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31 de outubro de 2007
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História
Perdão aos templários

Um velho pergaminho revela que o fim dos míticos
cavaleiros foi fruto não da heresia, mas da conspiração


Sérgio Martins

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Fundada em 1119, em Jerusalém, para proteger os cruzados que combatiam os infiéis na Terra Santa, a ordem religioso-militar dos templários virou matéria-prima de inesgotáveis lendas e especulações – do romance O Pêndulo de Foucault, em que o escritor Umberto Eco a associa a mistérios mirabolantes, a O Código Da Vinci, em que os remanescentes desses cavaleiros aparecem como os guardiães do segredo sobre a descendência de Cristo. Na semana passada, com o aval do Vaticano, um documento de 700 anos ganhou edição limitada e, segundo historiadores, deve lançar uma luz mais clara sobre a dissolução da ordem, no início do século XIV, em meio a suspeitas de heresia e imoralidade. O volume Processus contra Templarios – mais conhecido como "Pergaminho de Chinon" –, encontrado em 2001 nos arquivos secretos do Vaticano, detalha todo o julgamento movido pelo papa Clemente V contra a ordem. A surpresa: de acordo com esse registro, o pontífice absolveu a ordem da acusação de heresia. Achou-a culpada apenas de "imoralidade", e pretendia reformá-la. Ainda assim, ela foi proscrita e seus líderes arderam na fogueira.

Um dos mitos sobre os templários é que eles ainda existem, na forma de sociedades secretas. A visão que o pergaminho proporciona sobre seu desmantelamento, porém, é essencialmente política. Desde sua formação, os cavaleiros – que usavam aparatos militares e uma túnica branca estampada com uma grande cruz vermelha – haviam se revelado peritos em concentrar influência e fortuna. Além de atuarem como um poder à parte, em condição de competir com a Igreja e os estados medievais, criaram um sistema bancário e passaram a financiar guerras por toda a Europa. É previsível, portanto, que logo se tenham tornado alvo de hostilidades, e que mais cedo ou mais tarde seus inimigos tenham tratado de orquestrar sua aniquilação. Essa situação atingiu seu auge no início do século XIV, quando o rei da França aprisionou o grão-mestre Jacques de Molay e outros líderes dos cavaleiros no castelo de Chinon, no Vale do Loire. O tribunal julgou-os por um rosário de acusações, que iam de cuspir na cruz a impropriedades sexuais. Até onde se sabia, as acusações haviam sido aceitas. O pergaminho encontrado pela pesquisadora Barbara Frale mostra um cenário diferente: Clemente V rechaçou as denúncias mais graves – mas não teve força para manter a existência da ordem. Esse era o momento em que o poder papal estava se deslocando para a França, no ciclo que viria a ser conhecido como o dos "papas de Avignon", e prevaleceu a pressão do rei francês e seus aliados. De Molay e seus companheiros foram queimados como hereges, saindo da história e passando à lenda.

Para os curiosos sobre os mistérios dos templários, uma má notícia: o documento que afinal os exonera não se destina ao público em geral. Foram feitas apenas 800 cópias dele, em pergaminho sintético, com uma réplica do selo papal e anotações dos especialistas. Uma será entregue ao papa Bento XVI. As outras 799 estão já quase todas prometidas para bibliotecas e centros de pesquisa, ao preço de 8.375 dólares por unidade.


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