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Edição 2032

31 de outubro de 2007
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Louise Brown

Eduardo Martino
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VEJA de 2/8/1978: Da proveta ao mundo
Exclusivo on-line
Entrevista: Roger Abdelmassih


Para comemorar os trinta anos da primeira fertilização in vitro bem-sucedida, em novembro de 1977, que resultou na comentadíssima Louise Brown, o médico Roger Abdelmassih, o papa da reprodução assistida no Brasil, convidou a própria Louise a visitar São Paulo. Normalmente avessa à fama que a cerca desde o nascimento, a jovem inglesa, hoje casada, um filho concebido longe da proveta, como tem de repetir interminavelmente, virá com a família. Antes de embarcar, falou com a repórter Sandra Brasil de sua casa em Bristol, na Inglaterra.

SUA MÃE ACEITOU SER VOLUNTÁRIA DE UMA TÉCNICA EXPERIMENTAL PARA PODER ENGRAVIDAR. VOCÊ TERIA CORAGEM DE FAZER ALGO PARECIDO?
Se fosse necessário, faria, sim. Mas nem cheguei a discutir essa possibilidade com meu marido. Cameron foi concebido naturalmente. Acho admirável o que minha mãe fez. Quando começou o tratamento, ela nem sabia direito como funcionava, mas a vontade de ser mãe era tão grande que estava disposta a tentar qualquer coisa. Nós nos damos muito bem. Meu pai morreu no ano passado, dias antes de meu filho nascer. Ela mora bem perto de mim e cuida de Cameron quando estou trabalhando.  

VOCÊ SE LEMBRA DO DIA EM QUE SOUBE DAS CIRCUNSTÂNCIAS DA SUA CONCEPÇÃO? QUEM CONTOU?
Meus pais me contaram antes de eu começar a ir à escola, quando tinha pouco mais de 4 anos, mas não entendi nada naquela época. Obviamente, percebia que tinha alguma coisa diferente, por causa do interesse da imprensa pela minha vida. Só passei realmente a entender o processo aos 7 anos. Lembro que me senti um pouco estranha. Mas, fora isso, sempre fui igual a todo mundo e vivi a vida o mais normalmente possível. Até hoje, não falo muito a respeito.

VOCÊ E SUA IRMÃ NATALIE, TAMBÉM GERADA EM LABORATÓRIO, NUNCA FORAM TRATADAS DE MANEIRA DIFERENTE QUANDO ERAM PEQUENAS?
Fui a primeira e Natalie, a quadragésima criança gerada por fertilização in vitro no mundo. Freqüentamos a mesma escola e nunca recebemos tratamento especial. Nem as outras crianças falavam no assunto.  

TER SIDO O PRIMEIRO BEBÊ DE PROVETA CONTINUA A AFETAR A SUA VIDA?
Quase não dou entrevistas e, por causa disso, não sou muito procurada, a não ser quando algo específico acontece, como o nascimento do meu filho, em dezembro, ou meu casamento, em 2004.

QUANDO VOCÊ NASCEU, SEUS PAIS VENDERAM A EXCLUSIVIDADE DA SUA HISTÓRIA E IMAGEM PARA UM JORNAL POR CERCA DE
300 000 LIBRAS. DE QUE FORMA O DINHEIRO FOI USADO?

Não faço a menor idéia. Acho que eles usaram o dinheiro para comprar a casa em que minha mãe mora até hoje.  

VOCÊ MANTEVE ALGUM TIPO DE CONTATO COM OS MÉDICOS PIONEIROS QUE POSSIBILITARAM A SUA CONCEPÇÃO?
Eles eram como dois avós para mim. Quando eu nasci, Patrick Steptoe já tinha 65 anos. Eles me visitavam e mandavam presentes de aniversário. Na minha infância, costumava ir à casa de Patrick, que morreu quando eu tinha 10 anos. Robert Edwards ainda é vivo, foi ao meu casamento e mantemos contato até hoje.  

MULHERES CADA VEZ MAIS VELHAS ESTÃO TENDO FILHOS POR MEIO DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA. VOCÊ ACHA QUE DEVE HAVER LIMITES?
Sim, porque acho que não é justo para o filho ter uma mãe tão mais velha que, quando ele tiver 20 anos, não saberá acompanhá-lo e talvez nem esteja viva. Considero 45 anos a idade máxima para uma mulher engravidar pelo método de reprodução assistida.  

CALCULA-SE QUE, DEPOIS DE VOCÊ, NASCERAM 5 MILHÕES DE CRIANÇAS POR MEIO DA FERTILIZAÇÃO IN VITRO. COMO SE SENTE SABENDO QUE TUDO COMEÇOU COM SUA MÃE E VOCÊ?
É meio assustador. Até evito pensar muito no assunto. No entanto, por ter sido a pioneira, acho bom conhecer crianças que têm origem semelhante à minha. Quando acontece isso, penso na quantidade de pessoas que se beneficiaram com a técnica.  

HONESTAMENTE: SE PUDESSE, VOCÊ BANIRIA PARA SEMPRE A EXPRESSÃO "PRIMEIRO BEBÊ DE PROVETA DO MUNDO"?
Não me incomoda. Estou acostumada. Sou feliz com a minha vida e a minha história.




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