá milhões de membros ativos secretando a droga desejada através de seus tecidos aquosos.

LONGE DEMAIS - Em futuro próximo, os laboratórios estarão em condições de oferecer, segundo previsão dos especialistas, vacinas contra doenças como a hepatite e a malária, alimentos de alto valor nutritivo, ao lado de açúcares de baixo teor calórico, que não engordam. Existem poucas dúvidas de que tudo isso emergirá dos laboratórios. Em meados da década de 70, quando homens como Boyer e Cohen experimentavam suas cirurgias pioneiras do DIÇA, houve não apenas dúvidas. Temia-se que os cientistas podiam estar indo longe demais com suas bactérias.

Qualquer revolução científica, das observações dos planetas realizadas por Galileu à fissão do átomo, acaba atraindo certo catastrofismo. A técnica do DNA recombinante não foi uma exceção a essa regra. Muitos cientistas receavam que bactérias com genes nocivos - o genes de um vírus, por exemplo - pudessem escapar dos laboratórios, multiplicar-se por bilhões e espalhar doenças desconhecidas e tenebrosas pelo mundo afora.

Os próprios iniciadores da Engenharia Genética ficaram preocupados. Afinal, sua cobaia principal, a Escherichia coli, faz parte da flora intestinal humana. Quem sabe essas bactérias, depois de sofrerem alterações genéticas, não poderiam invadir de volta seu habitat natural, carregando agentes malignos! Como medida de prudência, interromperam a maioria de suas experiências e só as retomaram depois que o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos impôs, em 1976, severas regras a serem obedecidas nos experimentos. Conforme os novos regulamentos, as manipulações genéticas deveriam realizar-se unicamente dentro de compartimentos hermeticamente fechados, aos quais os pesquisadores tivessem acesso só através de pequenas janelas em forma de luvas.

ANTES DA PORTA - Sabe-se hoje que os receios eram infundados. "Houve uma reação além do normal contra algo que dava seus primeiros passos", comenta Howard Goodman, da Universidade da Califórnia. "A preocupação excedia os riscos realmente existentes, que eram apenas teóricos." No ano passado, as exigências foram suspensas para a maioria das experiências. Continuam sob vigilância apenas as experiências com o DNA de bactérias ou vírus causadores de doenças ou os processos para a síntese de venenos potentes. Além das caixas seladas que encerram as colônias de bactérias nessas pesquisas, todas as pessoas que trabalham nos laboratórios que as praticam devem usar roupas especiais - capotes, toucas e galochas de plástico -, banhar-se cuidadosamente e trocar de roupa antes de voltar à rua.

Os perigos reais, em todo o caso, são mínimos. "As pessoas temiam a criação involuntária de algo ameaçador", afirma Walter Gübert, da Universidade de Harvard. "Mas os cientistas sabem agora que não poderiam criar nada perigoso, mesmo que quisessem." Acontece que as bactérias são muito frágeis. Com manipulação genética ou não, elas só conseguem sobreviver em ambiente muito favorável. Se saltassem para fora dos frascos nos laboratórios, morreriam muito antes de encontrar a porta de saída.

Outra questão é saber-se se as técnicas da Engenharia Genética poderão um dia aplicar-se ao homem, diretamente, para mudar-lhe as características. Os genes são literalmente responsáveis por tudo o que molda um homem, da cor dos cabelos e do formato do nariz a sua resistência orgânica contra doenças. Interferir na composição genética equivale, portanto, a alterar o rumo seguido na formação de um ser humano. Cientistas respeitados acham que esse projeto reflete quando muito uma fantasia teórica - a de que, se é possível mudar uma bactéria, fica-se a um passo da capacidade de alterar o mecanismo genético de um animal superior. Na realidade, há um mundo a se transpor entre uma coisa e outra. Do punhado de genes numa célula de bactéria salta-se para o número espantoso de 5.000 genes numa única célula de mosca. E para 100.000 genes numa célula humana.

LARGA ESCALA - Para curar doenças hereditárias, como a hemofilia, por meio da técnica do DNA recombinante, será preciso tentar a alteração de certos genes dentro da célula humana. Acredita-se que isso poderá ocorrer antes do ano 2000 - ou seja, em menos de dezoito anos. Mexer em pontos específicos da estrutura genética não significa exatamente a mesma coisa que criar um homem segundo uma receita de laboratório. "Há muito de ficção científica nesse debate", disse a VEJA Leslie Glick, presidente da Genex, empresa de Engenharia Genética de Bethesda, Maryland. "Toda vez que surge uma nova tecnologia, ela é confrontada por questões éticas", diz Glick. "A questão é decidirmos se vamos desenvolver essa tecnologia ou ignorá-la com todos seus benefícios potenciais."

A Genex optou pelo caminho do desenvolvimento e já identificou 187 produtos que, num prazo de cinco a vinte anos, poderão ser manufaturados em larga escala e a preço reduzido com o uso da tecnologia genética. "Até o final da década", prevê Glick, "fabricaremos hormônios para o crescimento de bois, para estimular a produção de leite, para aumentar o volume de lã dos carneiros." Num prazo igual, as bactérias secretarão aditivos alimentares para o gado. A agricultura conhecerá seus benefícios nos anos 90.

Na Zoecon, uma empresa de Palo Alto, Califórnia, tenta-se isolar um hormônio que acelere a metamorfose de insetos, que atacam as plantações, para que eles tenham um ciclo de vida mais curto e causem destruição menor. Surgirão pesticidas mais baratos e plantas melhores. Tenta-se retirar de algumas bactérias a habilidade de captar o nitrogênio do ar e transplantar essa características para plantas, como o trigo ou a soja, que assim aprenderiam a captar da atmosfera um elemento de que necessitam para crescer, dispensando os caros fertilizantes nitrogenados. "Essas metas podem muito bem ser atingidas antes do que imaginamos hoje em dia", especula Glick, com base em sua experiência. "Em 1977, eu previa que a insulina bacteriana só surgiria dez anos mais tarde - e ela apareceu um ano depois da minha previsão."

A antecipação das descobertas é mais que provável, pois os ventos sopram todos a favor. Laboratórios de grande porte - Du Pont, Monsanto, Pfizer, UpJolin, Ciba-Geigy - e o próprio Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estão investindo dezenas de milhões de dólares nas pesquisas dos engenheiros genéticos com as plantas. E as oportunidades de trabalho para os profissionais do ramo explodem como em nenhum outro campo. Segundo recente avaliação do jornal New York Times, haverá necessidade de 35.000 novos microbiologistas até o final do século. E, neste momento, um jovem com um diploma de Ph.D. em Microbiologia encontra nos Estados Unidos salários de até 60.000 dólares anuais - o equivalente a mais de 500.000 cruzeiros por mês.

CAMPO VASTO - No Brasil, a Engenharia Genética só agora dá seus primeiros passos. No ano passado, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico criou uma verba pouco mais que simbólica - 150 milhões de cruzeiros, cerca de 1,5 milhão de dólares - para a aceleração de pesquisas que já ultrapassaram a fase de cortar genes e implantá-los em bactérias. O laboratório de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo quer agora iniciar estudos para a fabricação de insulina. Na mesma universidade, o Instituto de Química trabalha com moscas e com um propósito ambicioso: pesquisar a produção de vacinas contra doenças parasitárias. E o professor Carlos Morel, do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, desenvolve ferramentas de grande utilidade para a Engenharia Genética: as enzimas capazes de cortar genes e providenciar seu encaixe uns nos outros.

"Existe um campo muito vasto para a Engenharia Genética no Brasil", diz Morel, "pois a procura de remédios para doenças, como o mal de Chagas ou a leishmaniose, tão cedo não serão pesquisados nos grandes centros." No laboratório de Microbiologia da Escola Paulista de Medicina, o professor Diógenes Santiago Santos aponta outro motivo para que a ciência brasileira tome rápido seu lugar no grande filão científico das próximas décadas. "Precisamos dominar depressa as técnicas do DNA recombinante para depois não precisarmos importar tecnologia, como já aconteceu no caso da energia nuclear." Santos transplanta genes de uma bactéria para outra para estudar a resistência dos organismos manipulados aos antibióticos.

Há o interesse de concorrer com cientistas de outros laboratórios ou de outros países. Existe a pura curiosidade de ver o que se esconde por trás dos fenômenos do universo. Continua vivo o ideal de fornecer aos semelhantes novas ferramentas para uma existência melhor. Por qualquer desses motivos, ou por todos eles juntos, os homens de ciência dedicam-se a vasculhar os segredos das galáxias com seus telescópios, a criar computadores cada dia mais poderosos, a mergulhar nos mistérios das espirais do DNA que habitam as células. A Engenharia Genética desenvolveu-se aceleradamente ao longo dos anos 70 e entra nesta década como uma promessa radiante para o futuro. Nenhum monstro saltou de suas provetas e, como em nenhum outro campo, incluiu uma motivação extra para pesquisadores - bons dividendos financeiros por seu trabalho. Em lugar dos monstros bacterianos, os laboratórios preparam-se para pôr em circulação um punhado de produtos miraculosos - fruto de uma técnica que é, de longe, o mais poderoso instrumento que o homem tem nas mãos, desde a liberação das forças do átomo, para moldar seu futuro.


 
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