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2 de junho de 1982
A última arrancada

Com a tomada de Porto Darwin e
Goose Green, a Inglaterra derruba
o último obstáculo para a ofensiva
final de reconquista das Malvinas

Mais uma vez, na semana passada, a Inglaterra fez avançar com movimentos decisivos os ponteiros do relógio que marcam a contagem regressiva para a recaptura das Malvinas. Uma semana após terem desembarcado nas ilhas, as tropas britânicas capturaram dois objetivos-chave, Porto Darwin e Goose Green - e com isso praticamente selaram a sorte do adversário, isolando-o da maior parte da ilha principal e condenando-o a um combate no qual não pode esperar reforços. A tomada dos dois povoados, que não somam mais de quarenta casas ao todo, não foi um passeio para os 1.000 homens do II Batalhão de Pára-quedistas da Royal Navy. Eles levaram dezoito horas até silenciar, na última sexta-feira, os 700 soldados argentinos que defendiam as duas posições. Mas, para os ingleses, valeu a pena.

A captura de Porto Darwin e Goose Green, de fato, é decisiva para a arrancada final da Inglaterra em direção a Port Stanley, capital das ilhas em disputa, e a reconquista militar do que lhe foi tomado à força, a 2 de abril, pela Argentina. De nada adiantou o fogo cruzado da diplomacia, que abriu inúmeras frentes estéreis ao longo dessas últimas oito semanas. Tampouco tiveram efeito moderador sobre os dois lados combatentes as dramáticas perdas em homens, navios e aviões que cada um sofreu nas águas geladas do Atlântico Sul. Ao final de tudo, aproximadamente 100 navios e 27.000 homens terão cruzado o Oceano Atlântico, portando a bandeira britânica, para reconquistar as Malvinas.

"Tudo leva a crer que foi um inferno", declarou o porta-voz do Ministério da Defesa, em Londres, na noite da última sexta-feira, ao detalhar pela primeira vez a ação dos pára-quedistas. Uma das provas mais eloqüentes de que este inferno realmente existiu está no fato de o navio-hospital britânico Uganda ter entrado durante meia hora no vulnerável Estreito de São Carlos, que separa as duas ilhas principais, para resgatar as vítimas, inglesas e argentinas. Mas, como não tinham conseguido evitar o desembarque inglês nem a rápida ampliação de sua cabeça-de-ponte, os argentinos também não seguraram seu avanço ilha adentro e perderam Porto Darwin e Goose Green.

A tarefa foi executada pelos Diabos Vermelhos, um batalhão de pára-quedistas comandado pelo tenente-coronel Herbert Jones, 42 anos, chamado por seus soldados, simplesmente, de "H". O batalhão foi dividido em dois grupos: o primeiro, de 400 homens, ocupou Darwin. O segundo teve por missão a reconquista de Goose Green, que tem apenas 69 habitantes adultos e trinta crianças, mas uma importância estratégica considerável - os argentinos haviam construido ali uma pista que permitia o pouso e a decolagem de aviões menores, em condições meteorológicas desfavoráveis. Por sua localização, no centro quase geométrico da Grande Malvina, essa pista tinha-se revelado de importância crticial para o fustigamento das tropas inglesas. Ao cair, junto com Porto Darwin, ela deixou os ingleses na sua melhor posição até agora. Eles não têm mais adversários nas suas costas ou nos flancos - e, livres para receber apoio na área que conquistaram, passam a cercar os argentinos em Port Stanley.

ATÉ A BARRIGA - Com a tomada de Porto Darwin e Goose Green - que o regime do general Leopoldo Galtieri se recusava obstinadamente a admitir até o final da semana -, as forças inglesas ampliaram de tal forma sua cabeça-de-praia inicial que os 60 quilômetros de trilha irregular que os separavam de Port Stanley pareciam, subitamente, irrisórios. Trata-se de um caminho tão precário que em tempos de paz, a bordo de um jipe Land Rover, leva-se até dez horas para percorrê-lo. "Há trechos que nem mesmo um cavalo agüentaria", conta um ex-residente agora instalado em Cheshire, na Inglaterra, "pois atolaria até a barriga em poucos segundos." Mas, para essa arrancada final, as tropas inglesas certamente receberão a cobertura de helicópteros Sea King de transporte, transformados em tanques aéreos, e do grosso da força-tarefa, que já teria ao largo de Port Stanley pelo menos um de seus dois porta-aviões. Quanto à operação de desembarque propriamente dita, espera-se que ela ocorra na localidade de Porto Louis, no Canal de Berkeley, ao norte da capital.

A sua espera, em Port Stanley, estarão entre 5.000 e 7.000 argentinos comandados pelo general Mario Benjamin Menéndez, mais armados que as tropas que os ingleses já bateram em São Carlos, Porto Darwin e Goose Green, e em condições logísticas melhores que os ingleses. A essa altura, porém, a Argentina não dispõe mais da mesma capacidade de ataque aéreo, em grande parte esgotada durante as dezoito horas de bombardeio em Darwin e Goose Green. Ademais, há quase duas semanas as tropas entrincheiradas na capital não conseguem ser reabastecidas. Segundo informações colhidas em Londres, apenas dois aviões pequenos consegitiram pousar em Port Stanley na sentana passada. Um deles trazia cópias do Diario Popular de Buenos Aires, com a manchete "Vitória!", mas não resolveu a questão do abastecimento de água potável, insuficiente para uma cidade que quintuplicou bruscamente seus 1.000 habitantes originais com a chegada dos argentinos.

Neste quadro, a queda de Port Stanley e a capitulação do grosso das tropas argentinas tornaram-se uma questão de tempo, embora o acerto final de contas, na capital, possa ser sangrento. Restará então para os 3.000 soldados britânicos transportados pelo transatlântico Queen Elizabeth 2 - e que já estariam desembarcados na Ilha Geórgia do Sul, ao abrigo de um eventual bombardeio argentino - a complexa tarefa de manter as Malvinas após a guerra. Uma força naval permanente também teria de ficar na área, composta de um porta-aviões, seis destróieres, um submarino, um esquadrão de caças Harrier, várias fragatas e uma brigada equipada de mísseis defensivos, para evitar que os argentinos tentem, num domingo qualquer, uma nova aventura. Esse pacote tem o defeito de pesar consideravelmente nos combalidos cofres da Inglaterra e de enfraquecer o esquema de defesa da OTAN na Europa, a menos que os Estados Unidos substituam ali o desfalque ocasionado pelos ingleses. Para o governo da primeira-ministra Margaret Thatcher, porém, todos os custos têm sua recompensa política. Conseguindo retomar as Malvinas, a Inglaterra terá cumprido a tarefa nacional que se propôs desde a invasão argentina - e mostrado ao adversário que não existe solução militar capaz de dar-lhe, um dia, sua pretendida soberania sobre o arquipélago.

MUITA SORTE - Houve um momento, ao longo da semana passada, em que as esperanças militares de Buerios Aires pareceram, para os argentinos, arder com intensidade. Foi quando um especialista inglês em explosivos, sargento Jim Prescott, de 37 anos, tentou desativar uma bomba de 250 quilos disparada por um Skyhawk argentino e que se alojara na fragata lança-mísseis Antelope. A bomba acabou explodindo, transformou-se numa imensa bola de fogo, iluminou as águas do Atlântico Sul e imortalizou um dos golpes mais duros sofridos pela Royal Navy desde a II Guerra Mundial. "Durante a noite toda, a Antelope ardeu em labaredas brancas", relatou um repórter da BBC aquartelado num navio próximo. "No convés, a meu lado, pequenos grupos de homens olhavam com horror a morte da fragata. Só quando sua carcaça quebrou e o mar a invadiu com furor é que o metal incandescente começou a esfriar."

A notícia do afundamento da Antelope veio junto com outra baixa de grande porte: o naufrágio do destróier Coventry, irmão gêmeo do Sheffield, também destruído pelos argentinos. Com estas perdas, eram cinco os navios da força-tarefa postos a pique ou seriamente danificados pela Argentina desde o início do conflito: dois destróieres, duas fragatas e o cargueiro Atlantic Conveyor. Mesmo assim, os ingleses perderam um número relativamente baixo de homens - 68 - nesses incidentes. Para o capitão James "Sam" Salt, comandante do Sheffield, isso tem uma explicação. "Em primeiro lugar", disse ele a Alessandro Porro, de VEJA, após desembarcar em Londres junto com os 263 sobreviventes de seu navio, "nenhuma de nossas embarcações atingidas navegava isoladamente, mas em formação: seja lado a lado, como o Atlantic Convevor, seja em perpendicular, como foi o nosso caso."

Salt relatou que, nessas condições, as operações de salvamento foram bastante fáceis, disciplinadas e serenas, pois os homens sabiam que seriam salvos. "Até os mais nervosos acabam seguindo as instruções e lembrando os exercícios realizados anteriormente", disse ele. (No caso do General Belgrano, o cruzador argentino atingido no início da guerra, com vinte mortos e 301 desaparecidos, ocorreu exatamente o contrário.) "Em segundo lugar", concluiu o capitão Salt, "tivemos sorte, muita sorte." Com os cinco navios afundados, a Inglaterra viu desaparecerem 2,5 bilhões de dólares - e se perderem, numa única semana, mais navios que em todo o primeiro ano da II Guerra Mundial.

SEM SOBERANIA - As perdas da Antelope, do Coventry e do Atlantic Conveyor, de qualquer forma, em nada alteraram o curso central do conflito na semana passada - os argentinos não obtiveram, com elas, ganhos estratégicos capazes de melhorar sua crítica situação nas ilhas, onde o avanço inglês prosseguiu em ritmo mortal. Ao mesmo tempo, à medida que o cerco final a Port Stanley se consumava, e que a silhueta de uma derrota argentina adquiria traços cada vez mais precisos, os Estados Unidos começaram a fazer o balanço de suas perdas e danos diplomáticos nesse episódio todo. A divulgação da notícia de que pelo menos 100 sofisticados mísseis ar-ar Sidewinder - portanto, armas ofensivas - haviam sido entregues pelos EUA à Inglaterra, na semana passada, congelara a tal ponto as já glaciais relações do governo de Ronald Reagan com o de Leopoldo Galtieri e seus amigos latino-americanos que restava pouco para salvar. De qualquer forma, o secretário de Estado americano, Alexander Haig, fez saber ao governo de Margaret Thatcher os riscos de uma humilhação excessiva da Argentina. "Ser vigorosa no combate, mas magnânima na vitória, tem sido uma tradição da Grã-Bretanha. Quero crer que esse padrão estabelecido por Winston Churchill seja mantido", declarou Haig esperançosamente.

A julgar pelas declarações mais recentes do ministro da Defesa britânico, John Nott, entretanto, o tom não é de conciliação. "Não teríamos enviado uma força-tarefa de 27.000 homens a 13.000 quilômetros de distância apenas para chegar lá, sofrer trágicas perdas e dizer: 'Obrigado, agora vamo-nos sentar à mesa com os senhores e discutir a questão da soberania das ilhas'." Ao que se sabe, assentada num apoio popular que só fez crescer nas últimas semanas, Margaret Thatcher, após recuperar o arquipélago, está inclinada a manter uma administração britânica nas Malvinas durante pelo menos dois anos antes de passá-las para a tutela da ONU. Nesse quadro, a Argentina conquistaria apenas mínimos direitos comerciais nas ilhas e águas adjacentes, sendo porém forçada a arquivar por bom tempo suas aspirações de soberania.

PONTA DO ICEBERG - Sem condições militares de expulsar os ingleses das Malvinas, ou de deter seu avanço rumo ao objetivo final nas ilhas, a Argentina se empenhava, na semana passada, em pelo menos manter poder de fogo suficiente para impor perdas de impacto à frota inimiga que cerca o arquipélago - e, neste esforço, alianças subterrâneas tomaram forma. Um dos equipamentos mais requisitados por Buerios Aires eram os mortíferos mísseis franceses Exocet, os destruidores do Sheffield e do Atlantic Conveyor, cujo fornecimento vinha esbarrando no embargo de vendas à Argentina decretado pela França e demais democracias européias, além da própria exigüidade dessas armas no mercado internacional. Na semana passada, finalmente, Buenos Aires conseguiu pôr as mãos em mais cinco Exocet, que virão somar-se ao solitário exemplar que sobrou dos ataques anteriores. Os mísseis faziam parie de uma encomenda feita pelo Iraque e só foram desviados para a Argentina graças à intervenção da Líbia junto ao governo iraquiano. Essa repentina solidariedade árabe, porém, não salvou a Argentina de pagar preços de mercado negro pelo lote: 600.000 dólaies a unidade, quando a cotação oficial de cada míssil, posto na fábrica da Aérospatiale em Toulouse, é de 200.000 dólares.

Na verdade, isso pode ter sido apenas a ponta de um iceberg político-comercial mais amplo. Na semana passada, um almirante da reserva argentino, com boas ligações nos gabinetes oficiais, revelou a Alceu Nader, de VEJA, que a Líbia teria acenado a Buenos Aires com uma oferta de ajuda econômica de 48 bilhões de dólares, distribuídos pelos próximos oito anos. Dez bilhões de dólares, segundo a promessa líbia, viriam imediatamente, para ajudar no esforço de guerra e contribuir para o pagamento dos 7,8 bilhões de dólares da dívida externa que a Argentina precisa quitar até dezembro. Essa parte do empréstimo seria paga em alimentos e a longo prazo.

As intenções de ajuda da Líbia, segundo o relato do almirante argentino, foram apresentadas num encontro mantido em Roma, há quinze dias, entre o major Abdul Salam Jalloud, o braço direito do coronel Muamar Khadafi, e dois militares argentinos do chamado "Grupo de Trabalho Malvinas", formado pela junta para assessorar a chancelaria durante a crise. Parece ter sido um encontro curioso. Os argentinos, desconfortáveis, teriam dito que aceitar o empréstimo não significaria nenhum desvio de Buenos Aires para a esquerda nem no perdão aos terroristas da Argentina - que, no seu apogeu, tiveram apoio de Khadafi. Os líbios não se impressionaram e disseram que tinham a maior admiração por Perón e pelo seu nacionalismo. Os militares lembraram que também eram antiperonistas. Jalloud então fechou a questão: "Nada disso importa. Neste momento, vocês são o braço de Alá que combate o imperialismo".

COMO DIEN BIEN PHU - Em sua procura de ajuda internacional, a Argentina, por meio de seus porta-vozes, sempre tenta enviar o mesmo recado - o de que o auxílio externo, venha de onde vier, não levará o regime a desviar-se de sua política interna. A solidez de tais propósitos é de verificação aleatória tanto quanto os efeitos práticos das próprias promessas de ajuda. Na semana passada, alguns generais jactavam-se abertamente, em Buenos Aires, de que Mirages vão chegar em breve do Peru (que já prometeu enviá-los há mais de um mês) e da Venezuela, sem pré-condições, para substituir alguns dos aparelhos perdidos sobre a cabeça-de-ponte de São Carlos. O Brasil, por sua vez, continuou a dar uma contribuição simbólica. Desta vez, partiram para Buenos Aires pneus de aviões Mirage, vítimas menores do embargo francês.

A ajuda latino-americana, no final das contas, é mais uma mise en scène que qualquer outra coisa, Além de promessas e pequenos fornecimentos, tudo o que a Argentina recebeu de seus pares, na semana passada, foi uma salva de palmas dos embaixadores latino-americanos a um discurso do chanceler Costa Méndez, no plenário da OEA. Um novo pedido argentino de aplicação do Tratado Interamericano de Ajuda Recíproca, obrigando os países do continente a prestarem ajuda militar a Buenos Aires, foi torpedeado na OEA por Brasil e México - que acabaram fazendo aprovar uma resolução pela qual cada país é livre para fornecer ou não tal auxílio. Na prática, isso significa que ninguém precisa fazer nada, e que tudo fica exatamente como está. Era como se os governos da América Latina compartilhassem da opinião geral de que, militarmente, não há nada mais que possa impedir a derrota argentina. Ela foi expressada, entre muitos outros, pelo francês Marcel Dassault, o fabricante dos Mirage e Super Étendard. "Estou muito satisfeito com o desempenho de minhas armas nas mãos dos argentinos, mas acho que é a Inglaterra quem vai ganhar o conflito", disse ele na semana passada numa entrevista à televisão. Outro entrevistado no mesmo programa, o almirante Antoine Sanguinetti, ex-inspetor-geral da Marinha francesa, foi mais longe. "Os argentinos vão sofrer uma derrota tão grande em Port Stanley como os franceses em Dien Bien Phu, em 1954", previu ele.

CABISBAIXOS - Até agora, dois cenários básicos podem ser imaginados como conseqüência da aventura argentina. O primeiro deles tem como modelo o regime dos coronéis gregos depois da tentativa de invasão em Chipre, em 1974. Derrotados e desmoralizados pela Turquia, eles foram em parte para a cadeia onde se encontram até hoje - e em parte despachados de volta aos quartéis. Os civis foram chamados ao poder e formou-se um governo de união nacional. O outro cenário tem como modelo o Egito, após a fragorosa derrota frente a Israel, em 1967. Desmoralizado, o líder nacionalista Gamal Abdel Nasser fez menção de renunciar - mas, como não havia quem pudesse substituí-lo, ele permaneceu no poder comandando um país recalcado e sem alternativas.

Ocorre que na Grécia, ao contrário da Argentina de Galtieri, os civis não se comprometeram com a aventura dos coronéis. Eles puderam declarar-se de mãos limpas, voltar de cabeça alta e convidar a nação a partilhar um regime parlamentar. Já no episódio das Malvinas, nenhum setor importante da vida política argentina teve a visão, a coragem ou as condições para denunciar a invasão das ilhas pelo que ela significou em sua essência. Por tudo isso, não é improvável que a liderança civil permaneça cabisbaixa - e que, na falta de um caminho e diante da falência do regime atual, surja uma outra junta.


 
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