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No Brasil, 2005 entrou para a história como o ano em que o vocabulário da roubalheira nacional ganhou a palavra "mensalão". Um dos períodos em que o Brasil assistiu à mais alucinante sucessão de escândalos de desvio do dinheiro público teve início com um vídeo em que Maurício Marinho, chefe de departamento nos Correios, é flagrado embolsando uma propina de 3.000 reais. Divulgado por VEJA em maio daquele ano, o vídeo levou o então deputado Roberto Jefferson a denunciar as entranhas do petismo e acabou por desencadear a maior crise política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Jefferson, ele mesmo um dos beneficiários do esquema, revelou que, em troca de apoio político, o governo petista pagava uma mesada a deputados da base aliada - o mensalão. Orquestrados por Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, os pagamentos eram feitos pelo empresário Marcos Valério, com dinheiro desviado de empresas estatais. Em junho, nove fontes confirmariam a VEJA a existência das propinas, negadas veementemente por todos os envolvidos até então.

Um a um, os desmentidos foram sendo derrubados por documentos revelados pela revista em suas edições seguintes - como a agenda da secretária de Valério, que atestava sua proximidade com a cúpula petista, ou a confirmação de que o empresário foi avalista de um empréstimo milionário do banco BMG ao PT. A posterior divulgação do intenso movimento de suas contas bancárias, que registravam vultuosos saques em dinheiro feitos por ele e por uma série de petistas, comprovariam a participação de Valério no esquema.

À medida que novas falcatruas foram sendo descobertas - 100.000 dólares na cueca de um assessor do irmão de José Genoíno, ligações suspeitas de José Dirceu com a Portugal Telecom e caixa dois de campanha eleitoral para pagar o publicitário Duda Mendonça, só para citar algumas - a permanência de Lula no governo passou a ficar ameaçada. Em julho, com base em 29 depoimentos, VEJA mostrou que o presidente sabia da existência do mensalão, ao contrário do que parte de seu governo afirmava. Quando, em agosto, Lula fez um pronunciamento na TV em que se disse traído, o escândalo já havia tragado quase todos os auxiliares mais próximos do presidente. Logo após, até o então ministro da Fazenda Antônio Palocci seria acusado de receber propina quando era prefeito de Ribeirão Preto.

Seis meses depois, o Ministério Público entregou ao Supremo Tribunal Federal a denúncia contra a quadrilha do mensalão. Quarenta nomes foram apontados. O documento acusava a cúpula do PT de formar uma "sofisticada organização criminosa", que se especializou em "desviar dinheiro público e comprar apoio político", com o objetivo de "garantir a continuidade do projeto de poder" do partido. O ex-ministro José Dirceu é descrito como o "chefe do organograma delituoso". José Genoíno, ex-presidente do PT, aparece como o "interlocutor visível da organização criminosa". Delúbio Soares é o "elo com as ramificações operacionais da quadrilha". Silvio Pereira, o ex-secretário Silvinho Land Rover, tinha a "função primordial" de distribuir cargos no governo - de onde saíam oceanos de dinheiro público para o PT e outros partidos.

No fim de agosto de 2007, os ministros do Supremo Tribunal Federal acolheram a denúncia contra a máfia, abrindo processo contra seus integrantes. No julgamento histórico em que o STF pôs os mensaleiros (e o governo e o PT) no banco dos réus, Joaquim Barbosa foi a estrela. Em 2008, VEJA voltou a publicar informações exclusivas sobre os esquemas corruptos. O relatório final da Polícia Federal sobre o escândalo dos Correios dizia que o fisiologismo político e o desvio de dinheiro infestavam os órgãos públicos e as empresas estatais.


 
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