Fundada em 1119,
em Jerusalém, para proteger os cruzados que combatiam
os infiéis na Terra Santa, a ordem religioso-militar
dos templários virou matéria-prima de inesgotáveis
lendas e especulações do romance O
Pêndulo de Foucault, em que o escritor Umberto Eco
a associa a mistérios mirabolantes, a O Código
Da Vinci, em que os remanescentes desses cavaleiros aparecem
como os guardiães do segredo sobre a descendência
de Cristo. Na semana passada, com o aval do Vaticano, um documento
de 700 anos ganhou edição limitada e, segundo
historiadores, deve lançar uma luz mais clara sobre
a dissolução da ordem, no início do século
XIV, em meio a suspeitas de heresia e imoralidade. O volume
Processus contra Templarios mais conhecido como
"Pergaminho de Chinon" , encontrado em 2001 nos arquivos
secretos do Vaticano, detalha todo o julgamento movido pelo
papa Clemente V contra a ordem. A surpresa: de acordo com
esse registro, o pontífice absolveu a ordem da acusação
de heresia. Achou-a culpada apenas de "imoralidade", e pretendia
reformá-la. Ainda assim, ela foi proscrita e seus líderes
arderam na fogueira.
Um dos mitos sobre
os templários é que eles ainda existem, na forma
de sociedades secretas. A visão que o pergaminho proporciona
sobre seu desmantelamento, porém, é essencialmente
política. Desde sua formação, os cavaleiros
que usavam aparatos militares e uma túnica branca
estampada com uma grande cruz vermelha haviam se revelado
peritos em concentrar influência e fortuna. Além
de atuarem como um poder à parte, em condição
de competir com a Igreja e os estados medievais, criaram um
sistema bancário e passaram a financiar guerras por
toda a Europa. É previsível, portanto, que logo
se tenham tornado alvo de hostilidades, e que mais cedo ou
mais tarde seus inimigos tenham tratado de orquestrar sua
aniquilação. Essa situação atingiu
seu auge no início do século XIV, quando o rei
da França aprisionou o grão-mestre Jacques de
Molay e outros líderes dos cavaleiros no castelo de
Chinon, no Vale do Loire. O tribunal julgou-os por um rosário
de acusações, que iam de cuspir na cruz a impropriedades
sexuais. Até onde se sabia, as acusações
haviam sido aceitas. O pergaminho encontrado pela pesquisadora
Barbara Frale mostra um cenário diferente: Clemente
V rechaçou as denúncias mais graves mas
não teve força para manter a existência
da ordem. Esse era o momento em que o poder papal estava se
deslocando para a França, no ciclo que viria a ser
conhecido como o dos "papas de Avignon", e prevaleceu a pressão
do rei francês e seus aliados. De Molay e seus companheiros
foram queimados como hereges, saindo da história e
passando à lenda.
Para os curiosos
sobre os mistérios dos templários, uma má
notícia: o documento que afinal os exonera não
se destina ao público em geral. Foram feitas apenas
800 cópias dele, em pergaminho sintético, com
uma réplica do selo papal e anotações
dos especialistas. Uma será entregue ao papa Bento
XVI. As outras 799 estão já quase todas prometidas
para bibliotecas e centros de pesquisa, ao preço de
8.375 dólares por unidade.