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Reportagens 1º de fevereiro de 1989O cerco do verde As queimadas da Amazônia e o
Na manhã de quarta-feira da semana passada, o governo recebeu o mais duro sinal de que há uma nova moeda nas negociações da dívida externa de 120 bilhões de dólares - o verde da Amazônia. Na Igreja de Saint Peter, em Washington, 200 pessoas se reuniram para participar de um culto ecumênico pela morte do sindicalista Chico Mendes, um seringueiro assassinado com um tiro no peito em Xapuri, no Acre, às vésperas do Natal. Mais tarde, treze parlamentares organizaram uma nova homenagem póstuma, em frente das escadarias do Capitólio, um dos mais célebres monumentos da democracia americana. Desde a posse do presidente José Sarney, esta é a primeira vez que se promove, fora do país, um ato público de repúdio ao governo brasileiro. Nos anos 70, protestava-se contra a tortura de presos políticos mas as autoridades econômicas, com os cofres cheios de dólares, fingiam não tomar conhecimento das manifestações. Em 1989, protesta-se contra a devastação da Amazônia, contra o assassinato de um sindicalista - e os cofres brasileiros estão à míngua. "Chico Mendes provou com sua morte que a preocupação com o meio ambiente é um investimento cruícial no futuro de todos os cidadãos do mundo", disse o senador Robert Kasten, de Wisconsin, o primeiro orador da cerimônia. "Para pagar um tributo a Chico Mendes nós devemos redobrar nossos esforços pela preservação das florestas tropicais", disse o ecologista William Reilly, a mais graduada voz presente à homenagem - ele foi indicado pelo presidente George Bush para chefiar a Environmental Protection Agency, o órgão do governo americano que regula a proteção ao meio ambiente nos Estados Unidos. Numa intervenção curta, o embaixador do Brasil em Washington, Marcílio Marques Moreira, comparou Chico Mendes ao célebre personagem de Cervantes, Dom Quixote, "que deu o maior presente para a purificação do mundo - ele mesmo". Para o governo brasileiro, o protesto de Washington marca um momento deprimente em matéria de eficiência policial - um mês depois do crime, a Polícia Federal continua envolvida pelos moinhos de vento das investigações que não levam a nada e dos indícios que não produzem nenhuma prova contra os suspeitos. Existe uma outra dificuldade, porém - e ela diz respeito a dinheiro, muito dinheiro. Por causa das denúncias ecológicas, as autoridades econômicas do país enfrentam dificuldades cada vez maiores para conseguir dinheiro na praça - mesmo aqueles dólares de emergência capazes de evitar uma quebra nas contas da economia. A má vontade é tamanha que, às vezes, o dinheiro não sai mesmo quando o problema ecológico não aparece de forma explícita - como acontece com uma verba de 500 milhões de dólares emperrada no Banco Mundial e que se destina a investimentos na área de energia elétrica. Ocorre que o Banco Mundial desconfia que esse dinheíro, nas mãos do governo brasileiro, possa ser gasto em outro tipo de atividade, a energia nuclear - investimento que a entidade não patrocina não por amor à natureza, mas por dispor de dados que comprovam sua inutilidade. No último final de semana, num esforço dramático para romper o cerco, o governo brasileiro tentava articular um encontro do presidente José Sarney, em Tóquio, com o presidente americano George Bush - aproveitando a oportunidade de que ambos estarão na capital japonesa no final deste mês, quando será realizado o funeral do imperador Hiroito. Também havia em Brasília, na semana passada, a esperança de que o Banco Mundial, após demoradas negociações, poderia liberar os dólares. Ainda assim, na capital federal, havia o clima de um governo em dificuldades. NA PONTA DA LÍNGUA - "É a maior pressão internacional que o Brasil já viveu ao longo de sua História", afirma o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, secretário-geral do Itamaraty. Na terça-feira da semana passada, 24 horas antes das manifestações em Washington, as autoridades brasileiras seriam submetidas a uma nova situação difícil - dentro de casa. Ao longo de um almoço no Itamaraty, o ministro Abreu Sodré fez um discurso protocolar, pedindo o apoio do país de seu convidado, o vice-ministro Rudolf Willem de Korte, da Holanda, para o eterno pesadelo da economia do país - o pagamento dos juros da dívida externa, que drenou 12 bilhões de dólares enviados para o exterior apenas em 1988. Em sua resposta, que no início parecia igualmente protocolar, Willem de Korte, que também responde pela pasta da Economia no governo holandês, teve a idéia de tocar no mesmo assunto que levou os parlamentares americanos para a frente do Capitólio - as queimadas da Amazônia. "O Brasil tem uma grande floresta tropical e uma grande dívida externa", começou De Korte. "Poderia haver algum vínculo entre as duas coisas?" Conhecido por seus modos afáveis, e por seu comportamento distraído, Abreu Sodré encarou seu convidado com uma resposta dura. "O Brasil não vai se tornar a reserva ecológica do resto da humanidade", disse. "Nosso maior compromisso é com o desenvolvimento econômico." O tom de Sodré, no almoço de terça-feira, fugiu ao minueto que marca a rotina das atividades diplomáticas - mas teve alguma coisa de teatral. Dias antes, ao receber uma delegação de parlamentares dos Estados Unidos, Sodré ouviu a mesma proposta dos visitantes - e deu a entender que concordava com a idéia. Mais tarde, descobriu-se que Sodré se enganara. Como já ocorria com seus antecessores, toda vez que uma personalidade estrangeira volta suas atenções para a Amazônia, ou por causa de suas árvores, de seu ouro ou da miséria na qual padece a maioria absoluta de seus habitantes, o governo desconfia que está em curso uma maquinação para roubá-la do resto do país - para entregá-la a padres estrangeiros ou a banqueiros internacionais. Instruído pelo Planalto, no almoço de terça-feira Sodré trazia sua resposta na ponta da língua - e o serviço de imprensa do Itamaraty se encarregou de transformar o diálogo ensaiado em notícia nos principais jornais do país. "É claro que nós pensamos que a soberania deve ser respeitada", disse Willem de Korte, bastante encabulado, quando o encontro terminou. "Mas isso nunca impediu que investíssemos na proteção do meio ambiente", acrescenta. Numa outra ocasião, o próprio presidente José Sarney enfrentou uma dificuldade semelhante - em 15 de outubro de 1988, quando se encontrou com o primeiro-ministro Michel Rocard, da França, numa rápida escala em Paris que antecedeu sua visita à União Soviética. Numa conversa reservada, Michel Rocard fez uma proposta ousada - a de que seu governo estava disposto a perdoar parte da dívida brasileira. Para isso, no entanto, havia uma condição: a de que a preservação da Amazônia deveria ser incluída no acordo e supervisionada por uma comissão de autoridades internacionais especializadas em ecologia. "Vamos estudar", despistou o presidente. Mas Rocard voltou a insistir no assunto e, então, recebeu uma resposta bem-educada - mas definitiva. "Eu não teria condições de apresentar uma proposta desse feitio ao povo brasileiro, cioso, assim como o francês, de sua soberania", disse Sarney. 'MONSTRUOSIDADE' - Uma das grandes confusões misturadas pela fumaça das queimadas na Amazônia reside nesse ponto em que convivem problemas ecológicos, uma dívida externa de 120 bilhões de dólares e uma das mais velhas palavras dos almanaques de ciência política, a soberania. A proposta de abater uma fatia da dívida extema em troca de um auxilio para a proteção ao meio ambiente já é bastante antiga e chega a ser até razoável, porque, ao menos em tese, atende a interesses de ambas as partes - tanto a da população que carrega nas costas os juros pagos aos banqueiros internacionais como aquela que se mostra cada dia mais preocupada com a proteção do meio ambiente. O problema dessa proposta é que ela é inócua. Em vários países da América Latina, como Bolívia, Costa Rica e Equador, já se promoveram projetos desse tipo, através dos quais uma entidade preservacionista adquire uma parte da dívida externa de determinado país e obtém, de seu governo, a criação de reservas que serão preservadas da destruição sem ganhar, nesse acordo, qualquer direito de propriedade sobre a área envolvida. A dificuldade é que todos esses projetos somados não ultrapassam a casa dos 100 milhões de dólares, dinheiro equivalente ao patrimônio de empresas como a Açonorte, siderúrgica de Pernambuco, e a Barretto de Araújo, da Bahia, ligada ao setor de alimentos, que se classificam em torno do 430º lugar na lista das maiores do país. Isso "Quando o governo brasileiro diz que não aceita vincular a dívida a projetos ecológicos, está cometendo uma monstruosidade diplomática", diz um dos melhores conhecedores das negociações da dívida do Terceiro Mundo na banca de Nova York. "Não custaria nada aceitar o desafio e, no lance seguinte, mostrar que os bancos não querem proteger o meio ambiente. Os bancos não ajudam por uma razão muito simples: eles não emprestam dinheiro para receber mato, o que eles querem são os juros, em moeda verde." Por trás de idéias exóticas, como a de manter a preservação da Amazônia sob o controle de entidades internacionais, que fiscalizariam tudo o que se fizesse ali dentro, o que se esconde é uma visão inaceitável - a de que essa parte do Brasil não integra as fronteiras de um país com direitos iguais aos outros e seria uma espécie de património da humanidade. O problema desse raciocínio é que muitas outras coisas podem ser consideradas, também, patrimônios da humanidade - como os campos de petróleo da Arábia Saudita ou mesmo a coleção de quadros do Museu do Louvre, em Paris. Nesse sentido, o professor americano Foster Brown, do WoodsHole Research Center, que fez, recentemente, uma palestra no Centro Camões da Universidade de Columbia, pôs o dedo no centro da questão: "Embora o mundo esteja cada dia mais interligado, há decisões que só os brasileiros podem tomar. Assim como há decisões que só os americanos podem tomar, como, por exemplo, eleger George Bush presidente dos Estados Unidos". O que complica nessa palavra - soberania - é a autêntica devastação que acabou sofrendo no cotidiano político nacional. Nos anos 70, quando as organizações de direitos humanos de todo o mundo, acompanhando o papa Paulo VI, pediam o fim da tortura de presos políticos no Brasil, o governo respondia que havia uma "campanha para difamar o Brasil no exterior" e que, portanto, era preciso defender a soberania nacional. O que se estava defendendo, na realidade, era o DOI-Codi e a tortura. Agora, sob o manto da soberania, pretende-se acobertar culturas predatórias e assassinatos - com a desculpa de que é necessário exorcizar proposições delirantes como a de monitoramento da Amazônia. Na realidade, a soberania não pode estar em questão porque a nação brasileira jamais foi a favor da tortura, da mesma forma que não é a favor da devastação da Amazônia. Não se trata de um compromisso nacional, como por exemplo, o desejo de se acabar com a inflação e retomar o desenvolvimento. Trata-se de má conduta. Na semana passada, na mais recente providência ecológica de seu governo, o presidente José Sarney criou um órgão de nome pomposo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, que engloba uma série de órgaos que cuidavam do assunto com outros nomes. No comando do organismo, Sarney instalou seu amigo Fernando César Mesquita, o mesmo jornalista que já ocupou o cargo de porta-voz do Planalto e criou uma série de trapalhadas no governo, mais tarde assumiu o posto de ouvidor-geral da República, cargo que agora se resume a um escritório desativado em Brasília, e por fim foi nomeado governador do Território de Fernando de Noronha - sob sua gestão, esse arquipélago acabou anexado ao Estado de Pernambuco. Funcionário em tempo integral, Fernando César vai se dedicar à ecologia num regime de dupla militância - durante a metade do expediente, cuidará da implantação das ZPE, essas regiões que o governo planeja criar para exportar mercadoria. Na outra metade, vai trabalhar no sentido oposto - o do bloqueio à importação de ecologistas. "Vou negociar, mas não aceitarei ingerência interna nos negócios brasileiros", diz Fernando César. HIPOCRISIA E PROGRESSO - "A tentativa de interferência dos países do Primeiro Mundo nas questões ambientais brasileiras é uma atitude hipócrita", afirma o ministro João Alves, do Interior, a quem Fernando César Mesquita, por uma questão de hierarquia, estará subordinado. "A Europa e os Estados Unidos já destruíram todas as suas florestas, onde produzem à vontade, e agora não querem o progresso do Brasil." Ele tem razão. Os países desenvolvidos não só arruinaram com seu ambiente, como dizimaram um continente inteiro, a África. O problema é que, freqüentemente, é por esses caminhos, contraditórios, paradoxais, que os povos conseguem andar para a frente. Pode-se dizer, por exemplo, que existem poucas atividades que, vistas em perspectiva histórica, pareçam tão hipócritas, hoje em dia, como as campanhas contra o tráfico de drogas - promovido por países como a mesma Inglaterra, que, no início do século, organizou a Guerra do Ópio, para abrir, com canhões, o comércio dessa droga na China. No entanto, a disposição da Inglaterra de minar o tráfico é essencialmente uma atitude correta. Também se pode dizer que a pressão da Coroa Britânica contra o tráfico de escravos para o Brasil, no século passado, não tinha sua raiz em nenhuma convicção humanitária, mas num plano de grande potência interessada em controlar a economia mundial. No universo das hipocrisias contemporâneas, pode-se constatar que os EUA da militância pela preservação das florestas alheias são os grandes produtores mundial de lixo tóxico, milhões de toneladas de poluentes que ninguém sabe para onde encaminhar - para resolver o problema, seria necessário um investimento de 200 bilhões de dólares. A dificuldade é que nada disso altera a essência dos problemas. Nem a sinceridade da sociedade escravocrata contribuiu para minorar a sorte dos negros brasileiros do século XIX - nem o realismo soberano das autoridades do país contribui para que se viva melhor na Amazônia. Na prática, quem ajuda são entidades estrangeiras - mesmo. Como a Fundação Ford, que já gastou mais de 800.000 dólares em auxílio para a criação de reservas florestais e entidades de seringueiros, como seu Conselho Nacional, de onde saía um minguado auxílio para Chico Mendes pagar suas viagens e sustentar a família - nos períodos em que ficava longe do trabalho na floresta. Também apareceram projetos patrocinados por outras entidades internacionais. "Uma vez, nós levamos uma proposta de conversão da dívida externa para a preservação da Mata Atlântica", diz o deputado Fábio Feldmann, do PSDB paulista. "Mas o presidente Sarney não aceitou." O que move as autoridades estrangeiras em torno da ecologia não é, em todos os casos, uma convicção pessoal mais profunda - nem mesmo um carinho especial por árvores ou jacarés. É um outro fenômeno - a consciência de que o respeito ao meio ambiente é um valor universal, uma espécie de ideologia que ultrapassa o universo dos partidos políticos, e onde se encontram democratas e republicanos, nos EUA, socialistas e liberais, na França - também. Na Alemanha Ocidental, berço do Partido Verde, o primeiro-ministro conservador Helmut Kohl não perde uma oportunidade para levar suas lutas ecológicas em frente - em suas aparições públicas, a denúncia da devastação das florestas tropicais é cada vez mais freqüente. Nem sempre foi assim, porém. Tempos atrás, o governo de seu país resolveu transformar um antigo hotel, nas cercanias de Bonn, numa casa de hóspedes para visitantes estrangeiros. Para aumentar o conforto dos convidados oficiais do governo alemão, os trabalhos de reforma incluíram a instalação de um teto de madeira - montado com tábuas extraídas de árvores tropicais. Foi o que bastou para um ato de rotina na vida de um governo assumir a fisionomia de um escândalo. O ministro Oscar Schneider, de Obras Públicas, responsável pelos trabalhos na casa de hóspedes, foi chamado a prestar depoimento no Parlamento - e prometeu que jamais voltaria a empregar material semelhante em repartições oficiais. "Hoje, o meio ambiente é como uma torta de maçã", afirma a americana Karen Florini, advogada do Environmental Defense Fund, referindo-se à mais tradicional sobremesa dos Estados Unidos. "Todo mundo gosta de defender o meio ambiente. Só se briga pelos custos. Há empresas que resistem a medidas de proteção porque elas aumentam seus custos." Entre aquilo que se entende por ecologia, em países como a Alemanha e os Estados Unidos, e aquilo que ocorre em nações que enfrentam uma situação diferente, como o Brasil, não é apenas um problema de história ou de geografia - mas também de horizonte. Nos Estados Unidos, onde a inflação é baixa e a economia mantém um nível adequado de crescimento, o protecionismo é uma das atividades mais populares que existem - as pesquisas de opinião dizem que 93% da população considera um problema como o da poluição, por exemplo, como uma das questões mais sérias a serem resolvidas pelas autoridades. No Terceiro Mundo, como se sabe, apenas a inflação consegue ser um inimigo tão popular. 'GRANDE DRAMA' - O mapa da ecologia brasileira possui um conjunto de fisionomias muito variadas. Existem dramas florestais, como o Projeto Carajás, onde a estatal Vale do Rio Doce queima madeira para produzir ferro-gusa em ritmo selvagem - o preço pode ser a destruição de 10% da Mata Amazônica. Também ocorrem casos notáveis de progresso, como em Cubatão, a 56 quilômetros de São Paulo - a antiga capital mundial da poluição conseguiu abater seus índices em 70%. A realidade, contudo, é que o maior problema ecológico do país não fica em florestas longínquas, também não envolve espécies raras de plantas ou animais ameaçados de extinção, mas chama-se saneamento básico - benefício a que apenas 34% da população do país tem direito. "Esse é o grande drama, o mais urgente", afirma Paulo Nogueira Neto, secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal. O que distingue uma ecologia da outra é, exatamente, aquela linha que separa um país rico de um país pobre. Nas nações desenvolvidas, o movimento ecológico ganhou força no rastro de trinta anos de prosperidade do pós-guerra, que fizeram nascer sociedades opulentas. Nos países atrasados, onde a prosperidade não chegou, a questão se coloca, obviamente, de outra maneira. Existem cidadãos, nos Estados Unidos, que fazem campanhas contra roupas com peles de animais, e as leis consideram crime a caça de aves como a águia careca, o símbolo americano, por exemplo. No Brasil, boa parte da população ficaria muito satisfeita se pudesse almoçá-las de vez em quando - ainda que sua carne seja intragável. "Quem vive nas florestas tropicais está vivendo mal", afirma o americano Henry Breck, banqueiro de investimentos, membro do conselho do Natural Resources Defense Cotincil, pessoa que faz questão de se definir como conservadora. "Essas pessoas querem aparelhos de televisão, querem dinheiro. São populações que nada têm a ver com o beau sauvage de Rousscau. O que elas precisam é de progresso. O que nós devemos é ajudá-las a alcançá-lo sem afetar o meio ambiente." A nuvem de fumaça amazônica que pousou no Capitólio, na semana passada, deixou essa figura amarga no ar. Existe um fogo que, diariamente, corrói as árvores da Amazônia. Existe uma outra fornalha que devora, todos os meses, bilhões de dólares da economia do país onde fica a Amazônia - são os juros da dívida externa. Para o governo brasileiro, a ecologia representa um novo prego em negociações com os credores internacionais. Para o Brasil, o que fica é a floresta de uma economia destroçada, um mato social de mazelas que todos conhecem e uma Amazônia que, diariamente, fica um pouco menor.
Não perguntes por quem os sinos Há pouco mais de uma década, a preocupação brasileira com a preservação da natureza tinha data, horário, público e endereço certos. Ela transcorria no dia 21 de setembro, antes do recreio, e era presenciada por crianças de escolas primárias. No Dia da Arvore, a garotada se acotovelava em torno de um garoto que, sob o olhar circunspecto da professora, cavava desajeitadamente um buraco e nele depositava a semente de um pinheiro ou similar. Com a cerimônia, prestava-se reverência ao verde, à mãe natureza, à terra que dá fruto e flores - e se esquecia do assunto no recreio mesmo, até que ele retornasse no próximo Dia da Árvore. Essas árvores todas de antanho podem não ter alterado o equilíbrio ecológico do planeta, mas a idéia de preservação do meio ambiente floresceu numa dimensão amazônica. O 21 de setembro virou assunto cotidiano, com todo um léxico de sinistras expressões: efeito estufa, degelo da calota polar, vazamentos de usinas nucleares, lixo atômico, poluição industrial, extinção de espécies animais, camada de ozônio e destruição do planeta. Mudou a concepção da humanidade em relação à Terra: este é um tempo em que americanos e soviéticos se unem no enregelado Ártico para salvar três baleias encalhadas, enquanto por todo o mundo se acompanha o drama dos simpáticos mamíferos durante quinze dias. Adeus Moby Dick, monstro selvagem que arrastou o capitão Acab para o fundo dos mares silenciosos. Bem-vindos capitães de indústria, tubarões das finanças e cinzentos políticos profissionais, que agora se reúnem para condicionar empréstimos mediante o compromisso de se preservar a Floresta Amazônica. No século XVII, o poeta e reverendo anglicano John Donne proclamou do púlpito da Catedral de São Paulo, em Londres, que "nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme", e completou o raciocínio com a expressão que Ernest Hemingway usaria como título de romance: "A morte de qualquer homem diminui a mim porque estou envolvido na humanidade; por isso não mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". PLÂNCTON - Neste fim de século, aumenta cada vez mais a consciência de que nenhuma ilha é uma ilha. A consciência de que todos - culturas e ursos pandas, civilizações e focas, tribos indígenas e superpotências nucleares - estão na mesma ilha planetária, no frágil e exaurível ecossistema terrestre cercado de infinito por todos os lados. O brasileiro precisa que o australiano cuide bem do plâncton do Oceano Pacífico para que o clima na Amazônia não seja alterado. O plâncton - a fauna e a flora que sobrenadam nos mares - é que determina a cadeia biológica dos oceanos e se as águas vão absorver muito ou pouco calor solar. Quanto menos plâncton, mais calor as águas absorvem, e mais frio o clima. Nenhum país é uma ilha, completo em si mesmo. Toda humanidade é parte da natureza, e por isso não perguntes por quem os sinos da ecologia dobram: eles dobram por ti. O sino de Donne badalava no compasso do sentimento religioso, em que todo homem está ligado ao seu próximo porque a humanidade faz parte de Deus. Os da ecologia bimbalham o som da ciência, da política, da economia e da técnica, ainda que comportem muito de misticismo. O marco inicial da ecologia foi a Conferência das Nações Unidas sobre o ambiente, que reuniu representantes de 109 países em junho de 1972, em Estocolmo. Nela se misturaram políticos profissionais, diplomatas, economistas, cientistas e toda uma ruidosa assistência de hippies, gente da contracultura e militantes da nova esquerda. A conferência foi batizada de "Woodstocolmo", numa referência ao festival pop de Woodstock, onde já germinavam as idéias de preservação do ambiente. O ecologismo dos anos 60 fazia parte de uma ideologia mais ampla e mais vaga, mas igualmente poderosa: era parte de um movimento contra o então chamado "sistema", com seu industrialismo predatório, sua contínua produção de dejetos, suas cidades saturadas de seres anônimos. Hippies, contraculturais e novos esquerdistas são hoje os fósseis exibidos no Museu 68, enquanto políticos, economistas e cientistas se adaptaram melhor ao ambiente dos anos 80. Mas como nenhuma ideologia é completa em si mesma, herdando e reelaborando as que lhe antecederam, a ideologia do ecologismo incorporou muito da vaga libertária dos anos 60. Mas a ecologia também não gerou uma utopia. A ecologia, ao contrário, alimenta as imagens do apocalipse. AIDS - Fim de milênio tradicionalmente é época de utopia e apocalipse. O surgímento do salvador no início da Era Cristã e o fim do mundo na Idade Média do ano 1000. Agora, a uma década do ano 2000, as imagens do apocalipse são as da Aids (epidemia descontrolada e letal), da guerra nuclear (mesmo que por acaso: o sargento louco que aperta o botão e joga a bomba sobre Moscou, os russos retaliam e, catapum!, hora de Finados para a ílha-Terra tal como a conhecemos), da superpopulação (em 1800 a humanidade consistia em 1 bilhão de pessoas, e em menos de quarenta anos seremos 10 bilhões de terráqueos), da quebra do sistema financeiro internacional (a dívida dos países do Terceiro Mundo é elemento dessa crise) e, claro, do caos ecológico. Todos esses problemas são reais, palpáveis, mas as imagens angustiosas que neles se alimentam têm como base um deslocamento de linguagem. No livro de Susan Sontag A Aids e Suas Metáforas, lançado há duas semanas nos Estados Unidos, a ensaísta americana sustenta que toda projeção futurista tende necessariamente à catástrofe, ao caos, à entropia. Essas projeções criam uma dupla realidade, a dos desastres ocorridos e até agora contornados e a da sua extrapolação em apocalipse írreparável. É o caso do efeito estufa, que existe como projeção, e não como realidade. Nessa projeção se defende que se a Amazônia for queimada a quantidade de gás carbênico liberada seria de tal ordem que a atmosfera não teria como lidar com ela. Assim, os raios do sol atravessariam essa nuvem carbônica, se refletiriam no solo, mas, na forma de raios infravermelhos, não conseguiriam furar de volta o CO2 e permaneceriam então aprisionados na superfície do planeta, aumentando o calor na Terra inteira. Esse calor derreteria parte das calotas polares, os oceanos subiriam de nível e, em meados do próximo século, boa parte da Holanda, a região de Miami, na Flórída, e o Rio de Janeiro seriam inundados. Holandeses, americanos e brasileiros teriam razão para se preocupar hoje com as queimadas na Amazônia. Só que há cientistas, como Fred Singer, do Departamento de Transporte dos EUA, que defendem que o gás carbônico incrementaria as nuvens que refletem o calor, contrabalançando o dano do efeito estufa. Os cientistas debatem a questão, mas, antes que da discussão se faça a luz, a confusão domina. Só o tempo permite uma perspectiva esclarecedora: há dez anos, uma descarga acidental de gás sulfuroso no Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, sufocou e matou mais de 20.000 árvores dos arredores. Mas hoje a média salarial dos 24.000 empregados de Camaçari é de 1.000 dólares por mês - a maior da América Latina. VERDISMO XIITA - No caso do efeito estufa, impõe-se a idéia de que, por via das dúvidas, é melhor não queimar a Amazônia, em benefício da futura geração de cariocas, holandeses e moradores de Miami. Sem esquecer que há na Amazônia colonos que, se não queimarem a mata, morrerão de fome hoje ou amanhã. O indivíduo que quiser se pautar pelo ecologismo extremado, pelo verdismo xiita ou pela soma ensandecida de todas as projeções científico-computadorizadas acabará paralisado. Terá de comer só tomates sem casca, ja que um estudo que o Conselho de Defesa de Recursos Naturais, dos Estados Unidos, divulgou na semana passada concluiu que os pesticidas na casca dos tomates podem provocar câncer em 875 pessoas de cada grupo de 1 milhão. Também não poderá usar fraldas descartáveis nos filhos, pois o plástico que há nelas leva 400 anos para se degradar. Soa estranho que o homem, que está na Terra há mais de 2 milhões de anos, tenha saído das cavernas, descoberto o fogo, inventado a roda, a escrita, construído civilizações, pintado o teto da Capela Sistina e viajado à Lua para, nessa altura dos acontecimentos, dedicar-se a descascar tomates e a lavar fraldas. Nossos ancestrais desceram da árvore em busca de uma vida melhor, de felicidade. A ecologia, a preocupação com a preservação da natureza, signífica o apego humano não só ao seu ambiente mas a si mesmo. A Terra existe há mais de 2 bilhões de anos e - eis outra previsão científica - deverá durar uns outros 4 bilhões, quando o Sol acabar de consumir o seu hidrogênío, se expandir e torrar este planeta próximo. Ela começou a existir sem o homem. Poderá também terminar sem ele, se a humanidade colonizar outros planetas antes do prazo de 4 bilhões de anos. Mas poderá também terminar junto com o homem, se ele não se entender e arrasar a si mesmo e ao planeta. A ecologia é apenas um lembrete desse fato singelo. |
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