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1º de março de 1972
A visita da paz

Prensados num país que
mudou, os poderosos



Desde o momento em que Richard Nixon desceu as escadas de seu 'Spirit of 76', em Pequim, até o embarque da comitiva americana para Hangchow, José Roberto Guzzo, enviado especial de VEJA à China, percorreu, hora por hora, todas as etapas desta maratona de política mundial. No sábado, embarcava para Xangai, ponto de despedida de Nixon da China. Seu relato:

Iniciada de maneira quase ascética, com uma recepção extremamente cautelosa no espaçoso aeroporto de Pequim, a visita de Richard Nixon à China foi ganhando no decorrer da semana as cores e a força de uma missão bem sucedida. E na sexta-feira, quando o presidente encerrou os cinco dias de um intenso programa na capital, o medo de um redondo malogro da viagem tinha desaparecido entre os sorrisos das duas partes e os já incontáveis brindes à saúde de Mao Tsé-tung, Nixon, Chu En-lai e à amizade sino-americana.

Recebido por Mao apenas quatro horas após pisar em Pequim - o que ninguém esperava - Nixon viu logo que os chineses estavam dispostos a ir muito longe e muito depressa na procura de um entendimento. As declarações mútuas de paz feitas por Nixon e Chu em seus primeiros discursos foram a surpresa seguinte - bem como a cobertura, extravagante para os padrões chineses, dada à visita pelo "Diário do Povo", a partir da terça-feira. Nos dias seguintes, a maratona de longas e extensas conversas diárias entre Chu e Nixon confirmou que os líderes tinham encontrado um vasto terreno para os seus debates.

Esse panorama, entretanto, permanecia oculto no momento em que o "Spirit of '76" fazia sua última e elegante evolução no céu azul do aeroporto e rodava pela pista deserta até a cerca viva de ciprestes que fecha o campo, na frente das grandes escadarias da estação de passageiros.

Na manhã clara de segunda-feira, com os termômetros marcando zero grau, Pequim dificilmente poderia parecer uma cidade que iria receber sua mais importante visita desde a fundação da República Popular. Nas ruas e no aeroporto não havia uma só bandeira americana, nenhum retrato de Nixon ou cartaz de boas-vindas - ao contrário, em dois pontos da praça Tien An Men, no ponto mais central da cidade, permaneciam em seus lugares cartazes vermelhos com letras brancas condenando o imperialismo. Os jornais nada diziam sobre a chegada. E no aeroporto a única decoração especial eram cinco grandes lanternas cor de laranja, símbolo de alegria, penduradas na entrada principal Mas elas tinham sido deixadas lá após as festas do ano novo, na semana anterior.

SECURA NA CHEGADA - Pequim, cinzenta e ocre, com suas longas e desoladas avenidas batidas pelo vento do norte e percorridas quase que exclusivamente por bicicletas e ônibus pintados de azul, vermelho e creme, não viu também nenhuma concentração popular para receber o visitante. Nas largas calçadas de terra, as únicas reuniões eram de pessoas esperando pelo ônibus ou escolares tomando sol no intervalo das aulas da manhã.

Finalmente, na estrada de Tungchi, que conduz em linha reta para o aeroporto, nos subúrbios da região leste da cidade, havia exclusivamente soldados do Exército Popular de Libertação, com suas fardas verdes de grossas mangas brancas, e todo o tráfego era constituído de motocicletas militares de dois lugares e pelos carros autorizados que tinham de passar por sucessivos controles a caminho do aeroporto.

Todo o ambiente era de um profundo comedimento, como se os chineses, totalmente incertos quanto aos resultados da visita, não quisessem se comprometer com uma recepção festiva, que se tornaria embaraçosa caso malograssem as negociações.

No aeroporto, a recepção a Nixon não poderia ter sido mais austera. Meia hora antes da chegada do Boeing presidencial, a banda militar e a guarda de honra de quinhentos homens - um efetivo rigorosamente normal para visitas de chefes de Estado, fizeram questão de frisar os chineses - entraram na pista cantando "Os Três Princípios de Disciplina e os Oito Pontos de Advertência", uma das incontáveis canções marciais inspiradas no pensamento do presidente Mao, e se postaram imóveis à espera do visitante.

Além deles, dos funcionários chineses e dos 126 jornalistas estrangeiros, não havia mais ninguém na recepção - nem mesmo representantes das sessenta embaixadas em Pequim. E em vez do longo tapete de honra, habitual em outros países, havia apenas duas discretas escadas forradas por uma passadeira vermelha e montadas na carroçaria de duas camionetas azul e branco da marca Peiching - como acontece com todos os aviões civis que pousam em Pequim.

PALMAS DISCRETAS - O que se seguiu foi uma cerimônia silenciosa, quase fria, como se o aeroporto de Pequim fosse uma sala esterilizada na qual estivesse sendo feita uma intervenção cirúrgica. Às 12h35 o avião azul e prateado de Nixon parou ao lado das escadarias que levam ao saguão - após ter recebido um "OK" do serviço de segurança americano, desembarcado em outro avião vinte minutos antes - e os principais líderes chineses, um grupo mais ou menos indistinto de velhos senhores vestidos de cinza e azul-marinho, aproximaram-se da escada do avião. No centro estava Chu En-lai, feições severas e a mão direita sempre colocada à altura da cintura.

Com ele, os outros dirigentes que iriam aparecer em todas as ocasiões da visita: Li Hsien-nien, vice-primeiro-ministro, Chi Teng-fei, ministro das Relações Exteriores; Yea Chien-ying, vice-presidente da Comissão de Defesa Nacional; e Kon Noo-jo, vice-presidente do comitê permanente do Congresso Nacional. Com Nixon já vinham o embaixador chinês na ONU e a vice-diretora do protocolo, que tinham ido receber a comitiva presidencial em Xangai, onde houve uma rápida escala antes da chegada a Pequim.

Toda a cerimônia não durou mais do que quinze minutos. Nixon desceu as escadas batendo discretas palmas em retribuição aos polidos aplausos dos líderes chineses. Dois minutos depois se perfilava para a cena longamente esperada: pela primeira vez desde 1949, o "The Star Spangled Banner", hino nacional americano, era tocado na China, por uma banda militar chinesa, sob a bandeira dos Estados Unidos. A "Marcha dos Valentes Voluntários" - canção muito popular durante a guerra contra o Japão e hoje hino nacional chinês ("Usamos nossos corpos para construir uma muralha indestrutível") - foi tocada em seguida. E Nixon, acompanhado por sua comitiva, passou em revista a guarda, antes de entrar com Pat na grande limusine vermelha de fabricação chinesa, com a banda entoando a "Canção à Pátria Socialista". Isso foi tudo o que houve em matéria de recepção.

SAINDO DO ESCURO - As três horas que se seguiram, entretanto, seriam decisivas para o destino da missão Nixon. Ao longo dos 30 quilômetros que separam o aeroporto do lago do Abismo de Jade, onde a comitiva americana ficou hospedada, o cortejo presidencial ainda estava dominado pela incerteza quanto ao resultado do primeiro dia da visita.

A estrada, atravessando campos desolados pelo inverno, rios congelados e pomares de macieiras sem folhas, estava praticamente deserta. Ao entrar na zona urbana, no bairro industrial de Chaoyang, os primeiros grupos populares começarum a aparecer - mas eram pequenos e estavam sempre bloqueados nas ruas transversais, a pelo menos 50 metros de distância das esquinas da avenida por onde passava o cortejo. Mesmo na avenida Changan, a principal de Pequim, que corta a cidade de um lado a outro, não havia concentrações importantes. E, logo após passar pelo sombrio teatro Sete de Fevereiro, a comitiva dobrou para a ampla avenida Sanliho, minutos depois cruzava os altos muros do parque que cerca o lago do Abismo de Jade, à beira do qual fica a secreta Tiao Yu-tai, a casa dos hóspedes, de tijolos amarelados. Ali, Nixon, Henry Kissinger e William Rogers iriam passar cinco dias de trabalho exaustivo, à sombra das bandeiras americana e chinesa e sob a guarda de soldados do ELP, armados com rifles e baionetas.

Depois de cruzar a ponte de pedras brancas do jardim, Nixon conversou vinte minutos com Chu En-lai e o gordo e vagamente sorridente Li Hsien-nien. A partir de então, junto com Kissinger, começou a preparar os movimentos que iriam determinar o curso da visita, passando da incerteza inicial para o terreno mais concreto das negociações objetivas sobre os problemas que se discutiriam com a China.

ENCONTRO COM MAO - O resultado dos contatos ultra-secretos, feitos a partir de meio-dia no lago de Jade, apareceu rapidamente. Às 3 horas da tarde, sem que ninguém percebesse, a limusine presidencial atravessou silenciosamente os imponentes muros vermelhos que cercam Chun Nai-hai, grande quarteirão adjacente à Cidade Proibida, onde o presidente Mao Tsé-tung vive em semi-reclusão. Nixon teve uma entrevista de duas horas com a divindade do comunismo chinês. A poucas centenas de metros dali, no Hotel das Nacionalidades, os jornalistas não sabiam de nada: o programa, cujos itens eram ocasionalmente divulgados com um mínimo de antecedência, só previa um encontro de Nixon com Chu às 16h30, no Grande Salão do Povo. Na hora prevista, entretanto, ninguém apareceu - e os jornalistas acabaram esperando na escadarias geladas da ala azul do palácio, até que Nixon finalmente surgisse, às 18 horas.

Depois de posar ao lado de Chu, diante das grandes portas de vidro no topo da escadaria, entrou no grande salão atapetado de vermelho, desaparecendo, junto com os chineses, dentro do descomunal palácio de 160.000 metros quadrados, construído na forma de uma letra chinesa - que lembra um "u" cortado horizontalmente ao meio.

O estado de espírito então já era bem diferente, os sorrisos muito mais abertos que no aeroporto. E Chu, na entrada, achou conveniente observar a Nixon que havia muitos homens velhos entre os dirigentes chineses. "Nesse ponto nós deveríamos aprender com os senhores. Há mais pessoas jovens em seu governo" - disse ele.

Nixon, com seus 59 anos, alargou ainda mais o sorriso. Antes que todos entrassem, Chu acrescentou que os americanos poderiam abordar qualquer questão que quisessem durante a entrevista.

SEGREDO 'FRANCO E SÉRIO' - Todas as questões realmente estavam em aberto desde a visita-surpresa a Mao pouco antes, à qual Chu também compareceu. Os americanólogos de Pequim, sempre preocupados em decifrar os enigmas da curiosa hierarquia do governo dos EUA, devem ter anotado o fato de que Nixon levou consigo o conselheiro Kissinger e não o secretário Rogers - em tese, o número dois de sua comitiva. Para os ocidentais, o detalhe que chamou a atenção não foi uma ausência, mas uma presença: em todas as fotos via-se, em primeiro plano, uma escarradeira de louça branca, acessório de uso generalizado no país.

O encontro Nixon-Mao era esperado. Mas em nenhum momento se pensou que pudesse vir tão rapidamente. Nada tinha sido combinado antes da chegada dos americanos e o encontro elevou imediatarnente o nível das conversações que iriam se seguir. O teor da conversa entre Mao e Nixon permaneceu desconhecido. Oficialmente, ela foi descrita como "franca e séria". Mas certamente gerou os elementos nos quais Nixon e Chu basearam suas primeiras manifestações públicas, durante o grande banquete oferecido na noite de segunda-feira pelo primeiro-ministro chinês.

O ambiente nesse banquete poderia parecer de certa forma irreal. No imenso Salão do Povo (capacidade: 5.000 pessoas sentadas), o mais santo dos lugares santos do comunismo chinês, uma vasta bandeira americana fora colocada ao lado da bandeira chinesa de cinco estrelas douradas, atrás da mesa redonda de Chu. Nixon e as principais figuras dos dois lados se sentaram para iniciar um jantar chinês com dezenas de pratos que se sucederam ininterruptamente.

As palavras dos dois líderes, antes de levantarem seus brindes de mao-tai, a forte e aromática aguardente de trigo, seriam impensáveis oito meses atrás. Chu praticamente mostrou a Nixon que está disposto ao restabelecimento das relações diplomáticas e excluiu a guerra como meio de resolver as diferenças entre os dois países. Nixon, após indicar que os resultados das negociacões de Pequim poderiam mudar o mundo e "aumentar incomensuravelmente as chances da paz mundial", propôs uma longa marcha junto com a China, "em estradas diferentes levando ao mesmo destino". E no seu brinde surpreendeu a todo mundo, com a citação famosa de Mao: "Certas tarefas gritam para ser feitas e sempre com urgência. O mundo gira. O tempo passa. Dez mil anos é muito tempo. Aproveite o dia. Aproveite a hora". Segundo Nixon, aquele era o dia e aquela era a hora de "construir um mundo novo e melhor".

EM TORNO DA MESA VERDE - Terminado o jantar, passando entre as dezenas de mesas (desde Kissinger até a tripulação do avião e os agentes de segurança, todos foram convidados), Nixon e Pat se dirigiram ao fundo do salão, ao som de "America, the Beautiful", para cumprimentar o chefe da orquestra militar que animara o banquete com velhas canções americanas e militantes melodias chinesas. "Nunca ouvi música americana tocada melhor num país estrangeiro", havia dito Nixon em seu discurso, com o terreno assim preparado. Nixon e Chu iniciaram no dia seguinte o longa série de conversas que se estenderia até sexta-feira. Os contatos anteriores tinham sido considerados mais ou menos cerimoniosos ou preparatórios. Mas na terça-feira entraram a fundo na dura discussão dos problemas concretos. Quatro horas de conferências numa longa mesa verde, numa das quarenta salas de trabalho do Salão do Povo, deixavam claro que ambos haviam aberto amplas negociações. Nixon havia dito em Guam que as conversas com Chu deveriam durar duas horas cada, mas que poderiam se estender além disso se estivessem sendo proveitosas. Assim, não havia nenhum curto-circuito em suas comunicações.

Um pouco antes que terminasse esse encontro, o "Diário do Povo" - que não tem hora certa para circular - surpreendia todos com a extensa cobertura das atividades de Nixon no dia anterior: duas páginas e meia e sete fotografias, algo nunca visto no sisudo jornal de seis páginas e 2 milhões de exemplares diários. Até então, a imprensa chinesa tinha guardado silêncio: a rádio só deu uma curta notícia da chegada de Nixon, com oito horas de atraso. E o jornal não publicara nada. Quanto à televisão, mesmo depois do degelo, sempre apresentou seus noticiários no dia seguinte ao dos acontecimentos.

A PREVISÃO DO TEMPO - O ritmo das conversações seria mantido nos dias posteriores. Na quarta-feira, na porta de sua casa, no lago de Jade, Nixon recebeu Chu com um alegre "ni hao" ("alô") quando a neve começava a cair em Pequim no início da tarde. Trocaram comentários sobre o tempo: o visitante queria saber se a neve iria impedir o passeio à Grande Muralha, programado para o dia seguinte; o anfitrião o tranqüilizou. Os dois novamente conversaram durante quatro horas, enquanto William Rogers continuava em negociações com o ministro das Relações Exteriores. Chi Teng-fei. No dia seguinte de novo Chu foi ao lago de Jade e de novo a conversa foi longa - três horas, seguidas por mais duas de jantar. No fim da tarde de sexta, finalmente, quando se encerraram os contatos de Pequim, os dois líderes tinham conversado durante um total de dezesseis horas - mais do que Nixon já discutiu com qualquer chefe de governo.

O presidente americano cumpriu também um longo programa de atividades paralelas. Foi homenageado com uma encenação especial do balé "O Destacamento Vermelho de Mulheres", no auditório do Salão do Povo. Viu uma grandiosa demonstração de ginástica no Fhoutu Tiyu Kuang, o mesmo ginásio de esportes onde tudo começou, em abril último, quando uma delegação americana de pingue-pongue foi inesperadamente convidada a se exibir em Pequim. Subiu à Grande Muralha da China e percorreu as tumbas da dinastia Ming e alguns dos 9.000 quartos do Palácio Imperial da Cidade Proibida.

No balé, Nixon e Pat aplaudiram estoicamente, ao lado da mulher de Mao, a ultra-radical Chiang Ching, uma dramática encenação de um episódio da guerra civil contra Chiang Kai-shek (numa das cenas, o rosto do generalíssimo servia de alvo para o treinamento dos milicianos), encerrada triunfalmente com todo o elenco cantando a "Internacional Comunista".

O CAMPEÃO DE PINGUE-PONGUE - "O balé tinha sua mensagem", dizia Nixon no dia seguinte a um grupo de jornalistas. "E era uma mensagem muito poderosa. Era também uni excelente teatro." A demonstração no ginásio foi menos embaraçosa. Ao lado de Chu e sob imensos retratos de Mao, Marx e Stálin, Nixon e Pat viram uma onda de bandeiras vermelhas passar pela pista, carregadas pelos atletas, após os três toques do gongo anunciando a abertura de um espetáculo de duas horas, que terminaria com uma exibição do campeão chinês de pingue-pongue.

No dia seguinte, após duas horas de viagem pelas sinuosas estradas que serpenteiam pelos montes Yen, a noroeste de Pequim, Nixon se maravilhou com a Grande Muralha da China. "Valeu a pena ter vindo só para ver a Muralha", disse ele. Abrigado de um frio abominável com um casaco de gola de pele idêntico ao de Rogers (os dois os compraram juntos em Washington), o presidente, no meio das imensidões nevadas, pela primeira vez falou aos jornalistas. Era quinta-feira e Nixon parecia especialmente otimista. "Muitas coisas que aconteceram durante esta viagem me fizeram perceber que valeu a pena ter vindo", disse ele, após observar que não queria muros entre os povos.

ESTÍMULOS ÀS VISITAS - "Talvez o resultado desta viagem seja que quaisquer muros, físicos, ideológicos ou filosóhicos, não mais dividirão os povos", concluiu Nixon. De regresso a Pequim, a comitiva visitou os túmulos Ming, e Nixon novamente se mostrou entusiasmado. "Como eu disse antes, vale a pena viajar 16.000 milhas para ver a Muralha" (na realidade são só 12.000 milhas de distância). O presidente não chegou a recomendar que os americanos comecem a pedir vistos de turista para visitar a China, mas afirmou que achava valioso pessoas de todos os países poderem fazê-lo.

Na sexta-feira, na cidade silenciosa e coberta de neve, o presidente encerrou as atividades extrapolíticas em Pequim com a obrigatória visita ao Palácio Imperial, de onde a China foi governada durante cinco séculos (até 1911). Os dois últimos dias na capital foram também os mais intensos no trabalho de colocar em forma concreta os entendimentos gerais a que se tinha chegado até então.

Na quinta-feira, Kissinger esteve desaparecido o dia todo. Sua ausência na visita à Grande Muralha e - o que era mais significativo - nas conversas entre Nixon e Chu havia levantado a suspeita de que teria ido secretamente a Hanói, ou estaria conferenciando com representantes do governo cambojano no exilio.Seu trabalho, entretanto, tinha sido o de passar para o papel as alternativas e esboços de acordos acertados até então. No dia seguinte, os líderes voltaram a se encontrar, no banquete oferecido por Nixon aos chineses - e os propósitos de paz e entendimento foram solenemente repetidos pelas duas partes.

O jantar, exceto pelo champanha Califórnia, copos da Casa Branca e cigarros americanos - em vez dos infalíveis chunghua ou panda chineses - poderia ter sido cópia do primeiro. Era o mesmo Grande Salão do Povo, o mesmo cerimonial, a mesma orquestra com as mesmas músicas - e os discursos de Nixon e Chu, na sua essência, também os mesmos.

DESPEDIDA - O anuncio de que um entendimento havia sido alcançado não veio. Ainda cautelosamente, Nixon e Chu limitaram-se a dizer que os povos da China e dos Estados Unidos deveriam aproximar-se, apesar de suas diferenças.

No sábado, Nixon deixou Pequim para cumprir a etapa final da sua visita, com uma peregrinação a Hangchow, 1.000 quilômetros ao sul da capital e retiro preferido de Mao. Espalhado em torno de lagos tranqüilos, teimosamente verde no meio do inverno, com casas graciosas e ruas estreitas, Hangchow poderia ser tido como a cidade mais bonita da China. Ali Nixon terminaria o pagamento de seu tributo à velha civilização chinesa, após as visitas às grandes relíquias históricas. Era também o lugar ideal para despedir-se de Mao. O domingo estava reservado para conhecer Xangai, a maior cidade da China, com seus 10 milhões de habitantes e agitada vida industrial.

Ao longo dos sete dias que passou na China, Nixon certamente chegou a um entendimento básico com os líderes chineses - mais amplo do que em qualquer ocasião durante os últimos 23 anos. Um mecanismo de contato permanente entre os dois países poderia ter sido estabelecido. O intercâmbio de estudantes, jornalistas e professores teria sido equacionado mais concretamente, e possivelmente as relações comerciais estariam definidas. Os resultados poderiam mesmo ter ido bem além disso. No fim de semana, falava-se até em seminormalização das relações diplomáticas.

Para a explicação detalhada do que cada uma dessas medidas significa e de que forma elas serão concretizadas, era preciso esperar pelo comunicado conjunto prometido para domingo, quando Nixon deixaria Xangai, de volta dos EUA. Poderá também vir mais tarde, através de um anúncio simultâneo nas duas capitais, como ocorreu quando se anunciou a viagem de Nixon, em julho. Ou simplesmente as providências concretas serão reveladas gradualmente.

De qualquer forma, uma frase pronunciada na manhã de sábado pelo marechal Yen Hien-ying, recém-nomeado sucessor de Lin Piao no Ministério da Defesa, é profundamente significativa. "O presidente Nixon trouxe a paz e boas colheitas. Esperamos que os povos de nossos dois países e os povos do mundo inteiro se beneficiem da paz e de abundantes colheitas".

Ao que tudo indica, os primeiros passos na direção de uma paz mundial menos instável já foram dados. E nada no horizonte faz pensar na hipótese de uma estancada ou meia-volta.


 
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