Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo Modas para fazer
frente ao ladrão
Saias, bolsas e outros itens que
driblam os
assaltantes: idéias do Japão que poderíamos
adotar
Uma recente reportagem do jornal
New York Times mostrou como os designers de moda do
Japão vêm contribuindo para aplacar entre os
cidadãos e, principalmente, as cidadãs do país
o medo do ladrão que crescentemente os domina. Um dos
inventos é uma saia vermelha que, lisa por fora, sem
nada que a distinga de uma banal saia comprida, se transforma
numa falsa máquina de vender Coca-Cola. A saia é
composta de várias camadas. Uma vez desdobrada pela
portadora, e levada até a cabeça, revelará,
do lado do avesso, o logotipo da Coca-Cola e demais imagens
que identificam uma máquina de vender refrigerantes.
O modo de acionar o engenho não requer prática
nem habilidade. Cada vez que, numa rua, vir despontar um tipo
suspeito, a usuária se recolherá a um canto,
como Clark Kent quando quer virar Super-Homem, e se cobrirá
com sua mágica saia. Lá permanecerá,
imóvel, encostada à parede. O ladrão,
a menos que esteja tomado do desejo de, bem naquele momento,
beber uma Coca-Cola o que, convenhamos, é uma
hipótese remota , passará sem desconfiar
da presença de uma possível presa.
Não é brincadeira.
Nem se trata, a saia criada pela estilista Aya Tsukioka, de
29 anos (o nome e a idade vão para amansar os incréus),
do único produto do gênero. Há também
a bolsa que se transforma numa dessas tampas de ferro que,
nas ruas, dão acesso aos encanamentos e à fiação
subterrânea das cidades. A bolsa, redonda, chata e cinzenta,
é uma exata imitação desse tipo de tampa.
Vai sua portadora pela rua quando vê despontar o suspeito.
Numa manobra rápida e discreta, ela joga a bolsa no
chão. Claro que não poderá andar com
a bolsa estufada de objetos, sob pena de a suposta tampa exibir
uma suspeita protuberância. Ao contrário da maioria
das mulheres, terá de ser contida, e não levar
senão uma magra carteira e outros poucos e delgados
itens.
Outro artefato ainda, este para
uso das crianças, é uma mochila escolar que,
virada pelo avesso, ganha a aparência de extintor de
incêndio. O surto de criações destinadas
a espantar o ladrão mostra que os japoneses andam preocupados
e isso num país que, segundo nota a reportagem
do New York Times, apresenta índices de criminalidade
sete vezes mais baixos do que os dos Estados Unidos. Se é
assim com relação aos EUA, quanto será
com relação ao Brasil? Nem é bom saber.
O Brasil, sim, necessitaria de engenhos semelhantes. Que forma
poderiam assumir por aqui?
Está afastada a hipótese
de simplesmente importarmos os modelos japoneses. São
raras, no Brasil, as máquinas de vender refrigerantes,
e mais raro ainda é encontrá-las nas ruas. Isso
não ocorre por acaso. Ao relento, elas só sobreviveriam
umas poucas horas aos ladrões que lhes levariam as
moedas e aos vândalos que as depenariam até o
último fiapo da carcaça. Usar um tal disfarce,
em nosso país, traria risco maior do que apresentar-se
de peito aberto ao ladrão. As tampas de rua, por sua
vez, nas cidades brasileiras costumam ser alvo dos ladrões,
para venda no ferro-velho. O ladrão, por aqui, se sentiria
atraído pela tampa. Ao descobrir que se tratava de
uma simples bolsa, ele se sentiria logrado e, localizando
o autor do embuste, o atacaria com redobrada fúria.
É preciso buscar soluções
ajustadas à realidade brasileira. Se aqui faltam máquinas
de vender refrigerantes, não faltam postos de gasolina.
A saia poderia disfarçar a portadora numa bomba da
Shell. Outra coisa que não falta no Brasil são
farmácias. Para grupos de mulheres, a sugestão
é que usem saias, cada uma imitando uma parte da fachada
de um desses estabelecimentos. À aproximação
do ladrão, elas se juntariam umas às outras
e, como peças que se complementam, se fingiriam de
farmácia. A menos que o ladrão, atormentado
pela dor de cabeça, esteja justamente em busca de um
analgésico ou, pior, venha com o plano de assaltar
o caixa da farmácia ambas hipóteses que,
convenhamos, só se confirmariam em caso de muito azar
, estariam a salvo. Quanto à bolsa, se fabricada
com esmero, para dar ilusão de profundidade, imitaria,
em vez de tampa, um buraco. Jogada ao chão, ela se
integraria sem susto à paisagem de nossas ruas.
Muitas outras sugestões
podem ser apresentadas. Uma é a máscara de Luciano
Huck. O fato de todo ladrão, no Brasil, saber que ele
já perdeu seu Rolex é garantia de que o usuário
não seria importunado. Outra é um disfarce do
deputado ou senador à frente do escândalo do
momento. Seja de humilhação, diante do concorrente
imbatível, seja para proteger seus próprios
valores, ao ladrão só restaria fugir. Outra
ainda é uma capa que, desdobrada, faria do portador
uma exata reprodução do ministro Nelson Jobim
em farda de camuflagem. O produto estaria disponível
em três versões, correspondentes ao grau de ameaça
que se deseje impingir ao ladrão: o ministro só
de farda, de farda e segurando um macaco e de farda e segurando
uma sucuri. Idéias não faltam, nem faltarão
outras, melhores. Os estilistas do Brasil estão convocados
a, tal como os colegas japoneses, dar sua contribuição
para o sossego nas ruas.