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  2 de junho de 1993
A segunda vida
dos dinossauros

Novas pesquisas mostram como viviam
os répteis pré-históricos e fazem
os Dinos virarem mania

1
Eurípedes Alcântara

Fora a inconveniência de estarem extintos, não poderia haver uma época melhor para os dinossauros. Eles são amados por crianças e adolescentes como se fossem animais domésticos. Os cientistas, quando não estão estudando ou polindo seus ossos nos museus, procuram novas pistas sobre suas vidas em lugares tão distintos quanto o deserto de Montana, nos Estados Unidos, as praias da Coréia do Sul ou o pé dos Andes, na Argentina. A cada dois meses, em média, uma equipe anuncia a descoberta de uma espécie desconhecida de dinossauro fossilizado. Os lagartos pré-históricos estão no horário nobre das televisões, na prateleira das livrarias e estampados em camisetas, mochilas e tênis. Daqui a uma semana, nos Estados Unidos, e a três, no Brasil, os bichos ressurgirão esplendorosamente nas telas dos cinemas. Graças à mágica de 65 milhões de dólares do pai do E.T., o diretor Steven Spielberg, o filme Parque Jurássico, uma ficção genética sobre a recriação acidental de dinossauros, já é o filme mais caro e esperado do ano.

Desde o projeto Apolo, que levou o homem à Lua, não se vê tanta movimentação envolvendo a ciência e o marketing, um emulando o outro de forma que as fronteiras entre ambos quase desaparecem. Mais de 60 milhões de anos separam os primeiros hominídeos dos últimos dinossauros. Ainda assim, nunca as duas espécies estiveram tão juntas na ficção. Homens e dinossauros estrearam sua parceria nas telas em 1914, com um curtíssima-metragem feito pelo americano Winsor McCay chamado Gertie, o Dinossauro. Foi o início de uma longa amizade que se estendeu para as tirinhas em quadrinhos, com o Brucutu nos anos 30 e os Flintstones três décadas mais tarde. Até chegar ao estrelato com Parque Jurássico, os dinossauros fizeram vários papéis de assassino. O mais impressionante foi Godzilla, de 1954.

IMAGEM INJUSTA - No filme de Spielberg, a ficção traz de volta à vida um bando de animais nunca vistos na plenitude de seu vigor. Reaparecem na tela o tiranossauro, que abana sua cabeçorra desmesurada e patas dianteiras atrofiadas, o triceratopo, uma espécie de rinoceronte gigante com três chifres, e bandos de velocirraptores, carnívoros ferozes que perseguem suas presas com a determinação e a eficiência de uma divisão Panzer. Os animais foram revividos no filme com a reprodução de detalhes de cores, sons e movimentos que só recentemente os cientistas descobriram sobre os dinossauros. Se fosse filmado há dez anos, Parque Jurássico (o nome do parque é tirado da denominação científica do período de dominação mais ostensiva dos dinossauros sobre a Terra, entre 210 milhões e 150 milhões de anos atrás) seria bem diferente. Há uma década, a ciência tinha uma imagem totalmente injusta dos dinossauros. Eles eram descritos como feras pré-históricas que viviam isoladas umas das outras, abestalhadas, afundadas em pântanos, incapazes de correr ou saltar e estúpidas como um caminhão pilotado por Nilo Coelho.

QUERIDA, CHEGUEI! - A nova imagem desses animais extintos surge como resultado da explosão do número de pesquisas e escavações. Aparece também graças ao uso de tecnologia de ponta, como radares de penetração para localizar fósseis enterrados a dezenas de metros, e até de aparelhos emprestados pela medicina, como a tomografia computadorizada, utilizados para examinar a estrutura mais íntima dos ossos encontrados. "Descobriu-se que os dinossauros são uma família muito mais bizarra e diversificada do que sempre se imaginou", disse a VEJA Jack Horner, curador do Museu das Rochosas, em Montana, o maior especialista mundial em fósseis de bebês dinossauros. "A fauna deveria ser ainda mais diversificada, porque não desenterramos ainda nem 1% de todas as espécies do período." Alguns dinossauros podiam alternar períodos de sangue quente com outros em que resfriavam seu metabolismo. Uns eram grandes como um edifício de três andares. Outros menores que um cachorro. Alguns eram monocromáticos, com tons de cinza sobrepondo-se na pele enrugada. Outros teriam crinas de cores berrantes e até penas. A maioria era ágil, com cérebro bem desenvolvido e comportamento sociável, capaz de fazer amigos e incentivar seus companheiros. A imagem de um planeta primitivo habitado por esses seres serelepes é bem diferente da que comumente se associa aos dinossauros.

A efervescência das pesquisas recentes gera tantas novidades que quase se pode ouvi-los dizer "Querida, cheguei!", como o Dino da Silva Sauro do seriado de televisão, um simpático megalossauro, ou "lagarto gigante", que pesava 80 toneladas e chegava a medir 9 metros. Isso é tamanho suficiente para esticar o pescoço e assistir à televisão pela janela no 2º andar. Não passa muito tempo sem que se espatife mais um mito sobre esses animais que dominaram o mundo por 165 milhões de anos, desaparecendo misteriosamente há 65 milhões de anos. "Eles não foram lagartos preguiçosos, mas sim laboratórios em que a natureza testou as mais diversas soluções metabólicas, de locomoção e encaixe dos ossos", diz Angela Milner, pesquisadora do Museu de História Natural de Londres.

Os dinossauros foram também os pioneiros em diversos tipos de comportamento social que seriam adotados pelas espécies mais bem-sucedidas depois deles. Eles foram os primeiros animais a cuidar com carinho maternal de seus filhotes e os primeiros a caçar em bandos. No deserto de Montana, pesquisadores americanos encontraram pegadas de um bando de dinossauros adultos que claramente faziam um cerco em torno de filhotes. "A cena que as pegadas permitem reconstruir é de adultos defendendo seus bebês do ataque de algum carnívoro como o deinonico, 'pata terrível', também conhecido como o lobo do cretáceo", diz Milner. O lobo do cretáceo era pequeno para os padrões da época, um pouco maior que um elefante, mas atacava em bandos de quatro indivíduos, dando pulos e gritos assustadores. O americano Peter Dodson, pesquisador da Universidade da Pensilvânia, encontrou covas coletivas, no mesmo deserto de Montana, com até 10.000 esqueletos fossilizados de dinossauros. "Eles deviam andar em rebanhos tão grandes que se perdiam no horizonte", diz Dodson.

DRAGÃO CHINÊS - Do outro lado do mundo, na Mongólia, escavadores do Smithsonian Institution, dos Estados Unidos, encontraram evidências de que pelo menos um tipo de dinossauro, o protoceratopo, um quadrúpede vegetariano que mal chegava a 2 metros de altura, desenvolveu hábitos muito acima do Q.I. animal atribuído ao período. "Encontramos ninhos comunais onde todas as fêmeas do bando depositavam seus ovos", contou o paleontólogo Michael Brett-Surman à revista Newsweek. "Essa eficiência no uso de ninhos demonstra que o protoceratopo tinha um nível de inteligência superior ao de todos os outros animais do seu tempo."

É estranho, mas os homens só vieram a saber da existência dos dinossauros há pouco mais de 150 anos, quando seus ossos começaram a ser desenterrados na Europa. Um dos pioneiros na descoberta dos dinos foi o paleontólogo francês Georges Frédéric, barão de Cuvier, homem de muita fé, grande observador, mas mau teórico, que mandou rezar uma missa por eles. Cuvier, alguns anos antes da revolução científica desencadeada por Charles Darwin (veja artigo à pág. 80), tratou de arranjar uma solução para o enigma dos ossos gigantescos que brotavam do solo. Não foi muito difícil. O pio sábio francês decretou que eles eram de animais muito grandes e desajeitados que, por isso, não puderam ser acomodados na arca de Noé, tendo sido dizimados em massa pela violência das águas diluviais. Dedução crédula - e falsa. Na China, região pródiga em fósseis, os ossos de dinossauros foram tratados como ficção. Até hoje, em chinês, a mesma palavra, konglong, significa duas coisas: dragão e dinossauro. O geólogo inglês Richard Owen foi o primeiro a constatar, em 1841, que os ossos pertenciam a uma espécie desconhecida que foi batizada por ele com a junção de duas palavras tiradas do grego arcaico, deinos, "terrível", e sauros, "lagarto". Só agora, um século e meio depois de descobertos, os lagartos terríveis começam a impor o respeito que merecem.

McSAUROS - Hoje, o objetivo primordial dos pesquisadores é descobrir como os dinossauros surgiram e viveram, e não apenas como desapareceram, a obsessão de alguns anos atrás. Recentemente, uma equipe de argentinos e americanos desenterrou no Vale Ischigualasto, no norte da Argentina, um esqueleto fossilizado do mais antigo dinossauro jamais visto. Batizado de eoraptor, ou "ladrão da madrugada", o pequeno animal adulto viveu há cerca de 228 milhões de anos e era pouco menor que um cachorro. "Esse pequeno animal deveria viver do que conseguia roubar das feras maiores", diz o argentino Ricardo Martínez, que encontrou o fóssil.

O eoraptor é um bicho da aurora da vida dos dinossauros. Os cientistas escavaram ainda outro animal fóssil, o mononico, ou "pata única", também da família dinossauro, mas que viveu 150 milhões de anos depois do eoraptor. Os ossos do mononico são surpreendentes para a elucidação dos mistérios do passado da vida animal. O mononico é um dinossauro do final do reinado dos grandes répteis e, ao mesmo tempo, o ancestral mais próximo dos pássaros. Do tamanho de um galo encorpado, ele tinha penas, mas os ossos eram de réptil. "Se havia alguma dúvida de que as aves são descendentes diretas dos dinossauros, ela se dissipou com a descoberta do mononico", diz Kevin Padian, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Nós comemos dinossauros no Natal, nos sanduíches do McDonald's e alguns de nós criam dinossauros no quintal", diz Padian.

OITO CORAÇÕES - Descobertas feitas sobre o metabolismo dos animais pré-históricos mostram que eles eram máquinas naturais com soluções trabalhosas, meio rococós algumas vezes, mas bastante eficientes para os grandes problemas que encontraram em milhões de anos de vida. O que fazer, por exemplo, para oxigenar um cérebro situado 10 metros acima do coração e dos pulmões? O sismossauro, o "lagarto terremoto", resolveu esse problema. O sismossauro, chamado assim porque deveria provocar um pequeno terremoto quando andava, foi o maior animal da história natural do planeta. Um esqueleto com 42 metros de comprimento, 7 metros mais encorpado do que a baleia-azul, a então detentora do título de maior animal, foi encontrado quase intato nos Estados Unidos. "A teoria mais aceita afirma que o sismossauro deveria ter até oito corações funcionando em série para bombear o sangue pelo seu corpo", diz o americano Horner. O problema é que um sistema com potência suficiente para bombear sangue 10 metros pescoço acima arrebentaria os finos vasos pulmonares dos animais. "Para lidar com isso eles devem ter desenvolvido um sistema circulatório duplo", explica a pesquisadora Milner. "Um de baixa pressão para irrigar os pulmões e outro de alta para transportar o sangue pelo resto do corpo."

E que corpo. Um apatossauro, o "lagarto desleal", podia pesar 30 toneladas e medir mais de 30 metros. Os dinossauros não cresceram apenas por boniteza. Eles viveram numa época em que o planeta passava por constantes transformações geológicas e mudanças na vegetação, com conseqüências diretas sobre a dieta deles. "Quanto mais um bicho conseguia estocar comida, mais chances ele tinha de sobreviver às mudanças", sugere o paleontologista americano David Gillete. "Rabos gordos e compridos, cinturas grossas e pescoços compridos são ótimos lugares para estocar gordura." Graças a essas invenções metabólicas, um dinossauro de quase 100 toneladas conseguia sobreviver comendo apenas o equivalente à ração que alimenta hoje dois elefantes de 6 toneladas.

DIETA DE PEDRAS - Muitos dinossauros podiam também alterar mais profundamente seu metabolismo. "Não é de todo impossível que alguns deles tenham sido capazes de alternar ao longo da vida ciclos de sangue quente com ciclos de sangue frio conforme as necessidades ambientais", diz Robert Bakker, o folclórico pesquisador americano de dinossauros que se tornou uma celebridade e hoje é quase tão conhecido entre a criançada americana quanto as Tartarugas Ninja. Foi Bakker quem sugeriu, ainda na década de 60, a idéia então revolucionária de que os dinossauros, para ter sobrevivido tanto tempo, não poderiam ser lagartos apáticos de sangue frio, bichos parecidos com certas veranistas das praias brasileiras que precisam tomar banhos de sol para se energizar e conseguir dar alguns passos.

Em outros campos, o da digestão por exemplo, os dinossauros lembram velhos aviões ou automóveis cujos projetos saem mal-acabados da prancheta e precisam ser consertados já na etapa de fabricação. Como as arcadas dentárias primitivas dificultavam a mastigação, a evolução dotou alguns tipos de dinossauro de uma solução incrível. Eles podiam engolir sua dieta de gramas e folhas de samambaias gigantes quase sem mastigar. Para que o organismo pudesse dar conta do recado de retalhá-las, os dinossauros simplesmente engoliam algumas pedras lisas, do tamanho de bolas de tênis. "As pedras, ou gastrólitos, como as chamamos, sugerem que os répteis vegetarianos tinham câmaras musculares para esmagar a comida", diz Dave Gillette, que há alguns meses encontrou uma pedra dessas instalada na base do esôfago de um fóssil de sismossauro. "A pedra era grande demais e deve tê-lo matado por sufocação", diz o pesquisador. Alguns pássaros utilizam hoje um processo semelhante para facilitar a digestão.

Novas teorias e velhos ossos estão desvendando o mistério da longa permanência dos dinossauros como os reis do planeta Terra. Foi o mais longo e mais hegemônico império da história natural. Os dinossauros espalharam-se por todo o planeta, cobriram o globo de pólo a pólo e de meridiano a meridiano, mantendo sob sua ditadura todas as outras espécies. Os pobres mamíferos, nossos antepassados, eram alimento para os dinossauros carnívoros. Deviam ser saborosos, porque quase desapareceram vitimados pela limpeza étnica contra eles.

REIS DA CRIAÇÃO - O que mais intriga é a decolagem inicial da espécie num período em que, há 250 milhões de anos, já existiam certos mamíferos, alguns deles com cérebro proporcionalmente maior do que o dos lagartões. Eram mamíferos pouco mais encorpados que um rato, quase todos comedores de insetos - o que na época podia ser uma dieta bastante nutritiva, embora um tanto repulsiva. Alguns insetos, entre eles as baratas, tinham cerca de 40 centímetros de comprimento. Crocodilos gigantescos nadavam nos rios e monstros marinhos e alguns primos dos tubarões dominavam as águas costeiras. Os dinossauros desse período não tinham ainda crescido - mediam menos de 1 metro de comprimento - e na nobiliarquia primitiva eram desprezados. Alguns milhões de anos mais, e eles, misteriosamente, já haviam subjugado toda a fauna pré-histórica.

Alguma modificação radical ocorreu na superfície da Terra a ponto de favorecer os dinossauros e permitir-lhes assentar-se como os reis da criação durante os milhões de anos que se passaram desde o surgimento da espécie, há 230 milhões, até seu quase total aniquilamento, há 65 milhões de anos. É um longo período de dominação que nenhuma outra espécie conseguiu igualar. Se os 3 bilhões de anos de vida na Terra pudessem ser comprimidos nas 24 horas de um único dia, os dinossauros teriam surgido no planeta às 22 horas e desaparecido uma hora e vinte minutos depois, às 23h20. O primeiro hominídeo, o ser primitivo que saltou da linhagem dos primatas na direção do homem atual, teria surgido às 23h58. O Homo sapiens, o homem moderno, vive, nessa escala, há apenas seis segundos.

"O catastrofismo era uma constante na Terra antiga. As espécies enfrentavam desafios terríveis", explica Padian. Os dinossauros iniciaram seu reinado depois de uma dessas sacudidelas globais da crosta terrestre. Por volta de 230 milhões de anos atrás começou a se desmanchar a Pangea, o supercontinente que englobava todas as porções de terra do planeta. Com a operação desengate, novos mares foram criados, os vulcões aceleraram sua atividade e cadeias de montanha elevaram-se do chão num piscar de olhos na escala geológica. O clima da terra deve ter ficado mais quente, o que favoreceu os dinossauros. Os cientistas acreditam também que outra súbita mudança de rota geológica deve estar na raiz da extinção dos dinossauros, 165 milhões de anos depois do rearranjo geológico que favoreceu seu império.

METEORO NA CABEÇA - Hipóteses absurdas já foram levantadas para justificar a extinção em massa do império dos répteis no final do período cretáceo, chamado assim porque os primeiros sinais de vida nessa fase geológica foram encontrados na Ilha de Creta. Algumas das teorias: os dinossauros foram atacados por catarata, ficaram cegos e não podiam mais encontrar comida. Outra mais amalucada ainda sustenta que eles foram dizimados por extraterrestres que os caçavam como alimento. É mais ou menos como Buffalo Bill fez com os búfalos no Velho Oeste. Há a hilariante teoria do tédio: reis da criação, os dinossauros não tinham mais nem o prazer da caça e morreram de tédio reptílico.

"São maluquices mas andam por aí porque a ciência ainda não conseguiu dar uma resposta satisfatória para o problema", diz Horner. A teoria mais aceita é a de que um meteoro gigante se chocou contra a Terra, levantou enormes nuvens de poeira, encobriu o Sol, mudando radicalmente o clima e incentivando a atividade dos vulcões, que entraram em erupção aos milhares. Não há provas concretas de que isso tenha ocorrido. Se ocorreu e foi tão violenta, a mudança climática deveria ter dizimado também os animais mais frágeis, entre eles os mamíferos, os sapos e as tartarugas. Pouco se sabe além do fato de que, quando se passa a examinar os sedimentos geológicos depois do final do período cretáceo, são os mamíferos que começam a imperar. Não há fósseis de dinossauros com menos de 65 milhões de anos de idade. Depois de seu desaparecimento começa a longa jornada evolutiva que vai desembocar no homem - o bípede que, assim que aprendeu a pensar, aguçou sua curiosidade sobre os répteis gigantes do passado e, de uma forma ou de outra, os trouxe de volta à vida.

A fuga do deserto

No período áureo dos dinossauros, o jurássico, que tem esse nome porque os primeiros fósseis da época foram encontrados nas montanhas Jura, na França, os animais que viviam onde hoje é o Brasil desapareceram. Eles não foram extintos, mas migraram para outras regiões a fim de fugir do imenso deserto que se formou em vastas porções do sul do país. Por essa razão, os fósseis de dinossauros encontrados hoje em território brasileiro são quase todos de animais que viveram em períodos anteriores e posteriores ao jurássico. "Quase não há evidências da passagem dos dinossauros por aqui no período de maior efervescência da espécie no resto do mundo", diz Sérgio Alex de Azevedo, paleontólogo do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O dinossauro tipicamente brasileiro é o titanossauro, um herbívoro parente menor do apatossauro que deve ter atingido no máximo 15 metros de comprimento e 20 toneladas de peso. O titanossauro brasileiro, que virou selo da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, comia 100 quilos de folha por dia e, pelos cálculos dos cientistas, podia chegar facilmente aos 100 anos de vida. Ossos do titanossauro foram encontrados no interior de São Paulo e na região de Uberaba, em Minas Gerais. "Provavelmente eles viviam em bandos", diz o paleontólogo Reinaldo José Bertini, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, a Unesp. "Devem ter sido dóceis como as vacas de hoje", arrisca Antônio Celso de Arruda Campos, um ex-professor primário paulista convertido à causa do dinossauro brasileiro. Campos encontrou, em Monte Alto, sua terra, alguns ossos de titanossauro em ótimo estado e com eles fundou um museu.

Entre os dinossauros carnívoros, o bicho mais significativo já resgatado em solo brasileiro foi um estauricossauro, o chefe de Dino da Silva Sauro no seriado de televisão. O fóssil foi desenterrado em Santa Maria, Rio Grande do Sul, na década de 30. O esqueleto do animal, que deveria atingir 2 metros de comprimento e tinha dentes em forma de punhal, foi levado para os Estados Unidos. "Uma equipe da Universidade Harvard veio para cá e levou os ossos do nosso estauricossauro", reclama o paleontólogo Diógenes de Almeida Campos, do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral.

 

 

 

 

 
     
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