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2 de abril de 1975
A Arábia perde seu guia


 

 

Durante os últimos anos, ofuscando com petrodólares e fervor muçulmano todos os seus rivais árabes, ele tinha se tornado, enfim, o homem forte do Islã. Mas sua era de ascendência, irresistivelmente impulsionada pelo embargo do petróleo a partir de outubro de 1973, estava destinada a ser efêmera. Na última terça-feira, numa manhã sufocante em sua poeirenta e secreta capital, Riad, um sobrinho aproximou-se quietamente dele, tirou um revólver das mangas de seu manto e, ainda cerimoniosamente curvado, disparou cinco tiros à queima-roupa - e, sob os olhos aterrorizados dos presentes, Faiçal, rei da Arábia Saudita, desabava ao solo mortalmente ferido.

Quis o destino, como tantas vezes acontece no angustiado Oriente Médio, que o assassínio de Faiçal Ibn Abdul Aziz al Saud, aos 69 anos, ocorresse numa data santa para a região. De fato, o monarca saudita foi morto em meio às festividades do Maweid -- aniversário de nascimento do profeta Maomé e ponto alto de reverência espiritual para os 500 milhões de muçulmanos do mundo inteiro. Mas, se uma onda de choque e apreensão acendeu imediatamente as atenções de todas as capitais, a Arábia fatalista e feudal recebeu a tragédia sem qualquer tumulto. Excetuando-se o anúncio oficial da morte do rei, soluçado pelo locutor da Rádio de Riad, o resto - sucessão, funerais, primeiros na orfandade - transcorreu com rigor quase cronometrado.

Ainda assim, no final da semana, não apenas o próprio atentado permanecia envolto em brumas - com o assassino teimosamente qualificado de insano - como também a Arábia, entregue às mãos sem fibra de seu novo rei Khaled Ibn Abdul Aziz, um irmão de Faiçal de 62 anos, parecia encaminhar-se para uma era menos serena. Ao mesmo tempo, o Oriente Médio, como um todo perdia com Faiçal um de seus raros e necessitados pólos de moderação - após ter perdido, uma semana antes, as últimas esperanças de paz negociada por Henry Kissinger. Já na sexta-feira passada, o Egito e a Síria colocavam suas Forças Armadas em alerta total. E os círculos econômicos do Ocidente, chocados com a morte do senhor de 20% de todas as reservas mundiais de petróleo, se viam, novamente, em temeroso suspense.

SOB SUSPEITAS - As inquietudes surgidas com o súbito desaparecimento de Faiçal apenas refletiram a imensa influência pessoal acumulada pelo monarca saudita ao longo de seus dez anos de reinado. Inevitavelmente, também, uma vasta e poderosa coleção de inimigos colocou-se, simultânea ou alternadamente, em seu decidido caminho anticomunista e anti-sionista. Era natural, portanto, que, às primeiras notícias sobre os disparos no gabinete de trabalho do rei, em Riad, brotasse uma variada gama de versões sobre os supostos arquitetos do crime e seus motivos subterrâneos.

Sem dúvida, os serviços secretos de uma boa dezena de países poderiam estar interessados na substituição de Faiçal por um monarca menos soberano em suas ações e mais vulnerável em suas decisões. Desde grupos radicais palestinos, inconformados com o conservadorismo do monarca saudita, até comandos especiais israelenses, exasperados com as idéias fixas de Faiçal sobre uma restauração árabe em Jerusalém, passando como de praxe pela jamais esquecida CIA americana, todos se viram, durante algum tempo, sob fantasiosas suspeitas.

De concreto, porém, até a tarde de sábado, havia apenas a figura franzina, solitária, do príncipe Faiçal Ibn Mussaed, de 30 anos, que descarregou sua pistola calibre 38 sobre o tio, atingindo-o na cabeça e no peito. Mesmo assim, tratava-se de uma figura embaçada. Pois, ainda que Mussaed tivesse agido por conta própria, seus motivos não estavam esclarecidos - e a partir da versão oficial do palácio de Riad, segundo a qual o assassino era um notório débil mental, diversas explicações começaram a se acumular.

A imprensa de Beirute, por exemplo, deu mais crédito à "teoria do dinheiro", segundo a qual o jovem Mussaed, cujo casamento com a princesa Sitta Bint Saud estava marcado para o fim da semana passada, andava desconsolado com a recusa do tio em aumentar sua datação mensal, equivalente a 3.500 dólares. Do Cairo, surgiu a "teoria da vingança": cinco anos atrás, um irmão do assassino, príncipe Khaled, fora morto por um policial saudita, quando participava de uma passeata contra um canal de televisão de Riad. E de Berkeley, na Califórnia, onde Mussaed tentara estudar ciências políticas, nasceu a "teoria da revolução", contada por antigos colegas: várias vezes, o príncipe teria comentado que sua família constituía o maior obstáculo ao progresso do mundo árabe.

CERIMÔNIA SINGELA - Seja como for, pouca luz havia sobre a tragédia no momento em que o corpo de Faiçal, envolto numa mortalha branca sem costuras e recoberto por uma simples abaya marrom de lã de camelo, baixava a 90 centímetros do solo, sob um monte de areia e pedras, no principal cemitério de Riad. Apenas os príncipes de sangue da dinastia saudita assistiram ao sepultamento do monarca numa tumba sem lápide, conforme requisito da seita wahabita, perto do local onde repousam, desde 1953, os restos mortais de seu pai, o rei Ibn Saud.

Poucas horas antes, na mesquita de El Eid, quase todas as personalidades influentes do mundo muçulmano haviam participado da singela cerimônia fúnebre e da leitura da oração dos mortos do Corão. Comprimidos lado a lado, estavam os presidentes do Egito e da Síria, Anuar Sadat e Hafez Assad, o rei Hussein, da Jordânia, o presidente argelino Huari Bumedienne, uma multidão de xeques, sultões - e até mesmo o inevitável Idi Amin, em uniforme de general. As duas únicas personalidades não-muçulmanas presentes à cerimônia, e de certa forma escondidas ao fundo do santuário, eram o príncipe Juan Carlos da Espanha e o ministro francês da Defesa, Yvon Bourges - o vice-presidente dos Estados Unidos, Nelson Rockefeller, representante de Gerald Ford aos funerais, chegou atrasado, junto com outros delegados ocidentais.

Fora da mesquita, uma multidão estimada em 80.000 pessoas obedecia à saudação ritual lançada pelos muezins - Alah Akbar, Ala é grande - inclinando-se quarenta vezes consecutivas em direção a Meca. Não houve desmaios coletivos, choros convulsivos ou explosões incontroladas de dor, como durante o turbulento enterro de Gamal Abdel Nasser em 1970. E, ao contrário do costume dos demais países do mundo, as bandeiras nacionais não foram colocadas a meio pau: o pavilhão da Arábia Saudita traz inscrita a profissão de fé muçulmana - a chahada - e por isso deve sempre tremular do alto dos mastros.

DANÇA E ALFANJE - Também o destino final do príncipe assassino deverá desenrolar-se segundo as leis muçulmanas. Normalmente, suas perspectivas seriam aterradoras. De acordo com os costumes da Arábia Saudita, os assassinos são decapitados em praça pública com um golpe de alfanje - após assistirem, de joelhos, ao carrasco executar uma espécie de dança ritual ao seu redor. Subitamente o carrasco interrompe suas evoluções e golpeia com a ponta do alfanje uma das pernas do condenado, fazendo-o esticar automaticamente o pescoço - e, nesse instante, um golpe seco separa sua cabeça do corpo. Mussaed, entretanto, não seguirá obrigatoriamente esse caminho. Pois, se for comprovada sua insânia - como sustenta com insistência o próprio governo saudita -, a pena é comutada em prisão perpétua.

Embora recém-empossado, o rei Khaled, jUntamente com o príncipe Fahd Ibn Abdul Aziz, seu meio-irmão e sucessor designado, supervisionaram pessoalmente as investigações sobre o atentado, na semana passada - inclusive interrogando o assassino. É previsível, porém, que ambos mergulhem, cada um à sua maneira e à medida de sua força política, nas profundidades mais concretas do poder saudita - e a própria rapidez com que foi operada a sucessão de Faiçal já indicava a falta de disposição dos nobres de Riad em permitir a quebra de uma continuidade do governo.

De fato, um conselho real, formado pelos cinco príncipes mais velhos e chefiado pelo tio primogênito de Faiçal, reuniu-se imediatamente após o anúncio do atentado, no palácio real, e aprovou por unanimidade a ascensão ao trono de Khaled. A esperada designação do príncipe Fahd como sucessor do novo rei não levou mais tempo, e os dois nomes foram rapidamente aceitos por toda a família real. Assim, antes mesmo que a trágica terça-feira se esvanecesse nos desertos sauditas, o país se entregava com docilidade a seu quarto e protocolar soberano - dos cerca de quarenta filhos homens de Ibn Saud, o mais velho com vida.

SAÚDE FRACA - Simultaneamente, contudo, o efetivo exercício do poder em Riad já prometia deslizar para as mãos mais ambiciosas e ágeis do príncipe herdeiro. Na verdade, excetuando-se o trunfo - particularmente valioso no emaranhado de intrigas palacianas de Riad - de não ter inimigos na família real, o novo soberano saudita não parece dispor de nenhuma arma capaz de transformá-lo, convincentemente, num líder de envergadura. De saúde fraca e índole afável, Khaled sempre demonstrou maior interesse pela agricultura de seu país do que pela política ou diplomacia. Sua primeira viagem ao exterior, em 1939, para participar de uma conferência sobre a Palestina, em Londres, bastou para fazê-lo desistir de outras aventuras estrangeiras.

Khaled, na verdade, se adapta mal ao mundanismo e ao cerimonial do poder - tendo demonstrado, sempre, especial apego às rudezas da vida no deserto. Discreto em sua vida particular - é casado com uma só mulher, que lhe deu cinco filhos - e em suas atribuições oficiais - desempenhou em silêncio e contra a vontade, desde 1965, as funções de príncipe herdeiro de Faiçal - Khaled ascendeu ao trono na semana passada sem que sejam conhecidas, sequer, suas opiniões sobre o conflito árabe-israelense, a questão do petróleo, ou as relações da Arábia Saudita com os Estados Unidos.

Em contrapartida, seu meio-irmão Fahd, de 53 anos, parece borbulhar de vitalidade em todos os sentidos. De fato, suas alegadas excentricidades com mulheres e cassinos - poucos meses atrás ele teria perdido 6 milhões de dólares nas mesas de Monte Carlo - jamais ofuscaram sua reputação de político habilidoso e administrador realista. E, embora tivesse sido educado, como seus irmãos, dentro das fronteiras sauditas e segundo os preceitos mais intransigentes do islarnismo, Fahd nem por isso revelou-se arisco ao mundo ocidental.

DIVERGÊNCIAS - Com efeito, proprietário de uma esplêndida mansão londrina com vista para o Hyde Park, piscina, elevadores, saunas e um jardim suspenso, o príncipe herdeiro demonstra inegável desenvoltura para a diplomacia internacional. Em Washington, além de conhecido pelos principais círculos do governo americano, Fahd é particularmente apreciado. Foi ele quem, em junho do ano passado, assinou o importante acordo econômico-militar entre os dois países. Foi ele, também, o representante da Arábia Saudita na Conferência do Petróleo realizada em Argel, um mês atrás.

Primeiro ministro da Educação que seu país já teve, e posteriormente nomeado ministro do Interior, o príncipe herdeiro também acumulava, até a semana passada, as funções de presidente do cobiçado Conselho Supremo de Petróleo. Uma de suas mais bem sucedidas manobras políticas consistiu, precisamente, em convencer o rei Faiçal a criar esse órgão, sob a alegação de que a questão energética era estratégica demais para estar em mãos de um só homem - clara referência ao crescente poder do czar do petróleo saudita, Ahmed Yamani, titular do crucial Ministério há doze anos.

Desde então, Fahd e Yamani têm divergido sistematicamente quanto à política petrolífera de seu país - e poucos duvidam de que o atual ministro, embora confirmado em seu cargo pelo rei Khaled, na sexta-feira última, passará por um severo crivo de agora em diante. Mas Yamani não é membro da família real e, portanto, dificilmente poderia bloquear as ambições do príncipe herdeiro. Na verdade, o único adversário em potencial no horizonte de Fahd seria, por enquanto, seu irmão mais jovem e atual ministro da Defesa, o príncipe Sultan - conhecido por seu estilo algo ríspido no trato da política.

DIVISOR DE ÁGUAS - Essas filigranas de corte são compreensíveis, quando se sabe que o centro do poder na Arábia Saudita continua sendo a colossal família real, descendente de Ibn Saud. Suas ramificações são infinitas - só o rei Faiçal tinha ao todo 420 sobrinhos com o título de emir - e, contando-se os parentes que não descendem diretamente do clã principal, a família chega a reunir talvez 5.000 pessoas. Dessas, pelo menos 2.000 possuem títulos de nobreza, com direito a um emprego público geralmente simbólico e um salário polpudo.

A nova geração, já educada nas melhores universidades européias e americanas, escapa muitas vezes a esse sistema parasitário e medieval. Os príncipes mais idosos, contudo, passam a maior parte de seu tempo ocupados entre falcões de caça, camelos de corrida e apostas nos cassinos do Líbano e da Europa. De qualquer forma, se a idade começa a diferenciar os estilos de vida dos incontáveis príncipes sauditas, o verdadeiro divisor de águas, em influência e poder, continua sendo o clã ao qual se pertence.

O príncipe herdeiro Fahd, por exemplo, goza da importante vantagem protocolar de chefiar o grupo Sudairi - isto é, ser o líder entre os doze filhos de Hassa Sudairi, última e mais importante das esposas de Ibn Saud. Já o novo rei pertence apenas ao ramo Jiluwi da família, com cotação nitidamente inferior à dos irmãos Sudairi. São distinções que começam a ser estudadas com aplicação no Ocidente - hoje em dia já há sauditólogos, e a corte de Riad desperta maior interesse no mundo ocidental do que qualquer outra da Europa.

NOVO PAÍS - De fato, até alguns anos atrás, o assassínio do rei Faiçal seria recebido nas capitais ocidentais com pouco mais do que uma neutra curiosidade em torno de um remoto país muçulmano.

Os mais saudosistas ainda não deixariam de lembrar que em 1916, como aliado dos ingleses na I Guerra Mundial, o lendário Ibn Saud recebia do governo de Londres um subsídio de 5.000 libras mensais para fustigar os exércitos turcos às bordas do deserto. Ou, ainda, que o mesmo monarca havia vendido sua primeira concessão de petróleo à Standard Oil da Califórnia, em 1933, por 50.000 libras esterlinas em ouro.

Hoje, com uma renda anual de pelo menos 20 bilhões de dólares, tirada da venda de suas inesgotáveis reservas de petróleo, a Arábia Saudita não está, propriamente, na situação de quem precisa receber subsídios mensais, ainda mais da Inglaterra - ao contrário, tornou-se um aliado indispensável a qualquer nação em apuros financeiros. Nessa grande metamorfose, coube ao rei Faiçal, durante sua década de reinado absoluto, um papel-chave - diminuindo sensivelmente as fendas culturais e sociais que separavam esse gigantesco deserto medieval e milionário de um efetivo Estado moderno.

Embora morrendo sem ter dotado a nação de um sistema constitucional sequer embrionário, Faiçal inegavelmente modernizou alguns setores básicos do aparelho estatal - a começar pela separação entre os cofres da família real e o tesouro do país. Não que o país seja um Estado liberal. O Corão, efetivamente, ainda permanece como única lei reconhecida, e o corte da mão para os ladrões e o apedrejamento para os adúlteros, embora raros, continuam em uso. Por outro lado, as mulheres sauditas, até hoje, são forçadas a cobrir o rosto com um véu.

CENAS CORTADAS - Além disso, dada a proibição de trabalho feminino em certos setores, existem casos como o da Saudi Arabian Airlines, obrigada a recrutar suas aeromoças no Líbano. Mas a Faiçal deve ser debitado um importante passo - o de ter permitido o acesso das mulheres à educação. Hoje, no país, 200.000 meninas estão inscritas nas escolas gratuitas. E, num outro notável progresso, os rostos femininos estão liberados na TV - 300.000 aparelhos no país, nove emissoras -, a ponto de o governo saudita poder importar enlatados estrangeiros, como "I Love Lucy" e "Bonanza", de grande sucesso popular.

As cenas de beijos ou de bebidas alcoólicas, é verdade, continuam sendo cortadas. Mas isso é normal num país que, apesar das últimas aberturas, continua basicamente conservador e fiel cumpridor da lei muçulmana. E que, a julgar pelo pensamento político do novo homem forte do regime, pretende continuar assim durante mais algum tempo. "Enquanto um povo tiver tudo o que necessita, quer seja numa monarquia ou numa república, ele não se sentirá tentado por ideologias radicais e estrangeiras", declarou o príncipe Fahd recentemente.

Seguindo este princípio, Fahd tem se dedicado a supervisionar a injeção de bilhões de petrodólares na economia interna da Arábia Saudita. Por via das dúvidas, entretanto, é de supor que tanto ele quanto o rei Khaled não deixem de cortejar os outros três sustentáculos do regime: a polícia, os 36.000 homens do Exército e sobretudo os 26.000 integrantes da Guarda Nacional - também conhecida como "Exército Branco", constituído exclusivamente de beduínos leais à família real e que formariam um eventual contrapeso às forças regulares.

DIVIDENDOS POLÍTICOS - A possibilidade de uma revolução na Arábia Saudita, na verdade, não é uma especulação recente, alimentada pelo desaparecimento do rei Faiçal. Sobretudo na década de 60, quando o presidente Nasser se colocou virtualmente em guerra com Riad, através do Iêmen, essa hipótese assumiu contornos quase reais. As vulnerabilidades do reino sempre estiveram a descoberto - poder autocrático, dependência em setores-chave de uma mão-de-obra estrangeira e politizada e isolamento absoluto dos demais países árabes, que são republicanos, esquerdistas, ou, pelo menos, mais democráticos.

Até a semana passada, entretanto, a própria personalidade do rei Faiçal ajudava a Arábia Saudita a manter seu lugar de respeito e liderança no mundo islâmico. Embora impopular junto aos árabes mais liberais pelo seu exercício absoluto do poder, sua autoridade como estadista era amplamente reconhecida. E, mais que qualquer outra coisa, sua calculada generosidade financeira para com os palestinos, aliada à sua real determinação em recuperar os lugares santos de Jerusalém, trouxe-lhe rendosos dividendos políticos junto aos paises-irmãos mais renitentes.

É nesse terreno, talvez, que a mudança de guarda em Riad poderá passar por sua primeira grande prova. Com efeito, o novo rei Khaled e o príncipe Fahd provavelmente não demonstrarão o mesmo zelo apaixonado para recuperar Jerusalém e liderar o mundo muçulmano, o príncipe herdeiro é considerado mais pragmático e menos ideológico - e além disso não dispõe do carisma de Faiçal junto aos demais dirigentes árabes para cimentar uma posição comum no conflito com Israel.

SUPERMERCADO - "Sua concepção sobre o Estado judeu é ortodoxa", observou um diplomata ocidental em Riad. "Mas o príncipe não tem experiência em assuntos externos e, por enquanto, deverá se limitar a apoiar o que o presidente egípcio fizer, e assim mesmo com uma cautela extremada." Sadat, por sua vez, sem poder mais contar com o apoio de Faiçal, nem com os milagres da diplomacia de Kissinger, na qual jogou por uma reciclagem político-diplomática - e, nesse caso, o calor do apoio saudita pode sofrer bruscos esfriamentos.

É possível, de fato, que o presidente do Egito se esqueça das rixas do passado e abra os braços novamente para a União Soviética. Significativamente, o secretário geral do PC soviético, Leonid Brejnev, decidiu afinal iniciar sua protelada visita ao Cairo. Decerto, além de armas, levará ao Egito planos para a próxima conferência de paz de Genebra - uma conferência que, os israelenses, na semana passada, já estavam chamando de "supermercado de propaganda e extremismo".

Segundo o próprio secretário de Estado americano, a influência de Faiçal havia sido decisiva para a obtenção dos acordos de paz parciais do ano passado. Foi o monarca saudita, por exemplo, quem persuadiu a intransigente Síria a concordar com o acordo de separação de tropas no Golan. Mas essa autoridade já parece pertencer ao passado. As expectativas criadas pela morte de Faiçal e o malogro de Kissinger - que retornou a Washington dois dias antes do atentado saudita, com desilusões e lágrimas nos olhos - criavam, no final da semana, as condições para que o ciclo de tensão volte à ordem do dia no Oriente Médio. Uma tensão já expressa pela imagem de jovens andando nas ruas de Telavive com um rádio de pilha no ouvido - para ouvir uma eventual chamada à mobilização.


 
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