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Reportagens 1º de setembro de 1982Japão, o número um Com uma indústria que vende
"Toda civilização flutua e conhece picos e declínios. Os melhores trabalhos Um teste de questões internacionais para quem vive na década de 80: qual o país do Oriente que apresenta o maior desafio para a liderança mundial que os Estados Unidos exercem no capitalismo? Quem disse China está pelo menos dez anos atrasado. A resposta correta é o Japão. Detonado a partir do início da década de 70, o fenômeno vai tomando contornos cada vez mais claros, e nada tem a ver com rivalidades no campo ideológico. Ao contrário, a principal ameaça à supremacia do capitalismo americano vem hoje de outro capitalismo, que mostra crescentes ambições de provar que funciona melhor, apresenta mais soluções para os problemas e tem maior capacidade de transformar o mundo contemporâneo. Com isso seria mais capaz, também, de moldar o futuro. A superioridade econômica caminha sem parar sobre a superfície da Terra. Esteve em Florença no século XV, depois passou rapidamente pela Península Ibérica, atravessou a região de Flandres e se acomodou por muito tempo, até o fim do século XIX, na Inglaterra. Em seguida, transferiu-se para os Estados Unidos e ali se deixou ficar tanto tempo, quase todo o século XX, que os seus contemporâneos se habituaram à idéia de que não iria mais se mover. Mas ela está em marcha outra vez, agora rumo ao Japão, a primeira potência industrial do século XXI - e, nesse caminho, o passo decisivo para os japoneses foi conquistar nos últimos anos uma posição imbatível no campo da alta tecnologia baseada na eletrônica (veja reportagem seguinte). Através dela, vai ganhando volume uma estonteante revolução, provavelmente a mais vital de todas as que podem alterar a vida do homem moderno - pois sobre essa disparada tecnológica, e o progresso econômico daí decorrente, estão sendo construídos os alicerces de uma nova civilização. Nessa arrancada, o Japão passou a "número 1", o que implica, é claro, a constatação de que os Estados Unidos foram destronados para "número 2". O mundo, e nele especialmente os americanos e japoneses, ainda não se acostumou ao choque provocado por isso. No Japão, emergem reações antagônicas de euforia e cautela. Há um livro sobre o predomínio tecnológico nacional escrito pelo professor Masanori Moritani, da Universidade de Tóquio, que ameaça os homens de negócio ocidentais com a necessidade de aprender daqui a alguns anos o idioma japonês, futura língua universal do comércio. E há prudentes como o velho Toshio Doko, ex-presidente da Keidanren, a Federação das Organizações Econômicas do Japão, e hoje, aos 85 anos, conselheiro do primeiro-ministro Zenko Suzuki para uma reforma do governo. Doko, uma das vozes mais respeitadas de seu país, recomenda seriamente que os industriais do Japão contenham suas exportações para os Estados Unidos e a Europa, para não espalhar por esses lugares crises de produção e desemprego. "O Japão sempre precisará comprar e vender", diz ele. "Não adianta nada ser o primeiro de um mundo falido." Mais renda - Do outro lado do Oceano Pacífico, a descoberta de que os EUA estão sendo desafiados não por um país comunista disposto a provar que o sistema capitalista não funciona, mas por um país ultracapitalista em condições de provar que o seu capitalismo pode funcionar melhor, continua dura de digerir. Em Detroit, onde a invasão de carros Datsun, Toyota e Honda é acusada de ter atirado no desemprego quase 250 000 trabalhadores da indústria automobilística, modelos importados não são mais admitidos nos estacionamentos. Mas, como são melhores e mais baratos, continuam entrando nos EUA em fluxo crescente. Em julho, os americanos compraram cerca de 150 000 automóveis japoneses, 3 vezes o total produzido, no mesmo mês, pelo conjunto das montadoras instaladas no Brasil. Ao mesmo tempo, em Tóquio, a loteria de verão lançava como promoção especial o sorteio de um carro Mustang, da Ford americana, por semana. Título da notícia no jornal Japan Times: "Já que não dá para vender..."Naturalmente, deve-se levar em conta o monumental tamanho da economia americana, com seu PNB de 3 trilhões de dólares e sua até agora inesgotável vitalidade, antes de decretar a falência do modelo americano. Mas existem números oficiais, do Conselho Econômico japonês, para dizer que no ano 2000 a renda per capita no país terá passado de longe a americana: 21 200 dólares a do Japão, contra 17 000 a dos EUA. Até lá, de acordo com a mesma fonte, o PNB japonês crescerá todos os anos a uma taxa no mínimo 2% superior à americana. Em 1982, só nos seis primeiros meses, a balança comercial entre os dois pende em mais de 11 bilhões de dólares a favor do Japão. Margem de lucro - Visto mais de perto, é verdade, o quadro tem nuances. Em julho, a Agência para a Ciência e a Tecnologia Industrial, em Tóquio, publicou um rol de 182 tópicos pelos quais se pode aferir o desempenho de um parque industrial atualmente. O estudo concluía que o Japão já está na frente em 54 deles, os EUA em 72. No resto, ou deu empate ou a classificação se pulverizou entre vários países da Europa. O eloqüente, nessa lista, é que o Japão vence em modalidades que dão mais lucro, como os ramos de produtos eletrônicos, automóveis, plásticos e cerâmicas - termo que não deve induzir ninguém a pensar em potes de barro, pois se trata hoje em dia do campo mais promissor na pesquisa de novos materiais, capazes mesmo de encerrar, segundo o Mitsubishi Research Institute, a "idade da metalurgia", um período que a humanidade atravessa desde que saiu do neolítico. No ano passado, a Kyoto Ceramics apresentou um motor de automóvel, experimental, feito em cerâmica - é mais leve, mais barato que o convencional e tão resistente ao calor a ponto de dispensar qualquer sistema de refrigeração. Esse motor, adotado hoje, traria 20% em economia de combustível.Em contraste, os EUA dominam setores como a aviação, a indústria bélica, as comunicações por satélite, os programas para computadores, o uso do raio laser e as pesquisas das chamadas "ciências da vida", como a biologia, a genética e o alto saber farmacêutico, através das quais se persegue, por exemplo, a cura do câncer. São itens de indiscutível importância tecnológica, mas, salvo no caso de certos medicamentos, dificilmente geram artigos capazes de serem disseminados pelo planeta no varejo, ao ritmo de milhões de unidades. É significativo, por isso, que o Japão ainda agora tenha uma conta acumulada em aproximadamente 10 bilhões de dólares com os EUA pelo pagamento de royalties e patentes. Mas paga essa despesa, com vasta margem de lucro, vendendo para os americanos coisas que são, em última análise, o fruto industrial de sua criatividade na pesquisa pura. Ideologia do Trabalho - A verdade é que o Japão, neste começo de década, deixou para sempre de ser encarado como possível modelo para economias em desenvolvimento, convertendo-se, isso sim, em espelho das economias desenvolvidas. No primeiro caso, que andou em voga pelos anos 60, supunha-se que o segredo japonês fosse uma mistura de trabalho barato com disciplina política - ideal, portanto, para países pobres. Ao aplicar a fórmula, o Terceiro Mundo mostrou que tinha entendido bem pouco o que se passava no Japão. Confundiu trabalho a baixo custo - por causa da produtividade e de um esforço nacional em viver de cintos apertados - com salários miseráveis, confundiu disciplina com ditadura. Resultados: em lugar de uma democracia rica, ocupada por uma das sociedades mais homogêneas que o capitalismo já foi capaz de gerar, fizeram ditaduras endividadas e pobres, dilaceradas politicamente pelo desequilíbrio interno de renda.Uma das chaves desse equívoco é que os estudiosos do Japão naquela época, como na história do grupo de cegos descrevendo um elefante, agarraram uma cauda do sistema japonês e julgaram que estava no papo o bicho todo. Os baixos salários de então decorriam da pobreza geral do país, e não da exploração deliberada da mão-de-obra. Viviam com grande frugalidade, também, as empresas e a máquina do governo, Quando a economia japonesa começou a crescer, rebocou junto pela rampa do bem-estar social os assalariados - todos os assalariados. Acresce que, tanto na época das vacas magras como na da prosperidade, a economia japonesa sempre soube ser extraordinariamente produtiva, gerando mais quantidade e mais qualidade com menos recursos e, portanto, a custo menor - peculiaridade de uma nação onde o compromisso com o trabalho, a dedicação pessoal à empresa e o esforço em produzir sempre mais compõem uma ideologia profunda e genuinamente popular. O resultado é que o Japão apresenta hoje uma escala de riqueza tão suave , que uma de suas maiores cientistas sociais, Chie Nakane, afirma que lá se deixou para trás, sem revoluções, a sociedade de classes. Agora que o Japão virou modelo para nações desenvolvidas, busca-se a receita que possa reproduzir em outros climas a miragem das fábricas eficientes e limpas, que não sofrem greves, tocadas por operários leais que ficam no trabalho até depois da hora e jamais mudam de emprego. Atrás disso, passam hoje pelo Japão 200 000 missões empresariais por ano, de todos os tamanhos e em sua acachapante maioria americanas, para investigar in loco o paraíso industrial japonês. Atendem-nas a Associação Japonesa. Os curiosos são remetidos para um mesmo roteiro básico de empresas impecáveis - como a Matsushita. Nessa gigantesca indústria eletrônica, padrão difícil de imitar inclusive para os japoneses, os operários exibem este ano, nos bolsos de seus uniformes azuis, uma etiqueta com o sinal "10 UP". Se o visitante pergunta o que é aquilo, ouve dos funcionários a resposta de que se trata de uma iniciativa voluntária deles mesmos, para aumentar os rendimentos da firma em 10% em 1982. Cada um ajuda como pode. Quem trabalha nos escritórios, por exemplo, corta 10% em suas ligações telefônicas ou usa 10% menos de papel. É preciso fazer o homem antes de fazer o produto", ensina o octogenário fundador da casa, Konosuke Matsushita. 0 homem, aliás, já recebe tratamento diferenciado por parte do produto. No primeiro almoxarifado inteiramente robotizado do Japão, pertencente às indústrias Konishiroku e situado nos arredores de Tóquio, todos os robôs paralisam instantaneamente suas atividades se algum ser humano entrar no recinto) e tocam música até ele sair dali. O estrangeiro, se for leigo, sai boquiaberto - se for um especialista, também, como provam as fornadas de livros impressos ultimamente nos Estados Unidos sobre o estilo japonês por e para administradores de empresas. Uma ironia que pende sobre esses livros é que, se há uma categoria profissional pouco cotada no Japão, é exatamente a dos administradores de empresas. "O problema dos americanos é confiar demais neles", decreta o professor Moritani. De fato, há enquetes mostrando que, entre as grandes empresas americanas, 44% dos diretores têm diplomas em direito, economia ou administração, ao passo que no Japão 40% dos presidentes das firmas que integram o primeiro time da Bolsa de Tóquio - mais de 1 000 sociedades acionárias - são engenheiros. A diferença, explica Takashi Suzuki, editor do Nihon Keizai Shimbun, o maior jornal especializado em economia no país, com a chocante tiragem diária de 4,5 milhões de exemplares, "é que o engenheiro sabe precisamente como aplicar, na prática da oficina, uma idéia que ele teve no laboratório". Explicações - Suzuki demonstra sua tese com o exemplo da Fanuc, indústria eletrônica que foi criada há setenta anos com assistência técnica da Siemens alemã. Atualmente, essa empresa fabrica robôs e vende para a Siemens, que os distribui na Alemanha como se fossem feitos por ela. "Um dia eu ouvi de um grupo alemão a pergunta 'Por que isso?' Eu lhes disse que isso ocorre por não haver aqui a distinção ocidental entre cientista, técnico e operário. O engenheiro que participa da elaboração de um projeto é o mesmo que vai depois para a linha de montagem, supervisionar sua produção. Assim, as idéias evoluem mais depressa."Na Sony, uma verdadeira usina de novidades eletrônicas, o diretor Akira Endo vai ainda mais longe, quando lhe indagam sobre o número de pesquisadores empregados na equipe de projetos: "Não sei, é todo mundo, porque na Sony todos os diretores são engenheiros, à exceção de um, que é barítono". Ele conta que, todas as terças-feiras, se reúnem os proprietários para discutir sugestões. "Nessas ocasiões", segundo Akira, "qualquer funcionário que tenha uma idéia nova pode entrar e expô-la. Se for convincente, a empresa financia o desenvolvimento do projeto, às vezes incompatível com sua linha comercial. Isso aconteceu no ano passado, quando a Sony custeou a invenção do Chorocco, um carrinho de pilha que corre sobre o sulco dos discos comuns e reproduz o som que estiver gravado nele. Como era perfeitamente inútil, depois de pronto foi vendido para uma fábrica de brinquedos. O desdém dos japoneses pelas teorias da administração não quer dizer que, ao examinar o sucesso de sua indústria, a safra de livros especializados não identificasse características nacionais que influenciam e mesmo determinam sua produtividade. Elas estão lá - apenas não têm para os japoneses, freqüentemente, o peso que o Ocidente lhes atribui. Eis algumas das explicações mais notórias, devidamente filtradas pela experiência japonesa:
Poder aquisitivo - A lista eventualmente poderia ir adiante, mas sob pena de, mostrando à exaustão o que, segundo os japoneses, não é o milagre japonês, deixar no ar a pergunta sobre o que ele efetivamente é. Nesse ponto, a resposta para a qual todas as conversas no Japão se encaminham é a influência de uma enorme classe média, que se estende quase de uma ponta a outra da sociedade, deixando raros pobres numa extremidade e poucos ricos na outra, É ela quem compra o que a indústria japonesa fabrica - pois, ao contrário do que dizem velhas lendas ocidentais, apenas 20% da produção do país é exportada, ou seja, o excedente. O resto se consome internamente, com um poder aquisitivo evidente nas ruas.Tóquio, em estonteante contraste com a cidade de dez ou quinze anos atrás, encheu-se de restaurantes de carne (um ingrediente que passou séculos ausente da dieta nacional), lojas de roupas com etiquetas exclusivas e arranha-céus - um detalhe que, lá, faz parte inseparável das melhorias gerais da qualidade de vida: enquanto moraram em habitações térreas, os japoneses sempre foram constrangidos a se espremer em casas de boneca (10 metros quadrados por pessoa), contingência de um país onde 118 milhões de pessoas têm de caber numa área equivalente à do Estado do Maranhão, quase toda ela inaproveitável e além do mais sacudida por cerca de 200 terremotos todos os anos. Essa geração de japoneses não mudou só de roupa e de casa. Mudou também de costumes e até de tipo físico. Que a estatura média de seus pais era limitada por escassez de alimentos, percebe-se em qualquer cabine de telefone público - o aparelho bate no peito de um ocidental de altura mediana. Mas, nas discotecas de Roppongi, o bairro mais boêmio e cosmopolita de Tóquio, freqüentado pelos jovens, o balcão dos bares fica a mais de 1,5 metro do chão, uma barreira que seus ancestrais teriam de escalar para pedir um uísque. Eles perderam, também, a formalidade. Aos domingos, juntam-se aos milhares para dançar nas ruas de Harajuko, num canto da cidade arejado pelo Parque de Yoyogi. "São a geração takenoko-doko, ou broto de bambu, porque germinam com uma velocidade espantosa", explica o professor Suniko Iwao, da Universidade de Tóquio. "Cinqüenta e quatro por cento dos japoneses nasceram depois da guerra e só conheceram a fartura." Idéias novas - São eles que, dentro de cinco anos, quando baterem às portas do mercado de trabalho, encontrarão as oficinas livres dos serviços indesejáveis - pois até lá, no Japão, essas tarefas estarão entregues aos robôs. "Nós tivemos mais facilidade que os países ocidentais para introduzir a robotização", esclarece Kanichi Tomita, diretor da lshikawajima, uma das pioneiras da automação, "porque não importamos, nos anos de crescimento, mão-de-obra estrangeira para as funções pesadas, desagradáveis ou monótonas. Por isso, na hora em que a Alemanha tem problemas com os turcos, os franceses com os argelinos, os ingleses com os africanos - colônias de assimilação difícil, agora que o mercado de trabalho encolheu -, o Japão tem soluções práticas com os robôs.""Sem abismos de rendas, os japoneses resolveram mais rápido seus conflitos ideológicos", afirma o ex-ministro das Relações Exteriores Saburo Okita. Hoje, segundo a polícia, há menos de 13 000 radicais militando no país, todos meticulosamente fichados. O Partido Comunista, aos sessenta anos de vida, desistiu de banir o imperador e adotou nova prioridade, conforme revela seu diretor de programa político, deputado Zenmei Matsumoto: "Queremos o voto dos pequenos empresários, que são prejudicados pelos grandes". O professor Kein'ichi Odawara, das universidades de Tóquio e Sophia, comenta que seus alunos de Economia aos poucos se desinteressaram pela teoria marxista. "Pelo marxismo", justifica Odawara, "o Japão tinha que dar errado há vinte anos. Não deu. O mundo comunista tinha que dar certo. Não deu. Então é preciso admitir que há mais curiosidade por novas idéias que possam conferir com a realidade." Odawara, por coincidência, há mais de dez anos escreve livros sobre a falência do capitalismo americano - e, por extensão, do ocidental. Mas é bem mais do que mera coincidência o fato de que dá aulas no país a que provavelmente caberá o encargo de liderar o capitalismo nos próximos anos. |
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