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25 de maio de 1995
ARTIGO
Uma ação
que além de vã é frívola
Ficar promovendo reformas na ortografia
é o supra-sumo de não ter nada que fazer
Roberto Pompeu de Toledo
Já não basta ficarem mexendo
toda hora no valor e no nome do dinheiro? Nos juros, no crédito,
nas alíquotas de importação, no câmbio,
na Ufir e nas regras do imposto de renda? Já não basta
mudarem as formas da Lua, as marés, a direção
dos ventos e o mapa da Europa? E as regras das campanhas eleitorais,
o ministério, o comprimento das saias, a largura das gravatas?
Não basta os deputados mudarem de partido, homens virarem
mulher, mulheres virarem homem e os economistas virarem lobisomem,
quando saem do Banco Central e ingressam na banca privada?
Já não basta os prefeitos,
como imperadores romanos, tentarem mudar o nome de avenidas cruciais,
como a Vieira Souto, no Rio de Janeiro, ou se lançarem à
aventura maluca de destruir largos pedaços da cidade para
rasgar avenidas, como em São Paulo? Já não
basta mudarem toda hora as teorias sobre o que engorda e o que emagrece?
Não basta mudarem a capital federal, o número de Estados,
o número de municípios, e até o nome do país,
que já foi Estados Unidos do Brasil e depois virou República
Federativa do Brasil?
Não, não basta. Lá
vêm eles de novo, querendo mudar as regras de escrever o idioma.
"Minha pátria é a língua portuguesa",
escreveu Fernando Pessoa pela pena de um de seus heterônimos,
Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego. Desassossegados
estamos. Querem mexer na pátria. Quando mexem no idioma,
põem a mão num espaço íntimo e sagrado
como a terra de onde se vem, o clima a que se acostumou, o pão
que se come.
Aprovou-se recentemente no Senado mais
uma reforma ortográfica da língua portuguesa. É
a terceira nos últimos 52 anos, depois das de 1943 e 1971
- muita reforma, para pouco tempo. Uma pessoa hoje com 60 anos aprendeu
a escrever "idéa", depois, em 1943, mudou para
"idéia", ficou feliz em 1971 porque "idéia"
passou incólume, mas agora vai escrever "ideia",
sem acento.
Reformas ortográficas são
quase sempre um exercício vão, por dois motivos. Primeiro,
porque tentam banhar de lógica o que, por natureza, possui
extensas zonas infensas à lógica, como é o
caso de um idioma. Escreve-se "Egito", e não "Egipto",
mas "egípcio", e não "egicio",
e daí? Escreve-se "muito", mas em geral se fala
"muinto". Segundo, porque, quando as reformas se regem
pela obsessão de fazer coincidir a fala com a escrita, como
é o caso das reformas da língua portuguesa, estão
correndo atrás do inalcançável. A pronúncia
muda no tempo e no espaço. A flor que já foi "azálea"
está virando "azaléa" e não se pode
dizer que esteja errado o que todo o povo vem consagrando. Poder
se pronuncia "poder" no Sul do Brasil e "puder"
na Pefelândia, onde fica o Brasil do Nordeste. Querer que
a grafia coincida sempre com a pronúncia é como correr
atrás do arco-íris, e a comparação não
é fortuita, pois uma língua é uma coisa bela,
mutável e misteriosa como um arco-íris.
Acresce que a atual reforma, além
de vã, é frívola. Sua justificativa é
unificar as grafias do português do Brasil e de Portugal.
Ora, no meio do caminho percebeu-se que seria uma violência
fazer um português escrever fato quando fala facto, ou recepção
quando fala receção, da mesma forma como seria cruel
fazer um brasileiro escrever facto ou receção (que
ele só conhece, e bem, com dois S, no sentido de inferno
astral da economia). Deixou-se então que cada um continuasse
a escrever como está acostumado, no que se fez bem, mas,
se a reforma era para unificar e não unifica, para que então
fazê-la? Unifica um pouco, responderão os defensores
da reforma. Mas, se é só um pouco, o que adianta?
Aliás, para que unificar? O último argumento dos propugnadores
da reforma é que afinal ela é pequena - mexe com 600,
entre as cerca de 110.000 palavras da língua portuguesa,
ou apenas 0,54% do total. Se é tão pequena, volta
a pergunta: para que fazê-la?
Haveria outros argumentos contra a reforma,
mas nenhum tão importante quanto o esboçado acima,
de que língua é como pátria, e em pátria
não se mexe, ou pelo menos não se mexe toda hora.
Fala-se que a reforma simplifica o idioma e assim torna mais fácil
seu ensino. Engano. A língua é um bem que percorre
as gerações, passando de uma à outra, e será
tão mais bem transmitida quanto mais estável for,
ou, pelo menos, quanto menos interferências arbitrárias
sofrer. Não se mexa assim na língua. O preço
disso é banalizá-la como já fizeram com a moeda,
no Brasil.
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