BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



1º de junho de 1977
Viagem para a
democracia

 

Beato ou anarquista. Agente das trevas ou da luz. Rojo ("vermelho") ou "fascista". Raramente um povo terá acumulado reputação tão grande de extremismo, ao longo de sua história, como o espanhol. Sim ou não. Intransigentemente contra ou radicalmente a favor. Sol ou sombra. "O indivíduo na Espanha está sempre em guerra com a sociedade", escreveu Herbert Matthews, cronista americano da Guerra Civil Espanhola. "O espanhol já era anarquista antes de o moderno anarquismo político e ideológico ter sido inventado."

Em poucos momentos, no entanto, esse consagrado clichê da personalidade nacional terá sido tão desmoralizado como agora. Pois o espetáculo a que se assiste, desde a morte do caudilho Francisco Franco, em novembro de 1975, é um impressionante consenso dos supostamente individualistas, irreconciliáveis espanhóis, em torno da idéia da abertura do regime e da convivência democrática. Uma a uma, desfazem-se as ataduras do antigo sistema. Os presos são soltos, os exilados voltam. As idéias começam a circular e toleram-se as dissensões.

Mais importante, tudo isso tem sido feito sem choques ou sobressaltos maiores. Em primeiro lugar, o processo se faz sob o comando de um competente chefe de Estado - o rei Juan Carlos, de 39 anos. Sua execução, freqüentemente admirável, tem cabido a uma estrela montante não apenas na Espanha mas no próprio quadro político europeu - o festejado, habilíssimo primeiro-ministro Adolfo Suárez, de 45 anos. E, para tudo, há adesão da esmagadora maioria dos 35 milhões de espanhóis. "Se tudo terminar bem, a Espanha será o único país do mundo a passar de uma ditadura para uma democracia sem guerra civil nem golpes de Estado", disse Jaimei Corezzo, secretário geral do centrista Partido Popular, ao correspondente de VEJA em Madri, Eric Nepomuceno, e ao enviado especial, Sérgio de Oliveira.

"NOCHE LOCA" - Na semana passada cumpriu-se mais uma data da atual primavera democratizante espanhola - foi dado início oficial, na última terça-feira, à campanha com vistas às eleições parlamentares do próximo dia 15. Serão estas as primeiras eleições em que os espanhóis escolherão livremente seus representantes - senadores e deputados - em 41 anos. E, como se poderia prever, os partidos lançam-se com extraordinária sede à refrega. Somente na madrugada de segunda para terça-feira - hora da largada oficial da campanha - calcula-se que meio milhão de cartazes de propaganda política foram colados nos muros, apenas em Madri. Brigadas de ativistas podiam ser vistas perambulando pela cidade em busca dos espaços vazios. "Noche loca de los partidos políticos", foi a manchete, no dia seguinte, do Diario 16 - um dos principais jornais madrilenhos.

Naturalmente, também se podem entrever pontos obscuros ou ambigüidades no processo espanhol. Afinal, as Cortes - ou seja, o Parlamento - saídas da eleição do dia 15 terão poder constituinte? Ou continuarão em vigor, como agora, as Leyes Fundamentales editadas no tempo do franquismo? Esta é uma questão que os arquitetos da democratização - o presidente de gobierno Adolfo Suárez e, por trás dele, o próprio Juan Carlos - deixam prudentemente em aberto. E não se trata de um detalhe de menor importância. No caso de as novas Cortes ganharem poder constituinte, as leis poderiam ser reformadas para possibilita r a formação de um governo de acordo com o resultado das urnas. Ao contrário, se prevalecerem as Leyes Fundamentales, Adolfo Suárez, no poder há onze meses, mesmo perdendo as eleições, poderá continuar tranqüilamente no governo - até completar seu mandato de primeiro-ministro, atualmente fixado em cinco anos.

"RUPTURA NEGOCIADA" - Não é jurídica, porém, a lógica do processo espanhol - é política. É a manifesta vontade da nação, mais a sensibilidade de seus dirigentes para captá-la, que empurra o país no caminho das reformas e da liberalização. A quase unânime inclinação dos espanhóis para a democracia ficou comprovada no referendo do último dia 15 de dezembro, quando 94,2% dos eleitores votaram a favor do projeto governamental prevendo a convocação de eleições e a instituição de um Parlamento representativo em lugar das obsoletas Cortes do franquismo e seus deputados nomeados. Ao governo, por seu turno, tem cabido a condução do período de transição de forma cautelosa e gradualista. A anistia, por exemplo, vem sendo concedida a conta-gotas assim como a liberalização dos partidos obedeceu a sucessivas etapas até chegar ao momento final da legalização do Partido Comunista, no mês passado.

Não há, em suma, o mesmo açodamento de um Portugal - ou a mesma ruptura drástica com as instituições do passado. Ao contrário, assiste-se a uma "ruptura negociada", como ultimamente acostumaram-se a dizer os espanhóis. E o importante é que, nesse processo, nem mesmo a atividade dos pequenos mas ousados grupos terroristas que se movem na sociedade espanhola tem causado grandes danos aos rumos traçados pelas forças dominantes do país. "A admirável calma com que os espanhóis de vários partidos estão condenando as provocações, sem recorrer a histerismos, reduz os atentados terroristas mais a um problema social que político", disse a VEJA o escritor e sociólogo Francisco Ayala.

"BOM HUMOR AMBIENTE" - Outro intelectual - o pensador católico Julian Marías, autor do recém-lançado e bem-recebido "A Espanha Real" - acrescenta: "O cansaço de uma longa ditadura, o bom humor ambiente, a falta de hostilidade e violência na comunidade vista em seu conjunto, tudo isso faz com que os espanhóis recebam com calma e tolerância os excessos dos pequenos grupos terroristas e outros aspectos negativos, como aumentos de preços ou erros administrativos". Na verdade, ainda subsistem na sociedade espanhola, à direita e à esquerda, grupos extremistas como o Grupo de Resistência Antifascista Primeiro de Outubro (GRAPO) ou os Guerrilheiros do Cristo-Rei. E é real o temor de que se repitam atentados como a invasão de um escritório de advogados pró-comunistas e o assassínio de quatro pessoas que se encontravam no local, ou os seqüestros de Antonio Oriol y Urquijo, membro do Conselho do Reino, e do general Emilio Villaescusa - todos episódios ocorridos nos últimos cinco meses.

Tem sido unânime e imediata, no entanto, a mobilização de diferentes setores da sociedade espanhola, quando ocorre um episódio de violência, no sentido de contê-lo como manifestação patológica - e impedi-lo de produzir conseqüências políticas. Por ocasião do assassínio dos advogados, por exemplo, todos os jornais de Madri tomaram a inédita iniciativa de publicar um editorial conjunto repudiando o atentado e exortando o governo e a população a nem por isso deixarem de perseguir o projeto democrático. Ao mesmo tempo, nota-se um sensível propósito, da parte dos partidos políticos, de optar não pela radicalização - mas pelos apelos tranqüilizadores. "Eleição serena e responsável" é o slogan que se lê num dos cartazes eleitorais da Aliança Popular, partido situado à direita do leque político espanhol. Como fundo, aparece um largo e tranqüilo oceano. Enquanto isso, do lado oposto do espectro partidário, o Partido Comunista Espanhol, do "eurocomunizado" secretário geral Santiago Carrillo, replica: "Não tenha medo. Apostamos na democracia".

ATRAÇÃO TURÍSTICA - A preocupação em afastar qualquer resquício de medo pela aventura democrática, aliás, pode ser sentida também da parte do próprio governo. "Não há razão para ter medo de nada", já dissera na televisão o infatigável primeiro-ministro Adolfo Suárez, ao apresentar o projeto de aberturas democráticas que acabou sendo aprovado no referendo. "O único medo racional que deve nos assaltar é o medo do próprio medo", acrescentara, citando Franklin Roosevelt. Mesmo assim, continuaram sempre a espocar aqui e ali, da parte dos setores mais empedernidos da sociedade, advertências variadas contra os supostos riscos da liberalização. E, além de argumentos como os sovados alertas contra um hipotético aumento do terrorismo, em caso de se prosseguir nas reformas, houve também tentativas mais originais. Foi o caso, por exemplo, das vozes que se expressaram contra a marcação das eleições para esta primavera-verão porque elas poderiam "afugentar os turistas" - a massa de mais de 30 milhões de europeus que todos os anos, invadindo as praias espanholas, deixam no país quantia nunca menor que 3 bilhões de dólares.

Ao contrário, argumentou-se como resposta, as eleições poderiam ser utilizadas como mais uma atração turística para a Espanha. "Jamais", comparou um jornal, "desde a expulsão dos mouros ou a corte de Filipe II, a Espanha pôde oferecer algo de mais original." O mesmo jornal acrescentou que, da mesma forma como se imprimem cartazes reproduzindo os toureiros de Goya ou o sol de Málaga, para propagar os encantos da Espanha, poderia ser iniciada uma série mostrando um espanhol diante das urnas. "Veja votar um espanhol", seria a legenda. Na realidade, tudo isso demonstra a maneira firme, sem precipitações nem triunfalismos, com que os espanhóis enfrentam sua primavera democrática. Nas bancas de jornais ou nas livrarias, florescem manuais com títulos como "O que São Eleições Livres" ou "Como Funciona o Regime Parlamentar". Na rádio estatal, há poucos dias, foi levado ao ar um programa onde se expunha, com notável imparcialidade, as diferenças entre os conceitos de "direita" e "esquerda". "Por muito menos, no passado, jornalistas foram presos e jornais fechados", comenta Alfonso Palomares, diretor da revista Posible.

"IMAGEM DEFORMADA" - Como se explicaria a maneira pacífica como os espanhóis até agora têm vivido a transição? "Eu não me surpreendo. Sempre achei que nada de dramático ocorreria na Espanha após a morte de Franco", declarou a VEJA o sociólogo espanhol Juan Lins, professor na universidade americana de Yale e celebrado especialista em regimes de força, atualmente em Madri para acompanhar o processo de liberalização. "A ditadura franquista criou uma imagem deformada dos espanhóis", acrescenta Lins, "baseada no pressuposto, comum a todo regime autoritário, de que sem um governo forte haveria anarquia e a sociedade se desorganizaria." Com sua larga experiência sobre o tema, codificada em diversos livros, o sociólogo argumenta que a Espanha de hoje "é muito diferente" da Espanha dos tempos da guerra civil, "Para começar", diz Lins, "dois terços dos espanhóis não viveram os conflitos responsáveis pela guerra e, portanto, não interiorizaram questões ideológicas, ódios e problemas do passado."

Há ainda outros indicadores a assinalar as diferenças entre a velha e a nova Espanha. De um país essencialmente agrícola e em certos setores até mesmo primitivo, na década de 30, a Espanha de hoje evoluiu para um índice de urbanização superior ao da maioria dos países do Mercado Comum Europeu - mais de metade da população espanhola, atualmente, vive em cidades de mais de 20 000 habitantes. 0 turismo, mais as maciças inversões estrangeiras, proporcionou, a partir da década de 60, um período de "milagre econômico" em que o país cresceu a mais de 6% ao ano. E, apesar de o progresso ter refreado desde a crise do petróleo de 1974, a ponto de no ano passado o PNB ter subido apefias 1,7%, nem por isso foi prejudicado o quadro geral de afluência e modemização. Hoje, na Espanha, há perto de 1,5 milhão de alunos matriculados nas escolas secundárias contra 325 000 em 1956. Nas escolas superiores, esse número subiu de 77 000, em 1960, para mais de 250 000 atualmente. Uma nova, sofisticada camada de tecnocratas passou a permear o mundo dos negócios em Madri ou Barcelona. E, par a par com o crescimento de sua renda para mais de 2 000 dólares anuais, os espanhóis passaram a ter expectativas culturais e políticas mais abertas que em qualquer outra época.

"CANDIDATO DO REI" - De qualquer forma, tem sido extraordinariamente importante, para a tranqüilidade deste período de transição espanhol, o fato de o país estar sob a condução de um chefe de Estado acima das paixões e das suspeitas, como o rei Juan Carlos, e de um chefe de governo com a argúcia e a competência de Adolfoo Suárez. De fato, a instituição monárquica, a princípio encarada com desconfiança, quando não como um completo artificialismo, para um país como a Espanha, acabou revelando-se eficiente, pelo menos até agora, em seu papel de encamar a continuidade e a segurança do Estado. E a Espanha teve a boa sorte de ganhar, em Juan Carlos, alguém que não só sentiu a necessidade de reformular as rígidas instituições herdadas do franquismo como tem sabido conduzir o processo com eficiência. "Acho que um papel muito importante tem sido exercido pelo rei", disse a VEJA o historiador Hugh Thomas, cuja famosa história da Guerra Civil Espanhola - um livro proibido durante o franquismo - já vendeu 100 000 exemplares desde que foi lançado no país, no início do ano.

Embora de maneira não declarada, Juan Carlos não deixa de ter seus interesses, inclusive, na política partidária. Ele está firmemente disposto a não deixar a condução do processo político do país escapar das forças de centro - um dos segredos de seu sucesso até agora. Exatamente por isso, ninguém duvida de que Juan Carlos esteve por trás da decisão do primeiro-ministro Suárez de concorrer às eleições. Ao lançar sua candidatura, num discurso na televisão no mês passado - durante o qual o excesso de maquilagem do primeiro-ministro deixava entrever estrias brancas sobre suas pálpebras -, Suárez aglutinou em tomo de seu nome importantes setores moderados do país e impôs-se pesadamente no centro do espectro político espanhol. Desde então passou a ser considerado, embora não oficialmente, "o candidato do rei".

"SOPA DE LETRAS" - Em geral, as forças centristas de Suárez têm sido consideradas favoritas para as eleições do dia 15 - e sua vitória daria ao primeiro-ministro uma definitiva primazia no jogo de poder da nova Espanha. "O tabuleiro político espanhol está destinado a ser dominado pela nova classe média, pelos partidos de centro", disse a VEJA o democrata-cristão Heleno Sanz. "O papel dos grupos radicais de esquerda ou direita será marginal e só voltará a ter importância na medida em que os partidos do centro não souberem resolver os problemas do país." Em todo caso, não é fácil fazer prognósticos desde já. Como seria de esperar num país que atravessou quarenta anos de abstinência política, os espanhóis preparam-se para as eleições subdivididos em uma multidão de siglas e tendências - o que dificulta a avaliação das forças. Nada menos de 194 agremiações, entre partidos, movimentos ou alianças, estão registradas na Justiça Eleitoral. É a "sopa de letras", como os espanhóis batizaram o fenômeno.

Até agora, estão computados exatamente 23 371 114 eleitores, que deverão eleger, nas 43 000 mesas eleitorais, 350 deputados e 204 senadores, representantes das cinqüenta províncias espanholas e dos dois territórios africanos administrados pela Espanha - Ceuta e Melilla, ambos encravados no Marrocos. E, embora as nuanças sejam infinitas, é possível distinguir, entre as várias tendências que se apresentam à luta, pelo menos quatro forças principais. Partindo-se da direita para a esquerda do espectro político, há primeiro a Aliança Popular, fundada pelo ex-ministro da Informação e ex-ministro do Interior Manuel Fraga Iribarne - um grupo que, por conter ainda outros seis ministros de Franco, é chamado de Los Siete Magníficos e identifica-se com a herança franquista. Seguem-se as forças centristas de Adolfo Suárez. Finalmente, à esquerda, situam-se os partidos socialistas - o principal dos quais é o histórico Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) - e o Partido Comunista de Carrillo e de Dolores Ibarruri, a Pasionaria, principal estrela da agremiação nos comícios.

"FUGIRAM TODOS" - Quando começaram a ser divulgadas as pesquisas eleitorais, há cerca de dois meses, a Aliança Popular de Fraga Iribarne despontou como a agremiação mais forte. Era um tempo, no entanto, em que Suárez ainda não havia anunciado sua candidatura -, e Fraga podia reivindicar alguma parcela do centro. Com o surgimento da candidatura de Suárez, Fraga foi sendo empurrado gradativamente para a direita - ao mesmo tempo que as prévias revelavam uma sensível queda em seu prestígio. Ultimamente, o nervoso, temperamental, Fraga tem revelado em seu comportamento os sinais do desgaste. Ainda recentemente, durante um comício na Galícia, cansado do slogan que ultimamente o tem perseguido em todas as aparições - "Fraga, Fraga, el pueblo no te traga" - , o líder da Aliança Popular a certa altura interrompeu seu discurso, tirou o paletó, arregaçou os punhos impecavelmente brancos e ameaçou agredir os populares que o hostilizavam. Naturalmente, a barreira de guarda-costas que o protegia impediu qualquer aproximação com os populares. Mesmo assim, Fraga se vangloriava, depois: "Nos jugamos, los doze, contra ellos, unos 600. Y se fugaram todos, como ratas".

A agressividade de Fraga ainda se revelaria pelos venenosos ataques que passou a desfechar contra Suárez, segundo ele "um companheiro de viagem dos marxistas e inimigo da paz". A retórica pesada, no entanto, em pouco o tem ajudado. Ao contrário, as pesquisas de opinião na semana passada continuavam a acusar seu naufrágio - de mais de 20%, há algumas semanas, ele afundava para 6% da preferência popular, atrás ainda dos comunistas, cujo nível tem se mantido em torno dos 7%. Enquanto isso, o próprio Suárez e o secretário geral do PSOE, Felipe González - um jovem de 35 anos que assumiu a direção do velho partido em 1974 -, despontam como as maiores estrelas individuais das eleições.

MANOBRAS DE BASTIDORES - González soube reorganizar as linhas socialistas e reafirmar seu partido como legítima expressão espanhola do movimento socialista europeu em geral. Ainda na semana passada, nos dias 22 e 23, ele promoveu uma quermesse política no campo do San Blas, em Madri, durante a qual se apresentaram, além dele próprio, outros três notáveis do socialismo mediterrâneo - o francês François Mitterrand, o italiano Bettino Craxi e o português Mário Soares. Foi um sucesso de público: cerca de 150 000 pessoas compareceram ao evento, durante seus dois dias de duração, e o PSOE conseguiu registrar 3 000 novos filiados para seu cadastro.

Suárez, por seu lado, vem se dedicando mais às manobras de bastidores - não se descuidando de aproveitar, na boa tradição política espanhola, o relaxamento das caçadas de fim de semana para compor alianças e formular táticas. Depois de se apossar da União do Centro Democrático - uma organização até então em processo de bancarrota - ele mobilizou seu ex-ministro de Obras Públicas, o engenheiro Leopoldo Calvo Sotello, para uma completa reorganização da agremiação, hoje transformada em eficiente ferramenta político-eleitoral. Em seguida, foram elaboradas listas de candidatos da completa confiança de Suárez - vale dizer, do rei.

"Sinto-me empurrando um carro no qual estão montados todos os espanhóis", disse Suárez, há dias. Um seu assessor, ao mesmo tempo, acrescentava: "Conseguimos desatar tudo aquilo que Franco considerava atado e bem atado". Na verdade, a tarefa de desatar o sistema franquista equivale a superar a tese das "duas Espanhas", a divisão dos espanhóis em vencedores e vencidos, em sol y sombra, que o regime anterior perpetuava.

E não é algo cuja importância se esgota nas fronteiras espanholas. Ao contrário, ao se lançarem na inédita aventura de passar suave e ordeiramente do autoritarismo para a democracia, os espanhóis enfrentam uma missão que, se bem-sucedida, fixará um precedente para o mundo.


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |