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As turbulências sociais e políticas de nossos vizinhos sul-americanos e a inserção do Brasil no contexto continental sempre estiveram no centro das atenções de VEJA, que dedicou sua primeira capa ao tema em junho de 1969, antes de completar um ano de existência. De lá para cá, centenas de reportagens só comprovaram o que dizia aquela primeira capa: "América Latina, um continente agitado". Tendo nascido sob o regime militar brasileiro, a revista esteve atenta à presença de governos fardados em outros países sul-americanos. Durante a década de 1970, acompanhou com atenção os militares de Argentina, Chile, Peru, Paraguai e Bolívia, todos destacados em reportagens de capa. Antes, porém, ainda em 1970, um fenômeno em particular mereceu atenção especial (e tem merecido desde então): as transformações atravessadas pelo pensamento político de esquerda no continente. Naquele ano, a senha foi dada pela ascensão do marxista Salvador Allende à Presidência do Chile. O fato foi reportado por VEJA como símbolo de um momento em que a América Latina passava a testar "outros tempos, tempos incertos de esquerda", representados também, mas em menor grau, pelos generais peruanos e bolivianos de então. Nos anos seguintes, a maior parte dos países do continente mergulharia de vez nas ditaduras - ditaduras não de esquerda, mas, sim, uma reação ao risco comunista. O Chile, maior exemplo disso, viu o regime socialista do país deixar o Palácio La Moneda juntamente com o corpo de Salvador Allende, em 1973, mortalmente ferido por um golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet. Sorte semelhante abateu-se sobre a Argentina peronista, que em 1976 sucumbiu sob as armas do tenente-general Jorge Rafael Videla, o primeiro dos quatro ditadores que comandaram o país com mão-de-ferro até 1983. O início da década de 1980 marcou o ocaso desses regimes no continente - em 1980 no Peru, em 1982 na Bolívia e em 1985 no Brasil. O Chile levaria mais alguns anos para dizer não a Pinochet. À virada democrática da América do Sul nos anos 1980 seguiu-se uma fase de desastradas experiências econômicas em todos os seus países. O longo período de instabilidades deu impulso a uma nova onda esquerdista sul-americana, cujo auge aconteceu na primeira década do século XXI. Presidentes de esquerda chegaram ao poder no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Equador, na Bolívia e na Venezuela. Nestes três últimos, contudo, a guinada à esquerda veio acompanhada de uma viagem ao passado, marcada pelo populismo que varreu o continente nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Justamente da Venezuela, país que não foi tragado pela onda de regimes militares dos anos 1960 e 1970, emergiu Hugo Chávez, o cacique dos novos populistas latino-americanos. Sustentado pelos dólares do petróleo, o caudilho colocou o seu país - e o dos vizinhos fantoches Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador - no rumo oposto ao da consolidação democrática e da modernização e recuperação econômica da maioria do continente. Numa região que tenta deixar de ser mera exportadora de matéria-prima, Chávez semeia insurreição e instabilidade. Isso em países que, embora nominalmente democráticos, ainda lutam para solidificar suas instituições políticas e jurídicas e suas bases econômicas. A divisão na América Latina, porém, nada tem a ver com o velho confronto entre esquerda e direita. O que existe é uma linha entre governos responsáveis e populistas. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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