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1º de Maio de 1974
Portugal livra-se do passado

Em apenas 18 horas, o fim
de um pesadelo político

Algumas horas antes do amanhecer da última quinta-feira, a Rádio Lisboa, entre fados e outras canções populares, fazia a estimulante promessa de premiar com 1 000 escudos quem inventasse o melhor slogan para uma firma comercial. Lisboa, com a costumeira placidez, já estava quieta, sem saber que naqueles instantes Portugal começava a viver sua mais dramática e profunda mudança no último meio século. Pois, no mesmo momento, estava indo ao ar outra canção, "Grandola, Vila Morena", com outra promessa. Era a senha para o início do movimento militar que em menos de dezoito horas derrubaria o governo do primeiro-ministro Marcello Caetano e passaria o atestado de óbito em 46 anos de ditadura salazarista.

A canção falava das excelências do poder popular numa cidadezinha do Além-Tejo e, obviamente, estava proibida pela censura. Mas a rádio católica Renascença já fora previamente avisada pelo jornalista Álvaro Guerra, do jornal oposicionista A República, de que seria largamente recompensada se aceitasse transmitir a música entre 00h20 e 00h25 da última quinta-feira. Exatamente às 00h21 a canção começou a ir para o ar. E, a partir deste momento, tudo passou a correr de acordo com o previsto, com as tropas projetando-se dos quartéis para ocupar seus objetivos.

Comandado em seu nível mais alto pelo general Antônio de Spinola, um militar que usa monóculo, escreve livros e foi acometido nos últimos meses por um fulminante desgosto pelo governo, o movimento derrubou como um castelo de cartas as bases do antigo regime. Mais rápida, no entanto, e talvez ainda mais brusca foi a reação dos próprios 9 milhões de portugueses. Ainda no início da semana passada eles formavam aos olhos do mundo um povo envelhecido de imigrantes, sem planos para o futuro, vivendo numa nação entorpecida pela censura e pelo eterno pesadelo colonial. Mas, antes que a semana acabasse, relata o enviado especial de VEJA a Lisboa, Pedro Cavalcanti, o povo estava plenamente entregue à experiência inédita de manifestar livremente seus sentimentos - e o país revelou feições absolutamente inesperadas.

Primeira vez - De fato, em apenas algumas horas, os portugueses bruscamente passaram de um universo para outro. Pela primeira vez, desde o início do velho regime, em 1928 - com a ditadura de Antônio de Oliveira Salazar, até 1968. e seu prosseguimento até a semana passada pelo infeliz Marcello Caetano - os portugueses ouviam falar em seus direitos de cidadãos.

De urna vez só, o novo governo militar, instalado sob o comando provisório do general Spinola, prometeu "a livre eleição por sufrágio direto de uma Assembléia Nacional Constituinte e a subseqüente eleição do presidente da República, e também o fim do poder da polícia política - a PIDE, rebatizada DGS, que havia estabelecido sobre o país um deprimente império de violência, terror e corrupção. As colônias africanas de Moçambique, Angola e Guiné, que há treze anos sugam o país numa guerra interminável, receberão novo tratamento. Os presos políticos foram soltos e líderes oposicionistas começaram a voltar ao país ao país já no fim da semana.

Fora de Portugal, as reações à derrubada do regime foram largamente positivas. A Espanha, parceiro ideológico mais chegado ao salazarismo, anunciou que reconheceria o novo governo, o mesmo ocorrendo por parte do entusiasmado governo da Alemanha Ocidental. Na URSS o Pravda saudou o movimento, deixando antever a possibilidade de relações normais entre Moscou e Lisboa. E, já no sábado, começavam a chegar ao Palácio das Necessidades, sede do Ministério do Exterior em Lisboa, os primeiros reconhecimentos - entre eles, o do Brasil.

Assalto ao governo - A mudança do regime, na verdade, vinha se desenhando desde o ano passado - após anos de dúvidas, o descontentamento das Forças Armadas, especialmente da parte mais jovem da oficialidade, começou a se tornar progressivamente mais concreto. Para os militares, deveriam haver alterações radicais da política africana - e inevitavelmente, no próprio regime português. No início do ano, todas essas forças começaram a gravitar em torno do general Spinola - ex-comandante na Guiné e vice-chefe do Estado-Maior do Exército, ele havia escrito um livro, "Portugal e o Futuro" (já editado no Brasil) propondo novas e mais razoáveis fórmulas de governo, num estilo em que o bom senso se mistura com um louvável conhecimento do vernáculo.

Na crise que então se seguiu, Spinola foi demitido do seu posto - e esse seria o último ato de comando do corroído regime de Marcello Caetano. De fato, o governo poderia ter caído já no dia 16 de março, quando um levante militar se organizou e se desfez. Apenas uma unidade, em Caldas da Rainha, ao norte de Lisboa, não foi avisada de que o movimento estava suspenso, e lançou uma coluna de tanques sobre a capital, onde teve de se render.

Nos 39 dias que se sucederam, entretanto, os militares se organizariam melhor. E na madrugada da última quinta-feira, depois de dada a senha, se atiraram ao assalto com sucesso integral. Nas três primeiras horas, a Escola Prática de Cavalaria de Santarém, a 70 quilômetros de Lisboa, prendeu o próprio comandante e, com um regimento blindado, tomou o rumo de Lisboa. Sempre em contato com as unidades de Caçadores-5 e Cavalaria-7, e diferentes destacamentos de Figueira da Foz, Viseu, Lamego, Mafra e Estremoz, praticamente não teve dificuldades para chegar e se instalar na capital.

Pelos subterrâneos - Na praça do Comércio, às margens do rio Tejo e centro nervoso de Lisboa, as tropas de Santarém encontrariam um vago esboço de oposição, na forma de três unidades teoricamente leais ao governo. Uma delas era o regimento de Cavalaria-7, que, sem demora, passou-se para os rebeldes. Outra, uma unidade blindada, também aderiu depois de prender o tenente-coronel que a comandava. Finalmente, um regimento comandado por um general chegou a abrir fogo, mas logo debandou pelas estreitas ruas vizinhas e nunca mais foi visto.

Sem nenhuma oposição militar, as reforçadas tropas rebeldes passaram a ocupar os principais objetivos da capital: o aeroporto de Portela de Sacavém, a Rádio-Clube e a Emissora Nacional, e a Rádio Televisão Portuguesa, privando os homens do governo de qualquer possibilidade de comunicação com eventuais forças leais. Às 4h20 da manhã, enfim, os que estavam acordados entre o milhão de habitantes de Lisboa puderam ter uma primeira idéia do que estava acontecendo. Um comunicado do movimento militar anunciava a rebelião, pedia ao povo que não saísse às ruas a intimava as forças paramilitares e a polícia a não interferir.

Começava, então, a parte decisiva do golpe. Os ministérios do Interior, Exército e Marinha já estavam em poder dos rebeldes - os ministros, reunidos no prédio do Exército, tinham fugido através de subterrâneos -, mas não as quatro principais organizações paramilitares, especialmente poderosas, que existem no país. Elas eram a última esperança do regime que desabava: a Polícia Civil, a Legião Portuguesa (uma espécie de guarda pretoriana do regime), a Guarda Nacional Republicana (originariamente uma polícia rural) e a Divisão Geral de Segurança (DGS), polícia política mais conhecida pelo antigo nome de PIDE e que dispensa apresentações.

Mar e céu - Em princípio todas estavam inclinadas a resistir, mas apenas a Guarda Republicana e a polícia política tinham condições mínimas de fazer isso. E tentaram alguma coisa. Às 10 horas, de fato, toda a ação passou a se concentrar no largo do Carmo - ali, no quartel bem abastecido de armas e munições da guarda, Marcello Caetano tinha se refugiado com alguns ministros, numa melancólica e efêmera tentativa de resistir. Ao mesmo tempo, a população se concentrava em massa nas ruas, agitada com os comunicados das rádios e os letreiros-senha ("o mar e o céu estão calmos") que continuamente interrompiam a série "Daktari" na televisão.

Crescia a tensão, e o Exército resolveu, às 15h25, dar um ultimato a Caetano - em 10 minutos a Guarda Republicana deveria render-se. Vencido o prazo, uma rajada de metralhadora foi disparada contra os portões do quartel. E justamente neste momento, quando os acontecimentos ameaçavam tomar um rumo trágico, o general Antônio de Spinola, fiel ao papel de homem providencial que sempre lhe foi atribuído, resolveu entrar em cena - aceitando o poder que seus companheiros de armas lhe ofereciam desesperadamente desde a madrugada, e que, a essa altura, Caetano estava mais do que disposto a entregar.

Febre alta - Foi o momento culminante da carreira de Spinola, 64 anos - um homem severo e ascético, capaz de mastigar biscoitos dietéticos e beber apenas água mineral num banquete, como relata um jornalista inglês que o conheceu nas colônias, ou de palmilhar, com febre alta e dores nos rins, trilhas infestadas de minas e guerrilheiros na Guiné. Spinola nasceu em Estremoz, pequena cidade do sul de Portugal, e aos 20 anos de idade iniciou uma carreira militar extremamente movimentada - que o levaria a estagiar na Alemanha nazista, combater como voluntário na Espanha ao lado das tropas de Franco e participar, como observador, da campanha alemã na Rússia, durante a última guerra, antes de encontrar sua própria guerra nas colônias portuguesas da África.

Spinola vinha combatendo em território africano desde 1961, quando foi para Angola. Sucessivamente promovido, tornou-se general em 1964 e de 1968 até 1972 foi comandante-chefe e governador da Guiné - quando, descendo de helicóptero em clareiras perigosas, presidindo reuniões onde nenhum oficial era autorizado a fumar e trabalhando das 4 horas da manhã até meia-noite, com uma interrupção na hora do almoço, formou a sua legenda de militar inquebrantável. Foi ali, também, que ele começou a ter dúvidas sobre o governo que servia.

Ao voltar em glória para a metrópole, onde recebeu a Ordem da Torre e da Palma, a mais alta de Portugal, e o cargo de vice-chefe do Estado-Maior, Spinola passou a morar com sua elegante esposa, Maria Helena, num modesto apartamento de classe média, e a pensar num novo regime. Vieram, então, o livro, sua demissão, o levante de Caldas da Rainha - e, por sua larga popularidade junto aos jovens oficiais, seus convidados mais freqüentes para jantar, o movimento que na tarde da última quinta-feira lhe entregaria o poder.

Termos de rendição - Eram mais ou menos 5 horas da tarde quando Marcello Caetano, de seu sitiado reduto do largo do Carmo, entrou em contato com ele pelo telefone. Spinola teria dito então que não comandava nenhum movimento, e que só poderia aceitar responsabilidades se "os líderes" o autorizassem. Tratava-se dos eufemismos de praxe - 45 minutos depois, o general atravessava com seu automóvel preto a multidão no largo do Carmo, sob aplausos frenéticos, e cruzava os portões do quartel da Guarda Nacional.

Durante as duas horas que se seguiram, enquanto Spinola e os militares combinavam os termos da rendição com Caetano, fez-se de tudo para afastar o povo da praça. "Acabou-se um regime que conhecemos muito bem, acabaram-se os assassínios miseráveis da PIDE", rugia através de um megafone, de uma janela do quartel, o advogado Souza Tavares, um destacado oposicionista. "Mas agora temos de cumprir nossa obrigação com os militares que nos libertaram. Esses homens estão sem dormir e comer há dezoito horas e querem terminar suas operações..."

Mas a multidão, aparentemente, estava disposta a linchar Marcello Caetano, e não recuou um passo. Entre vivas à pátria, sanduíches de queijo e coros cantando o Hino Nacional, todos pareciam dispostos a esperar. A solução finalmente encontrada foi retirar o ex-primeiro-ministro no interior de um tanque de guerra, para que em seguida alcançasse de avião um primeiro exílio na ilha da Madeira, enquanto Spinola assumia, então efetivamente e sem qualquer contestação, a gerência do governo

Em Funchal - Para um chefe de governo que a propaganda oficial e as revistas ilustradas apresentavam nos últimos seis anos como "um estadista estimado pelo povo português", não poderia haver saída mais humilhante. Durante várias horas, antes, ele ainda tentara negociar com os rebeldes, desenvolvendo desesperados esforços para salvar um governo que nunca conseguiu realmente alçar-se da mediocridade. Vacilando entre os duros da direita e os tímidos liberais que jamais ousariam atravessar a fronteira do salazarismo, Marcello Caetano encontrou no malogro de quinta-feira última o digno epitáfio de seu governo. As cenas finais do desenlace estão ainda cercadas de muitas conjecturas, mas parece certo que, ao dar por perdidas todas as esperanças de conciliação, seu temor maior era o de que se estabelecesse uma situação de anarquia revolucionária. Teria então chamado Spinola a responsabilizar-se peio governo, para evitar que caísse "nas mãos da gentalha".

Segundo testemunhas oculares, a transmissão do poder, depois que Spinola chegou ao Carmo sob aclamações populares, foi "rápida e digna". Logo após, levado para um quartel da periferia, o ex-primeiro-ministro embarcava para Funchal, na ilha da Madeira, onde - segundo boatos que correram em Lisboa - ficaria detido num estádio de futebol que tinha o seu nome. Contudo soube-se depois que lhe estavam reservadas acomodações num hotel, de onde saiu para hospedar-se na residência do governador, com ampla liberdade de movimentos.

Sem socorro - Assim, sob o ponto de vista estritamente militar, o golpe de Estado encerrou-se às 19h35 da quinta-feira. Mas haveria, ainda, alguns ajustes de contas. Enquanto Caetano deixava o largo do Carmo, a multidão começou a dispersar pelas ruas centrais da cidade - e muitos tiveram a idéia de passar em frente ao prédio da PIDE.

Repentinamente, de uma das janelas, partiram diversas rajadas de metralhadora sobre os manifestantes. Três pessoas morreram, dezenas ficaram feridas e em pouco tempo o prédio estava cercado pelo Exército. Começou, então, a última negociação do dia - a mais longa e talvez mais dramática. Às 21h25 um agente saiu do edifício com as mãos na cabeça, e andou em direção aos soldados, para o que seria a rendição.

Encostado numa parede e revistado, o agente não chegou a falar muito. Assustado com os gritos da multidão que exigia sua execução imediata, tentou fugir correndo e foi abatido a tiros pelos soldados. Ninguém procurou socorrê-lo, e houve mesmo certa dificuldade para que as autoridades recuperassem seu cadáver. Dez minutos mais tarde, enfim, outros três agentes saíram do prédio e conseguiram entregar-se sem incidentes, encerrando as operações.

No polígono - A primeira noite vinha, finalmente, trazer uma impressão de calma à cidade, que amanheceu, na sexta-feira, com o comércio fechado. Não pelo medo, mas pela animação desencadeada na rua da Misericórdia, onde os velhos bondes pintados de verde ainda correm ladeira abaixo, entre as casas coloniais com seus balcões de ferro forjado.

Por coincidência. lá estão estabelecidos, a uma dezena de metros de distância, a Aliança Nacional Popular (o partido oficial é único do regime deposto), o jornal A Época, defensor incondicional do salazarismo, o diário A República, que nas últimas décadas vinha conseguindo mostrar com dificuldade sua tendência socialista, e, finalmente. o próprio Departamento de Censura à Imprensa. A antiga PIDE, por outro lado, estava situada a apenas 200 metros dessa curiosa constelação.

Foi justamente no polígono formado por esses pontos básicos da extinta política portuguesa que, durante todo o dia de sexta-feira, uma multidão irrequieta e nervosa movimentou-se em busca de comemorações dignas dos acontecimentos da véspera. O primeiro alvo foi a sede da Aliança Popular, oportunamente abandonada por seus militantes, de onde conseguiram extrair várias lanças medievais que serviam de símbolo do movimento, juntamente com imensos retratos do ex-presidente Américo Thomaz e de Marcello Caetano em painéis de eucatex. As lanças serviram para que se improvisasse uma curiosa dança afro-lusitana, e os retratos foram despedaçados.

Arquivos saqueados - De lá. a multidão pretendia conquistar o jornal A Época, igualmente abandonado na véspera, mas dessa vez os militares se opuseram, de modo que os manifestantes tiveram de contentar-se em queimar simbolicamente vários números antigos na porta. O Departamento de Censura não foi considerado digno de qualquer proteção militar, o que fez com que antes do meio-dia os arquivos já tivessem sido alegremente saqueados pelo público e os dossiês atirados pela janela em forma de aviões de papel ou simplesmente a granel - quando não foram sumariamente levados para casa ou presenteados à imprensa estrangeira.

O reencontro dos jornalistas portugueses com a sua quase esquecida profissão foi dramático, em seu significado mais profundo. Ao meio-dia de quinta-feira, um funcionário do Serviço de Censura em Lisboa fez seu último telefonema às redações para reclamar o envio das provas tipográficas. "Mas vocês ainda estão aí?", respondeu surpreso João Gomes, 31 anos, redator do A República. A queda do regime estava praticamente consumada e já há algumas horas dezenove jornalistas, comandados pelo diretor de redação Raul Rego, haviam iniciado o que Gomes chamou. de "uma aventura": escrever, pela primeira vez em mais de quarenta anos, notícias sobre o que realmente estava acontecendo no país.

Dobro da tiragem - "O ambiente", contou Gomes a VEJA, "era de euforia nas ruas, com as tropas sendo aclamadas pelo povo. Na redação, estávamos todos perplexos, como sem poder acreditar no que estávamos fazendo. Às 17h11 saiu a primeira edição do jornal liberado, com uma venda de 85 000 exemplares - o dobro da tiragem normal.

Exausto pela noite em claro e pelas sucessivas edições extraordinárias, João Gomes fixava seu próprio artigo estampado na edição da tarde de sexta-feira repetindo atonitamente a frase "saiu o que eu escrevi", como se se tratasse de algum fenômeno meteorológico inexplicável. "Essa é a primeira vez que nos sentimos realmente jornalistas", comentou. "Mas teremos de nascer de novo, profissionalmente. Estamos completamente deformados pela censura e, sobretudo, pela autocensura".

Sinais de impaciência - As próprias manchetes das primeiras edições de sexta-feira devem ter parecido inexplicáveis a bom número de portugueses - a começar pela enumeração dos seis pontos do programa proposto pela Junta de Salvação Nacional: extinção imediata da polícia política, anistia imediata para todos os presos políticos, abolição da censura à imprensa, reorganização e saneamento das Forças Armadas, combate eficaz à corrupção, permissão para a formação de agrupamentos políticos.

Como se tudo isso não bastasse, a própria televisão controlada pelo Estado começara, já no dia anterior, a adotar uma linha de informação mais ágil: todo o desenrolar do golpe, filmado nas ruas, foi exibido durante os noticiários, e o próprio general Spinola, com sua voz fina e cadenciada, apareceu na tela para reafirmar aos portugueses a essência da nova era que se iniciava para o país.

Nos setores financeiro e econômico, o movimento da Junta de Salvação Nacional foi recebido, não por razões ideológicas, mas sim práticas, como uma fatalidade necessária. Convencidos de que a política anterior desembocaria, algum dia, na derrota militar e na perda pura e simples de suas propriedades nas colônias, a Companhia União Fabril (que representa cerca de 10% de todo o investimento industrial do país), a Champalimaud (segundo grupo mais importante) e a Gulf Oil Company, que controla a maior parte da produção de petróleo de Angola, já haviam dado sinais de impaciência para com o governo deposto.

Os industriais também andavam fartos das contínuas extorsões de dinheiro da PIDE. Segundo um industrial português que viajava com o correspondente de VEJA, tornara-se praticamente impossível escapar das taxas de proteção exigidas por um exército de 20 000 informantes da organização, aos quais Caetano havia cortado a remuneração no início de seu governo.

No plano político, passada a explosão do alívio, todas as incertezas parecem se justificar. Segundo fontes chegadas a Spinola, as possibilidades de êxito da abertura anunciada pela junta depende dos próprios portugueses. Manifestações incontroladas de rua e atividades políticas de extrema esquerda, dizem as mesmas fontes, poderiam resultar no cancelamento das reformas prometidas por Spinola. Isso se refere em particular à anunciada legislação dos partidos políticos - e, sobretudo, à atuação do Partido Comunista, proscrito desde 1928.

Greve geral - De fato, na semana passada, já se notava alguma atividade clandestina do PC para "forçar um confronto decisivo com o capitalismo" - as primeiras inscrições desse slogan começaram a aparecer nos muros de Lisboa. Quanto à greve geral e passeata maciça programada pelo PC, para a próxima semana, é de se supor que tenham sido canceladas voluntariamente por seus organizadores.

Por outro lado, a perspectiva de ver nomeado dentro de duas ou três semanas um presidente provisório - a quem Spinola, segundo as previsões mais ponderadas, entregaria o poder para resguardar-se para as futuras eleições presidenciais -, que deverá organizar eleições gerais no país, desnorteia os portugueses habituados às designações inapeláveis do salazarismo. Por enquanto, dois nomes são mais citados para ocupar essa presidência temporária. O primeiro é o general Francisco Costa Gomes, aliado de Spinola na publicação do polêmico livro "Portugal e o Futuro" e demitido por Caetano do posto de chefe do Estado-Maior há seis semanas. O outro é o professor Veiga Simão, formado em Cambridge e amigo de longa data de Spinola, cujas reformas educacionais provocaram a ira da direita portuguesa. De qualquer forma, parece muito provável que o próprio Spinola prefira manter-se como simples eminência parda ou, no máximo, vice-presidente nessa fase transitória.

Retornar ao país - O único outro nome generosamente mencionado na avalancha de cogitações políticas, é o do advogado Mário Soares, secretário-geral do Partido Socialista, e asilado desde 1970 em Paris, para o cargo de ministro das Relações Exteriores. Soares, 49 anos de idade, encontrava-se em Colônia, na Alemanha, ao tomar conhecimento das primeiras notícias de Lisboa, pouco antes das 7 horas da manhã. Mas já no início da tarde esse veterano de doze estadias nas prisões portuguesas chegava a Paris.

imediatamente, seu pequeno apartamento no Boulevard Garibaldi transformou-se num movimentado QG onde Soares era disputado com igual vigor pelos membros de seu partido, em busca de orientação, e por uma dezena de jornalistas, à espera de entrevistas.

"Depois de estudarmos os movimentos dos capitães", declarou ele a Paulo Sotero, de VEJA,"e à luz das informações que temos, consideramos a queda do governo fascista e colonialista como um fato altamente positivo, que poderá levar à instalação do regime democrático. Nesse sentido, estamos dispostos a retornar ao país imediatamente e a participar do esforço nacional."

Pressentimentos - Prudente, Soares recusou-se a analisar a composição da Junta de Salvação Nacional. "Esse é um momento de unidade de todas as forças democráticas", declarou, "sem distinção de credo." Para o líder socialista, um dos poucos momentos de descontração foi o telefonema que recebeu de D. Maria Pia de Bragança, pretendente ao trono português, filha do penúltimo rei de Portugal, D. Carlos, exilada em Paris. Finalmente, as 9 horas da manhã de sábado, Mário Soares despediu-se do exílio na Gare de Lyon, ao embarcar no trem que o levaria a Lisboa. "As repercussões na África podem ser graves", disse a VEJA. "Não temos muitas informações a respeito, e isso me preocupa."

Poucas horas mais tarde, confirmando os pressentimentos do líder socialista, os movimentos nacionalistas africanos manifestavam suas reservas quanto às intenções do novo governo português. Na Guiné, que em 1973 proclamou a independência, e onde a guerrilha conseguiu os seus melhores resultados até agora, Spinola foi mais uma vez responsabilizado pela morte, em outubro de 1973, de Amílcar Cabral, líder do partido guerrilheiro. Em Moçambique, onde também o acusam pelo assassinato de Eduardo Mondlane, outro destacado líder nacionalista africano, um porta-voz da guerrilha afirmou: "Spinola é o maior fascista que conhecemos desde Caetano".

De fato, tudo indica que o abismo colonial português está longe de ser superado e que as diferenças entre a formação política, a herança cultural e a concepção social dos militares portugueses e as dos nacionalistas africanos tornam muito difícil um entendimento. As previsíveis divergências com amplos setores da esquerda do país - silenciadas pelo júbilo dos primeiros momentos de libertação de uma ditadura - também não tardarão a aparecer no cenário nacional. Ainda assim, a decisão de romper com o passado, adaptar-se ao presente e estruturar um novo futuro, pregada pela Junta de Salvação Nacional, abre as portas para um reencontro de Portugal com uma esperançosa tentativa de solução de todos os seus problemas.

Em Paris uma visão melancólica

No bar e restaurante "L'Avenir", em Champigny-sur-Seine, 10 quilômetros ao sul de Paris, os assíduos freqüentadores de fins de tarde pediam, na quinta-feira passada, como de hábito, cerveja Sagres, sardinhas ao óleo e bolinhos de bacalhau. Mas a conversa girava em tomo de um tema inesperado - todos tinham ouvido rumores sobre a rebelião militar e faziam especulações sobre o que estaria ocorrendo. Sem demonstrar especial emoção, Antônio Pereira, dono do bar e próspero imigrante estabelecido há quinze anos em Paris, onde vivem 200 000 dos 800 000 portugueses radicados na França, tentou resumir para um grupo de onze fregueses o que ouvira durante o dia, no rádio, sobre os acontecimentos "lá embaixo", como costuma referir-se a Portugal.

"Estão falando que há uma revolução contra o governo", disse. "Parece ser coisa daquele Spinola, mas não sei no que isso vai dar. " Luciano, de 25 anos e residindo há cinco em Paris, onde trabalha com mecânico, com um salário equivalente a cerca de 3 200 cruzeiros, temeu uma tragédia. "Se for como no Chile de Pinochet, aquilo vai piorar ainda mais", observou. A seu lado, Miguel, de 21 anos, comentou que a presença de militares no governo não melhoraria em nada sua situação, pois desertara do Exército.

Mas o pessimismo generalizado cedeu lugar a sorrisos desconfiados quando alguém informou ao grupo os objetivos dos militares, relata o repórter de VEJA Paulo Sotero. "Será possível, então, que o salazarismo acabou?", perguntou Manuel Antônio, pedreiro de 34 anos, que ganha mensalmente o equivalente a cerca de 3 600 cruzeiros. Menos incrédulo, um companheiro de mesa, mais jovem, observou que, um dia, o salazarismo tinha que acabar. Segundo ele, o país estava cada vez mais pobre e ninguém queria ir para o guerra.

"EU FALO FRANCÊS" - Se o salazarismo acabou ou não acabou, que diferença faz para nós?", indagou José Manuel, zelador de prédio há dez anos. Ninguém respondeu. Já na quinta cerveja, e parecendo meio embriagado, o zelador irritou-se quando VEJA pediu sua opinião. "Eu? Je parle français", disse secamente. Luciano, Miguel, Manuel, Antônio, José Manuel e outros portugueses que estavam no "Avenir" quinta-feira, deixaram Portugal nos últimos vinte anos - legalmente ou não -, fugindo às miseráveis condições de vida do Minho, na região norte, de onde quase todos são originários. E a impressão que transmitem, invariavelmente, é de melancolia.

Na França, muitos deles conseguiram o que procuravam - um emprego, quase sempre braçal. A maioria, seja por ganhar pouco ou por fazer economia - alimentando o sonho longínquo de um retorno definitivo a Portugal -, sujeita-se a viver com a família em um ou dois quartos mal aquecidos, ou num "bidonville", as favelas parisienses. Seus filhos menores geralmente falam apenas o francês e eles próprios exprimem-se num pitoresco dialeto, impregnado de palavras francesas aportuguesadas.

Aos olhos dos poucos imigrantes bem-sucedidos, como José Pereira, o proprietário do "Avenir", que goza do luxo supremo de ter um automóvel e uma televisão, Portugal transformou-se num país de turismo, onde, como ele diz, "vou todos os anos passar um mês de vacanças (férias), com minha fama (mulher) e os filhos". Para 1,6 milhão de imigrantes portugueses - vítimas inconscientes do imobilismo salazaris1a - que vivem espalhados em países europeus e no Canadá, o movimento dos militares talvez tenha ocorrido tarde demais.

A caravela ancorada

Após meio século de ditadura, um país sufocado

Para os portugueses, foi como se um mundo absolutamente novo se abrisse na semana passada pela primeira vez. Em quase meio século, podiam-se ver coisas tão extraordinárias como jornais contando o que havia de fato ocorrido na véspera, grupos de pessoas falando de política em público, policiais destituídos de poder absoluto sobre a liberdade dos cidadãos. O novo governo que se instalou em Portugal na última quinta-feira proferiu a sentença de morte do salazarismo - e, para a quase totalidade do povo português, nascida à sombra do Estado Novo, que começou a ser implantado a partir de 1926, isso significa uma experiência inteiramente desconhecida.

É o fim do período de sufocamento e estagnação mais longo já imposto a uma nação ocidental na história moderna - o regime fundado por Antônio de Oliveira Salazar - e que teimava em sobreviver à sua morte, em julho de 1970.

Durante quase meio século, o Portugal do primeiro-ministro Salazar foi praticamente um espectador passivo das grandes mudanças operadas ao seu redor. Sem conseguir jamais acertar o passo com seus vizinhos europeus, foi ficando cada vez mais para trás na marcha para o progresso - até se transformar numa relíquia vazia e depressiva de outra era.

Quando o sucessor de Salazar, Marcello Caetano, assumiu o governo em agosto de 1968, após a doença que afastou o ditador, os portugueses tinham a menor renda per capita da Europa, depois dos albaneses - 450 dólares -, o mais baixo consumo de carne, leite e eletricidade - o mais elevado índice de analfabetismo (42%), a mais alta taxa de mortalidade infantil (64,9 em 1000). O processo inflacionário, que levaria a um aumento do custo de vida entre 18% e 21% em 1973, já havia entrado em espiral, derrubando o mito da estabilidade econômica e financeira que fora a própria base do poder de Salazar.

Era um mundo agora bem diferente daquele em que a ditadura militar do general Fragoso Carmona convocara Salazar, em 1928, para sanar o caos econômico produzido por dezoito anos de anarquia política.

Mundo de fantasmas - O regime encerrado na semana passada afundou tanto no tempo que se tornou singularmente espectral. Quando foi inaugurado, com a queda da democracia republicana portuguesa - sacudida a partir do fim da monarquia, em 1910, por mais de quarenta governos e oito presidentes -, ainda havia tropas de ocupação francesas no território da Alemanha. Hitler era um agitador vulgar e aparentemente sem perspectivas, Lênin havia morrido quatro anos antes e Stálin começava a subir. O leste da Europa era uma sucessão de reinos de opereta e Chiang Kai-chek, na China, havia estabelecido seu primeiro governo no ano anterior. Ainda não havia ocorrido o catastrófico craque da Bolsa de Nova York, em 1929, o Exército americano era pouco mais que uma sonolenta repartição pública, com efetivos inferiores aos de Portugal, e Hailé Selassié somente seria coroado em 1930.

Em quase cinco décadas, esse panorama mudou vertiginosamente, vezes sem conta, enquanto somente Portugal parecia ancorado no tempo, com seu regime perdido nesse mundo de fantasmas. Quando as rédeas do poder finalmente escaparam das mãos enfermas de Salazar, a Alemanha já havia passado pela voragem destruidora de mais uma guerra e se reconstruíra integralmente, o Japão emergira de seu pesadelo imperialista demolido sob bombardeios atômicos para se transformar numa potência econômica mundial, a Pax Britannica no Oriente Médio fora substituída por um interminável conflito entre árabes e judeus. Depois de Lênin, Stálin e Kruschev, a União Soviética passou a disputar a hegemonia mundial com os Estados Unidos, a China se transformou num império do comunismo com Mao Tsé-tung, caiu a monarquia na Espanha, Grécia e outros países da Europa. O mapa da África, um imenso vazio colonial, transformou-se ao sopro do vento das mudanças numa recortada rede de países independentes.

Preço elevado - Enquanto isso, a caravela portuguesa continuava parada nas águas quietas do porto seguro prometido por Salazar. Ao assumir o poder, ele conseguiu efetivamente equilibrar as finanças do país - corte de verbas, mais fiscalização, redução drástica de todas as despesas. "Quero ser útil, não tenho a preocupação de me tornar querido", dizia então para justificar medidas draconianas de economia. Em pouco tempo, a moeda portuguesa estava saneada, em condições de competir com as mais fortes do mercado cambial, mas a um preço muito elevado: o sacrifício de investimentos vitais para o desenvolvimento de Portugal.

Imbuído de um nacionalismo obscurantista, Salazar também não quis aceitar a participação do capital estrangeiro nem mesmo nos setores em que essa contribuição seria indispensável. Assim, enquanto o mundo se industrializava e competia pelas benesses da revolução tecnológica, Portugal se retraía na agricultura e na manufatura. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, em 1965, uma população ativa de 3,068 milhões de trabalhadores concentrava 49% de seus esforços na agricultura, e somente 28% na indústria - uma situação correspondente à dos Estados Unidos em 1880 ou à da França em 1890. Mas para Salazar estava tudo certo, dentro da receita de bem-estar que prescreveu certa vez para o trabalhador português: uma casinha com azeitonas sobre a mesa e de vez em quando um pedaço de carne de carneiro e um pouco de vinho, figos no quintal - "rnuito melhor que um emprego numa fábrica e um automóvel para pagar a prestações". Enquanto isso, seu país virtualmente deixava de existir economicamente, e só era lembrado, na prática, corno um humilhante depósito de mão-de-obra barata para outras nações da Europa.

Estado corporativista - Dentro de uma limitação tão grande de aspirações, a ideologia salazarista foi-se moldando com os anos no poder - a partir de uma indisfarçável inspiração inicial nas idéias fascistas e nacional-socialistas. O próprio Salazar confessou certa vez: "Nossa ditadura é semelhante à ditadura fascista no fortalecimento da autoridade, na guerra declarada a certos princípios democráticos, no seu caráter nacionalista, na maneira como mantém a ordem social".

Nada mais natural, portanto, que Salazar fosse buscar no fascismo, na "Carta del Lavoro" de Mussolini, o modelo do "Estatuto Nacional do Trabalho" com o qual esmagou o movimento sindical português a partir de 1933. Até 1936, seu poder estava consolidado. com a eliminação de todas as resistências às idéias fundamentais do salazarismo. Era o triunfo dos proprietários de terra e de uma parte da burguesia avessa à industrialização - uma opção conseqüente da crise mundial desencadeada em 1929, mas que comprometeria o desenvolvimento do país.

Ainda no fascismo, Salazar encontrou o modelo para o seu "Estado corporativista" no qual, teoricamente, o governo ficaria a cargo dos sindicatos de trabalhadores e órgãos patronais e de classe, em vez dos representantes eleitos por determinadas áreas geográficas. Na prática, porém, o corporativismo português, como o fascista. deu apenas uma cobertura ideológica para o controle pelo governo das atividades patronais e do movimento operário.

Recursos sonegados - Ao mesmo tempo, toda atividade política foi suprimida, a despeito de algumas tentativas desesperadas da oposição para romper o monopólio da Ação Popular Nacional, o partido único oficial. Depois que o general Humberto Delgado - o primeiro oposicionista a concorrer à eleição presidencial - conseguiu expressiva votação em 1958, Salazar aboliu o voto direto a partir da reeleição do almirante Américo Thornaz, em 1965. Delgado acabaria sendo assassinado em circunstâncias misteriosas na fronteira com a Espanha, em 1965, após ter tentado inutilmente criar um movimento armado contra o regime.

0 primeiro relâmpago dessas tentativas foi o espetacular e inconseqüente seqüestro, no Atlântico, do navio português "Santa Maria", em janeiro de 1961, numa operação dirigida por outro oposicionista de renome, o capitão Henrique Galvão, que havia se ligado a Delgado. Ela deveria coincidir com a eclosão de rebeliões nas colônias africanas de Moçambique e Angola. E, dez meses depois, viria o primeiro grande golpe no colonialismo português, quando a Índia apoderou-se impunemente das possessões de Goa, Diu e Damão, encravadas em território indiano, após expulsar as tropas metropolitanas.

Salazar, porém, continuou defendendo até o fim o domínio das colônias, que rebatizou como "províncias de ultramar". Aos poucos, recurso que entesourara, sonegando ao desenvolvimento do país, passaram a ser transferidos maciçamente para o combate aos movimentos de guerrilhas surgidos a partir de 1961 em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Quando finalmente passou o governo a Marcello Caetano, mais de 40% do orçamento nacional estavam comprometidos em despesas com essa guerra, que já mobilizava no além-mar cerca de 150 000 soldados e obrigava os jovens portugueses a um interminável serviço militar de quatro anos de duração.

Dois grupos - Eram recursos financeiros e humanos drenados de uma economia que já não podia equilibrar-se apenas com malabarismos orçamentários. Afugentados pelas dificuldades econômicas e pelo fantasma de uma guerra sem perspectivas em território africano, cerca de 1,6 milhão de jovens portugueses deixaram o país em pouco mais de dez anos. A população do país, de 8 milhões, em 1960, começou a reduzir-se, a falta de mão-de-obra tornou-se um problema.

Na curta primavera política com que Marcello Caetano ensaiou a liberalização de seu início de governo, esses problemas assumiram feição progressivamente dramática, sob pressão de dois poderosos grupos, que passaram a disputar o controle da economia nacional. De um lado, os chamados conservadores - liderados pelo almirante Américo Thomaz - exigiam a continuação da guerra e da exploração das riquezas das colônias, pensando talvez beneficiar-se, em último caso, com a proclamação da independência de Moçambique e Angola por minorias brancas lá radicadas, a exemplo do que aconteceu na Rodésia. De outro lado, os "europeístas", estimulados com o resultado de um acordo de trocas com o Mercado Comum Europeu, firmado em julho de 1972, passaram a defender o término da guerra - condição indispensável para que Portugal possa ser integralmente aceito pelo MCE.

Sob dois fogos, Marcello Caetano teve de voltar atrás nas promessas de liberalização feitas em seu discurso de posse - manteve a censura à imprensa, reafirmou os princípios da política colonialista, fechou faculdades, sustentou a proibição das greves, permitiu que prosseguissem os costumeiros excessos da polícia política, a PIDE (rebatizada com o nome de Direção Geral de Segurança), contra operários, jornalistas, intelectuais e estudantes. Sem a força de Salazar e sem a tônica de mudanças, Caetano viu o regime entrar num processo de inanição - e seus seis anos de governo acabarem se transformando na agonia do salazarismo. Ele deixara intato, à frente do povo português, o inexplorado terreno da democracia. E, para toda uma geração que nunca soube como os anseios de uma nação podem ser expressados livremente, inicia-se agora uma apaixonante aventura.


 
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